BESOUROS EVOLUÍRAM UM DISFARCE PARA SE PARECER COM FORMIGAS, E EM SEGUIDA, COMÊ-LAS. (Comentado)

É uma das manobras mais sorrateiras que já evoluiu. Os besouros Rove misturam-se perfeitamente em sociedades de formigas-do-exército, mas em vez de ajudar, eles devoram os jovens de seus companheiros desavisados.

Munetoshi Maruyama e Joseph Parker

O engano é tão bem-sucedido que evoluiu independentemente em pelo menos 12 espécies de besouros Rove parasitas – um fenômeno chamado convergência evolutiva.

A forma do corpo inteiro dos besouros evoluiu para assemelhar-se às formigas-do-exército que atacam, cheiram e agem como as formigas demasiadamente. Eles até marcham em ataques com elas.

“O que descobrimos é que várias vezes, os antepassados ancestrais dos besouros rove adaptaram-se à vida dentro colônias de formigas-do-exército“, diz Joseph Parker na Universidade de Columbia, em Nova York. “Cada vez, sua forma e comportamento do corpo sofreram as mesmas mudanças radicais”.

Parker descobriu o fenômeno com seu colega, Munetoshi Maruyama do Museu da Universidade de Kyushu, em Fukuoka, no Japão. Ele diz que a descoberta desafia os argumentos do famoso paleontólogo e escritor Stephen Jay Gould e outros de que criaturas completamente diferentes evoluiriam se o relógio evolucionário fosse reiniciado do zero.

Em vez disso, os resultados sugerem que a evolução pode tomar o mesmo caminho previsível sempre que surge um determinado cenário. Neste caso, besouros primeiramente predavam formigas-do-exército diretamente, mas modificaram mais tarde para esgueirar-se no próprio exército.

Parker e Maruyama cuidadosamente recolheu várias espécies de besouro Rove ao longo de muitos anos pelo rastreamento diversas colônias de formigas do exército em todo o mundo. Alguns eram novos para a ciência.

Mesmo que os besouros normalmente representassem apenas 1 em cada 5.000 formigas, ele tornou-se especialista em escolhê-las fora da multidão. “Você precisa de bons olhos, mas em pouco tempo sua visão se aguça e você fica melhor ao detectá-los”, diz Parker.

Se misturando com as formigas. Taku Shimada

A análise de DNA dos besouros permitiu que ele e Maruyama montassem uma árvore filogenetica mostrando como todas as espécies estavam relacionadas e estimando suas divergências umas com as outras. As criaturas parecem ter compartilhado um ancestral comum há 105 milhões de anos, na mesma época em que nossos antepassados divergiam dos ratos.

Parece uma formiga Parker diz que o período de tempo desde o antepassado comum neste exemplo de evolução convergente é notável, porque a maioria dos exemplos conhecidos de outros lugares do reino animal – incluindo marsupiaiscíclidos, peixe-espada e dentes e orelhas de mamíferos – aconteceu nos últimos milhões anos.

Se sentindo como uma formiga

Os besouros são notavelmente aptos a imitar a forma das formigas, que têm pernas traseiras desproporcionalmente longas, cintura estreita e um segmento posterior do corpo que sobressai para cima em um ângulo.

“As formigas são cegas e usam sinais químicos e, acreditamos, tácteis para reconhecer ninhos, então nossa evidência indica que os besouros imitam a forma da formiga para ‘sentir’ como uma verdadeira”, diz Parker.

“A coisa mais notável é o fato de que esta forma excepcional corpo evoluiu de forma independente, pelo menos, 12 vezes, indicando um certo nível de previsibilidade na evolução da formiga associada aos besouros rove”, diz Christoph von Beeren na Universidade Técnica de Darmstadt, na Alemanha.

As forças seletivas que impulsionam essa evolução permanecem incertas e merecem uma investigação mais aprofundada, diz von Beeren, cuja equipe descobriu recentemente um minúsculo besouro que se assemelha a um abdômem de formiga – ajudando-o a engatar um passeio secreto nas costas de formigas do exército.

Os besouros também evoluíram para “cheirar” como formigas, desenvolvendo perfumes à base de hidrocarbonetos em sua superfície externa do corpo que imitam aqueles em formigas. “Os besouros são vistos frequentemente grooming nos corpos da formiga, presumivelmente para fisicamente adquirir estes produtos químicos de seus anfitriões,” diz Parker.

Limpadores de formigas?

Mas ao longo dos milênios, os besouros evoluíram para ganhar a sua guarda, servindo algum propósito útil para as formigas do exército?

“Isso é algo que nos interessa muito”, diz Parker. “Talvez os besouros produzam algo em suas várias glândulas que é de alguma forma benéfica para as formigas. Talvez eles também se alimentam de coisas como ácaros ligados aos corpos das formigas, e este tipo de efeito pode manter baixa a carga de parasitas da colônia”.

Como os besouros rove procuram companheiros entre as hordas do exército também é um mistério.

“Se seus principais perfis químicos correspondem às das formigas hospedeiras, talvez usem produtos químicos alternativos para reconhecer os companheiros”, diz Parker. “A probabilidade é que eles se reproduzam dentro da colônia de formigas do exército, mas há muito que não sabemos, incluindo onde eles colocam seus ovos, onde suas larvas se desenvolvem e como as larvas se parecem”.

