COMO ERA O “LOOK” DE ÖTZI. (Comentado)

Trajes do homem-do-gelo incluem chapéu de pele de urso, calças feita de retalhos de cabra e couro de ovelha.

Moda Antiga - a evidência genética indica que ötzi o iceman (a reconstrução de um artista, esquerda) usou um chapéu de pele de urso-marrom (centro superior) e um revestimento feito das peles da cabra e da ovelha (centro da parte inferior). As calças do homem da idade do cobre (direita) igualmente consistiram da pele da cabra, dizem os investigadores. Ochsenreiter/Museu de Arqueologia do sul do Tirol, Instituto Mummies and The Iceman

Moda Antiga – a evidência genética indica que ötzi o iceman (a reconstrução de um artista, esquerda) usou um chapéu de pele de urso-marrom (centro superior) e um revestimento feito das peles da cabra e da ovelha (centro da parte inferior). As calças do homem da idade do cobre (direita) igualmente consistiram da pele da cabra, dizem os investigadores. Ochsenreiter/Museu de Arqueologia do sul do Tirol, Instituto Mummies and The Iceman

Ötzi tinha estilo da Idade do Cobre. O homem-do-gelo tirolês de 5.300 anos, cujo corpo foi encontrado no pica de uma geleira nos Alpes italianos em 1991, tinha couro incorporado a partir de pelo menos cinco espécies de animais domésticos e selvagens em seu traje, segundo indica um novo estudo genético. Comparando o DNA mitocondrial extraído de nove fragmentos de couro antigos com DNA de animais vivos, revelou a composição de roupas de Ötzi e um acessório-chave, diz uma equipe liderada pela paleogeneticista Niall O’Sullivan. O DNA mitocondrial normalmente é passada de mães para seus filhos.

Pouco se sabe sobre o que as pessoas usavam na época de Ötzi. Os resultados fornecem um vislumbre de como as populações europeias antigas exploravam animais domesticados para fazer roupas e outros itens.

O casaco de Ötzi consistia em peles com pêlo de pelo menos três cabras e uma ovelha, segundo relataram os cientistas na Scientific Reports. Esta peça pode ter sido periodicamente remendada com couro de tudo quanto eram os animais disponíveis, sugere a equipe.

Cabras também forneceram pele para as pernas do homem-do-gelo, segundo indica a nova análise.

A tanga de pele de carneiro e um cadarço derivado de um gado europeu completam traje de Ötzi feito a partir de animais domesticados.

Quanto aos animais selvagens, Ötzi usava um chapéu feito de pele de urso-pardo e carregava um estojo feito a partir dos chifres de veados. É impossível saber se o homem antigo dava qualquer significado especial aos ursos-marrons, “mas ele pode ter sido um caçador oportunista ou um carniceiro”, diz O’Sullivan, da Universidade College Dublin e EURAC em Bolzano, Itália.

Em 2012 uma análise de amostras de proteínas e pele retiradas de roupas identificou as ovelhas de Ötzi e um animal semelhante a um cabrito chamado uma Chamois como fonte para o revestimento do Ice-man. Uma equipe liderada pelo bioquímico Klaus Hollemeyer da Universidade de Saarland em Saarbrücken, na Alemanha, também atrelou a cabras, cães ou lobos como a fonte das peles por que Ötzi usava sobre as pernas.

As disparidades entre Hollemeyer de e estudos de O’Sullivan podem decorrer de dois grupos com diferentes partes amostradas de retalhos de vestuários. Além disso, o novo relatório usou técnicas avançadas para extrair e analisar DNA antigo. Isso permitiu que a equipe de O’Sullivan recuperasse 6 genomas mitocondriais completos pertences ao couro de Ötzi.

A investigação de O’Sullivan “abre um novo campo de potenciais procedimentos de identificação para espécies de mamíferos sob o uso de couros e peles antigas”, diz Hollemeyer.

Uma calça feita de peles datada de cerca de 4.200 anos de idade foi encontrado nos Alpes Suíços, em 2004, também apresenta uma amostra de cabra. O DNA mitocondrial extraído daquela peça veio de uma antiga linha de cabras europeias que foi amplamente substituída por uma população de cabra geneticamente distinta, uma equipe liderada pela arqueóloga Angela Schlumbaum da Universidade de Basel, na Suíça relatou a descoberta em 2010.

