COMO A RELAÇÃO ENTRE RELIGIÃO E POLÍTICA ESTA SATANIZANDO A EDUCAÇÃO, SUCATEANDO A CIÊNCIA E SENDO CORROSIVA AO PRÓPRIO CRISTIANISMO – A ORIGEM DE UMA “PROTO-IDADE MÉDIA TUPINIQUIM”.

O Brasil passa por um período histórico deplorável que vai desde o sucateamento da educação, escarnecimento da democracia, promoção de discursos pós-verdade e a ascendência de um frente religiosa político-ideológica intolerante. O resultado desta equação é o cerceamento da ciência e do livre-pensar.

Deputados realizam culto na Câmara dos Deputados. (Foto: Saulo Cruz/Câmara dos Deputados). Fonte O Povo.

O Brasil passa por um realinhamento de seu eixo político-econômico e também religioso, expressando extremas afinidades com a intolerância. O recém eleito presidente da República Jair Bolsonaro (PSL), quando ainda era do PSC (Partido Social Cristão) havia sinalizado ataques ao estado laico e a democracia em 2017, em um discurso em Campina Grande. Apesar de se apresentar como alguém que supostamente seguirá respeitando a Constituição apresentou em sua campanha um discurso de “Deus acima de tudo” e atacou o Estado Laico:

“Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de Estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias”.

A sinalização para o fim de um estado laico já ocorre há tempos e junto ao desmonte da ciência brasileira coloca em risco o futuro do conhecimento produzido por nossos valiosos cientistas. O que houve foi um escancaramento das intenções ideológicas que agora deixam claro a busca pelo fim do Estado Laico, colocando no mesmo saco a ciência, educação e diversos direitos conquistados ao longo de décadas.

O que vemos nos últimos anos foram cultos dentro de repartições públicas, o erguimento e subsequentemente o fortalecimento de bancadas conservadoras guiadas pelos interesses de parlamentares e um discurso conservador que ideologicamente se alinha a extrema-direta e teologicamente ao neopentecostalismo evangélico, com diversos pastores protagonizando discursos ofensivos que estimulam a cultura do ódio e intolerância em nome de Jesus.

A bancada da bala, assim chamada pela imprensa para se referir aos parlamentares financiados por indústrias de armas e munições, teve ao longo do ano passado acréscimos de deputados e defendem a redução da maioridade penal, o aumento de penas e, principalmente, a revisão do Estatuto do Desarmamento, obtendo vitórias parciais no ano de 2015.

Em relação ao setor que defende que “bandido bom é bandido morto” quem encabeça tal tese é a Frente Parlamentar Evangélica, como um exemplo da força de articulação de grupos conservadores. As frentes de segurança pública e a evangélica correm juntas, dividindo os mesmos princípios e assumindo um conservadorismo extremista:

“Preservamos a questão da família, da moral, da ética, da honestidade. Não tem como ser radical nesses valores – ou você tem, ou você não tem. Ou você é honesto, é um cidadão de bem, ou você não é.”

Deputado Federal Capitão Augusto

Cultos em prédio públicos já ocorreriam de forma despretensiosa desde 2015. Eduardo Cunha, Cleber Verde (PRB-MA) e Maria Madalena da Silva Carneiro (que é teóloga) costumavam participar de cultos evangélicos nas dependências da Câmara, junto com outros parlamentares e servidores evangélicos. Além disto, Maria Madalena da Silva Carneiro foi convocada para comandar a Diretoria de Recursos Humanos da Casa. Cunha agradeceu o apoio, praticamente unânime, dos deputados evangélicos na disputa pela presidência da Casa e ouviu do coordenador da bancada evangélica, João Campos (PSDB-GO), o compromisso de lealdade e respaldo político.

