ISAAC NEWTON – COMO O FÍSICO CONCEBIA A MECÂNICA DO COSMO.

Isaac Newton (1643-1727) era um perfeito representante do deísmo do Iluminismo, responsável por reformular o papel de deus a partir da razão, elevando-o como um relojoeiro divino sem nada que fazer após ter completado a sua criação…. só que não!!!

Isaac Newton (1643-1727)

Esta é mais uma leitura seriamente equivocada a respeito do físico Isaac Newton, que rejeitou a metáfora do mecanismo de relógio propriamente dita. Para ele tal ideia mecanicista supunha um frio Universo. Newton supunha um profundo empenho constante da vontade divina não sujeita às restrições racionais dos deístas, que posteriormente pretenderam transformar deus em uma entidade incapaz de violar suas próprias leis (Davis, 2012).

O deísmo é uma postura filosófico-religiosa que admite a existência de um deus criador, mas rejeita a ideia de revelação divina. É uma doutrina que considera a razão como a única via capaz de nos assegurar da existência de deus, rejeitando portanto, o ensinamento ou a prática de qualquer religião organizada. Se no deísmo pretende-se enfrentar a questão da existência de deus através da razão, elementos tais como a revelação divina, dogmas e a tradição fazem parte do teísmo.

Newton não era um deísta, mas claramente um teísta cristão, cuja crença na existência de um deus único – monoteísmo – era tal como revelava a bíblia. É comum encontrar a informação de que a teoria do Universo como um mecanismo de relógio foi estabelecida pelo Isaac Newton e o Universo fora concebido como um relógio divino, onde deus só “daria corda” e deixaria-o funcionar como uma máquina perfeita, com suas peças regidas pelas leis da física.

Newton ainda é visto segundo a sabedoria popular como um físico e matemático que de forma bastante embaraçosa faz uso da alquimia e da teologia: se manifestando frequentemente demais na Idade das Trevas devido fundamentalmente um esgotamento nervoso que sofreu aos 51 anos após, o qual em todo caso não realizou muitos trabalhos científicos (Davis, 2012).

Essas são ideias populares sobre Newton, mas que não faz sentido algum para acadêmicos contemporâneos, ainda mais com os volumosos manuscritos sobre alquimia e teologia atribuídos a Newton descobertos e estudados por uma variedade de especialistas no assunto e sobre a história da ciência.

Quando observado a partir dos seus próprios escritos, Newton aparece como um estudante de teologia cujas ideias sobre deus e a bíblia ajudaram a estruturar toda a sua cosmovisão – incluindo a sua concepção de natureza e seu funcionamento – por volta dos 30 anos de idade. Newton, então, iniciou investigações meticulosas sobre teologia e a história da igreja concentrando-se especialmente da doutrina da trindade. Estudou a patrística e analisou trechos bíblicos, questionou a autenticidade desses textos que falavam sobre a subordinação do filho ao pai; enquanto isto, rejeitava outros tipicamente utilizados para sustentar a Trindade: especialmente em 1 João 5:7 e 1 Timóteo 3:16:

“Porque três são os que testificam no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um”.

1 João 5:7

E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória”.

1 Timóteo 3:16

Newton rejeitou a autenticidade destes versículos como sendo corrupções posteriores das escrituras sagradas; concluiu que Cristo era o filho de deus e pré-existente a criação, mas não co-eterno igual ao deus/pai. A palavra criada feita a carne de Cristo deveria ser adotada pela sua obediência até a morte por aquilo que fizeram, não por quem é. Embora fosse um mediador divino, Cristo seria então subordinado ao pai cuja vontade apenas cumpria.

As ideias concretas de Newton sobre algumas questões e a forma como chegou a elas é algo que ainda hoje permanecem um grande debate e não é totalmente claro se a melhor forma de compreender Newton é como um ariano – como pensa a maioria dos pesquisadores – ou comum sociniano (Davis, 2012).

