A IRRESPONSABILIDADE FEYERABENDIANA.

O austríaco Paul Feyerabend (1924-1994) nasceu em Viena, mas viveu nos Estados Unidos e na Europa. Na adolescência adorava artes e ciências, imaginou-se tornando um cantor de ópera ou um astrônomo. No entanto, serviu o exército alemão e ferido gravemente passou a utilizar uma bengala para andar. Após a guerra do Vietnã graduou-se em filosofia e foi orientado por Karl Popper na Escola de Economia de Londres. Seu principal livro é “Contra o Método”, e sua principal tese é a defesa ao anarquismo epistemológico, o pluralismo metodológico, contra-indução e o tudo-vale. Posição que lhe deu o título de “pior inimigo da ciência”.

Paul Feyerabend (1924-1994)

A Alemanha ocupou a Áustria em 1938 e, em 1942, quando Paul Feyerabend tinha 18 anos, se alistou na escola de oficiais e acabou como encarregado de 3 mil homens. A história pessoal de Feyerabend, conforme descrito em sua autobiografia Killing Time, é crucial para entender muito seu pensamento posterior. Ele era um membro não crítico do Reichsarbeitsdienst, organização criada na Alemanha Nazista em 1935 com o objetivo de mitigar os efeitos do desemprego na economia alemã, militarizar a força de trabalho e introduzir na classe trabalhadora a doutrinação nazista. Em sua própria admissão não mostrou nenhuma preocupação real com questões sociais como o desaparecimento de judeus (Wilkins, 2007).

Ao lutar contra os russos em 1945, ele foi baleado na parte inferior das costas. Estudando na Universidade de Viena após a guerra, não sabia se estudaria física ou história e se estabeleceu na filosofia. Seu talento para o avanço de posições absurdas por meio da astúcia promoveu sua suspeita de que a retórica supera a verdade, dizendo que “A própria verdade é um termo retórico“.

Feyerabend estudou Popper, em Londres, no início da década de 1950 e depois de lecionar na Universidade de Bristol em 1959, mudou-se para Berkeley, onde se tornou amigo de Thomas Kuhn.

Em sua proposta epistemológica, Feyerabend critica abertamente o método científico e postula que não existe um método científico universal porque a ciência é um empreendimento anárquico. De fato, ele afirma que o avanço da ciência se dá ao violar as regras metodológicas impostas.

Para Feyerabend as teorias devem sempre ser vistas como aproximações e jamais como definições concretas porque não pode atingir a verdade, apenas se aproximar dela. Assim, o anarquismo epistemológico deve ser entendido como uma defesa a um pluralismo epistemológico porque não somente rejeita a existência de regras universais como também defende a violação de metodologias. Para o filosofo, não pode existir um conjunto de regras que conduzam o progresso científico.

Na defesa de Feyerabend pode-se, por exemplo, introduzir hipóteses, mesmo quando essas não se relacionam aos fatos considerados consolidados uma vez que, de acordo com sua visão, todas as teorias são falíveis por natureza. Assim, não há qualquer diferenciação entre o que é experimentável e o que não é. Por isto Feyerabend dizia “As semelhanças entre ciência e mito são realmente surpreendentes”. Nessa visão, qualquer preposição religiosa, mística, meramente especulativa ou realmente científica seria vista como válida e com o mesmo peso.

Feyerabend propõem também contra-regras: introduzir hipóteses que conflitem com as observações; introduzir hipóteses que não se ajustem às teorias estabelecidas (Storage, 2012).

Ele criticou seu professor Popper de diversas maneiras, questionando a capacidade que uma experimentação tem de provar a validade de uma teoria, ou ainda, se uma experimentação não é suficiente para confirmar uma teoria, como pode ser para refutar?

Paul Feyerabend também propôs um controle democrático da ciência, onde todos os cidadãos deveriam opinar sobre ela, de modo a ditarem os seus rumos de investigação. Sua posição foi originalmente vista como radical na filosofia da ciência, porque implica que a filosofia não consegue fornecer uma descrição geral da ciência, nem conceber um método para diferenciar produções científicas de entidades não-científicas como mitos de criação religiosos ou aspectos relacionados ao senso comum. Por esta razão també, Feyerabend é chamado de “pior inimigo da ciência” em um ensaio chamado “Where Science Gone Wrong“, publicado na Nature de 1987 por físicos que presenciavam uma onda anti-ciência de sua época (Storage, 2012).

A influência de Feyerabend fora do mundo da filosofia é bastante limitada, mas sua influência indireta pode ser maior que a de Thomas Kuhn. Tecnicamente ele nunca usou o termo “anarquismo epistemológico” e afirmou que o critério de consistência na seleção da teoria científica é tendencioso, enviesado á visões ortodoxas, corretas ou não.

Assim, chamou o critério de falsificação de dogmático, ou seja, ao contrário da matemática, na ciência uma teoria muito raramente é consistente com todas as observações relevantes. Ao que parece, Feyerabend não entende que matemática é uma ferramenta e trabalha com condições exatas, e diferente de ciências biológicas e outros setores, não parece haver uma regra científica única para descrever todos os fenômenos. Isto não significa que deve-se aceitar qualquer tese como válida ou como tendo o mesmo peso. Quando desejamos saber se o dia seguinte fará sol ou chuva devemos consultar um meteorologista ou um padre?

