DARWINISMO SOCIAL – O USO INDEVIDO DAS IDEIAS DE DARWIN.

O termo darwinismo social é usado para se referir as diversas ideias que surgiram na segunda metade do século XIX e que tentaram aplicar uma leitura descontextualizada da seleção natural à sociedade humana. O termo surgiu na década de 1880, e ganhou ampla circulação após 1944 (Hodge & Gregory, 2003).

Fonte: IB-USP

O termo “Darwinismo social” foi usado pela primeira vez por Oscar Schmidt, da Universidade de Estrasburgo, em uma conferência científica e médica realizada em Munique em 1877. O ensaio de Schmidt apareceu pela primeira vez em inglês na revista “Popular Science” em março de 1879 seguido de um tratado anarquista publicado em Paris no ano de 1880, intitulado “Le darwinisme social” de Émile Gautier. No entanto, o uso do termo foi muito raro – pelo menos na língua inglesa (Hodgson, 2004) até que o historiador americano Richard Hofstadter publicou sua obra “Darwinismo Social no Pensamento Americano” (1944) durante a Segunda Guerra Mundial.

De forma bem objetiva, o darwinismo social pode se resumir em uma suposta “teoria” da evolução da sociedade. Tal ideia defendia a existência de sociedades superiores às outras e que, nessa condição, aquelas que se sobressaíssem física e intelectualmente deveriam se tornar dominantes, enquanto as outras – menos aptas – deixariam de existir porque não seriam capazes de acompanhar a linha evolutiva da sociedade.

Muitos estudiosos debatem até que ponto as várias ideologias darwinistas sociais refletem as ideias de Charles Darwin sobre as questões sociais e econômicas humanas. Darwin, em seus escritos têm passagens que podem ser interpretadas como opostas ao individualismo agressivo (Bowler, 2003).

O idealizador e popularizador do darwinismo social foi o filósofo, biólogo e antropólogo inglês Herbert Spencer (1820-1903) que publicou suas idéias evolucionistas lamarckianas sobre a sociedade antes de Darwin publicar sua obra “A Origem das Espécies” em 1859. Contudo, Spencer e Darwin promoveram suas próprias concepções de valores morais.

Herbert Spencer (1820-1903)

O grande equivoco do darwinismo social foi atribuir valores sociais a uma tese científica que explicava um fenômeno biológico, a diversidade de formas de vida. O fato da luta pela sobrevivência ocorrer na natureza selvagem não legitima absolutamente nada sobre a sua aplicação a um contexto social.

O fato de animais lutarem para sobreviver (e como efeito colateral os sobreviventes perpetuarem certas variedades) não indica que isto deva ocorrer ou ser aplicado em um contexto social: em especial, nas sociedades humanas onde somos competentes em nossa capacidade de compreender as consequências de nossos atos e de nos posicionarmos em relação ao próximo.

O homem não pode desconsiderar o fato de que somos natureza com atributos próprios, inclusive, que nos define como espécie (cultura, trabalho, história e etc). O que o darwinismo social fez foi desviar as ideias de Darwin de seu curso original conforme foi concebida a tese – explicar fenômenos naturais –  para forçar a validação de um discurso ideológico de orientação liberal que tentava legitimar a ideia de que a eliminação dos mais fracos, ou, que seria eticamente válida a eliminação da desigualdade socioeconômica e miséria em termos evolutivos a partir da eliminação dos “mais fracos”.

Herbert Spencer apoiou o liberalismo econômico (laissez-faire) com base em seu apoio a tese lamarckiana de que a luta pela sobrevivência estimulou um auto-aperfeiçoamento que poderia ser herdado (Bowler, 2003).

Spencer descreveu seu primeiro esquema evolucionário geral sobre a sociedade humana em seu livro “Estática Social” (1851), na qual sugere que a evolução social é considerada um processo de crescente de “individualização”. Ele via as sociedades humanas evoluindo por meio da crescente divisão do trabalho de hordas indiferenciadas em civilizações complexas. Spencer acreditava que a classificação sociológica fundamental era entre sociedades militares, nas quais a cooperação era garantida pela força, e sociedades industriais nas quais a cooperação era voluntária e espontânea.

Além disto, a evolução não era a única concepção biológica que Spencer aplicou em suas teorias sociológicas. Ele também realizou uma abordagem comparativa entre organismos animais e sociedades humanas. Em ambos, ele supôs análogos para um sistema regulador: o sistema nervoso central nos organismos e o governo nas sociedades; um sistema de sustentação (alimentação em um caso, indústria no outro) e um sistema de distribuição (veias e artérias em um, estradas e telégrafos no outro).