O arianismo é uma visão cristológica sustentada pelos seguidores de Ário, um presbítero cristão de Alexandria nos primeiros tempos da Igreja primitiva que negava a existência da consubstancialidade entre Jesus e deus/pai, que os igualasse, concebendo Cristo como um ser pré-existente e criado. Jesus então, seria subordinado a deus/pai, sendo Jesus não o próprio deus em si mas por si mesmo.

O socianismo é formado por seguidores de Fausto Socino (1539-1604), que desenvolveu sua teologia inspirada em seu tio Lélio Socino. A doutrina sociniana é anti-trinitária e considera que em deus há uma única pessoa e que Jesus de Nazaré é um homem comum.

De acordo com suas críticas, Newton dá indícios claros de ser um anti-trinitário, declarando claramente que a trindade seria uma doutrina falsa promovida por idólatras, uma abominação criminosa estruturada pela igreja feita no início do século VI pelo traiçoeiro bispo Atanásio de Alexandria (296-373).

Na Inglaterra do século XVII convicções como estas, tão heterodoxas, não eram toleradas e Newton apenas as compartilhava com algumas pessoas escolhidas. Dentre as pessoas que Newton mais discutia essas ideias era Samuel Clarke (1675-1729) e William Whiston (1667-1752). Tal visão cristológica herege aparece em algumas publicações de Newton, como por exemplo, “General Scholium” cuja publicação da segunda edição foi em 1713 e na sua maior obra, Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural).

Newton considerava-se parte de um pequeno remanescente de verdadeiros crentes cristãos puros devidamente monoteístas. Desta forma, não é possível defender a tese de que Newton era um deísta como pressupôs o seu maior biógrafo, o falecido Richard S. Westfall (1924-1996).

Westfall repetidamente afirmava essa tese como verdadeiramente óbvia porque viu Newton através das lentes deformadas da modernidade, e acabou em última instância por errar relativamente a uma característica central de Newton, ao dizer que ele: pôs a razão acima das escrituras e negou a trindade por achar um conceito demasiadamente misterioso e irracional. Sendo assim, para Westfall o racionalismo na religião faria de Newton um proto-deísta.

Ao contrário dos deístas, Newton confiava claramente na bíblia como autoridade – com exceção das corrupções trinitaristas citadas anteriormente – e entendia a bíblia muitas vezes de forma literal: especialmente os textos proféticos de Daniel e de Apocalipse na qual fez inclusive previsões escatológicas.

Escatologia é parte da teologia que trata dos últimos eventos na história do mundo ou do destino final do gênero humano. Quase toda religião (especialmente monoteístas) tem previsões deste tipo. De fato, Newton se esforçou para decifrar o que ele considerava conhecimentos secretos contidos dentro das escrituras sagradas, em culturas antigas e dentro de outros arquivos históricos. Chegou a fazer uma previsão de fim de mundo respaldada no livro bíblico de Daniel. Cuidadoso, o físico escreveu que não era possível ter certeza absoluta, mas o fim ocorreria antes, ou próximo do ano 2060: podendo acontecer mais tarde ou mais cedo. Os manuscritos de Newton pertencem à Biblioteca Nacional de Israel, situada no campus de ciências da Universidade Hebraica. Chegaram lá em 1969, doados pelo filantropo judeu Abraham Shalom Yehuda, que os tinha comprado em 1936 em um leilão em Londres.

Newton acreditava claramente na predestinação e na ressurreição do corpo de Jesus, na futura ressurreição dos fiéis e no reino milenar governado por Cristo. Negava a trindade por que do seu ponto de vista a bíblia incorrupta não a ensina e não necessariamente pela razão acreditada por Westfall.

Uma receita para fazer uma Pedra Filosofal, escrita a mão por Isaac Newton. (Chemical Heritage Foundation).