Posteriormente, descobriu-se que Eduardo Cunha usava a igreja Assembleia de Deus para receber dinheiro proveniente de esquemas de corrupção envolvendo ao menos US$ 5 milhões destinados a ele referente aos contratos para viabilizar a construção de dois navios-sonda usados pela Petrobrás. Parte dos repasses foram divulgados pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot.

Um vídeo gravado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro mostra o Primeiro Encontro Interdenominacional dentro de repartições públicas desrespeitando o Estado Laico. Nas imagens, vereadores e diversas outras pessoas cantam músicas religiosas no plenário, de mãos dadas, em um movimento de culto, que foi negado, na época, pelo vereador Inaldo da Silva (PRB).

Em entrevista à Jovem Pan, Inaldo que também é bispo negou que o ato tenha sido contra o inciso I do artigo 19 da Constituição Federal, que diz que é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios “estabelecer cultos religiosos”.

A relação entre a política e religião também se manifestam nas vantagens que as igrejas tiram em termos de dividas. A Câmara dos Deputados aprovou em plenário, uma medida provisória (MP) do Refis prevendo perdão de dívidas tributárias com a Receita Federal de igrejas, entidades religiosas e instituições de ensino vocacional sem fins lucrativos. O perdão da dívida para as igrejas foi incluído pelo relator da MP do Refis, deputado Newton Cardoso Júnior (PMDB-MG), durante a análise da proposta na comissão mista do Congresso. O movimento também teve participação ativa de Marcos Soares (DEM-RJ) que é filho do pastor R.R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus.

Ciência, educação e catecismo criacionista.

O que vimos acima são manobras que se iniciaram anos atrás e que causaram a corrosão pelas beiradas do Estado Laico. Isto ficou evidente com a ascensão do público evangélico associado a teologia da prosperidade e teologização da política graças a intoxicação e desgaste ideológico entre esquerda e direita, fomentando um discurso extremado.

Evidentemente, a ciência e a educação não ficam de fora deste processo de teologização da política brasileira na introdução de uma frente partidária conservadora. O novo alinhamento político-religioso buscar introduzir uma ideológica específica, moralizadora e demonizadora a quem pensa de forma distinta.

Evidentemente, a ciência vem sendo afetada, e muito, junto a outros direitos a partir do corte de gastos estabelecido pela “PEC do teto”, pelo flerte do novo Governo Federal com o criacionismo, com a introdução do ensino religioso que apesar das aparências se mostra claramente confessional e pela introdução falaciosa da ideia de uma “Escola Sem Partido” que sataniza o educador a partir de uma suposta doutrinação e substituir o currículo do livre pensar por uma educação conservadora ideológico-extremista. Nota-se novamente a presença da relação política-cristã como protagonista deste movimento há anos, e agora ela começa a desenhar-se com mais clareza no governo Bolsonaro.

O movimento vem de longa data. Por exemplo, em votação no ano de 2017 seis ministros votaram para que o educador tenha a liberdade de pregar a fé e cinco votaram para impedir professor de promover crenças quando começou a se questionar sobre a possibilidade do ensino religioso.

Em termos teóricos é importante conhecer a história das religiões sim, mas em termos práticos não temos garantia alguma de que a pluralidade religiosa será respeitada – ainda mais considerando a crescente onda neopentecostalista evangélica que sataniza quem não está alinhado a seus pressupostos teológicos. Não temos garantia alguma de que a concepção maniqueísta cristã será anulada durante o ensino religioso.

Se a Constituição Federal prevê o ensino religioso nas escolas públicas brasileiras (o que é extremamente importante) como disciplina do ensino fundamental (para alunos de 9 a 14 anos de idade), também estabelece que a matrícula é facultativa, nada garante que a bancada evangélica não se aproprie desta brecha para uma estabelecer uma doutrina missionária evangelista, já que sequer respeita o Estado Laico que também é garantido pela Constituição apenas na teoria, na prática, a própria existência de uma bancada já fere a Constituição. Afinal, que cristão aceitaria a existência de uma bancada umbanda, espírita ou ateia na política brasileira quando sequer aceitam o ensino da evolução, discussões sobre sexo, escravidão nas escolas?