No pensamento darwinista social de Spencer a diferença entre um animal e um organismo social seria que: enquanto no primeiro há uma consciência relacionada ao todo, no segundo existe apenas em cada indivíduo. Assim sendo, a sociedade existia para o benefício de seus membros e não para o benefício coletivo. A partir desta lógica, Spencer justificava o liberalismo clássico tentado validar biologicamente pressupostos sociológicos (Acton – Britannica, 2018).

Esse individualismo de forma extremada é a chave para todo o trabalho de Spencer. Seu contraste entre sociedades militares e industriais é traçado entre o absolutismo visto como ruim, e o individualismo que é visto como algo civilizado e bom – reflexo do pensamento eurocêntrico e imperialista de sua época. Spencer acreditava que na sociedade industrial a ordem seria alcançada sem que seja planejada por alguém, sendo assim, delicadamente ajustada às necessidades individuais de todas as partes. Em seu livro “O Indivíduo Contra o Estado” (1884), ele escreveu que os conservadores da Inglaterra geralmente favorecem aos militares e liberais uma ordem social industrial, mas que os liberais da segunda metade do século XIX, com sua legislação sobre horas de trabalho, licenciamento de bebidas alcoólicas, saneamento, educação, e assim por diante, estavam desenvolvendo um “Novo Toryismo” e preparando o caminho para uma “escravidão vindoura”. De acordo com Spencer:

“a função do liberalismo no passado era a de colocar um limite aos poderes dos reis. A função do verdadeiro liberalismo no futuro será a de colocar um limite aos poderes dos parlamentos”.

No entanto, a visão de Spencer de tal legislação de melhoria como uma ajuda nociva para o “inapto” e um impedimento para o desenvolvimento positivo da sociedade através do sucesso de seus membros mais talentosos foi gradualmente desacreditada à medida que a miséria dos pobres sob o capitalismo industrial se tornou mais amplamente conhecida.

Na segunda metade do século XX, o interesse pelo darwinismo social de Spencer e sua teoria dos direitos naturais foi revivido por liberais e pensadores que pensavam como ele, por exemplo, o filósofo americano Robert Nozick, que via nele a base de um argumento moral contra o florescente estado de bem-estar do pós-guerra (Acton – Britannica, 2018).

A estratificação de classes foi justificada com base em desigualdades entre indivíduos, pois o controle da propriedade era um elemento determinante dos atributos morais superiores. Assim, na visão do darwinismo social as tentativas de reformar a sociedade através da intervenção estatal – ou outros meios – era uma interferência em processos naturais; a competição irrestrita e a defesa do status quo estavam de acordo com a seleção biológica na visão darwinista social.

Os pobres eram os “inaptos” e não deveriam ser ajudados na luta pela sobrevivência devido os aspectos individuais extremos. Neste sentido, a riqueza era então, um sinal de sucesso. Desta forma, do ponto de vista social, o darwinismo social se tonrou uma forma de racionalização filosófica para os imperialistas, colonialistas supremacistas e racistas, políticas de sustentação da crença na superioridade cultural e biológica anglo-saxônica ou ariana (Encyclopaedia Britannica).

O trabalho de Spencer também serviu como molde para a renovação de interesse pelo trabalho de Malthus. Embora o trabalho de Malthus não se qualifique como darwinismo social, sua obra de 1798 “Um Ensaio sobre o Princípio da População”, foi incrivelmente popular e amplamente lido pelos darwinistas sociais. Em sua obra, o autor argumenta que com uma população crescente normalmente superaria sua oferta de alimentos, isso resultaria na queda dos mais fracos e uma catástrofe malthusiana.

Os aspectos mais simples do darwinismo social seguiram as idéias malthusianas de que os humanos, especialmente os homens, exigem competição em suas vidas para sobreviver no futuro. Além disso, os pobres deveriam ter que se sustentar e não receber nenhuma ajuda. No entanto, em meio a esse clima, a maioria dos darwinistas sociais do início do século XX na verdade apoiava melhores condições de trabalho e salários. Tais medidas dariam aos pobres uma melhor chance de se sustentar, mas ainda distinguiriam aqueles que são capazes de obter sucesso daqueles que são pobres por preguiça, fraqueza ou inferioridade.

Para o filosofo da biologia Michael Ruse, Darwin leu o famoso “Ensaio sobre o Princípio da População”, em 1838, quatro anos após a morte de Malthus. O próprio Malthus antecipou os darwinistas sociais ao sugerir que a caridade poderia exacerbar os problemas sociais.