Consultamos um meteorologista justamente porque ele pertencer a um grupo que pesquisa este tema e provavelmente é melhor capacitado a informar-nos a previsão do tempo. Para Feyerabend, tanto um padre quando meteorologista são igualmente competentes em informar a previsão do tempo. Este tipo de pensamento pode ser perigoso, pois se projetarmos isto par auma condição de saúde pública, então qualquer pessoa pode reivindicar-se como apto.

Assim, ao ignorar os critérios científicos ele torna tudo possível como se qualquer explicação tivesse o mesmo status. Contraditóriamente, ao mesmo tempo que Feyerabend critica setores científicos por não apresentar uma confirmação exata (como faz a matemática) para um fenômeno, critica físicos (declarando-os infantis) ao temtarem formular uma teoria única que explique a origem do Universo.

Feyerabend expandiu seu modo de pensar para uma rejeição categórica das teorias de falsificação/demarcação de Popper e do racionalismo crítico de Popper em geral. Como resultado, grupos que consideravam a ciência como um método defeituoso, ou uma instituição ligada a corporações, ou com preferências governamentais e militares encontraram forte justificativa neste discurso para suas posições anti-ciência (Storage, 2012).

Uma década antes da publicação de sua obra mais conhecida, o “Against the Method” (Contra o Método) Feyerabend pensava de modo muito semelhante á filosofia Popperiana e era um crítico intenso das mudanças de paradigma de Kuhn. No entanto, ele aprovou a mensagem de Kuhn de que a ciência precisava de mais irracionalidade. Ao se defender contra a carga do relativismo em 1965 Kuhn chamou a proposta filosofica de “não só um absurdo, mas vagamente obsceno” porque Kuhn não pretendia apoiar a irracionalidade. Em 1987, Feyerabend escreveu “Farewell to Reason” e comentou sobre os dois livros anteriores:

“Em “Against Method” eu argumentava que os relatos habituais do conhecimento científico e do método científico são defeituosos e que os cientistas não procedem “racionalmente” no sentido de filósofos racionalistas. Em “Science in a Free Society”, eu argumentava que as ciências são formas particulares de obter informações e de interferir com o mundo, que existem outras maneiras e que essas “outras” maneiras são satisfatórias no sentido de que elas atendem às necessidades materiais e espirituais daqueles que os usam. Eu acrescentei que, como todas as instituições em uma sociedade livre, as ciências devem ser submetidas a um controle democrático”.

Assim como Kuhn, Feyerabend escolheu uma linguagem mais radical fora da filosofia da ciência do que dentro dela. Mesmo para esse público a linguagem adotada no Against the Method foi suficientemente radical e tornou-se ainda mais posteriormente.

A impressão incluiu limites explícitos no escopo científico:

“Minha intenção não é substituir um conjunto de regras gerais por outro desse conjunto: minha intenção é, antes, convencer o leitor de que todas as metodologias, mesmo as mais óbvias, têm seus limites. A melhor maneira de mostrar isso é demonstrar os limites e até mesmo a irracionalidade de algumas regras que ela ou ele provavelmente considerariam básicas”.

As teorias de Feyerabend se expandiram, e se tornaram mais sociológicas e políticas. Uma das características de sua filosofia era a frequente reversão de posições, que se tornou sua característica. Por esta razão Feyerabend é difícil de discutir, porque apesar de ter críticas ao falseamento Popperiano e teorias científicas modernas, ele pode ser usado para reflexão em outros pontos: como o modelo de democratização do conhecimento científico (Storage, 2012).

No entanto, em outros pontos ele redefine de modo oportunista a ciência entre o método e a instituição de acordo com suas necessidades. Ele usa um argumento do espantalho alegando que a ciência acredita que ela cria fatos em oposição aos modelos.

“A separação do estado e da igreja deve ser complementada pela separação do estado e da ciência, a instituição religiosa mais recente, mais agressiva e mais dogmática”.

Em seu ensaio de 1987 na Nature, os dois físicos britânicos se preocuparam com a crescente onda de negação a ciência. Eles culparam filósofos – como Feyerabend (e até mesmo o próprio Popper e Kuhn) por esta tendência pública em negar as capacidades e potencialidades da ciência em estudar fenômenos e alcançar verdades objetivas. Tanto Kuhn quanto Feyerabend negavam que suas teses fossem anti-ciência.

Além disto, enquanto Popper e Kuhn eram constantemente acusados de cair em contradição, a estratégia adotada por Feyerabend abraçava justamente os paradoxos, as contradições, ironia e excesso de retórica. Em uma entrevista a Horgan (1992) ele disse:

“Eu tenho opiniões que eu defendo com bastante vigor, e depois descubro como são bobas e desisto!”

Em Against Method ele argumentou que a filosofia não pode fornecer uma lógica para a ciência, uma vez que não há motivos para explicar. Ridicularizou a falsificação de Popper como “um pequeno sopro de ar quente na caneca de café positivista“, e acusou o modelo de revoluções científicas de Thomas Kuhn de ser comparável ao crime organizado.

Feyerabend defendeu a astrologia, o criacionismo, mas negou que ele fosse uma pessoa anti-ciência. Comparou a ciência com voodooismo, feitiçaria, astrologia e mito e ainda simpatizava-se com os fundamentalistas religiosos que queriam que o criacionismo fosse ensinado nas escolas públicas (Horgan, 1992).

Ao mesmo tempo, na introdução da biografia “Who’s Who in America” (1991) ele afirmou:

“Minha vida foi resultado de acidentes, não de objetivos e princípios. Meu trabalho intelectual forma apenas uma parte insignificante. O amor e a compreensão pessoal são muito mais importantes. Liderando intelectuais com o objetivo de assassinar esses elementos pessoais. São criminosos, não os libertadores da humanidade”.

