CARACTERIZAÇÃO DE RESTINGAS E MANGUEZAIS.

Restingas e Manguezais compreendem a regiões ecologicamente importantes, de grande diversidade e associadas á Mata Atlântica. No primeiro texto, apresentamos uma caracterização ecológica e didática para trabalhos de campo sobre a Mata Atlântica. Aqui apresentamos uma caracterização com o mesmo objetivo, porém, com Restingas e Manguezais.

Restinga

Restinga

Em ecologia, o termo “Restinga” é utilizado para definir diferentes formações vegetais (InfoEscola) na planície litorânea. A Restinga é um exemplo de vegetação tipicamente associada à Mata Atlântica. É uma área de floresta baixa com arbustos e árvores, que se mistura a brejos e lagoas, separando o mar das regiões de mata mais densa. Na Restinga, a medida que nos afastamos da praia arenosa e da ação dos ventos, sal e das ondas, o solo se torna mais rico, devido o aumento da camada de matéria orgânica.

A Mata Atlântica é um bioma costeiro formado por um mosaico de ecossistemas encontrados ao longo do litoral brasileiro. De fato, tanto a Restinga quanto Manguezais, dunas, praias, ilhas, costões rochosos, baías, brejos, recifes de corais são ambientes de grande importância ecológica e exemplificam a diversidade de ecossistemas que podemos encontrar. Cada um deles é formado por características regionais e únicas. Algumas regiões da costa brasileira apresentam características mais marcantes. Por exemplo, o litoral amazônico apresenta grandes manguezais, assim como dunas, praias e uma rica biodiversidade em espécies de crustáceos, peixes e aves. Já o litoral nordestino é marcado por recifes, dunas, manguezais, restingas e matas. O litoral sudeste é todo recortado, isto quer dizer que há várias baías e pequenas enseadas, e muitas matas de Restinga. O litoral sul possui muitos manguezais e é especialmente rico em aves (Eco Ib-USP).

Mais de 90% da vegetação de Restinga original foi alterada pela ação humana: de fato, a principal ameaça é a expansão urbana (WWF). As Unidades de Conservação protegem apenas 298,9 km² da Restinga. Sendo assim, é uma região altamente vulnerável, pouco protegida, porém, com uma grande biodiversidade.

A Restinga é típica do litoral brasileiro (embora haja ecossistemas semelhantes em outros países ao redor do planeta e recebem outros nomes). Os seres que habitam esse ecossistema vivem em solo arenoso (condições edáficas), rico em sais. Parte do solo de restinga fica submersa pela maré alta (SoBiologia). Na Restinga, o solo não constitui a principal fonte de nutrientes, mas é sobretudo a vegetação que dá suporte ao ecossistema, por isto a Restinga é classificada oficialmente como uma Formação Pioneira de Influência Marinha (Ambiente Brasil).

Nela encontramos muitos animais típicos do ecossistema, como a maria-farinha, besourinho-da-praia, viúva-negra, gavião-de-coleira, coruja-buraqueira, tiê-sangue, pererecas dentre tantos outros. Como exemplos de plantas características da Restinga podemos citar: sumaré, aperta-goéla, açucena, bromélias, cactos, coroa-de-frade, aroeirinha, jurema e taboa (SoBiologia).

A Restinga preservada facilita o controle de animais que vivem em zonas urbanas costeiras, de espécies com potencial para pragas como cupins, formigas, escorpiões e baratas. A preservação do solo arenoso é importante. Tal solo altamente poroso permite que a água da chuva infiltre com facilidade, reduzindo os riscos de enchentes e os custos de obras de drenagens. A Restinga é também importante para formação de plantas ornamentais e questões paisagísticas, onde se encontram muitas orquídeas, bromélias e outras epífitas. Na questão alimentícia, encontraremos o caju, a mangaba, a pitanga, o araçá, entre outras espécies comestíveis que geralmente vivem nestes locais.

Caso esta vegetação seja destruída, o solo sofrerá intensa erosão pelo vento, o que ocasionará a formação de dunas móveis, causando riscos para o ambiente costeiro como para a população (Ambiente Brasil).

