A FILOSOFIA DA CIÊNCIA NO REALISMO CIENTÍFICO E ANTI-REALISMO.

Na filosofia há uma antiga discussão entre duas escolas de pensamento opostas, o realismo e idealismo. Para a corrente do realismo o mundo físico existe independentemente do pensamento e da percepção humana. O idealismo nega-o afirmando que o mundo físico é dependente da atividade consciente dos seres humanos.

Realismo e Idealismo

Para muitas pessoas, o realismo parece mais plausível do que o idealismo porque se acomoda bem à perspectiva sensorial de que os fatos sobre o mundo estão “lá fora” esperando ser descobertos por nós, ao passo que no idealismo não. Uma frase muito conhecida que reflete o pensamento realista vem do cosmólogo Carl Sagan quando disse “Em algum lugar, alguma coisa incrível está esperando para ser conhecida”.

Assim, à primeira vista, o idealismo parece uma corrente sem sentido uma vez que o mundo, as rochas e a vida presumivelmente continuariam a existir ainda que a espécie humana entrasse em extinção – afinal, em que sentido a existência deles depende das mentes humanas? No entanto, muitos questionamentos idealistas são importantes para a filosofia da ciência, em especial para o realismo.

Tradicionalmente, a disputa entre realismo/idealismo pertence a área da filosofia chamada metafísica, uma subdivisão da filosofia caracterizada pela investigação das realidades que transcendem a experiência sensível. O debate ganhou proporções científicas e ficou conhecido como realismo científico e a sua corrente oposta, o anti-realismo – ou instrumentalismo.

O realismo científico como tese em filosofia da ciência só se desenvolveu no século XX. Surgiu em grande parte como uma reação ao positivismo lógico, a primeira filosofia da ciência no século XX sustentando que uma distinção clara pode ser estabelecida entre termos observacionais (experiência) e termos teóricos capazes de análise semântica em termos observacionais e lógicos.

O realismo científico vai defender então, que o universo descrito pela ciência é real independentemente de como ele possa ser interpretado. É comprometido com a interpretação literal das afirmações científicas sobre o mundo (Popper, 1980). Segundo os realistas, afirmações sobre entidades científicas, processos, propriedades e relações, sendo observáveis ou não, devem ser interpretados literalmente possuindo valores verdadeiros. Logo, não faz sentido julgar que há algo oculto em uma teoria científica.

Epistemologicamente, o realismo está comprometido com a ideia de que as alegações teóricas têm interpretações que são independentes da nossa capacidade de medi-las, constituindo o conhecimento do mundo tal como ele realmente é.

Assim, de acordo com os realistas, as teorias científicas não são apenas instrumentos, mas também são descrições do mundo – ou de certos aspectos dele (Popper, 1980).

Existem diferentes definições para o realismo científico e é útil distinguir aquelas que explicam-no em termos de conquistas daquelas que o fazem a partir de seus objetivos (Zalta, 2011). Se o objetivo da ciência é descrever os aspectos do mundo com verdades – supondo que a prática científica faz isso com sucesso – então a interpretação do realismo científico do ponto de vista do seu objetivo torna-se uma forma de caracterizá-lo a partir da sua conquista. Todavia, dizer que o objetivo da ciência é descrever o mundo não reflete no sucesso das práticas científicas, porque nem sempre a ciência pode ser efetiva em descrever a realidade do mundo. Sendo assim, normalmente os realistas comprometem-se em termos de conquistas feitas através das teorias científicas.

Do ponto de vista metafísico (Zalta, 2001), o realismo científico compromete-se com a ideia de que o mundo em si não depende da existência das nossas mentes, ou seja, os fenômenos ocorrem e os objetos existem mesmo que não haja um estudo científico sobre eles. Com relação aos fenômenos não-observáveis, é entendido que eles existam mesmo que não tivéssemos a capacidade de medi-los.