No final de Farewell to Reason, Feyerabend aborda uma questão que enfureceu muitos leitores e decepcionou muitos amigos: a recusa em condenar o fascismo extremo e a sugestão de que deveria ser permitido a ele prosperar.

Feyerabend sugeriu que condenar o fascismo implicaria, erroneamente, a repressão e subjulgo:

Eu digo que Auschwitz é uma manifestação extrema de uma atitude que ainda prospera em nosso meio. Ela se mostra no tratamento das minorias nas democracias industriais, na educação, a educação para um ponto de vista humanitário incluído, que na maioria das vezes consiste em transformar jovens maravilhosos em cópias incoloras e auto-justas de seus professores, torna-se manifesto na ameaça nuclear, o aumento constante do número e do poder das armas mortais e a prontidão de alguns patriotas chamados a iniciar uma guerra em comparação com o qual o holocausto diminuirá em insignificância. Ele se mostra na matança da natureza e das culturas “primitivas”, sem nunca pensar nos que estão tão desprovidos de significado para as suas vidas, na presunção colossal de nossos intelectuais, a crença de que eles sabem precisamente o que a humanidade precisa e seus esforços implacáveis ​​para recriar as pessoas em sua própria imagem triste, na megalomania infantil de alguns de nossos médicos que chantageiam seu pai com medo, mutila-os e persegui-los com grandes contas; na falta de sentimentos de muitos dos chamados pesquisadores da verdade que torturam sistematicamente animais, estudam o desconforto e recebem prêmios por sua crueldade. No que me diz respeito, não existe diferença entre os capangas de Auschwitz e esses “benfeitores da humanidade”.

Para Feyerabend o único método da ciência é o oportunismo. Em uma analogia: precisamos de uma caixa de ferramentas cheia de diferentes tipos de ferramentas. Não é apenas um martelo e pinos e nada mais. Isto é o que ele quis dizer com “qualquer coisa” e não como geralmente é defendido, que uma teoria científica é tão boa quanto qualquer outra. Para ele, restringir a ciência para uma metodologia particular – como o esquema de falsificação de Popper ou a “ciência normal” de Kuhn – iria destruí-la, tornado-a dogmática. O que ele parece não entender é que nem todo conhecimento produzido é coerente ou válido. Sem critérios, onde qualquer coisa é válida os riscos são maiores de errar e as consequências são profundas. Neste sentido, Feyerabend é muito irresponsável, e claro, ignora o fato de que toda grande produção de conhecimento e tecnologia foi dada justamente pelos critérios que foram utilizados para distinguir conhecimento científico bom, coerente, daqueles ruins. Se não fosse estes critérios a ciência ainda estaria no subjulgo da religião, teses alquímicas ou a geração espontânea ainda seria aceita como verdade. A ciência surge através de critérios e não pela ausência deles. Evidentemente a ciência muda com o tempo, por isto há diversos métodos científicos ao longo de sua história.

Feyerabend se opôs à afirmação de que a ciência é superior a outros modos de alcançar conhecimento. Ele condenava a tendência dos estados ocidentais de impor os produtos da ciência – seja a teoria da evolução ou as usinas nucleares – sobre as pessoas contra sua vontade. O que talvez Feyerabend não compreenda é que a ciência é o melhor método para construir conhecimento em certas situações e circunstâncias, e não que ela é melhor do que tudo. Olhar a ciência desta forma é olhar de forma religiosa e tentar refutar uma visão assim é um espantalho. A ciência da meteorologia é boa em fazer previsões do tempo, mas povos tradicionais com seus respectivos saberes conseguem identificar quando uma chuva se aproxima somente olhando para o céu ou prestando atenção no comportamento de animais e plantas. Neste sentido, o saber tradicional de certos povos é tão importante e válido quanto um conjunto de dados matematicamente coletados e modelados para fazer previsões. Todos estão sujeitos a errar a previsão, ciência ou povos tradicionais.

Vemos então que o caso da meteorologia é um exemplo disto. Em partes a crítica de Feyerabend tem sentido, mas a ciência deve ter autoridade, e isto é diferente de ser autoritária. Campos como a meteorologia devem ser criteriosamente seguidos pela autoridade e competência que tem em responder melhor sobre a condição climática do que um sacerdote católico. Todavia, o conhecimento científico não deve ser autoritário a tal ponto de se sobressair em relação a campos em que pouco podem dizer. Por exemplo, a mesma ciência que é boa para explicar a diversidade de forma de vida no planeta (teoria da evolução) não é competente para dizer que deus não existe. Esta fora de seu cacife fornecer respostas teológicas. Desdobramentos filosóficos podem dar conta de discutir sobre deus existir ou não, ou, ou sobre as implicações da teoria da evolução na medicina ou na questão da moral e assim por diante. Feyerabend parece não compreender o que são critérios e confunde conceitos básicos.

Em uma atual sociedade onde se discute problema de saúde pública é mais coerente ouvir o que a ciência tem a dizer do que um sacerdote religioso. O mesmo vale para discussões sobre descriminalização ou não de drogas, aspectos ligados ao abordo ou a terapia gênica etc e tal. A ciência não se propõe melhor ou superior, ela somente se sobressai em certos assuntos tal como saberes tradicionais, religião ou filosofia se sobressaem em outros. Da mesma forma, a ciência não tem competência para dizer como se faz para alcançar o reino dos céus ou como um sacerdote deve guiar seus seguidores (Horgan, 1992).

