HISTÓRIA DA CIÊNCIA – O HOMEM E A NATUREZA, DOS GREGOS ATÉ OS DIAS ATUAIS.

É possível acompanhar as mudanças na definição de natureza na história do pensamento Ocidental cobrindo o período que vai desde a Antiguidade Grega até o final do século XX. São identificadas pelo menos cinco fases neste período: a Antiguidade Grega, Idade Média, a primeira fase da modernidade, a segunda fase da modernidade que abrange o século XIX ao início do século XX, e as últimas décadas do século XX. Em cada uma dessas fases o lugar do homem na natureza e a práxis humana em relação à natureza pode ser discutido sob diferentes perspectivas.

Quando compreendemos que nossa concepção contemporânea de natureza não é única ou definitiva, nos leva a refletir e re-significar a relação que temos com o natural. Um exemplo disto é quando comparamos nossa percepção urbana ou Ocidental com a visão na natureza encontrada em estudos feitos com culturas indígenas ou em filosofias Orientais.

Dentre as perspectivas que se pode abordar ao observar a natureza e o que ela é, esta considerar o lugar do homem na natureza, a atitude humana em relação à ela, a auto-concepção das ciências naturais e o triângulo das relações entre Deus-homem-natureza.

A palavra natureza provém do latim “natura” palavra relacionada a “nasci” que pode ser entendido por “ser nato” – sendo que a raiz Indo-Germânica desta palavra o “gen”. Outras palavras de mesma raiz são, por exemplo, “gignere” que significa nascer ou resultar, “gynè” que representa mulher em grego (bem evidenciado nos termos gineceu ou ginecologista). Natureza ainda representa o termo “Kind” que é criança em alemão.  A raiz “gen”, tem então, um importante significado básico ligado ao nascimento e a resultado.

Existe ainda outra raiz Indo-Germânica que é gno, qual na qual provém palavras portuguesas como conhecer, conhecimento e consciência que vem do latim como ignorar representando o que é cognitivo, por gnose.

Durante a Antiguidade Grega

Historicamente, a Antiguidade Grega começa por volta do século VI a.c e durou até a cristianização do Ocidente a partir do século 3 d.c. Para os gregos, o que chamamos de natureza é a physis, e surge contraposto ao conceito de arte e artesanato (tèchne). A palavra grega tèchne designa a capacidade humana de construir coisas como instrumentos e esculturas. Por outro lado, o conceito physis representa o Cosmo e tudo que existe – sendo o termo “Universo” um conceito da física moderna.

De fato, a palavra “física” representando o Cosmo provém do verbo correspondente “phyein” em grego que significa “crescer”: não no sentido quantitativo de se tornar cada vez maior, mas exatamente no sentido qualitativo de se tornar visível.

Physis é uma forma que os gregos tentaram tornar conhecido aquilo que se desconhecia e rodeou a humanidade durante sua origem e jornada evolutiva. Para dar conta da angústia de não saber de onde viemos, quem somos e para onde vamos o homem, dotado de sua razão começou a questionar o que é tudo aquilo que o cercava. Destes questionamentos a filosofia foi inaugurada. Então, a  physis é o nome dado pelos primeiros pensadores para explicar tudo aquilo que o cercava e que era desconhecido. O tudo, devidamente nomeado de physis  faz com que o todo desconhecido passe a ser conhecido.

Como a physis representa o Cosmo e tudo que nele existe, não há o fora da physis, ou seja, não há o “fora da natureza”. Uma concepção bastante distinta da atual, afinal; quantas vemos ligamos a televisão para ver a “natureza” em um programa de ecologia?

Para os gregos não havia o fora da physis, o homem como ser vivente no Cosmo é, portanto, vivente dentro da physis e parte dela.

Dentro da physis há processos de enfraquecimento, plantas murcham e aniquilações, pois sem a decomposição não se pode surgir nada novo – a noção de ciclicidade, periodicidade da physis vem dai. Para os gregos, o paradigma da physis era como a vida orgânica – a imagem arquetípica do Cosmo era a de um organismo. Assim, a natureza era vista como algo vivo, dotado de um processo circular: o processo de surgir e desvanecer nas estrelas, dos processos que hoje chamamos de estações do ano, das flores que aparecem e desaparecem, da água que sobe e desce aos céus, dos seres vivos que nascem, crescem, envelhecem e morrem. Desta visão, surge o conceito de círculo, em grego Kyklòs, refere-se a uma noção chave que descreve essa periodicidade da physis.