Referência no Jornal: Current Biology , DOI: 10.1016 / j.cub.2017.02.030

Fonte: New Scientist

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Comentários Internos

Não são somente os besouros que evolutivamente se assemelham a formigas para se alimentar delas – ou de suas larvas. Existem aracnídeos imitadores de formigas em diferentes famílias de aracnideos: Zodariidae, Gnaphosidae, Theridiidae, Thomosidae, Corinnidae e principalmente as Salticidae. A maioria das espécies de aranhas que apresenta mimetismo morfológico se encontram na família Salticidae e em Corinnidae – estas últimas são noturnas.

O primeiro grande desta que para estes casos e que formigas geralmente são evitadas como fonte de alimento pela grande maioria dos grupos animais, especialmente aranhas, lagartixas e vespas. Isto porque geralmente apresentam gostos ruins para os predadores, tendo características químicas que as tornam pouco palatáveis.

As aranhas imitadoras, assim como os besouros, também apresentam um corpo dividido em três partes, como realmente ocorre nos insetos, embora as aranhas não sejam anatomicamente neste formato (apresentando somente abdome e cefalotorax). Aranhas são artrópodes, mas não são insetos.

Na condição mimética, as pernas das aranhas se tornam longas e finas como a das formigas e suas quelíceras se assemelham as grandes mandíbulas da formiga. Os olhos compostos e o ferrão são imitados pela cutícula e fiandeiras. Seu corpo adquire uma morfologia estreita e embora isso diminua sua fecundidade, ela compensa a baixa produção de ovos produzindo mais ootecas (um saco de teia que carrega seus ovos). Ou seja, o mimetismo altera toda a economia biológica do animal, mas é preservado evolutivamente porque ainda sim favorece a luta pela sobrevivência.

O mimetismo é uma forma de interação interespecífica que envolve pelo menos três indivíduos; um modelo, uma espécie mimética – ou seja, o imitador do modelo – e um operador, que é representado por quem vai receber os estímulos produzidos pelo modelo e pelo imitador.

Existem diversos tipos de mimetismo e eles podem ser classificados de acordo com os sinais utilizados pelo mimético para imitar o modelo e tal classificação leva em conta o valor adaptativo que beneficia a espécie imitadora.

As aranhas imitam até mesmos os estágios de desenvolvimento das formigas, seguindo comportamento das castas até se transformar nos adultos. Na família Corinnidae, as aranhas imitam os estágios iniciais da formiga Myrmecium limata que apresentam um abdome triangular.

Muitas vezes, as formigas e a aranha compartilham os mesmo ninhos e trilhas em um fenômeno chamado de parabiose. Essa associação é vantajosa para todos os indivíduos que apresentam comportamentos ligeiramente diferentes e acabam favorecendo um ao outro.

Aranha Zuniga magna (Salticidae)

Na aranha Zuniga magna (Salticidae) os machos apresentam um prolongamento abdominal que permite imitar perfeitamente a região pós-peciolar da formiga Pseudomyrmex gracilis. Os palpos são bem desenvolvidos e imitam bem a cabeça das formigas apresentando suas pontas amareladas, como as mandíbulas do modelo.

A aranha salticide Synemosina aurantiaca tem características do morfo amareladas ou castanhas que se assemelha ao das formigas Pseudomyrmex flavidulus e P. oculatus. Os indivíduos de morfo preto se assemelham as formigas Pseudomyrmex gracilis e P.sericeus.

Um estudo mostrou que a taxa de mimetismo varia de acordo com o valor energético que a presa tem em relação ao predador e as suas dimensões corporais. Espécies maiores têm de se assemelhar mais com os seus modelos do que espécies de dimensões melhores já que correspondem a valores energéticos diferentes para suas predadoras.

Algumas aranhas mimetizam tanto os sinais químicos das formigas quanto os táteis, usado para fazer o reconhecimento dos membros da colônia. A aranha Amyciaea forticepts que existe na Índia (e pertence a família Thomisidae) utiliza estímulos comportamentais para atrair sua presa, a formiga tecedora Oecophylla smaragdina. A aranha levanta seu abdome, curvando o corpo em posição de alarme atraindo a formiga que então é capturada. A presença de duas manchas no opistossoma simula os olhos compostos.

Aranha Amyciaea forticepts (direita) se alimentando da formiga-tecedora Oecophylla smaragdina (esquerda).

Formigas do gênero Albomaculata tem características comportamentais e morfológicas muito semelhantes a aranha Amyciaea forticepts e parecem ser uma espécie mimética agressiva da formiga O. Virescens da Austrália. Há vários outros exemplos, a espécie salticide Cosmophasis bitaeniata utiliza sinais químicos mimetizados para aproxima de suas presas. Ela absorve substâncias químicas de suas presas e usa-as a seu favor.

Aranha Cosmophasis bitaeniata (Salticidae)

Os carboidratos da cutícula são adquiridos com a alimentação de larvas, semelhante ao que acontecesse também com aranhas da família Cornnidae (Attacobius attarum) que habita ninhos de Atta sexdens aqui no Brasil. Desta forma se aproximam da presa expressando a mesma estrutura molecular e então invade formigueiros e se alimenta de mais larvas.

Besouros exercendo estes papéis são bastante curiosos e realmente um exemplo excepcional, mas aranhas talvez sejam ainda mais, pois pertencem a grupos de artrópode diferentes das formigas e ainda sim apresentam uma relação mimética muito próxima, igualmente em nível molecular.

Saiba mais em TIPOS DE MIMETISMO E OS PRECIOSOS EXEMPLOS DA NATUREZA.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Aranhas, Mimetismo, Besouros, Formigas, Salticidae, Cornnidae.

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Referências

Marcelo O. Gonzaga, Adalberto J. Santos e Hilton F. Japyassu. Ecologia e Comportamento de Aranhas. Editora interciência. Rio de Janeiro 2007.
BBC. Pequenos Monstros.

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