2.500 ANOS DE AVANÇOS CIENTÍFICOS E NÃO SAÍMOS DOS PRÉ-SOCRÁTICOS.

Caracteriza-se como filósofos pré-socráticos um grupo de pensadores que contribuíram com produção de conhecimento na Grécia Antiga por volta do século VI a.c até os trabalhos de Sócrates. No entanto, alguns filósofos pré-socráticos são contemporâneos e até mesmo posteriores a Sócrates. Tal divisão se dá não necessariamente por questões cronológicas, mas pela linha de pensamento que os pensadores seguiam. A partir de Sócrates, a filosofia da uma guinada em seu curso de direção a ética e a política.

A filosofia começa primordialmente com Tales de Mileto (623 a.c – 558 a.c), a quem o próprio Aristóteles (384 a.c – 322 a.c) considerou o primeiro filósofo. Aristóteles foi discípulo de Platão, e este discípulo de Sócrates. Os filósofos pré-socráticos, como Tales, foram os responsáveis pela primeira linha de pensamento que afastou a explicação da natureza da visão mítica de mundo. Até então, a explicação sobre a natureza (chamada de physis) e seus fenômenos repousava sobre causas sobrenaturais, oriundas dos deuses, heróis e outros elementos alegóricos. O objetivo destes filósofos e sua corrente de pensamento era compreender o Cosmo – ou a physis – a partir dos elementos que a própria natureza fornecia – descartando a necessidade de recorrer a explicações sobrenaturais.

Assim, a filosofia pré-socrática foi a responsável pelo surgimento não apenas da filosofia tal como a conhecemos hoje, mas impulsionou uma linha de pensamento que fundou as ciências naturais a partir do estudo e observação da physis.

A filosofia pré-socratica se consolidou tentando compreender o Cosmos e sua origem. Para compreender a physis estes filósofos buscavam a arche: elemento, princípio, substância de tudo que compõem tudo que existia. Este elemento deveria ser imutável e explicar toda a mudança que ocorria na physis. Diferentes filósofos cogitaram diferentes archés cumprindo este papel. Tales, por exemplo, acreditava que o elemento base da physis era a água, já Anaximandro (610 a.c – 546 a.c) desenvolveu o conceito de ápeiron (o ilimitado e indefinido) como arché (Spinelli, 2003).

Para os filósofos pré-socraticos, tudo que existia era physis (não havia o lado de fora da natureza) e esta, tem suas propriedades estabelecidas pela composição ou dissolução da arché. A maior parte do conhecimento que hoje temos acerca da filosofia pré-socrática é derivada dos trabalhos de Platão, Aristóteles e alguns historiadores gregos. Estes tiveram acesso as obras ou fragmentos de obras de filósofos desta corrente.

Havia diversas escolas de pensamento filosófica espalhadas pela Grécia. Filósofos como Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes (585 a.c – 528 a.c) e Heráclito de Éfeso (535 a.c – 475 a.c) faziam parte da Escola Jônica, em Mileto. O principal campo de atuação da escola Jônica era pensar sobre physys.

Já Empédocles de Agrigento (495 a.c – 430 a.c), Anaxágoras de Clazômena (510 a.c – 428 a.c) faziam parte da Escola da Pluralidade, buscando diversas archés para explicar a physis. Nela, estava também a Escola Atomista composta por Leucipo e Demócrito de Abdera (460 a.c – 370 a.c).

Pitágoras (570 a.c – 495 a.c), Filolau (470 a.c – 385 a.c) e Árquitas (428 a.c – 347 a.c) constituiam a Escola Itálica, embora sejam dos mais importantes para o desenvolvimento da matemática grega, manifestavam ao mesmo tempo tendências místico-religiosas e científicas.

Arquelau (século V a.C.) e Diógenes de Apolônia (499 a.c – 428 a.c) pertenciam a Escola Eclética, escola que propunha a existência de várias archés para resolver as questões relativas ao movimento.

Xenófanes (570 a.c – 475 a.c), Parmênides de Eleia (530 a.c – 460 a.c), Zenão de Eleia (490 a.c – 430 a.c) e Melisso de Samos (470 a.c – 430 a.c) são considerados parte da Escola Eleática, cujo principal linha de pensamento defendia a imutabilidade e necessidade do Ser (InfoEscola).