As Restingas estão distribuídas ao longo do litoral brasileiro e por várias partes do mundo. As Restingas começaram a se formar há milhares de anos pelo recuo do nível do mar, que direcionaram uma grande quantidade de areia das plataformas continentais em direção à praia, formando planícies arenosas. Durante o Quaternário (entre 1,8 milhões de anos até os dias de hoje) as variações no nível do mar ocorreram no mínimo três vezes, expondo e cobrindo áreas litorâneas que hoje formam as restingas. Desta forma, a vegetação de Restingas é influenciada por alguns fatores abióticos, que vai desde a topografia do terreno, apresentando faixas de elevações (os cordões arenosos) e faixas de depressões (entre-cordões) dependendo dos processos de deposição e remoção de materiais nessas regiões; até a influência marinha, que diminui à medida que se avança para o interior e o solo, um importante condicionador e fator limitante da distribuição de formações florísticas. Essas condições ambientais determinam as diferentes fisionomias vegetais da restinga. Algumas mais ralas e outras formando franjões na areia.

A Restinga pode apresentar fisionomias das áreas mais secas e mais úmidas. Em áreas mais secas encontramos uma vegetação herbácea ou subarbustiva. Essa formação rasteira com alguns arbustos atingem cerca de 1 metro de altura. Ocorrem próximo ao mar, em praias, dunas, lagunas, banhados e depressões. Geralmente, esta vegetação é denominada halófila-psamófila (adaptada às condições salinas e arenosas).

Há porções da Restinga que são formadas por vegetação arbustiva. Esta localiza-se sobre cordões arenosos, formada por plantas arbustivas com até cinco metros de altura, que podem formar moitas separadas por áreas sem vegetação ou um adensamento contínuo. Nesta vegetação há poucas plantas epífitas (líquens, samambaias, bromélias e orquídeas) e elevada quantidade de trepadeiras. É comum a presença de gramíneas no estrato herbáceo  (InfoEscola).

Floresta baixa de restinga

Floresta baixa de restinga. Clique para ampliar

Há a floresta baixa de restinga, que ocupa áreas interiores da planície costeira. Uma vegetação predominantemente arbustiva e arbórea com árvores que podem chegar a 15 metros de altura. Nesta, há uma grande quantidade de epífitas e poucas trepadeiras. O dossel (formado pela copa das árvores) é aberto e a flora herbácea é rica. A entrada de luz por entre as folhas das copas das árvores, ainda que pouca, permite a competição por esse recurso. Há também a floresta alta de restinga, onde ocorre mais distante do mar, dando sequência à floresta baixa de restinga, em solos bem drenados e com maior quantidade de nutrientes. O estrato é predominantemente arbóreo com dossel fechado e as árvores podem atingir 20 metros de altura (InfoEscola).

Nas áreas entre cordões, que são mais baixas e sujeitas a alagamentos, ocorre a Floresta Alta Alagada de Restinga e a Floresta Paludosa, onde predominam espécies vegetais mais adaptadas ás condições de alagamento como a Caixeta (Tabebuia cassinoides) e o Guanandi (Calophyllum brasiliense). Em locais mais abertos e alagados é comum encontrar o solo coberto de pequenas plantas carnívoras (Droseras sp), que retiram de pequenos animais os nutrientes (nitrogênio principalmente) que o solo pobre não fornece.

Floresta alta de Restinga. Clique para ampliar

Floresta alta de Restinga. Clique para ampliar

A fauna é bastante rica. Muitas aves migratórias utilizam as Restingas como locais de alimentação e repouso. Dentre elas, o papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), a coruja buraqueira (Spyotito cunicularia) e o formigueiro-do-litoral (Formicivora littoralis) que é uma ave endêmica de áreas Restingas. Mamíferos como o mico-leão-caiçara (Leontopithecus caissara), a queixada (Tayassu pecari) e lontra (Lontra longicaudis) também ocorrem. Em Restingas mais fechadas pode ter a ocorrência de onças. As tartarugas marinhas utilizam as restingas como locais de desova.

