FIM DA LINHA PARA A HOMEOPATIA – TRATAMENTO RELIGIOSAMENTE ADOTADO NÃO É MELHOR DO QUE PLACEBO.

Considerando que estudos recentes analisando a eficácia da homeopatia não mostraram efeito algum em 68 doenças estudadas, a ciência vem demonstrando que o tratamento com este produto não tem efeitos convincentes discerníveis do placebo.

Paul Glasziou afirma que a homeopatia é uma terapia do tipo "beco-sem-saída".

Paul Glasziou afirma que a homeopatia é uma terapia do tipo “beco-sem-saída”. Fonte: Independent

A homeopatia foi inaugurada por Samuel Hahnemann, formado em medicina no ano de 1779 pela Universidade de Erlangen. Hahnemann. Em 1781, Hahnemann assumiu o cargo de médico de uma aldeia em uma área de mineração de cobre de Mansfeld, na Saxônia. Após ter se casado e ter 11 filhos abandonou a prática médica insatisfeito com o estado da medicina em seu tempo, se opondo a práticas como a sangria, e então, começou a trabalhar como tradutor de livros científicos e médicos.

Hahnemann alegou também que os medicamentos que utilizava muitas vezes fazia ao paciente mais mal do que bem. O que atesta a necessidade atual de testes clínicos para demonstrar a eficácia de uma princípio ativo e os possíveis efeitos colaterais para estabelecer as contraindicações.

Ao traduzir o “Tratado da Matéria Médica” de William Cullen, Hahnemann encontrou a afirmação de que a cinchona – a casca de uma árvore peruana – era eficaz no tratamento da malária. Observando que a droga induziu sintomas semelhantes ao da malária concluiu que o faria em qualquer indivíduo saudável. Isso levou-o a postular um princípio de cura no que pode produzir um conjunto de sintomas em um indivíduo saudável, pode tratar um indivíduo doente que está manifestando um conjunto semelhante de sintomas. Então, em 1804 Hahnemann inaugura a homeopatia.

Mais de 200 anos depois, o legado de Hahnemann desaba diante das evidências científicas. Paul Glasziou, professor e um dos principais pesquisadores em medicina baseada em evidências da Bond University foi encarregado de um grupo de pesquisa do Conselho Nacional de Saúde e Pesquisa Médica, na qual revisou as evidências de 176 ensaios de homeopatia para estabelecer se o tratamento é realmente válido. Em um total de 57 revisões sistemáticas, contendo os 176 estudos individuais, focados em 68 condições de saúde diferentes, o estudo descobriu que não há qualquer evidência que sustente a afirmação de que a homeopatia foi mais eficaz do que placebo.
Homeopatia, ou “cura pelo semelhante” é vista hoje como uma medicina alternativa baseada na ideia de diluir uma substância , a tal ponto que muitas vezes, nem encontramos o princípio ativo da substância no frasco diluído, de acordo com o National Health Service. Isto quer dizer que o estudo não encontrou qualquer efeito convincente discernível além do placebo e concluiu que não havia evidências confiáveis na pesquisa em seres humanos de que a homeopatia era eficaz para tratar a gama de condições de saúde consideradas. Esta é mais uma constatação de uma longa lista de pesquisas –  muitas delas individuais – que vem demonstrando a ineficácia dos tratamentos homeopáticos e que vem evidenciando o quanto as pessoas adotam religiosamente um determinado tratamento sem que haja qualquer validação de sua eficiência. Para o British Medical Journal, o pesquisador Glasziou destacou a importância  dos resultados que o relatório produziu ao sintetizar evidências sobre os homeopáticos (Independent, 2016).

Em “The Organized Mind“, o neurocientista Dan Levitin descreve o processo de produção de um “medicamento” homeopático que ele acompanhou. O técnico pega uma parte de uma substância e a dilui em dez partes de água. Ele continua isso pelo menos 20 vezes mais, até um momento em que há uma parte da substância em 1.000.000.000.000.000.000.000 partes de água. Para produtos homeopáticos de varejo, as diluições são rotineiramente 1 seguido por 30 zeros, e muitas vezes 1 seguido por 1.500 zeros. Isso equivale a esmagar um grão de arroz em um pó, e dissolvê-lo em uma quantidade de água do tamanho do nosso sistema solar.