Além disto, por ser considerada facultativa pela Constituição, significa que estudante pode se recusar a cursar a disciplina por vontade própria ou da família, sem prejuízo nas notas ou frequência exigidas para ser aprovado.

A Procuradoria Geral da República contestava a possibilidade de “catequese” ou “proselitismo” nas aulas. A maioria dos ministros, porém, entendeu que o caráter laico do Estado não significa que ele deve atuar contra as religiões, inclusive na esfera pública. Com a decisão da Corte, continua permitido o ensino confessional, o não confessional e também o chamado interconfessional, com aulas sobre valores e práticas religiosas baseadas em características comuns das religiões.

Na época, Alexandre de Moraes argumentou que impedir a promoção de crenças contraria a liberdade de expressão dos professores. Mas até ai, a ideia da “Escola Sem Partido” também contrariaria a liberdade de expressão dos professores.

Se o ensino religioso já abre uma enorme discussão sobre ser confessional ou não-confessional devemos lembrar que o ensino do criacionismo já vinha sendo sinalizado há décadas no país, e ganha novo fôlego na cúpula de Jair Bolsonaro. O objetivo é claramente colocar toda a tutela da educação brasileira sob o controle absoluto da bancada cristã evangélica conservadora.

Quase todo ano há sinalização política para a inserção do criacionismo/design inteligente (duas faces do mesmo fundamentalismo) em aulas de ciência, na contramão de todos os principais ambientes acadêmicos do mundo. Atualmente, em entrevista a Renata Agostini, no jornal O Estado de São Paulo, o general Aléssio Ribeiro Souto, que elabora propostas para o Ministério de Educação do governo de Bolsonaro, defendeu o ensino do criacionismo nas escolas públicas:

“Cabe citar o criacionismo, o darwinismo, mas não cabe querer tratar que criacionismo não existe”.

Esta leitura pobre indica que Aléssio não compreende basicamente nada sobre o status do criacionismo. Como crença não há problema algum em acreditar que tudo é criação. Portanto, não se nega a existência deste tipo de pensamento e as pessoas tem liberdade de acredita sobre o que quiser sobre suas origens. O que se nega é que este pensamento criacionista seja caracterizado como ciência, uma vez que claramente do ponto de vista metodológico na ciência não se justifica. O criacionismo é a crença religiosa de que a humanidade, a vida, a Terra e o universo são a criação de um agente sobrenatural, de deus – no caso do Brasil, no deus cristão. No currículo escolar atual não consta o criacionismo por ser um discurso religioso e não científico, e portanto, fala-se da Teoria da Evolução, que de fato tem base científica nos trabalhos de Charles Darwin e posteriores.

Para Aléssio:

“A questão toda é que muito da escola na atualidade está voltada para a orientação ideológica, tenta convencer de aspectos políticos e até religiosos. Houve Darwin? Houve, temos de conhecê-lo. Não é para concordar, tem de saber que existiu”.

A manobra para o ensino do criacionismo é antiga, especialmente no Rio de janeiro protagonizado pela família Garotinho e pelo pastor político Marco Feliciano. Apresentando projetos na Assembleia Legislativa e outro na Câmara dos Deputados.