A restinga é um ambiente bastante prejudicado pela expansão urbana, que tem transformado extensas matas de Restinga em áreas urbanas horizontais e poluído. Várias espécies da fauna e flora da restinga brasileira estão em extinção, por isso atualmente a conservação dos remanescentes existentes é prioritária (InfoEscola).

.

O MANGUEZAL

Manguezal é um ecossistema costeiro que faz a transição entre a terra e o mar em regiões tropicais e subtropicais do mundo, ocupando ambientes inundados por marés. Estes ambientes são os estuários marinhos, lagoas costeiras, baías e deltas. Assim como a praia arenosa e o costão rochoso, o manguezal tem seu solo parte do dia submerso e parte do dia exposto.

Caules-suportes, também chamadas caules-escoras, aumentam a base de fixação da planta ao solo. Algumas espécies de árvores possuem raízes tubulares, em forma de pranchas verticais, que aumentam a estabilidade da planta e fornecem maior superfície para respiração do sistema radicular.

20150411_094555

Foto tirada em Maresias. Estruturas-suportes, também chamadas caules-escoras, aumentam a base de fixação da planta ao solo. Algumas espécies de árvores possuem raízes tubulares, em forma de pranchas verticais, que aumentam a estabilidade da planta e fornecem maior superfície para respiração do sistema radicular. Por Victor Rossetti

Mangues são ecossistemas tropicais que ocorrem geralmente em regiões quentes cuja precipitação pluviométrica está acima de 1.200 mm/ano (http://ideiaweb.org/?p=729). São constituídos por uma vegetação predominantemente lenhosa e arbórea, que coloniza solos lodosos, pouco consolidados, ricos em matéria orgânica e com baixo teor de oxigênio. Manguezais são caracterizados pela mistura entre as águas doce e salgada criando uma cunha gelatinosa fruta das diferentes propriedades físico-químicas e biológicas das águas (InfoEscola).

A mistura das águas em alguns estuários especiais promove processos de floculação. A ação das marés promove a circulação dos nutrientes e alimentos além da remoção dos produtos inaproveitáveis do metabolismo dos seres que ali vivem. Estes fatores, somados à presença de plantas fixas (algas marinhas, capim de imersão intermitente) que retêm os nutrientes provenientes do ambiente terrestre, de algas microscópicas (fitoplâncton) e da microflora bentônica, formando um verdadeiro tapete fotossintetizante e contribuindo para a formação de um dos ambientes mais produtivos e férteis do mundo. A diferença na salinidade (massas de água doce e marinha) causa a mistura das águas, tanto horizontal quanto verticalmente e, junto com alguns organismos bentônicos filtradores como os mexilhões, colaboram para a retenção dos nutrientes (UFBA).

As plantas que compõem o manguezal e dominam a paisagem desse ecossistema são os mangues; portanto, o conjunto de plantas de mangue forma o ecossistema Manguezal.

Existem três principais espécies de mangues: mangue vermelho (Rhizophora mangle), mangue preto (Avicennia schaueriana) e mangue branco (Laguncularia racemosa). Essa baixa diversidade de plantas se deve às condições do ecossistema, pois poucas espécies são capazes de sobreviver em ambientes com pouco oxigênio, alta concentração de sal e solo instável.

O mangue vermelho (Rhizophora mangle) é a espécie mais comum ao longo do litoral brasileiro, por apresentar características exóticas bem aparentes. Na antiguidade era chamado de Kandela por apresentar raízes que lembram um candelabro. Suas estruturas de escoras são notáveis e em algumas regiões são conhecidas são conhecidas como “gaiteiras” ou “canelas”. Elas apresentam um caule principal e galhos secundários, servindo de sustentação para a planta. O sistema radicular têm membranas permeáveis que filtram a água, impedindo a passagem de sal para o interior da planta. Trata-se de uma espécie de planta tolerante ao alagamento por longos períodos. Apresenta também um sistema de reprodução vivíparo, que se dá através de propágulos que se desprendem da árvore mãe prontos para germinar ou já germinados.

