AFINAL, O QUE É ESSA TAL SOPA PRIMORDIAL?

Para entender o que é a Sopa primordial, precisamos entender quais são as evidências em favor da origem da vida na terra e o que de fato sabemos sobre as propriedades poliméricas para a gênese abiótica da vida e condições químicas pré-bióticas da Terra primitiva.

Sem título

Os elementos da tabela periódica (com exceção de hidrogênio) derivam da nucleossíntese estelar. Muitas moléculas complexas, incluindo moléculas orgânicas (importantes para a origem da vida), formam-se naturalmente tanto no espaço (em nebulosas por exemplo), quanto em planetas (Ehrenfreund & Cami, 2010). Essas duas maneiras de sintetizar moléculas orgânicas podem ter chegado a Terra impulsionadas por choques de impacto ou por outras fontes de energia (como a luz ultravioleta, acoplamento redox, ou descargas elétricas, como vimos no experimento de Miller) ou se formado no espaço, nuvens de poeira interestelar e choveram sobre planetas (Gawlowicz, 2011).

A ciência estima a ocorrência de um grande bombardeamento de meteoros e corpos celestes que ocorreu a cerca de 3.5 bilhões de anos, no início da formação da atmosfera do nosso planeta. Nele, muitos materiais orgânicos disponíveis em quantidades comparáveis ​​àquelas produzidas por outras fontes de energia (Chyba & Sagan, 1992) enriqueceram a Terra com compostos capazes de forjar a vida. Embora alguns cientistas cogitem que tal bombardeamento possa eventualmente ter esterilizado a superfície da terra até uma profundidade de dezenas de metros, se a vida evoluiu mais profundamente do que isso, ela também teria sido protegida dos altos níveis iniciais de radiação ultravioleta da fase T Tauri da evolução do sol. Simulações geotérmicas apresentaram um rendimento crostal oceânico de produtos orgânicos muito mais expressivos do que os encontrados nos experimentos de Miller-Urey. Nas fontes hidrotermais profundas (ácidas ou alcalinas), há condições termodinamicamente favoráveis (protônicas ou quimiosmóticas) a formação de compostos orgânicos, como a presença de água do mar e fluidos hidrotermais, que estão longe do equilíbrio e misturam-se avançando em um estado mais estável (Davies, 2007). Essas temperaturas são favoráveis as bactérias hipertermófilas e archaeas, nas quais são geralmente encontradas como base da árvore da vida mais próxima do Last universal commom ancestor (LUCA), ou último ancestral comum universal (Bock, 2007).

Uma das características do que se entende por ser vivo é a capacidade de auto-organização (auto-poiese) e auto-replicação. Existem muitos exemplos de moléculas abióticas que exibem exatamente estas características em condições adequadas. Palasek mostrou em 2013 que a auto-montagem de moléculas de RNA pode ocorrer espontaneamente, devido a fatores físicos em fontes hidrotermais. Ele fez uma abordagem utilizando técnicas de dinâmica de fluidos, termodinâmica, com dados oceanográficos, mecânica estatística e processos estocásticos para analisar a dinâmica de ácidos nucleicos e cinética em uma fonte hidrotermal semelhante as da terra primitiva. As análises constituíram métodos analíticos e computacionais e confirmaram a plausibilidade de uma reação semelhante a técnica de PCR (Polymerse Chain Reaction) envolvendo

Vírus também passam por auto-montagem dentro das células hospedeiras tem implicações para o estudo da origem da vida (Koonin et al, 2006), uma vez que dá mais credibilidade à  hipótese de que a vida poderia ter começado como moléculas orgânicas auto-montáveis.

