VACINAÇÃO É IMPORTANTE – NÃO SEJA IRRESPONSÁVEL!

Por mais assustador que seja, existem pessoas que rejeitam vacinar seus filhos expondo-os a diversas doenças fatais. A consequência disto é sentida não apenas individualmente, mas socialmente.

Na década de 20 era muito comum as crianças morrerem de doenças que atualmente são facilmente controladas, como o sarampo, caxumba e rubéola. O desenvolvimento biotecnológico da vacina tem poupado milhões de vidas desde quando a técnica foi inventada.

As primeiras sugestões da prática de inoculação para a varíola vêm da China durante o século X (Needham, 2000). Antes da introdução efetiva da técnica da vacinação a partir de casos de varíola bovina, tal doença matava muitas pessoas. No final da década de 1760, um inglês aprendiz de cirurgião chamado Edward Jenner soube da história de que trabalhadores no setor de laticínios nunca pegavam a doença, muitas vezes fatal ou desfigurante, porque já haviam tido varíola bovina, que tem um efeito muito suave em seres humanos. Em 1796, Jenner coletou pus da pata de uma vaca leiteira com varíola bovina, raspou-a no braço de um menino de 8 anos e, seis semanas mais tarde, inoculou o menino com varíola, observando depois que ele não pegava a doença (Stern & Markel, 2005). Jenner estendeu seus estudos e em 1798 relatou que sua vacina era segura em crianças e adultos reduzindo a dependência de suprimentos incertos de vacas infectadas, a variolação. Uma vez que a vacinação com a vaca foi muito mais segura do que a variolação (inoculação da varíola) (Van Sant, 2008), esta última foi proibida em 1840 (Dudgeon, 1963). Então, no século XX viu-se a introdução de várias vacinas bem sucedidas, incluindo as contra a difteria, sarampo, caxumba e rubéola. As principais realizações incluíram o desenvolvimento da vacina contra a pólio na década de 1950 e a erradicação da varíola durante os anos 1960 e 1970.

Infelizmente, atualmente alguns países tem passado por dificuldades quando a campanha de vacinação devido a uma onda anti-vacinação (anti-vaxxer) crescente que irresponsavelmente não deixa somente seus filhos expostos a doenças de fácil tratamento, mas a sociedade toda.

A onda negacionista surgiu em 1998 quando o médico chamado Andrew Wakefield publicou um estudo relacionando autismo em crianças com a vacina tríplice viral MMR (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola). Seu estudo analisou apenas 12 pacientes e sem qualquer respaldo científico, concluiu categoricamente que a vacina era a causa do autismo de seus pacientes. Anos depois, descobriu-se que não somente o estudo usava dados forjados, mas que o doutor havia sido financiado por um advogado que pretendia lucrar milhões processando os fabricantes da vacina, e que ele mesmo pretendia patentear uma nova vacina para substituir a tríplice. Wakefield nunca foi contra vacinas, ele “apenas” forjou dados para com tirar vantagens financeiras exclusiva contra sarampo. Wakefield foi julgado na Inglaterra e culpado por fraude e conspiração, tendo sua licença cassada. A revista retirou o estudo e se retratou publicamente, mas o estrago já havia sido feito. Os movimentos anti-vaxxer surgiram e não só ignoram o fato de Wakefield ter sido descoberto em sua farsa como defendem que toda e qualquer vacina causa autismo, sem qualquer respaldo acadêmico, em uma defesa quase religiosa e irracional.

Desde então, grupos anti-vacinação têm surgido em diferentes locais do planeta, em especial na França e EUA. Nos Estados Unidos o número de crianças não-vacinadas cresce anualmente e doenças antigas quase erradicadas estão reemergindo e ceifando vidas de crianças.

Em 2004, na Inglaterra, houve o primeiro surto de sarampo, e a primeira morte pela doença, em 17 anos. Em 2013 ocorreu outro surto de sarampo na Califórnia, EUA. Casos isolados de coqueluche começaram a aparecer em todo mundo

No Brasil, o ano de 2014 registrou 2 casos de coqueluche porque uma família de classe-alta em São Paulo se recursou a vacinar seus filhos devido o boato propagado por Wakefield e grupos anti-vaxxer. O resultado foi que a filha mais velha, de 6 anos, contraiu a doença e a transmitiu para sua irmã de apenas 6 meses, levando-a a UTI.