Os céticos, chamados de anti-realistas defendem que as teorias que fazem uso de elementos não-observáveis são incapazes de construir conhecimento. O anti-realismo é uma posição epistemológica primeiramente articulada pelo filósofo britânico Michael Dummett (1925-2011). O termo é usado para descrever qualquer posição envolvendo ou a negação da realidade objetiva de entidades de um certo tipo ou a insistência que devemos ser agnósticos sobre sua existência real. Ele bebe da corrente filosófica idealista e mantêm um ceticismo sobre o mundo físico, argumentando que nada existe fora da mente, ou que não teríamos acesso a uma realidade independente da mente, mesmo que exista.

Os realistas em contrapartida utilizam o argumento de que as melhores teorias são provavelmente verdadeiras mesmo que façam uso de elementos não-observáveis. Se uma afirmação teórica feita sobre elementos inobserváveis oferece uma explicação para um certo fenômeno, com base nisso é feita uma previsão. Este é um modo pela qual pode-se testar a validade da teoria

Se a previsão ocorrer a teoria é dita errada em duas situações: se o acontecimento da previsão foi apenas sorte, ou então, os eventos preditos pela teoria ocorreram porque a teoria está correta. Assim, é muito mais coerente concluir que os eventos preditos pela teoria ocorreram porque a ela é correta, do que acreditar que foi por mera sorte (pois seria necessário um conjunto de coincidências para que ocorresse, o que torna-a improvável). Isto ficou conhecimento como o “argumento do milagre”.

Considerando que o sucesso das teorias está relacionado a aspectos que são verdadeiros, então, seria importante encontrá-los. Por isso a seletividade (Zalta, 2011) é uma estratégia para identificar especificamente os aspectos de teorias científicas que atendem os compromissos (metafísicos, semântico e epistemológicos) que são requeridos pelo realismo científico, ao invés de considerar que qualquer teoria descreve verdadeiramente o mundo real.

São apresentadas as três posições que defendem a seletividade e sustentam as ideias do realismo científico: explicacionista quando os elementos não-observáveis são indispensáveis para explicar por que essas teorias são bem sucedidas, podemos considerá-los como aspectos importantes da teoria (por exemplo: genes no caso da hereditariedade). Se uma teoria que tem compromissos realistas postula a existência de um elementos não-visíveis e uma previsão inesperada é realizada tendo como explicação a presença deste elemento, isto significa que o inobservável é um aspecto importante da teoria (Zalta, 2011). No realismo de entidade, defende-se que a realidade de elementos não-inobserváveis (Howard, 2012) pode ser fundamentada na prática experimental, ou seja, é possível construir instrumentos que detectam diretamente ou indiretamente a presença da entidade; e o realismo estrutural, que postula que devemos ser realistas, não em conexão com as descrições das naturezas de objetos (Zalta, 2007) encontrados em nossas melhores teorias, mas sim no que diz respeito à sua estrutura. Ainda não convergiram sobre o que seria a estrutura, mas do ponto de vista epistêmico, podemos nos referir a estrutura como sendo descrições matemáticas da teoria científica.

Argumentos para o realismo científico muitas vezes apelam ao raciocínio abdutivo ou a “inferência para a melhor explicação” (Lipton, 2004), como é o caso do argumento do milagre.

Os desdobramentos e discussões.

Toda esta discussão tem desdobramentos mais profundos. Por exemplo, a parte observável para os anti-realistas são aquelas que podem ser percebidas diretamente pelo homem e são aceitas sem problema algum. No entanto, a parte não-observável do mundo não faz diferença se o que a ciência diz é verdadeiro ou não. Geralmente, os anti-realistas afirmam que as entidades não-observáveis são meramente ficções úteis, introduzidas pelos pesquisadores a fim de ajudá-los a prever fenômenos observáveis. Na prática, temos dois exemplos bons: a paleontologia, que é o estudo dos fósseis e os átomos.

