DECODIFICANDO DESCARTES – O MÉTODO, A SUBSTÂNCIA E DEUS.

A criação do método científico é atribuída a Descartes, mas suas raízes são mais profundas, voltando a pensadores como Robert Grosseteste, Galileu Galilei, Roger Bacon e Francis Bacon.

René Descartes

Roger Bacon (1220-1292) foi um dos primeiros acadêmicos de Oxford e o primeiro a defender a experimentação como fonte de conhecimento. Junto com Duns Scotus e Guilherme de Ockham, Roger Bacon foi o responsável pelo que seria a base do empirismo; tese pela qual a razão e o conhecimento não devem depender apenas da fé, mas também dos nossos sentidos, pois podemos aprender aquilo que experimentamos. Assim, o conhecimento sobre deus deveria continuar sendo a fé, porém o caminho do mundo terrestre, humano, físico, é substancialmente diverso do primeiro mundo místico e metafísico, e deveria ser entendido sob a perspectiva das experiências dos sentidos.

Para Francis Bacon (1561-1626) uma nova abordagem da investigação científica deveria ser dada através do pensamento indutivo em contraposição ao pensamento dedutivo que desde Aristóteles predominava sobre as ciências.

Foi na obra “Discurso do Método” que René Descartes (1596-1650) lançou de fato, os fundamentos do método científico moderno. Embora Descartes tenha concordado com Bacon no sentido de que a natureza deve ser entendida e modificada em favor do homem, ele discordava no sentido de que os sentidos devem ser questionados e não constituem uma fonte segura de confiança para o conhecimento verdadeiro.

A ciência, que na visão de Francis Bacon, tinha como objetivo primeiro de proporcionar o bem estar ao homem através da compreensão e modificação da natureza a seu favor, perdeu seu sentido para Descartes. Descartes identifica no intelecto, e sua pureza, duas faculdades essenciais: a intuição, ferramenta na qual podemos ter imediatamente presentes no espírito ideias claras, perfeitamente determinadas (ideias inatas) e distintas, simples e irredutíveis, e a dedução, pela qual podemos descobrir conjuntos de verdades ordenadas racionalmente.

Descartes então elabora um meio criterioso e um conjunto de ferramentas que acredita ser correto para alcançar o conhecimento verdadeiro acerca de todas as coisas. Ele propõe 4 passos:

– Evidência racional: evitar ou eliminar tudo que é contraditório, aquilo que foge de especulações e concepções errôneas do senso-comum que induzem as falhas no modo de pensar. Aceita-se somente aquilo que seja compreendido de forma clara e distinta.

– Análise: Dividir o objeto de estudo, decompô-lo para compreende-lo da maneira mais minuciosa possível, facilitando o entendimento das partes do todo.

– Síntese: Esclarecer as várias partes o todo e reagrupa-las para não perder a noção do conjunto completo.

– Controle: Revisão se os passos foram feitos da forma correta.

Assim, Descartes parte de uma crítica radical, direcionada a todo o saber humano, por meio do exercício voluntário, metódico da dúvida. Ele suspende o juízo acerca de tudo que desperta a menor suspeita de incerteza. Levando esse exercício às últimas conseqüências, a dúvida estende-se à realidade das coisas sensíveis e aos princípios da ciência universal.

Devemos lembrar que Descartes vivia em um período de transição histórica na questão do conhecimento e, portanto, questionar os sentidos fazia todo sentido. Por exemplo, neste mesmo período, em 1539 o astrônomo polonês Nicolau Copérnico tinha colocado em cheque a ideia aparente de que o Sol se movimentava nos céus, sobre nossas cabeças, em sua obra “De revolutionibus orbium coelestium” – concepção geocêntrica baseada no sistema aristotélico ptolomaico que estruturava o modelo vigente da Igreja. De fato, ao longo de seu pensamento filosófico vemos como o católico Descartes se afasta do modo de pensar da Igreja, e por consequência, a obra Discurso do Método quanto Meditações (1641) foram anexados ao Index Librorum Prohibitorum.