Múltiplas fontes de energia estavam disponíveis para reações químicas na Terra primitiva. Por exemplo, o calor (processos geotérmicos) é uma fonte de energia para a química padrão, ou ainda, a luz solar e as descargas eléctricas (relâmpagos), entre outros. Reações ​​também podem ser conduzidas por mediadores altamente favoráveis, como no caso da química de ferro-enxofre, que provavelmente foi importante para a fixação do carbono. Tal fixação, através de química de ferro-enxofre é altamente favorável, e ocorre a pH neutro em 100°C. Superfícies de ferro-enxofre, que são abundantes as fontes hidrotermais próximas, também são capazes de produzir pequenas quantidades de aminoácidos e outros metabólitos biológicos (Follmann & Brownson, 2009).

A formamida produz os quatro ribonucleótidos e outras moléculas biológicas quando aquecidas na presença de vários minerais terrestres. Formamida é onipresente no universo, produzido pela reação de água e HCN (cianeto de hidrogênio). Ele tem várias vantagens, a principal é ser um precursor pré-biótico, incluindo a capacidade de tornar-se facilmente concentrado através da evaporação da água (Saladino et al, 2012 & Saladino et al, 2012) Apesar de HCN ser tóxico, ela só afeta organismos aeróbios (eucariotos e bactérias aeróbias) e pode desempenhar papel importante em outros processos químicos, tais como a síntese do aminoácido glicina (Follmann & Brownson, 2009).

A Sopa Primordial e seu potencial

Sopa primordial é um termo criado pelo escocês Jonh B. S. Haldane e pelo biólogo soviético Alexander Oparin em 1924. Eles propuseram uma teoria da origem da vida na Terra através da transformação química gradual de moléculas que contêm carbono na sopa primordial.

O bioquímico Robert Shapiro (1987) resumiu a sopa primordial em etapas:

1) A Terra primitiva tinha uma atmosfera quimicamente redutora.

2) Esta atmosfera, exposta a energia em várias formas, acabava produzindo compostos orgânicos simples (monômeros).

3) Estes compostos acumulados em uma “sopa”, podem ter sido concentrados em vários locais (costas, aberturas oceânicas, fontes hidrotermais etc).

4) Por sua posterior transformação, polímeros orgânicos mais complexos formaram-se, se tornaram auto-poéticos e finalmente a vida surge.

A mistura de gases utilizada no experimento de Miller-Urey simula o conteúdo atmosférico dos primórdios da Terra. Outros gases menos redutores produzem um rendimento químico pré-biótico inferior. Antigamente pensava-se que quantidades apreciáveis ​​de oxigênio molecular estavam presentes na atmosfera pré-biótica, o que teria impedido essencialmente a formação de moléculas orgânicas, embora não seja consenso cientifico.

Foi justamente no experimento de Stanley Miller, e de seu professor Harold Urey que demonstrou-se como as moléculas orgânicas (e não a vida em geração espontânea) poderiam ter se formado espontaneamente a partir de precursores inorgânicos, sob condições como as quais foram propostas por Oparin-Haldane. O famoso “experimento de Miller-Urey” usou uma mistura altamente reduzida de gases-metano, amônia e hidrogênio para formar monômeros orgânicos básicos, tais como aminoácidos (Bernal, 2013) e desde então apoia a sopa primordial.

Além do ensaio de Miller-Urey, o próximo passo mais importante na investigação em síntese orgânica pré-biótica foi a demonstração de Oró de que as base de purina e adenina foram formadas por aquecimento de soluções de cianeto de amônio aquoso (Oparin, 1938) dando mais suporte a sopa primordial e a origem abiogenese da vida em soluções eutéticas de matriz congelada. Este trabalho recentemente demonstrou a formação de s-triazinas (nucleobases alternativas), pirimidinas (incluindo citosina e uracilo), e adenina a partir de soluções de ureia submetidas a ciclos de congelamento/descongelamento em uma atmosfera redutora (com descargas de faíscas como uma fonte de energia)(Scientific American, 2005).

A formação espontânea de polímeros a partir de monômeros abióticos complexos gerados sob as condições da sopa primordial de Haldane e Oparin não é um processo simples. Alguns monômeros orgânicos básicos necessários foram sintetizados, e outros compostos que interferiam na formação de polímeros foram formados em alta concentração durante as experiências de Miller-Urey e Oró (Oró & Kimball,1961). O experimento de Miller-Urey, por exemplo, produz muitas substâncias que reagem com o aminoácidos e quebram seu acoplamento em cadeias peptídicas (Ahuja, 2006).