Vacinas também são substâncias extremamente diluídas, com uma grande diferença de que a partir delas, são introduzidos microrganismos atenuados em nosso corpo para que nosso sistema imunológico habilite uma resposta imunitária no caso de entrarmos em contato com o agente. A medicina homeopática, por outro lado, trabalha abordando os miasmas, uma forma de fenômenos etéreos que o fundador da homeopatia Samuel Hahnemann erroneamente acreditava ser a causa raiz de todas as doenças.

Para a homeopatia, o medicamento deixa sua “essência” na água, que supostamente é a bala de prata da cura. Como o psiquiatra Norman Doidge escreve em “The Brain’s Way of Healing“, o termo “placebo” é derivado de uma raiz latina que significa “eu vou agradar” – portanto, não deve surpreender que escolhemos o açúcar em tais experiências homeopáticas. Doidge escreve que o efeito placebo geralmente funciona em 30% ou mais pacientes, o que significa que cerca de uma em cada três pessoas acham ‘alívio significativo da dor’ se acharem que estão recebendo remédios quando estão bebendo água com açúcar. Isso não diz tanto sobre a credulidade humana quanto para a habilidade fantástica de nosso cérebro para mudar sua resposta à dor através de um esforço concentrado. Nossas crenças ajudam a definir a estrutura neural de nossa realidade. Embora isso tenha implicações incríveis para a forma como nos curamos a nós mesmos, não perdoa as empresas homeopáticas de lucrar produzindo pílulas para “agradar” pessoas que eventualmente tenham um problema sério e precisam de tratamentos igualmente sérios (Big Think, 2016).

O fato é que existe uma literatura científica considerável colocando peso sobre a ineficácia da homeopatia e que vem se acumulando, batendo de frente com a eficácia dos homeopáticos. De fato, muitas Universidades e países já proíbem o uso dessas substâncias. Em 2006, uma publicação no periódico científico inglês The Lancet, atacou duramente a homeopatia. Aqui no Brasil, no ano seguinte, a Prefeitura de São José de Rio Preto propôs combater a dengue com um tipo de vacinação homeopática que foi (sabiamente) proibida pela ANVISA. Em 2009, pesquisas em peso surgiram questionando a prática após testes em animais, que obviamente não esperavam a cura após serem medicados e portanto, não apresentaram resultados positivos ao “medicamento”.

Entretanto, em meio a tanta propaganda positiva sobre a terapia Hahnemanniana, e um público que religiosamente faz uso do tratamento homeopático sem qualquer critério, os artigos críticos veiculados são pouco apresentados na imprensa e passaram despercebidos para todos. Atualmente vemos alguma modificação neste cenário.

No Reino Unido, onde há um grande número de utilitários desta prática, a homeopatia é oferecida inclusive no sistema público de saúde, embora a comunidade científica não concorde, uma vez que o sistema de saúde tem gastado muito dinheiro em terapias sem comprovação científica e que poderiam ser anualmente direcionados a tratamentos eficientes.

Em 2007, os americanos gastaram US$ 2,9 bilhões em medicamentos homeopáticos sem receita médica e US$ 170 milhões em visitas a médicos homeopatas, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (ABCNews, 2015).

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A homeopatia esta passando por um processo em que suas afirmativas mais básicas estão sendo colocadas em cheque pela ausência de validação científica. Foto: IFLScience

Desde a publicação do artigo da na The Lancet, em 2006, as críticas das autoridades médicas e científicas contra a homeopatia se acumularam o que forçou o Comitê de Ciência e Tecnologia do parlamento inglês a fazer uma ampla consulta sobre o assunto, ouvindo todas as partes.

A Associação Homeopática Britânica enviou seus melhores representantes, como o Dr. Peter Fisher, diretor do Royal London Homeopathic Hospital, e anexou toda a documentação que comprovaria que a homeopatia, ao contrário do que alegam seus críticos, é mais eficaz que o placebo.