Neste mesmo assunto, Feyerabend comentou que deveria haver separação entre estado e ciência tal como estado e igreja. Ai pode haver outra contradição feyerabendiana: se empresas privadas não podem financiar pesquisas porque jogam em causa própria (como de fato ocorre em certos casos) e o Estado não deveria mais financiar pesquisas (porque pode também jogar em causa própria, em especial as instalações militares) então, de onde vira o financiamento de pesquisa?

O problema e fácil de identificar, mas qual solução Feyerabend proporia?

Para ele “ciência fornece histórias fascinantes sobre o universo, sobre os ingredientes, sobre o desenvolvimento, sobre como a vida surgiu, e tudo isso”, mas o público, cujos impostos pagam pela pesquisa, deve ser livre para rejeitar teorias e tecnologias. Feyerabend acrescentou:

“É claro que eu vou para os extremos, mas não para os extremos que as pessoas me acusam, ou seja, lançar a ciência. Lança a ideia de que a ciência é a primeira. Está tudo bem. Tem que ser ciência de caso a caso”. Afinal, os cientistas muitas vezes discordavam entre si. “As pessoas não devem dar por certo quando um cientista diz:” Todo mundo tem que seguir esse caminho”.

E que análise crítica o povo poderia apresentar para rejeitar uma teoria ao mesmo tempo que aceita teses como terraplana, criacionismo, astrologia e tantas outras dissertações sem qualquer respaldo lógico?

A democratização da ciência é fundamental, mas da forma comque Feyerabend propõem é irresponsável.

Em alguns pontos ele mudou sua concepção. Quando questionado por Horgan sobre sua declaração em Who’s Who de que os intelectuais são criminosos elerespondeu:

“Eu pensei por muito tempo… mas no ano passado eu risquei isto, porque há muitos intelectuais bons”. 

Feyerabend criticava o conceito ocidental de progresso. Para ele, pessoas tribais analfabetas podem ser felizes, mas eram ignorantes, assumindo que o conhecimento não é melhor do que a ignorância. Quando perguntado sobre o ensino do criacionismo, Feyerabend não se preocupou em ajudar os conservadores religiosos – que eram bastante poderosos nos EUA – em atacar a ciência. Para Feyerabend a ciência que foi usada para dizer que algumas pessoas têm um baixo quociente de inteligência indica que ela é usada de muitas maneiras diferentes. Para ele a ciência pode ser usada para vencer todos os tipos de outras pessoas – e de fato, em alguns casos ocorreram, em especial o racismo científico (Horgan, 1992). Contudo, Feyerabend deveria escrutinar as supostas bases científicas de quem defende este argumento e não jogar a ciência aos cães e porcos. Até mesmo porque muitas teses racistas pseudocientíficas foram usadas para respaldar dominação usando deus como referência: o caso do criacionista Louis Agassiz e sua defesa a Poligênia, onde defendia um casal de Adão e Eva negro e um casal branco.

Para Feyerabend as crianças devem aprender a diferença entre teorias científicas e mitos religiosos e deixar os dois lados apresentem tantas evidências quanto possíveis. Esta é uma decisão delicada, pois poderia dar abertura para práticas de curanderismo na qual poria vidas alheias em risco (Horgan, 1992).

Em sua entrevista a Horgan, Feyerabend argumentava como um relativista cultural, tentando proteger os sistemas de crenças do mundo contra as críticas da ciência. De fato, quando foi questionado sobre uma possível contradição quando ele usa técnicas do racionalismo para atacar o racionalismo, Feyerabend alegou que eram apenas ferramentas, e que podem ser usadas de qualquer maneira que você desejar.

Em seu livro “The Conquest of Abundance” ele argumenta sobre a necessidade humana ao reducionismo, a busca em todas as empresas humanas em reduzir a diversidade natural inerente à realidade. Para ele a religião, ciência, política e filosofia representam nossas tentativas de comprimir a realidade; então, ridicularizou a tentativa dos cientistas em algum dia reduzir a realidade a uma única teoria chamando de crença que somente traz alegria aos pesquisadores. Contraditoriamente, Feyerabend defendia que todas as descrições da realidade são inadequadas, ao mesmo tempo em que exigia das ciências respostas exatas como na matemática.

Feyerabend foi criado dentro do catolicismo, mas se tornou um ateu inflexível e sua filosofia tomou uma forma completamente diferente defendendo que não poderia ser apenas o universo. Para ele não fazia sentido (Horgan, 1992).

Abaixo das retóricas anti-ciência de Feyerabend espreitava um tema mortal e sério: a compulsão humana de encontrar verdades absolutas, por mais nobre que seja, muitas vezes culmina com a tirania. Feyerabend atacou a ciência não porque realmente acreditava que não era mais válida do que a astrologia ou a religião. Pelo contrário, ele atacou a ciência porque reconheceu – e ficou horrorizado com a ampla atuação e desenvolvimento da ciência em certos campos em comparação com outros. Suas objeções à ciência eram muito mais políticas e morais e por isto ataca a epistemologia. Ao que parece, Feyerabend temia que a ciência, precisamente por causa de seu enorme poder de construir conhecimento, pudesse se tornar uma força totalitária que esmagaria todos os seus rivais.

O pensamento de Feyerabend é um legado de filósofos da pós-modernidade que substituíram a ciência pelo cinismo. No mundo de Feyerabend, não há verdade, é tudo relativisado. Todavia, não devemos confundir relativismo com relatividade.

Quando ele foi criticado porque suas obras eram confusas em vez de uma análise sistemática da ciência, ele simplesmente alegou que é porque ele estava mostrando as desvantagens da sistematização (Science20, 2011).