Os fósseis, naturalmente são facilmente observáveis, possíveis de serem medidos em suas proporções de estruturas anatômicas e inferir relações filogenéticas. Na paleontologia realistas e anti-realistas estão de acordo com o conhecimento obtido uma vez que os fósseis são observáveis. Neste caso, tanto a concepção realista de que a ciência busca descrever verdadeiramente o mundo e a tese anti-realista de que a ciência visa descrever verdadeiramente o mundo observável estão alinhadas.

Porém, outros ramos da ciência (como a física ou a química) muitas vezes fazem afirmações sobre a porção inobservável da realidade. A física, por exemplo, avançam com teorias sobre átomos, elétrons, quarks e outras partículas sub-atômicas, nenhuma das quais estão ao alcance das faculdades de observação dos seres humanos no sentido normal da palavra. Na física, realistas e anti-realistas entram em desacordo. Para exemplificar o conflito consideremos a teoria cinética dos gases que diz que: um certo volume de um gás contém uma grande quantidade de entidades muito pequenas em movimento, as moléculas.

Moléculas não são observáveis, porém, deduzimos a partir da teoria cinética várias conseqüências sobre o comportamento observável dos gases. Por exemplo, em um eventual aquecimento de uma amostra de gás ocorrerá a expansão do volume da amostra (se a pressão permanecer constante), o que pode ser verificado experimentalmente.

Para os anti-realistas, a única função de se apresentar elementos não observáveis na teoria cinética é deduzir conseqüências desse tipo. Assim, se os gases contêm ou não moléculas em movimento é indiferente pois o objetivo da teoria cinética não é descrever os fatos ocultos, mas apenas fornecer uma ferramenta útil para prever observações. Esta qualidade ferramental característica do anti-realismo é o “instrumentalismo”. No instrumentalismo considera-se que as teorias científicas são ferramentas criadas para nos ajudar a prever fenômenos observacionais e não uma descrição da natureza subjacente da realidade.

No entanto, mesmo estes elementos inobserváveis podem ser empiricamente testados. Mesmo o uso de genes para estabelecer relações filogenéticas entre espécies fósseis não seria aceito por se tratar de elementos não observáveis, mas a genética e a biológica molecular permite várias atividades práticas como o acompanhamento genético de um casal sobre a possibilidade de ter filhos. No campo da tecnologia, o laser baseia-se na teoria sobre o que acontece quando elétrons de um átomo passam para diferentes estados energéticos: de estados altos para mais baixos. E os lasers funcionam muito bem, permite clinicamente corrigir a visão ou atacar inimigos com mísseis. A teoria que sustenta a tecnologia laser ou o conhecimento adquirido na genética são empiricamente muito bem-sucedidos.

Uma vez que o debate entre as duas correntes busca compreender o objetivo da ciência, poderíamos pensar que tal conflito seria solucionado simplesmente perguntando aos próprios cientistas qual o objetivo da ciência (e não os objetivos de cada cientista). Ao invés disso, a filosofia da ciência discutindo realismo e anti-realismo está tentando dar conta do sentido ao que os cientistas dizem e fazem no âmbito geral do empreendimento científico.

Os realistas defendem que deve-se interpretar todas as teorias científicas como tentativas de descrições da realidade; os anti-realistas defendem que essa interpretação é arriscada e inapropriada para as teorias que fazem uso de elementos e processos não observáveis. Assim, embora possa ser interessante saber as opiniões dos cientistas sobre o debate, a questão é, em última instância, filosófica.

Na perspectiva anti-realista os limites ao conhecimento científico são estabelecidos pelas nossas faculdades de observação. Desta forma, a ciência poderia nos fornecer conhecimento somente os fósseis, mas não dos átomos e dos elementos sub-atômicos. Em certa medida o argumento faz sentido, pois ninguém seriamente duvidaria da existência de fósseis, mas o mesmo não ser verdadeiro para átomos e elétrons nunca vistos.