Após muito tempo de consultas, debates e investigações, as conclusões do Comitê foram devastadoras ao demonstrar que produtos homeopáticos não apresentam resultados superiores ao placebo e que as explicações sobre como a homeopatia poderia funcionar não tem qualquer respaldo científico. O relatório final ainda solicitou a completa total retirada da licença oficial – que permite que produtos homeopáticos sejam vendidos como medicamentos – e de fundos do sistema de saúde para financiar esse tipo de terapia.

Em certos pontos do debate sobre a eficiência/eficácia e o modo de preparo do medicamento homeopático o Dr. Fisher afirmou que o processo de “sucussão” (agitação) ainda não tinha sido completamente investigado, e defendeu que “Você tem que sacudir vigorosamente […] se você sacudir levemente não funciona”: como se o sucesso de um medicamento fosse determinado pela agitação dele e não pelo componente ativo molecular que o compõe.

O jornal inglês The Guardian, afirmou que era difícil saber o que é mais constrangedor para a homeopatia: um médico homeopata respeitável afirmar algo sem qualquer sentido científico, ou o fato que mesmo depois de 200 anos de homeopatia, seus representantes ainda não saibam o quanto de sucussão um remédio homeopático precisa para supostamente funcionar.

O problema com a homeopatia não está no fato de ela utilizar “produtos naturais” e sim a dose em que são utilizados. A química comprova que diluições homeopáticas eliminam completamente qualquer rastro do princípio ativo, natural ou não. O paciente acaba ingerindo água  (com açúcar), acreditando se tratar de medicação. Isto é um outro nome para placebo!

O fato de ser um produto natural não implica que todo produto deste tipo seja homeopático e que não tenha validação científica. Esta é uma importante consideração a ser feita, para não confundir homeopáticos com fitoterápicos, que também usam produtos naturais. No caso de fitoterápicos, se corretamente elaborados, seguem todo o processo de validação científica e podem representar um ótimo recurso terapêutico.

No Brasil o uso de homeopáticos segue recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), embora a organização esteja aceitando as diversas críticas feitas a homeopatia. O Sistema Único de Saúde (SUS) investe verbas financiando essa terapia e caso aceitem que a homeopatia não é baseada em evidências científicas, sua manutenção em nosso sistema público de saúde fica insustentável. Não haveria justificativa para manter dentro do sistema a homeopatia e ao mesmo tempo negar financiamento para outras terapias de curanderismo, reflexologia podal holística ou de florais de Bach. O fato de muitas pessoas acreditarem na eficácia de um determinado discurso terapêutico não é uma justificativa válida para financiá-las utilizando dinheiro público do SUS. Acreditar não serve absolutamente em nada – exceto em efeito placebo – e precisamos saber se um determinado recurso terapêutico tem resultados práticos e convincentes. A homeopatia esta passando por um processo em que suas afirmativas mais básicas estão sendo colocadas em cheque pela ausência de validação científica, sobrevivendo dentro de um discurso claramente pseudocientífico. Muitos desses defensores da homeopatia acabam caindo na alegação de que os resultados foram forjados por multinacionais farmacêuticas para nos encher de produtos alopáticos.

Não é segredo algum que a indústria farmacêutica de fato queira lucrar com nossa saúde e devemos ser críticos também com ela (Coluna Ciência, 2011).

Mas isso não valida a homeopatia, até porque, se a alopatia lucra com nossa saúde, a homeopatia também o faz com o diferencial de não ter validação. A homeopatia além de lucrar com nossa saúde, coloca-a em risco, pois pode induzir indivíduos a abandonar um tratamento e comprovado para uma doença séria em detrimento do uso de homeopáticos que eventualmente sentenciaria o paciente a morte, e claro, de certa forma já o faz ao exigir milhões em investimentos desperdiçando dinheiro público em um medicamento sem eficácia. A crença em que um medicamento vá salvar uma vida não é melhor (nem comparável) a de um medicamento que comprovadamente, mediante testes clínicos,  pode salvar.

