AS RAÍZES DA QUÍMICA.

Poucas disciplinas científicas definiram a complexidade do Renascimento tanto como a alquimia, uma área onde a filosofia, a ciência, o ocultismo e a teologia se misturaram. Alquimia, seria uma proto-ciência genuína? Não, ela mostrou como a transformação de um dogma teórico para a observação e métodos baseados na prática se desenvolveram gradualmente durante este período da história da ciência.

Gerbert D’Aurillac/Pope Sylvester (Public Domain)

O lado misterioso e oculto da alquimia ainda captura a imaginação do público moderno, com Harry Potter perseguindo a Pedra Filosofal e nomes como John Dee, gerando milhares de sites ocultos estudando o simbolismo esotérico por trás de símbolos alquímicos. A maioria das interpretações modernas tem uma base no fato histórico, e escritores como Chaucer, Ben Jonson e Dante incluíam alegremente alquimistas como charlatães sombrios e figuras bizarras.

No entanto, este toque cômico não deve prejudicar a idéia de que os alquimistas renascentistas eram muitas vezes cientistas de boa fé, procurando a verdade e, muitas vezes, aplicando o método científico à sua pesquisa. Na verdade, pode-se argumentar que, em termos de desenvolvimento da ciência, os alquimistas estavam mais adiante do que muitas outras disciplinas. Por exemplo, a ciência natural e a física ainda eram amplamente observacionais e teóricas, enquanto os alquimistas já usavam um método envolvendo raciocínio indutivo e dedutivo para chegar a conclusões.

Alquimia do Renascimento ao Método Científico

Muitos alquimistas durante o Renascimento realizaram experimentos controlados e utilizaram tentativa e erro para descobrir a natureza das substâncias, estudando como reagiram, interagiram e mudaram sob novas condições. Os alquimistas não só lançaram as bases para a química, mas contribuíram para o lado prático da física, criando gases, sólidos e líquidos que mais tarde os cientistas poderiam estudar, influenciando diretamente os grandes físicos da Era do Iluminismo, a partir do final do século XVII.

Tal como acontece com a maioria das disciplinas acadêmicas, a prática da alquimia foi auxiliada pela invenção da imprenta de Gutenberg, em 1440, ao lado da crescente tendência de pessoas e idéias para migrar, permitindo que o conhecimento se espalhe por toda a Europa e além. Os arqueólogos encontraram artefatos alquímicos em toda a Europa, mostrando a popularidade desta proto-ciência, embora o potencial de riquezas oferecidas pela transmutação de metais básicos em ouro provavelmente esteja atrás da popularidade. Certamente, grandes mentes como John Dee (1527-1608) passaram muito tempo nessa busca, muitas vezes atraindo o apoio de patrocinadores ricos.

Para adicionar a essa mudança em direção a um método científico rigoroso, pode-se olhar os livros didáticos produzidos na época. Na maioria dos casos, os alquimistas do final do século XVI e início do século XVII ainda se depararam com a visão de mundo aristotélica, onde todos os metais foram derivados de mercúrio e enxofre. Por exemplo, um livro de um químico alemão, Andreas Libau (1550-1616), era bem completo e, sem dúvida, atuou como um excelente auxiliar de ensino, relacionando metodologia detalhada, cálculos e instruções para a preparação de compostos, mas também promoveu essa idéia antiga, que persistiria até que Robert Boyle (1627-1691) a separasse.

A Faísca do Renascimento – Perseguição e Renascimento

A alquimia era uma disciplina que se originou com os gregos, embora os chineses e os egípcios também tenham contribuído para o desenvolvimento das bases, e se espalhou para a Europa através do mundo islâmico. A partir de 1147, os Almoádas assumiram o controle do Império Islâmico anteriormente aberto em Al Andalus, na Espanha moderna, levando a um declínio intelectual.