Em 2017 já houve casos de pessoas que ficaram em quarentena em Minnesota, EUA, após 12 casos de sarampo serem notificados em apenas duas semanas. Todas as crianças acometidas pela doença não estavam vacinadas e tinham menos de 6 anos (pertencentes a família cujas pessoas eram adeptas ao movimento anti-vaxxer). Em Portugal, uma adolescente de 17 anos morreu de sarampo decorrente de um surto, como outros que vêm ocorrendo na Europa.

Recentemente, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem com lados alarmantes sobre o avanço do movimento anti-vacinação no Brasil. As famílias que escolhem não-vacinar seus filhos reportam abertamente que usam redes sociais como fonte de informação. Na Austrália, o primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull anunciou uma proposta para barrar crianças não-vacinadas impedindo-as de freqüentar pré-escolas e creches.

Movimentos como os anti-vaxxer dentre tantos outros pseudocientíficos/anti-científicos ganham adeptos e conquistam as pessoas através de redes sociais, sem apresentar qualquer argumentação plausível ou relatório científico que justifique suas posições, pautadas geralmente em uma mera crença pessoal.

Nota-se que nos últimos anos movimentos pseudocientíficos se fortalecem através das redes sociais; alguns deles ganham poucos adeptos devido as características bizarras de suas crenças (como os defensores da terra-plana), mas outros, conseguem vários adeptos por usarem artifícios que são considerados importantes para o público em geral: saúde e religião. Este último grupo ganha adeptos por fazer releituras científicas sob suas respectivas crenças religiosas. O outro, joga com a saúde de um ente querido em contextos que fortalecem a fé em um pressuposto sem qualquer base empírica, mas que viralizou nas redes sociais. Com isto, e sem apresentar qualquer relatório de validação científica ganham adeptos através de falsas alegações e prejudicam diversos setores sociais: educação pública, saúde pública causando danos profundos no tecido social e em últimos casos, custam vidas.

O caso anti-vaxxer joga com o medo de perder um ente querido para um suposto espectro de autismo, implanta um medo nos familiares e os induz a rejeitar procedimentos simples e básicos, como a vacinação. O resultado pode chega nas últimas consequências, levando a morte: e quem sofre geralmente são as crianças devido a falsas informações. Os pregadores destas falsas informações podem sequer ser identificados ou responderem criminalmente pelas suas teses pseudocientíficas, mas a família que amarga á dor da perda pode sofrer com a responsabilização criminal.

Diante do discurso de não-vacinar o filho para que ele não se torne um autista a família pode estar direcionando o filho para a morte causada por uma doença perfeitamente controlável. A pseudociência pode ser mais perigosa do que as pessoas imaginam. Enquanto ela permanecer no campo da bizarrice sem consequências físicas diretas, seu combate ainda é temporalmente equilibrado, mas quando se trata de saúde e de um discurso cada vez mais presente e que anualmente vem mostrando famílias sofrendo por ter acompanhado um discurso falacioso de redes sociais, a periculosidade fica mais evidente e o tempo é curto.

O discurso negacionista não é exclusivo ao caso da vacinação (mas muito presente em grupos que rejeitam a teoria da evolução, abominam a fluoretação da água ou das mudanças climáticas e tantas outras) se fortalece justamente na ausência de conhecimentos básicos sobre o que está supostamente sendo colocado em cheque. Talvez a exposição de dados de conta de clarear o quão perigoso é abandonar a vacinação.

Em um artigo publicado pela Universidade de São Paulo, pela pesquisadora Natalia Pasternak Taschner destaca que antes de Jonas Salk testar a vacina para a poliomielite em 1952, cerca de 20 mil casos da doença eram reportados por ano nos EUA. No ano de 1952, os casos chegaram a casa dos 58 mil. Atualmente, depois das vacinas Salk e Sabin, a poliomielite foi praticamente erradicada nas Américas e Europa, e os poucos casos reportados atualmente ocorrem em regiões sem acesso às vacinas, geralmente na Ásia e África.

Crianças acometidas pela poliomielite – quando sobreviviam – ficavam paralíticas, com deficiências mentais, ou passavam meses em respiradores artificiais.

Antes da adoção da vacina contra o sarampo, os EUA sofriam com aproximadamente 3 ou 4 milhões de casos por ano, e uma média de 450 mortes registradas entre 1953 e 1963. Após a introdução da vacina, nenhum caso foi reportado até 2004 – quando os grupos anti-vaxxer começaram a minar a confiança da vacinação.