Aplicando a visão descartesiana ao pensamento de Copérnico, veremos que os sentidos estavam nos enganando. Os sentidos nos diziam que o Sol se movia sobre uma Terra fixa ao centro geográfico do Cosmo, quando a mecânica correta apresentada por Copérnico dizia o contrário; a Terra se movimentava em torno do Sol. Embora a visão de um observador terrestre seja de um Sol caminhando nos céus da Terra estática, a perspectiva estava errada. O sentido (visual) estava nos enganando e a ciência nos faria (e ainda faz) ver além do aparente. Para tal, era preciso supor dúvida a tudo que se mostrasse minimamente incerto.

Descartes captou isto, a ideia de que os sentidos podem ser uma fonte não-segura de conhecimento e nos convida a questionar o que os nossos sentidos nos informavam. Desta forma, ele conclui que a única coisa da qual não se pode duvidar é o pensamento (o que o leva à máxima conhecida do “cogito ergo sum”, ou seja, “penso, logo existo”), que é fruto da razão, a única certeza.

Quem duvida exerce o ato de pensar, e pensar é uma propriedade do existir: ao duvidar do próprio pensamento e da própria existência o indivíduo que duvida confirma sua existência; portanto, pensar é existir. Mas para chegar a esta conclusão Descartes usa critérios, e estes critérios são fundamentais para estruturar não somente o método científico, mas o próprio ser e deus.

Na quarta parte de sua obra Discurso do Método o francês estrutura o método científico, sua dúvida hiperbólica e descreve sua tese:

“Não estou seguro se deva falar-vos a respeito das primeiras meditações que aí realizei; já que por serem tão metafísicas e tão incomuns, é possível que não serão apreciadas por todos. Contudo, para que seja possível julgar se os fundamentos que escolhi são suficientemente firmes, vejo-me, de alguma forma, obrigado a falar-vos delas.

Havia bastante tempo observara que, no que concerne aos costumes, é às vezes preciso seguir opiniões, que sabemos serem muito duvidosas, como se não admitissem dúvidas, conforme já foi dito acima; porém, por desejar então dedicar-me apenas à pesquisa da verdade, achei que deveria agir exatamente ao contrário, e rejeitar como totalmente falso tudo aquilo em que pudesse supor a menor dúvida, com o intuito de ver se, depois disso, não restaria algo em meu crédito que fosse completamente incontestável. Ao considerar que os nossos sentidos às vezes nos enganam, quis presumir que não existia nada que fosse tal como eles nos fazem imaginar. E, por existirem homens que se enganam ao raciocinar, mesmo no que se refere às mais simples noções de geometria, e cometem paralogismos, rejeitei como falsas, achando que estava su­jeito a me enganar como qualquer outro, todas as razões que eu tomara até então por demonstrações.

E, enfim, considerando que quaisquer pensamentos que nos ocorrem quando estamos acordados nos podem também ocorrer enquanto dormimos, sem que exista nenhum, nesse caso, que seja correto, decidi fazer de conta que todas as coisas que até então haviam entrado no meu espírito não eram mais corretas do que as ilusões de meus sonhos. Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo em que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava”.

Não são todas as pessoas que compreendem Descartes ou que enxergam neste parágrafo o método científico, a importância de Descartes para a filosofia, história, ciência e para o pensamento religioso. Para decodificar o raciocínio descartesiano, observe as palavras destacadas e grifadas no trecho acima retirada do Discurso do Método.

Descartes utiliza nos dois primeiros parágrafos um elemento mobilizador (o desejo), para alcançar um objetivo (a verdade). Para alcançar seu objetivo, ele se prontifica a usar como argumento a dúvida; tal suposição é rejeitar como falso qualquer fonte não-segura de conhecimento, especificamente os sentidos. Como ressalta em suas palavras, Descartes nota que os homens se equivocam ao raciocinar, e desta forma coloca dúvidas nos sentidos – as experiências são duvidosas. Lembremos, que o Sol aparentemente vagueia pelos céus da terra fixa, mas Copérnico apresentou o contrário, portanto, os sentidos podem nos enganar. Assim, Descartes rejeita dentre tantas coisas a própria geometria euclidiana, a base do sistema aristotélico ptolomaico que estrutura o modelo geocêntrico (e com isto, rejeita também Agostinho, pai da Igreja Católica).