James Randi, o mágico americano e artista escapista, percebeu que as pessoas estão tão fortemente enganadas com a homeopatia que ofereceu US$ 1 milhão para quem pode provar que a terapia funciona. Randi dedica sua vida a investigar e desmistificar as afirmações pseudocientíficas – incluindo a dobra de colher e o espiritismo – e esta envolvido em uma série de debate da homeopatia por muitos anos.

Em documentários feitos pela BBC2 Horizon, uma série de experimentos realizados por alguns dos principais especialistas médicos do país e por funcionários da The Royal Society, eles começaram a testar um dos princípios fundadores da homeopatia: a cura pelo semelhante. Nos ensaios com fármacos convencionais, cerca de 40% dos pacientes que recebem um placebo melhoram porque acreditam que o medicamento que estão tomando irá cura-los, mesmo que seja apenas uma pílula revestida com açúcar. Já os homeopatas insistem que seus tratamentos têm sido utilizados com grande sucesso em crianças e bebês – que são muito jovens para ter desenvolvido uma resposta placebo.

Outro aspecto do tratamento é que os pacientes geralmente recebem uma consulta longa e detalhada de um homeopata, em nítido contraste com os poucos minutos apressados que costumamos receber com um médico clínico geral. Isto pode trazer a sensação de alívio ao estresse dos pacientes e os faz sentir melhor ao administrar um homeopático, acreditando ter uma atenção especial em seu caso. Mas somente as evidências anedóticas (informais) nos dizem que supostamente ele funciona, porque a medicina alternativa da homeopatia não publica suas afirmativas em periódicos científicos (Daily Mail).

Um dos piores golpes que a homeopatia recebeu veio do Australian National Heath e Medical Research Council (NHMRC) que publicaram um artigo concluindo que “não há evidências confiáveis de que a homeopatia seja eficaz”. O paper principal do NHMRC tem como objetivo auxiliar a pesquisa médica, fornecendo a maioria das concessões para cientistas médicos australianos. No entanto, também conduz, inquéritos sobre questões como a eficácia de certos tratamentos ou as implicações para a saúde em práticas específicas. Estas pesquisas não fazem investigação primária, apenas produzem dados resumindo e examinando os estudos existentes para uma nova perspectiva padrão raramente alcançada em outro lugar.

O NHMRC iniciou o estudo para responder à pergunta “A homeopatia é um tratamento eficaz para as condições de saúde, em comparação com nenhuma homeopatia, ou em comparação com outros tratamentos?” e os resultados minaram a confiabilidade da homeopatia gerando indignação.

Em resposta à indignação dos homeopatas, o NHMRC estabeleceu o Homeopathy Working Committee para fornecer orientação sobre os melhores métodos para a realização do estudo, com a presença do professor Frederick Mendelsohn, um dos principais neurocientistas da Austrália, o comitê incluiu dois especialistas em Medicina Complementar e Alternativa, o Professor Peter Brooks eo Dr. Evelin Tiralongo, cujos históricos refutam claramente qualquer noção de que eles são tendenciosos contra idéias fora do médico convencional.

A revisão analisou 68 condições para que os produtos homeopáticos fossem comercializados, variando de asma e gripe até cólera e dependência de heroína. Estranhamente, não incluiu lesões traumáticas resultantes de ser atingido por grandes veículos em movimento. “Nenhum estudo de boa qualidade e bem desenhado com participantes suficientes para um resultado significativo relatou que a homeopatia causou maiores melhorias de saúde do que uma substância sem efeito sobre o estado de saúde (placebo) ou que a homeopatia causou melhorias na saúde iguais às de outro Tratamento “, afirma o resumo do relatório.

No entanto, mostrando uma verdadeira cautela científica, o relatório distingue entre as condições em que a pesquisa é extensa e de alta qualidade e, portanto, podem definitivamente excluir a eficácia da homeopatia, e aqueles onde a evidência é mais escassa. O relatório foi bem recebido pela Associação Médica Australiana e pelo grupo Friends of Science in Medicine (FSM), que já estava observando todo o movimento da homeopatia e que luta contra o uso de produtos não-fundamentados.

