A COMPLEXA GENÉTICA DA PRIMEIRA MIGRAÇÃO DA ÁFRICA. (Comentado)

A análise genética de um número crescente de pessoas – e especialmente os pequenos povos indígenas de Papua Nova Guiné, descendente dos australianos e africanos – enriqueceu com muitos detalhes o cenário da primeira migração humana moderna para fora da África, mas torna a definição ainda mais complexa para uma visão geral do povoamento da Terra.

A genética dos povos da Papuásia Ocidental, bem como a dos aborígines australianos, que fornece informações importantes para a reconstrução das primeiras migrações para fora da África. (Agung Parameswara / Getty Images)

A genética dos povos de Papua, bem como a dos aborígines australianos, fornece informações importantes para a reconstrução das primeiras migrações para fora da África. (Agung Parameswara/Getty Images)

Pelo menos 2% do genoma dos nativos da Papua Nova Guiné descende de uma população ancestral da África, que estava de saída em uma época anterior da migração e que culminou no povoamento da Eurásia.

A descoberta é relatada em um artigo antes cujo primeiro autor é Pagani – pesquisador da Universidade de Bolonha e de Cambridge – que publicou os resultados na revista “Nature“, juntamente com dois outros colegas e que permitiu determinar detalhes importantes sobre a expansão de nossa espécie no mundo, tornando ainda mais complexa a definição do quadro geral das primeiras migrações.

Estes estudos analisaram o genoma de um número relativamente grande de pessoas que pertencem a um total de mais de 270 pessoas em todo o mundo, e eles fizeram isso com um nível de resolução do genoma maior do que o normalmente utilizado em estudos genéticos de populações.

Mais importante, eles têm prestado especial atenção aos pequenos povos indígenas, muitas vezes difíceis de alcançar – especialmente os africanos e do continente australiano – e que estão desaparecendo rapidamente.

O estudo realizado por Pagani e colegas, realizado em 379 genomas de 125 pessoas, corrobora a teoria de que entre 130 e 120 mil anos atrás, houve uma primeira migração para fora da África (Out of Africa I) que levaria à população do sudeste da Ásia e Austrália. Esta dispersão seria então seguida de uma segunda (Out of Africa II), a cerca de 75 mil anos atrás, através do Levante, que levou ao povoamento da Eurásia Continental. Consequentemente populações não-africanas, mas nem todos, descendem de uma única população, como diria outra teoria sobre o povoamento da Terra.

De acordo com a reconstrução do mapa feita por Anna-Sapfo Malaspinas, da Universidade de Copenhague, e colegas, os humanos modernos vieram da África e imediatamente foram separados em dois grupos, um que teria preenchido a Australásia, e outro que iria ajudar aos descendentes da Eurásia continental de hoje. O grupo de Malaspinas – é focado em Papua Nova Guiné e as populações da Austrália, criando o primeiro mapeamento completo dos nativos dessas regiões – descobriu que a diversidade genética dentro do continente australiano é comparável à que existe entre os europeus do leste-asiáticos, confirmando deste modo que os aborígines australianos ocuparam o continente por um longo tempo.

Swapan Mallick, da Harvard Medical School, e seus colegas sugerem também que houve uma separação imediata de uma única saída da população da África, mas que isso tinha a ver com as populações da Eurásia Ocidental e Oriental: os nativos australianos atuais e de Papua Nova Guiné desceram da mesma onda de imigração de leste-asiáticos.

Os autores de um dos artigos em conversa com os anciãos de uma tribo de aborígines australianos. (Cortesia Preben Hjort, Mayday Film)

Os autores de um dos artigos sobre os dialogos com os anciãos de uma tribo de aborígines australianos. (Cortesia Preben Hjort, Mayday Film)

Como observado em um comunicado comentando artigos de Serena Tucci e Joshua M. Akey, da Universidade de Washington, em Seattle, os resultados dos três estudos parecem contraditórios, mas eles podem ser unificados no quadro de um modelo que fornece mais ondas de imigração, desde a contribuição genética das primeiras populações da África para populações não-africanas contemporâneas seja muito pequena, como, aliás, é detectada por Pagani e colegas.