Hoje, a ciência estuda possíveis catalizadores dessas reações não-enzimáticas pré-bióticas. Catalisadores são substâncias que aceleram reações químicas e a produção de produtos químicas, e no caso da origem da vida, são substâncias que catalizam a duplicação de si mesmas. São replicadores molecular simples. Os sistemas químicos auto-replicantes mais simples e auto-catalítico contém três componentes: dois precursores que se unem para formar uma molécula de produto, e a própria molécula produto. A molécula do produto catalisa a reação, proporcionando um modelo complementar que se liga a precursores, assim servindo de modelo para a síntese de um polímero paralelo. Tais sistemas têm sido demonstrados tanto em macromoléculas biológicas como em pequenas moléculas orgânicas (Paul & Joyce, 2004 e Bissette & Fletcher, 2013). Sistemas que não prosseguem por mecanismos de molde, tais como a auto-reprodução das micelas e vesículas, foram também observados.

Júlio Rebek e seus colegas no Instituto Scripps Research na Califórnia combinaram amino-adenosina e pentafluorofenil ésteres com o amino éster de catalisadores para automóveis adenosina triácido que catalisou a síntese de si mesmos. Esta experiência demonstrou a possibilidade de que catalisadores poderiam exibir certa concorrência dentro de uma população de entidades com hereditariedade, o que poderia ser interpretado como uma forma rudimentar de seleção natural. Mas já no início da década de 1970, Manfred Eigen e Peter Schuster analisaram fases transitórias entre caos molecular e um hiperciclo auto-replicante em uma sopa pré-biótica (Schuster & Eigen, 1979) Em um hiperciclo, o sistema de armazenamento de informações (possivelmente RNA) produz uma enzima, que catalisa a formação de um outro sistema de informação, em sequência até que o produto dos últimos auxilia na formação do primeiro sistema de informação. Matematicamente tratados, hiperciclos poderiam criar espécies que através da seleção natural entraram em uma forma de evolução darwiniana. Um impulso à teoria hiperciclo foi a descoberta de ribozimas capazes de catalisar as suas próprias reações químicas. A teoria hiperciclo requer a existência de bioquímicos complexos, como nucleotídeos, que não se formaram nas condições propostas pelo experimento de Miller-Urey, mas se formam e condições eutéticas ou em condições estelares e poderiam ter sido carregados para a Terra.

A sopa primordial ainda pode auxiliar a entender a homoquiralidade das moléculas orgânicas. Homoquiralidade é uma propriedade geométrica de alguns materiais compostos de unidades quirais. Quiral são formas 3D não sobreponíveis que são imagens espelhadas uma da outra, tal nossas mãos esquerda e direita,que não são sobreponíveis. Os organismos vivos usam moléculas que têm a mesma quiralidade: com algumas exceções, os aminoácidos são “canhotos”, enquanto nucleotídeos e açúcares são “destros”. As moléculas quirais podem ser sintetizados, mas na ausência de uma fonte quiral ou de um catalisador quiral, eles são formados numa mistura de ambos os enantiômeros de 50/50. Para isto, damos o nome de mistura racêmica. Os mecanismos conhecidos para a produção de misturas não-racêmicas a partir de soluções racêmicos incluem leis físicas assimétricas, como a interação eletrofraca, ou  ambientes assimétricos, como as causadas pela luz polarizada. Além disto há também cristais de quartzo, a rotação da terra e flutuações estatísticas durante a síntese racêmica (Plasson et al, 2007).