A casca do mangue vermelho é rica em tanino, uma substância de cor avermelhada e impermeabilizante. No inicio da colonização do Brasil foi muito usada pelos curtumes para tingir couro. Hoje, tem sua exploração restrita e regulamentada, apesar da grande utilização por ceramistas artesãos no estado do Espírito Santo que utilizando para tingir e impermeabilizar panelas de barro e utensílios domésticos. Na Malásia, é utilizada para a produção de álcool, repelentes naturais e remédios. Na Flórida e Equador é utilizada para a proteção de hidrovias e projetos de desenvolvimento e urbanização litorânea.

Estrutura da folha de mangue

Estrutura da folha de mangue.

O mangue branco (Languncularia racemosa) também é chamado de mangue-verdadeiro e apresenta pneumatóforos menores do que os do mangue-preto (do gênero Avicennia). Apresenta pneumatóforos (raízes que emergem do solo e permitem a troca de gases com a atmosfera) geralmente com 10 cm de altura. Suas folhas apresentam pecíolo avermelhado e com glândulas na base para eliminação de sal. Sua reprodução se dá através dos propágulos e sementes. As sementes, com aproximadamente 3,0 em de diâmetro, só se desprendem da planta mãe após o enraizamento, e apresentam um pericarpo que atua como uma boia, permitindo a planta migrar até uma região favorável. A planta apresenta um potencial germinativo de aproximadamente 30 dias. É a espécie mais utilizada pelo caranguejo-uçá, para o cultivo de fungos e microrganismos, depois do apodrecimento das folhas no interior das tocas. A espécie Laguncularia racemosa merece destaque por ser a única espécie típica de mangue encontrada no Arquipélago de Fernando de Noronha, em um único manguezal localizado na Baía do Sueste.

manguezal

Esquerda: Rhizophora mangle. Fonte: Mangroves e Botanic Gardens at Kona Kai Embriões já fertilizados prontos para se desprender da planta mãe e fincar-se no solo favorecendo o desenvolvimento. Centro: Avicennia schaueriana. Fonte: Flickr – Marcia Stefani, e Direita; Laguncularia racemosa Fonte: cifonauta.cebimar

O mangue preto, também é chamado de Siriúba ou Siriba (Avicennia schaueriana), localiza-se geralmente na interface entre a água e a terra. Esse gênero é o mais tolerante às altas salinidades, elimina o sal do interior da planta através de estômatos localizados na superfície das folhas. Os pneumatóforos destas plantas emergem do solo e chegam a medir 15 a 20 cm de altura, apresentam um número grande de lenticelas para a eliminação de sal. Nas plantas jovens a casca apresenta coloração marrom-claro, nas mais velhas a casca escurece, apresentando uma coloração em função da presença de micro-algas que se distribuem ao longo de sua superfície. Apresenta uma reprodução vivípara através de sementes, que podem manter seu potencial germinativo por até 100 dias, flutuando na água até encontrar local apropriado para o seu desenvolvimento.

No mesmo gênero há ainda a Avicennia germinans (outra espécie de mangue-preto) que desenvolve-se melhor em ambientes de baixa salinidade. Possuem folhas com forma lanceolada e brilho bastante intenso. É bastante comum no sul da Bahia onde existem alguns bosques dessa espécie.

Outra espécie de planta comum nos manguezais é o mangue-de-botão, também chamado de bolota (Conocarpus erectus). Geralmente ocorre em pedregoso com presença de areia de praia e da maré. São poucas as ocorrências dessa espécie no litoral brasileiro. No município de Uruçuca, no sul da Bahia (Serra Grande), encontram-se alguns bosques com a presença razoavelmente intensa desta espécie. Outra planta que ocorre é o Praturá (Spartina sp), uma espécie de gramínea em forma franja frontal, entre o rio e o manguezal propriamente dito (IdeiaWeb).

Além do mangue vermelho, preto e branco há outras espécies como a Avicennia nitida, e a Clusia fluminensis (abaneiro). No Indo-Pacífico, as árvores típicas do manguezal são a Rhyzofora mucronata (um tipo de mangue vermelho), a Avicennia marina (um tipo de mangue branco), além das espécies Brughiera gymnorhyza e o Ceriops tagal.

manguezal 3

A esquerda um mangue-de-botão, também chamado de bolota (Conocarpus erectus) e a direita uma Spartina sp, tipo de gramínea do Manguezal. Clique para ampliar.