No entanto, defender esta posição tem outras implicações. Por exemplo, como e por que os cientistas conseguem avançar com teorias usando elementos inobserváveis se o conhecimento científico é limitado ao que pode ser observado? Este é o caso do laser citado acima.

A atribuição que os anti-realistas dão a esses elementos é que são “fictícios” e úteis (alegorias), pois ajuda a prever o comportamento das coisas no mundo observável, porém não são descrições da natureza da realidade. Os realistas discordam da ideia de que o conhecimento científico seja limitado por nossas faculdades de observação. Em sua concepção, acreditam que já temos conhecimento substancial da realidade do não observável. Para os realistas, há muitos motivos para aceitar que as teorias científicas são descrições verdadeiras, e que as melhores teorias científicas são aquelas que fazem uso de elementos inobserváveis.

Em um exemplo prático temos a teoria atômica, que diz que toda a matéria é constituída de átomos. Esta teoria é capaz de explicar uma ampla gama de fatos sobre o mundo e de acordo com os realistas, estes são bons motivos para pressupor que a teoria é verdadeira. Podemos cogitar que a teoria poderia ser falseada a respeito dos aparentes indícios a seu favor, contudo, isso poderia acontecer com qualquer teoria. Assim, para os realistas, o fato de átomos não serem observáveis não é um motivo para interpretar a teoria atômica como algo diferente de uma tentativa de descrição da realidade, pois se assim fosse a realidade ficaria restrita somente ao observável e ignoraria o aspecto micro que compõem o todo.

A corrente anti-realista pode ser entendida em duas formas nas quais se apresenta. A primeira indica que o discurso sobre os elementos não-observáveis não pode ser entendido de modo literalmente. Assim, quando um cientista avança com uma teoria que envolve elétrons, por exemplo, não se deve pensar que a ciência ou o cientista esta afirmando ou confirmando a existência de elementos chamados “elétrons”, mas que tal elemento é metafórico. Esta leitura anti-realista foi comum na primeira metade do século XX, embora atualmente poucas pessoas a defendam. Foi influenciada por uma doutrina filosófica da linguagem, na qual não é possível fazer afirmações dotadas de significado sobre coisas que em princípio não podem ser observadas.

O outro modo de entender o anti-realismo é de acordo com o que deve ser aceito como elementos inobserváveis literalmente: se uma teoria diz que os elétrons têm carga negativa, será verdadeira se existirem elétrons e tiverem carga negativa, mas falsa do contrário. Mas para os anti-realistas jamais saberemos a verdade.

Para os realistas o sucesso da ciência em descrever a realidade é o sucesso empírico das teorias que postulam elementos não-observáveis. Estes são a base de um dos argumentos mais fortes a favor do realismo científico, o argumento do milagre, citado acima. No argumento do milagre, seria uma coincidência muito grande se uma teoria que descreve sobre átomos e elétrons fizesse previsões exatas sobre o mundo observável, a menos que os elétrons e os átomos existam realmente.

Assim, se átomos e elétrons não existem – sendo meras ficções úteis – o que explicaria o ajuste perfeito da teoria com os dados observacionais? Da mesma forma, como é possível explicar os avanços tecnológicos que as teorias científicas têm protagonizado sem aceitar que elas são verdadeiras?

Olhando por esta perspectiva, assumir uma posição anti-realista é como acreditar em milagres.

Claramente é melhor não acreditar em milagres quando uma alternativa não-milagrosa se faz presente, e nesta perspectiva devemos ser realistas e não anti-realistas, afinal, é um argumento plausível: uma inferência a favor da melhor explicação. No entanto, a corrente anti-realista responde ao argumento do milagre de diversas modos, especialmente olhando para fatos ocorridos durante a história da ciência.