A aplicação que Descartes oferece em seu procedimento é amarrada no terceiro parágrafo quando faz uso da dúvida hiperbólica para duvidar até mesmo quando está acordado – uma vez que os pensamentos também ocorrem quando se está dormindo (na forma de sonhos). Descartes se perguntaria: Será que estou acordado ou estou dormindo? O que vivencio agora é um sonho ou estou realmente acordado? Se estou dormindo não saberei disto, pois posso estar sonhando. Os sentidos enganam, seja dormindo ou acordado, assim, até mesmo a realidade é duvidosa no pensamento de Descartes.

Ilusão de ótica – as linhas horizontais são retas. Nossos sentidos nos enganam

Descartes coloca então a dúvida não somente na natureza da realidade, mas na ideia de tempo e espaço e até de si mesmo. Afinal, tudo que havia aceito como realidade se encontra sujeito a nossos sentidos, na qual não podemos confiar porque pode se mostram tendenciosos. Todavia, mesmo no sonho ainda há pensamentos, e pensar é uma qualidade de quem existe. Por esta mesma razão, no quinto parágrafo Descartes vai de encontro com a verdade justamente ao duvidar. Ao duvidar ele pensa, e pensar está atrelado a existência. Portanto, ao duvidar de sua existência ele confirma-a, e quanto pensa na sua existência, encontra mais provas que ele (Descartes) existe ao duvidar.

Assim, racionalmente Descartes não consegue duvidar da própria existência e encontra algo incontestável, atingindo seu objetivo, conforme desejava, encontrando a verdade partindo da ideia de considerar falso tudo aquilo que poderia lançar dúvida (todas estas palavras estão grifadas na citação de Descartes acima).

O filósofo conclui então que ele é uma substância pensante (na qual chamou de res cogitans). Substância, é então, algo relacionado ao ser. Descartes então percebe que nada lhe garante que ele sempre foi uma substância pensante, ou que sempre será uma substância pensante, porque nem sempre existiu e não existirá infinitamente. O filosofo então somente pensa enquanto existe.

O que torna o pensamento “penso, logo existo” de Descartes uma verdade é justamente a apresentação de forma clara e distinta que se apresenta, tal como a menor distância entre dois pontos é uma reta, tal como não é preciso saber a forma de um círculo ou qualquer outra figura geométrica para saber que a menor distância entre estes dois pontos. Por este (e tantos outros pensamentos) Descartes compra uma briga absurda com a Igreja Católica, que claramente pensava de forma distinta. Devemos lembrar que este período é fortemente marcado por uma tendência artística que se desenvolveu primeiramente nas artes plásticas e depois se manifestou na literatura, no teatro e na música. Descartes viveu no berço do barroco, o século XVII, movimento que começou na Itália se espalhou por outros países europeus (Holanda, Bélgica e Espanha) e obviamente chegou a França. O barroco permaneceu vivo no mundo das artes até o século XVIII e durante todo este período os católicos continuavam influenciando muito o cenário político, econômico e religioso na Europa, e o pensamento de Descartes corria em outra chave. O barroco ornamenta as suas obras, sem qualquer distinção e clareza. Para Descartes, ciência se faz com clareza, oposto do que modus operandi da Igreja. E este atrito com o modo de pensar da religião ocorreu também quando Descartes discutiu deus sob sua perspectiva.

A racionalização de deus por Descartes.

Vimos então, que o principal movimento apresentado na filosofia de Descartes é o atrelamento entre pensamento e existência. Se a existência está relacionada ao pensar, proibir o ato de pensar é, então, proibir o ato de existir, ou ainda, alienar o pensamento é alienar a existência.

Este pensamento também tem um forte contraste com ideias religiosas. Notemos que na Idade Média, o que determina o ser é o seu nascimento; o indivíduo é considerado um nobre por nascimento, da mesma forma que o camponês. Assim, os indivíduos da sociedade são determinados em classes na qual nasceram, impossibilitados de mudar. Tal determinismo social impede a mobilidade social. Descartes sugere então que o ser é aquele que pratica uma ação, por exemplo, o pensar em busca da verdade é o que caracteriza o sujeito do conhecimento.