Como destacado, os mangues apresentam adaptações fisiológicas que lhes permitem sobreviver em um ambiente com características estressantes como o manguezal. Mecanismos que permitem a filtragem ou eliminação do sal no interior da planta e raízes áreas são adaptações para o solo pobre em oxigênio e instável. Nos mangues pretos e brancos (Avicennia schaueriana e Laguncularia racemosa) as raízes se projetam para fora do sedimento do solo em direção ao ar. Mesmo durante a maré cheia suas extremidades ficam expostas ao ar possibilitando as trocas gasosas, essas raízes são chamadas pneumatóforos. Além disto, as raízes do mangue funcionam como filtros na retenção dos sedimentos. Constituem Já o mangue vermelho apresenta expansões no caule principal contendo lenticelas, que são orifícios por onde são feitas as trocas gasosas.

Para eliminar o excesso de sal as árvores do manguezal desenvolveram glândulas em suas folhas, por isso são chamadas plantas halófitas. Na germinação em ambiente aquático os mangues apresentam uma importante característica: a viviparidade. Em algumas espécies as sementes germinam quando ainda estão presas à planta mãe e são liberadas em um estágio de desenvolvimento chamado propágulo. Estes, acumulam grande quantidade de reservas nutritivas que favorecem a sobrevivência do embrião nos estágios iniciais do desenvolvimento até encontrarem local adequado para sua fixação.

O mangue vermelho (Rhizophora mangle) é a espécie que ocorre em todo gradiente de inundação de um manguezal. Esta espécie apresenta diversos ramos emergem do caule e se fixam no solo, dando maior sustentação e impedindo que a planta tombe no solo instável e encharcado. As outras espécies de mangue ocorrem em áreas menos inundadas (InfoEscola).

Lenticela. Tecido vegetal

Em A as lenticela no tronco, em B no tecido vegetal e em C os pneumatóforos que também apresentam lenticelas em algumas espécies de mangues. Clique para ampliar

As árvores de mangue podem atingir 30 metros de altura e no substrato lodoso uma profundidade de até 15 metros. No litoral nordestino, as menores amplitudes de marés e a reduzida pluviosidade, associadas à configuração da costa acabam atuando como fatores limitantes no desenvolvimento dos manguezais. No restante do litoral brasileiro até Laguna (em Santa Catarina), os Manguezais podem estabelecer-se sob extensas áreas alcançando um bom desenvolvimento. Na Bahia (apesar dos poucos dados existentes) estima-se que a área de manguezais chegue a 800 Km2 distribuída ao longo de 1.181 km de costa. Os maiores estão localizados entre os municípios de Valença e Maraú, e nos municípios de Canavieiras e Caravelas. Ao norte, no Recôncavo bahiano existem cerca de 10.000 hectares de manguezais. De Valença a Mucuri, a área estimada é de 70.000 hectares, com destaque para os bosques existentes na baía de Camamu, Canavieiras e Nova Viçosa, pela exuberância e estado de conservação apresentados (IdeiaWeb).

Apesar de parecer homogênio, o Manguezal possui grande variedade de nichos ecológicos, abrigando uma fauna diversificada representada por anelídeos, moluscos, crustáceos, aracnídeos, insetos, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Esse ecossistema funciona como o “berçário da natureza”, pois apresenta condições ideais para reprodução e desenvolvimento de formas juvenis de várias espécies, principalmente crustáceos e peixes. Dentre outras importantes funções dessa vegetação, destaca-se a proteção da linha costeira contra ações erosivas além de ser a fonte de renda e alimentos para muitas populações que vivem em seu entorno.

Devido sua grande importância, os manguezais são considerados hoje Áreas de Preservação Permanente (APP), e ainda sim continuam sendo progressivamente destruídos ou poluídos. A poluição é uma grande ameaça a esse ecossistema, que também sofre com a expansão urbana e industrial. O uso sustentável desse ambiente é fundamental para que ele exerça seu papel ecológico e econômico (InfoEscola). Os manguezais produzem mais de 95% do alimento que o homem captura no mar. Por essa razão, a sua manutenção é vital para a subsistência das comunidades pesqueiras que vivem em seu entorno.