Pensadores iluministas, como Georg Wilhelm Hegel, frequentemente argumentavam que as sociedades progrediam por estágios de crescente desenvolvimento e alguns enfatizavam o conflito como uma característica inerente da vida social. O retrato do estado da natureza do século XVII por Thomas Hobbes ocorre em paralelo com a competição por recursos naturais descrita por Darwin. Contudo, a ideia base d darwinismo social é distinta de outras teorias de mudança social devido a maneira como ele extrai as idéias de Darwin do campo da biologia e aplica nos estudos sociais (Paul, 2006).

Darwin, diferentemente de Hobbes, acreditava que essa luta pelos recursos naturais permitia que indivíduos de uma determinada espécie com certos traços físicos e mentais tivessem mais sucesso que outros, e que esses traços se acumulavam na população ao longo do tempo, o que sob certas condições poderia levar os descendentes a ser tão diferentes que eles seriam definidos como uma nova espécie. Contudo, Darwin sentiu que ” instintos sociais ” como “simpatia” e ” sentimentos morais ” também evoluíram através da seleção natural, e que estes resultaram no fortalecimento das sociedades em que eles ocorreram.

Outra dessas interpretações sociais das visões biológicas de Darwin ficou mais tarde conhecida como eugenia e foi apresentada pelo primo de Darwin, Francis Galton, em 1865 e 1869.

Galton argumentou que, assim como traços físicos eram claramente herdados entre gerações de pessoas, o mesmo poderia ser dito quanto as características mentais. Para Francis Galton, a moral social precisava mudar de modo que a hereditariedade fosse uma decisão consciente, com a finalidade de evitar tanto o excesso de reprodução dos membros menos aptos da sociedade quanto a sub-nutrição dos mais aptos.

Na proposta de Galton, projetos sociais que garantiam o bem-estar de pessoas deficientes ou socialmente subjulgadas e isto permitiu que seres humanos “inferiores” sobrevivessem e se reproduzissem em níveis mais rápidos do que os humanos “superiores” na sociedade respeitável. Desta forma, se correções não fossem feitas a sociedade seria inundada com uma onda de seres humanos “inferiores”. Darwin leu o trabalho de seu primo com interesse e dedicou seções de seu livro “The Descent of Man” (1871) à discussão das teorias de Galton. Darwin e seus compatriotas do século XIX preocupavam-se com o fato de que, se as características que favoreciam o sucesso e o fracasso social fossem hereditárias, e se os fracassos produziriam mais filhos do que os bem sucedidos, tendo como resultado a degeneração. Mas nos dias de Darwin, a visão de que a hereditariedade detinha a chave do sucesso social não era amplamente aceita.

O próprio Darwin, embora afirmando ter se convertido à perspectiva de Galton sobre a importância do intelecto herdado, continuou a acreditar que o zelo e o trabalho árduo também importavam. Além disso, enquanto o lamarckismo reinava, as crenças hereditárias não implicavam necessariamente em apoio a programas de reprodução seletiva. Mesmo aqueles que supunham que os problemas sociais se deviam à má hereditariedade concluíram que a solução estava na reforma social. Enquanto a visão lamarckiana prevaleceu, não fazia sentido contrapor a natureza e criação (Paul, 2006).

O pensamento gerou críticas também por parte de filósofos. A filosofia de Friedrich Nietzsche abordou a questão da seleção artificial, mas os princípios da filosofia não concordavam com as teorias darwinianas da seleção natural. O ponto de vista de Nietzsche sobre a doença e a saúde, em particular, opunha-se ao conceito de adaptação biológica forjado pela “aptidão” de Spencer.

Nietzsche criticou Haeckel, Spencer e até mesmo a teoria da evolução de Darwin, às vezes sob a mesma bandeira, sustentando que, em casos específicos, a doença era necessária e até mesmo útil (Stiegler, 2001).

O darwinismo social declinou durante o século XX, à medida que um conhecimento ampliado de fenômenos biológicos, sociais e culturais solapou, ao invés de apoiar, seus princípios básicos (Encyclopaedia Britannica).

Do ponto de vista biológico, a evolução tem como princípio a concorrência entre os seres vivos na luta pela sobrevivência. Contudo, isso não significa que os biólogos defendam uma concepção literal quanto a ideia dos genes realmente serem egoístas. Os genes são pequenos trechos de DNA que são auto-promotores, porque aqueles bem sucedidos ajudam seus portadores a espalhar mais cópias de si mesmos. Genes não tem uma “personalidade” egoísta e tão pouco dizem que somos exclusivamente egoístas – nossa natureza também expressa altruísmo, empatia, reciprocidade e tantas outras posturas.