Ao buscar um alicerce novo para a filosofia, Descartes rompeu com a tradição aristotélica e com o pensamento escolástico que dominou toda a filosofia no período medieval. A separação entre sujeito e objeto do conhecimento tornou-se fundamental para toda a filosofia moderna de tal forma que este pensamento vai voltar a ecoar no século seguinte (algumas décadas após Descartes) com a origem do Iluminismo: onde a tarefa é iluminar o ser por meio da razão. Assim, Descartes concluiu que ele mesmo era um ser com substância pensante (res cogitans) e conhecer o pensamento é conhecer a si mesmo.

Descartes então, se propõem a pensar o próprio pensamento. Em seus pensamentos há ideias, e cada ideia deve ter um ser. Ao pensar em uma caneta, existe a ideia de caneta e a caneta fisicamente apresentada em forma de matéria. Descartes estabelece a correlação entre a ideia e o ser. Assim, Descartes percebe a ideia de mortalidade, imperfeito, finitude. Portanto, se existem todas estas categorias, deve haver também as categorias de imortalidade, perfeição e infinitude.

Como no pensamento de Descartes nada garante que ao parar de pensar ele continuará existindo, então, deixar de existir é uma marca da mortalidade, tal como perfeição está ligado a manutenção do ser (quanto mais tempo existe, mais perfeito o ser é). Se deixar de existir marca a mortalidade também marca a imperfeição e a finitude deste ser. Portanto, para Descartes, ao pensar seu próprio eu, com seu pensamento conclui que ele é um ser mortal, imperfeito e finito.

Esta era de individualismo é inaugurada por Descartes e será inflacionada futuramente, caracterizando o Romantismo. Se o século XVIII foi caracterizado pelo Iluminismo, o começo do século XIX caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao próprio Racionalismo e ao Iluminismo, buscando um nacionalismo que viria a consolidar os estados nacionais na Europa – marcado pela subjetividade, pela emoção e pelo eu. Ao definir o próprio eu como mortal, imperfeito e finito a partir da correlação existente entre ideia e ser, deve haver um ser que represente a infinitude, imortalidade e perfeição, logo, para Descartes, este ser é deus. Assim, racionalmente Descartes declara que deus existe, pois um ser infinito é imortal e perfeito, um ser que é imortal é infinito e perfeito e a perfeição é ser imortal e infinito.

Usando a dúvida (algo que era rejeitado na Idade Média, diante da verdade dogmática) Descartes concluiu certezas, inaugurando o racionalismo: corrente filosófica que privilegia a razão, raciocínio metódico como única autoridade e fonte de conhecimento confiável.

Usando a razão Descartes estruturou o método, descreveu a substância do eu e reconheceu deus. Nesta perspectiva, então, a razão era o caminho para reconhecer a deus e não a fé. A ignorância da fé se convertera no afastamento da razão e, por conseguinte, de deus. Este olhar descartesiano se tornou um elemento na qual a igreja olha o filosofo como alguém que desafia a autoridade religiosa/católica, pois proibir o livre pensamento é proibir o pensamento da existência do homem e de deus.

Para Descartes ainda, deus fez outra substância, matéria (res extensa), que é conhecida e estudada pela matemática, pela geometria analítica (não-euclidiana) que caracteriza a matemática moderna. O universo como matéria, e extensão que se estuda a partir da matemática acaba fundamentando, também, a física moderna (pensamento também alcançado, de certa forma, por Santo Agostinho, que obviamente em sua época não possuía uma física).

Descartes tem importância enorme, então, na física moderna. Ao observar um relógio de ponteiro, Descartes não quer saber do nome e origem do relojoeiro. Para o filósofo só é preciso saber que ele é extensão da matéria, saber as medidas das engrenagens e sua energia.