A destruição dos manguezais gera grandes prejuízos, inclusive para economia, direta ou indiretamente, uma vez que são perdidas importantes frações ecológicas desempenhadas por esses ecossistemas. Entre os problemas mais observados destacam-se o desmatamento e o aterro de manguezais para dar lugar a portos, estradas, agricultura, carcinicultura estuarina (criação de crustáceos), invasões urbanas e industriais, derramamento de petróleo, lançamento de esgotos, lixo, queimadas, dragagens, poluentes industriais, agrotóxicos, assim como a pesca predatória, onde é muito comum a captura do caranguejo-uçá durante a época de reprodução, ou seja, na época das “andadas”, quando ele torna-se presa fácil.

Caranguejo Uca cumulanta. Fonte: Carlos Bettas

Caranguejo Uca cumulanta. Fonte: Carlos Bettas

É preciso conhecer e respeitar os ciclos naturais dos manguezais para que o uso sustentado de seus recursos seja possível. Muitas atividades podem ser desenvolvidas no manguezal sem lhe causar prejuízos ou danos. As mais comuns são a pesca esportiva, artesanal e de subsistência, desde que se evite a sobrepesca, a pesca de pós-larvas, juvenis e de fêmeas ovadas; a utilização da madeira das árvores, desde que se assegure a reflorestação; o cultivo de ostras e outros organismos aquáticos, ou plantas ornamentais (como orquídeas e bromélias). O uso sustentável dos Manguezais permite a criação de abelhas para a produção de mel e desenvolvimento de atividades turísticas, recreativas, educacionais e de pesquisa científica (Ferreira, 1986).

O Manguezal do Itacorubi, na ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, considerado um dos maiores mangues urbanos do mundo, possui passarelas e placas informativas para os seus visitantes embora haja problemas de infraestrutura. No Brasil ele é protegido por Lei. De fato, qualquer área de incidência é considerada uma APP, segundo o inciso VII do artigo 4º da Lei Federal Brasileira nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Em Pernambuco existem cerca de 270 quilômetros quadrados de manguezais; na Paraíba, cerca de 160 quilômetros quadrados; o Maranhão detém 85% dos manguezais da região norte-nordeste, o que equivale a 500 mil hectares. A ilha de Fernando de Noronha é a possuidora da menor extensão de manguezal no país (Ferreira, 1986).

A Constituição do Brasil, em 1988, no capítulo VI (do Meio Ambiente), Art. 225, diz que :

Todos tem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo, essencial a sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade, o dever de defendê-Io e de preservá-Io para as presentes e futuras gerações”.

O manguezal dispõe de vários recursos legais que devem garantir sua proteção, tanto a nível federal como estadual e/ou municipal. Essas leis e decretos refletem uma grande preocupação em proteger os recursos costeiros do litoral brasileiro.

Os manguezais são Áreas Protegidas ou de Preservação Permanente ou Reservas Ecológicas, conforme o Código Florestal, Lei. 771, Art. 2, de 15/09/1965, art. 18 da Lei 6.938, de 31/08/1981, Decreto 89.336, de 31/04/1984 e Resolução 4 do CONAMA, de 18/09/1985, representando, por si só, um grande obstáculo contra a degradação desse ecossistema.

O desconhecimento das leis por parte da população, a falta de fiscalização e infra-estrutura dos órgãos fiscalizadores e os interesses políticos e econômicos imediatos são alguns dos fatores que contribuem para a crescente destruição dos Manguezais (IdeiaWeb).

Existem cerca de 162.000 Km2 de manguezais no mundo, distribuídos ao longo das regiões costeiras tropicais e subtropicais da Terra, entre as latitudes 25° N e 25° S, alcançando a melhor faixa de desenvolvimento entre os trópicos de Câncer e Capricórnio (23° 27″ N e 23° 27″S) (IdeiaWeb).

Deste total, cerca de 15% (ou cerca de 26.000 km²) distribui-se ao longo de uma costa de 7.408 km no litoral do Brasil. Esse ecossistema desenvolve-se, principalmente, no estuário e na foz dos rios, onde há água salobra e local parcialmente abrigado da ação das ondas, mas aberto para receber a água do mar. Os solos são lodosos e ricos em nutrientes porém pobres em oxigênio (SoBiologia).