Assim, as escolas Jônica, Itálica, Eleática, Atomística pensavam de modo distinto de acordo com o local e problemas discutidos por seus pensadores.

A Escola Jônica recebe este nome por se desenvolver na colônia grega Jônia, na Ásia Menor, local onde atualmente é a Turquia. Estes filósofos pensavam sobre a arché e chegavam a conclusões diferentes. Para Tales de Mileto, a arché seria a água. Ao visitar o Egito, Tales notou que os campos ficavam fecundos após serem inundados pelas cheias do rio Nilo. Tales então viu que a natureza é úmida, que os alimentos continham seiva e concluiu que o princípio elementar de tudo era a presença da água. Tales considerava a arché água em todos os seus estados físicos. Tudo, então, seria a alteração dos diferentes graus de presença deste elemento.

Tales atribuiu então, uma causa material como origem de todo o universo. Em vez de esperar que Demetra (a deusa da agricultura) fosse responsável pelo sucesso agrícola, Tales notou que a presença excessiva ou ausência da água é quem estabelecei a fertilidade do solo (Spinelli, 2003).

Como dito acima, para Anaximandro, a arché é representada pelo ápeiron, aquilo que é ilimitado e que possibilita a união e separação de corpos distintos. Anaximandro era da escola Jônica e argumentou contra a tese de Tales: o ar é frio, a água é úmida, o fogo é quente e essas características antagônicas entre si formam o elemento primordial da physis. Para ele a arché não poderia ser um dos elementos visíveis, mas sim um elemento neutro, presente em tudo, porém invisível.

Anaximandro foi um dos pré-socráticos que mais se diferenciou na sua concepção da arché por não a ver como um elemento determinado, material. Anaximandro considerava o infinito como o princípio das coisas, o Éter. Para ele o limitado não poderia ser a origem das coisas limitadas e, portanto, as coisas nascem do infinito através de um processo de separação dos contrários (seco-úmido, quente-frio etc) (Spinelli, 2003).

Para Anaxímenes de Mileto, não é o contrário que poderia gerar várias coisas. Discordando de seu mestre Anaximandro, ele colocou o ar como arché da physis. Para Anaxímenes o ar, melhor que qualquer outro elemento é bastante variável e é necessário a todos os seres vivos. A rarefação e condensação do ar formam o todo. Para ele, a alma era formada de ar, o fogo é ar rarefeito e quando ocorria a condensação, o ar se transforma em água. O alto grau de condensação do ar formaria a terra, e por fim as pedras. Anaxímenes destacou-se por ser o primeiro filósofo a fornecer uma ideia dinâmica que faz todas as coisas derivarem de um único princípio que variava (condensação e rarefação) (Spinelli, 2003).

De acordo com Heráclito, o elemento que representa a arché é análogo ao fogo. Apesar das diferenças filosóficas a respeito de qual seria o elemento que explicaria a physis, os filósofos da Escola Jônica pensavam o mundo como algo em movimento, a água que congela e evapora. Por exemplo, o ápeiron, que não pode ser determinado e não é estático, o ar que é nada palpável e o fogo que está sempre em movimento e transformando o que queima.

Isto levou Heráclito a pensar na physis como um estado de constante mudança – um ir e vir, um devir (Spinelli, 2002).

Heráclito atribuiu o fogo como princípio de todas as coisas porque, para ele, o fogo transforma-se em água, sendo que uma metade retorna ao céu como vapor e a outra metade transforma-se em terra. Sucessivamente, a terra transforma-se em água e a água em fogo. Heráclito era um mobilista e afirmava que todas as coisas estão em um constante estado de mudança – um fluxo perpétuo. Heráclito usa o fogo apenas como um símbolo de todo este devir. Para Heráclito, a realidade era dinâmica como o fogo, por esta razão, não se pode entrar no mesmo rio duas vezes. Ao entrar pela segunda vez o rio já não é mais o mesmo, e nós também não somos mais o mesmo, o espaço e o tempo já mudaram e isto caracteriza a physis – se apresentando sob o signo da constante mudança (Spinelli, 2003).