Um pequeno excesso enantiomérico pode ser amplificado por uma auto-catálise assimétrica, tal como na reação Soai (Shibata et al, 1996). Essa reação é a alquilação de pirimidina-5-carbaldeído com di-isopropilzinco. Tal reação é auto-catalítica e leva a aumentar rapidamente quantidades do mesmo enantiômero do produto. O álcool-pirimidilo é quiral e induz a mesma quiralidade em mais ciclos catalíticos. Começando com um baixo excesso enantiomérico que gera um produto com alto excesso enantiomérico (Flügel, 2011)

Sem título

Reação Soai

Além disso, outros aditivos quirais podem ser utilizados como a fonte inicial de indução assimétrica, com o produto principal da reação sendo que primeiro amplificado rapidamente (Scientific American, 2005). Em autocatálise assimétrica, o catalisador é uma molécula quiral. Isso significa que que uma molécula quiral é catalisada a sua própria produção. Um excesso enantiomérico inicial pode ser produzido por luz polarizada, em seguida, faz com que seja mais abundante em relação a o outro e prevaleça se auto-perpetuando (Soai et al, 2001).

Em seu livro “A Origem da Vida” Oparin propôs um tipo de “geração espontânea da vida”. Entretanto, tal proposta já havia sido atacada e refutada por Louis Pasteur. Isso causa certa confusão até hoje para as pessoas que não entendem exatamente a diferença entre geração espontânea e a abiogênese. Tal alegação acabou combinando-se com pessoas mal-intencionadas e movimentos anti-ciência ou (pseudocientíficos especialmente fanáticos religiosos), e acabou criando ainda mais confusões e falsas prerrogativas.

Diante das evidências retiradas na sopa primordial de Oparin-Haldane e os experimentos de Miller-Urey as condições encontradas na Terra primitiva tinha mudado o panorama sobre a origem da vida, embora isso não signifique que organismos complexos, altamente bem estruturados “explodam” em vida espontaneamente.

Oparin argumentou que a “sopa primordial” de moléculas orgânicas pode ser criada em uma atmosfera sem oxigênio por meio da ação da luz solar. Estes combinariam formas cada vez mais complexas até formar gotículas de aglomerados moleculares que ele chamou de coacervado.

Essas moléculas foram envolvidas pela água devido ao potencial de ionização e “cresceriam” por fusão com outras gotículas, e “reproduziriam-se” através da fissão em gotas filha, e por isso têm um metabolismo primitivo em que os fatores que promovem a “integridade” sobreviveriam por principio darwiniano. Muitas teorias modernas sobre a origem da vida ainda tomam as idéias de Oparin como ponto de partida, embora nosso conhecimento sobre a sopa primordial tenha aprimorado cada vez mais dando uma visão mais específica, técnica e cientificamente bem estruturada. Vale salientar que Haldane e Oparin não concluíram isso em uma publicação única, mas cada um independentemente chegou a mesma proposta.

Haldane sugeriu que os oceanos pré-bióticos da Terra continham uma “sopa quente diluída”, em que os compostos orgânicos poderiam ter se formado. O pesquisador J.D. Bernal, especialista em cristalografia de raios-x, chamou esta ideia biopoiesis (ou biopoese), o processo da matéria viva evoluindo de modo auto-replicante, mas não por moléculas vivas (Bernal,  1969 & Bryson, 2004) e propôs que a biopoiese passa por uma série de etapas intermediárias. A principal, e primeira evidência da sopa primordial veio do experimento de Urey-Miller, e claro, posteriormente com a descoberta de vias de síntese não-enzimática dos ácidos nucleicos em nebulosas e porções frias do espaço.

Bernal mostra que a princípio, não há nenhuma dificuldade em formar a maioria das moléculas básicas a vida em seus precursores inorgânicos. A hipótese dada por Oparin, Haldane, Bernal, Miller e Urey foi de que várias condições na Terra primitiva favoreceram reações químicas que sintetizaram um conjunto de compostos orgânicos complexos a partir de precursores simples. E isso a química da vida vem constatando diariamente.

Em 2011 uma re-elaboração do trabalho de Miller e Urey, utilizando equipamentos e tecnologia mais modernas descobriu mais componentes bioquímicos que originalmente não foram percebidos na década de 1950. Uma das descobertas mais importantes foi de 23 aminoácidos, muito mais do que os que Miller encontrou em 1952.