Para Platão (427 a.c – 347 a.c), as estrelas eram fixas e os planetas giram em esferas cristalinas em torno da Terra. Ptolomeu juntou a ideia dos epiciclos à noção das esferas sem alterar a ideia dos gregos. Como ambos os processos – celestes e terrestres – eram representados como epiciclos em processos de surgir e desvanecer tudo então se repetiria ad eternum. Nesta visão cosmológica, não há evolução de espécies biológicas e tão pouco das estrelas, caracterizando assim uma natureza eterna, sem criador, pois ela é princípio de si mesmo e daquilo que surge e desaparece.

Destas duas características da physis emerge uma terceira que é mais específica. Para os filósofos gregos existe algo que é a physis (natureza, essência, princípio, elemento, substância) de cada ser singular. Os filósofos jônicos tentaram determinar essa essência (chamada de arché), começando com Tales de Mileto. Para Tales a arché era a água, elemento responsável por explicar as mudanças da physis pela própria physis. Posteriormente Anaximenes sugeriu como arché o vapor ou no ar, Heráclito de Éfeso superou o plano do século V a. sendo o filosofo revolucionário que ensinou que o princípio da physis é a eterna mudança, o devir (o ir é o vir – o frio deixa de ser e se torna quente, e este volta para o frio eternamente, assim como tudo na natureza). Pitágoras no século V a.c propôs que a physis de todos os seres era a estrutura geométrica ou número.

Os filósofos pitagóricos buscavam representar todas as relações que se encontram na natureza como harmonia das esferas astronômicas – uma harmonia não audível que provêm do movimento diferencial das esferas que giram ao redor da Terra. O pensamento de Platão foi também estruturado pela matemática e através dela as ideias da “Escola de Pitágoras” entraram no pensamento científico moderno. Se hoje estruturamos um modelo molecular da água pela composição de dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio é porque seguimos as pistas dadas por Pitágoras há mais de 2 mil anos atrás.

Aristóteles (384 a.c – 322 a.c) defendeu que physis era o princípio de movimento e repouso inerente a todas as coisas. Graças a esse princípio cada ser aspira o seu próprio lugar natural no cosmo: objetos pesados tendem a ir para baixo, objetos leves como fogo tendem a ir para cima. Nos seres vivos o princípio do movimento é a psiche, ou, a alma.  Como a alma é imaterial, os aristotélicos chamaram ela de forma corporis enquanto princípio da vida. A alma é ao mesmo tempo o princípio das capacidades e qualidades específicas de cada ser vivo: os movimentos das plantas são de crescer e murchar. A planta tem, portanto, uma alma vegetativa. Os animais e homens podem se movimentar e deslocar-se de lugar ao outro, tendo inclinações, impulsos, necessidades graças a alma apetitiva, o thymòs.  No entanto, o homem possui uma alma racional. Isto é, o homem é capaz de pensar e planejar suas ações tendo a competência de compreender a natureza, algo que faz parte do logos.

Aristóteles distingue três planos diferentes da realidade e em correspondência com isso, três tipos de ciências que ele chama de: episteme, como a ciência da natureza (ta physika); a matemática (ta mathematika); e a metafísica (ta meta ta physika).

A física se debruça então sobre as causas das transformações e dos movimentos da realidade material; a matemática abstém-se de toda a transformação de todo movimento e de toda matéria observando sobre o que é imutável, por exemplo, as proporções aritméticas da harmonia musical ou mesmo dos astros. A metafísica abstém-se das leis matemáticas e indaga acerca dos princípios gerais daquilo que existe na ciência no sentido estrito, lidando com os princípios imutáveis na natureza e graças a razão (nous) o homem tem acesso direto a estes princípios.

O pensamento medieval foi enormemente influenciado por Aristóteles, especialmente após a conquista do Império Árabe onde as obras de Aristóteles foram conservadas e foram comentadas minuciosamente por filósofos naturais e cientistas árabes. Assim, para os gregos, a physis era o todo, a totalidade do Cosmo.