Junto ás calças de pele foram encontrados pedaços de arcos e flechas, roupas de lã e muitos outros artefatos, onde um trecho de gelo em uma passagem nas montanhas tinha sido parcialmente derretido. Nenhum corpo humano foi encontrado ali.

“Possivelmente, o couro de cabra era mais confortável” como material para produzir calças, diz o arqueólogo Albert Hafner da Universidade de Berna, co-autor do estudo da calça suíça. “Calças de couro modernas costumam ser feitas de cabra também”.

Fonte: Science News

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Comentários internos

O ano de 2016 trouxe algumas novidades a respeito de Ötzi. Sabe-se, por exemplo, que o cobre usado para fazer lâmina do machado de Ötzi não veio da região alpina onde ele foi achado se onde se supunha ser a matéria prima de suas ferramentas. As evidências indicam que o minério foi extraído no sul da Toscana. Ötzi provavelmente não trabalhava com o próprio metal. Altos níveis de arsênico e cobre foram encontrados em seu cabelo, e isto levou os cientistas a assumirem que ele trabalhava com metais.

Seu assassinato a mais de 5 mil anos atrás parece ter sido provocado por um conflito pessoal alguns dias antes de sua morte, e o homem do gelo, apesar de seu peso normal e estilo de vida ativo, sofria de extensa calcificação vascular. Cientistas de todo o mundo apresentaram estes e outros novos insights, no Congresso Internacional Mummy em Bozen-Bolzano que ocorreu em 2016.

Ötzi foi encontrado por um casal de turistas alemães, Helmut e Erika Simon, em 19 de setembro de 1991 perto do monte Similaun, na fronteira da Áustria com a Itália. Primeiramente acreditava-se se tratar de um cadáver comum, moderno. Com as suspeitas e as posteriores datações do carbono 14 feitas no material vegetal junto ao corpo e das amostras da pele e dos ossos de Ötzi, feitas por três laboratórios diferentes, determinaram que ele viveu há cerca de 5.300 anos.

As primeiras análises de DNA ainda indicaram que ele tinha um elevado risco de sofrer de aterosclerose e intolerância à lactose. A presença de DNA da bactéria Borrelia burgdorferi em seu sangue indicou que ele sofria da doença de Lyme (conhecida como febre da carraça). A análise de seu conteúdo estomacal mostrou evidências da presença da Helicobacter pylori, uma bactéria comum do sistema digestivo que pode causar gastrite grave e úlceras (Dorfer et al, 1999)

Todas estas análises iniciais serviram somente para indicar que Ötzi era antigo, muito antigo. Corpos preservados em bom estado, na região da Europa, correspondente ao Neolítico nunca haviam sido encontrados. Ötzi é, então, mais antigo que os homens da Idade do Ferro da Dinamarca (1.200 a.C – 1000. d.C) e precede até as múmias egípcias mais antigas (3.500 a.C, conhecida como “Ginger“). E junto de seu corpo foram encontrados roupas e acessórios.

O primeiro cenário descrito para explicar o caso de Ötzi veio do arqueólogo austríaco Konrad Spindler, da Universidade local, de Innsbruck. Para Spindler, o homem teria fugido para a segurança das montanhas depois de sido ferido em uma luta em sua aldeia em uma época de outono. O homem procurou refúgio nas pastagens elevadas onde levava seus rebanhos no verão. Ferido e em estado de exaustão, morreu sobre um rochedo, onde foi encontrado cinco mil anos depois (Dickson, Oeggl & Handley).

Reconstrução de Ötzi. Clique para ampliar

Reconstrução de Ötzi. Clique para ampliar

Ötzi preservou muitas evidências, como uma grande quantidade de material orgânico (sementes, folhas, madeira, musgos), que nas décadas seguintes a sua descoberta foram sendo analisadas. Isto incluiu resíduos retirados dos intestinos, por isto, hoje sabemos muita coisa sobre Ötzi. Ele tinha 1,59 metros de altura, era um homem de baixa estatura, muito comum na região de Schnalstal ainda hoje. Estudos feitos sobre os ossos de Ötzi mostraram que ele tinha cerca de 46 anos quando morreu, o que corresponde a uma idade avançada para as pessoas de sua época. Análises de DNA revelaram que ele era originário da Europa Central-Setentrional, dado que o diferenciou dos povos mediterrâneos, cujas terras ao sul não ficam muito longe do local onde Ötzi foi achado (Dickson, Oeggl & Handley).