Algumas pessoas defendem que Feyerabend se alinhava mais com um modo de pensar no estilo dadaísta em vez de um anarquista porque, assim como o movimento, causava confusão e desafiava à lógica (Wilkins, 2007).

Por natureza, Feyerabend muitas vezes tentou relatar o caso de forma exagerada, tornando difícil interpretá-lo sem uma apreciação de seu programa mais amplo. Na verdade, embora ele tenha chamado sua epistemologia anarquista de “medicina para a epistemologia e para a filosofia da ciência” (Feyerabend, 1989), ele também, em várias notas de rodapé, afirmava que não tinha nenhum programa como tal e que ele era mais como um dadaísta:

Um dadaísta é completamente impressionado por qualquer empresa séria […] sempre que as pessoas param de sorrir e assumem essa atitude e aquelas expressões faciais que indicam que algo importante está prestes a ser dito. Um dadaísta está convencido de que uma vida valiosa surgirá somente quando começarmos a falar sobre levar as coisas levemente e quando removemos do nosso discurso os significados profundos, mas já perversos, acumulados ao longo dos séculos (“busca da verdade”, “defesa da justiça”, “preocupação apaixonada”, etc., etc.) Um Dadaísta está preparado para iniciar alegremente experimentos mesmo nos domínios em que a mudança e a experimentação parecem estar fora de questão (exemplo: as funções básicas da linguagem). Espero que, tendo lido o panfleto, o leitor se lembrará de mim como um Dadaísta desprezível e não como um anarquista sério.”

O anarquismo ou o dadaísmo se opõem a qualquer tipo de restrição na liberdade do indivíduo de pensar.

Os desdobramentos de seu posicionamento são socialmente perigosos por outro lado. Será mesmo que, a opinião do especialista em uma área deveria ter o mesmo peso do que as opiniões do astrólogo local? Feyerabend, tanto em declaração quanto em ação, não pensa nestas situações. Ao assumir que o criacionismo, geocentrismo, remédios populares tradicionais e outros semelhantes devem receber o mesmo status epistêmico em sua postura anárquica mostra que tais posturas têm consequências graves (Wilkins, 2007). Por exemplo, enquanto temos pesquisas empíricas demonstrando a eficácia e a importância da vacinação há grupos que rejeitam os dados e optam por não administrar a vacina nos próprios filhos. Se neste caso ambas decisões têm o mesmo status epistemológico acaba não apenas colocando os filhos não-vacinados no grupo de risco mas também diminui a taxa da população vacinada (efeito do rebanho) caso tal ideia seja disseminada. O resultado é uma vacinação ineficaz e a promoção de epidemias.

Feyerabend, quando foi diagnosticado com um tumor cerebral inoperável, participou de sessões com curandeiros de fé. Ele repetidamente elogiou a introdução da medicina chinesa pelo regime Mao na China na década de 1970, argumentando a partir da acupuntura que a medicina popular tinha a verdade que a medicina ocidental não tinha (Wilkins, 2007). Em certo sentido, esse sucesso pareceu licenciar todas as alternativas não científicas para ele. Ora, se a medicina oriental tinha a verdade que a ocidental não tinha, que critérios ele usou para concluir isto? Racional ou irracional?

Feyerabend também repetidamente comparou a ciência com o dogma da igreja em Against Method, alegando que quando uma ciência chega a um modelo unanime se torna um dogma de igreja:

“…para as vítimas assustadas ou gananciosas de algum mito (antigo ou moderno) para os seguidores fracos e dispostos de algum tirano. É necessária uma variedade de opinião para o conhecimento objetivo. E um método que incentiva a variedade também é o único método compatível com uma perspectiva humanitária.”

Ora, o fato da gravidade ser uma unanimidade entre os físicos (exceto os terraplanistas, por razões bizarramente óbvias) descrita pelas leis da física tornaria ela um dogma? Poderíamos sugerir romper o dogma e tentar retornar para a casa depois de um duro dia de trabalho flutuando?

Aceitando a teoria da gravidade como um dogma, um modelo ou qualquer outra coisa não lhe permite burlar o fenômeno se saltar pela janela do 14º andar.

Feyerabend é particularmente criticado pela maneira como ele tratou o método, mas isso geralmente se baseia em um mal entendido pela maneira como ele fez seus bons termos.

Ele diz:

“A ideia de um método que contém princípios firmes, imutáveis ​​e absolutamente vinculativos para a condução do negócio da ciência encontra dificuldades consideráveis ​​quando confrontados com os resultados da pesquisa histórica. Descobrimos, então, que não existe uma única regra, por mais plausível que seja, e com firmeza na epistemologia, que não é violada em um momento ou outro”.

Não há lógica de descoberta, pelo menos no sentido de que todos os cientistas devem usá-lo o tempo todo. E claro, a ciência não é imutável e sim susceptível a transformações sociais (Wilkins, 2007). Feyerabend pode até estar correto no sentido de que há coisas que gostaríamos de incluir como “boa ciência” que quebra algumas ou outras regras de epistemologia ou metodologia (incluindo métodos falsificadores, contra Popper). É nesse contexto que a sua citação famosa ou infeliz é feita:

É claro, então, que a ideia de um método fixo, ou de uma teoria fixa da racionalidade, se baseia em uma visão muito ingênua do homem e seu ambiente social. Para aqueles que olham para o rico material fornecido pela história e que não estão empenhados em empobrecê-lo para agradar seus instintos inferiores, seu desejo de segurança intelectual sob a forma de clareza, precisão, “objetividade”, “verdade”, ficará claro que existe apenas um princípio que pode ser defendido em todas as circunstâncias e em todas as etapas do desenvolvimento humano. É o princípio: tudo corre.” 

