CIENTIFICAMENTE A EVOLUÇÃO FAZ SENTIDO – ENTÃO POR QUE MUITAS PESSOAS A REJEITAM? (Comentado)

Estudos de psicologia infantil identificaram um viés humano natural em relação à “teoria” do design inteligente, e propõem uma solução: ensinar a evolução mais cedo.

Os alunos são atualmente ensinou a evolução de cerca de 10-11 anos de idade. Devemos ensiná-los mais cedo? Fotografia: Willard Wigan / HangOut.

Os alunos estão atualmente aprendendo sobre evolução a partir de 10-11 anos de idade. Devemos ensiná-los mais cedo? Fotografia: Willard Wigan/HangOut.

Evolução é mal compreendida pelos alunos e, perturbadoramente, por muitos de sua ciência professores . Embora seja parte do currículo obrigatório de ciências na maioria das escolas do Reino Unido e dos EUA, mais de um terço das pessoas em ambos os países rejeitam a teoria da evolução ou acreditam que ela é guiada por um ser supremo.

É fundamental que o público votante tenha uma compreensão clara da evolução. A adaptação pela seleção natural, o mecanismo primário da evolução, sustenta uma série de preocupações sociais atuais como a resistência aos antibióticos, o impacto das mudanças climáticas e a relação entre os genes e o meio ambiente. Então, por que, apesar da educação científica formal, o design inteligente permanece tão intuitivamente plausível e a evolução tão intuitivamente opaca? E o que podemos fazer sobre isso?

Os psicólogos do desenvolvimento identificaram dois preconceitos cognitivos em crianças muito jovens que ajudam a explicar a popularidade do design inteligente. O primeiro é a crença de que as espécies são definidas por uma qualidade interna que não pode ser alterada (essencialismo psicológico). O segundo é que todas as coisas são projetadas para um propósito (teleologia promíscua). Estes preconceitos interagem com crenças culturais como religião, mas são tão prevalente em crianças criadas em seculares sociedades. Importante, estas crenças tornam-se cada vez mais entranhado, fazendo a instrução científica formal mais e mais difícil enquanto as crianças envelhecem.

Definição de essências

Os pré-escolares estão comprometidos com a ideia de que os membros de uma espécie têm uma “essência” interior, inviolável, que os torna o que eles são. Aos quatro anos de idade têm uma compreensão básica da herança genética: de que um bezerro ganha vida quando uma vaca da a luz e ele nasce mugindo e não fazendo grunhidos de um porco. Aos três anos de idade insistem que um Labrador submetido a uma cirurgia e fica parecido como um Rottwieler ainda é um Labrador. Aos dois anos de idade predizem que um golfinho vai respirar ar e não água se você primeiro dizer-lhes que os golfinhos são mamíferos (como cães) que se parecem com peixes.

O essencialismo psicológico é uma poderosa ferramenta de aprendizagem. Em face de todas as provas visuais em contrário, nos permite agrupar facilmente Chihuahuas e grandes cães Dinamarqueses na mesma categoria (cães). E uma vez que sabemos que eles são membros de uma categoria familiar, todos os tipos de outras informações vem de graça; que ambos latem, comem carne e gostam de perseguir carteiros.

No entanto, a idéia de que as espécies são determinadas por uma essência central imutável contradiz diretamente a teoria da evolução. Uma consequência da adaptação por seleção natural é que as populações dentro de uma espécie se adaptam gradualmente de uma forma para outra, à medida que os humanos e os macacos evoluíram do mesmo ancestral. O essencialismo psicológico é uma das principais razões pelas quais a teoria da evolução é tão amplamente mal compreendida por crianças e adultos.

A função teleológica

A teleologia é a tendência de explicar as coisas em termos de sua função, em vez do que as causou. Os adultos fazem isso quando falam de artefatos – uma cadeira é para sentar – e membros do corpo – uma mão é para manipular as coisas. As crianças são “teleólogos promíscuos”. Eles dar um passo adiante e explicar até mesmo fenômenos naturais em termos de seus efeitos – o mato existe para que ouriços possam esconder nele, existem leões para que possamos os observar no jardim zoológico.

Não só eles produzem espontaneamente explicações teleológicas promiscuas para as coisas naturais, mas também preferem explicações teleológicas promíscuas em comparação com explicações científicas. Quando perguntado o que é uma explicação melhor para porque uma rocha é pontuda, a maioria das crianças com 8 anos de idade escolhem a explicação que é assim para que os animais não possam se sentar nelas, e um pouco dos porque vem dos “vários materiais que se empilharam com o tempo”. A teleologia promíscua é prevalente em crianças, independentemente de como seus pais descrevem o mundo para eles ou a cultura religiosa em que crescem.