Heráclito tinha uma personalidade melancólica, não gostava de discutir política, manifestou desprezo pelos antigos poetas, era contra os filósofos de sua época e até contra a religião. Vivia no canto mais afastado da cidade, longe das pessoas e só lidava bem com crianças. Sua contribuição filosófica a respeito da mutabilidade da physis alcançou tantos os gregos quanto os romanos que discutiam sobre sua filosofia. Posteriormente, sua tese foi tema de debates entre cristãos e muçulmanos.

Heráclito nomeou o princípio organizador que governa o mundo de “logos”. O logos na filosofia heráclitica se apresenta como sinônimo de razão, alcançada a partir da reflexão a partir de evidências. De fato, as asserções de Heráclito quanto a arché que permeava a physis era justificada por ele a partir da razão em sua frase:

“Não escutem a mim e sim ao logos”.

Heraclito quis dizer com isto que não estava fazendo alegações vazias, mas que ele era um instrumento da razão. Ele ainda dizia que “da luta dos contrários é que nasce a harmonia” e que “tudo o que é fixo é ilusão”. Na filosofia heráclitica, das coisas surge a ideia de unidade, e da unidade, todas as coisas. As transformações que ocorriam na physis, ocorriam – segundo o filósofo – como consequências da tensão entre os opostos, da ação e reação. Para ele, o sol é novo a cada dia; cada dia é seguido da noite, e cada noite é seguida do dia; o caminho que leva é o caminho que traz; o ir é o vir; a água que sobe também cai, o calor que vem da lugar ao frio e este ao calor e assim era a natureza. Na filosofia heráclitica tudo flui e o universo muda e transforma-se infinitamente a cada instante (BrasilEscola).

Heráclito de Éfeso

Para a Escola Pluralista, os membros defendiam várias archés como princípios da physis. Seu maior representante foi Empédocles que argumentava que a natureza possuía quatro elementos básicos: a terra, o ar, o fogo e a água. Nesta escola, não é certo, portanto, afirmar que “tudo” muda, mas sim que nada se altera. Para Empédocles esses quatro elementos diferentes simplesmente se combinam e depois voltam a se separar para então se combinarem novamente. O que unia e desunia os quatro elementos eram dois princípios: o amor (philia) e o ódio (neikos). O amor agiria como força de atração e união, o ódio como força de dissolução e repulsão. Em quatro fases, existe a alternância dos dois.

Estabelece-se então um ciclo, com a tensão da convivência dessas forças motrizes. Os quatro elementos e os dois princípios seriam eternos e imutáveis, mas as substâncias formadas por eles teriam certa durabilidade. Neste pensamento, as verdades não seriam absolutas, como defendiam os membros da Escola Eleata, mas proporcionais à medida humana (Spinelli, 2002).

Na Escola Atomística, desenvolveu-se a ideia de que são vários os elementos que formam as coisas. A ideia de átomo (a = negação e tomos = divisão) quanto a algo indivisível foi desenvolvida por Leucipo de Mileto e depois trabalhada por Demócrito de Abdera e Epicuro de Samos (341 a.c – 270 a.c). Para Leucipo, o mundo é formado a partir do choque aleatório e imprevisível de infinitos átomos. Embora diversos destes filósofos tenham escrito mais sobre outros assuntos do que sobre a natureza das coisas – como é o caso de Demócrito, que escreveu sobre ética – é o questionamento sobre a estrutura elementar da physis os une neste período e nesta escola de pensamento.

Os atomistas seguiram a linha de pensamento de que tudo que realmente existia era constituído de átomos e de vazio (este último os espaços entre os átomos). Considera que nada pode surgir do nada, assim, os átomos eram eternos, imutáveis e indivisíveis. O que acontecia, era que eles eram irregulares e podiam ser combinados para dar origem aos corpos mais diversos. Por esta razão, Demócrito é considerado o mais lógico de todos os filósofos pré-socráticos. Convém acrescentar, claro que apesar do nome “átomo” (indivisível), sabemos atualmente que o átomo é constituído de porções sub-atômicas. (Spinelli, 2002).

Para o filósofo Anaxágoras de Clazomena, a physis era constituída por uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu – onde em tudo existia um pouco de tudo. Para ele em cada parte minúscule de qualquer objeto que existia havia a estrutura de todas as outras coisas da physis. Para ele, então, o todo está também na menor das partes. Anaxágoras chamou estas partículas de homeomerias – sementes invisíveis – que diferiam entre si nas qualidades. Todas as coisas resultariam da combinação das diferentes homeomerias (Spinelli, 2002).

