ESTAS CÉLULAS ARTIFICIAIS NÃO ESTÃO VIVAS – MAS PASSARAM NO TESTE DE TURING. (Comentado)

Eles estão se comunicando com bactérias. 

Os cientistas criaram células artificiais que são tão semelhantes a vida, que enganaram as células naturais levando-as a se comunicar com se fosse um membro da mesma espécie.

Esta torção no clássico teste de Turing significa que nossos robôs não só podem enganar os seres humanos pensando como um de nós – os cientistas podem agora fazer células artificiais que atuam como organismos tão reais, que não podem dizer a diferença.

“Nós estávamos interessados na divisão entre sistemas químicos vivos e não-vivos por algum tempo, mas nunca foi realmente claro onde esta divisão caia” disse um membro da equipe, Sheref S. Mansy da Universidade de Trento, Itália, ao ResearchGate.

“É absolutamente possível fazer células artificiais que possam se comunicar quimicamente com bactérias”.

Proposta há mais de 60 anos pelo cientista britânico Alan Turing, o teste de Turing é projetado para avaliar a inteligência de uma máquina fazendo uma pergunta simples – Ela pode enganar um ser humano induzindo-o a pensar que está tendo uma conversa com outro ser humano?

Robôs de hoje são tão avançados, que até mesmo os seus silêncios estratégicos parecem humanos, e agora os cientistas estão de olho em um tipo diferente de inteligência artificial – células não-vivas construídas no laboratório.

Para fazer suas células artificiais, Mansy e sua equipe construíram minúsculas estruturas parecidas com células embaladas com instruções de DNA que poderiam usar para produzir

RNA, que por sua vez produzia proteínas específicas em resposta a estímulos externos.

Estas proteínas só seriam produzidas na presença de uma molécula bacteriana particular – uma acil-homoserina lactona (AHL).

Quando as células artificiais foram colocadas perto de três espécies diferentes de bactérias – E. coli, Vibrio fischeri, e Pseudomonas aeruginosa – começou a produção de proteínas em resposta a AHL, como relataram os investigadores que “escutaram” seus vizinhos bacterianos.

Mas não basta apenas ouvir a conversa de outra pessoa – se você quiser convencer alguém de que está tão vivo quanto eles, você tem que envolvê-los em uma conversa em dois sentidos.

Uma vez que os pesquisadores puderam provar que suas células artificiais estavam detectando a presença de bactérias vivas, deram-lhes a capacidade de se comunicar com eles, produzindo suas próprias AHLs que poderiam ser interpretadas pelas bactérias.

Este processo imita como as formas de vida simples se comunicam entre si na natureza – como bactérias falam com bactérias, ou bactérias falam com algas – e isso significa que poderíamos teoricamente construir células que atuam como mediadores para organismos que estão tendo problemas para se conectar.

“Células artificiais podem detectar as moléculas que são naturalmente secretadas a partir de bactérias, e em resposta sintetizar e libertar sinais químicos de volta para as bactérias,” Mansy dito Maarten Rikken em ResearchGate.

“Essas células artificiais fazem um trabalho razoavelmente bom de imitar na vida celular natural e podem ser projetadas para mediar caminhos de comunicação entre organismos que não falam naturalmente uns com os outros”.

As células artificiais ainda têm um longo caminho a percorrer, particularmente para serem auto-suficientes.

Como Mansy explica, a “maquinaria de tradução” necessária para que eles para produzir proteínas a partir de esquemas de RNA que foi isolado a partir de bactérias vivas e foram implantadas em células artificiais, mas o cenário ideal seria ter as células que produzem a sua própria maquinaria de tradução.

Dito isto, o fato de que as bactérias vivas em última instância não poderiam dizer a diferença significa que poderíamos construir essas coisas em massa e usá-las para facilitar muita coisa, redes altamente complexas de organismos que nunca costumam se comunicar por conta própria.

E eles poderiam até fazer o oposto. A equipe descobriu que, em alguns casos, as células artificiais podem interferir com a atividade de bactérias causadoras de doenças, o que significa que um dia, poderia usar-los para neutralizar biofilmes – colônias adesivas de bactérias nocivas que são responsáveis por mais de 80% de todas infecções microbianas no corpo.

Com cientistas desvelando os  primeiras organismos “semi-sintéticos”  na semana passada; este embrião humano e porco que está sendo construído no laboratório; e os robôs que passam um teste clássico de auto-consciência, poderemos em breve ter de ajustar a nossa definição de vida como uma construção totalmente natural, e aceitar os nossos homólogos construído em laboratório como (quase) tão boa como a coisa real.

A pesquisa foi publicada na ACS Science.

Fonte: Science Alert

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Comentários internos

O texto destaca o teste de Alan Turing, mas para compreender o significado disto, vamos discutir como funcionava o autômato de Turing e o que o seu criador propôs como método de teste.

