O FIM DAS EXTINÇÕES DE ESPÉCIES ESTÁ À VISTA QUANDO TRAZEMOS ANIMAIS DE VOLTA. (Comentado)

Liberte as bestas que se foram há muito tempo. Nós não veremos um mamute-lanoso em 2017, mas uma série de esquemas para trazer animais de volta da beira da extinção vão começar no próximo ano.

Em risco. Fotos de Sumio Harada/Minden

Em risco. Fotos de Sumio Harada/Minden

As tecnologias genéticas e de células-tronco estão à beira de nos permitir clonar até mesmo animais inférteis em perigo quando o DNA intacto está disponível. E algumas espécies extintas poderiam ser trazidas para a vida ajustando o genoma de um parente próximo vivo. Deve também ser possível engendrar traços perdidos em uma população.

Uma iniciativa envolve o rinoceronte-branco do norte, que é agora extinta restrita a três indivíduos inférteis que vivem no Quênia. Este ano, um plano foi anunciado para usar tecnologias de células-tronco, espécimes congelados e reprodução assistida para fazer novos rinocerontes.

Da mesma forma, o resgate genético poderia ajudar a donina-de-patas-pretas (foto), um dos mamíferos mais ameaçados da América do Norte, a retornar. As primeiras experiências in vitro estão programadas para começar em 2017 e irão combater a endogamia e a resistência à doença, porque um tipo de peste e um vírus intratável coloca em risco de extinção estes animais.

Outro projeto está usando a edição de genes para fazer um galo quimérico a partir das galinhas da pradaria para ajudar a trazer de volta seu parente extinto com saúde. Se ele funcionar, eles esperam reviver o pombo-passageiro em seguida.

Mamutes lanosos estão um pouco além do horizonte. Um projeto está em andamento para dotar os ovos de elefante asiáticos com DNA de mamute. Após o trabalhon feito ao longo do próximo ano, as primeiras tentativas de clonagem estão programadas para 2018.

Jurassic Park ainda está além de nós, mas Pleistocene Park, cheio de animais da era do gelo, pode em breve ser um sonho realista.

Fonte: New Scientist

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Comentários internos

Para compreender melhor a proposta deste texto precisamos ter conhecimento prévio sobre dois pontos específicos: o que é biotecnologia e o que representa eticamente – provocar ou – trazer de volta uma espécie da extinção.

Segundo a Revista Nature, biotecnologia é uma disciplina ampla na qual os processos biológicos, organismos, células ou componentes celulares são explorados para desenvolver novas tecnologias. Novas ferramentas e produtos desenvolvidos por biotecnólogos são úteis na pesquisa agrícola, industrial e na clínica.

A biotecnologia é a utilização de organismos vivos para desenvolver produtos, a aplicação tecnológica para fabricar ou modificar produtos (ou processos) para fins específicos (Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica). Ela pode se comunicar com outros campos relacionados como a bioengenharia, engenharia biomédica e engenharia molecular.

Historicamente, nossa espécie tem utilizado a biotecnologia na agricultura, na produção de alimentos e na medicina (Arizona State University). O termo parece ter sido desenvolvido somente em 1919 pelo engenheiro húngaro Károly Ereky. Porém, no final do século XX e início do século XXI, a biotecnologia se expandiu e diversificou-se em diversas ciências, como a genômica, técnicas de genes-recombinantes, imunologia aplicada e desenvolvimento de terapias farmacêuticas e testes diagnósticos. Isto levou ao desenvolvimento da bioética também.

A biotecnologia abrange então uma ampla gama de procedimentos para modificar os organismos vivos de acordo com os propósitos humanos, voltado à domesticação dos animais, ao cultivo das plantas e “melhorias” a estes através de programas de criação que empregam métodos artificiais, como seleção e hibridização. O uso moderno também inclui engenharia genética, bem como tecnologias de cultura de células e tecidos. Ela absorve também as ciências biológicas puras (bioquímica, biologia celular, embriologia, genética, microbiologia e biologia molecular) e até conhecimentos e métodos de fora da esfera da biologia, bebendo da fonte da bioinformática (cuja abordagem nova marca de ciência da computação), engenharia de bioprocessos, biorobótica e engenharia química.