Os filósofos da escola pluralista/atomista entravam em conflito com os filósofos da Escola Eleata, como Parmênides de Eléa que definiu que “o ser é, o não ser não é”. Neste sentido a contra-argumentação dos filósofos atomistas ajustou a ideia de átomo como representante do ser, e o não ser como a ausência do elemento atômico.

A Escola Eleática se desenvolveu na cidade de Eleia – sul da Itália. Dentre os principais filósofos estão Xenófanes de Cólofon, Parmênides e Zenão de Eleia. Xenófanes – não era de Eleia – se estabeleceu na cidade após levar uma vida andando de povoado em povoado.

A arché para Xenófanes é a terra, através dela há toda uma cosmologia. Sua filosofia tinha sua lógica, pois, afinal, tudo o que existe começa na terra e tudo volta para a terra, tanto animais quanto plantas (Spinelli, 2003). Ele argumentava que aqueles que acreditam que a água era o elemento que explicava a physis teriam de responder: porque o fundo do oceano era feito de terra?

Em sua filosofia, tudo saia da terra e tudo voltava à terra, inclusive a água.

A ideia principal ensinada por Xenófanes e posteriormente trabalhada por Parmênides é de unidade. Xenófanes pensava no Um (uno) a partir de uma linha de pensamento voltada à religião, dizendo que deus é o Um. Sendo ele uno, não foi feito, mas era eterno, perfeito absoluto e imutável.

Parmênides de Eléa

Em um de seus poemas, Parmênides discorre o as musas lhe disseram ao ve-las em uma carruagem puxada por corsas. A ele a verdade lhe foi revelada (alethéia). Se o logos para Heráclito significa a palavra (verdade) alcançada pela razão, na aletheia a palavra (ou verdade) é alcançada pela revelação. A verdade é o caminho do pensamento, já que na filosofia Parmenediana o ser é, o que existe é tudo aquilo que pode ser pensado. Dessa forma, o ser é e o não ser não é; portanto, o que não existe não pode ser pensado, nem dito, sendo este um caminho ilusório. Em uma linguagem mais moderna, Parmênides fala da matéria amorfa, de modo geral e que tudo o que existe é matéria, não podendo existir o vácuo nem o vazio.

Sendo a verdade algo exclusivo dos deuses, entre os mortais há somente a via da opinião (em grego Doxa), causada pelas ilusões dos nossos sentidos. Parmênides inaugura a lógica e uma ontologia: o estudo sobre o ser. Em Parmênides temos a uma lógica material, como se o discurso estivesse compactado à experiência física – razão pela qual afirma que “o ser é, o não ser não é”. Para ele, a unicidade do ser era fixa, e todo movimento ilusório – somente com Newton, no séc XVIII, a física conseguiu resolver esse problema.

A identidade entre ser, pensamento e linguagem de Parmênides acaba se assemelhando a tradição do Antigo Testamento onde deus traz a revelação (aletheia). Se para Parmênides o logos é também o pensar e o ser, então é a divindade que fala e que fornece a base para conhecermos é divina, então a verdade é a razão e o logos é divino (BrasilEscola).

Contra a ideia de movimento, Zenão desenvolveu argumentações que foram e são até hoje muito discutidas. Entre elas está a ideia de que uma flecha em voo sempre ocupa o seu espaço de flecha, logo a flecha está em repouso e todo movimento é uma ilusão. Sua argumentação era contra a mobilidade heráclitica (MundoEducação).

Para demonstrar aos seus adversários o que consistia a ideia de unidade Zenão inventou todos estes paradoxos (para = contra; doxa = opinião), que lhe permitia refutar as teses apresentadas como meras opiniões, caracterizadas por ele como confusões causadas pela percepção humana. E um de seus paradoxos, Zenão questiona “se nós modernos sabemos que existem infinitos números entre o número 1 e o número 2, então, como chegar ao 2? Onde e quando se sai efetivamente do domínio da unidade?”