Manter as teorias biológicas a parte das concepções sociológicas é o maior desafio para qualquer pessoa interessada em biologia evolutiva. É evidente que a evolução biológica avança pela eliminação dos indivíduos menos aptos na natureza, e de fato o processo evolutivo é implacavelmente cruel com eles. No entanto, mesmo do ponto de vista biológico, os seus produtos não precisam ser implacáveis em tudo quanto a ideia de competição. Muitos animais sobrevivem por estarem socialmente aglutinados uns aos outros, o que implica que eles não podem seguir o princípio da sobrevivência do mais-forte ao pé da letra: forte necessita do fraco. Um exemplo vem do líquen, que na verdade é formado por associações simbióticas mutualísticas entre dois seres vivos: fungos e algas (cianobactérias). Nessa associação, fungos e cianobactérias vivem intimamente unidos para garantir a sobrevivência de si. Enquanto a alga atua fornecendo matéria orgânica através da fotossíntese para o fungo, este protege a alga através de suas hifas. Da mesma forma que associações entre mitocôndrias e células proto-eucariotas deram origem aos eucariotos.

Isto aplica-se também a nossa própria espécie, pelo menos dá aos humanos a oportunidade de expressar seu lado cooperativo. Como mamíferos primatas, somos animais que obrigatoriamente vive em sociedade: portanto deve haver um equilíbrio entre os aspectos e necessidades individuais e coletivas.

A concorrência é parte da imagem do processo, mas não a imagem completa. Os seres humanos não podem viver pela concorrência sozinhos em um modelo individualista egoísta. Alguém poderia dizer que um biólogo não deveria se propor a debater assuntos ligados a políticas públicas, mas a biologia já faz parte dela. É difícil ficar à margem destas discussões quando o pilar da biologia moderna é deturpado e incluído dentro de uma tese sociológica individualista – além do fato de que existem muitos conceitos de economia em biologia e ecologia.

Os amantes da livre-concorrência não resistem e acabam invocando a versão deturpada da evolução quando o assunto é a concorrência no mercado e nas ciências sociais: especialmente caindo na tipificada natureza humana dista pelo antigo provérbio hobbesiano “Homo homini lúpus” (O homem é lobo do homem). Esta é uma declaração questionável sobre a nossa própria espécie baseada em falsas suposições sobre outras espécies e reflete, novamente, somente uma parte da imagem. Acreditar que somos somente isto é diluir a natureza humana e suas especificidades a uma concepção reducionista e positivista.

Um biólogo que explora a interação entre a sociedade e natureza humana não está fazendo nada de novo. A única diferença é que, em vez de tentar justificar um quadro ideológico particular, o biólogo tem um interesse real na questão do que a natureza humana é, e de onde veio. A concorrência existe, mas a solidariedade, reciprocidade e a empatia também fazem parte do repertório humano (de Waal, 2016).

A partir do conteúdo de nossos genes, da natureza dos nossos neurônios e dos exemplos que a biologia evolutiva tem nos fornecido, tornou-se idealizável aos darwinistas sociais a ideia de que natureza está cheia de concorrência e conflitos de interesse. Ao menos é isto que o modo de pensar conservador quer acreditar, no entanto, ao mesmo tempo que defendem uma tese de concorrência extremada em um discurso ideológico nega o processo evolutivo como elemento chave que explica a diversidade de formas de vida na natureza. Tem sido cada vez mais comum os modelos conservadores de economia utilizarem as ideias de Darwin para justificar uma plataforma ideológica de dominação de mercado ao mesmo tempo que nega a teoria da evolução e seu potencial em explicar a diversidade de formas de vida no registro fóssil e as espécies vivas. No debate presidencial de 2008, pelo menos 3 candidatos republicanos levantaram a mão em resposta à pergunta: “Quem de vocês não acredita na evolução?”.

Nos Estados Unidos (e algo muito parecido no Brasil tem sido visto) o setor dos conservadores adotam posturas darwinistas sociais, em vez de aceitar o termo de Darwin tal como ele realmente foi concebido, no campo do estudo da natureza.

Isto é reflexo não só da má utilização de aspectos básicos da biologia evolutiva, mas também reflexo do momento pós-verdade que passamos. As pessoas têm defendido como verdade absoluta tudo aquilo que corrobora suas expectativas pessoais (ignorando critérios de verificação para saber se o que sustenta sua tese realmente tem base) e rejeitam aquilo que não esta alinhado a um pressuposto ideológico. Além claro, do uso indiscriminado da falácia naturalista: se é da natureza então é bom.