A Idade Média

Na Idade Média, é através da tradição bíblica que surgem novos aspectos ligados a concepção de natureza. Essa tradição baseia-se principalmente no Antigo Testamento, ou seja, fundamentando as raízes do pensamento Orientais. Para a Idade Média a natureza é a criação divina, portanto, tudo tem um início e o fim, existindo então um criador. Todavia, este criador não faz parte do mundo, não reside dentro da natureza, e portanto, essa cosmologia Cristã não convive com a Cosmologia antiga dos gregos – pela falta de alinhamento entre elas segundo a qual não existe nada fora da natureza, não existe o fora da physis.

Se a physis explica a si mesmo e suas mudanças, a ideia de que algo de fora criou e altera esporadicamente na physis corre para a metaphysis – ou, metafísica.

A partir do século XII impõe-se a questão da relação entre a sabedoria grega (sophia) e a verdade cristã. Neste mesmo século as obras de Aristóteles tornaram-se gradualmente conhecidas e traduzidas para o latim e vistas com heréticas. Somente com Santo Tomás de Aquino (1225-1274) que a ideia aristotélica segundo a qual a natureza é o princípio interno do movimento e repouso convenceu os pais da Igreja da Medieval, e por razões óbvias, foi acrescentado que quem atribuiu a cada ser a sua determinação individual, isto é, a physis, foi deus.

Com isso, mudou a imagem de natureza, sendo ela vista fora do homeme o homem fora dela – uma vez que o homem era a imagem e semelhança de deus. Por outro lado, a proposta aristotélica segundo a qual a possibilidade do homem aperfeiçoar submetendo seus impulsos e suas paixões a razão foi sendo inserida no cerne do pensamento cristão. O efeito colateral foi que a natureza inteira foi igualada ao âmbito da criação e nela manifesta-se a bondade e a sabedoria divina. Desta forma, segundo os textos da bíblia a natureza tornou-se testemunho da revelação divina. O conceito de natureza adquire então um componente normativo da convicção de que a arte deveria imitar a natureza estruturando toda uma era de pensamento. Sem essa implicação normativa no conceito medieval de natureza a discussão sobre o direito natural do começo da Idade Moderna – como em Hugo Grotius (1583-1655) – seria incompreensível. Grócio definiu o direito natural como um julgamento perceptivo no qual as coisas são boas ou más por sua própria natureza. Com isso rompia com os ideais calvinistas, pois deus não mais seria a única fonte ou origem de qualidades éticas.

I Fase da Idade Moderna

Para compreender o conceito da natureza nesta primeira fase da Idade Moderna deve-se ter em mente algumas das heranças do pensamento teológico da Idade Média. Além disto, a redescoberta da antiguidade grega no século XV desencadeou um aprofundamento da tradição experimental na pesquisa científica sobre a natureza. A ciência segundo o método científica começa a desabrochar.

Na Antiguidade grega e na Idade Média o experimento na ciência não era comum. Pelo contrário, uso do experimento, por exemplo, em Arquimedes ou Harão de Alexandria era excepcional. A importância da experimentação cresceu somente na Idade Média em tradições ocultas ou no Oriente, Império Árabe no Século XII, muito antes da Europa.

Foi a partir de Francis Bacon (1561-1626) que propagou o fim das Ciências Naturais e experimentais e aspiração de poder sobre a natureza; pois anterior a ele, Roger Bacon (1214-1292) já havia feito isso de certa forma. Por volta do século XVI, na época de Descartes e Galileu, essa concepção de ciência natural surgiu de modo geral, e desde então, as aplicações de técnicas das ciências naturais transformaram a superfície do planeta em uma velocidade de cada vez maior.

Outro fator importante para o surgimento das ciências naturais no século XV foi o estudo intensivo da literatura antiga. Pode parecer paradoxal, pois estudo literário dos humanistas não ocorreu por motivos ligados às ciências naturais; o humanismo teve bastante influência na concepção das ciências naturais e modernas. Ele contribuiu para a re-descoberta de Platão cuja obra em sua maior parte era desconhecida na Idade Média. No ano de 1428 o humanista e historiador João Aurispa foi buscar em Constantinopla o texto grego integral nos escritos de Platão e trouxe-o para Veneza possibilitando o auge do platonismo no começo da Idade Moderna.