Toda sua linha de pensamento mais tarde seria desenvolvida, junto com o princípio de identidade de Parmênides, na Lógica de Aristóteles. Com esse tipo de argumento, Zenão citava situações insustentáveis as teses dos defensores do mobilismo e defendia uma posição parmenediana. A importância desse modo de pensar a realidade prevaleceu durante milênios e só foi resolvida com a física newtoniana, que descreve o movimento em relação a um referencial. O legado de Zenão colaborou para a compreensão de que existem leis lógicas e universais na physis.

A Escola Itálica – também ao sul da Itália – tem como principal pensador representante desta escola Pitágoras, da ilha de Samos. Foi na península itálica, em Crotona, que desenvolveu suas ideias a respeito da physis. Pitagorias acreditava que os números eram a essência das coisas. Suas investigações da física e matemática eram misturadas com muitas características místicas. São atribuídos aos discípulos de Pitágoras, os pitagóricos, muitas descobertas matemáticas antigas. Foi Pitágoras o responsável pela criação da palavra filosofia (amigo do conhecimento) ao chamar a si mesmo de filósofo (amigo do saber).

Os pitagóricos interessavam-se pelo estudo das propriedades dos números. Para eles os números eram sinônimos de harmonia e de essência das coisas – a soma de pares e ímpares trazia noções de elementos opostas (limitado e ilimitado) respectivamente números pares e ímpares expressando as relações que se encontram em permanente processo de mutação: teriam chegado à concepção de que todas as coisas são números. Os pitagóricos se dispersam e passam a atuar amplamente no mundo helênico, levando a todos os setores da cultura o ideal de salvação do homem e da polis através da proporção e da medida. A medida que saiu de um local e entrou em outro há uma proporção. Um exemplo contemporâneo é que ao sair de uma sala e entrar numa cozinha, saímos na mesma propoção que entramos. Se 40% do corpo do indivíduo sai da sala, proporcionamente 40% do corpo entra na cozinha. Assim, os números e proporções representam a essência do pensamento pitagórico quanto a arché que compõem a physis (Spinelli, 2002).

Sabemos através do filósofo Aristóteles, que Pitágoras considerava a si mesmo um observador da natureza e que este seria, em sua visão, o propósito de sua existência. O pitagorismo influenciou o futuro platonismo, o cristianismo e muitas correntes místicas e esotéricas. A vida de Pitagoras foi muito relacionada a concepções místicas. Temistocléia foi a mestre de Pitágoras, e ela também era profetisa, filósofa e matemática. De fato, além do famoso Teorema de Pitágoras (que relaciona os lados do triângulo, provando que a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa – que possibilitou a descoberta dos números irracionais e o surgimento do conceito de raiz quadrada através da aplicação do teorema a um triangulo cujos catetos possuíam valor 1), Pitágoras também foi reconhecido em seu tempo por contribuições na esfera religiosa tendo praticado adivinhação e feito profecias, especialmente na cidade de Croton, aparecendo em Delfos, Esparta e Creta como sacerdote e guia religioso.

Muito do que é atribuído a Pitágoras pode ser, na verdade, produto dos trabalhos dos filósofos pitagóricos, descendentes intelectuais de Pitágoras e membros de sua escola. Fascinados pela matemática, iniciada por seu mestre, estes mantiveram a defesa dos princípios da matemática como archés da physis (InfoEscola).

Na filosofia-matemática pitagórica, os ciclos da natureza e as estações do ano também eram subordinadas à lei numérica. Pitágoras foi levado a pensar que a alma também obedece a esses ciclos, criando assim a teoria da reencarnação cíclica, da qual hoje a religião cristã espírita faz uso – e em algunas segmentos budistas também. Para Pitágoras, o pensamento alcança a realidade em sua estrutura matemática enquanto os sentidos alcançam o modo como esta estrutura aparece para nós.

Os filósofos pitagóricos foram os primeiros a cultivar a matemática e seus desdobramentos de modo sistemático, destacando que todos os fenômenos naturais são traduzíveis por relações numéricas e representáveis de modo matemático. Mesmo a música apresentava-se desta forma. Foi Pitágoras quem descobriu as 7 notas musicais e que elas obedeciam leis de harmonia matemática. Ele descobriu que o Cosmo, a physis e o humano se submetiam a essas leis – sendo cada número representante de uma qualidade, como justiça, amor, deus e assim por diante (BrasilEscola).