Quatro anos antes de se aprofundar em questões teológicas, Newton dedicou cerca de 30 anos da sua vida a alquimia. Após sua morte, fórmulas secretas de magia e esforços inúteis para transformar o chumbo em ouro foram encontradas (saiba mais sobre estudos alquímicos de Newton). Porém, para Newton e tantos outros ilustres contemporâneos, como por exemplo Robert Boyle (1627-1691) e John Locke (1632-1704), a alquimia era um elemento muito respeitável e trazia promessas de compreensão da natureza e da matéria. Todavia, Boyle se destacou como responsável por questionar as bases da alquimia com base nos 4 elementos de Aristóteles em The Skeptical Alchemist.

Newton provavelmente considerava a alquimia como uma forma de explorar o profundo mistério de como deus fazia – através de agentes intermediários – cumprir toda a sua vontade a respeito do mundo natural (Dobbs, 1991). Newton buscou nos preceitos místicos e esotéricos da alquimia uma forma de compreender como o criador agiu na criação.

Newton acreditava que deus regia o mundo de forma ativa e constante, mas no geral, indireta, derivando provavelmente a ênfase arianista de Jesus enquanto agente de deus na criação do mundo. Newton escreveu sobre Cristo:

“no início estava com Deus: todas as coisas eram feitas por ele e sem ele nada foi feito do que foi feito […] do mesmo modo que Cristo se foi para preparar um sítio melhor para os abençoados, também no início ele preparou este sítio para que os mortais estivessem em glória com o Pai antes de 1 João. Pois o supremo Deus nada fez por si próprio que possa fazer por intermédio de outros”

Assim, para Newton, Cristo era um vice-rei e controlava os princípios ativos que uniam entre si partículas de matéria inerte com vista a formar os diversos corpos vivos e não-vivos.

Newton conhecia muito bem as obras de René Descartes (1596-1650) e outros filósofos mecanicistas que procuravam explicar os fenômenos em termos de matéria e movimento. Newton era próprio um filósofo mecanicista, mas o retrato específico do mundo feito por Descartes como nada mais sendo senão matéria e movimento pareceriam algo muito perigoso para Newton. Assim, para ele a alquimia fornecia a resposta. Na alquimia a matéria era incapaz – em sua essência – de se manter coesa ou de influenciar outras, exceto através do contato direto. Assim, as forças e poderes manifestados com os fenômenos químicos testemunhavam a atividade mediada do criador que fez a matéria a partir do nada (ex nihilo) no início e podia agora movimentá-la de acordo com sua vontade.

A compreensão de Newton sobre a força cósmica da gravidade era semelhante a sua compreensão da alquimia. As análises matemáticas do movimento nos céus convenceram Newton da realidade das forças de atração operando entre fragmentos de matéria, mas quando propôs a sua integralidade e sua teoria física na primeira edição do Principia (1687) nada disse acerca da causa da gravidade. Isso ocorre porque alguns anos antes, Newton tinha abandonado a ideia vigente de um éter mecânico que preenchia a totalidade do espaço. Para ele não havia forma alguma do éter poder fazê-lo sem ao mesmo tempo não alterar ou constranger os movimentos de outros planetas de formas contraditórias a das observações realizadas (Davis, 2012).

Para Newton, então, deus era a única explicação para causa direta e imediata da gravitação: o deus onipotente em que vivemos, nos movemos e em quem temos o nosso ser que movimenta a matéria através do espaço – segundo Newton chamado isto de “sensorium Dei”.

Duas perguntas, 28 e 31 do tratado de refração Opticks de Newton traduzidas para o latim em 1706 e determinadas seções do General Scholium refletem este ponto de vista de Newton – embora a teologia empregada nesses textos passe batida nem ser percebida da maioria dos leitores (Snobelen, 2001).