Nos EUA a plataforma individualista é mais escancarada e o darwinismo social tem sido visto argumentando contra ajudar os doentes e pobres, já que a natureza tem intenção neles, seja para sobreviver por conta própria ou perecer. Como muitas pessoas não têm como pagar um convênio de saúde nos EUA, então a posição de darwinismo social acaba sendo adotada por aqueles que podem pagar um. Eles acabam disseminando um pensamento nefasto de higienização daqueles que são pobres e incapazes de pagar um plano de saúde descente (de Waal, 2016).

A máxima “Competição é bom para você” tem sido popularizada desde Ronald Reagan e Margaret Thatcher assegurando que o livre mercado iria cuidaria de todos os nossos problemas. Mas diante de crises econômicas, esta visão não é tão evidente. A lógica do neo-liberalismo simplesmente aumentou o abismo entre os mais ricos e a maioria mais pobre e o individualismo extremo tem se tornado mais evidente. Na lógica neo-liberal o individualismo alcança a posição mais extrema e encorando-se no darwinismo social. Nela, ocorre a perda de referência de classe social na qual os individual se encontram, o individualismo competitivo é elevado, ocorre a privatização dos direitos e a ideia de mérito individual é o ápice do desenvolvimento humano. Como consequência, no individualismo extremo da lógica neo-liberal leva ao desmantelamento da democracia, a abolição de direitos sociais que são transformados em serviços que devem ser comprados e vendido no mercado (a privatização de direitos sociais). Na diluição das classes sociais as pessoas passam individualmente a se comportarem não como trabalhadores mas como empresas prestadoras de serviços que são individualmente responsáveis pelo próprio sucesso, competindo individualmente com outros indivíduos que abrirão mãos de todos os direitos. O homem então não se vê mais como uma classe de trabalhador, mas como unidade empresariais que abre mão de direitos em função de uma posição individualizada.

O que os defensores do livre-mercado perderam em sua defesa ideológica é o fato da natureza da nossa espécie ser intensamente social. Na lógica individualista cada membro é visto como uma ilha, isolado, mas o puro individualismo não é o que foi projetado. A empatia e solidariedade fazem parte da nossa natureza e de nossa história evolutiva – não apenas uma parte recente, mas capacidades antigas que compartilhamos com outros mamíferos.

Muitos grandes avanços sociais, como a democracia, direitos iguais, segurança social tem surgido através do que costumava ser chamado de “empatia”, ou seja, da compaixão com o próximo. Os revolucionários franceses gritavam fraternité, Abraham Lincoln apelou aos laços da empatia e Theodore Roosevelt falou de empatia como “o fator mais importante na produção de uma vida política e social saudável” (de Waal, 2016).

Assim sendo, a natureza humana não pode ser entendida como uma ilha, isolada do resto da natureza, e é aí que a biologia entra e decompõe todo o falacioso uso social das ideias de Darwin. Se olharmos para a nossa espécie, sem deixar-se ser cegado pelos avanços técnicos de poucos milênios passados, vemos uma criatura de carne e sangue com um cérebro que, embora três vezes maior do que o de um chimpanzé, não contém quaisquer “peças” novas. Podemos até ser intelectualmente superior em alguns casos, mas não temos desejos ou necessidades que não possam também ser vistas em nossos parentes próximos mais básicos.

Eles se esforçam pelo poder (nós também), desfrutam do sexo (nós também), quer segurança e carinho (nós também), matam sobre o território e dão valor a confiança e cooperação (nós também).

Sem pretender ver os outros primatas como seres morais, não é difícil reconhecer os pilares da moralidade em seu comportamento. Esses pilares são resumidos em nossa regra de ouro, que transcende as culturas e as religiões do mundo todo. Reciprocidade: faça aos outros o que gostaria que fizessem a você; e empatia, atenção aos sentimentos dos outros, compaixão. A moralidade humana não poderia existir sem a empatia e a reciprocidade que são atributos encontrados em nossos parentes primatas (de Waal, 2016).

Não somente isto, mas há também evidências de tendências pró-sociais e um senso de justiça em primatas. Chimpanzés voluntariamente abrem uma porta para dar acesso a comida para um companheiro, e macacos-prego procuram recompensas para outros, mesmo que eles próprios não ganhem nada com isso. Isso foi demonstrado colocando lado a lado dois macacos: separados entre si mas em vista um do outro. Um deles era necessário negociar conosco usando pequenos símbolos. O teste crítico veio quando lhes foi oferecida a escolha entre dois símbolos de diferentes cores com significados diferentes: um símbolo era “egoísta”, o outro “pró-social”. Se o macaco escolhe pegar o egoísta, recebe um pequeno pedaço de maçã de volta, mas seu parceiro não tem nada. O indicador pró-social, por outro lado, ambos os macacos são recompensados igualmente, ao mesmo tempo. Os macacos desenvolveram uma preferência esmagadora para o indicador pró-social. Repetido o procedimento muitas vezes com diferentes pares de macacos e diferentes conjuntos de símbolos, descobriu-se que os macacos escolhem a opção pró-social (de Waal & Suchak, 2010).