Ötzi também sofria de uma anomalia congênita: faltava-lhe o último par de costelas, o 12º. A sétima e a oitava quebraram e depois se curaram quando ele ainda era vivo. Segundo Peter Vanezis, da University of Glasgow, o lado direito de sua caixa torácica está deformado, com indícios de fraturas na terceira e na quarta costelas. O braço esquerdo está quebrado. Essas fraturas podem ter ocorrido após sua morte e põe em dúvida as alegações de Spindler. A perda de uma parte do couro cabeludo de Ötzi foi causada por alguma pressão sofrida, e não por um golpe ou pela decomposição. Um exame da única unha encontrada revelou três linhas de Beau, que aparecem quando o crescimento das unhas é interrompido e depois é retomado. Essas linhas mostram que Ötzi esteve doente pelo menos três vezes nos seus últimos seis meses de sua vida. E claro, Horst Aspöck, da Universidade de Viena, descobriu que ele foi infectado por um parasita intestinal que pode causar diarreia e até disenteria, embora não se possa dizer a gravidade da infecção (Dickson, Oeggl & Handley).

Ötzi é cheio de características físicas, anatômicas dietéticas e microbiológicas singulares. Por exemplo, Ötzi é cheio de tatuagens simples, feitas com pó de carvão e formando imagens de cruzes, visíveis na camada de pele por baixo da epiderme. Essas marcas certamente não eram decorativas e talvez tivessem finalidades terapêuticas. Várias estão próximas a lugares onde ele pode ter tido artrite – a parte inferior da coluna, o joelho e/o tornozelo direitos. Essas coincidências levaram os pesquisadores a defender que hipóteses de Ötzi poderia conhecer algo tipo de tratamento de acupuntura. Mas, segundo Vanezis e Franco Tagliaro, da Universidade de Roma, os exames de raios-X não mostram sinais convincentes de artrite. O dedo mínimo do pé esquerdo mostra alguma evidência de ulceração produzida pelo frio e os dentes estão muito desgastados, refletindo sua idade avançada e alimentação. Restos de duas pulgas foram descobertas em suas roupas. Não foram encontrados piolhos, que podem não terem sido preservados junto á epiderme (Dickson, Oeggl & Handley).

Tatuagens de Ötzi.. Clique para ampliar. Fonte: Museu de Arqueologia do sul do Tiro

Tatuagens de Ötzi. Clique para ampliar. Fonte: Museu de Arqueologia do sul do Tiro

A ciência nos oferece hoje vislumbres sobre Ötzi, especialmente sobre seus pertences, roupas, seu local de origem, dieta, rotas usadas em sua época, a identidade, morte, e claro, os microrganismos, que dizem muito sobre o caso. Os objetos de Ötzi mostram que ele tinha conhecimento sobre pedras, fungos, plantas e animais, além de como obter recursos de lugares mais distantes, como o sílex e minério de cobre. Graças a esses saberes, Ötzi estava bem equipado as condições locais. Cada objeto em seu poder foi confeccionado com o material mais adequado para seus propósitos. Ötzi estava bem preparado para enfrentar o frio, usando três camadas de roupas feitas de pele, longas e resistentes e um machado cujo cabo era feito de fibras de casca de tília. Seu chapéu era de pele de urso, e os sapatos, eram forrados com grama, combinavam vários tipos de pele (urso e cabra).

Ötzi levava um machado de cobre e um punhal de sílex oriundo do Lago de Garda, a mais ou menos 150 km ao sul. O cabo do punhal era de uma madeira usada até hoje para fazer cabos, devido sua grande resistência. Uma aljava de pele (estojo) carregava 14 flechas, mas apenas duas tinham penas e pontas de sílex, mas ambas estavam quebradas (Dickson, Oeggl & Handley).

Ötzi também tinha uma bolsa presa ao cinto e continha material para fazer fogo: um fungo que cresce nas árvores, conhecido como true tinder fungus, pirita de ferro e sílex para produzir faíscas. Uma pequena ferramenta para amolar o sílex também foi encontrada próximo ao corpo. Ötzi carregava dois pedaços de fungo de bétula e correias de pele de animal. O fungo contém compostos farmacologicamente ativos (triterpenos, que podem ter sido usados como medicamento). Ötzi também carregava fragmentos de uma rede, a estrutura básica de uma “mochila” e dois recipientes feitos de casca de bétula, além de carvão, folhas de bordo norueguês e talvez brasas envolvidas em folhas (Dickson, Oeggl & Handley).