Na época do lançamento do Principia, Newton foi influenciado profundamente por uma crença esmagadora na importância do domínio de deus cuja realidade acreditava poder ser demonstrada pela filosofia natural. Domínio era a característica que melhor definia deus segundo Newton: “um ser por mais perfeito que seja, se não consegue exercer domínio, não é o Senhor Deus” escreveu no General Scholium (Cohen & Whitman, 1999).

Em consequência, Newton recusava-se liminarmente a referir-se ao mundo com o mecanismo semelhante ao relógio que funcionava por si só, sem qualquer necessidade de governo divino permanente. De fato, quando o filósofo alemão Gottfried Leibniz (1646-1716) questionou a crença de Newton de que deus deveria necessariamente periodicamente ajustar os movimentos dos planetas para impedir que o Universo parasse, foi o alemão e não Newton quem introduziu de forma explícita as ideias relativas a de um relógio na conversa. Se deus tivesse que dar corda ao seu relógio de tempos em tempos afirmava Leibniz, então, faltava-lhe clarividência suficiente para tornar o movimento perpétuo – portanto, sua criação era imperfeita.

Assim, o deus de Newton não era nenhum relojoeiro ausente do Iluminismo. Embora o deus – relojoeiro – seja frequentemente associado ao Newton, ele próprio não é newtoniano nesse sentido. Ele ganhou essa fama em parte porque seus papéis sobre teologia e alquimia foram secretos e bem guardados durante a sua própria vida: antes do final do século XX os pesquisadores não os levaram tão a sério como deveriam ter feito. Além disso, os filósofos franceses do século XVIII criaram a sua própria visão de Newton como a apoteose do tipo de razão secular que propunham para substituir o cristianismo, e um deus ativo não se ajustava a essa visão. Ao mesmo tempo, a aplicação  prática da física de Newton com a utilização da força da inércia e leis fixas para descrever o movimento nos céus e sobre a terra não exigia a evocação de uma entidade divina como parte das explicações.  As leis fixas por si só pareciam suficientemente boas para executar a tarefa. Desde que questões derradeiras fossem deixadas de lado a física newtoniana raramente é ensinada nos nossos dias a partir dos conceitos metafísicos e teológicos as quais estavam intrinsecamente ligadas durante a sua síntese (Davis, 2012).

Se vamos separar uma teoria científica do contexto intelectual mais alargado no qual ela emergiu temos de tomar cuidados especiais no sentido de não associar ao seu o seu fundador a pontos de vista diretamente opostos aqueles na qual defendeu a vida toda. Newton era um teísta cristão, e assim estruturou seu modo de fazer ciência embora o conteúdo teológico/místico/esotérico de sua tese seja hoje dispensável para compreender a gravidade e a mecânica do sistema solar.

Leituras entorpecidas sobre Newton e outros.

O entendimento que tínhamos sobre a vida e obra de Newton foi entorpecido por leituras modernas. Por esta razão é preciso compreender o momento histórico que cada ícone da história da ciência viveu. Uma das leituras entorpecidas feitas sobre a vida e obra de Isaac Newton foi protagonizada pelo jornalista brasileiro Olavo de Carvalho. Sua leitura entorpecida não é necessariamente sobre a vida e a obra de Newton na qual apresenta clareza, sabendo da posição anti-trinitária, deísta e alquímica do físico. Carvalho defende que a posição esotérica de Newton foi escondida do domínio público durante 3 séculos de modo proposital, porque cientistas supostamente teriam vergonha de serem associados a questões religiosas como motivo de produção científica.

A vida de Newton se tornou pública quando John Maynard Keynes comprou em um leilão (1936) manuscritos antigos e encontrou textos de Newton com uma série de estudos alquímicos.

O conteúdo alquímico de Newton e sua relação com questões esotéricas nunca foi novidade – apenas foi confirmado. Newton foi amigo pessoal do francês Jean Theophilus Desagulier, filosofo naturalista que junto a Newton pertenciam a The Royal Society de Londres, e foi um dos principais divulgadores de Isaac Newton.