Esta generalizada compunção em função não é nem superada nem totalmente substituída por educação científica formal. Em condições aceleradas, mesmo adultos com doutorados em disciplinas científicas tendem a dizer que as explicações teleológicas promíscuas como “As vacas têm mamilos para que os agricultores possam se alimentar” estão corretas. A tendência para o senso comum de acreditar que tudo existe para um propósito sustenta a atratividade intuitiva do design inteligente.

Podemos superar esses preconceitos psicológicos?

Então, como anulamos esses preconceitos cognitivos difundidos e tenazes? Deb Kelemen e colegas da Universidade de Boston recentemente publicaram uma promissora intervenção amigável as crianças: livros de histórias ilustradas sobre a seleção natural.

Quando perguntado como uma característica muda em uma espécie, a maioria de crianças abaixo de 10 anos de idade chamará uma explicação teleológica: a girafa tem um pescoço longo PARA QUE possa alcançar as folhas mais elevadas. Tendo estabelecido isso, Kelemen apresentou livros de histórias a crianças de 5-8 anos de idade sobre um animal inventado: as Pilosas. Ao longo da história, as crianças aprendem que alguns Pilosas têm troncos longos e finos, enquanto outros têm troncos curtos e grossos e que todas Pilosas comem insetos. O tempo muda e os insetos se movem no subsolo. Aquelas Pilosas com longos troncos finos ainda são capazes de atingir os insetos, mas aqueles com troncos grossos e curtos não são e eles morrem. Somente aqueles Pilosas com os troncos longos finos sobrevivem e têm bebês, que igualmente têm troncos longos, finos.

Esta é uma grande história para crianças pequenas, porque ele joga em muitas coisas que eles estão naturalmente interessados em: a vida e a morte e as razões pelas quais as coisas são como são. Mais do que isso, a evidência sugere que tais histórias podem ajudar a superar obstáculos cognitivos para entender a adaptação pela seleção natural.

Depois de ter lido a história, todas as crianças foram feitas uma série de perguntas sobre um novo animal que nunca tinham encontrado antes. Por exemplo, “Como cresceram os Wilkies tendo eles principalmente pernas curtas a muitas a centenas de anos atrás até ter pernas mais longas hoje?” A maioria das crianças de 5 a 8 anos no estudo de Kelemen explicou essa mudança em termos de adaptação e reprodução, ao invés de teleologia promíscua. Este é o padrão oposto de suas respostas antes de ler a história.

Talvez o mais emocionante, a aprendizagem parece ficar. Quando as mesmas crianças foram feitas uma pergunta similar sobre outros animais desconhecidos 3 meses mais tarde, a maioria deles explicou mudanças ao longo do tempo em termos de adaptação e reprodução, em vez de teleologia.

Devemos mudar o currículo nacional (novamente)?

Evolução é tipicamente ensinada aos alunos com cerca de 14 a 15 anos de idade como eles se preparam para pegar seu certificado geral de educação secundária. Depois da pressão persistente da British Humanist Association (Associação Humanista Britânica), a evolução foi incluída no currículo nacional britânico primário pela primeira vez em 2015. A partir de setembro desta data, os alunos serão ensinados sobre a evolução a partir do ano 6, até em torno de 10-11 anos de idade.

Será que ainda é tarde demais? Kelemen escolheu crianças de 5 a 8 anos para testar porque nesta idade a teleologia promíscua e o essencialismo psicológico ainda são separados e fragmentários . Ela argumenta que, aos 10 anos de idade, elas se fundiram em um quadro teórico coerente que, em seguida, fica no caminho de explicações científicas contraditórias e pode permanecer o padrão, gerando reações vicerais, mesmo em adultos.

Seu livro de histórias funciona porque fornece às crianças uma estrutura explicativa alternativa antes que esses vieses cognitivos se tornem entrincheirados. Suas descobertas mostram que mesmo crianças muito novas podem entender os mecanismos básicos da seleção natural e podem generalizar essa analogia com novos exemplos. Se parte da razão que o design inteligente é tão popular é porque parece intuitivamente correto, a solução poderia ser interromper essas intuições muito cedo? Devemos reconsiderar o currículo nacional (mais uma vez) e começar a ensinar a evolução ainda mais cedo?

Fonte: The Guardian

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Comentários internos

Este talvez seja o texto mais importante para compreender porque existe a dificuldade de aceitar -ou mesmo de entender – a teoria da evolução em algumas pessoas. Este texto – e este  comentário – traz uma síntese dos principais elementos que juntos “lubrificam” a resistência a explicação científica: essencialismo/fixismo, teleologia e por fim, o viés cognitivo.