O teste de Turing no texto acima, em analogia, indica que dá mesma forma que o teste de Turing mostraria como máquinas e seres humanos poderiam se comunicar sem que homem percebesse que estaria, de fato, conversando com uma máquina (dado o grau de sofisticação e de inteligência artificial), aconteceu entre células sintéticas e bactérias.

Alan Turing é considerado o pai dos computadores. Ele queria descobrir como a mente humana consegue resolver dilemas matemáticos. Turing começou a dar vida a ideia de mecanismos e máquinas de pensar dos quais os filósofos René Descartes e Leibniz já discutiam séculos antes. Descartes se ocupou questionando a possibilidade de criar autômatos (atualmente chamados de robôs) ou mecanismos rudimentares movidos a cordas (na época o cérebro era comparado a um sistema mecânico-hidráulico) que imitassem comportamentos humanos. Descartes construiu seu próprio autômato (chamado de Francine) com uma forma humana. Apesar disto, para Descartes, um robô consciente era impensável, pois suscitaria apenas um horror metafísico. Descartes escreveu em uma carta ao marquês de NewCastle em 23 de novembro de 1646 declarando que a duplicação de características materiais e funcionais de um ser humano poderia ser uma condição necessária, mas insuficiente, para replicar avida mental humana. Para Descartes, um autômato bem construído seria nada mais do que uma obra de engenharia, pois nunca teria uma alma, concedida por Deus.

Alan Turing aceitou o desafio. A ideia por trás do autômato de Turing era criar um dispositivo virtual, cujo funcionamento não dependesse de qualquer base material específica. As linguagens humanas são exemplos disto, pois as palavras representadas por sons ou símbolos representados em uma folha podem ser representados em uma tela virtualmente.

A ideia de Turing girava em torno de um dispositivo com uma fita imaginária infinita, dividida em quadrados iguais com os números 1 e 0 em cada um deles. A máquina, então, apenas identifica o sinal marcado em cada um dos quadrados, um por vez, e entre eles não há nenhum estado intermediário. A mesma ideia estava presente no dualismo mente-cérebro de Descartes, onde não há intermediário entre o cérebro gerando a mente.

Para o filosofo, o mediador “mágico” desta façanha era a glândula pineal, que sabidamente hoje tem um papel fisiológico claramente descrito e não-correspondente a ideia de Descartes. Entretanto, a relação entre Descartes e Turing para a produção do computador e inteligência artificial se mantem.

Autômato de Turing

Autômato de Turing

No mecanismo de Turing, havia também uma tabela de instruções, com um programa passo-a-passo identificado por um número que especifica o seguinte. A atuação da maquina de Turing depende de qual algarismo esta no quadrado, 0 ou 1. As instruções determinam se a fita deve se mover para a esquerda ou direita em relação ao mecanismo de identificação, e se nela deve ser escrito ou apagado os algarismos 0 e 1. Este mecanismo é chamado de código binário presente dentro dos atuais computadores.

Como o número de instruções é finito, significa que quando elas são processadas a máquina deve parar em algum momento indicando a solução de algum problema, e portanto, executou com sucesso um algorítmico (um método passo-a-passo para resolver um problema). Caso a máquina não pare, indica que o problema não tem solução algorítmica, ou que (para Turing) o problema não tem solução.

Por ser um sistema binário, não há pulsos intermediários e tanto a máquina de Turing quanto os computadores funcionam com estados discretos e não-contínuos exatamente na mesma concepção de tempo de Descartes. No universo digital o tempo é uma sequencia de passos que pode ser representada por números e a passagem de um número a outro se dá por pequenos passos mas sem intermediários. Este mecanismo de tempo discreto e não-contínuos é a base das operações mentais humanas, uma janela para o mundo digital.

A ideia de Turing e seu funcionamento esta por trás dos estudos de inteligência artificial e a busca por um sistema que busque a singularidade, ou seja, concretizar um sistema de operações mentais emulados em uma máquina que seja proporcional ou superior a mente humana. Sendo isto alcançado (como uma maquina ganha autonomia, portanto autômato), como saberemos se estamos diante de uma máquina pensante e tão inteligente (ou consciente) quanto o ser humano? Qual o critério para determinar se uma maquina pensa? Seria possível uma máquina fazer tudo o que um ser humano faz, mas nem por isto seria possível dizer que ela e consciente?

Turing elaborou uma estratégia para descobrir se um autômato poderia ser considerado um ser pensante antes dele desvendar a própria natureza do próprio pensamento. A ideia era estar a frente das máquinas para não ser superado por sua autonomia, singularidade e superinteligência. Para isto, Turing elaborou um teste, que foi citado no texto acima, embora tenha sido feito no campo da robótica.

O teste consiste em princípio básico: uma máquina pensa quando não podemos distinguir seu comportamento do de um ser humano.