Como a filosofia de Platão era nitidamente orientada pela matemática (pois, sem conhecimento de geometria ninguém entrava em sua academia), no século XV um clérigo alemão escreveu um pequeno livro no qual defendeu a concepção de natureza sob a perspectiva quantitativa. O autor foi um dos cérebros mais especulativos entre Platão e Hegel, o humanista renascentista Nicolau Cusano (1401-1464). Ele vislumbrou a nova ciência com o título de “Idiota. De staticis experimentalis” (O Laico – Sobre experiências com a balança) e disse:

“Se nós contássemos cem aspirações (fôlegos) de um menino e a mesma quantidade de um velhinho deixando correr a água através de um relógio, então as quantidades de água não mostrariam pesos iguais. A divisa do que está escrito é a seguinte: medida o que se pode medir e tornar mensurável aquilo que não o é.”

Nicolau de Cusa esboçou um programa do que veio a ser a ciência natural moderna, um século e meio antes de Galileu. O renascimento do pensamento Platônico deixou seus vestígios no século XVI, especialmente em Copérnico, e no começo do século XVII com Kepler – especialmente este último. Todos estes elementos se mostraram decisivos na imposição do modelo heliocêntrico, pois na filosofia platônica o Sol é um símbolo central. Nela, o Sol é fonte da vida, e portanto, representa para Platão a ideia suprema do bem. Outro critério platônico que influenciou Copérnico e Kepler foi o da simplicidade matemática. A obra científica de Copérnico almejou a busca de uma explicação matematicamente simples das trajetórias dos planetas, minimamente complicada do que a do modelo ptolomaico que exigia uma série de exceções para se sustentar.

No caso de Kepler a ideia platônica do círculo como uma figura perfeita era tão enraizada no seu pensamento que ele baseou seus cálculos de trajetórias do planeta na forma circular durante muito tempo antes de abandonar essa convicção em favor de um modelo elementar – o modelo das trajetórias elípticas inspirado em Platão e Pitágoras. Kepler tentou explicar as distâncias entre as trajetórias dos 5 planetas segundo a ideia do encaixe dos cinco corpos platônicos – o tetraedro, cubo, octaedro, dodecaedro e icosaedro.

Sistema de Kepler

O pensamento cristão medieval ainda continuava agindo nesta primeira fase dos tempos modernos da ciência no século XVI e XVII. Deus ainda permanecia preponderantemente forte em uma instância exterior a natureza, maior que ela. A ideia de que deus não apenas criara o Cosmo, mas continuava exercendo influência sobre ele. Mesmo Isaac Newton, o representante da física clássica salientou em sua obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (1687) que deus deveria repor de vez em quando os planetas nas suas respectivas trajetórias.

As ciências modernas andaram então nos rastros da teologia medieval e até mesmo em outro sentido mais elementar, acabaram por herdar a suposição teológica de um determinismo geral de que cada evento natural tem a sua causa suficiente.

Na cosmologia cristã, deus esta com a patente de criador e preservador da criação, sendo ele a última causa, a causa integralmente continua de todos os processos naturais – a causa final, ou, teleológica.

Na Idade Moderna este papel foi sendo gradualmente tirado das mãos de deus e assumido pelas leis naturais, a ciência vai se tornando mais materialista e mecânica.

Pierre-Simon, Marquês de Laplace ficou conhecido por dizer sobre a questão de Deus:

“Je n’ai pás besoin de cette hypothese”

(Não precisei desta hipótese”)

Pela cosmologia determinista, o universo se assemelha um grande aparelho mecânico. Com isso levantava-se a questão acerca do lugar ocupado pelo homem na natureza. A partir do século VXII o homem está representado também como uma máquina o filósofo holandês Geulincx (1625-1669) que o comparou a um relógio com os ponteiros apontando para dois mostradores que representam corpo e espírito e La Mettrie (1709-1751) provocou seus contemporâneos com seu escrito chamado “L’homme machine“. Já no século anterior, em 1651, Thomas Hobbes (1588-1679) havia desenhado em sua principal obra “O Leviatã” a imagem de como o homem funcionava mecanicamente.

Estes são alguns exemplos aonde se sai das raízes teológicas do determinismo moderno – outro aspecto dessa herança da relação entre deus e a natureza. Contudo, o próprio homem cujo lugar desde a Idade Média estava situado dentro da natureza (e como ela, o homem também havia sido criado por ceus) começou a assumir uma posição externa a natureza, abandonando sua menoridade e elevando-se como dono da natureza, seu dominador e alterando-a.