O que o texto acima esta propondo é fazer uso da biotecnologia para trazer de volta a vida seres que entraram em extinção. A ideia é fazer isto a partir do uso da hibridização, ou porque tiveram seu material genético conservado a partir da coleta de material genético em fragmentos fósseis (criopreservados) ou a partir da conservação de sequencias de DNA previamente estudadas antes da extinção, usando a técnica da clonagem.

Uma das referências da ficção científica mais clássicas e que explorou este potencial foram os filmes do Jurassic Park, embora cientificamente sabe-se da impossibilidade de tal procedimento ser viável em dinossauros.

Tal procedimento pode ser feito, mas somente a partir de espécies que foram extintas há algumas centenas ou milhares de anos, uma vez que é necessário que esses animais ainda possuam seus genes preservados em descendentes ou em condiões de preservação especiais, como criopreservação, no caso de mamutes-lanosos.

Este procedimento é chamado de “des-extinção” (“bio-ressurreição” ou ainda “revivalismo de espécies”). A clonagem é o método mais apropriado para este procedimento. Técnicas semelhantes têm sido aplicadas a espécies ameaçadas.

Há uma controvérsia significativa sobre o des-extinção (Minteer, 2014). Algumas críticas feitas ao procedimento defendem que seria melhor gastar esforços para conservar as espécies existentes, que o habitat necessário para a sobrevivência de espécies extintas é muito limitado para justificar a extinção e que os benefícios da conservação evolutiva dessas operações são questionáveis. Veremos mais sobre isto!

A clonagem é um método bastante apropriado para trazer espécies extintas de volta, e o método foi aprimorado na década de 90. O primeiro animal clonado não foi a ovelha Dolly, mas um girino. Em 1970, o britânico John Gurdon mostrou que a partir de uma célula pode obter a informação genética necessária para produzir um organismo completo. Gurdon fez sua experiência perfurando a membrana de uma célula da pele de um sapo adulto com uma pipeta de vidro e extraiu por sucção seu núcleo. Então ele pegou o núcleo de uma célula intestinal e implantou em um óvulo sem núcleo. Este óvulo foi desenvolvido e tornou-se um girino geneticamente idêntico ao seu doador, uma vez que continham o mesmo DNA. Com esta experiência, Gurdon lançou as bases para a clonagem. No entanto, a clonagem da ovelha Dolly, feita por Ian Wilnut e Keith Campbell foi quem ganhou maior notoriedade (El Tiempo, 2013).

Clonagem

Clonagem

Isto ocorre porque foi o primeiro mamífero a ser clonado. Tal procedimento foi feito a partir de células adultas: o núcleo de uma célula das glândulas mamárias de uma ovelha adulta da raça Finn Dorset (cabeça branca) foi transferido para um oócito com núcleo removido de uma fêmea da raça Scottish Blackface (cabeça preta).

Em janeiro de 2002 a ovelha foi diagnosticada com uma forma rara de artrite, uma doença que não é comum em indivíduos da mesma espécie com essa idade. Este fato levanta questões sobre os processos de envelhecimento de mamíferos clonados. Dolly teria sua real idade ou a sua idade real somada com a da Finn Dorset quando doou o núcleo? Esta é uma questão ética importante em clonagem humana; um clone teria sua identidade real ou a amostra original doadora do material genética seria o verdadeiro “eu”? Muitas pessoas se posicionaram imediatamente contra, pois viam neste procedimento uma ameaça contra a dignidade humana (UFRGS, 2003).

Outro caso em que envolveu a clonagem foi realizado por uma equipe espanhola que clonou o íbex-dos-pireneus (Capra pyrenaica pyrenaica), extinto no ano 2000. A clonagem gerou apenas um filhote, que viveu cerca de 10 minutos devido a uma má-formação dos pulmões.