Diferentemente da avaliação do Comitê Seleto da Ciência e Tecnologia do Reino Unido de 2010, a revisão do NHMRC atingiu suas conclusões sem considerar o modo de ação pelo qual a homeopatia é reivindicada e supostamente opera – uma vez que está em contradição com a lógica de teorias testáveis de comportamento da química.

O estudo excluiu questões sobre se os produtos homeopáticos podem não serem seguros diante de um resultado com impurezas. Uma outra área que não foi investigada foi o uso da homeopatia para proteção, incluindo “vacinas” homeopáticas. O co-fundador do FSM, o professor John Dwyer, da Universidade de New South Wales, disse que se preocupam particularmente com isto. Do ponto de vista imunológico, a questão mais séria foi a divulgação do conceito de que as vacinas homeopáticas eram inofensivas e tão boas quanto as vacinas ortodoxas. Pessoas que acreditam que não estão protegendo a si mesmas e nem a seus filhos (IFLScience, 2014).

Uma extensa análise de 225 estudos controlados e cerca de 1.800 artigos – desde evidências fornecidas por grupos de interesse da homeopatia até diretrizes governamentais – novamente confirmou o que muitos pesquisadores há muito suspeitam: a homeopatia não é uma maneira eficaz de tratar quaisquer condições de saúde. O estudo foi realizado pela NHMRC, e para evitar viés, a evidência foi avaliada por um contratante independente. Nenhum estudo de qualidade e bem desenhado, com participantes suficientes para um resultado significativo, relatou que a homeopatia causou maiores melhorias de saúde do que o placebo, ou causou melhorias de saúde iguais às de outro tratamento”, observou o estudo. Todo o documento informativo foi disponibilizado on-line, em pdf.

A Associação Homeopática Australiana respondeu com uma declaração, dizendo como o NHMRC deve considerar uma avaliação econômica em grande escala dos benefícios de um “sistema mais integrado” que suporte a “escolha do paciente”. De acordo com a Associação, estima-se que um milhão de australianos escolham a homeopatia como parte de seus cuidados de saúde. O que nos faz pensar o quanto destas pessoas estariam dispostas a suspender tratamentos eficazes e troca-los por tratamentos homeopáticos. Ou ainda pior: se o critério de escolha – e não de funcionalidade – proposto pela Associação Homeopática Australiana deve ser o principal fator a ser levado em conta, será que a Associação Homeopática se responsabilizaria por eventuais danos a saúde de pacientes que suspenderam tratamentos médicos em detrimento aos homeopáticos? E se o paciente optar por ambos tratamentos (medico e cura por semelhança) como saber se o homeopático foi eficaz na cura em vez do tratamento medicinal que é sabidamente corroborado por dados científicos? As alegações propostas pelos homeopatas cai nestes vieses como de praxe.

No entanto, como presidente da NHMRC Warwick Anderson sabiamente advertiu em um comunicado de imprensa: “As pessoas que escolhem homeopatia podem colocar a sua saúde em risco se rejeitar ou atrasar tratamentos para os quais há boas evidências de segurança e eficácia” (IFLScience, 2014).

Bem, é sabido que em certos países as pessoas optam por deixar de vacinar seus filhos em função de uma falsa alegação de que vacinas estão ligadas a caso de autismo, e portanto, não é surpreendente o fato de que pessoas possam eventualmente abandonar uma terapia cientificamente justificada em função da administração irresponsável de um homeopático. De fato, tivemos casos semelhantes no Brasil, de pessoas que abandonaram tratamentos eficazes contra câncer em função de uma alegação cientificamente injustificada sobre o composto fosfoetanolamina, mas que nunca teve comprovação clínica.

A notícia do estudo australiano vem nos calcanhares do recém-publicado National Health Interview Survey dados mostrando um aumento no uso da homeopatia durante 2012. Uma faculdade homeopática canadense não só se manifestou contra o estudo como também tomou uma posição anti-vacinação ao defender o uso de homeopáticos “nosodes” (preparação de substâncias secretadas no decurso de uma doença, utilizadas no tratamento dessa doença) como uma alternativa para vacinas (Smithsonian, 2015).