Durante este período, os estudiosos cristãos e judeus fugiram para a Europa, trazendo conhecimento com eles na forma de textos árabes e judaicos, e muitos desses homens letrados foram parar no norte da Itália, onde fizeram parte do renascimento incipiente que desafiou o pensamento medieval predominante. Gerard de Cremona (1114 – 1187) e Robertus Castrensis (1150-????) foram apenas dois – dentre vários – dos tradutores que disponibilizaram os textos árabes originais em latim.

A alquimia já era uma disciplina bem estabelecida, influenciando a metalurgia e a medicina e, como em muitos ramos da ciência, tornou-se vinculada ao estabelecimento religioso com o qual compartilharia uma aliança incômoda nos próximos séculos.

Como foi o caso dos estudiosos islâmicos, os alquimistas medievais e renascidos seguiram a tradição aristotélica de quatro elementos como base de substância, uma visão que não seria desafiada até o Renascimento posterior, quando as descobertas de Newton, Boyle e seus contemporâneos arrastaram ciência e a filosofia européias na Era Moderna.

Os primeiros alquimistas

Um dos primeiros alquimistas europeus registrados foi Gerbert de Aurillac (946-1003), que se tornou o Papa Sylvester de 999-1003 e ficou manchado com a reputação de estudar as artes das trevas. Outro foi o infame Michael Scott (1175-1232), um matemático e alquimista escocês que ganhou um lugar na história, com muitas histórias contando seus poderes lendários, incluindo a capacidade de controlar doenças e manipular a natureza. Durante a sua permanência em Toledo, na Espanha e no norte da Itália, Scott traduziu muitas obras árabes para o latim, incluindo trabalhos de Aristóteles, e ganhou posição como o astrólogo real de Frederico II da Espanha.

Scott dedicou um tratado “De Secretis”, a seu patrono, embora ele, como muitos alquimistas, tenha sido acusado de praticar magia negra e invocar demônios. Essas acusações de ocultismo afetariam a alquimia por um longo tempo; Ele foi excomungado, mas depois foi lhe oferecido um cargo de bispo, como era o relacionamento de amor/ódio com a igreja.

Albertus Magnus (Public Domain)

O monge dominicano, Albertus Magnus (1193/1206-1280), ainda é considerado um dos grandes nomes da alquimia; um homem procurado por grandes estudiosos como Roger Bacon e Tomás de Aquino. Ele se tornou um bispo, mas acabou por abrindo mão da formação para que pudesse dedicar mais tempo aos estudos, quanto ás buscas alquímicas para encontrar a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida, ele escreveu um tratado detalhado, o “Libellus di Alchimia”. Magnus foi meticuloso ao descrever seu equipamento e os processos que usou, e ele escreveu o que sabia sobre as propriedades de várias substâncias.

Seu discípulo, o grande filósofo-monge Thomas de Aquino (1225-1274), prosseguiu o trabalho e também tentou examinar os princípios subjacentes da alquimia, analisando teologicamente e filosoficamente a disciplina para determinar se a busca era aceitável para a doutrina cristã. Ele determinou que investigar e observar fenômenos não era o trabalho do diabo e insinuou uma divisão entre a alquimia branca e preta, sem dúvida conduzida pelas acusações de fraude que pendiam em torno de uma busca atraindo tantos charlatães e trapaceiros.

Roger Bacon (Creative Commons)

Roger Bacon (1214-1294) seguiu os passos de Aquino e dedicou grande parte de seu estudo à alquimia, com o terceiro livro de seu épico “Compendium Philosophiae” relatando muito sobre sua incansável busca pela Pedra Filosofal. Ele reforçou a idéia de que a alquimia era uma busca da criação de substâncias a partir de elementos, uma definição que pode ser grosseiramente aplicada à química moderna.

O trabalho desses estudiosos medievais, embora enraizado no pensamento clássico, lançou as bases para o desenvolvimento da ciência. A alquimia explodiria na cultura popular durante o Renascimento, começando com o trabalho do influente e extravagante Paracelso.

Fonte: Explorable

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