O que o texto acima discute é a questão da clonagem para fins de conservação de espécies. O pesquisador Stewart Brand propôs trazer de volta o antigo pombo-passageiro e o mamute-lanoso (Mecklenborg, 2012). A ideia é trazer de volta o pombo-passageiro a partir de fragmentos de DNA e amostras de pele de espécimes preservados em museus.

O fóssil de restos de um mamute-lanoso enterrados sob o gelo no Lyakhovsky Ilha Maly foi encontrado por Semyon Grigoryev, chefe da equipe científica. Eles estudavam a costa nordeste da Rússia quando encontraram sangue e tecido muscular. O mamute morreu a cerca de 15 mil anos atrás. De fato, quando o gelo que cobria seu abdômen se rompeu, muito sangue escuro fluiu. Uma das vantagens de se trazer de volta mamutes-lanosos seria auxiliar o restabelecimento da vegetação de estepe no Ártico, cuja característica principal é a presença de plantas rasteiras, em lugar da tundra, vegetação menos rica ecologicamente, composta por musgos, líquens e pequenos arbustos.

Uma equipe de cientistas russos e sul-coreanos planeja desde 2013 a clonagem do mamute-lanoso usando um elefante asiático como uma mãe de aluguel. Foram encontradas grandes quantidades de tecido de mamute bem preservado na Sibéria. Se o processo pode ser concluído, haveria planos até para introduzir os mamutes em um Pleistocene Park, em uma reserva de vida selvagem na Sibéria (Zimmer, 2013). Como a clonagem é uma técnica específica que não pode ser realizada sem uma célula viva, nenhuma esta disponível ainda para os mamutes, então a edição do genoma pode ser viável (Interview: Beth Shapiro, Author Of ‘How To Clone A Mammoth’ : NPR).

Embora os esforços contra a extinção ainda não tenham conseguido produzir descendência viável de uma espécie anteriormente extinta, o mesmo processo tem sido aplicado com sucesso a espécies ameaçadas de extinção. O caso dos Banteng (um tipo de gado selvagem) é uma espécie em extinção que foi clonada com sucesso (World Environment News, 2003) Cientistas do Advanced Cell Technology, de Worcester, Massachusetts, Estados Unidos, extraíram DNA de células do Banteng (gado selvagem) mantidas no zoológico de San Diego, no “Zoológico Congelado”, e transferiram-na para ovos de gado doméstico, um processo chamado transferência de células somáticas. Trinta embriões híbridos foram criados e implantados no útero de bovinos domésticos. O primeiro híbrido nasceu em 1 de abril de 2003, e o segundo, dois dias depois. O segundo foi eutanizado (Nature Biotechnology), mas o primeiro sobreviveu e, a partir de setembro de 2006, permaneceu em boa saúde no Zoológico de San Diego.

Cientistas da Universidade de Newcastle e da Universidade de New South Wales relataram em maio de 2013 a clonagem da rã extinta Rheobatrachus silus usando também o processo de transferência nuclear de células somáticas. Os embriões desenvolveram-se por vários dias, mas morreram. Esta rã foi considerada extinta em 1983.

Como os vertebrados (especialmente anfíbios) enfrentam uma crise de extinção, uma das propostas era viabilizar este tipo de procedimento para prevenir a extinção, enquanto as causas de declínio podem ser identificadas e remediadas.

Outra ideia era trazer de volta a vida o Auroque (Bos primigenius), pois seus genes ainda permanecem presentes no gado moderno, então pesquisadores tentam trazer o Auroque a partir de cruzamentos específicos pra a tentar recriar a espécie. Outro caso comum é o dos Dodôs. Os cientistas também possuem parte do DNA de Dodôs (Raphus cucullatus), mas eles são aves desconhecidas do ponto de vista prático, e portanto, não sabemos se algum animal ainda vivo é próximo o bastante deles para possibilitar a sua volta.

A questão Bioética

Um aspecto essencial no debate sobre a clonagem e a extinção engloba a moralidade e a clonagem de animais e também de humanos. A ética vai vir questionando toda a estrutura moral erguida sobre o assunto. Parte da discussão diz respeito à vulnerabilidade dos futuros indivíduos geneticamente idênticos. As críticas mais árduas apontam e classificam os avanços da ciência como perigosos. Por outro lado, negar o potencial de uma clonagem bem-sucedida parece ser um reflexo tecnofóbico.