Em outros estudos, os primatas têm todo o prazer executar uma tarefa usando fatias de pepino até ver que outros amigos sendo recompensado com uvas, cujo gosto é muito melhor. Eles tornar-se agitados, derrubam seus pepinos e fazem greve. O pepino tornou-se desagradável simplesmente como resultado da visualização de um companheiro conseguindo algo melhor (Brosnon & de Waal, 2003).

Curiosamente, quando seres humanos mutilam-se ou matam uns aos outros costumamos chamá-los de ‘animais’, mas os nobres traços preferimos reivindicar para nós mesmos. Quando se trata do estudo da natureza humana, no entanto, esta é uma estratégia sem sentido porque exclui cerca de metade de nossas práticas.

A empatia (compaixão pelo próximo) tem suas raízes no mimetismo básico do corpo – e não nas regiões mais altas da imaginação ou na capacidade de reconstruir conscientemente como nos sentiríamos se estivéssemos no lugar de outra pessoa. A maioria de nós já chegou à uma fase incrivelmente avançada da evolução em que se um de nós boceja, ou mesmo com a simples menção do bocejo o outro boceja também, mas isso é só depois de muita experiência face a face. Tudo isto é reflexo dos neurônios espelho: um conjunto de células nervosas que são disparadas do mesmo modo quando realizamos uma ação ou quando simplesmente observamos outras pessoas realizando essa mesma ação. O fato de nosso cérebro reagir igualmente nessas duas situações explica a aprendizagem por imitação. Este modo de processa informações tem o potencial de fornecer um mecanismo de ação-compreensão, a imitação-aprendizado e a simulação do comportamento de outras pessoas. E isto ainda é apoiado por algumas homologias citoarquitetônicas entre a área pré-motora F5 de macacos e a área de Broca humana (Petrides et al, 2005).

A seleção natural tem produzido animais altamente sociais e cooperativos que dependem um do outro para sobreviver, por si só isto já dilui a ideia de que a natureza é exclusivamente individualista. Um único lobo não pode derrubar grandes presas e os chimpanzés na floresta são reconhecidos por diminuir o ritmo de caminhada quando há companheiros que não conseguem acompanha-los devido as lesões ou por estarem doentes (de Waal, 2016).

Aqueles que pensam que a concorrência é tudo na vida, e que acreditam que é desejável que a força para sobreviver é à custa dos fracos, ansiosamente adotam uma versão falaciosa da tese de Darwin como uma ilustração bonita e floreada de sua ideologia, mas frágil e facilmente diluível do ponto de vista biológico. Eles retratam uma versão caricata da evolução como quase celestial para sustentar um discurso ideologicamente incoerente do ponto de vista biológico.

Um exemplo deste discurso vem do John D. Rockefeller que concluiu que o crescimento de uma grande empresa “é apenas a elaboração de uma lei da natureza e uma lei de Deus”, e Lloyd Blankfein, presidente e CEO da Goldman Sachs – a maior máquina de fazer dinheiro no mundo – que descreveu a si mesmo como uma pessoa que apenas esta “fazendo a obra de Deus”.

Nós tendemos a pensar que a economia esta morta por ter sido tomada por riscos irresponsáveis, a falta de regulamentação ou de um mercado imobiliário borbulhando, mas o problema é mais profundo. A confusão entre a forma como a seleção natural opera e que tipo de criaturas que produziu levou a uma negação do que une as pessoas. A própria sociedade tem sido vista como uma ilusão. Um destes exemplos vem de Margaret Thatcher ao declarar que “Não existe essa coisa de sociedade – existem homens e mulheres individuais, e há famílias” (de Waal, 2016).

Neste sentido, os economistas deveriam reler a obra de sua figura paterna, Adam Smith, que viu honestidade, moralidade, simpatia e justiça como companheiros essenciais para a mão invisível do mercado. Suas opiniões foram baseadas em nosso ser como uma espécie social, nascido em uma comunidade com responsabilidades para com a comunidade.

A mensagem da biologia é que somos animais de grupo: intensamente sociais, interessados em equidade e cooperação suficiente para ter tomado o mundo. A nossa grande força é precisamente a nossa capacidade de superar a concorrência.