Por outro lado, Tobias Friedrich e Axel Timmermann, Universidade do Havaí em Manoa – que assina um artigo na mesma edição da “Nature” – ter construído um modelo das variações climáticas na África e Eurásia, e entre 120 e 50 mil anos atrás e sugeriu que houve quatro ondas de migração, coincidindo com transtornos climáticos ocorridos nessas regiões.

Fonte: Le Scienze

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Comentários Internos.

Muito conhecimento tem sido produzido sobre a evolução humana recentemente. Especialmente sobre a colonização da Austrália e seus arredores. Os dados apresentados acima batem com vários dados de estudos anteriores e dados moleculares novos sobre o povo aborígene.

Os aborígenes são os habitantes originais da Austrália, do continente australiano e de suas ilhas próximas. Os dados mais antigos indicam que os australianos nativos são descendentes dos primeiros humanos modernos que migraram para fora da África. Teriam migrado do continente africano para a Ásia há cerca de 70 mil segundo um artigo publicado na revista Science em 2011. Eles teriam chegado à Austrália por volta de 50 mil anos atrás (Imperial College London, 2011). Os nativos são indígenas localizados nas ilhas próximas ao Estreito de Torres, no extremo norte de Queensland, próximo de Papua-Nova Guiné. O termo “aborígene” é tradicionalmente aplicado apenas aos habitantes indígenas do continente australiano e da Tasmânia, junto com algumas das ilhas adjacentes, ou seja: os “primeiros povos” da região. “Australianos indígenas” é um termo genérico usado para se referir também aos ilhéus aborígenes do Estreito de Torres.

Em outro estudo genético publicado na Science em 2011, os pesquisadores encontraram evidências, em amostras de DNA retiradas de fios de cabelo das pessoas aborígenes, que os ancestrais de tal povo separou-se dos ancestrais das populações europeias e asiáticas entre 65 e 75 mil anos atrás; cerca de 24 mil anos antes as populações europeias e asiáticas se separarem uma da outra. Estes antepassados indígenas migraram para o Sul da Ásia e, em seguida, para a Austrália, onde eles ficaram com o resultado do Out of Africa II, e os povos indígenas têm ocupado o mesmo território continuamente mais do que qualquer outra população humana. Os resultados sugerem então, que os modernos povos indígenas são os descendentes diretos de migrantes que deixaram a África a cerca de 75 mil anos.

Divergência Times e rotas de migração para fora da África - os australianos aborígines separou da população Eurasian ancestral migração para fora da África entre 62.000 a 75.000 anos AP, mais de 30.000 anos antes, quando as populações europeias e asiáticas dividir um do outro.

Tempos de divergência e rotas de migração para fora da África – Os australianos aborígines separaram da população Eurasiana ancestral em uma migração para fora da África entre 75 e 62 mil anos atrás, mais de 30 mil anos antes das populações europeias e asiáticas dividirem-se uma da outra. Fonte: ICommunity NewsLetter

Esta conclusão é apoiada por descobertas arqueológicas anteriores de restos humanos perto do lago Mungo que datam cerca de 45 mil anos. O estudo da Science (2011) ainda sugere evidências de que os povos indígenas levaram alguns dos genes associados com os Denisovanos (uma espécie de humano relacionada, mas distinta aos Neandertais) povos da Ásia; o estudo sugere que há um aumento no compartilhamento de alelos entre os Denisovanos e aborígines em comparação com outros Eurasianos e africanos. Examinando o DNA de um osso do dedo escavado na Sibéria, os pesquisadores concluíram que os Denisovanos migraram da Sibéria para zonas tropicais da Ásia e que eles cruzaram com humanos modernos na Ásia do Sudeste 44 mil anos atrás, antes da Austrália ser separada de Papua Nova Guiné. Eles contribuíram com o DNA de aborígenes australianos, juntamente com os atuais povos da Nova Guiné e uma tribo indígena nas Filipinas conhecida como Mamanwa. Este estudo indica então, que os aborígenes australianos são uma das populações mais antigas do mundo e, possivelmente, a mais antiga fora da África, confirmando que eles também podem ter a mais antiga cultura contínua do planeta (Australian Geographic, 2014) Os papuásios tem mais alelos compartilhados do que os povos indígenas. Os dados sugerem que os humanos modernos e arcaicos cruzaram na Ásia antes da migração para a Austrália segundo uma publicação na revista Nature em 2011.