Na tentativa de descobrir os estágios intermediários de abiogênese mencionados por Bernal, o pesquisador Sidney W. Fox na década de 50 e 60, estudou a formação espontânea de estruturas peptídicas em condições pré-bióticas. Ele conseguiu demonstrar que os aminoácidos poderiam formar e organizar-se espontaneamente em pequenas cadeias chamadas peptídeos. Em um de seus experimentos, ele ligou aminoácidos a estrutura se consolidava de forma reticulada, moléculas de polipéptido, sub-microscópicas filiformes que hoje recebe o nome de “microesferas proteinóides longos” (Arizona, 2008).

Microesferas de proteinóides

Microesferas de proteinóides

Em outro experimento utilizando um método semelhante para Fox recolheu material vulcânico do Havaí e descobriu que a temperatura foi superior a 100°C abaixo de apenas 4 polegadas (100 mm) da superfície do cone de cinza houve a formação de moléculas que poderiam ter formado peptídeos e em seguida, poderiam ter sido lavados até o mar ou alguma solução que fosse a sopa primordial.

Ao colocar tais moléculas formadas por aminoácidos derivados de metano, amoníaco,  água e cozido a lava por algumas horas em um forno de vidro, uma substância marrom, pegajosa foi formada sobre a superfície. Descobriu-se que os aminoácidos se combinaram para formar proteinóides. Eles tinham se combinado para formar pequenas gotículas que Fox chamou de “microesferas”. Seus proteinóides não eram células, embora eles formaram aglomerados e cadeias reminiscentes de cianobactérias, ainda que não houvesse ácidos nucleicos funcionais ou qualquer informação codificada (Woodward, 1969).

Geração Espontânea ou Abiogênese?

Ainda se confunde geração espontânea com abiogênese. De fato, no passado, ambas tiveram o mesmo significado, mas há algumas décadas tais palavras deixaram de ser significado devido aos experimentos feitos pelo Pasteur e aos frutos obtidos pelo desenvolvimento da biopoese.

A geração espontânea há muito tempo foi descartada pela ciência. Ela consistia basicamente na suposição de que organismos mais complexos (do que se observa diariamente), não se originavam apenas de seus progenitores, mas de qualquer ser inanimado. Os primeiros defensores da geração espontânea eram Anaximandro, posteriormente seu aluno Anaxímenes e depois Xenófanes, Parmênides, Empédocles, Demócrito, e Anaxágoras.

O defensor mais famoso dessa hipótese na antiguidade foi Aristóteles há mais de dois mil anos supunha a existência de um “princípio ativo” dentro de certas porções da matéria inanimada. Para ele, esse princípio ativo organizador seria responsável pelo desenvolvimento da vida espontaneamente, ou de um ovo no animal adulto, onde cada tipo de ovo tinha um princípio organizador diferente, de acordo com o tipo de ser vivo. Esse mesmo princípio também tornaria possível que seres vivos completamente formados eventualmente surgissem a partir da “matéria bruta”.

Algumas observações feitas por pessoas comuns, no dia-a-dia, pareciam reforçar essas ideias: o fato de aparecerem larvas de insetos sobre o lixo em decomposição, por exemplo, alimentou a ideia de que as larvas teriam “brotado” do lixo (não se conheciam, na época, os detalhes da reprodução dos insetos). Girinos surgirem na água de uma poça de um dia para outro. Tudo parecia ser a prova de que tinham se originado diretamente da lama da poça. Com a descoberta dos microrganismos, depois da construção do microscópio pelo holandês Leeuwenhoek, no século XVII, representou mais um argumento a favor da geração espontânea: não se podia imaginar que seres tão simples pudessem possuir qualquer método de reprodução.