Quando este estudo Australiano em larga escala expôs toda a ineficiência da medicina homeopática, os defensores desta “medicina natural” alegaram que o estudo havia sido encomendado  e patrocinado pela grande industria farmacêutica? Entretanto, o estudo foi conduzido pelo Conselho Nacional da Austrália e avaliado por um contratante independente (como proeminentemente afirmado no artigo). O que mostra também que há uma certa tendencia em tentar apontar a culpa nas entidades alheias que avaliam os “medicamentos” homeopáticos.

A declaração do Conselho veio sobre o procedimento rigoroso das provas e métodos utilizados internacionalmente aceitos para avaliar a qualidade e confiabilidade das provas para determinar se uma terapia é, ou não, eficaz para o tratamento de condições de saúde, acrescentou Anderson. O que se sugere é que nunca use homeopáticos como um substituto para terapias convencionais comprovadas e nunca adie um tratamento médico de saúde sem aconselhamento profissional (ABCNews, 2015).

Como certa vez destacou o astrônomo e grande divulgador de ciência — Carl Sagan em sua obra “O mundo assombrado pelos demônios” sobre como a pseudociência se manifesta:

“A pseudociência é exatamente o oposto. As hipóteses são formuladas de modo a se tornar invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma perspectiva de refutação, para que em princípio não possam ser invalidadas. Os profissionais são defensivos e cautelosos. Faz-se oposição ao escrutínio cético. Quando a hipótese pseudocientífica não consegue entusiasmar os cientistas, deduz-se que há conspirações para eliminá-la.”

Sagan destaca também que a pseudociência é perigosa a nós mesmos.

De fato, há casos bastante complicados que envolvem a grande indústria da homeopatia e que retratam esta perspectiva perigosa. Uma análise dos registros da Food and Drug Administration (FDA), obtida através da Lei de Liberdade de Informação (FOIA, na sigla em inglês), revelou o caso dos que bebês para os quais foram dados os produtos para dentição da marca Hyland e, eles pararam de respirar e morreram. Bebês tiveram repetidas convulsões, contrações musculares involuntárias, inchaços, delírios e uma série de efeitos colaterais.

Produto homeopático acusado de causar convulsões, contrações musculares involuntárias, inchaços, delírios e casos de morte em bebês.

Produto homeopático acusado de causar convulsões, contrações musculares involuntárias, inchaços, delírios e casos de morte em bebês.

A empresa Hyland’s Teething Tablets se apresenta como uma indústria de soluções seguras, efetivas e naturais para a saúde, o que agrada pais procurando por tratamentos alternativos. Em um período de 10 anos, (de 2006 a 2016) a FDA coletou dados dos efeitos adversos em mais de 370 crianças em que passaram pelo uso das pastilhas homeopáticas ou gel na gengiva ou dentição. Os registros indicaram oito casos nos quais há o relato de que os bebês morreram depois de fazer uso de produtos da Hyland.

Após o escândalo, a Hyland disse que não produziria os homeopáticos para dentição, mas mantiveram os produtos na prateleira por meses e disponíveis para comprar na internet.

A Hyland é uma companhia privada de 114 anos localizada em Los Angeles, e é a maior empresa de homeopáticos do país. Sua empresa-matriz, a Standard Homeopathy Co. é considerada uma das gigantes no mercado de homeopáticos. A empresa é pioneira no mercado da homeopatia, sendo passada por gerações na família e o dono é o presidente do grupo de indústrias que publica a Homeopathic Pharmacopeia.

Demorou quatro anos para que o FDA fizesse a Hyland reformular seus medicamentos, em 2010. Nos sete anos que se seguiram, houve fluxo constante de relatos de eventos adversos ligados aos produtos homeopáticos para dentição da Hyland. Da mesma forma com que os homeopatas tem grande tendência em criticar a grande industria farmacêutica (que é válido), fazem parte de uma industria paralela, alternativa sem qualquer validação científica ou publicação de dados em artigos revisados por pares.

Uma porta-voz do FDA, Lyndsay Meyer defendeu que o “uso de um produto em particular, eles frequentemente indicam situações as quais requerem análises adicionais e não são evidências conclusivas de um problema com o produto”. Isto significa que apesar das mortes, a FDA entende que os dados são inconclusivos.

