Homo naledi TEM APENAS 250 MIL – E É POR ISSO QUE IMPORTA. (Comentado)

Em 2013, Lee Berger, da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, e seus colegas fizeram uma extraordinária descoberta – no fundo de um sistema de cavernas sul-africano, encontraram milhares de ossos pertencentes a uma nova espécie de humanos primitivos – e agora podemos finalmente saber quando esta espécie viveu e como ela se encaixa em nossa árvore evolutiva.

Stefan Heunis / AFP / Getty Images

Em 2015 estava ficando claro que a nova espécie, que foi nomeada Homo naledi, era diferente de tudo o que os pesquisadores descobriram antes. Embora partes de seu esqueleto parecessem idênticas à nossa anatomia humana moderna, ela tinha algumas características que eram surpreendentemente primitivas – incluindo um crânio que era apenas ligeiramente maior do que o de um chimpanzé.

Mas Berger e seus colegas tiveram dificuldade em estabelecer a idade dos fósseis de H. naledi. Sem essa informação, a maioria dos outros pesquisadores concordou que o verdadeiro significado de H. naledi para a compreensão da evolução humana não estava claro. As suposições variaram de tão velho quanto 2 milhões de anos a tão novos quanto 100 mil anos.

Hoje, a notícia é que a equipe de Berger finalmente encontrou uma maneira de datar os fósseis. Em uma entrevista publicada pela revista National Geographic, Berger revelou que os fósseis H. naledi têm entre 300 e 200 mil anos de idade.

“Isso é surpreendentemente jovem para uma espécie que ainda exibe características primitivas encontradas em fósseis de cerca de 2 milhões de anos, como o pequeno tamanho do cérebro, dedos curvos e forma do ombro, tronco e quadril comum”, diz Chris Stringer na Natural Museu de História em Londres.

Aqui, abordamos algumas das implicações do anúncio, à medida que esperamos a publicação completa dos resultados.

Por que demorou tanto tempo para estabelecer a idade dos fósseis?

Pode ser surpreendentemente difícil descobrir como os ossos fósseis são velhos. Muitas das técnicas que os pesquisadores podem usar requer a análise isotópica de amostras ósseas. Berger e seus colegas relutam em usar essas técnicas, porque envolvem a destruição de pequenas amostras de preciosos materiais fósseis.

Outra opção é a data da rocha ou sedimento que cobrem a camada em que os fósseis são encontrados. Antigos fluxos de lava, em particular, contêm assinaturas químicas que são perfeitas para a datação isotópica. Mas os restos de H. naledi foram encontrados em uma caverna em que não havia nenhuma camada sedimentar facilmente datada cobrindo os fósseis.

Os pesquisadores também podem trabalhar a idade áspera dos fósseis, olhando para os restos fósseis de outras espécies encontradas ao lado deles, se a idade dessas outras espécies já foi estabelecida. A caverna em que os fósseis de H. naledi foram encontrados não contém praticamente nenhum osso de outras espécies, tornando esta abordagem difícil.

Então, como Berger e seus colegas calcularam a idade dos fósseis?

Ainda não sabemos. Os artigos científicos em que essas informações serão reveladas ainda não foram publicados. A entrevista de National Geographic menciona que Berger e seus colegas encontraram uma segunda câmara de caverna contendo mais restos de H. naledi – talvez esses fósseis adicionais estejam preservados em um contexto que tornava os dados menos desafiadores.

Se os fósseis são 300 a 200 mil anos de idade o que isso significa?

Nossos primeiros antepassados ​​hominíneos viveram há pelo menos 7 milhões de anos. A primeira espécie a parecer um pouco como seres humanos modernos apareceu entre cerca de dois e três milhões de anos atrás.

Mas nossa própria espécie – Homo sapiens – surgiu a cerca de 200 mil anos atrás.

Então, se H. naledi viveu entre 300 e 200 mil anos atrás, isso é uma notável descoberta.