Entender o universo e suas propriedades não exigia saber quem era o relojoeiro, mas saber de matemática, para entender seu funcionamento. Censurar a física, a matemática a ciência é, na visão Descartesiana, impedir conhecer a deus. Em contrapartida, Descartes cria outro ponto em contradição a igreja, pois lança nas mãos dos pesquisadores (e da razão) e retira da Igreja (baseada na fé) a autoridade e competência de conhecer a deus e sua criação. Tal pensamento marca de um novo tempo, a Modernidade.

A modernidade traz como característica uma visão de mundo justamente descartesiana, com a ruptura com a tradição herdada do pensamento medieval dominado pela Escolástica e o estabelecimento da autonomia da razão, o que teve enormes repercussões sobre a filosofia, a cultura e as sociedades ocidentais

Descartes não compreendido.

No século XVIII circulou a história de que Descartes teria feito a boneca Francine como um simulacro de sua filha, que morreu tragicamente aos 5 anos de idade. Francine também teve desdobramentos no pensamento de Descartes sobre a possibilidade de máquinas se tornarem autônomas. O desdobramento do pensamento de Descartes chegou até o século XX com Alan Turing, profundamente influenciado pelo filosofo, e seu autômato que deu origem ao código binário dos computadores (Teixeira, 2015).

Para Descartes, um maquinário consciente era impensável, suscitando apenas um horror metafísico. Descartes escreveu em uma carta ao marquês de NewCastle em 23 de novembro de 1646 declarando que a duplicação de características materiais e funcionais de um ser humano poderia ser uma condição necessária, mas insuficiente, para replicar a vida mental humana. Para Descartes, um autômato bem construído seria nada mais do que uma obra de engenharia, pois nunca teria uma alma, concedida por deus. A ideia de Turing girava em torno de um dispositivo com uma fita imaginária infinita, dividida em quadrados iguais com os números 1 e 0 em cada um deles. A máquina, então, apenas identifica o sinal marcado em cada um dos quadrados, um por vez, e entre eles não há nenhum estado intermediário. A mesma ideia estava presente no dualismo mente-corpo de Descartes, onde não há intermediário entre o cérebro gerando a mente. Para o francês, o mediador “mágico” desta façanha era a glândula pineal, que sabidamente hoje tem um papel fisiológico claramente descrito e não-correspondente a ideia de Descartes. Entretanto, a relação entre Descartes e Turing para a produção do computador e inteligência artificial se mantém (Teixeira, 2015).

Descartes é um filósofo muito difamado e mau-compreendido. Entre as ideias errôneas a respeito do filósofo estão:

1) Descartes era essencialmente um metafísico com pouco interesse em questões da ciência.

2) Mesmo interessado em ciência, Descartes era um cientista de poltrona e não fazia experimentos ignorando dados empíricos.

3) Descartes era um ateu enrustido, ou um deísta.

4) Era um racionalista que ignorava o papel das emoções.

5) Foi o primeiro a postular a separação radical entre mente e corpo, e seu dualismo equivocado e anti-científico influenciou prejudicialmente o pensamento ocidental.

O consenso atual entre os especialistas e que as atividades filosóficas de Descartes eram secundárias a seus interesses científicos. Ou seja, embora a atividade de Descartes tivesse menor sustentação experimental do que a de ingleses, Descartes sabia se virar bem em experimentos, sendo influente cientificamente. Além disto, nada indica que intenções religiosas de Descartes (assumidamente católico, portanto, não deísta e sim teísta) saísse do âmbito tradicional, embora sua posição filosófica o pusesse em risco claro diante da Igreja.

Descartes não descarta as emoções, ele estudava-as dedicando inclusive sua última grande obra a elas (Harris, 2012).

O principal equívoco quanto a filosofia Descartes está na ideia dele ser um dualista consumado, ou seja, de que seu dualismo criava um abismo entre mente (ou alma) e corpo; e que portanto sua perspectiva era desastrosa para filosofia Ocidental.