A vertente mais comum no mundo Ocidental que se apresenta como opositora a teoria da evolução é o criacionismo/Design Inteligente, que essencialmente é um movimento fundamentalista religioso cristão. Quando o texto acima cita o essencialismo e a teleologia, ele esta fundamentalmente citando a base filosófica que foi inserida no cristianismo ao longo da formação do pensamento Ocidental. E ela vem primariamente da tradição filosófica grega.

Essencialismo, designa a busca por compreender o fundamento da realidade a partir de uma substância primeira, ou seja, uma essência. O essencialismo vem da divisão do real em essência e existência. A essência é o que permanece sempre igual a si mesma, não-gerada, imutável, e não perecível, que constitui o núcleo ideal, necessário e universal da realidade factual dentro da tradição filosófica grega. No cristianismo, a concepção essencialista é usada acompanhada do fixismo, ou seja, a imutabilidade. Quando cooptado pelo cristianismo, foi utilizado para justificar a crença de que Deus fez cada animal segundo sua espécie, conforme declarado em Gênesis.

Além da divisão do essencial, há a questão da existência, que indica a constituição efetiva dos entes, o fato de eles serem o que são. Enquanto a essência quer pensar o que é o ente (o ser), a questão da existência busca compreender como ele é.

Na visão essencialista, algo é definido como membro de uma classe se compartilha com os outros membros um conjunto permanente (e fixos) de propriedades essenciais, que podem ser listadas e verificadas. O conflito surge quando tenta-se estabelecer o número e o tipo das propriedades que devem ser incluídas em uma lista de condições essenciais, inerentes suficientes e necessárias para conceituar uma forma de vida, por exemplo. Entretanto, na biologia, é muito difícil descrever toda a complexidade da vida com uma simples equação. A biologia não é uma ciência como a matemática, ou seja, ela não é uma ciência exata. Isso ocorre exatamente porque a biologia não é essencialista e tão pouco fixista (El-Hani, & Videira, 2000).

As espécies mudam a cada geração que vem, pois cada geração é uma descendência com modificações. Mesmo quando os criacionistas aceitam somente as microevoluções (ou variedades genéticas que ligeiramente mudam o fenótipo) e negam a especiação (macroevolução), estão deixando de lado o componente fixisista que tanto creem.

O fato é que não há motivo, razão ou constatação científica alguma publicada em artigo científico que indique que tais variações ocorrem somente no limite da espécie, e que tal limite seja intransponível. De fato, vemos o contrário: na natureza, transpor o limite da espécie a partir de ligeiras modificações exige tempo, geralmente, milhões de anos. Mas e se pudéssemos acelerar o processo de seleção de características?

Bem, podemos! A partir de domesticações, e manipulações genéticas criamos variedades e espécies novas de plantas e animais. E In natura, temos vários exemplos de espécies surgindo, porque quem faz o papel de agente seletor é o ambiente e o contexto ecológico em que a espécie esta inserida. Vemos isto em diversos animais: vespas, peixes, grilos, bactérias, galinhas, borboletas (veja aqui, aqui, aqui e aqui) e até mesmo de forma não-intencional artificialmente geramos espécies novas.

O que estrutura o pensamento criacionista não são as evidências, mas a crença em uma religião que se estruturou em cima de bases filosóficas antigas e se mantem a mais de 2 mil anos de forma dogmática quanto ao assunto. Ora, a concepção essencialista foi proposta por Platão, onde há um duelo entre o mundo dos sentidos e o mundo real, ou o mundo das ideias (Hani, & Videira, 2000). Além do componente platônico, o essencialismo se confunde com a própria tradição metafísica, ontológica e idealista, da filosofia Ocidental no que diz respeito a outro grande filósofo; Aristóteles!

Escola de Atenas” de Rafael Sanzio em que Platão aponta o dedo para cima e Aristóteles aponta a mão para baixo.

Escola de Atenas – De Rafael Sanzio em que Platão aponta o dedo para cima e Aristóteles aponta a mão para baixo.

É sabido por todos nós que o cristianismo bebeu da fonte de Platão (o Neo-platonismo agostiniano) e posteriormente, de Aristóteles. Este último, conviveu por mais de 20 anos com Platão, e divergiram entre si sobre o que é o Ser. Esta divergência ficou bem evidente no quadro “Escola de Atenas” de Rafael Sanzio em que Platão aponta o dedo para cima e Aristóteles aponta a mão para baixo.

Para Platão o Ser estava contido no mundo das ideias. Ao modelarmos um objeto, como um vaso de argila, para o filósofo, tal vaso é aparente, pois ele pode cair e se quebrar, deixando de ser um vaso. Mas a ideia de vaso não pode ser quebrada.