Em vez de colocar indivíduos uns contra os outros, a sociedade precisa repousar em dependências mútuas. A seleção natural modelou nossos cérebros de modo que estamos em sintonia com nossos companheiros seres humanos e sentimos dores, sua angústia e prazer. Se a exploração de outros fosse tudo o que importava, a evolução jamais teria fornecido algo como a empatia na trajetória da vida. Se o fez, e as elites políticas e econômicas estão caminhando na trajetória errada e o darwinismo social é uma trilha que corre na contra-mão.

Conclusão

Inicialmente, faz-se necessário destacar que o principal trabalho de Spencer, “Progresso: Sua Lei e Causa” (1857) foi lançado dois anos antes da publicação de “A Origem das Espécies” (1859) de Darwin e os “Primeiros Princípios” foram impressos somente em 1860.

De muitas maneiras, a proposta da evolução de Spencer tem muito mais em comum com os trabalhos positivistas relacionados a Lamarck e Auguste Comte do que com os de Darwin. Jeff Riggenbach argumenta que a visão de Spencer foi que a cultura e a educação passaram por uma espécie de lamarckismo justificável.

Os criacionistas (pseudociência que parte da ideia de que o relato bíblico de gênesis é literal e que pode ser sustentado cientificamente) sempre sustentaram que o darwinismo social – levando a políticas concebidas para recompensar os mais competitivos – é uma conseqüência lógica do “darwinismo” (a teoria da seleção natural na biologia) (Diane & Gregory, 2009). Evidentemente os biólogos e historiadores da ciência afirmaram que tal argumento é falacioso por partir a um apelo à natureza (Sailer, 2002). Embora existam ligações históricas entre a popularização da teoria de Darwin e as formas de darwinismo social, o darwinismo social não é uma consequência necessária dos princípios da evolução biológica.

O discurso do darwinismo social recorre a velha falácia naturalista, que parte do pressuposto que algo natural é necessariamente bom ou válido. Ora, o fato da concorrência ser o motor da evolução biológica não significa que ela é legitima-se no contexto social. Acreditar nisto é reduzir a natureza humana e um mero reprodutor de algo naturalmente determinado na qual somos incapazes de compreender o desdobramentos e consequências de nossos atos.

Os criacionistas sempre puxam as ideias do Darwin para fora do contexto, tentando atribuir valores morais á aspectos científicos mesmo quando os cientistas deixam claro que as alegações científicas explicam fenômenos naturais e não justificam os atos das pessoas. Dizer que o darwinismo fundamenta comportamentos imorais é um equivoco triplo no darwinismo social: 1) é diluir a especificidade da natureza humana a uma natureza genérica, desconsiderando o fato de que somos natureza com atributos próprios que nos definem como espécie (cultura, trabalho, história e etc); 2) acaba forçando o ideológico discurso de orientação liberal de que é natural para a evolução a eliminação dos mais fracos, ou seja, que é eticamente válido a desigualdade socioeconômica e a miséria. Geralmente os criacionistas não sabem o que Darwin propôs a evolução por seleção natural e então criam alegações para um discurso eticamente incoerente e descontextualizado; 3) ignora o contexto histórico em que Darwin formula os paradigmas dominantes naquele momento de expansão do capitalismo, cultura européia como a única válida (eurocentrismo) e de afirmação das abordagens positivistas cartesianas: a distorcida biologização da política e politização da biologia no nazismo, racismo científico sob um uso tendencioso da antropologia para justificar a existências de raças ou de desigualdades.

Darwin jamais disse que o correto seria eliminar todos os fracos dentro do contexto social. Ele disse que na natureza os animais vivem em constante competição pelos recursos que garantem sua sobrevivência, constatando que os inaptos perecem e os fortes sobrevivem. Darwin jamais pregou qualquer ato de crueldade usando sua teoria, mesmo porque quando passou pelo Brasil repugnou os episódios de escravidão que observou.

As atitudes tomadas com finalidade eugênica ocorreram muito depois da publicação de sua principal obra e a obra de Darwin distorcida foi utilizada para tentar justificar o injustificável. Ignorar isto seria como descontextualizar o fato de que Louis agassiz (um criacionista assumido do século XIX) explicou a origem do homem branco e negro usando a poligênia: ideia de que houve um casal de Adão e Eva para negros e outro para os brancos europeus, usando uma justificativa bíblica para diferenciar negros e brancos em espécies distintas. Os aspectos morais disto podem ser perigosos.