A meningite era uma doença que matava em média 600 crianças por ano, e deixava sobreviventes com sequelas como surdez e retardo mental. Antes da vacina de coqueluche, quase todas as crianças contraíam a doença, com aproximadamente 150 a 260 mil casos registrados anualmente, e cerca de 9 mil mortes. Desde 1990, apenas 50 casos ao todo foram reportados.

Rubéola é uma doença relativamente banal em adultos, mas pode acometer gravemente crianças recém-nascidas se a mãe for infectada durante a gestação. O resultado pode ser complicações cardíacas, problemas de visão, surdez e deficiências mentais. Em 1964, antes da imunização, 20 mil bebês nasciam de mães infectadas. Desses, 11 mil eram surdos, quatro mil cegos e 1.800 apresentavam retardo mental. Mesmo doenças como tuberculose, catapora, caxumba, hepatite B e difteria, que foram controladas com vacinas eficazes acometeram e mataram milhares de pessoas no passado. Com a negação da vacinação a frequência de morte tende a crescer.

Os efeitos da não-vacinação não ficam restritos somente aquelas que se negam ao procedimento. Quando recebemos a vacina, isto faz com que haja diminuição da circulação de agentes infecciosos na comunidade. Quando se diminui o número de pessoas susceptíveis, diminui-se a chance de transmissão. As pessoas vacinadas beneficiam o grupo inteiro, inclusive aqueles que não tomaram a vacina. Mas para que haja sucesso, cada doença tem uma porcentagem de pessoas que precisa ser vacinada. Por exemplo, para a catapora e difteria a taxa de imunização precisa ser pelo menos 80% da população. Para a coqueluche e sarampo a taxa deve ser entre 92 e 95%. Quanto maior a taxa de imunização maior o controle, pois adultos tem maior resposta imunológica.

O problema é que nem todas as pessoas de uma população podem ser imunizadas. Mulheres grávidas, crianças com imunodeficiência, pessoas com câncer ou alérgicas e outros grupos menores não podem ser vacinados. E claro, eles dependem diretamente da imunidade do resto da população para permanecerem vivos e saudáveis. Para estes grupos não é uma questão de escolha, eles dependem diretamente dos imunizados. Quando uma pessoa deixa de tomar vacina porque foi induzida por falsos argumentos e é questionada sobre tal postura comete um ato egoísta de pensar somente em sua crença, desconsiderando a saúde de seus filhos e de tantos outros grupos sociais que dependem da imunização de todo o rebanho (Super Interessante, 2015).

Um passo fundamental para evitar ser pego pelo movimento anti-ciência dos anti-vaxxers é, pelo menos, saber de onde vêm as vacinas e como elas são produzidas. O objetivo deste texto é simples, alertar sobre o perigo deste movimento covarde que joga com os sentimentos dos pais usando e propagando falsas informações e tirar dúvidas sobre a vacinação.

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Aspectos básicos sobre a vacinação.

Tanto o soro, quanto a vacina são agentes que atuam como imunizadores, no entanto, são usados em situações distintas embora tenham um objetivo comum: proteger nosso corpo contra substâncias estranhas, chamadas de antígenos.

A vacina é uma biotecnologia utilizada para a estimulação em nosso corpo induzindo a produção de anticorpos contra uma determinada doença. Por esta razão, dizemos que a vacina é uma forma de imunização ativa.

Nela imunização ativa o próprio sistema imune do indivíduo, ao entrar em contato com uma substância estranha ao organismo, responde produzindo anticorpos e células do sistema imunológico, os linfócitos T (um tipo de leucócito chamado de glóbulo branco). Neste caso, os linfócitos T atuam como células de memória que aprenderam a responder a um invasor específico. Estes tipos celulares vivem por muitos anos (ou, a vida toda) no individuo, e podem ser re-ativados para uma resposta mais rápida a um invasor similar ao que combateu no passado. Assim, quando nosso corpo for invadido novamente pelo mesmo antígeno, o organismo já terá formas de eliminá-lo rapidamente, antes de surgirem os sintomas da doença.

Por exemplo, um linfócito que foi ativado para combater sarampo (por contato direto ou por vacina) pode seguir combatendo novas invasões pelo vírus do sarampo garantindo imunidade vitalícia a esse indivíduo.