Portanto, a ideia de vaso é a essência do vaso em si, e ela não muda (fixista), mostrando, portanto que o vaso físico de argila é uma copia imperfeita do vaso idealizado em sua essência. Este pensamento, do mundo das ideias foi cooptado pelo cristianismo por Santo Agostinho para justificar que o mundo em que vivemos é aparente, quebrável, corrompível e que há um mundo ideal acima de nós, melhor, perfeito e imutável (o paraíso cristão). Assim, o cristianismo inaugura a base fixista e essencialista do criacionismo, utilizando concepções da filosofia grega.

Já Aristóteles, inaugura o modo de classificação (ainda que superficialmente) dos seres vivos o Ser esta no mundo real e não no mundo das ideias. Aristóteles tem uma concepção menos idealizada e mais científica de observar o mundo e definir o Ser. A sua definição de Ser retoma toda a discussão dos pré-socráticos sobre o princípio, elemento ou substância que explica as mudanças na natureza (physis), mas que ao explicar a mudança não muda (a arché). Aristóteles sintetiza o pensamento antagônico entre Parmênides de Eléia (Ser é uno, eterno, não-gerado e imutável; Só o que existe realmente é o ser e o não-ser. Pois o ser é, e o não ser não é, buscando a arché) e Heréclito de Éfeso (Tudo esta em constante mudança: o ir é o vir: o frio se torna molhado, a subida é uma descida em um devir; portanto a arché é que o que não muda é que tudo muda) para buscar a sua teoria do Ser.

Ao erguer todos estes questionamentos, Aristóteles chega a as causas do Ser, e inaugura a teleologia – citada no texto acima. Para Aristóteles o Ser é efeito de quatro causas: causa material, causa formal, causa motriz e causa final.

A causa material trata do componente único que explica a matéria do que o ser é feito (atualmente diríamos que tanto o vaso de argila quanto um ser humano é materialmente formado pelos mesmos elementos – átomos); a causa formal, que é a forma na qual a matéria se apresenta, e portanto o que diferencia um vaso de um ser humano não é somente os átomos do que cada um é feito, mas a forma na qual esta matéria se apresenta: a causa motriz que é o que junta forma à matéria (seria o oleiro que da a forma de vaso aos átomos da argila); e a causa final; que é o projeto prévio e a função final na qual aquele ser vai desempenhar.

As quatro causas fundamentais do ser segundo Aristóteles.

As quatro causas fundamentais do ser segundo Aristóteles.

Todas estas causas juntas dão a essência (essencialismo) do Ser na filosofia aristotélica. Esta causa final foi cooptada pelo cristianismo e se tornou a base do pensamento do Design inteligente (junto a mascara pseudocientífica), pela finalidade e pela ideia de projeto. Entretanto, quando Aristóteles inaugura a teleologia ele cria também um dilema epistemológico.

Peguemos nossa espécie: um indivíduo humano é um ser, e como dito acima, ele é efeito de uma causa. Usando a filosofia aristotélica, um indivíduo é composto pelo material genético de seus pais (causa material), que pertence a espécie, ou, forma humana (causa formal), e que vai se desenvolver (causa motriz) para cumprir segundo um plano finalista. Entretanto, a matéria que compõe o ser humano vem do material genético dos pais. Os pais que são a causa de um filho existir, são também efeito de seu pais (que são causas) porque também são filhos de alguém (dos avós)… e assim por diante, perdurando durante toda árvore genealógica da família em uma regressão infinita.

Aristóteles, então, soluciona este dilema criando a ideia de Primeiro Motor, que é conhecido atualmente nas discussões religiosas como Causa primordial, onde o Causador não pode ser efeito. Ele é a causa não causada causadora de todas as causas, que na Idade Média passa a ser chamado simplesmente de… Deus.

Curiosamente, os criacionistas acusam os cientistas evolucionários de seguirem o caminho do “naturalismo filosófico” (em que a teoria da evolução seria somente uma tese filosófica e não empírica para justificar o ateísmo), mas notamos que o verdadeiro conteúdo filosófico foi cooptado e re-significado dos gregos para uma filosofia cristã, que modelou todo o pensamento Ocidental. Então, toda tentativa de questionar ou evidenciar elementos que quebram este pensamento vigente (essencialista, fixista, scala naturae, teleológico) e visto como absurdo. Em uma sociedade sustentada por falácias milenares (e por ignorância científica promovida pela Idade Média interferindo no livre-pensar) qualquer expressão de revelar outra verdade que não seja a divina é vista de forma abominável, execrável e punível. Quando seleciona-se os fatos ou ajusta-os para que sustente uma verdade prévia e se rejeita os argumentos e validações empíricas porque não estão de acordo com uma crença, chamamos isto de viés cognitivo, que foi ressaltado em outro texto. Seja como for, assim se estruturou a teleologia, que foi inserida no cristianismo e que hoje é defendida pelos proponentes do Design inteligente. O uso do vaso de argila como exemplo, traz exatamente esta visão apresentada no livro de Gênesis, onde o homem é feito a partir do pó a imagem e semelhança de Deus.