Provavelmente tinha barba, mas a epiderme desapareceu e o cabelo, pêlos e unhas caíram. Alguns fios de cabelo foram preservados. Análises dos fios indicam que ele se alimentava de diferentes plantas e animais. Após a morte, Ötzi passou por um processo de ressecamento que naturalmente que encolheu seu corpo, tanto externa quanto internamente. A pressão do gelo deformou seu lábio superior, o nariz e as orelhas. A composição isotópica do esmalte dentário sugere que ele viveu em pelo menos duas áreas diferentes. Isto pode indicar que ele era um viajante, ou que poderia fazer parte de uma rota comercial.

Ötzi preservado da forma como foi encontrado. Fonte: Discover magazine

Ötzi preservado da forma como foi encontrado. Fonte: Discover magazine

Uma espécie de farelo de trigo primitivo chamada de einkorn, foi identificada em seu intestino, moída de modo tão fino que pode ter sido usado para fazer pão. Partículas minúsculas de carvão sugerem que o pão havia sido assado em um tipo de braseiro.

Folhas do musgo Neckera complanata retiradas das vísceras indicam que ele certamente envolvia seu alimento em um musgo. Nas roupas de Ötzi também foram encontrados outros musgos que crescem ao norte e ao sul do local onde Ötzi foi encontrado, mas as fontes do sul estão muito mais próximas. N. complanata crescia em abundância perto de região de Juval. Wolfgang Hofbauer, do Fraunhofer Institute for Building Physics em Valley, Alemanha, descobriu que esse musgo cresce em Vernago, abaixo do local e a somente 5 km de distância de Ötzi. Posteriormente, Alexandra Schmidl, da Universidade de Innsbruck e Botanical Institute, descobriu pequenos fragmentos de folhas do musgo Anomodon viticulosus em amostras retiradas do estômago de Ötzi. Esse musgo também cresce em Schnalstal. Se Ötzi vivia em uma aldeia ela pode ter ficado entre o norte e o sul d região. A evidência botânica aponta para o sul. E este sítio do Neolítico descoberto em Juval, um castelo da Idade Média localizado na extremidade sul de Schnalstal, está a 15 km em linha reta da região onde Ötzi foi encontrado. Se Juval não for seu lar, vestígios de ocupação Neolítica em locais bem próximos de Vinschgau, o vale do rio Etsch podem ser outras possibilidades. As investigações feitas por Wolfgang Müller, da Australian National University, sobre a composição isotópica do esmalte dos dentes de Ötzi, indicam que ele cresceu em uma área, mas passou duas ou três das últimas décadas em outro lugar (Dickson, Oeggl & Handley).

Os estudos dos resíduos de comida nos intestinos indicam que ele era onívoro e revelam detalhes sobre suas últimas refeições: veado vermelho, cabra montanhesa, plantas e grãos. Nas amostras retiradas das vísceras, grãos de pólen indicam que Ötzi morreu, no final da primavera e não no outono (Dickson, Oeggl & Handley).

Os restos de plantas retirados do trato digestivo oferecem essas evidências das últimas refeições de Ötzi. Franco Rollo e sua equipe da Universidade de Camerino, na Itália, em seus estudos do DNA de resíduos de alimentos nos intestinos, reconheceram tanto o veado vermelho quanto a cabra montesa alpina (cabra selvagem) na dieta de Ötzi. Lascas de ossos do pescoço da cabra montesa também foram encontrados próximos ao corpo de Ötzi. Junto dele também estava um abrunho; fruta pequena e amarga, parecida com a ameixa. Vários tipos de musgos foram retirados do estômago, cólon e reto. Não existe evidência alguma de que humanos algum dia tenham comido musgos, certamente não como um componente importante de sua alimentação. No entanto, há mais de 5 mil anos, não eram produzidos materiais para envolver ou embalar materiais comestíveis. Os musgos poderiam ser excelentes candidatos a embalagens como revelaram muitas descobertas arqueológicas em toda a Europa: vários musgos encontrados nas fossas vikings e medievais eram claramente usados como papel higiênico (Dickson, Oeggl & Handley).