Significa que uma espécie de humano com algumas características surpreendentemente primitivas – incluindo um minúsculo crânio e cérebro – sobreviveu até um passado relativamente recente. É concebível, que o H. naledi pôde mesmo ter encontrado membros adiantados de nossa espécie, H. sapiens. Poderíamos até mesmo especular que tínhamos algo a ver com a extinção.

A idade nos ajuda a descobrir onde H. naledi se encaixa na árvore evolutiva humana?

Provavelmente depende de quem você pegar. Baseado puramente em sua estranha anatomia, H. naledi parece pertencer a algum lugar perto da própria base da árvore genealógica “verdadeiramente humana” – uma idéia sugerida em alguns estudos dos fósseis.

Mas sabemos que os primeiros seres humanos primitivos apareceram há mais de 2 milhões de anos. Se H. naledi tem apenas 300 mil anos, alguns pesquisadores podem argumentar que não pode pertencer à base de nossa árvore genealógica. É muito jovem. Talvez ele tivesse um antepassado de aparência moderna e mais tarde evoluiu características de aparência primitiva.

Mas é, na verdade, perfeitamente possível que H. naledi realmente pertença em algum lugar perto da base de nossa árvore evolutiva humana.

A espécie pode ter evoluído há mais de 2 milhões de anos, como um dos primeiros “verdadeiros” seres humanos, e depois sobreviveu, inalterada, por centenas de milhares de anos.

“Poderia estar perto da origem do gênero Homo, sugerindo que esta é uma espécie de relíquia, mantendo muitos traços primitivos de um tempo muito anterior”, diz Stringer.

Berger já falou sobre essa possibilidade. Ele diz que H. naledi pode ser como uma versão humana do celacantídeo – um peixe primitivo com antepassados ​​que apareceu pela primeira vez há 400 milhões de anos, mas que ainda é encontrado nos oceanos de hoje.

Existe algum precedente para essa idéia no registro fóssil humano?

Sim – potencialmente. Cerca de uma década atrás pesquisadores do lado oposto do mundo, na Indonésia, fizeram outra surpreendente descoberta: encontraram restos de outra antiga espécie humana com uma pequena cabeça de chimpanzé que também viveu há algumas centenas de milhares de anos. É chamado Homo floresiensis – embora seja mais conhecido por seu apelido: o “hobbit”.

Pesquisadores têm discutido sobre o lugar de H. floresiensis na árvore genealógica humana há anos. Na semana passada, um artigo reavivou a idéia de que H. floresiensis pode traçar suas raízes de volta a uma espécie humana muito antiga, a chamada H. habilis que sabemos que viveu na África há mais de 2 milhões de anos.

A idéia é que uma população de H. habilis deixou a África cerca de dois milhões de anos atrás e gradualmente se moveu pela Ásia, chegando finalmente à Indonésia. Se essa idéia for correta, H. floresiensis cai em um dos ramos mais baixos na árvore genealógica “verdadeira” humana, apesar de sua tenra idade, porque evoluiu diretamente do primitivo H. habilis.

Em outras palavras, espécies de seres humanos evolutivamente primitivos poderiam, em algumas circunstâncias, ser capazes de sobreviver por centenas de milhares de anos.

“Existem paralelos óbvios com a sobrevivência tardia de H. floresiensis na Indonésia, mas nesse caso o isolamento de ilha provavelmente explica sua longevidade”, diz Stringer. “Como uma espécie comparativamente estranha e de cérebro pequeno permaneceu no sul da África, aparentemente junto com seres humanos mais ‘avançados’?”

O que aconteceu com H. naledi no final?

Ainda não existem respostas para esta questão. Mas se os fósseis são realmente de apenas 300 a 200 mil anos de idade, há pelo menos um cenário possível. Nossa espécie, H. sapiens, evoluiu na África cerca de 200 mil anos atrás. Se os primeiros H. sapiens chegaram ao sul da África pouco depois, poderiam ter contribuído para a extinção de H. naledi.