O problema da teleologia é que ela foi “banalizada”, tanto por razões que parecem ser intrínsecas a nossa espécie – como vimos acima, onde há uma tendência em explicar que todas coisas são produzidas com certas finalidades. O problema disto é que atribuímos finalidades aos objetos e fenômenos naturais de forma promíscua e não porque há evidências de uso de uma razão superior, inteligência e propósito de projeto nos fenômenos naturais. Tendemos a teleologizar tudo, porque nós fazemos tudo a partir de planejamentos prévios e construímos ferramentas para desempenhar certas funções.

A teleologia promíscua projeta em uma entidade sobrenatural, nada mais do que as nossas tendências finalistas, criando assim deuses a nossa imagem e semelhança. Da mesma forma que desde pequeno temos uma tendência em lançar a ideia de projeto nos objetos como uma rocha pontiaguda (citada no texto) tendemos a interpretar o mundo como uma grande peça teatral coordenada por um diretor-chefe metafísico.

O problema da teleologia em ciência é que não é possível identificar a intenção de um designer inteligente metafísico porque ele não pode ser analisado e mensurado. É um limite epistemológico que o criacionismo bateu e não vai superar, pela própria natureza identitária do método científico que é estritamente empírico. Sendo Deus uma entidade metafísica, externa a sua criação, ele não esta contido no tempo-espaço na qual o método científico tem seu escopo desenhado. Enquanto estudamos o tempo-espaço como uma entidade da física, onde conseguimos calcular em que momento um trem vai chegar em uma estação, com base na velocidade e distância, Deus não pode ser mensurado porque ele não faz parte de nosso tempo-espaço: como dito pelos próprios fieis do criacionismo, Deus é santo (sanctum, ou Kadoshi). Portanto, é externo, tem um tempo-espaço especial, próprio (para aqueles que creem) mas que não nos é acessível.

Usando Kant, a priori não temos nada que nos indique sua existência, e a posteriori não podemos testa-lo. Portanto, discutir Deus como uma tese científica se torna pura perda de tempo e esforços acadêmicos/científicos.

Pensando em teleologia, é isto que o texto quis dizer quando cita a compulsividade em funções e a intuição da existência de um designer. Ela surge da nossa tendência finalista porque todos nós atuamos como engenheiros, projetamos objetivos de vida, construímos metas e relações em uma vida cheia de intencionalidade. Não é a toa que a grande maioria das pessoas que defendem uma postura de Design inteligente e Projetista universal são engenheiros.

A engenharia vai fazer a ponte entre o conhecimento produzido e o conhecimento aplicado no dia a dia em forma de tecnologia. Portanto, é uma disciplina que demanda projeto e que trabalha com finalidades cotidianamente. É difícil para engenheiros conceberem a ideia de que haja ferramentas ou mecanismos moleculares, cascatas bioquímicas que não sejam projetadas por uma entidade suprema e que sejam resultado de processos naturais de variação e seleção. Por esta razão tenha surgido a falácia de que seleção natural/evolução seja resultado de eventos aleatórios.

No final das contas, temos duas opções, ou tudo que “startou” na origem do Universo é efeito de uma Causa Primordial misteriosa que pode, ou não, ter intenções – onde os que creem chamam tal causa de Deus – ou tudo é efeito de uma causa natural, nada especial, sem intenções em um universo amoral. A diferença entre ciência e religião se manifesta novamente nesses dois cenários. Para os defensores da Causa Primordial cristã, o enigma já esta resolvido, o causador é Deus, e esta é a Verdade revelada.

Teleologia

Teleologia

Para a ciência, faltam pesquisas que permitam descrever um fenômeno da physis, natural que desencadeou o processo de expansão de uma singularidade, que é o modelo (e não o dogma) científico mais aceito atualmente. Para a física, o Universo não foi intencionalmente ajustado para servir de palco a uma humanidade feita a imagem e semelhança de um Criador.

Oura questão é, quando vemos declarações como “mão é para manipular as coisas” (citada no texto acima), pensamos em dois desdobramentos para esta afirmação. Primeiro: que tal concepção tem cunho teleológico; segundo, ela é também lamarckista. “Temos mãos para pegar as coisas” induz a ideia de projeto e indica que desenvolvemos voluntariamente mãos – por caracteres adquiridos – na evolução lamarckista. Entretanto, na frase “Pegamos as coisas porque temos mãos” demonstra uma concepção darwiniana, onde a função na qual o membro nos serviu – pegar – favoreceu nossa luta pela sobrevivência, tal qual favoreceu os morcegos com asas para o voo ou baleias com as barbatanas.