Vale lembrar também que na Guerra de Secessão nos EUA, em 1877 os territórios sulistas dos confederados (a favor da escravidão dos negros) foram ocupado por tropas do Norte e diversos afro-americanos foram colocados em posições importantes do governo dos Estados do sul, pelo governo da União. A maior parte da população sulista sentiu-se humilhada com essas medidas, favorecendo o surgimento de sociedades secretas como os Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan (KKK), que empregavam a violência para perseguir os afro-americanos e defender a segregação racial. A KKK teve (e ainda tem) toda sua ideologia racista e doutrinaria embasada em justificativas cristãs. Se a alegação é de que o evolucionista não tem direito para falar de moralidade, então os cristãos também não teriam dado o fato de que as atrocidades cometidas na Guerra de Secessão foram justificadas em nome de deus.

A ciência não define aspectos da moralidade por que é amoral, mas infelizmente esta sujeita a ser deturpada de acordo com o contexto histórico. O mesmo acontece com a religião e com a filosofia. Em ciência, os átomos e o conhecimento científico são amorais, mas no final de tudo, quem decidiu soltar a bomba de Hiroshima e Nagazaki sempre foi o homem.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Darwinismo Social, Ideologia, Individualismo, Hobbes, Maltyhus, Darwin, Galton, Economia, Empatia, Reciprocidade.

 

Referências

Bowler, P. J. (2003). Evolution: The History of an Idea (3rd ed.). University of California Press.
Brosnon, S. F. & de Waal, F. Monkeys reject unequal pay. Nature volume 425, pages 297–299 (18 September 2003).
Collin, W. D. (1907). “Social Darwinism”. American Journal of Sociology. 12 (5): 695–716.
Darwin, Charles (1882). “The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex” (2nd ed.).
de Waal, F. Suchak, M. Prosocial primates: selfish and unselfish motivations. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 2010 Sep 12; 365(1553): 2711–2722.
Diane P. B & Gregory, R. (5 March 2009). The Cambridge Companion to Darwin. Cambridge University Press. pp. 219–20.
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3 thoughts on “DARWINISMO SOCIAL – O USO INDEVIDO DAS IDEIAS DE DARWIN.

  1. “…ismo” é sinônimo de “dogma de fé”. Darwinismo se tornou um “dogma de fé”, que sequer foi de Darwin, mas dos fanáticos que transformaram seu equívoco chamado de “seleção natural”, em dogma de fé. Algo como os católicos que transformaram uma simples seia regada a vinho, e uma conversa em “missa” onde uma hóstia se torna um corpo de Cristo, morto há 2 mil anos! Crenças fazem milagres, simples como é, até a crença em Darwin também faz milagres, ECOLUÇÃO SOCIAL! É só acreditar! arioba.

    • Você não tem a mínima noção do que é seleção natural…criar espantalhos é apenas uma das muitas falácias utilizadas por você Ariovaldo.

  2. Excelente artigo. O que mais dizer. No fundo o homem parece sempre ter a necessidade de atribuir valor a tudo, isso tem sido assim em toda sua história pela Terra, e deve-se, creio, ao seu sentimento de incompreensão e de pequenez diante dos mistérios da vida. A morte chocou profundamente o humano e com ela veio o inexplicável. Desenvolvemos teses e teorias para explicar o que desconhecíamos, teses essas cheias de conceitos de melhor e pior, bom e mal, coisas que para a biologia não tem nenhum significado. Outro ponto é a dificuldade que temos em conviver com a diferença que sempre se mostrou uma justificativa para aquilo que entendemos por melhor ou pior, certo ou errado. A cooperação é tão presente na vida como o egoísmo, Atribuir um valor maior a uma ou ao outro talvez seja uma forma de nos colocar em contato mais próximo com o mistério que nos assola. Na medida em que fomos perdendo o medo do desconhecido, fomos nos sentindo mais individuais e capazes, o que nos leva por vezes ao outro extremo e sempre se mostra um erro. No campo economico então, onde temos os conceitos como riqueza e pobreza, a transferencia pura e simples de teses pseudoevolucionistas se mostram risíveis. Será que o filho do Warren Buff fará jus ao atributo de “melhor” ou colocará toda a riqueza da família por terra. Esse resultado pode ser observado em empresas familiares, onde os herdeiros muitas vezes não se mostram aa “altura” do fundador, perdendo ou se desinteressando pelo negócio. As ciencias socias e sua quase ausencia de empirismo acabam se prestando mais facilmente a isso, é assim com Niezstche, Wagner e não seria diferente com Darwin. Como disse Bertrand Russel – números não mentem, mas mentirosos usam números.

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