Descartes também não foi o primeiro a separar mente e corpo. Aristóteles afirmava que o corpo e a mente humana (e de outros animais), não são duas coisas distintas ou substâncias diferentes, mas uma unidade em que a mente é a forma do corpo humano. Em contraste, Avicena (980-1037), em meados dos anos 1000 (cerca de 600 anos antes de Descartes) julgava que o corpo e a mente são substâncias distintas. Para provar a natureza separada da mente e corpo, Avicena concebeu um exercício mental conhecido como “O homem voador”. Tal alegoria é uma antecipação a obra de Descartes – famoso dualista do século XVII que decidiu não acreditar em nada, exceto naquilo que ele próprio poderia saber com certeza.  Avicena e (posteriormente) Descartes quiseram demonstrar que a mente, ou a “substância do eu” existe, sabe que existe e que é distinta do corpo humano. Em seu exercício mental do homem voador, Avicena quis investigar o que conseguiria saber se fossemos efetivamente privados de nossos sentidos e não pudéssemos depender deles para obter informações. Em seu experimento, ele propõe uma suposição: que ele tenha acabado de começar a existir, possuindo toda sua inteligência normal, mas que está com os olhos vendados, flutuando no ar com os membros separados do corpo e uns dos outros de modo que não possa tocar em nada ou em si mesmo.

Apesar de tudo isto, Avicena tem certeza de que existe e que este “eu” é quem o define mesmo sem ter qualquer parte do corpo. Não há comprimento, largura ou profundidade, sem extensão ou atributos físicos e se fosse capaz de imaginar uma mão, não imaginaria como pertencente a este “eu” que sabe que existe. Assim, Avicena conclui que o “eu” humano é distinto do corpo ou de qualquer coisa física (Harris, 2012).

Quanto ao método científico, o árabe Al-Hazen (965-1040) acreditava que uma hipótese devia ser provada por experimentos, seguindo procedimentos sistemáticos e que poderiam ser reproduzidos, assim já demonstrando similaridades do que hoje é considerado o método científico moderno, mais de mil anos atrás e séculos antes de Descartes (El-Bizri, 2005 & Rayan, 2014).

Os erros a respeito de Descartes florescem em uma diversidade de escritos filosóficos ou em divulgação. Uma das mais influentes expressões destes pontos de vista sobre Descartes pode ser encontrada no clássico livro de Gilbert Ryle “The Concept Of Mind” (1949) na qual o filósofo de Oxford descreve depreciativamente a doutrina cartesiana da mente/corpo como um mito do espírito dentro da máquina, da mente como um comandante de um navio. Para Ryle considerar os eventos mentais como algo distinto dos eventos físicos eram um erro claro.

Daniel Dennett é um filosofo que foi aluno de Ryle chamou a tarefa para si na intenção de exorcizar os fantasmas que sobreviviam em relação ao seu mentor. Um dos principais alvos de Dennett foi a ideia do “teatro cartesiano”, premissa segundo a qual há um local no cérebro onde pensamentos e sensações se juntam para serem observados por uma consciência unitária singular. Por influência de Descartes, sugere o autor, tendemos a tratar a mente como o padrão do corpo e um piloto do navio (Dennett, 1993), mas devemos ver a coisa como uma unidade mente/corpo. O dualismo cartesiano, conclui, é fundamentalmente anti-científico (Dennett, 1993).

O mais recente de uma longa linhagem de interpretes errôneos de Descartes é o neurologista Antônio Damásio em seu livro “O erro de Descartes” (1994) título na qual se refere a separação entre corpo e mente. Tal erro foi aparentemente reforçado pela separação afirmada pelo próprio Descartes entre razão e emoção e a sua negação da integração e interdependência entre mente e corpo (Damásio, 1995).

Neste ponto surgem três leituras equivocadas a respeito de Descartes: a premissa de que Descartes era um dualista cuja atividade intelectual levava necessariamente a ignorar na natureza das pessoas humanas; a perspectiva de que Descartes não conseguiu apresentar nenhuma descrição de como poderia interagir entre si as substâncias distintas da mente e do corpo; e a conclusão geral de que a visão cartesiana da mente é quase religiosa, profundamente anti-científica e filosoficamente inútil (Harris, 2012).