A situação chegou a tal ponto que, por volta do século XVII, o belga Van Helmont anunciou uma famosa “receita” para obter ratos, a partir da mistura de roupa suja com sementes de trigo. Pouco tempo depois, no entanto, o italiano Francesco Redi demonstrou por meio de um engenhoso experimento, que o surgimento de larvas na carne em decomposição não se dava espontaneamente, mas através de moscas que ali depositavam seus ovos.

Uma famosa polêmica entre os defensores e os atacantes da doutrina da abiogênese surgiu. No século seguinte, o debate ficou acirrado entre o inglês John Needham (defensor das ideias de geração espontânea) e o italiano Lazaro Spallanzani (refutador da geração espontânea). O inglês realizou várias experiências utilizando-se de variados “caldos nutritivos”, constatando seguidamente a proliferação de microrganismos em seus recipientes. Spallanzani acusou, então, Needham de não ter procedido com a total eliminação dos micróbios em seus caldos. Para demonstrar o método correto e refutar a geração espontânea Needham ferveu os caldos e em seguida fechou-se hermeticamente. Ele demonstrou que não havia crescimento de microrganismos enquanto os frascos não fossem novamente abertos. Mas Needham retrucou, acusando Spallanzani de ter destruído, pelo calor, o “princípio vital” de suas infusões nutritivas (SoBiologia).

Essa concorrência de teorias se manteve até o século XIX, quando o francês Louis Pasteur derrubou de vez a geração espontânea, por meio de alguns experimentos simples na qual é bastante conhecido na historia da biologia (Veja aqui). Durante aproximadamente 2.350 anos o modelo de geração espontânea foi vigente.

A abiogênese designa de modo geral o estudo sobre a origem da vida a partir de matéria não viva. Há que se fazer distinções entre os termos que a ela podem ser atribuídos. Atualmente o termo é usado em referência à origem química da vida a partir de reações em compostos orgânicos originados abioticamente, como vimos acima.

Ainda sim, esta designação é ambígua, pois muitos pesquisadores se referem ao mesmo processo utilizando o termo “biogênese”.

Atualmente, o termo abiogênese (“origem não biológica”) é usado em referência à origem química da vida a partir de reações em compostos orgânicos originados abioticamente, sendo essa ideia geralmente referida como abiogênese química. Paradigma científico atualmente válido para a origem da vida. Segundo a abiogênese química a primeira proto-célula, com capacidade de auto-reprodução, teve origem diretamente na matéria inanimada, e uma vez presente, por evolução, derivou-se ao longo do tempo e por reprodução deu a origem a toda a diversidade biológica no planeta. A abiogênese química não implica na origem direta de organismos complexos a partir da matéria inanimada (Wilkins, 2004).

O suporte para a abiogênese química, ou biopoese encontra forte corroboração na árvore da vida, que remete todos os seres vivos do planeta não apenas a ancestrais comuns mas também os converge a um único ancestral comum (LUCA). Portanto, a proposta do RNA-world é uma da teoria abiogênese e não de geração espontânea. A distinção entre abiogênese e geração espontânea é clara.

Assim, a sopa primordial de Haldane e Oparin – apesar de críticas e de novas constatações – segue em frente com sua proposta lógica central: de que durante a evolução química gradual de moléculas que contêm carbono da Terra pré-biótica a vida se originou, nos permitindo hoje, refletir sobre os aspectos bioquímicos e filosóficos mais básicos do que nos faze ser vivo.

Victor Rossetti

Palavras Chave: NetNature, Rossetti, Sopa Primordial, Haldane, Oparin, Bernal, Miller, Urey, Oró, vida, Polímeros, Auto-poiese, Biopoese, Química Pré-Biótica.