Os dois meios de se adquirir imunidade ativa são contraindo uma doença infecciosa e a vacinação. A vacinação é utilizada na prevenção tanto de viroses quanto de doenças bacterianas, e é o meio mais seguro de defensa, pois utiliza vírus atenuados.

Antígenos inativados ou atenuados, são colocados no nosso corpo para a indução da produção de anticorpos e células de memória. As vacinas são usadas na prevenção de viroses e doenças bacterianas.

Com o desenvolvimento da biotecnologia moderna, em particular a disseminação das técnicas de manipulação genética, alterou-se de diferentes maneiras a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas, sejam elas de primeira, segunda ou terceira geração. Por meio de estratégias de clonagem gênica e mutagênese, podemos gerar estes microrganismos atenuados (vírus e bactérias) de forma precisa e com mais segurança.

Patógenos atenuados empregados nas vacinas de primeira geração podem reverter ao estado nativo virulento. Como, em muitos casos, não se conhece a natureza da alteração genética sofrida pelo microrganismo durante a atenuação, a possibilidade de reversão à virulência, embora pouco provável, é uma realidade. As técnicas atualmente disponíveis para manipulação genética permitem obter, com relativa facilidade, mutantes atenuados nos quais genes envolvidos com a patogenicidade ou metabolismo primário são inativados de forma a não comprometerem a viabilidade do organismo, mas torná-los incapazes de causar doença.

Vacina

As vacinas de primeira geração (Método de Pasteur) que empregam esta técnica de tratamentos e inativação ou à atenuação dos microrganismos pode utilizar microrganismos não-patogênicos derivados de outros hospedeiros e são utilizados como antígenos indutores para vacinas voltadas para o controle de doenças causadas por patógenos assemelhados. Essa abordagem é bem exemplificada pelas vacinas da varíola, baseada em vírus vaccínia isolados de bovinos, e da vacina contra a tuberculose que também emprega uma bactéria originalmente obtida em bovinos, o Mycobacterium bovis (BCG). Nesse grupo, destacam-se também as vacinas voltadas para a prevenção da coqueluche, as vacinas contra varíola, poliomielite, sarampo, rubéola, adenovírus, entre outras.

A segunda geração de vacinas foi concebida a partir da ideia de que em alguns patógenos, a proteção pode ser obtida após a indução de anticorpos voltados para um único alvo, como uma toxina, responsável pelos sintomas da doença, ou mesmo açúcares de superfície que permitem ao sistema imune do hospedeiro neutralizar e eliminar bactérias que de outra forma se propagariam rapidamente antes de serem notadas por nossas principais linhas de defesa imunológica. Neste caso, não é o agente epidemiológico que induz o sistema imunológico a produzir anticorpos, mas uma partícula, toxina ou açúcar que está presente no antígeno.

Nesse grupo, destacam-se vacinas acelulares que empregam toxoides (toxinas purificadas e inativadas por tratamento químico), proteínas e polissacarídeos purificados, como ás antitetânica, antidiftérica, hepatite B e as vacinas voltadas para o controle da meningite meningocócica e da pneumonia.

A terceira e mais recente geração de vacinas parte de um conceito que a diferencia de uma forma radical das outras formas vacinais. Nessas vacinais, emprega-se a informação genética do patógeno responsável pela codificação de proteínas que representem antígenos relevantes para a proteção. Em geral chamadas de vacinas de DNA ou vacinas-gênicas, foram descobertas no começo da década de 1990 em testes inicialmente voltados para a pesquisa de terapias genéticas em que se introduz no hospedeiro alguns genes que substituirão a informação genética originalmente presente no indivíduo (Diniz & Ferreira, 2010).

É importante destacar que vacinas e soros atuam de modos distintos. Os soros, não promovem uma imunização ativa, uma vez que, nesses casos, são inoculados anticorpos previamente produzidos em outro organismo. Ou seja, enquanto na vacina se introduz um antígeno atuado que estimula o corpo a produzir anticorpos (imunização ativa), no soro introduz-se os anticorpos (imuniza passiva).

A imunização passiva é obtida pela transferência ao indivíduo de anticorpos produzidos por um animal ou outro ser humano. Esse tipo de imunidade produz uma rápida e eficiente proteção, que, contudo, é temporária, durando em média poucas semanas ou meses. A imunidade passiva natural é o tipo mais comum de imunidade, sendo caracterizada pela passagem de anticorpos da mãe para o feto por meio da placenta e também pelo leite.