Quando há a mudança de legislatura, como ocorreu de 2014 para 2015, vários projetos são arquivados, dependendo de sua origem ou estágio de tramitação. Foi o que aconteceu com o PL 8099/2014, de autoria de Marco Feliciano (PSC-SP). Mas as regras da Câmara permitem que projetos arquivados sejam desarquivados mediante requerimento, e assim o PL 8099 foi ressuscitada. Nesse meio tempo, surgiu mais um projeto de lei sobre criacionismo nas escolas: o PL 5336/2016, apresentado em maio de 2016 por Jefferson Campos (PSD-SP) e que pedia a inclusão da “Teoria da Criação” no currículo do ensino fundamental e médio. O que estas pessoas não entendem é que não há ensino destas ideias em disciplinas de ciência porque elas sequer são consideradas ciência uma vez que não trabalham dentro do método de experimentação. Não é possível testar a ideia de que uma molécula ou uma espécie foi criada por uma entidade divina. Não é possível metodologicamente abordar este tema, sendo ele parte de conjuntos de crenças. A tentativa de introdução do criacionismo como disciplina não ocorre por mérito de justificar-se como ciência, mas por uma imposição político-ideológica de uma frente conservadora fundamentalista.

A justificativa de Campos descarta o argumento da liberdade religiosa e investe mais em um verniz acadêmico, ainda que no fim recorra ao fato de que “a doutrina criacionista é predominante em todo o nosso país”, sem citar nenhuma fonte e provavelmente adotando a falácia de que todo cristão é necessariamente criacionista-científico literalista.

No trâmite do legislativo, projetos de teor semelhante acabam unificados. Assim, a PL 5336/2016 (de Jefferson Campos) foi unida a PL 8099/2014 (de Feliciano), que por sua vez foi juntada ao PL 309/2011, também de autoria de Marco Feliciano e que trata do ensino religioso nas escolas. Isso solucionaria uma controvérsia presente nesses projetos criacionistas, pois eles não costumam informar se o conteúdo entraria nas disciplinas de Ciências ou de Ensino Religioso. O PL 309 caducou com a mudança de legislatura, e foi ressuscitado em 2015 mediante requerimento. Na Comissão de Educação, teve como relator Pedro Uczai (PT-SC), que entregou seu parecer em outubro de 2015, pela aprovação do PL 309, mas rejeitando as tentativas de introduzir o criacionismo no currículo.

Evidentemente os criacionistas aderiram a proposta. Um dos sites criacionistas que ressaltou o desejo de Aléssio disse:

“Sim, a teoria da evolução deve continuar sendo ensinada em nossas escolas, mas deve ser ensinada objetiva e honestamente considerando as evidências a favor e contra. Do jeito que a teoria da evolução é ensinada no Brasil, não é educação, mas doutrinação ideológica do materialismo filosófico que posa como se fosse ciência!”

Neste sentido, a descrição dada é a de que a escola doutrina, o que na visão criacionista justifica-se a ideia de Escola Sem Partido também. O que corre no fundo é um desmonte da educação e da ciência no Brasil junto a um pacote de direitos que os cidadãos conquistaram em que a religião e Estado se associaram para a execução deste plano de manutenção do poder.

O desmonte da ciência no Brasil já chamou a atenção de vários prêmios Nobel quando o que esta acontecendo no Brasil. O primeiro ponto foi quando ocorreu o corte de investimentos no governo Temer afetando não só a ciência, mas um corte de 20 anos de investimento protagonizado pela “PEC do Teto”, na qual o atual presidente, na época deputado, foi favorável a restrição orçamentária.

Na época a revista Nature publicou um artigo destacando o corte e chamando a atenção do mundo para o que estava acontecendo no país (Veja mais aqui).

Não demorou muito para que uma Carta assinada por 23 ganhadores do Prêmio Nobel fizesse referência ao corte de 44% no Orçamento deste ano do Ministério da Ciência e Tecnologia. A carta, à qual o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso é assinada pelo físico francês Claude Cohen-Tannoudji (Nobel de 1977) e outros 22 laureados com o prêmio nas áreas de Física, Química e Medicina nas últimas três décadas:

“Sabemos que a situação econômica do Brasil é muito difícil, mas urgimos o senhor a reconsiderar sua decisão antes que seja tarde demais”.

“A situação é trágica, não há outra palavra para descrevê-la”, disse o pesquisador David Gross, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, vencedor do Nobel de Física em 2004 e também signatário da carta. Ele previu que muitos jovens pesquisadores brasileiros desistiriam da carreira científica ou migrariam para outros países, mais favoráveis à ciência.