 

Referências

Ehrenfreund, P; Cami, J (2010). “Cosmic carbon chemistry: from the interstellar medium to the early Earth.”. Cold Spring Harb Perspect Biol 2 (12): a002097.
Gawlowicz, Susan (6 November 2011). “Carbon-based organic ‘carriers’ in interstellar dust clouds? Newly discovered diffuse interstellar bands”. Rochester Institute of Technology (Science Daily).
Chyba, Christopher; Sagan, Carl (1992). “Endogenous production, exogenous delivery and impact-shock synthesis of organic molecules: an inventory for the origins of life”. Nature 355 (6356): 125–32.
Davies, P (19 November 2007). “Are Aliens Among Us?”. Scientific American
Bock, Gregory; Goode, Jamie. Evolution of Hydrothermal Ecosystems on Earth (and Mars?). Wiley & Sons (2007).
Palasek, Stan (2013). “Primordial RNA Replication and Applications in PCR Technology”.
Koonin, EV; Senkevich, TG; Dolja, VV (2006). “The ancient Virus World and evolution of cells”. Biol. Direct 1: 29.
Follmann, H; Brownson, C (2009). “Darwin’s warm little pond revisited: from molecules to the origin of life”. Naturwissenschaften 96 (11): 1265–92.
Saladino, R; Crestini, C; Pino, S; Costanzo, G; Di, Mauro E (2012). “Formamide and the origin of life.”. Phys Life Rev 9 (1): 84–104.
Saladino, R; Botta, G; Pino, S; Costanzo, G; Di Mauro, E (2012). “From the one-carbon amide formamide to RNA all the steps are prebiotically possible”. Biochimie 94 (7): 1451–6.
Shapiro, Robert (1987). Origins: A Skeptic’s Guide to the Creation of Life on Earth. Bantam Books. p. 110.
Bernal, JB. Florkin. (22 October 2013). “Problem of the stages in biopoesis”. Aspects of the Origin of Life: International Series of Monographs on Pure and Applied Biology. Elsevier. pp. 30
Bernal, J.D. (1969). Origins of Life. London: Wiedenfeld and Nicholson.
Oparin, Aleksandr Ivanovich (20 February 2003). The Origin of Life. Courier Dover Publications. p. vi.
“Did life come from another world?”. Scientific American 293 (5): 64–71. 2005.
Oró, J.; Kimball, A.P. (1961). “Synthesis of purines under possible primitive Earth conditions”. Archives of biochemistry and biophysics.
Ahuja, Mukesh, ed. (2006). “Origin of Life”. Life Science 1. Isha Books. p. 11.
Paul, N; Joyce, GF (2004). “Minimal self-replicating systems.”. Curr Opin Chem Biol 8 (6): 634–9.
Bissette, AJ; Fletcher, SP (2013). “Mechanisms of autocatalysis”. Angew Chem Int Ed Engl 52 (49): 12800–26.
Schuster, P.; Eigen, M. (1979). The hypercycle, a principle of natural self-organization. Berlin: Springer-Verlag.
Plasson, R; Kondepudi, DK; Bersini, H; Commeyras, A; Asakura, K (2007). “Emergence of homochirality in far-from-equilibrium systems: mechanisms and role in prebiotic chemistry.”. Chirality 19 (8): 589–600.
Shibata, Takanori; Morioka, Hiroshi; Hayase, Tadakatsu; Choji, Kaori; Soai, Kenso (1996). “Highly Enantioselective Catalytic Asymmetric Automultiplication of Chiral Pyrimidyl Alcohol”. J. Am. Chem. Soc. 118 (2): 471–472.
Flügel, Rolf M. (January 11, 2011). Chirality and Life: A Short Introduction to the Early Phases of Chemical Evolution. Springer. pp. 16–17.
John S. Wilkins (2004). Spontaneous Generation and the Origin of Life. The Talk.Origins Archive
Soai, K; Sato, I; Shibata, T (2001). “Asymmetric autocatalysis and the origin of chiral homogeneity in organic compounds.”. Chem Rec 1 (4): 321–32.
Bryson, Bill (2004). A short history of nearly everything. London: Black Swan. pp. 300–2.
Experiments on origin of organic molecules”. Nitro.biosci.arizona.edu. Retrieved 2008-01-13.
Woodward, Robert J., Photo editor (1969). Our amazing world of Nature: its marvels and mysteries. Reader’s Digest Association.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s