Na natureza, anteriormente vista como criação divina, torna-se objeto de pesquisa e manipulação científica. A divisão cartesiana do mundo em duas partes – res extensa como o mundo dos corpos materiais e a res cogitans mundo do pensamento – é sintomática da divisão entre o homem e a natureza. Nesta visão, o pensamento não pertence a natureza e a convicção aristotélica de que os princípios que regem a natureza são abertos ao logos (razão) humano não faz sentido na cosmologia cartesiana.

A filosofia cartesiana torna-se duvidosa e até a questão de se o homem consegue conhecer a realidade de forma correta é erguida, pois o mundo é bipartido: res extensa e res cogitans. Descartes teve de recorrer a benevolência divina para explicar por que o conhecimento científico não nos ilude e a saída do homem da sua pequenez na Idade Moderna tem como consequência deus e o homem invertendo de posição. Nela, a razão humana não está mais representada segundo o modelo da razão divina, mas o contrário, está representada pela outra. Um exemplo bom disto é que Laplace denomina de “inteligência quase divina”, uma inteligência que sabe calcular na maneira de um cientista natural, mas com uma velocidade que hoje chamamos de velocidade eletrônica.

O pensamento mecânico determinista passa a dominar cada vez mais o pensamento filosófico a partir do século XVII e todos os eventos são determinados inteiramente por leis naturais. Não fazia diferença dizer que o homem não pode mexer nas cadeias causais ou se nós dizemos que o agir e o pensar humano são totalmente determinados por cadeias causais. De qualquer maneira, em ambos os casos, chegamos ao resultado de que nós apenas parecemos ser livres. Nosso querer, agir, planejar ou acontecem ou somos apena fantoches da causalidade natural.

Na tradição filosófica da Idade Moderna, então a liberdade ou está negada (como dizem Hobbes e behavioristas contemporâneos) ou está banida para o mundo ideal, fora e além da natureza como sugeria Descartes e depois Kant.

O homem ou é inteiramente natureza – o que significa que ele é puramente um objeto entregue as leis naturais e assim não tem livre-arbítrio -, ou contrariamente, ele é também um sujeito, mas enquanto tal, reside fora da natureza sem qualquer possibilidade de mexer nela.

Com a descoberta de outras culturas devido a expansão da europeia a auto-consciência do povo europeu Ocidental foi relativizada e até a representação do Universo como uma máquina tem algo de masoquista. A auto-consciência humana afetada por todos estes elementos ainda reconheceu mais tarde que nós somos uma máquina fisiológica não-livre e a ideia hobbesiana de que essa máquina é também um aparelho calculável não serve como um consolo.

As filosofias antigas e cristãs medievais diluíram e não existiam mais como medida de comparação. A obra e a fala de Laplace mostra, então, que a religião perdeu a sua função no centro das Ciências Naturais com exceção da biologia – na qual religião se apresenta na forma de Teologia Natural continuaria a desempenhar um certo papel até na metade do século XIX. A filosofia no século XVII estava inseparavelmente ligada à Ciências Naturais.

Notemos próprio Isaac Newton chamou a sua teoria de “filosofia da natureza” (Philosophiae Naturalis Principia Mathematica) e também perde cada vez mais a sua importância em favor da natureza. Ao longo do tempo, a filosofia continua como Kant já havia feito, levantando questionamentos a respeito das condições e possibilidades do conhecimento natural ou apontando entre a liberdade e o determinismo na qual o homem havia se enrolado.

II Fase da Idade Moderna – A partir do século XIX

No século XIX três elementos são importantes a serem considerados na questão da natureza. O primeiro é a Teoria Geral da Evolução; o segundo, o descobrimento do acaso nas teorias sobre a natureza; e terceiro, a segunda lei da termodinâmica.

A teoria da evolução trouxe grandes implicações e uma relativização do posicionamento do homem dentro da natureza. Darwin, com sua teoria passou a ser visto como autor de uma segunda “revolução copernicana” ao demonstrar que o homem perdeu a sua posição privilegiada do centro da criação do Universo. Com o estabelecimento da evolução biológica, agora o homem havia perdido a prioridade em relação aos animais e as plantas. O homem já não era mais a imagem e semelhança de deus, ele era um primata pelado criador de deus, dando margem ao pensamento de que deus seria nossa imagem e semelhança.