A bioética é quem vai tratar deste tema. Nossa sociedade não é eterna e/ou imutável, e os benefícios decorrentes do progresso científico precisam ser alcançados. O que nos garante que deve haver continuidade das pesquisas, porém, com prudência e tolerância, sabendo respeitar os limites entre o necessário e o possível.

A ética vai atuar em cima da percepção de conflitos e contradições humanas que surgem com o passar do tempo e com o desenvolvimento social. Ela vai trabalhar com questionamentos a respeito da autonomia e competência em se posicionar entre os sentimentos e a razão fazendo escolhas, e a coerência desta decisão, fundada na lógica entre pensamento e ação.

A bioética vai usar estes componentes da ética aplicados dentro do desenvolvimento científico. Ela vai lidar com a complexa combinação da revolução científica e as crises de valores promovidas pelas transformações sociais e as transformações científicas.

Este processo é fundamental porque muitas vezes as inovações científicas e tecnológicas passam a antecipar as reflexões filosóficas e a produção de conhecimento científico não acompanha as devidas reflexões que deveriam acompanhar. Por isto, tais reflexões acabam vindo, na maioria das vezes, após a produção de conhecimento técnico e teórico científico sobre um determinado assunto e a discussão ética dessas peculiaridades fica em segundo plano, exercida por filósofos que vão questionar as potencialidades, riscos, vantagens, desdobramentos e consequências de tal conteúdo. Isto ocorre na biotecnologia com as técnicas de transgenia, clonagem, com a inteligência artificial (neuroética), roboética, com a nanotecnologia e mais recentemente com o método de edição de genes CRISPR que vem revisando nossa definição de organismos geneticamente modificados (OGMs).

Carrie Friese, um sociólogo da London School of Economics, teme que a carreira científica engavete a discussão ética a certa de assuntos da biotecnologia. Ele defende que em um animal tudo está inscrito em seu DNA, mas um organismo é mais do que o seu genoma. Sendo assim, ele pergunta: Como, então, você aprende a alimentar, caçar ou voar em um mundo que não está adaptado às suas condições por viver em uma época distinta?

Para não nos tornarmos vítimas da explosão tecnológica não-pensada, é necessária toda uma discussão filosófica sobre o que se trabalhar e como se trabalha, definindo os objetivos e justificativas para tais aplicações.

Do ponto de vista ético, algo mais importante deveria preceder a discussão do revivalismo de espécies, a questão primordial e ética é: porque estamos levando espécies a extinção? Sabemos o porquê, sabemos da crise civilizatória que passamos, mas a questão do revivalismo se tornou primaria (quando deveria ser secundária) porque já se considera a ideia de que vamos continuar extinguindo espécies em um modelo de economia insustentável, que ainda vê a proteção dos recursos naturais e espécies como obstáculo ao desenvolvimento econômico das nações.

Uma das reflexões que pode ser feita sobre a perspectiva de trazer espécies extintas de volta é que isto de certa forma poderia apoiar a destruição de habitats naturais, porque animais que são extintos poderiam a qualquer momento ser revividos em um laboratório. Esta pontuação faz sentido, e deve ser evitada para não cair na situação vexaminosa que virou a questão reciclagem.

A sociedade é bombardeada com o discurso demagógico, marketeiro e politicamente correto da reciclagem. O que deveríamos saber é que a reciclagem per si é somente uma estratégia de um campo de atuação muito maior. A reciclagem é inútil sem o uso de dois recursos que a precedem: “reduzir” o consumo e, portanto, a produção de lixo e dos serviços que demandam impacto nos recursos naturais (água e produção de e luz) “e reutilizar” o que pode ser útil em novas soluções inteligentes (reutilizar garrafas para fazer vasos, por exemplo).