A carta dos laureados reproduz argumentos que vem sendo usados exaustivamente pela comunidade científica brasileira nos últimos anos. Em uma carta enviada à Presidência da República, mais de 250 pesquisadores da área de Matemática pediram também a Temer que reconsidere os cortes orçamentários do setor.

“À fria luz dos fatos e além de qualquer partidarismo, repudiamos os repetidos e substanciais cortes de verba que sabotam o potencial transformador da ciência brasileira”

Entre os signatários está o matemático Artur Avila, ganhador da Medalha Fields, considerada o Prêmio Nobel da Matemática. O orçamento de 2017 do MCTIC foi um dos menores de todos os tempos, com cerca de R$ 3,2 bilhões disponíveis (Exame, 2017).

Na avaliação de Duncan Haldane, físico britânico da Universidade de Cambridge laureado em 2016, em todos os países o “desenvolvimento de uma infraestrutura científica nacional é chave para o futuro”.

Cortes de 20% ou mais são muito destrutivos, pois grupos de pesquisa são encerrados, as pessoas saem e é difícil reiniciar os programas quando a crise acabar — alertou Haldane. — Um corte de 50% desmontaria grande parte da ciência brasileira.

Vemos então que ao mesmo tempo que o criacionismo é sugerido como alternativa a evolução, o ensino religioso confessional começa a ganhar força, bancada religiosa ganha espaço, cultos em prédios públicos ocorrem, a ciência vai perdendo campo e orçamento e por fim, emergem igrejas adeptas da Escola Sem Partido e por fim, as igrejas surgem propondo a criação de suas próprias universidades.

O Ministério da Educação autorizou a criação de uma faculdade pela fundação do PRB (Partido Republicano Brasileiro), sigla que integra a base governista de Michel Temer e tem afinidades ideológicas com o presidente eleito, Jair Bolsonaro. O PRB é comandado por líderes da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma das maiores denominações evangélicas do País, cujo fundador, bispo Edir Macedo, declarou voto em Bolsonaro.

De centro-direita, o PRB apoia o projeto Escola sem Partido, uma bandeira de campanha do presidente eleito. O reitor credenciado no MEC, por enquanto, é o pastor da IURD Joaquim Mauro da Silva, tesoureiro nacional do PRB.

“A gente sabe que o PRB é a favor do Escola Sem Partido. Mas não podemos permitir que os pensamentos do PRB possam conduzir nossa faculdade, ela deve ser um campo de debate”

A educação é acusada de promover uma suposta “doutrinação marxista” e como solução a bancada religiosa que mais trabalha com missionários e catecistas estabelece criação de universidades evangélicas. Sim, é bizarro e hipocrisia!

O programa da Escola Sem Partido que tem ganhado defensores e críticos nos últimos tempos existe desde 2004 e foi criado por membros da sociedade civil. Na contramão desta proposta estão os especialistas em educação que criticam o programa afirmando que nada na sociedade é isento de ideologia, e que a Escola Sem Partido, na verdade, é uma proposta carregada da ideologia conservadora pautada no autoritarismo e fundamentalismo cristão.

A proposta conservadora evidentemente evita o pensamento crítico fomentando o pensamento raso de uma crença religiosa fundamentalista imposta por manobras ideológicas – algo que tem sido evitado até pelo setor da Igreja Católica.