O acaso nas teorias naturais também passou a determinar eventos dirigidos ou governados por leis gerais e invariáveis. Cada jogada independente de todas as jogadas anteriores em um jogo qualquer e que entre elas não existe nenhum vício determinante começou a ser estudado pelo matemático Gerolamo Cardano (1501-1576).

Quando as leis da probabilidade e as leis da estatística invadiram a física ampliaram as leis da mecânica de várias maneiras e a partir de várias descobertas foram feitas no século XIX puseram o papel da natureza em foco e relacionado ao acaso. Em 1827, o biólogo inglês Robert Brown (1773-1858) observou que pequenas partículas emersas e líquidos vibravam e se deslocavam de maneira irregular, causado por choques moleculares. Este ficou conhecido como efeito browniano (movimento aleatório de partículas), embora a explicação só tenha vindo a partir do físico Albert Einstein.

Em 1896, Henri Becquerel (1852-1908) descobriu a radioatividade do urânio, a desintegração do núcleo do átomo e que cada um deles ocorre independente da decomposição dos outros. Essa independência é do mesmo tipo encontrada nos jogos de dados. Em contraposição ao jogo dos dados a desintegração atômica não pode ser influenciada de fora. Pode-se afirmar somente que as proposições estatísticas como aquela segundo a qual metade dos isótopos 14 do carbono de cai a cada 5.730 anos e plutônio em cerca de 24360.

No século XIX e no começo do século XX começou a se criticar o determinismo mecânico por alguns cientistas. Segundo eles , o acaso e a probabilidade não ocorrem devido exclusivamente nossa falta de informação quanto aos determinantes de processos naturais, mas o contrário, os processos eram intrínsecos e completamente determinados, defendendo que o acaso e as probabilidades são inerentes à própria natureza.

Outro ramo das ciências naturais onde há a participação de elementos aleatórios é na explicação darwinista dos mecânicos pelos quais a evolução biológica ocorre – o que leva a variação (aleatória) e seleção (não-aleatória). Nela, a evolução não é mais do que o resultado da mutação e recombinação de genes aos quais por sua vez são resultados de processos naturais de seleção. O acaso é uma provocação não apenas para a visão determinista do mundo, mas também para consideração teológica da natureza. O próprio Darwin aponta e uma carta sua escrita em novembro de 1860 a Asa Gray onde afirma:

“Estou consciente de encontrar-me despreparadamente entre a espada e a parede. Por um lado, não consigo imaginar que o mundo, tal como nos vemos, possa ser produto do acaso, por outro lado, não posso encarar cada evento como produto de um plano criador”.

A descoberta científica do acaso e a Teoria da Evolução não são os únicos desafios que colocaram as ciências positivas no século XIX. Mesmo Adam Smith (1723-1790) reconheceu que as necessidades equilibram-se no mercado através da oferta e da procura. O poder de cada um tende a influenciar no ponto de equilíbrio entre a oferta e procura é mínimo ou quase inexistente. Uma vez que cada um segue seus interesses pessoais os processos econômicos são determinados de modo quase totalmente independente da iniciativa particular de cada pessoa (a chamada de mão invisível) e portanto, há um forte componente aleatório ai.

O físico matemático e engenheiro Sadi Carnot (1796-1832) começou a questionar sobre a perda do vigor vivo/força viva (a energia) em sistemas mecânicos devido à fricção – ou seja, ao atrito em 1824. Em máquinas mecânicas uma quantia de energia transforma-se em calor e uma parte dela não poderia mais voltar ao estado de energia mecânica.

Este tipo de pensamento que deu origem a segunda lei da termodinâmica em 1860 por Rudolf. Clausius. Foi Ludwig Boltzmann quem, em 1877,propôs a definição moderna da entropia, mas o conceito de entropia e seu emprego a segunda lei foi dado por Clausius em 1865.

A longo prazo, a entropia cresce e diminui a quantidade de movimentos regulares, no final se estabelece o estado de desordem máxima e ausência total de estrutura.