A questão é; e se nossa espécie tem uma tendência de observar finalidades em tudo, como saberemos se estamos observando um fenômeno divino-intencional ou somente nossas intenções? Esta é uma das principais questões que mata toda a ideia de Design inteligente ser uma ciência.

Se observamos finalidades em tudo, a ideia de intencionalidade divina pode ser resultado de nossa evolução biológica, então tanto Deus, ou mesmo a religião, podem ser resultado de um processo evolutivo e cultural (como visto expressos em estatuetas a deusas Vênus).

evidências sólidas para os dois cenários e até mesmo para o reconhecimento da  própria finitude como elemento de organização social.

Estatueta de 11,1cm de altura, descoberta em 08 de agosto de 1908, por Josef Szombathy, na Áustria – na região de Willendorf. Datada em 23 mil anos ou Período Gravetiano.

Estatueta de 11,1cm de altura, descoberta em 08 de agosto de 1908, por Josef Szombathy, na Áustria – na região de Willendorf. Datada em 23 mil anos ou Período Gravetiano. Veja mais aqui.

Provavelmente somos os únicos animais a acreditar em deuses, espíritos de mortos e seres sobrenaturais. É possível que um dos pré-requisitos para o desenvolvimento da religiosidade seja o desenvolvimento do pensamento simbólico, que é a capacidade de gerar significado além do imediatismo das ideias. Isto é expresso na arte (como as estatuetas de deusas da fertilidade) e sepultamentos feitos pelo homem há milhares de anos no Paleolítico.  Quando as necessidades básicas e materiais (alimento, água e abrigo, por exemplo) foram supridas pelo desenvolvimento da técnica, parte desta, foi convertida para o desenvolvimento da espiritualidade, que vemos nas artes e sepultamentos, especialmente nos últimos 50 mil anos nos grupos caçadores-coletores. Durante todo o processo evolutivo e encefalização da nossa espécie, a geração de significado, linguagem, produção de ferramentas líticas, consciência, estrutura social foi sendo dinamicamente estruturada. Com a complexidade social, a troca de conhecimentos técnicos e ideias expandiu muito da nossa arte e a expressão da espiritualidade.

É possível que a religiosidade tenha sido alcançada por mecanismos importantes na formação de nossos módulos mentais, selecionados para garantir nossa sobrevivência e perpetuação da espécie. Dois destes mecanismos são a Theory of Mind (Teoria da Mente) e o Hyperactive Agent Detection Device (HADD, ou Dispositivo hiperativo de detecção de agentes).

HAAD é a capacidade cognitiva que temos de detectar agentes que causam perigos a nós, como um leão no Paleolítico e que certamente se alimentava do primata humano. Quando um leão eventualmente pisava em uma folha seca ou em um galho e fazia barulho, tínhamos competências cognitivas para ligar o sinal de alerta e ficar de vigia, atentos para qualquer investida dos leões. Percebemos agentes em busca de nossa carne fresca.

A Teoria da mente (ToM) tem a ver com a capacidade de entender o que outras pessoas pensam e sentem. A empatia é um conceito relacionado a ToM, significando a experiência de reconhecimento e compreensão dos estados mentais, incluindo crenças, desejos e particularmente emoções dos outros, frequentemente caracterizada como a habilidade de “compreender o ponto de vista do outro”. A ToM é o que esta se manifestando nas crianças do texto acima, expressando o componente teleológico e parece ser uma característica universal, talvez até inata (ou depende de componentes inatos). O que estes dois elementos informam a nós, e especialmente em grupos de caçadores coletores é que fenômenos naturais ganham intenções. São castigos divinos, eventos perigosos promovidos por Deus. Da mesma forma com que crianças manifestam sua teleologia com rochas pontiagudas, manifestamos pelo uso de HAAD e ToM a teleologia em fenômenos naturais, atribuindo a eles conteúdos sobrenaturais. Deuses bravos, pedindo sacrifícios, punindo infiéis, perseguindo pessoas.

Isto é uma forma de teleologia promiscua. Tal tendência é vista em diversos estudos em que demonstra que crianças tem tendências teleológicas quando questionadas sobre os fenômenos, sejam em crianças inseridas em famílias de fundamentalistas religiosos ou não. Mesmo em pais que optavam por uma resposta naturalista (ou mesmo secular) tem crianças que optavam por respostas divinizadas, apelando ao componente mental para dar a resposta sobre fenômenos naturais, como vimos no texto acima.

Com a maior socialização e aumento de sua complexidade, os deuses foram aparecendo como modo de controlar comportamentos egoístas em grupos sociais e promovendo o altruísmo recíproco direto e indireto. Com o aumento da complexidade social mais recente, nos últimos 5 mil anos, a evolução cultural impulsionou processos de etnogênese e alavancou a criação de deuses maiores, com muito mais funções, finalidades, personalidades e regras de boa conduta, criando identidades culturais, alterando padrões de alimentação, rituais, sistemas de devoção, liturgias, divisão de castas sacerdotais, exigindo sacrifícios e etc.