Essa transferência de anticorpos ocorre nos últimos dois meses de gestação, de modo a conferir uma boa imunidade à criança durante seu primeiro ano de vida. A imunidade passiva artificial pode ser adquirida sob três formas principais: a imunoglobulina humana combinada, a imunoglobulina humana hiperimune e o soro heterólogo. A transfusão de sangue é uma outra forma de se adquirir imunidade passiva, já que, virtualmente, todos os tipos de produtos sanguíneos contêm anticorpos.

Outro exemplo de imunização passiva é o uso de soros utilizados no tratamento de peçonha de serpentes e aranhas, ou ainda para tratar algumas toxinas bacterianas e a rejeição de órgãos transplantados (soro antitimocitário). Os soros são usados em casos em que há necessidade de tratamento rápido, ou seja, quando não é possível esperar a produção de anticorpos pelo nosso corpo.

A produção de soro é realizada no corpo de outro ser vivo, que normalmente é um mamífero de grande porte – como um cavalo ou primatas. Injeta-se nesse animal, em doses controladas, o antígeno contra o qual aquele organismo deve produzir anticorpos. Assim que os anticorpos são produzidos, parte do sangue do animal é retirada e o plasma separado para a análise de controle de qualidade. As hemácias, leucócitos e plaquetas retiradas são colocadas novamente no animal.

O soro, portanto atua de modo diferente da vacina porque não possui função preventiva, sendo usado apenas como forma de cura. O uso frequente de soros pode causar problemas de saúde, uma vez que o corpo pode identificar os anticorpos do soro como antígenos e desencadear a produção de anticorpos contra ele.

Atualmente, existem vacinas contra gripe, hepatite, febre amarela, sarampo, tuberculose, rubéola, difteria, tétano, coqueluche, meningite, poliomielite, diarreia por rotavírus, caxumba e pneumonia causada por pneumococos. Através das vacinas, tais doenças podem ser erradicadas, como ocorreu com a varíola. No entanto, as constantes mutações pelas quais passam esses microrganismos (com destaque para os vírus) dificultam a erradicação das doenças por eles causadas. Por isso, novas versões da vacina contra um mesmo agente são frequentemente desenvolvidas, como é o caso da gripe.

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Estratégias.

A revista Science Magazine mostrou que a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que vacinas salvem anualmente entre 2 e 3 milhões de vidas. E esses valores são importantes, pois retiram as incertezas quanto á segurança das vacinas. Uma das alegações mais comuns (e ingênuas) entre as pessoas que negam a vacinação é que se o indivíduo vacinar seu filho ele desenvolverá o autismo (o que já vimos ser falso), e isto cria um complexo de culpa maior do que se ele não vacinasse seu filho e este morresse como vítima do destino. Ou seja, ao negar a vacinação preferem que a culpa da morte dos seus filhos esteja no destino porque seria menos doloroso do que vacina-lo, do que por meio de um boato mal estruturado e sem evidências. A isto denomina-se parcialidade de omissão.

Bem, os dados acima são claros: antes do desenvolvimento da vacina, doenças atualmente erradicadas causavam milhares de mortes anualmente, e atualmente, salvam cerca de 3 milhões de vidas. Negar a vacinação ao filho é dar a ele a oportunidade de voltar a Idade Média onde doenças como a Peste Negra dizimavam metade da população da Europa, quando atualmente temos métodos de vacinação seguros e que anualmente salvam milhões de vidas.

Nota-se que as seguintes quedas nas taxas de imunização em muitos países levam a re-emergência de doenças plenamente evitáveis, mas que já começam a causar grandes surtos, mesmo no mundo desenvolvido.

A questão de como conquistar os pais gerou um campo de pesquisa próprio, mas os estudos geralmente têm um alcance limitado e diferem em abordagem e contradizem-se. Persuasão não é a única estratégia de convencer os pais a vacinar seus filhos, mas também facilitar o acesso a vacinação, tornando difícil recusa-la. Relatos sobre crianças doentes e que morreram podem não funcionar com alguns pais por várias razões: incluindo a peculiaridade da mente humana da parcialidade de omissão discutida acima – onde o pai tenta isentar-se da morte ou doença do filho (jogando sorte ao destino) em retaliação ao mito da vacina-autista.

Um cartaz de uma mãe com os dizeres “Meu filho minha escolha”, mas e em caso de morte, a responsabilização criminal sera da mãe uma vez que a escolhe em ultima analise é dela?