Após estas duas estratégias ecológicas serem tomadas, aquilo que de fato acaba sendo descartado deve, de fato, ir para o “lixo”, na coleta seletiva e ser destinado á reciclagem. O problema do cinismo da reciclagem é que ele é pregado na sociedade somente como “reciclagem”, dando a ilusão de que podemos consumir desenfreadamente produtos e descarta-lo sem preocupação ambiental uma vez que ele é, segundo o discurso demagógico, reciclável. Desta forma, o consumidor é levado pela construção de uma necessidade de obter um produto sem a reflexão que o leva concluir se tal produto é realmente necessário em sua vida, seu impacto no ambiente, ou se é supérfluo e fruto de um discurso marketeiro criador de “necessidades”.

O mesmo ocorre no discurso da bio-ressurreição e que muitos bioeticistas acabam considerando: será que a capacidade tecnológica de reviver uma espécie extinta não alimentará a ilusão de que os recursos naturais podem ser explorados ao seu máximo, que florestas podem ser dizimadas uma vez que podem ser restabelecidas biotecnologicamente?

Não! Não faz sentido alimentar a ilusão de que os habitats podem ser destruídos. Salvar uma espécie através da des-extinção enquanto os seres humanos ainda estão queimando florestas e destruindo comunidades nativas seria um contrassenso absoluto. Muitas espécies clonadas recém-extintas não encontrariam mais seus habitats naturais se voltassem a viver na Terra. E para aquelas extintas a milhares de anos, a máxima também é válida.

Seria inviável do ponto de vista da bio-ressurreição trazer mamutes, uma vez que não vivemos em uma Era do Gelo. Por outro lado, é possível aprender muito sobre um animal extinto através de seus ossos, mas podemos aprender ainda mais de um animal vivo. Neste sentido, a des-extinção, especialmente a abordagem da engenharia genética, pode acelerar o avanço tecnológico. Dependendo da situação, ela pode melhorar a ecologia de uma região. Mas seria viável do ponto de vista da compreensão da conservação de animais relacionados a ele, como por exemplo, elefantes. Isto significa que sem a conservação adequada do habitat adequado não seria viável trazer de volta a vida animais extintos e faz-se necessário projetos de conservação de habitats e toda sua comunidade.

Seria muito legal e interessante ver um mamute-lanoso. Mas o argumento de ser “legal” e “interessante” por si só não é justificável. Seria loucura deixar espécies se extinguirem apenas por pensar que “nós podemos trazê-las de volta no futuro se quisermos”, até mesmo, porque a ressurreição de espécies é sempre um trabalho complexo, custoso e incerto.

Portanto, a melhor estratégia, do ponto de vista da proteção ás espécies ameaçadas de extinção são os mecanismos legais, políticas públicas e muita pesquisa zoológica sobre as espécies para fins conservacionistas. Um exemplo é o elefante marinho setentrional (Mirounga angustirostris) era um animal que se acreditava estar extinto, mas, no início do século XX, uma quantidade relativamente pequena de indivíduos, entre 20 e 100 espécimes, foi encontrada na Ilha de Guadalupe, próxima ao México. Após a implementação de mecanismos de proteção, atualmente a população chegou a 50 mil indivíduos geneticamente diversificados sem uso de biotecnologia.

Dodô - extintos em 1664

Dodô – extintos em 1664

Nossos ancestrais dizimaram muitas espécies, como os mamutes, veado-irlandes, Dodôs, preguiças-gigantes e gliptodons. A questão ética então é: nós realmente temos obrigações com uma espécie extinta?

Tavez não tenhamos obrigações em trazer uma espécie como o mamute-lanosos de volta a vida, mas nas atuais circunstâncias, na atual crise que vivemos, temos uma imensa responsabilidade em garantir o futuro de todas as espécies (inclusive a nossa) ao preservar os recursos naturais. Talvez a maior preocupação não seja os animais extintos, mas os que estão  ameaçados de extinção.