Os dados isotópicos confirmam outras evidências de que Ötzi tinha uma dieta mista de plantas e animais. Cerca de 30% do nitrogênio de sua dieta de proveniente de proteína animal, o restante de plantas. Esse valor é coerente com os encontrados entre as tribos de caçadores-coletores atuais. Esses dados indicam também que os frutos do mar não integravam sua alimentação; o que era previsto, uma vez que o mar esta distante. Depois do genoma de Ötzi ser completamente sequenciado uma equipe internacional de cientistas que trabalham com o paleopatologista Albert Zink e o microbiologista Frank Maixner da Academia Europeia (EURAC) em Bozen/Bolzano (2016) conseguiu demonstrar a presença da Helicobacter pylori no conteúdo do estômago de Ötzi, uma bactéria encontrada em todos os seres humanos hoje. A teoria de que os seres humanos já foram infectados com esta bactéria no estômago no início de sua história poderia bem ser verdade. Os cientistas conseguiram descodificar o genoma completo da bactéria.

O corpo de Ötzi foi encontrado perto de uma das rotas tradicionais, por isso uma das primeiras hipóteses é que ele fosse um pastor. Entretanto, não há indicação alguma em suas vestes informando que ele tenha feito esse tipo de trabalho, exceto a presença de grama e a capa de fibra, que tem seus equivalentes modernos nas roupas usadas pelos pastores dos Bálcãs; mas não há nada conclusivo. Até onde se sabe, as vestes de Ötzi representavam a roupa tradicional dos viajantes daquele tempo (Dickson, Oeggl & Handley).

A área onde Ötzi foi encontrado fica na fronteira entre a Áustria e a Itália. O sítio fica bem na fronteira italiana com a Áustria e baseado nos restos botânicos preservados no cadáver, acredita-se que a última viagem de Ötzi tenha sido na área próxima do Castelo de Juval através do Schnalstal e finalmente uma escalada íngreme até Tisental. Dickson e colegas (2000) analisaram a região em busca das 80 espécies de musgos e várias plantas encontradas com Ötzi. Apenas 20% dessas espécies ainda crescem na região: entre eles, o musgo encontrado em grandes quantidades preso ao corpo de Ötzi, a espécie N. complanata. A maior concentração desse musgo, assim como muitas das outras plantas encontradas com Ötzi, ocorre ao sul do sítio, no castelo de Juval, onde há evidência arqueológica de ocupação humana na pré-história. Este pode ter sido seu antigo lar (Dickson, Oeggl & Handley).

Em julho de 2001, Paul Gostner e Eduard Egarter Vigl, do Hospital Regional de Bolzano, Itália, fizeram exames de raios-X e revelaram uma ponta de flecha embaixo do ombro esquerdo de Ötzi. Essa afirmação provocou numerosas declarações da mídia de que Ötzi tinha sido assassinado. Gostner e Egarter Vigl chegaram a dizer que “agora está provado que Ötzi não morreu de morte natural, nem devido apenas à exaustão e a ulcerações provocadas pelo frio”.

Estudos feitos por Oeggl de uma amostra diminuta de resíduos alimentares retirados do cólon de Ötzi revelaram a presença do pólen que preservou seu conteúdo celular. Isso significa que Ötzi pode ter ingerido pólen do ar ou bebido água contendo pólen recém-depositado nela pouco antes de morrer (Dickson, Oeggl & Handley).

A análise dos fios de cabelo de Ötzi revelaram quantidades de arsênio e cobre. A explanação divulgada é que ele teria participado da fundição de cobre, tese que agora é contestada. Geoffrey Grime, da University of Surrey, Inglaterra, já contestava, dizendo que esses níveis excepcionais de cobre podem ter resultado da ação de bactérias fixadoras de metal depois da morte de Ötzi, e que o cobre estava sobre o cabelo, e não no interior do fio. A presença do musgo do cobre (Mielichhoferia elongata), que se alastra preferencialmente sobre rochas que contêm esse elemento, reforça a possibilidade de o cobre ter se fixado ao cabelo depois da morte. Dickson (200) descobriu que esse musgo cresce na região onde Ötzi foi encontrado e, de forma independente, a mesma descoberta foi feita por Ronald D. Porley, do órgão do governo inglês English Nature (Dickson, Oeggl & Handley) (Scientific American Brasil).