Agora, uma nova análise molecular, a mais extensa feita até o momento, mostrou que este povo detém evidências de ser uma das sociedades mais antigas do mundo. Isto significa que, o grupo foi o primeiro a separar após a onda de migração para fora da África entre 72 e 51 mil anos atrás.

De fato, durante séculos, os aborígenes australianos fizeram parte de um grupo cuja cultura e história era narrada oralmente e que remonta a dezenas de milhares de anos. Com uma das mais extensas análises de DNA australiana, sabemos agora que estas suspeitas estavam certas o tempo todo.

Pontuemos antes algumas considerações importantes sobre a evolução humana. Os ancestrais dos humanos modernos surgiram pela primeira vez na África; mas a questão de onde e quando eles começaram a se espalhar para fora do continente é discutida há muito tempo por cientistas e arqueólogos. Enquanto nossa espécie, o Homo sapiens, esta longe de ser a primeira espécie humana a começar a explorar outras partes do planeta, a questão tem sido descobrir se os antepassados dos não-africanos modernos migraram em diferentes ondas, ou se foram todos de uma vez.

Pensar no momento aproximado em que os antepassados deixaram a África é algo complicado de se fazer. Pesquisas anteriores sugeriram que os seres humanos começaram a se dividir em diferentes grupos genéticos a cerca de 200 mil anos atrás, antes de começarem a explorar outros continentes.

Esta pesquisa, ao analisar o DNA de 787 pessoas de 270 culturas modernas espalhadas por todo o planeta, um grupo de cientistas identificou e rastreou as mutações genéticas antigas que marcam quando diferentes etnias divergiram de seus antepassados e se alastraram pelo mundo a fora.

Usando este rastreamento genético, os pesquisadores sugerem que os primeiros Homo sapiens começaram a deixar a África entre 72 e 51 mil anos atrás. Os ancestrais dos indígenas australianos vieram do primeiro grupo que se separou na primeira migração. Enquanto os antepassados dos povos europeus e asiáticos divergiram-se a cerca de 42 mil anos atrás. Os precursores de australianos e dos indígenas de Papua Nova Guiné de hoje divergiram a 58 mil anos atrás para o leste.

Arte aborígene da rocha em Ubirr em Kakadu National Park. (Witte-art_de via iStock)

Arte aborígene em uma rocha em Ubirr, Kakadu National Park. Fonte: Witte-art_de via iStock.

Esses dados nunca tinham sido obtidos pela ciência, e agora sabemos que os aborígenes foram os primeiros exploradores humanos reais. Os ancestrais dos europeus estavam sofrendo de uma espécie de medo do mundo, enquanto a primeira leva já havia partido para uma jornada excepcional em toda a Ásia pelos mares. Desta forma, finalmente fizeram um caminho que culminou na colonização de um antigo supercontinente, que acabou por ser dividido entre a Austrália, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné por marés crescentes. Enquanto eles ficavam geneticamente isolados do resto do mundo, sua cultura foi se fortalecendo o suficiente para desenvolver novas linguagens e tradições (como veremos abaixo).

Embora o estudo pareça fechar um acordo sobre a sociedade mais antiga do mundo, levanta uma série de novas questões intrigantes. Por exemplo, os dados genéticos novamente mostraram que os ancestrais dos australianos e povos indígenas de Papua Nova Guiné podem ter cruzado com uma espécie hominídea ainda desconhecida, assim como os antigos europeus cruzaram com os Neandertais; os Denisovanos.

Embora só agora os cientistas estejam digerindo tal informação novas pesquisas genéticas prometem ser ainda mais promissoras (Smithsonian Magazine, 2016).

Outro fato importante a ser destacado sobre os aborígenes é sobre sua tradição e conhecimento. Ao realizar a dispersão por todo o continente australiano ao longo do tempo, os povos antigos ampliaram e diferenciaram-se em centenas de grupos distintos, cada um com sua própria língua e cultura (Lourandos, 1997). Mais de 400 diferentes povos aborígenes australianos foram identificados em todo o continente, distinguem-se por nomes exclusivos que designam as suas línguas ancestrais, dialetos ou padrões de fala distintos (Horton, 1994). Historicamente, esses grupos viviam em três principais áreas culturais, conhecidas no Norte, Sul, e Central. As áreas do Norte e do Sul, são mais ricas em recursos naturais marinhos e de floresta, foram mais povoadas do que a área Central menos rica em recursos (Lourandos, 1997).