Historicamente, há muitos casos em que teorias foram creditadas como verdadeiras, que foram empiricamente muito bem-sucedidas em seu tempo, mas atualmente se mostraram falsas. O filósofo da ciência Larry Laudan elenca uma lista de mais de trinta destas teorias diferentes épocas e ramos da ciência. A teoria do flogisto e combustão é um exemplo disto, sendo aceita durante muito tempo. Até o final do século XVIII, sustentava-se que qualquer objeto quando entrava em combustão liberava na atmosfera uma substância chamada “flogisto”. A química atual nos mostra que esta concepção está errada. O flogisto não existe, o que faz a combustão ocorrer é a presença do oxigênio presente no ar.

A teoria do flogisto era empiricamente bastante bem-sucedida e explicava razoavelmente bem os dados observados no momento histórico em que foi vigente. Exemplos como este sugerem que o argumento do milagre a favor da corrente do realismo científico é um tanto precoce. Fica então difícil saber exatamente quando a ciência alcança plenamente o fato tal como ele é.

Os defensores do realismo científico consideram que o sucesso empírico das teorias científicas atuais fornece um indício razoavelmente forte a respeito da sua verdade. Todavia, a história da ciência mostra que com freqüência as teorias empiricamente bem-sucedidas se revelaram falsas. Assim, a corrente anti-realista considera racional perante a teoria atômica uma posição de agnosticismo, ou seja, que pode ser verdadeira, ou não.

Para os anti-realistas simplesmente não sabemos quando a ciência alcançou a explicação final de um fenômeno porque historicamente houve erros diante de teorias ditas como fortemente consolidadas.

Contudo, esse contra-argumento anti-realista ao argumento realista do milagre não é totalmente decisivo. Alguns realistas responderam-no modificando levemente o argumento: o sucesso empírico de uma teoria é indício de que o que uma teoria diz sobre o mundo inobservável é aproximadamente verdadeiro, ao invés de precisamente verdadeiro. Essa afirmação mais “humilde” é menos vulnerável a contra-exemplos da história da ciência e vem carregada da constante auto-correção que caracteriza a ciência via substituição de paradigmas.

Tal posição permite o realista assumir que as teorias de hoje podem não estar corretas em todos os detalhes, mas ainda sustentar que a ciência está no caminho para a melhor descrição de um fenômeno natural.

Alguns realistas defendem que o sucesso empírico não é só uma questão de adequação dos dados observacionais conhecidos, mas principalmente pela competência que oferecem em prever novos fenômenos observacionais previamente desconhecidos. A vantagem deste argumento é ser menos fácil encontrar exemplos históricos de teorias empiricamente bem-sucedidas que posteriormente se mostraram falsas.

Outro elemento central no debate entre o realismo científico e o anti-realismo é a distinção entre coisas que são observáveis e coisas que não o são. Geralmente discutimos o que é e o que não é observável sem fazer a distinção entre um e outro. Fósseis, árvores e rochas são observáveis, mas átomos e os elétrons não. De fato, esta distinção é filosoficamente deficiente e um dos principais argumentos a favor do realismo científico diz que não é possível distinguir o observável/inobservável de modo objetivo.

A coerência dos argumentos da corrente anti-realista depende fundamentalmente da clara distinção entre os dois termos. Por exemplo, é preciso distinguir à relação entre a observação e a detecção. Obviamente, elétrons não são observáveis no sentido comum, contudo a sua presença pode ser detectada de modo alternativo, usando aparelhos como o detector de partículas. Um detector de partículas simples consiste em uma câmara de nuvens e um recipiente fechado cheio de ar e saturado com vapor de água. As partículas carregadas com elétrons fluem através da câmara e acabam colidindo com os átomos neutros no ar, convertendo-os em íons. O vapor de água se condensa em volta desses íons formando gotículas que podem ser vistas a olho nu. Assim, é possível seguir o percurso do elétron pela câmara acompanhando as trilhas dessas gotículas.

Há uma grande discussão filosófica a respeito disto em função de saber se é uma forma de observação ou não do elétron. Muitos filósofos dizem que não é uma forma de observação porque as câmaras de nuvens permitem-nos apenas detectar elétrons, e não observá-los diretamente. Tal como os aviões a jato que podem ser detectados pelo rastro de vapor no ar não nem sempre vemos a aeronave, há apenas um rastro sendo produzido.