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Novas descobertas

Ötzi prendeu a atenção dos arqueólogos de todo o mundo. Seu corpo foi cuidadosamente investigado por ser uma múmia europeia bem preservada e por representar um europeu típico de épocas anteriores. Ötzi é tão bem preservado que serve para muitos pesquisadores como modelo para o desenvolvimento de métodos científicos que podem então ser usados em outros processos de mumificação.

O que mais preocupa os cientistas hoje em dia é saber quem era Ötzi, qual o papel que ele desempenhou na sociedade e o que aconteceu com ele nos últimos dias da sua vida.

Talvez essas questões sejam bastante complexas para serem respondidas um dia, ou não, mas uma série de procedimentos técnico/científicos sofisticados tem sido disponibilizado aos cientistas para extrair novas evidências de Ötzi.

As descobertas feitas sobre os equipamentos de Ötzi, como machado de cobre é bastante importante. O cobre utilizado na lâmina de Ötzi não deriva da região alpina (como pesquisadores haviam sugerido Oriente ou Norte Tirol), mas a partir de Itália central. Um grupo de pesquisa de Arqueometalurgia do professor Gilberto Artioli na Universidade de Pádua descobriu que o metal tinha sido obtido a partir de minério extraído no sul da Toscana.

Para determinar a sua origem, os cientistas italianos usaram uma pequena amostra da lâmina e compararam a proporção de isótopos de chumbo – uma espécie de “impressão digital” dos depósitos de minério que permanecem inalterados em quaisquer objetos posteriormente introduzidos a partir do minério, com os correspondentes dados de inúmeros depósitos minerais na Europa e toda a região do Mediterrâneo.

O resultado apontou inequivocamente para o sul da Toscana e pegou os arqueólogos de surpresa. A ideia é que a partir de agora mais análises sejam feitas para verificar estes primeiros resultados. Se os resultados originais forem confirmados, esta nova evidência vai dar aos pesquisadores algum material interessante para pensar, por exemplo: Ötzi seria um comerciante viajando? Se era, qual área ao redor da atual Florença ele percorria? Qual era a natureza das relações comerciais e culturais com o sul naqueles dias? Será que a troca de bens também envolve movimentos populacionais? Ou seja, o empreendedorismo fazia as pessoas se deslocarem para o sul para a região alpina e vice-versa? Esta é uma visão particularmente emocionante, especialmente no que diz respeito a questões sobre desenvolvimento da população.

Outro ponto bastante debatido entre a comunidade científica é se Ötzi, talvez, tenha se envolvido no processo de fundição de cobre. Os cientistas têm defendido essa tese porque níveis consideráveis de arsênio e cobre foram medidos no cabelo de Ötzi. Isto poderia, eventualmente, ser explicado pelo ato de respirar a fumaça que é liberada quando o derretimento e vazamento de metal ocorrem. Entretanto, o Geoquímico Wolfgang Müller da Royal Holloway, University of London, já tinha usado análise de isótopos para estabelecer uma conclusão sobre se de fato ás origens do metal era do sul de Tirol.

Usando métodos altamente desenvolvidos de análise, tais como espectrometria de massa em laser e análise de especiação, a equipe de Müller examinadas não apenas analisou os cabelos, mas também amostras de unhas, pele e órgãos (por possível contaminação por metais pesados) de Ötzi. Apesar da conclusão provisória, os achados sugerem que a hipótese de que Ötzi estava envolvido no processamento de metal era prematura. Müller efetivamente encontra valores de arsênio na amostra de prego ligeiramente elevados, mas não em outras amostras de tecido. Os níveis de cobre levantados foram apenas presente nas extremidades e isso se correlaciona com outros indicadores de mudança, e, assim, é duvidoso que se possa estabelecer uma contaminação por metais pesados para o tempo de vida útil de Ötzi: os valores levantados também podem ser devido a influências ambientais ao longo dos 5 mil anos desde sua morte.

Uma tomografia computadorizada de Ötzi foi feita pelos radiologistas Paul Gostner e Patrizia Pernter em 2013 no Departamento de Radiologia de Bozen-Bolzano Hospital. Para fazer isso, eles usaram um aparelho de Tomografia Computadorizada de última geração que, graças à sua grande abertura, permitiu uma varredura da cabeça aos pés apesar da forma como o braço esta dobrado. Além da calcificação vascular nas artérias do seu estômago e nas pernas que já tinham sido analisadas, uma imagem superior permitiu os médicos detectarem três pequenas áreas de calcificação perto das vias de saída do coração, que até então haviam escapado do conhecimento dos cientistas. Isso corrobora a constatação anterior feita por biólogos moleculares da EURAC que Ötzi tinha uma forte pré-disposição genética para doenças cardiovasculares e que esta foi, provavelmente, o principal motivo de sua arteriosclerose geral.