Há ainda outra implicação desse teorema; ele se revela como uma reviravolta na história da criação baseada no reconhecimento de que o mundo não iniciou, mas terminará no caos. Enquanto na religião cristã do caos e das trevas se fez a luz e a organização do Universo, na cosmologia proposta pelos físicos o caos é o fim. Nela, a entropia (desordem) era baixa quando o Universo surge. Ao se expandir – com o Big Bang – corre em rumo á desordem, ao caos, a entropia máxima (ou seja, o fim da aproveitabilidade de energia) em direção á morte térmica.

No século XIX então a auto-consciência humana sofreu uma série de abalos, assim como evolução, os acontecimentos econômicos históricos também passaram a serem vistos como processos naturais. O conceito de sobrevivência do mais apto elaborado por Spencer e assumido por Darwin tornou-se um princípio fundamental da economia liberal e a concorrência e exploração parecia (erroneamente) ser legitimadas pela própria natureza (Veja mais em COMO A MÁ BIOLOGIA ESTÁ MATANDO A ECONOMIA).

No final do século XIX o conceito de natureza não tem mais muito a ver com o conceito grego de physis nem com a teologia criacionista Cristã – a impressão deixava é que as cosmologias antigas e medievais tornaram-se radicalmente obsoletas com as descobertas astrofísicas. Quem analisou de maneira mais interessante e concreta a situação espiritual no século XIX foi quando o filólogo especialista em Antiguidade Friedrich Nietzsche (1844-1900) disse:

“Em um recanto afastado do Universo, vertido em inúmeros sistemas solares cintilantes, houve, uma vez uma estrela na qual animais inteligentes inventaram o conhecer. Era um minuto mais arrogante mentiroso da “história do mundo”. Era no entanto só um minuto. No final de algumas aspirações da natureza aquela estrela coagulou e os animais inteligentes tiveram que morrer”.

Foi assim que Nietzsche re-inaugurou o niilismo. A aceitação do mundo tal qual ele é e a miserabilidade do homem perante o vasto Cosmo.

Século XX

No século XX natureza e técnica começaram a se confundir.  A humanidade passou a produzir e gerar processos que até então não ocorreram na Terra. Um exemplo disto é a produção de uma série de isótopos radioativos que antes não se encontravam na natureza terrestre.

Também começou a patentear bactérias e organismos construídos pela via da engenharia genética. Portanto, passou a ser dominado pela técnica em geral.

Como consequências primárias e secundárias não-reversíveis forçou a contar como se fossem eventos naturais. A diluição de tal fronteira, entre o natural e a técnica desde o início do século, como é o caso do Brasil, a população multiplicou-se pelo fator 10.  Por outro lado, não pensamos que isso fosse um sinal de sucesso, pelo contrário. Na medida em que a nossa espécie confirma a própria evolução passamos a duvidar da própria adaptação biológica deixando tal pensamento presente nas reflexões filosóficas modernas que definem o homem como um animal não fixado, por que seu instinto é reduzido.

Arthur Koestler (1905-1983), um jornalista e escrito húngaro afirmava que o homem é um ser extraviado da evolução. Diversas linhas de pensamento começam a sugerir o homem como sendo um projeto falho de ser vivo, defeituoso e sua explosão populacional não é consequência de um grau particular de adaptação biológica, mas sim do resultado do poder técnico do homem – o homem adaptando o ambiente a si.

Então, aquilo que segundo a Teoria da Evolução é o mais nítido indício da adaptação – o crescimento populacional e diversidade biológica – passa a ser lido por estes pensadores como um sinal de desadaptação, reafirmando mais uma vez a tese de que o homem está localizado fora da natureza – pelo menos no que se refere a sua autoconsciência.

O ambientalista, filosofo e escritor José Lutzenberger (1926-2002) salientou certa vez que o brasileiro civilizado médio não tem mais a relação alguma com a natureza em contraposição com os indígenas da Amazônia, cuja sobrevivência a longo-prazo é pouco provável. Nossa relação de exclusão da natureza, é então, uma das raízes espirituais da destruição da própria natureza que hoje está em curso. Nunca na história da humanidade houve tão pequenas reservas naturais quanto hoje.

As estimativas mais recentes é que a cada dia são extintas entre 10 e 100 espécies de animais e vegetais sem nenhuma chance de recuperação. A cada ano até 20 milhões de hectares de florestas tropicais são queimadas e desmatadas, correspondendo aproximadamente a área da Alemanha.