Atualmente, há várias máquinas que passam no teste de Turing, e pelo que vimos acima, células sintéticas também. Um dos testes de Turing – feito atualmente – consistia em pedir a uma plateia que determinasse qual, dentre três peças musicais, havia sido elaborada por um computador e qual tinha sido escrita pelo famoso Johann Sebastian Bach, há séculos. O teste realizado na Universidade de Oregon em 1997 mostrou que a plateia escolheu a peça musical do computador como se tivesse sido escrita por Bach. A música feita pelo computador foi elaborada pelo programa E.M.I que é responsável por compor músicas. Este programa recebe uma informação musical de algum estilo de música ou de algum compositor, e gera um estimulo musical próprio, intermediário que combina diferenças com originalidade que iguala a de um ser humano.

Neste sentido, observando somente uma característica, o teste de Turing seria impreciso. Como um refinamento do teste, para saber se um computador pensa, bastaria conversar com ele por um determinado período de tempo, por meio de um teclado e ao final, se não for possível descobrir se o interlocutor era uma máquina ou algum ser humano ligado em rede poderíamos afirmar que a máquina pensa. Turing então estabeleceu o Jogo da Imitação.

A ideia central é que há 3 jogadores: Uma mulher (A), um homem (B) e um interrogador (C) que pode ser de qualquer sexo. O interrogador fica em um quarto separado e seu objetivo é identificar o sexo de cada um desses indivíduos, A e B. Por estar isolado em um quarto, ele reconhece os indivíduos como X e Y porque não tem contato visual. No final do jogo ele deve dizer se o indivíduo X e Y é homem ou mulher. Para determinar o sexo de X e Y o interrogador deve formular um questionário cujas perguntas devam ser capciosas, uma vez que X e Y podem mentir em suas respostas. A ideia é questionar os indivíduos, pega-los em suas contradições e mentiras.

Se um dos indivíduos na qual se esta jogando for uma máquina com grande inteligência artificial  é possível que o interlocutor jamais descubra o seu sexo, ou nem perceber que estava jogando com uma máquina, e acreditar que se tratava de um ser humano.

Em 2014 um teste deste tipo foi feito com um júri e conseguiu convencer 33% dos jurados. Embora o percentual seja insuficiente por ser baixo, passou parcialmente pelo teste de Turing.

A ideia deste critério com base na linguagem remonta Descartes porque o filosofo não acreditava que autômatos poderiam algum falar com um ser humano.

A ideia de Turing, é que se uma máquina puder conversar, ela deverá ter uma mente. Mas detectar uma mente não significa necessariamente saber também que ela é produzida por uma máquina.

Igualmente ocorreu no teste de Turing com as células sintéticas acima: a ideia é que se uma célula sintética não-viva puder “conversar” quimicamente com uma bactéria ela vai interagir indiscriminadamente.

Contrariamente ao que Turing supõem, não é um dialogo perfeito mantido até o final o fator decisivo para o sucesso do teste, mas justamente o contrário. A possibilidade de interromper o jogo e revelar a identidade artificial de um dos participantes é que é o objetivo. Uma mente artificialmente competente agirá de forma emulada semelhante a capacidade de consciência e geração de significado. Esta é a grande questão-chave da tecnologia e inteligência artificial.

Um ator com um dialogo de um script decorado não esta agindo conscientemente ou dialogando. Ele esta apenas replicando um roteiro, e não esta consciente do significado do conteúdo dito. Portanto, o teste se finda na ideia de que se a linguagem é sempre entremeada pela consciência e inteligência (como escapar das perguntas capciosas e mentir) então até que ponto não-descobrir que estamos dialogando com um computador vai indicar uma mente artificial inteligente e consciente?

A ideia é diferenciar uma mente artificial pensante e consciente genuína, de um sistema de roteiro semelhante ao de atores é descrita no dilema do quarto chinês. Um computador processa informação sem saber o que esta fazendo, por isto, tal processamento é feito as cegas. Um computador que possa passar no teste de Turing, mas não compreende nada do que faz, não sabe o significado do que esta fazendo. Esta é a linha de raciocínio que esta inserida neste dilema. Em tal dilema, manipula-se símbolos sem qualquer consciência pois o interlocutor não sabe falar chinês, apenas decodifica um sistema de perguntas e respostas, sem consciência ou estados intencionais. Diferente da linguagem humana em que o significado é adquirido pelo através de símbolos linguísticos e estados mentais intencionais que os direciona para fora da mente e transforma a linguagem em um significado poderoso. A linguagem é a representação de estados mentais, representações e em nada parece se assemelhar a código binário 0 e 1 de computadores digitais.

No caso acima, bactérias e células não vivas “dialogam” quimicamente sobre um mesmo alfabeto químico e por isto, passaram no teste de Turing. Apesar de sintético, a comunicação química é correspondente e há uma boa comunicação entre bactérias e a célula sintética.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Teste de Turing, Células, Autômato de Turing, Artificial, Mente, Descartes, Mente, Quarto Chinês, Singuraidade

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Referência

Teixeira, J. F. O Cérebro e o Robô – Inteligência artificial, Biotecnologia e a Nova Ética. Ed. Paulus. 2015.
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