Hank Greely, um bioeticista da Universidade Americana de Stanford defende o revivalismo de espécies, mas não a qualquer custo. Ele ressalta que tais animais tornariam-se inevitavelmente animais de zoológico ou apenas para a experimentação. Ele cita que em alguns casos, a libertação destes animais poderia tornar a espécie invasora e colonizar algumas áreas em detrimento de outros (El Tiempo). Por isto, algumas questões são de interesse público. Por exemplo: Será que os habitantes dos Estados Unidos e do Canadá gostariam de ter de volta os imensos bandos de pombos-viajantes?

Os métodos utilizados mudam conforme a ciência avança. Existem algumas espécies que têm indivíduos vivos, mas estão efetivamente extintas pela baixa diversidade, porque têm poucos animais restantes e eles estão velhos demais para se reproduzir. Para a engenharia genética, duas coisas são necessárias: a sequência do DNA do animal extinto ou a de um animal moderno que seja próxima a de um animal extinto para que ele possa ser modificado e trazer a espécie de volta.

A princípio, essas espécies extintas não poderiam ser reintroduzidas em grandes populações porque representam animais geneticamente idênticos, portanto, com baixa diversidade uma vez que são clones de uma matriz, ou seja, de um único patrimônio genético.

Para a reintrodução de uma espécie inteira seria necessário a variabilidade dentro da espécie para que ela garanta sua sobrevivência e evolução.

Neste sentido, a melhor estratégia seria o uso da biotecnologia para aumentar o número de animais criticamente ameaçados e ajudar espécies ameaçadas de extinção a melhorar sua viabilidade e variabilidade a longo-prazo, disse o ecologista Stanley Temple da Universidade de Wisconsin-Madison. (Live Science)

As pessoas devem observar a biotecnologia como um sistema de cópia de segurança, não como a força motriz na conservação. Ela deve ser um mecanismo de auxílio á conservação e não o mecanismo que trará de volta uma espécie se esforços de conservação falharem, até porque, é necessário mais do que clones de uma única matriz para trazer uma espécie – e toda sua diversidade – de volta a vida.

Como muitos animais estão á beira da extinção na natureza apesar dos esforços de conservação, a biotecnologia pode ser uma ferramenta favorável. Proteger essas espécies é um problema tão grande e complexo que muitos concordam que é crítico jogar tantas estratégias quanto for possível. Desta forma, a biotecnologia ajudará a formar uma rede de segurança, mas a conservação deve preceder tal estratégia (National Geographic, 2003).

Bioética e evolução humana.

Os geneticistas que realizam estudo na área da evolução humana tem a sequência quase completa do DNA dos Neandertais e de outras espécies humanas relativamente recentes, como o hominídeo de Denisova. Mesmo se a experiência fosse bem sucedida, questiona-se se seria responsável traze-los de volta a vida? Como nós trataríamos Neandertais? Que direitos ele teria? Teria os mesmos diretos que a espécie humana mesmo não sendo um Homo sapiens? Seria seguro trazer um Neanderthal de volta a vida? Quais implicações éticas, legais deste procedimento?

Homo neanderthalensis. reconstituição de como seria a face do Neandertal de Gibraltar I. Fonte: Natural History Museum

Homo neanderthalensis. Reconstituição de como seria a face do Neandertal de Gibraltar I. Fonte: Natural History Museum

Todas essas questões são levantadas e pesadas em função do quanto seria produtivo do ponto de vista do conhecimento de nossa espécie trazer ou não tal espécie de volta a vida.

Se fosse possível, que questionamentos e julgamentos um Neanderthal faria sobre ser o resultado de uma experiência? Ou mesmo do seu “eu”?

Este tipo de reflexão foi feita em no filme de ficção científica “Inteligencia artificial” pelo robô David, que na trama era somente um membro de uma linhagem de robôs, porém, com um diferencial; ele possuía um software para sentimentos. Ele entra em conflito sobre ser fruto de uma reprodução serial, fruto de um avanço tecnológico, produzido para finalidades de entretenimento e sem uma identidade humana apesar dos sentimentos.