Investigando os produtos da Hyland, a FDA focou em um ingrediente chamado Atropa belladonna, uma erva conhecida como “beladona”. Quando diluída, não é esperado que a substância ofereça algum risco de saúde (e de acordo com as evidências científicas, nem de cura), entretanto, em 2010, inspetores da FDA que examinaram as instalações da Hyland criticaram a empresa pelo baixo padrão em suas práticas de produção e encontraram níveis inconsistentes da substância nos produtos. Análises laboratoriais das pastilhas encontraram níveis de belladonna “algumas vezes excedendo demais a quantidade indicada no rótulo. A agência emitiu uma aviso público destacando que os “relatos de sérios eventos adversos em crianças, as quais tomaram o produto, são consistentes com a toxicidade de belladonna”, mas se recursou a fazer recall de suas pastilhas de dentição, mesmo com os numerosos avisos da FDA sobre saúde e segurança, visando claramente, somente a questão dos lucros e reputação ao invés da segurança de nossas crianças.

A homeopatia se tornou uma indústria multibilionária, embora critique a grande indústria farmacêutica. Seus produtos são sucesso de venda ao redor do mundo, e populares com pessoas famosas. O fato de uma empresa de produtos homeopáticos resistir a autuação mostra a falta de autoridade da FDA para forçar a retirada de produtos homeopáticos de circulação, ou o quanto empresas de grande porte tem poder, embora homeopatas tenham um certo fetiche em criticar a grande industria (Scientific American, 2016).

O caso com a Hyland apenas mostra a necessidade de pesquisas experimentais e clínicas antes de lançar um medicamente no mercado, para evitar o fato ocorrido com o sedativo Talidomida na década de 50 que foi responsável por uma série de casos de má-formação congênita dos membros. Os procedimentos de testes de drogas naquela época eram muito menos rígidos e, por isso, os testes feitos na talidomida não revelaram seus efeitos teratogênicos (ou seja, que causam alteração no processo de diferenciação celular durante a gravidez). Os testes em roedores mostrou que metabolizavam a droga de forma diferente de humanos e não acusaram problemas. Mais tarde, foram feitos os mesmos testes em coelhos e primatas, que produziram os mesmos efeitos horríveis que a droga causou em fetos humanos.

Entre 1957 e 1962 foram registrados mais de 10 mil casos de defeitos congênitos associados a esta droga em todo o mundo e a talidomida foi removida da lista de remédios indicados pelos médicos. Os Estados Unidos foram salvos deste problema devido à atuação de Frances Oldham Kelsey, farmacologista encarregada pelo FDA ao analisar os testes clínicos apresentados pela indústria na época. Em 2010, cientistas japoneses identificaram como a talidomida interfere na formação fetal. Eles descobriram que o medicamento inativa a enzima cereblon, importante nos primeiros meses de gestação para a formação dos membros. Por esta razão existe um grande perigo em aceitar o uso de homeopáticos e drogas como a fosfoetanolamina, cuja avaliação da eficácia é duvidosa e os efeitos colaterais desconhecidos.

Victor Rossetti
Palavras chave:
NetNature, Rossetti, Homeopático, Samuel Hahnemann, Pseudociência, Farmácia, National, Health Service, The Lancet, Australian National Heath, Medical Research Concil, Food and Drug Administration.

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One thought on “FIM DA LINHA PARA A HOMEOPATIA – TRATAMENTO RELIGIOSAMENTE ADOTADO NÃO É MELHOR DO QUE PLACEBO.

  1. A energia nuclear não pode ser considerada medicina.No entanto ela é utilizada sem criterio na maioria dos tratamentos de
    canceres.Não existem estatisticas confiaveis relativas a sobrevida das pessoas
    submetidas a esses protocolos.A energia nuclear mata,portanto não pode ser considerada medicina.
    O mesmo pode ser dito para a quimio.Práticas que fragilizam o sistema imunológico numa falsa cura, mais tarde
    quando do retorno da doença,diz que foi uma recidiva.
    Voltamos ao tempo de Paracelsius e Hahnemann onde a vida humana é um negócio mercantilista.

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