(Contra o Método – 27f)

Isto não é, apesar da interpretação popular, uma afirmação de que se pode fazer e que esperar que alguém goste em todos os momentos. Em várias ocasiões, todas as regras metodológicas foram frutificadas e isso é verdade. Todavia Feyerabend (que estudou Wittgenstein) deveria ter percebido que a ciência é muito parecida com a discussão nas Investigações do conceito de “jogo”. E de fato, a história nos mostra que métodos, protocolos e técnicas mudam relativamente devagar. A falta de universalidade é um movimento interessante sem duvida alguma, contudo, apenas se você acha que existe uma definição essencial para o método científico (Wilkins, 2007). Isso não significa que as ciências sejam históricas ou sociologicamente anarquistas. Significa apenas que ela é dinâmica.

Feyerabend destacou a preocupação de que a falta de um método unitário universal poderia deixar a ciência uma bagunça (embora ele mesmo cause toda a confusão):

Não há necessidade de temer que a diminuição da preocupação com a lei e a ordem na ciência e na sociedade que caracterizem um anarquismo desse tipo conduzirá ao caos. O sistema nervoso humano está bem organizado para isso.

(Contra o Método – 21f)

Na década de 1970, quando a ciência foi atacada (e gerou na década de 80 ensaios como este da revista Nature) a ciência foi acusada de ser autoritária, elitista, hegemônica ou exclusivista. Foi criticado por filosofas feministas, filósofos socialistas e cientistas como Stephen J. Gould, o próprio Richard Lewontin e movimentos populares em Harvard, Berkeley, Paris e grande parte da Europa (Wilkins, 2007).

Por volta desse tempo, também houve ataques a ciência acusada de agir segundo interesses específicos – que nos últimos trinta ou quarenta anos ganham fôlego na negação da ciência. No começo, a indústria do tabaco financiava uma “ciência porca” para “provar” que o tabaco não estava relacionado ao câncer de pulmão. Bem com o financiamento da indústria do petróleo para “pesquisas” anti-ambientalistas. Um dos piores movimentos anti-ciência ocorreu quando os Republicanos ganharam o controle do Congresso em 1994. Uma das primeiras decisões tomadas foi aniquilar o Office of Technology Assessment (OTA), que era responsável em fornecer assessoria científica não partidária ao Congresso (Wilkins, 2007).

Posteriormente, surgiu uma campanha de negação da ciência mais intensa, especialmente atacando linhas de pesquisa que estudos do AIDS negando que era causada pelo vírus da imunodeficiência humana. Alegaram que a causa do grande número de casos de infeção era o estilo de vida aberto e desvairado com uso de drogas por parte dos homossexuais. Surgiu também uma frente de oposição com crescente consenso sobre o aquecimento global, alegando que não estava acontecendo. Então, quando se tornou óbvio que era, alegaram que isso era apenas uma flutuação “normal” ao invés de ser causada pela atividade industrial humana. Em seguida, quando ficou claro que era causada por atividades humanas, negavam que ela possa ser interrompida agora. Agora há grupos negacionistas das mudanças climáticas e que acusam o aquecimento global de ser uma fraude empresarial construída para lucrar, enquanto na década de 70 havia empresas querendo justificar que não havia tais mudanças.

Assim, funcionários democraticamente eleitos conseguiram prejudicar as causas ambientais, como a proteção de espécies ameaçadas de extinção pelo desenvolvimento; e problemas no gerenciamento de desastres, incluindo o perigo de previsão de um furacão no Golfo do México (Wilkins, 2007).

Um livro publicado por Chris Mooney “The Republican War on Science” (2005) detalha o interesse especial á censura da ciência pelo Congresso sob a tutela dos Republicanos nos últimos 15 anos, em nível estadual e federal nos Estados Unidos.

Movimentos semelhantes surgiram em outros lugares do planeta. Na Austrália, onde o governo federal chegou a ignorar e censurar relatórios científicos competentes agindo na folha de pagamento do governo. Além disso, o financiamento para a ciência impopular com o governo foi reduzido nos EUA. Houve casos nos EUA, onde os nomeados políticos censuraram os comunicados de imprensa da NASA, o Centro de Controle de Doenças, a Corporação de Engenheiros, a Agência de Proteção Ambiental, e assim por diante. Curiosamente, as pessoas que negavam os efeitos do papel do tabaco no câncer eram as mesmas pessoas que negavam o aquecimento global e eram financiados pelos mesmos gigantes corporativos (Wilkins, 2007).

Tudo isso foi realizado com o conhecimento de representantes democraticamente eleitos, e não restrito aos Estados Unidos.

Feyerabend acabou, com suas declarações alimentando este sentimento anti-ciência colocando mais lenha na fogueira do pseudo-criticismo agressivo.  A oposição à ciência cresceu tanto que se juntou com um sentimento mais profundo da onda anti-ciência (Wilkins, 2007). Lembremos ainda, que na década de 90 surgiram as mentiras sobre os efeitos autistas das vacinas em crianças. Como resultado, a medida de saúde pública mais eficaz e mais econômica está perdendo seu efeito à medida que o efeito do rebanho cai abaixo do limiar e mais pessoas são infectadas e doenças como a tuberculose voltam.