A mesma discussão invade a biologia quanto a capacidade que temos de observar microrganismos com um microscópio de alta resolução ou se podemos apenas detectar a sua presença da maneira como um físico é capaz de detectar a presença de elétrons em uma câmara de nuvens. Ao visualizarmos um Paramecium sp em um microscópio estamos detectando-o ou observando-o?

Paramecium visto de um microscópio

Quando constatamos a presença de algo (como um paramecio ou um rastro de elétrons) com a ajuda de instrumentos científicos, este algo é observável ou inobservável? Qual é o limite entre o observável e o meramente detectável?

Bas van Fraassen (1941), um anti-realista contemporâneo defende que termos como “observável” é um conceito vago, onde a fronteira entre observável e inobservável é difícil de se estabelecer. Em uma analogia podemos comparar com a calvice.

A queda de cabelo ocorre em graus e muitas vezes é difícil dizer se uma pessoa é calva ou não. No entanto, ninguém defende que tal distinção entre homens calvos e cabeludos é ilusória e sem importância só porque o termo “calvo” é vago. Certamente, se tentarmos traçar uma linha divisora precisa entre homens calvos e cabeludos, ela será arbitraria. No entanto, há casos nítidos de homens que são calvos e casos nítidos de homens que não o são. Assim, a impossibilidade de se traçar uma linha divisora precisa não importa.

Outro argumento a favor do anti-realismo é que os dados finais que estruturam as teorias científicas respondem a um caráter observacional. Na teoria cinética uma amostra de gás expandirá quando aquecida (caso a pressão permaneça constante), mas esta afirmação pode ser testada diretamente observando-se os registros nas partes relevantes da aparelhagem em um laboratório.

Os anti-realistas argumentam então que os dados observacionais “sub-determinam” as teorias que os cientistas desenvolvem a partir dessa base observacional. Isto significa que os dados podem ser explicados por várias teorias mutuamente incompatíveis. Para o caso da teoria cinética, os anti-realistas poderiam dizer que uma explicação possível para os dados observados é que os gases contêm um número grande de moléculas em movimento, como afirma a teoria cinética. Assim, poderiam defender, por exemplo, que há também outras explicações possíveis incompatíveis com a teoria cinética. Assim, de acordo com os anti-realistas, as teorias científicas que postulam elementos não-observáveis estão subdeterminadas pelos dados observáveis e haverá sempre várias teorias rivais que podem dar conta desses dados igualmente bem.

Neste sentido, o argumento da sub-determinação apoia o anti-realismo pois, se as teorias estão sempre sub-determinadas pelos dados observacionais, como podemos aceitar que uma determinada teoria é verdadeira?

Vejamos um exemplo: imagine que um cientista defenda uma determinada teoria que envolve elementos não-observáveis e baseando-se no fato de que ele pode explicar uma ampla gama de dados observacionais. Um filósofo anti-realista pode argumentar que os dados podem ser explicados por várias teorias alternativas. Se este posicionamento anti-realista estiver certo, a confiança do cientista na sua teoria é imprópria. Assim, que motivos e critérios um cientista usou para escolher a teoria que defende, ao invés de escolher outras teorias alternativas?

A sub-determinação, então, leva o anti-realista à concluir que um posicionamento agnóstico é a postura mais correta a ser adotada perante às afirmações sobre a parte não-observável da realidade.

Todavia, outro questionamento feito é sobre a veracidade da afirmação de que um dado conjunto de dados observacionais possa sempre ser explicado por muitas teorias diferentes. Os realistas respondem ao argumento da sub-determinação insistindo que tal ideia é verdadeira apenas em um sentido trivial pois a princípio, haverá sempre mais do que uma explicação possível de um dado conjunto de observações. Contudo, nem todas as possíveis explicações são tão boas quanto outras a tal ponto de dar conta de explicar um fenômeno.