Conclusão

Após 2.500 anos, desde a origem dos pré-socráticos, a humanidade avançou muito em termos de conhecimento. Após os pré-socráticos tivemos o desenvolvimento da lógica com Aristóteles que foi muito importante para estruturar o método científico – especialmente a discussão entre indução e dedução. Tivemos a razão estruturando a democracia na Grécia por meio do diálogo (di = dois; logos = razão). A ciência como um método de produção de conhecimento se separou da filosofia e diversas teorias tidas como verdades foram substituídas por modelos empiricamente testáveis.

A química avançou em termos de conhecimento sobre a forma e a organização da matéria, deixando de lado os elementos místicos e esotéricos presentes desde a Idade Média pela alquímia; a física aprofundou-se no que diz respeito ao estudo dos corpos e forças que emergem no Universo em diferentes escalas; e a biologia consegue atualmente explicar muito bem a diversidade de formas de vida das espécies vivas e fósseis através da evolução biológica. Tivemos uma era de iluminação pela razão e educação científica que questinou a autoridade religiosa.

Vivemos atualmente a era quântica e da genômica. O homem chegou a locais onde jamais os filósofos pré-socraticos gregos, franceses, ingleses ou alemães imaginariam que chegaríamos. Mesmo os filósofos mais recentes jamais imaginaram onde chegaríamos e os que vislumbraram algo próximo questionaram a ciência e o potencial da tecnologia.

Hoje, estudamos o que ocorre no núcleo dos átomos e como a matéria se organiza. A física mostra que Leucipo e Demócrito acertam parcialmente em suas respectivas arches, mostrando que a estrutura da matéria se organiza segundo o modelo atômico e que o número de prótons é quem determina a qualidade deste átomo (elemento). A partir deste elemento a materia se organiza, re-organiza, interage e reage.

A física adentrou no átomo em busca do responsável pela consolidação da matéria e nosso nível mais profundo conhecido atualmente é o Boson de Higg: uma espécie de “cola” quântica que une partículas sub-atomicas (quarks) que formam prótons e neutros. Apesar de todo aprofundamento, ainda estamos buscando aquilo que os primeiros filósofos socráticos se perguntaram sobre a physis. Adentramos na matéria, e ela se assemelha a uma Matryoshkas – a famosa casa de bonecas russa.

A nossa relação com a natureza mudou, nossa tecnologia avançou, nossa compreensão acerca dos mistérios da matéria nos permitiu descobrir e vislumbrar eventos cósmicos e microscópicos inimagináveis, mas ainda não sabemos o nível mais básico da matéria que compõem o todo.

Todavia, esta jornada epistemológica iniciada há mais de 2.500 anos tem nos direcionado a modos de pensar além do comum. A filosofia pre-socrática surge com o questionamento do papel dos deuses no que diz respeito a physis. Ao determinar seu modus operandi, colocando a razão acima da palavra revelada (a aletheia) não só a filosofia é inaugurada, mas a base de toda ciência moderna: que busca na natureza algo que explique a si mesmo e não algum elemento externo que fuja do escopo da razão ou da constatação. A teoria do Big Bang mostra como o Cosmo pode ser estruturado por si mesmo, a teoria da evolução mostra como a vida esta toda conectada e pode se diversificar naturalmente. O que os filósofos buscam é entender como a physis cria a si mesmo e esta auto-suficiencia tem ficado cada vez mais evidente com o desenvolvimeto da ciência: o que é motivo de sobra para seguir com sua abordagem metodológica.

Apesar de 2.500 anos de jornada em busca de uma arché – que ainda estamos longe de encontrar – a maior conquista da humanidade foi um conhecimento jamais imaginado em toda a história da humanidade e o uso da razão como jamais ocorreu na história evolutiva da espécie humana.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Filosofia, Ciência, Pré-Socráticos, Physis, Natureza, Arché.

 

Referências

Spinelli, M. “A Noção de Archê no Contexto da Filosofia dos Pré-Socráticos”. In: Revista Hypnos, PUC/São Paulo, v. 07, n. 08, 2002, p. 72–92.
Spinelli, M. Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros mestres da filosofia e da ciência grega. 2ª ed. Porto Alegre: Edipucrs, 2003;

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