Em sua obra Meditações e entre outras obras, Descartes afirmou de fato que corpo e mente são compostos por substâncias distintas, jamais tendo voltado atrás em relação a isto (Descartes, 1641), mas o que gera maior controvérsia em muitas leituras modernas sobre Descartes nesse tema não é a questão de serem substâncias diferentes, mas as alegações que isso implica necessariamente em uma separação abismal – como acredita Antônio Damásio.

Ao que parece, Descartes deu o melhor de si para negar tal separação afirmando que corpo e mente se confundem para formar um todo unitário – um amálgama. Corpo e mente para Descartes formam uma união substancial (Descartes, 1641), e para Descartes a mente não está no corpo como um piloto que comanda um navio. Esta metáfora do piloto comandando navio que caracteriza a relação corpo e mente está completamente incorreta e é atribuída pela primeira vez não a Platão – como geralmente se pensa – mas associado a Aristóteles. Ela parece ter surgido posteriormente nos escritos filosóficos neoplatônicos de Plotino.

No entanto, é São Tomás de Aquino (1255-1274) que atribuiu pela primeira vez de forma errônea metáfora a Platão (Aristóteles – ver referência). Na realidade, a doutrina de uma separação radical entre mente e corpo seria mais corretamente associada à Aristóteles ou Platão e não é Descartes (O’Meara, 1993).

Na realidade, a integração corpo/mente e não a sua separação mereceram cada vez mais a atenção de Descartes que chegou claramente a conclusão de que a melhor forma de estudar esta unidade é notando que o ser humano concentrava toda a sua atenção sobre as emoções ou, para utilizar a categoria clássica e do início da modernidade que significava algo de semelhante, às paixões – que desempenhavam um papel importante no nosso conhecimento.

Para Descartes, tipos de percepção ou modos de conhecimento caracterizam as paixões (Brown, 2006) e o filosofo integra-as nos processos de conhecimento de uma forma substancialmente nova. Descartes não afasta a mente do corpo, ele faz justamente o contrário. O dualismo de Descartes não deve ser entendido como uma tentativa de ignorar a unidade entre mente e corpo e tão pouco implica em negligenciar as emoções. Na realidade, a interação mente/corpo constitui uma preocupação tão importante e crucial para o pensamento de Descartes que alguns filósofos chegam a sugerir que é enganoso caracterizar Descartes com um dualista (Baker & Morris, 1996).

Descartes estava empenhado em entender o mundo não em duas, mas em três entidades: as substâncias materiais (res extensa) retratada como corpo, as substâncias pensantes (res cogitans) retratada como mente e o amálgama corpo/mente que caracteriza o homem (Kenny, 1970). O que levou John Cottingham, um grande estudioso de Descartes a criar uma forma alternativa para caracterizar a posição cartesiana não como um dualismo, mas um trialismo cartesiano (Cottingham, 1985).

No segundo erro a respeito de Descartes, diz-se que diante da posição cartesiana o filósofo não consegue explicar como interagem a mente e corpo. A questão é: Como é que a mente faz o corpo se mover e como é que os sentidos corporais geram estados de consciência considerando que corpo e mente são substâncias distintas?

Geralmente, nos é ensinado que Descartes não conseguiu apresentar uma explicação adequada a estas interações ou que ele e os cartesianos subsequentes procuraram um refúgio em uma tese ad hoc e profundamente implausível designada ocasionalismo – onde não existe de fato uma real interação causal entre corpo e mente. Para esta linha de pensamento, mente e corpo formam um propósito consciente para mover um braço, sendo deus quem providencia a conexão necessária. Embora o ocasionalismo pareça de fato providenciar uma solução para o problema da correlação das nossas interações mentais ele não foi desenvolvido com esse propósito – ele se originou a partir da preocupação de abordar uma dificuldade de ordem mais geral e inerente a causação (Harris, 2012).