Aquilo que começou com um processo mental de interpretação de divindades na natureza, passou por deuses quiméricos (características anímicas e humanas) até a antropomorfização de grandes Deuses (como nas religiões abraâmicas, em sociedades altamente complexas), dotados de finalidades específicas que grupos religiosos tem como função explicar questões angustiantes desde os primórdios da humanidade: de onde viemos, quem somos e para onde vamos.

Enquanto isto, a ciência se limita a responder – através do limite de seu método – somente duas questões: De onde viemos? e; O que somos? Pois além disto, foge de suas competências.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Teleologia, Essencialismo, Fixismo, Platão, Aristóteles, Mundo das Ideias, Causa Material, ToM, HADD, Criacionismo, Design Inteligente, Pseudociência.

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Referências

EI-Hani, C. H. & Videira, A. A. P. O QUE E VIDA? PARA ENTENDER A BIOLOGIA DO SÉCULO XXI. RELUME DUMARA. Rio de Janeiro 2000.
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2 thoughts on “CIENTIFICAMENTE A EVOLUÇÃO FAZ SENTIDO – ENTÃO POR QUE MUITAS PESSOAS A REJEITAM? (Comentado)

  1. A questão do ensino há que se descer um pouco, e não ficar apenas na superficialidade de pedagogia, em geral, demagoga. A escola existe para terminar a “formação” do indivíduo humano, através da informação. A educação ou se tem em casa, OU NÃO SE TEM, escola não existe para dar educação, e quando se mete a fazer, FAZ MAL. Então, INFORMAÇÃO ESTÁ ONDE ESTÁ, pouco importa se na ciência, na religião ou nas artes, que julgo serem os três acervos de conhecimentos acumulados pela humanidade ao longo dos séculos. Vamos dizer que temos a humanidade em duas etapas básicas: O HOMO SAPIENS E O HOMEM ADÂMICO OU AGRÍCOLA. Na realidade, DUAS ESPÉCIES DIFERENTES DE HOMENS, COM O MESMO ORGANISMO, uma bordoada na “seleção natural”, que não existe. E NÃO HÁ UM ÚNICO CASO COMPROVADO DE “SELEÇÃO NATURAL”, SEJA LÁ ONDE FOR, pelo simples fato de que ela é apenas um “chute” ainda que genial, de Darwin, mas chute. Como foi o geocentrismo de Aristóteles, um chute que levou 2 mil anos para se mostrar que estava errado. Precisou de “instrumentos” para isso, um dia chegaremos também a entender o “chute” de Darwin. Evolucionistas cospem de lado, É COMO DIZER QUE O PAPA NÃO É INFALÍVEL PARA UM CATÓLICO FANÁTICO.
    Então, do ponto de vista de “ensino”, tanto deveria ser ensinado o evolucionismo, como também o criacionismo, DESDE QUE DE AMBOS SEJAM ELIMINADOS OS “DOGMAS DE FÉ”, onde as coisas são conforme alguns dizem que são.
    Para começar é preciso entender o que se entende por evolução. Se algo evolui, EVOLUI PARA ALGUM LUGAR, E DE ALGUMA FORMA. Em particular, se fala dos seres-vivos na Terra. SABE-SE O QUE SEJA O SER-VIVO? Se nem isso se define e sabe como é, COMO SE FALAR EM EVOLUÇÃO? Evolução para onde?
    E aí se complica mais ainda. EXISTEM ESPÉCIES? Onde? EXISTEM INDIVÍDUOS VIVOS COM ALGUMAS CARACTERÍSTICAS, QUE O HOMEM CHAMOU DE “ESPÉCIE”, mas alguém já viu alguma espécie andando por aí? ENTÃO, COMO SE FALAR EM “EVOLUÇÃO DE ESPÉCIES”, se sequer existem?
    Ensinar tem que começar pela “verdade”, ensinar uma mentira não é ensinar, seja ela criacionista ou evolucionista, ou “ista” do que quer que seja.