Assim, o principal desafio bioético em clonar um Neanderthal seria saber se ele seria capaz de compreender e aceitar que nasceu de uma clonagem experimental de um ser já extinto. Saber que é único e que sob a concepção mais direta, ele é apenas um rascunho, uma cópia de algo que não mais existe e uma propriedade privada de uma empresa de biotecnologia. Que consequências teria informa-lo de que ele é um ser quimérico (caso seu genoma seja concebido sinteticamente), fruto de vários genomas fracionados, editados ou simplesmente a copia de alguém que já existiu? Ninguém gostaria de ser o único membro de sua espécie.

Devemos lembrar que há muitas afirmações errôneas promovidas por meios informais de divulgação científica. Então, cabe aqui ressaltar que um clone não traz as informações da vida do indivíduo original. Um clone é um indivíduo novo, geneticamente idêntico a uma matriz que traz unicamente a mesma bagagem genética, mas não as mesmas experiências de vida. Isto significa que um clone de um Neanderthal de Gibraltar I não trará as experiências vividas de sua matriz!

O renascimento de uma espécie de 28 mil anos atrás, como é o caso dos Neandertais, seria uma maravilhosa janela para ver o passado. Permitiria tirar conclusões a respeito de nossa natureza, de nosso corpo, da formação do nosso sistema nervoso central e promoveria uma grande revolução no entendimento de nossa própria biologia. Proporcionaria um impressionante argumento contra os grupos que negam a teoria da evolução, além de permitir o enriquecimento da nossa compreensão sobra a origem da consciência humana e de nossa biodiversidade.

Porém, há outras grandes barreiras que impedem a clonagem do Neanderthal; a clonagem não ocorre em uma placa de Petri, ela depende de mães de aluguel. Isto acaba ressaltando o fato de que uma mãe de aluguel dará a luz a uma espécie não-humana ou quase-humana, e caímos novamente na questão ética. Outra preocupação vem com as diferenças evolucionárias. Um Neanderthal de mais de 28 mil anos atrás poderia sofrer com a falta de imunidade e estar sujeito a doenças. Quem responsabilizaria por tal indivíduo em caso de óbito?

O grande desafio é conseguir criar clones com qualidade de vida e quem sabe num futuro distante possamos nos preocupar com a questão dos Neandertais, mamutes e tilacinos.

É uma luta difícil. Cada espécie difere em termos de fisiologia e ciclo reprodutivo, que precisam ser considerados durante o processo de clonagem. Em cada caso é necessário um processo específico para congelar o sêmen, embriões e outros tecidos. Em 2006, uma equipe de pesquisadores demonstrou que um embrião de veado-Sika, concebido in vitro, até então congelado, poderia ser posteriormente ser implantado em um cervo vermelho comum, levando a um nascimento viável. Em outras espécies próximas este procedimento não foi viável.

Outras técnicas, como a produção de ovócitos de cervo por xeno-transplante de tecido ovariano em camundongos podem ser promissoras. Muitos aspectos éticos da biotecnologia vão mudando conforme novas técnicas vão sendo desenvolvidas. Espera-se que a reflexão sobre o potencial dessas técnicas, desdobramentos causas e consequências acompanhe e que seja pautado em projetos conservacionistas primordialmente.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Biotecnologia, Engenharia Genética, Ética, Bioética, Clonagem, Des-extinção, Revivalismo, Mamute-lanoso, Dolly.

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Referências

Mecklenborg, T. “Cloning Extinct Species, Part II”. Tiger_spot.mapache.org. Retrieved February 29, 2012.
Minteer, B. A. (2014) Is it right to reverse extinction? Nature 509(7500), 261.
World Environment News, Scientists clone endangered Asian banteng, April 9, 2003
Zimer, C (2013). “Bringing Extinct Species Back to Life”. National Geographic. 233: 33–36.
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One thought on “O FIM DAS EXTINÇÕES DE ESPÉCIES ESTÁ À VISTA QUANDO TRAZEMOS ANIMAIS DE VOLTA. (Comentado)

  1. Texto fantasticamente excelente!!!!! Muito bom e esclarecedor mesmo! Dá vontade de ser um biólogo palestrante para divulgá-lo!

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