O fato de duas teorias darem conta dos dados observacionais não significa que não há como escolher entre elas. Uma das teorias pode ser mais simples que a outra, pode postular um número menor de causas ocultas (princípio da parcimônia e obedecendo a navalha de Ockham) ou pode explicar os dados de um modo intuitivamente mais plausível (como, por exemplo, o sistema heliocêntrico em relação ao ptolomaico) e assim por diante.

Se respeitarmos os critérios para a escolha teórica além da compatibilidade com os dados observacionais, o problema da sub-determinação é diluído. Não são todas as explicações possíveis dos nossos dados observacionais que são tão boas umas quanto as outras.

Ainda que os dados e que a teoria cinética explique melhor e que haja teorias alternativas, não significa que essas teorias alternativas possam explicar os fenômenos tão bem quanto a teoria cinética.

Há ainda outra crítica realista a este argumento: de que os anti-realistas aplicam seletivamente o argumento da sub-determinação. Se o argumento for aplicado consistentemente, excluirá não só o conhecimento do mundo inobservável, mas também o conhecimento de parte considerável do mundo observável, dizem os realistas.

Como a corrente anti-realista afirma que a parte não-observável da realidade se encontra além dos limites do conhecimento científico, aceitam que podemos ter conhecimento somente de objetos e eventos observáveis, embora inobservados. Mas as teorias sobre objetos e eventos inobservados são tão subdeterminadas pelos nossos dados quanto as teorias sobre os inobserváveis. Por exemplo, se um cientista desenvolver a hipótese de que um meteorito atingiu a Lua em 1987 ele cita várias amostras de dados observacionais para apoiar essa hipótese: fotos da Lua tiradas por satélite mostram uma grande cratera que não existia antes de 1987. Contudo, esses dados podem em princípio ser explicados por muitas hipóteses alternativas: talvez uma erupção vulcânica tenha causado a cratera, um terremoto lunar, ou talvez a câmera do satélite que tirou as fotos estivesse com defeito e não haja qualquer cratera. Portanto, a hipótese do cientista está sub-determinada pelos dados, mesmo que o evento seja perfeitamente observável. Se usarmos este argumento da sub-determinação consistentemente, só poderemos em última obter conhecimento de eventos que já foram efetivamente observados.

Cientificamente falando, tal conclusão é demasiadamente implausível até mesmo para os filósofos da ciência, afinal, muito do que os cientistas nos dizem parte de coisas que não foram observadas, desde Eras Glaciais, dinossauros, deriva continental, genes, ciclo de Krebs e assim por diante. Afirmar que todo conhecimento advindo da porção não-observável é impossível é dizer que muito do que passa por conhecimento científico não é realmente conhecimento. De fato, neste sentido, o argumento da sub-determinação é simplesmente uma versão sofisticada do problema da indução. Ainda que seja um problema da indução renovado isto não significa que ele deva ser ignorado.

O debate entre as duas correntes persiste com pontuações arriscadas e interessantes em ambas as frentes.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, realismo, Anti-realismo, Filosofia da Ciência, Observação, Experimento.

 

Referências

Howard, S. (2012). «Reference, Success and Entity Realism». Journal of Philosophy & Science: 31-42
Lipton, P. (2004). Inference to the best explanation, 2nd edition. London: Routledge.
Okasha, S. Realismo e Anti-Realismo.
Philosophy of Science: A Very Short Introduction (Oxford: Oxford University Press, 2002, Cap. 4, pp. 58-76)
Popper, K. (1980). Conjecturas e Refutações. Brasília: Editora da Unb. p. 129
Zalta, E. N (ed.). “Scientific Realism”. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. 2011
Zalta, E. N (ed).  “Structural Realism”. The Stanford Encyclopedia of Philosophy.
Zalta, E. N (ed). “Challenges to Metaphysical Realism”. The Stanford Encyclopedia of Philosophy. 2001

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