    Darwin quando fez suas pesquisas e estudos, SE CONCENTROU NOS “ORGANISMOS” QUE CIRCUNSTANCIALMENTE ERAM VIVOS. Não tratou de “organismos mortos” e sequer definiu até para si mesmo o que ENTENDIA POR VIDA. Falou de “organismos materiais” vivos, e observou que esses organismos onde poderiam ser observados, APRESENTAVAM ALGUMA ADAPTAÇÃO AO MEIO AMBIENTE ONDE ESTAVAM. Como não tinha recursos para observar melhor (como Aristóteles que observou que as coisas caíam para a Terra, NÃO TINHA COMO ENTENDER QUE NÃO CAÍAM, HAVIA UMA ATRAÇÃO MÚTUA, que hoje qualquer criança de Jardim da Infância sabe que é a gravidade). Hoje também já sabemos que tanto o meio ambiente atua nos seres-vivos, como estes atuam também no ambiente (há uma simbiose), e portanto, a seleção já se equivoca por princípio. Mas o fato real é “que se observa” que os organismos vivos se “adaptam” de alguma forma ao ambiente onde estão. No caso do homem, imagine viver hoje sem o automóvel, luz elétrica, telefone etc. etc. E POR SELEÇÃO NATURAL?
    Desta forma, o evolucionismo começa por “mostrar” um iceberg, apenas olhando a pontinha que consegue ver, LOGO NÃO É VERDADE DE ABSOLUTAMENTE NADA, mas não significa que não possamos acreditar em teorias, QUE ATÉ QUE SE PROVE, SÃO MERAS PRESUNÇÕES DE VERDADES. O dogma de fé transforma meras teorias até muito vagas, EM CRENÇA DE FÉ. Na época da Igreja Católica feudal, não “acreditar” significa ‘condenação’, mas JÁ PASSAMOS DESSA IDIOTICE. Mas ainda se chamam de “céticos” cientistas que criticam a evolução conforme é mostrada, como DOGMA DE FÉ.
    Então, se a evolução existe, é preciso antes que se explique de “evolução se está falando”. No caso do ser-vivo, DA FORMA DE CERTA FORMA MAIS COMPLEXA COMO CADA ORGANISMO MATERIAL QUE SE TORNA VIVO (COMO?) SE APRESENTA, e que o homem “classificou” como espécies. ESPÉCIE É INVENÇÃO DO HOMEM, é preciso que se entenda isso, não existe como “fato” apenas como “classificação”! O homem Adâmico é um “espécie” diferente do “homo-sapiens”, ainda que utilizem o “mesmo organismo material”, e podemos entender hoje pelo DNA. O DNA será para a Árvore da Vida, o que o átomo é para a Tabela Periódica dos elementos. Vamos poder entender melhor o que seja “espécie”, não apenas do “observômetro” humano, mas de forma objetiva. Imagina como alguém poderia saber que vapor, água e gelo são a mesma coisa!
    Mas até aqui, SE FALA APENAS DE ORGANISMOS QUE CIRCUNSTANCIALMENTE SE TORNAM VIVOS, mas o que são de fatos “seres-vivos”? Sem a definição clara disso, ainda que possamos falar de “evolução dos organismos”, não se fala ainda de evolução “SERES-VIVOS”. O automóvel junto com seu motorista é um “ser-vivo”, inclusive inteligente! E analisar a evolução do automóvel significa analisar o “ser-vivo” automóvel+motorista? Se alguém tem autoridade para enfiar isso goela abaixo das pessoas, ESTAMOS FRENTE A UM DOGMA DE FÉ, acredite e ponto final!
    Acho que aqui se baseia o ‘fundamento’ para considerar que “evolucionismo” seja de fato ciência, e até mesmo religião, QUANDO SE PARTE DE SE ACREDITAR NO QUE ALGUÉM DIZ, e também Arte, quando analisamos o fundamento da evolução: EVOLUIR SIGNIFICA “MELHORAR”, A ARTE DÁ SUSTENTAÇÃO À EVOLUÇÃO, no sentido de se procura sempre o “que é melhor”! Delineadas as bordas do que se quer dizer com “evolução”, e que significaria a ‘primeira parte do texto’, poderíamos de fato passar passar para a parte mais volumosa, QUE SÃO OS CONHECIMENTOS DO SR. VITOR ROSSETTI, que não vou comentar. Fica o fato de que conhecimento não é apenas o “científico”, todos conhecimentos são “revelações” do que não se sabia. Exemplo, na Doutrina Espírita está escrito há 160 anos atrás, QUE APENAS PODEMOS PERCEBER UM PARTE MUITO PEQUENA DA MATÉRIA, que hoje a ciência chega a cálculos “arrumados” ser em torno de 4,6% da matéria do Universo. Quer dizer, a ciência está descobrindo o que a religião já tinha dito? E por que não se “admitiu” antes? E quando a Bíblia fala da “Gênese”, está fazendo uma “reportagem” de algo? NÃO, ESTÁ APENAS DANDO UMA EXPLICAÇÃO NA ÉPOCA EM QUE FOI DADA, hoje sabemos que está “errada”, mesmo alguém dizendo que se não acreditar, “vai para o inferno”! E vai mesmo?
    arioba.

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