O primeiro ponto a se destacar é esquecer os antivaxxers cristalizados, ou seja, aqueles que já se posicionaram religiosamente contra a vacina. Para estes, a razão e os estudos científicos que demonstram a posição mitológica do mito da vacina-autismo são rejeitados; o foco então cai sobre aqueles que não se decidiram e tem dúvidas sobre a eficácia e eficiência da vacina – este texto é para este público, um chamado ao combate a irresponsabilidade da não-vacinação.

Esse grupo pode ser convencido, destacando os riscos de doenças e corrigindo a desinformação sobre o procedimento de produção vacinal (como vimos acima). Alguns pesquisadores estudaram as razões pelas quais os pais não vacinam seus filhos, na esperança de encontrar pistas para a melhor estratégia. Muitos pais falam sobre rumores de riscos para a saúde de imunizações ou sua visão negativa da indústria farmacêutica, cujo motivo real muitas vezes não são suas crenças sobre o papel do dióxido de carbono, mas sim suas opiniões políticas ultra-conservadoras.

Em um estudo publicado na revista científica PLOS ONE, o pesquisador Lewandowsky (que estuda o fenômeno da anti-ciência e pseudociência no caso dos negacionistas das mudanças climáticas) informou que a ideologia do mercado livre é um forte preditor de sentimentos antivirais; muitos pais libertários se opõem às vacinas, vendo-as como uma forma de infringir os direitos dos pais.

Lewandowsky também encontrou uma correlação extremamente alta entre o pensamento conspiratório e a rejeição da vacina. No Infowars, um site de direita que o presidente dos EUA, Donald Trump elogiou, os pais encontram manchetes como “A vacina contra a gripe mais perigosa já foi empurrada para o público” e “A ONU está usando vacinas para esterilizar secretamente as mulheres em todo o mundo?” Os fieis religiosos da anti-vacinação geralmente interpretam a evidência contra uma teoria da conspiração como uma prova adicional de encobrimentos de informações e controles populacionais e todo tipo absurdo sem evidências, nexo causal ou lógica. A experiência ensinou a mesma lição a Roel Coutinho, ex-diretor do centro de coordenação nacional holandês para doenças infecciosas em Bilthoven. Quando a vacina contra o vírus do papiloma humano foi lançada na Holanda em 2009, uma onda de oposição e rumores sobre efeitos colaterais graves pegou Coutinho e outros de surpresa.

Diversos estudos mostraram que a duplicação da credibilidade das fontes de informação errada pode alimentar boatos e falácias, pegando especialmente aqueles pais que se guiam por fake-news em redes sociais em vez de confiar nos artigos científicos revisados por pares.

As redes sociais têm congregado grandes disseminadores de pseudociência, por isto é bom ter cuidado com as fontes.

Algumas pessoas demoram ou pulam as vacinas, não porque se opõem a elas, mas simplesmente porque eles dificilmente conseguem marcar um encontro em um momento conveniente. Nos Estados Unidos, os pais têm que obter uma isenção – por motivos médicos, religiosos ou filosóficos – se eles querem enviar uma criança não-vacinada para a escola. Os estados onde esse processo de justificativa é mais difícil houve maiores taxas de vacinação. Michigan teve uma alta taxa de crianças não-vacinadas, mas em 2015 começou a exigir que os pais consultassem os departamentos locais de saúde pública para obter uma renúncia e as isenções caíram em 35%.

Um dos maiores tapas-na-cara que o movimento antivaxxer passou ocorreu em 2015 quando financiaram um estudo para provar que a vacina causava autismo e o resultado foi o extremo oposto. O estudo feito por Gadad et al. e publicado na PNAS irritou profundamente o movimento anti-vaxxer. O artigo, intitulado de “Administration of thimerosal-containing vaccines to infant rhesus macaques does not result in autism-like behavior or neuropathology“, examinou o efeito do esquema vacinal infantil em macacos. No estudo 79 macacos foram divididos em diversos grupos – desde grupo controle, até macacos vacinados seguindo o calendário Pediátrico de 1990, vacinas contendo timerosal (o suposto agente que causaria o autismo) e outro grupos que continha variações destes grupos. Tudo isto financiado por grupos antivaxxer (como o Safeminds) na busca de uma prova definitiva que justifica-se sua crença.