O que isto tem a ver com questões esotéricas? Ambos faziam parte da maçonaria. De fato, Desagulier foi eleito como o terceiro Grão-Mestre da maçonaria moderna em 1719 e Vice-Grão-Mestre em 1723 e 1725 da recém-formada Primeira Grande Loja da Inglaterra. Como bem sabemos, elementos alquímicos, místicos e esotéricos fazem parte da simbologia maçônica. Newton desenvolveu uma escala de medição de temperatura. Newton definiu os pontos fixos de sua escala como o derretimento da neve (0°N) e a ebulição da água (33°N). A ebulição ocorria em 33 graus newtonianos em reverência a idade em que Cristo foi crucificado.

Nunca foi negado o caráter esotérico de Newton, assim como a cosmologia na Grécia antiga fazia referência aos deuses da mitologia gregas e não é negada pelos cosmologos. Sempre soube-se que a filosofia natural esteve atrelada a condição religiosa e/ou porque não havia sido encontrado manuscritos que atrelavam de forma mais clara a condição mística esotérica de Newton a sua obra, embora a sua participação na maçonaria deixava claro que tal relação ocorreria.

Não é vergonha alguma para a ciência assumir que Newton ou tantos outros nomes importantes da ciência exerciam suas atividades a fim de uma busca de caráter religioso. Francis Bacon (1561-1626) descreveu um método científico mas realizou trabalhos relacionados a questões religiosas.

Não podemos negar que a motivação de Newton foi guiada por motivos místicos religiosos, assim como não podemos negar que Boyle bateu nos 4 elementos aristotélicos na alquímica, mas ele mesmo era um bom alquímico.

De fato, isto esclarece como diversos ramos importantes da ciência emergiram de estruturas de pensamento religiosas, místicas e que hoje são alinhadas com o que chamamos de pseudociência.

Só com o desenvolvimento da astrologia a astronomia conseguiu, somente com a teologia natural que a ciências naturais se desgarraram de leituras criacionistas e deram origem ao pensamento da biologia evolutiva, foi graças a alquímica e a separação entre o caráter alquímico e o caráter metodológico científico que a química se estabeleceu como ciência.

A ciência moderna deve ser grata por todo este arcabouço criado na história, mas ao definir um critério mais rígido de produção de conhecimento, e delimitar-se epistemologicamente, todo material que apresentava um caráter esotérico, religioso, místico que não se sustentava a luz dos experimentos foi descartado; a ciência apresenta uma síntese do que Newton acertou, descartando o que ele errou, e não ignorando as condições e as motivações que o levaram a ser uma referência na ciência.

Estas leituras entorpecidas, como a de Carvalho, carecem de evidências. Não temos evidências que demonstrem que o caráter esotérico de Newton foi obscurecido por cientistas, até porque, o caráter místico da maçonaria na qual muitos cientistas pertenceram sempre foi claro.

Olavo de Carvalho abusa destas generalizações excessivas. Um outro exemplo em que Carvalho propagada uma ideia confusa é sobre Albert Einstein e a relatividade; na qual afirma que a teoria era intelectualmente interessante para manter as aparências ao mesmo tempo que afirma não compreender a relatividade confundindo “espaço se dobrando sobre o espaço”, e não como a matéria como elemento que deforma o espaço.

Nas ciências naturais, Olavo afirma que o geólogo Alexander von Humboldt (1769-1859) questionou a validade do sistema copernicano conforme dito em uma carta encontrada e pertencente a este alemão. Segundo Carvalho, Humboldt não se atrevia a ser o primeiro a colocar em pauta um questionamento sobre o copernicanismo porque tinha medo das críticas que receberia.

De fato, existe até a suposta fala de Von Humboldt:

“I have known too, for a long time that we have no argument for the Copernican system, but I shall never dare to be the first to attack it. Don’t rush into the wasps’ nest. You will bring upon yourself the scorn of the thoughtless multitude…to come forth as the first against opinions, which the world has become fond of – I don’t feel the courage.”