O resultado desta onda nociva pseudo-crítica a ciência alimentou a negação da ciência. Em vez das críticas serem construtivas visando eliminar os interesses particulares, propondo soluções e estimulando a democratização de pensamentos, Feyerabend e a pós-modernidade acabaram alimentando a repulsa a ciência (Wilkins, 2007). Em vez de refinar a ciência como um empreendimento legítimo de construção de conhecimento acabou tendo um efeito negativo.

As críticas devem ser feitas, mas de modo coerente porque os dois extremos são negativos: críticas desonestas e desconstrutivas comprometem o desenvolvimento e interesse na ciência, e uma aceitação acrítica da ciência se torna quase religiosa e reducionista.

Ora, um dos efeitos malignos que esta onda alimentou esta a resistência ao ensino da biologia evolutiva e as demais disciplinas que contribuem para isso, como a geologia e a ecologia. Steven Fuller, que argumentou a favor dos criacionistas no caso Dover em 2005 defendeu que é um direito democrático que o criacionismo seja ensinado como alternativa científica a evolução em escolas públicas com o mesmo peso – uma visão claramente feyerabendiana. Em sua “encarnação” mais recente (design inteligente) o criacionismo defende exatamente isto (Wilkins, 2007). A onda anti-ciência e pseudocientífica trazia reflexos de pensamentos das décadas passadas, onde pós-modernidade, Feyerabend e outros pressupostos envenenaram a adoção e a crítica sadia a evolução gerando uma revolta e ranço a ciência básica.

Como consequência surgiu uma população cada vez menos educada, acrítica em questões científicas e incapazes de distinguir a pesquisa – partindo de argumentos superficiais, reduções absurdas, pseudo-epistemologias e espantalhos que se refletem até os dias de hoje.

É exatamente isso que os governos desejam, uma população acrítica e ignorante é facilmente dominada e adaptável a uma agenda econômica, social com interesses especiais do poder. O efeito de Feyerabend em tirar as ciências do domínio do empreendimento do Estado coloca a ciência em uma posição de ranço e alimentou a ignorância facilitando o domínio governamental do cidadão.

O pensamento Feyerabendiano levou à perda de liberdade, não aumentou. Sua irresponsabilidade ao alimentar o ranço e agir de forma completamente contraditória em sua ingenuidade sobre como a democracia funciona (além das políticas nazistas quando jovem), permitiram que ele implantasse uma tirania anti-ciência contra uma suposta “tirania científica”.

Talvez, Feyerabend acreditasse que as teorias científicas atuassem como ideologias dogmáticas, onde conceitos deveriam determinar os comportamentos e como consequência entendeu errado a natureza do consenso científico (Wilkins, 2007).

É importante ter críticas legítimas a respeito de idéias dominantes na ciência (como tenho sobre a teoria da evolução), mas isto não significa que cada vez que a ciência chega a um consenso ela proíbe desafios. O ar flogisticado foi durante muito tempo visto como uma verdade alcançada, mas foi refutado. A teoria da deriva continental de Alfred Wegener é um exemplo: ela superou a ideia de que a Terra havia sido formada com os continentes nas respectivas posições atuais. Wegener, que era meteorologista formulou a sua tese em 1912 embora, tratava-se apenas de uma polêmica teoria que ainda não havia encontrado uma comprovação completa, baseando-se apenas em evidências, como a existência de fósseis e grupos de vegetação semelhantes em áreas separadas por oceanos inteiros. Algumas sugestões haviam sido feitas por naturalistas do passado, entre eles cientistas como Francis Bacon (1561-1626). Ela superou a tese vigente e hoje se faz o modelo explicativo. Ela não é dogmática e está aberta a críticas. Basta que um modelo que explique melhor a realidade apareça e refute a concepção antiga.

Muitas vezes, os dados científicos coletados dependem de teorias muito distantes do modelo que esta sendo testado ou desafiado. No entanto, nem tudo pode ser testado ou desafiado de uma só vez ou mesmo de cada vez. A não ser que a teoria siga o que Lakatos chamou de “programas de pesquisa progressiva“, muitas vezes há poucas razões para desafiá-la.

É possível que alguém desafie os modelos atualmente vigentes e supere-os com outros, ou refine os atuais podendo fazer descobertas paralelas. A teoria da evolução vem sendo revista e oferecendo uma síntese estendida. Alguns conceitos mudaram e outros mecanismos evolucionários estão sendo reconhecidos.

Existem ideias concorrentes na ciência como em diversos outros campos sociais (política, religião etc e tal). Há resoluções, imposições de dogma e rebeliões contra posturas em todas as etapas e em todos os lugares. Será que em uma ciência dogmática seria diferente? Não necessitamos de uma postura feyerabendiana, anárquica na ciência neste sentido. Sempre haverá resistência e correntes contrárias até para as teorias científicas que são consenso científico (Wilkins, 2007).

Quando ocorrem dogmas dentro de religião, a oposição não desaparece, ela fica escondida. Em religião isto fica bem claro. Desde a época do Velho Testamento até a época de Jesus (a heterodoxia cristã e suas ramificações), durante a idade media com a Igreja católica (desencadeando a Reforma Protestante e a Contra-Reforma) vimos opositores de dogmas, Revolução Francesa etc e tal.