Novamente, há precedente para isso. O registro fóssil em outras partes do mundo mostra que H. sapiens deixou a África e se espalhou gradualmente pela Eurásia. Ao fazê-lo, H. sapiens chegou em áreas já povoadas por seres humanos antigos – espécies como os Neandertais. Dentro de alguns milhares de anos de H. sapiens que chegam nestas áreas novas, as espécies “indígenas” de seres humanos antigos desapareceram, aparentemente superado pelos H. sapiens.

Até o hobbit, H. floresiensis, parece ter sofrido esse destino. A informação mais recente sugere que ela foi extinta há 50 mil anos – quase na mesma época em que o H. sapiens chegou nesta parte da Indonésia. H. naledi pode ter a honra duvidosa de ser a primeira espécie humana antiga a ter sido levado à extinção pela propagação de nossa espécie. Mas isso ainda é especulação no momento.

Fonte: New Scientist

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Comentários Internos

Como a equipe de Lee Berger (autor da descoberta do Homo naledi) ainda não se pronunciou formalmente a partir de uma publicação em artigo que justifique quais critérios foram utilizados para o processo de datação, temos somente a data de 250-300 mil anos, conforme anunciado acima. Esta datação pode ter vários significados: o primeiro, é que se ela se confirmar, pode tirar a promessa de que o H. naledi poderia ser parte da transição de australopitecíneos para o gênero Homo (que ocorreu a 2.5 milhões de anos). Deixando para outros hominídeos a resolução do mistério.

O processo de datação do H. naledi certamente foi feito de modo diferente do convencional dado as condições que foram encontrados os fósseis: sepultados e sem as características convencionais no terreno que facilitam a datação.

Segundo, se de fato esta data oferecida por Berger estiver correta ela pode indicar que o H naledi, pode ser realmente uma nova espécie ou uma variedade de H. erectus (um suposto “Homo erectus naledi”). Considerando que muitos hominídeos que inicialmente foram nomeados em novas espécies acabaram sendo incorporados ao status de variedades de uma espécie – como é o caso do H. erectus que apresenta variedades e características mosaicas.

Então existe a possibilidade de que o H. naledi seja uma variedade de H. eretus?

Tecnicamente sim! Em um estudo recente dirigido por Debbie Argue (2017) que destacou o posicionamento filogenético do Homo floresiensis ao lado do H. habilis – como espécies irmãs – estatisticamente também posicionou o H. naledi ao lado de H. erectus georgicus.

Argue et al, 2017 em seu estudo sobre Homo floresiensis.

Ainda que o H. naledi seja uma espécie irmã ou mesmo uma variedade do H. erectus, ele traz uma informação importante: sepultamentos elaborados a cerca de 250-300 mil anos em uma espécie que acreditava-se não ter uma capacidade simbólica tão rebuscada.

Isto pode indicar que esta espécie tinha uma capacidade cognitiva e simbólica considerável exigindo uma certa sofisticação emocional. Como vimos, apesar do cérebro relativamente pequeno, fragmentos do crânio do H. naledi com endomoldes do encéfalo indicam competências cognitivas comparáveis a do H. sapiens.

Saiba mais em: E AGORA, ONDE ENFIAR O Homo naledi? e Homo naledi: DETERMINAR A IDADE DOS FÓSSEIS NÃO É UMA CIÊNCIA EXATA.

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Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Homo naledi, Datação, Homo erectus, Homo habilis, evolução humana.

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One thought on “Homo naledi TEM APENAS 250 MIL – E É POR ISSO QUE IMPORTA. (Comentado)

  1. Os multi-regionalistas mais estritos já propuseram que eles podem ser os ancestrais dos pigmeus africanos? Trocando genes com sapiens de maior estatura, claro.

    Enquanto os “hobbits”, dos pigmeus daquelas bandas…

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