“Conheço também, por muito tempo que não temos argumentos para o sistema copernicano, mas nunca mais me atrevo a ser o primeiro a atacá-lo. Não se apresente no ninho das vespas. Você vai trazer sobre si mesmo o desprezo da multidão irrefletida… para aparecer como o primeiro contra as opiniões, que o mundo se tornou apaixonado – eu não sinto a coragem”.

O problema de tal alegação é que: 1) não há qualquer reportagem e divulgação em meio científico sobre esta carta; 2) não há um registro da carta mostrando que ao menos ela existe – a fonte da informação é duvidosa.

Felizmente, vivemos em uma era que nos permite enviar satélites, conhecer outros planetas e a proposta de Copérnico (bem como de Einstein) tem sido demonstrada correta – embora geocentristas e terraplanistas não aceitem, retalhando usando falácias e ofensas a astronomia moderna. Ao contrário do que supostamente afirma a carta, ao negar uma concepção terraplanista você é atacado por vespas que não estudam astronomia, se respaldam em leituras religiosas para defender um caráter geocêntrico/terraplanista e um “método” zetético nada científico.

É preciso ter cuidado em quem – ou o que – usamos como referência ao estudar ciência, especialmente no momento histórico que vivemos. Ao mesmo tempo, houve uma democratização da ciência com o estabelecimento da internet e melhorou a divulgação do conhecimento cientifico, houve também democratização de falsas alegações científicas e de caráter pseudocientífico.

Devemos considerar todo o conteúdo e período histórico quando analisamos a obra de um cientista; e especialmente que o inspirou a pensar e experimentar. No caso de Newton, sua maior contribuição científica ocorreu quando se debruçou sobre a gravidade, desenvolveu o calculo diferencial e integral e a ótica, todas motivadas por questões místicas/religiosas e que se mantém a luz do método cientifico.

É possível que por causa da peste negra, o Trinity College foi fechado em 1666 e o cientista foi para casa de sua mãe em Woolsthorpe. Foi neste ano de retiro que construiu quatro de suas principais descobertas: o Teorema Binomial, o cálculo, a lei da gravitação universal e a natureza das cores.

O conteúdo exclusivamente esotérico alquímico e escatológico é dispensável na prática da ciência moderna, embora seja reconhecido como parte da obra e motivação da produção de Newton.

Em ciência não há vergonha alguma aceitar que motivações religiosas estruturam o modo de pensar de muitos cientistas. Cada um deles é fruto de seu momento histórico e da mesma forma com que Newton encontrava em sua fé teísta cristã motivos para em deus a busca da gravidade, da união da matéria via alquimia e do fim do mundo via escrituras sagradas, temos físicos como Einstein que bebeu de uma concepção bastante distinta.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Newton, Gravidade, Cristianismo, Alquimia, Relógio, General Scholium, Principia, Escatologia, Esoterismo, Misticismo.

 

Referências

Cohen I. B. and Anne Whitman, assisted by Julia Budenz (Berkeley: University of California Press, 1999), 940–41.
Cudworth, Ralph (1617-1688). The true intellectual system of the universe: the first part, wherein all the reason and philosophy of atheism is confuted and its impossibility demonstrated. London: Printed for R.Royston, 1678.
Davis, E. B. Mito 13: A Cosmologia de Newton Eliminou a Necessidade de Deus. “Galileu na prisão e outros mitos sobre Ciência e religião”. Donald L. Numbers. Editora Gradiva – Trajectos. 2012
Dobbs, B. J. T.The Janus Faces of Genius: The Role of Alchemy in Newton’s Thought (Cambridge: Cambridge University Press, 1991).
Snobelen, S. D. “‘God of Gods, and Lord of Lords’: The Theology of Isaac Newton’s General Scholium to the Principia,” Osiris 16 (2001): 169–208.

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