Por possuir grande quantidade de matéria orgânica em decomposição, por vezes apresenta odor característico, mais acentuado se houver poluição. A decomposição da matéria orgânica é feita por bactérias anaeróbicas que acabam desprendendo grande quantidade de ácido sulfídrico (H2S), rico em enxofre e conferem odor característico a estes ambientes.

Esta matéria serve de alimento à base de uma extensa cadeia alimentar, como por exemplo, crustáceos e algumas espécies de peixes. O solo do manguezal serve como habitat para diversas espécies, como caranguejos Uca sp. O solo no manguezal repleto de buracos feitos por este animal que é característico das regiões próximas a Mata Atlântica (Ferreira, 1986).

Caranguejo-Uçá (Ucides cordatus). Fonte: libutron

Caranguejo-Uçá (Ucides cordatus). Fonte: libutron

O caranguejo-Uçá (Ucides cordatus). Ocorre com maior frequência no litoral do nordeste, onde é consumido em barracas de praia, bares e restaurantes. Possui carapaça verde-azulada e pernas cobertas de pêlos. Alimenta-se de restos de folhas e algas, assim como de micro-vegetais e fungos. Vive em tocas na lama, geralmente sob a sombra, em locais alagados pelas marés cheias. época de reprodução ocorre entre dezembro e março (ou de março a junho), de acordo com as condições climáticas da região. É durante as “andadas” que deixa suas tocas para o acasalamento.

Há também o caranguejo Aratu (Goniopsis cruentata), que costuma subir nas árvores de mangue. Possui carapaça quadrada, pernas vermelhas ou puãs vermelhas (amarelas-claras nas extremidades), com manchas púrpuras, pretas, brancas e pêlos pretos. Alimenta-se de folhas e é bastante ativo sobre as raízes, troncos e sobre a lama molhada. A época de acasalamento é entre janeiro e fevereiro.

Há também os siris (Callinectes danae e C. sapidus) que habitam desde as margens lodosas até as áreas mais profundas do estuário. Se alimenta de restos vegetais, embora sua preferência seja animais em processo inicial de decomposição. Suportam grandes variações de salinidade e temperatura. Sua reprodução geralmente ocorre em maio. As fêmeas podem carregar de 150 a 200 mil ovos.

Siris Callinectes danae

Siri (Callinectes danae)

Guaiamu, ou pata-choca (Cardisoma guanhumi) é um crustáceo que possui coloração azul, com as extremidades de suas patas esbranquiçadas. O macho geralmente apresenta a puã (quela) esquerda maior que a direita. Tem uma dieta variada e composta por vegetais e animais mortos. É muito consumido em restaurantes (muitas vezes criado em cativeiro), em regime de engorda. Possui hábitos semi­-noturnos e vive em locais mais secos do mangue, fora do alcance das marés onde cria suas tocas. A época de acasalamento é entre março e abril.

Teredo, turu ou buzano (Teredo navalis) é um molusco perfurador de madeira de corpo alongado semelhante a um verme. Além da madeira, alimenta-se também do plâncton. Sua importância diz respeito à contribuição na reciclagem da matéria orgânica e como fonte de alimentação para populações ribeirinhas. No entanto causa grandes prejuízos às embarcações de madeira.

Manguezais são berçários naturais para muitas outras espécies, como a tainha, anchovas e linguados (IdeiaWeb).

Teredo, turu ou buzano (Teredo navalis). Fonte: Schiffsbohrwurm

Teredo, turu ou buzano (Teredo navalis). Fonte: Schiffsbohrwurm

O principal papel ecológico dos Manguezais é exportar matéria orgânica para os estuários, contribuindo para a produtividade primária na zona costeira. Por isto que tais ecossistemas são considerados complexos, férteis e mais diversificados do planeta. A biodiversidade que ele abriga faz com que essas áreas constituam esses “berçários naturais” tanto para as espécies típicas desses ambientes, como para animais, aves, peixes, moluscos e crustáceos que encontram as condições ideais para reprodução, eclosão, criadouro e abrigo, quer tenham valor ecológico ou econômico. Manguezais ainda atuam como um importante banco genético para a recuperação de áreas degradadas, por exemplo, aquelas poluídas com metais pesados (Ferreira, 1986).