Os aborígenes desenvolveram a arte como meio de comunicação. A música é, sobretudo, vocal. O instrumento musical é o yidaki (didgeridoo), que representa a mãe serpente, criadora da terra e que consiste em um tronco oco que amplia sons vocais. Para marcar o ritmo das mímicas e das danças, usam bastões de madeira. As pinturas do corpo ou em cascas de eucalipto usam como tema a mitologia ou retratam cenas do cotidiano.

No deserto, há pontos de grande valor histórico, cultural e sagrado para os aborígenes, como monólitos gigantes e crateras de meteoritos. Dentre eles, destacam-se três formações rochosas: o Chambers Pillars, o Kata Tjuta e a Ayers Rock. Durante o pôr do sol, as rochas refletem a luz solar e ficam na cor avermelhada como o fogo. À medida que o sol se põe, a pedra torna-se acinzentada, até acabar totalmente negra.

Recentemente um observatório de astronomia aborígene descoberto fornece pistas que indicam ser o mais antigo do mundo. Ele fica em um local no meio da mata Victoriana e é anterior a Stonehenge e até mesmo as grandes pirâmides de Gizé.

Os cientistas estudam um arranjo de rochas e dizem que poderia remo

Estas rochas são pensados para ter uma vez marcada a viagem do sol durante todo o ano. (ABC: Hamish Fitzsimmons)

Acredita-se que estas rochas marcam o trajeto do sol durante todo o ano. (ABC: Hamish Fitzsimmons)

ntar até cerca de 11 mil anos, e fornecendo pistas sobre as origens até mesmo da agricultura.

Duane Hamacher, o líder de um estudo da astronomia indígena trabalha com os anciãos aborígines no local e tenta reconstruir seus conhecimentos sobre as estrelas e planetas. Alguns acadêmicos têm se referido a esse arranjo de rochas como versão da Austrália de Stonehenge.

O sítio pode ter mais de 7 mil anos de idade, e reescreve a história da astronomia, descartando a noção de que primeiros australianos foram uniformemente nômades caçadores-coletores. De fato, os cientistas acreditam que tal arranjo de rochas foi capaz de mapear os movimentos do sol durante todo o ano. Ao que tudo indica, a região em torno do observatório já teve aldeias semi-permanentes com evidências de práticas de pesca e de início da agricultura.

Se você tem um arranjo de rochas que demarca as estações durante todo o ano, como solstícios e equinócios, faz sentido, usar tal “relógio” como indicador para o desenvolvimento de agricultura em um local específico. Se esse for o caso, como suspeitam os pesquisadores, faria sentido você construir tal estrutura perto de fontes de alimento e de água permanente.

Segundo as evidências locais, havia áreas onde armadilhas teriam sido criadas e até mesmo sinais de terraços utilizados na agricultura.

Você vê um monte de práticas agrícolas e de aquicultura, de modo claramente evidenciado e a origem da agricultura pode voltar dezenas de milhares de anos, pré-datando o que os antropólogos geralmente tem visto como os primórdios da agricultura, que é de cerca de 11 mil anos atrás na Mesopotâmia.

Isto tudo indica que os primeiros australianos não só foram os primeiros a migrarem a cerca de 58 mil anos, mas com o passar dos milênios foram adquirindo sistemas de conhecimento complexos. Eles entendiam muito bem os movimentos do sol, da lua, dos planetas e das estrelas ao longo do ano e durante longos períodos de tempo. Este tipo de trabalho resgata não só a história biológica de nossa espécie, mas resgata a tradição e informação de comunidades milenares que faz parte da história geral (ABC, 2016).

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Aborígene, Genética, Evolução, Out of Africa II, Ásia, Austrália. Europa, África, Cultura Aborígene, Tradição.

Referências

Lourandos, Harry (1997) New Perspectives in Australian Prehistory, Cambridge University Press, United Kingdom.
Horton, David (1994) The Encyclopedia of Aboriginal Australia: Aboriginal and Torres Strait Islander History, Society, and Culture, Aboriginal Studies Press, Canberra.
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