Na leitura plausível de Descartes ele afirma que as correlações entre eventos mentais e os movimentos corporais constituem simplesmente propriedades naturais do compósito mente/corpo de uma forma muito semelhante àquela através da qual deus estabeleceu as leis da física que regem as interações das coisas materiais as leis da natureza. Para Descartes, o deus criador decretou igualmente as relações que ocorreram entre eventos mentais e eventos corporais. Portanto, nesta visão, mente/corpo são explicáveis em termos de leis psicofísicas que constituem a nossa natureza essencial enquanto seres encarnados.

Assim procurar uma explicação para as operações do compósito mente/corpo significa ironicamente cometer um tipo de erro categorial ao procurar o tipo errado de explicação para um estado das coisas que é primitivo (Yandell, 1997; Baker & Morris, 1996).

Quanto a suposta posição anti-científica da perspectiva de Descartes sobre a relação de mente/corpo, tal esta afirmação implica uma avaliação profundamente histórica da realidade das realizações de Descartes. Uma consequência chave da teoria da mente de Descartes era que o mundo físico passava a ter de ser compreendido enquanto matéria passiva. Por este motivo, a principal razão de queixa relativamente a filosofia cartesiana ao longo dos séculos XVII e XVIII não era o seu dualismo, mas o seu materialismo incipiente.

A questão, portanto, não é tanto por Descartes ter supostamente instalado um fantasma na máquina humana como acreditou Ryle, mas o fato dele ter conseguido banir os fantasmas do resto do mundo material. Ao fazê-lo, Descartes assegurou espaço a toda uma nova gama do que chamamos de explicações científicas.

Tais explicações foram expressas em termos de leis e não de causas, tendo desempenhado assim um papel importante no estabelecimento dos princípios da ciência moderna. O filosofo francês concebeu uma posição central as emoções em sua psicologia e levou muito a sério a natureza dos seres humanos devido à insistência por parte de Descartes de que o amálgama corpo e mente era uma entidade real, alguns pensadores chegam ao ponto de sugerir que ele deixe de ser visto como um dualista. Portanto, a doutrina filosófica de uma separação abismal entre mente e corpo jamais foi defendida por Descartes e tão pouco constitui uma premissa da doutrina cristã.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, René Descartes, Francis Bacon, Roger Bacon, Robert Grosseteste, Filosofia da Ciência, Método Científico, Racionalismo, Dualismo Cartesiano, Pensar, Existir, Deus.

 

Referências

Aristóteles, De anima 413a8; Plotinus, Enneads IV.iii.21
Baker, G  and Morris, K, J. Descartes’ Dualism (London: Routledge, 1996)
Brown, D. Descartes and the Passionate Mind (Cambridge: Cambridge University Press, 2006).
Cottingham, J. “Cartesian Trialism,” Mind 94 (1985): 218–30.
Damasio, Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human Brain, Times Literary Supplement, 25 August 1994, 3-4, at 3.
Dennett, D. Consciousness Explained (London: Penguin, 1993), 39
Descartes, Meditations §78, in The Philosophical Writings of Descartes.
El-Bizri, Nader, “A Philosophical Perspective on Ibn al-Haytham’s Optics”, Arabic Sciences and Philosophy 15 (2005-08-05), 189–218
Harris, P. Mito 12: Renpe Descartes Criou a Distinção Mente-Corpo. “Galileu na prisão e outros mitos sobre Ciência e religião”. Donald L. Numbers. Editora Gradiva – Trajectos. 2012
Kenny, A. Descartes to Elizabeth, 21 May 1643, in Descartes: Philosophical Letters, ed.(Oxford: Clarendon, 1970), 138.
O’Meara, D, J. Plotinus: An Introduction to the Enneads (Oxford: Oxford University Press, 1993), 19–20.
Rayan, Sobhi. Analogical reasoning roots in Ibn al-Haytham’s scientific method of research. International Journal of Computational Bioinformatics and In Silico Modeling, 2014.
Ryle, G. The Concept of Mind (London: Hutchinson, 1949).
Teixeira, J. F. O Cérebro e o Robô – Inteligência artificial, Biotecnologia e a Nova Ética. Ed. Paulus. 2015.
Yandell, D. “What Descartes Really Told Elizabeth: Mind-Body Union as Primitive Notion,” British Journal for the History of Philosophy 5 (1997): 249–73

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s