Nos países industrializados 31 milhões de hectares de florestas estão comprometidas pela chuva ácida, poluição do ar, mais da metade das florestas de muitos países europeus (por exemplo, a Holanda, Suíça e Alemanha) são atingidas por estes fenômenos. Milhares de lagos (cerca de 1800 só na Suécia) estão biologicamente mortos ou quase mortos. A possibilidade do de uma condição catastrófica é apenas uma consequência do fato de que a ideologia segundo qual evolução é uma luta pela sobrevivência da qual sai vitorioso apenas o mais forte foi levada ao estado absoluto. Por outro lado, a evolução hoje não é mais encarada como um processo que traz esse progresso na sequência das espécies, mas sim no processo de multiplicação diversificação e especialização das espécies.  O progresso não está excluído de tudo isso, mas ele não passa de um produto lateral da evolução. A imagem atual da evolução difere daquela imagem do século XIX em outro aspecto: em que tentou se determinar uma um processo natural de concorrência e dominação de outras espécies e de dominação da própria natureza.

Como sabemos, nem todos os eventos casuais têm a mesma probabilidade ou probabilidade. Existem repartições de probabilidades e estas são sujeitas a transformações. Nas últimas décadas, a evolução evidenciou-se como um processo que se situa entre os processos deterministas do tipo mecânico, processos ao acaso, a influência do ambiente e outros elementos recém-descobertos.

Nos processos ao acaso o espaço de liberdade é máximo e o grau de determinação é zero. São casuais, por exemplo, todos os processos que influem na conjunção dos genes que formam o novo indivíduo e a partir do pool gênico de uma determinada população. O grau de casualidade é menor entre aqueles eventos que conduzem (na alternação das gerações) o fluxo de genes de uma população e os canalizam para uma outra direção favorável à conquista de um nicho ecológico. Esses eventos ocorrem segundo leis da teoria das probabilidades ou da estatística, e são esses processos não totalmente casuais que Darwin chama de seleção. A seleção não é portanto o processo que faz com que sobreviva o mais forte adaptado, mas sim um processo estatístico no qual a própria repartição de probabilidades pode mudar.

Por exemplo, em uma estrada a densidade de veículos aumenta também a tendência de que trânsitos congestione. Se essa tendência continuar, toda a circulação pode facilmente parar. O que Spencer e Darwin chamou de “The Survival of the Fittest” (sobrevivência do mais apto) evidencia-se então como sendo um fenômeno estatístico de competência da teoria das probabilidades que se impõe a longo-prazo e não simplesmente o mais forte: mas sim aquele que é mais adequado sob certas condições ambientais e ecológicas.

Podemos dizer “o mais bem adaptado”, mas não podemos esquecer de que as espécies não apenas se acomodam nos seus nichos ecológicos como também moldam eles, transforma-os e dialeticamente são influenciados. Espécies e nichos ecológicos evoluem juntos e o grau em que o indivíduo está adaptado ao seu nicho é uma função da combinação peculiar de seus caracteres e as suas capacidades.

A sobrevivência não é apenas uma função da força, mas sim da diversificação e da multiplicidade. É isso que a biologia evolutiva nos ensina. O filósofo alemão Ernst Ulrich Von Weizsäcker (1939-até hoje) que é presidente do Clube de Roma defende que o século XXI será o século da ecologia.

Isso significa que a economia não poderá permanecer como um fim em si mesma, mas deverá submeter-se ao objetivo da conservação da biosfera por uma necessidade que é óbvia já que a natureza (vista como recursos naturais a serem explorados) são finitos. Este grau de distanciamento entre homem e natureza forçara o homem a resgatar a leitura de que apesar de todas as transformações em 2 milênios de pensamentos, de técnica e de soberba, vai mostrar que não somos dissociáveis da natureza. Se continuarmos a tomar a ideia de concorrência em um sentido absoluto que se ajusta ao que é subjacente ao nosso sistema econômico e domínio nosso comportamento social nós permaneceremos presos ao conceito de natureza do século 19 e fadados a catástrofe

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Antiguidade Grega, Idade Média, Renascimento, Ciência Moderna, Filosofia da Ciência, História da Ciência.

 

Referências

Kesselring, T. O Conceito de Natureza na História do Pensamento Ocidental. Revista Episteme, Porto Alegre, N 11. P 153-172. 2000

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