Cerca de 2/3 das espécies de peixes de importância economicamente dependem do Manguezal. A grande quantidade de restos vegetais (folhas, galhos e frutos das árvores) tem um rico valor energético em proteínas para diversos componentes da fauna estuarina e marinha. Formam a base para diversas cadeias alimentares e parte dessa produção é levada pela maré às águas costeiras adjacentes, representado também no meio marinho recurso para manutenção de várias espécies de crustáceos de grande valor comercial; siris, peixes e camarões. Os camarões representam uma atividade de grande importância econômica em todo litoral brasileiro, tanto para a pesca artesanal quanto para a industrial camaroeira. Muitos outros animais são explorados comercialmente, como a lambreta, o sururu, a ostra, o caranguejo-uçá e o guaiamu.

Guaiamu, ou pata-choca (Cardisoma guanhumi. Fonte: Aquaflux

Guaiamu, ou pata-choca (Cardisoma guanhumi). Fonte: Aquaflux

Além disto, a estrutura das raízes de mangue formam emaranhados que dão proteção paras as espécies da fauna marinha durante os primeiros estágios de vida, especialmente contra seus predadores naturais. Há uma relação entre a produtividade da pesca nas regiões litorâneas e a conservação desses ecossistemas. Em algumas regiões tropicais a diminuição do pescado esteve diretamente associada à destruição dos manguezais. Além dos recursos naturais de utilização direta (fauna e a flora), os Manguezais protegem a linha da costa e as margens dos estuários contra a erosão. Nesse sentido são utilizados, em alguns países, para a proteção de hidrovias e zonas urbanas litorâneas. Ao longo dos rios os manguezais protegem as áreas e populações ribeirinhas contra as enchentes, diminuindo a força das águas. São locais importantes também para as atividades educacionais, turísticas, de recreação e para a investigação científica, além de seu exuberante aspecto paisagístico (IdeiaWeb).

Caranguejo Aratu (Goniopsis cruentata). Fonte: Ismael Js

Caranguejo Aratu (Goniopsis cruentata). Fonte: Ismael Js

A fauna do manguezal abriga desde microrganismos até mamíferos de grande porte. Grande parte da fauna é de ambiente marinho, como peixes (robalo, tainha), os crustáceos (caranguejos, siris, camarões), e os moluscos (lambreta, ostra, búzios, mexilhão). E claro, há alguns peixes representantes do ambiente de água doce. Encontra-se muitos anfíbios (sapos e rãs), répteis, aves e mamíferos como macacos, e morcegos, além dos insetos (mosquitos e abelhas, por exemplo). A fauna do manguezal pode ser dividida em dois grupos, de acordo com o tempo em que passa neste ecossistema: o primeiro é formado por animais residentes, ou, que passam toda sua vida no Manguezal, principalmente os crustáceos e moluscos: e o  segundo é constituído por animais que vivem no mangue durante uma fase de sua vida. Um dos representantes desse grupo é o camarão, o qual nasce no mar e vem para o mangue, ainda pequeno em busca de proteção e alimento. Posteriormente, retorna ao ambiente marinho quando atinge o estágio juvenil. O pitu, deixa a água doce para desovar no manguezal. Sua prole passa os primeiros estágios de vida neste local e posteriormente migra para os rios. Há muitos peixes que visitam os manguezais durante a maré cheia.

Outros animais que freqüentam esses ecossistemas são as aves (especialmente as migratórias) e os mamíferos que visitam o mangue, à noite, à procura de alimento (IdeiaWeb).

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Restinga, Solo, Biodiversidade, Mata Atlântica, Manguezal, Siri, Caranguejo, Estuário, Decomposição, mangue preto, Mangue Branco, Mangue Vermelho, Pneumatóforos, Lenticelas.

Referências

Ecologia – Ib USP.
Ferreira, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 1 079.
Ministério do Meio Ambiente
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s