Então, no final da experiência, os cérebros de macacos do grupo controle (n = 12), grupo do calendário pediátrico (n = 12), e grupos com timerosal (n = 8) foram sacrificados e tiveram seus tecidos nervosos seccionados para exame histológico e imuno-histológico.

O resultado foi que Gadad et al não conseguiu encontrar qualquer diferença entre os controles e qualquer um dos dois grupos vacinados examinados. Não houve alterações nos neurônios nestas regiões; não houve alterações nos níveis de proteína; não houve diferenças em relação ao controle e os dois grupos experimentais no volume dos hemisférios cerebelares, o número ou a densidade de células de Purkinje no cerebelo; não houve diferença no tamanho das células de Purkinje. O procedimento Western blot (um meio de detecção de proteínas com anticorpos) não encontrou diferenças nas proteínas das células de Purkinje associadas á moléculas e proteínas que são marcadoras para diferentes tipos de células (microglia e astrócitos).

Não foram sacrificados todos os primatas por um motivo bem plausível: se os grupos que receberam a mais extensa exposição ao timerosal e a vacinação não mostraram diferenças detectáveis na estrutura cerebral em regiões relevantes para a fisiopatologia do autismo, então não há uma boa razão para sacrificar o resto dos macacos e olhar para os seus cérebros. O estudo financiado pelos antivaxxer simplesmente mostrou que não há qualquer relação entre vacinação e autismo,como todos já sabiam. Isto deixou o grupo tão furioso que alguns membros acabaram inconsequentemente sugerindo fazer tal procedimento em humanos, infectando-os com a doença – o que seria criminoso do ponto de vista da bioética.

Conclusão

O movimento anti-ciência se manifesta de diversas formas distintas, mas sempre de forma explicita. Ele parte da ocultação de fatos observados, da negação de evidências (como as pessoas que rejeitam a existência do HIV ou a as diversas formas de transmissão), de tentativas fajutas de definir as ideias científicas como teorias da conspiração (como é o caso do aquecimento global ou dos antivaxxers). Há também tentativas de substituir a ciência respaldada nas evidências pela pseudociência da crença (métodos e afirmações com aparência científica, mas que partem de premissas falsas e/ou que não usam métodos rigorosos de pesquisa).

Outra estratégia da anti-ciência é desacreditar resultados científicos defendendo que eles têm más consequências quando na realidade as consequências são piores ao desconsiderar os fatos científicos. A anti-ciência usa argumentos falhos para “justificar” uma posição pessoal ou incorreta para uma teoria que pessoalmente nega, por esta razão, os grupos cristalizados em suas crenças negacionistas não são o foco dos estudos de abordagem, mas sim aqueles indecisos que tem dúvidas sobre os procedimentos vacinais e que podem ser puxados para a irresponsabilidade da pseudociência. Uma forma de se blindar da anti-ciência do discurso anti-vaxxer e outras formas de pseudociência é consultar periódicos científicos, tendo como parâmetro os testes clínicos e empíricos.

Sugere-se extrema cautela com redes sociais que cotidianamente emitem discursos e relatos informais guiados por paixões ideológicas e crenças, e não na realidade dos fatos – especialmente se estes relatos envolvem questões de saúde pública e que podem afetar e impactar diretamente a vida humana.

Saiba mais em: PESQUISADORES DIZEM TER DESCOBERTO O QUE FAZ AS PESSOAS REJEITAREM A CIÊNCIA – E NÃO É IGNORÂNCIA; FRANÇA É O PAÍS MAIS CÉTICO SOBRE A SEGURANÇA DAS VACINAS e COMO OS ANTI-VAXXERS ESTÃO VENCENDO.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Anti-vacinação, Timerosal, Negacionismo, Pseudociência, Saúde Pública, Vacinação.

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Referências

Dudgeon JA (1963). «Development of smallpox vaccine in England in the eighteenth and nineteenth centuries». BMJ (5342): 1367–72.
Needham, Joseph. (2000). Science and Civilization in China: Volume 6, Biology and Biological Technology, Part 6, Medicine. Cambridge: Cambridge University Press. p.154
Stern AM, Markel H (2005). «The history of vaccines and immunization: familiar patterns, new challenges». Health Aff. 24 (3): 611–21.
Van Sant JE (2008). «The Vaccinators: Smallpox, Medical Knowledge, and the ‘Opening’ of Japan». J Hist Med Allied Sci. 63 (2): 276–9.
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