Ötzi foi assassinado. A ponta da flecha que o furou foi descoberta em 2001, no ombro esquerdo. A questão é: quais foram ás circunstâncias que cercam o crime? Em 2014, o Museu de Arqueologia do Sul de Tirol chamou o inspetor-chefe Alexander Corno de Munique Departamento de Investigação Criminal para investigar o “caso do assassinato de Ötzi”. Utilizando os métodos criminológicos mais recentes e especialistas de medicina forense, radiologia e antropologia, os membros analisaram o local do achado e a equipe concluiu que Ötzi provavelmente não se sentia ameaçado pouco antes de seu assassinato. Isto porque a situação no local onde ele foi encontrado indica que estava descansando, após uma refeição. Nos dias anteriores ao assassinato, ele tinha sofrido uma lesão na mão direita, provavelmente como resultado da ação defensiva durante uma altercação física. Sem outras lesões encontradas, e isso pode servir para indicar que ele não havia sido derrotado neste conflito particular em que foi ferido no ombro esquerdo. A flecha, que foi provavelmente fatal, parece ter sido lançada de uma grande distância e pegou a vítima de surpresa, a partir do qual é possível inferir que foi um ato de traição. Outras conclusões médicas sugerem que a vítima caiu e que o autor não usava mais violência. O agressor, provavelmente, não quis arriscar uma altercação física, mas em vez disto, escolheu um ataque de longa distância para matar o homem do gelo. Como objetos valiosos, como um machado de cobre permaneceu na cena do crime, o roubo pode ser excluído como o motivo. A razão para o crime é mais provável de ser encontrado em algum tipo de situação de conflito pessoal, em um encontro hostil anterior – um padrão de comportamento que é predominante até hoje na maior parte dos crimes de homicídio (Science Daily, 2016).

Ötzi pode ter sido um viajante ou um comerciante: alguns chegaram a cogita-lo como um criminoso excluído do convívio da comunidade, um mercador de sílex, um xamã ou um guerreiro. Nenhuma destas tem bases sólidas, a menos que os pedaços de fungo que ele carregava tivessem uso medicinal ou espiritual para um xamã. De qualquer forma, muito sabemos sobre Ötzi, mas não o suficiente para categoriza-lo dentro de uma profissão ou atividade. Ainda sim, Ötzi surpreende-nos ao mostrar o potencial que temos de adquirir informações a partir de um corpo, e a grande quantidade de informações que temos de povos do Neolítico.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Ötzi, Itália, Chapéu, Roupas, Fungos, Bactérias, Viajante.

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Referências

Dickson, J; Oeggl, K; Handley, L. A saga revivida de Ötzi, o Homem do Gelo. Scientific American Brasil.
Dickson, J; et al. Philosophical Transactions of the Royal Society of London, Series B, Vol. 355, pp. 1843-1849; 29 de dezembro de 2000.
Dorfer, M. Moser, F. Bahr, K. Spindler, E. Egarter-Vigl, S. Giullën, G. Dohr, T. Kenner (18 setembro 1999). «Department of medical history: A medical report from the stone age?» (em inglês). The Lancet (Vol. 354, 354:1023-25).
Frank Maixner, Ben Krause-Kyora, Dmitrij Turaev, Alexander Herbig, Michael R. Hoopmann, Janice L. Hallows, Ulrike Kusebauch, Eduard Egarter Vigl, Peter Malfertheiner, Francis Megraud, Niall O’Sullivan, Giovanna Cipollini, Valentina Coia, Marco Samadelli, Lars Engstrand, Bodo Linz, Robert L. Moritz, Rudolf Grimm, Johannes Krause, Almut Nebel, Yoshan Moodley, Thomas Rattei, and Albert Zink. The 5300-year-old Helicobacter pylori genome of the IcemanScience, 2016; 351 (6269): 162-165 DOI: 10.1126/science.aad2545
Gostner e Eduard E. Vigl em Journal of Archaeological Science, Vol. 29, No. 3, pp. 323-326; março de 2002.
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