Assim como na religião (ou outros campos onde a ortodoxia não existe quebrada), a ciência é dinâmica e parte de uma cadeia histórica de alternativas que competem por atenção e aceitação. Quando uma alternativa ganha aceitação universal pelo mérito de seus dados, haverá inevitavelmente aqueles que a testarão as bordas ou no núcleo desta nova tese a medida que a oportunidade se apresentar (Wilkins, 2007). A teoria da evolução darwiniana é unanimidade entre os cientistas, mas isto não significa que todos os biólogos aceitam-a. Há biólogos que não aceitam, há biólogos que fazem ressalvas a respeito de certos mecanismos. Mesmo Darwin quando propôs sua tese e foi aceito pela comunidade científica de sua época não foi uma aceitação unanime, e seus apoiadores (Thomas H. Huxley, Joseph Dalton Hooker, Charles Lyell) discordavam de Darwin em um ou outro ponto de sua teoria. Alfred Russell Wallace que foi co-autor com Darwin sobre a seleção natural divergiu em alguns pontos. Durante um bom tempo o gorila foi cogitado como o ancestral mais próximo do homem, até que os que propunham outro ancestral fizeram pesquisas genéticas direcionaram o modelo para o chimpanzé.

Notamos então, que os próprios cientistas são frequentemente aqueles que desafiam o consenso científico, mais do que qualquer outro grupo. O DNA espaçador que foi visto inicialmente como “DNA-lixo” a partir de pesquisas genômicas demonstrou ser de grande importância celular. Não foram ops criacionistas, proponentes do design inteligente que impulsionaram criticas a evolução biológica, mas os próprios cientistas.

Ocasionalmente eles acabam buscando incentivo em coisas como medicina popular ou idéias filosóficas que repercutem e que a curiosidade leva a testar. No entanto, é o cientista encabeça estas mudanças.

Feyerabend pode ter acertado em alguns elementos que fazem parte da filosofia da ciência e que podem exigir reflexões quanto ao método. A ciência pode aprender com o conhecimento popular. Isso nunca foi negado e evidentemente, houve momentos em que os programas de pesquisas estavam focados em certos nichos porque estavam sendo pagos, mas, quando atingiram os limites de sua promessa, as pessoas se voltaram para qualquer coisa que pudessem descobrir, e novamente, a pesquisa foi retomada.

Não há garantias, mas existem regras e estes critérios são importantes porque garantem a funcionalidade do conhecimento científico. Ciência é um bom método de construção de conhecimento porque o que produz funciona, mas se ela funciona a partir de pressupostos errados, ainda conta com o fato de se auto-corrigir e se superar.

Se não procuramos restringir a atividade da ciência por epistemologias rígidas e inflexíveis, então não temos o problema porque a ciência é dinâmica e temos diversos métodos científicos na sua história. Neste ponto Feyerabend acertou, enquanto Popper e o Círculo de Viena (grupo que buscava reconceitualizar o empirismo a partir das novas descobertas científicas e demonstrar as falsidades da metafísica) estavam errados (Wilkins, 2007).

Feyerabend parece não compreender a natureza dialética dos movimentos históricos, na ciência, na religião ou em qualquer outra coisa, apresentando argumentos que parecem se fundar em concepções absolutas e que não fazem mais sentido.

Sua ingenuidade sobre democracia, política, relações de poder parece ter fracassado, especialmente quando vemos o efeito contrário que causou e prejudicou a ciência, mas tal como um paciente de cama, se um medicamento não faz efeito trocamos o medicamento e não se deve optar por matar o paciente. A filosofia de Feyerabend ao criticar erroneamente a ciência e abrir espaço para o anarquismo epistemológico optou por alimentar o ranço em relação á ciência e não revigorá-la com críticas que fossem realmente positivas e libertadoras.

Conclusão

O anarquismo epistemológico de Feyerabend encontra seu fundamento no anti-realismo e com isto consagra a irresponsabilidade intelectual e social ao desprezar as consequências e desdobramentos de sua tese. Um dos exemplos disto é quando ele afirma:

“a transição dos critérios que não envolvem conteúdo transforma assim a escolha de teoria de uma rotina ‘racional’ e ‘objetiva’ e unidimensional em uma discussão complexa que envolve preferências conflitantes e [que] a propaganda nela desempenhará um papel importante, como o faz em todos os casos que envolvem preferências”

(Feyerabend, 1989 apud Chalmers, 1993)

Com isto, ele defende que não há uma comparação lógica entre teses científicas e não-científicas e que somente julgamentos estéticos, preconceitos metafísicos, desejos religiosos são utilizados como critério. Ao colocar a ciência em igualdade com outras formas de pensamento (ignorando aspectos idiossincráticos da ciência e não só dela, mas de cada acervo de conhecimento) e confundi-la com tecnologia, responsabilizá-las pelos problemas ambientais (pelo risco atômico), acusa-la de fomentar um distanciamento ainda maior entre as nações ricas e pobres e de ser a mais dogmática instituição religiosa (Feyerabend, 1989), é usar a população para acriticamente tomar um caminho arriscado, sem volta e perigoso. Feyerabend é de fato o inimigo mais irresponsável da ciência ao não entende-la e alimentar um ranço irracional anti-científico.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Paul Feyerabend, Filosofia da ciência, Epistemologia, Ciência, Método científico.

 

Referências

Chalmers, A. F. O que é ciência, afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.
Feyerabend, P. K. Contra o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.
Storage, W. Paul Feyerabend – The Worst Enemy of Science. The Multidisciplinarian. 7 aug, 2012
Westphal, M & Pinheiro, T. C. A Epistemologia de Mario Bunge e sua Contribuição para o Ensino de Ciências. Ciência & Educação, v. 10, n. 3, p. 585-596, 2004
Wilkins, J. Evolving Thoughts. Science Blogs. 05, October. 2007

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