Apesar do discurso de neutralidade e isenção, a Escola Sem Partido defende uma escola sem espaço para discussão da cidadania que é garantida pela Lei de Diretrizes de Bases da Educação (9.394/96), chamada de liberdade de Cátedra:

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas;

IV – respeito à liberdade e apreço à tolerância;

Na Constituição Federal de 1988:

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III – pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;

Até nas Antigas constituintes ela é garantida: a liberdade de ensino surge no nível constitucional na carta magna de 1934 em seu artigo 155. Posteriormente, na Constituição Federal de 1946, em seu artigo 168, sendo reafirmada como vimos acima, pela Constituição de 1988 – conhecida como a constituição cidadã, o docente tem plena autonomia para escolher os métodos didáticos que respeitem a pluralidade de ideias e a não-discriminação. Afinal, como seria possível desenvolver um pensamento crítico sem discutir política, filosofia, sociologia e/ou história? Nossa experiência com a supressão de filosofia e sociologia no ensino durante a ditadura gera reflexos negativos até os dias de hoje. Não se discute política partidária nas aulas, mas sim uma discussão mais ampla de organização e composição da sociedade com ênfase na filosofia política.

Todos os cidadãos têm direito a se apropriar da cultura e fazer uma leitura crítica do mundo que o rodeia. O cidadão brasileiro tem o direito de aprender sobre a evolução darwiniana, história das grandes guerras, a abolição da escravatura e as desigualdades entre as classes sociais no Brasil e no mundo. Para discutir cada um destes assuntos é preciso repertório crítico e amplo, na qual o professor deve ter autonomia para escolher uma narrativa ou forma pedagogicamente eficiente para abordar e explicar o conteúdo, por meio de um conjunto de ideias.

Assim, fará uma escolha que necessariamente é ideológica uma vez que toda decisão é pensada por ideais e assumir isto é uma questão de honestidade intelectual. O que não deve existir é um protocolo didático que crie uma vigilância e censura para tal exercício – que, como vimos é garantido pela Constituição Federal e a LDB. Nenhum país que apresenta os melhores sistemas de ensino faz este tipo de cartilha. De fato, nos países com os mais altos índices de qualidade de educação sequer há propostas que se aproximem do que é visto na Escola Sem Partido. A escola é um espaço heterogêneo e deve estar conectada com a sociedade.

Além da proposta da escola sem partido a educação formal sofre também com desvio de verbas para outras atividades e novas diretrizes de ensino. O Senado cortou pela metade uma das fontes de recursos do Fundo Social do Pré-Sal que originalmente era destinado a investimentos em saúde e educação. Por meio de um projeto de lei, os senadores destinaram 50% dos recursos vindos da comercialização do petróleo do pré-sal, que iriam integralmente para o Fundo Social, para outro fundo, voltado para expansão de gasodutos e para o fundo de participação de Estados e municípios. A proposta ainda precisa passar pela Câmara (Estadão, 2018).

Mais recentemente a Câmara de educação básica do Conselho Nacional de Educação aprovou a criação de novas diretrizes do ensino médio. Dentre elas, a possibilidade de que até 20% da carga horária do ensino médio seja ofertada na modalidade à distância, chegando a 30% no ensino médio noturno.

A reforma do ensino médio foi encaminhada ao Congresso por meio de medida provisória e, a princípio, pretendia desobrigar o ensino de Filosofia, Artes, Educação Física e Sociologia. Com a pressão de estudantes e professores foi possível alterar o projeto original, mas manteve outros problemas: a possibilidade de 40% da grade curricular ser ministrada a distância, e de os recursos públicos serem destinados a empresas privadas, além da contratação de “profissionais com notório saber” (termo subjetivo que dá margem a inserção de pessoas sem licenciatura no lugar de professores) e a imposição da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) neste momento tenta consolidar a reforma.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) encaminhou no dia 26 de julho de 2018 ao governo e ao Congresso Nacional carta em que pede a revogação da reforma do ensino médio, a revisão da Base Nacional Curricular Comum (BNCC) e a garantia do cumprimento das 20 metas do Plano Nacional de Educação (PNE). A moção foi votada e aprovada por unanimidade na Assembleia Geral Ordinária de Sócios da SBPC, durante a 70ª Reunião Anual da SBPC, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em Maceió.

Para a entidade, a reforma do ensino médio e a BNCC têm claramente características excludentes e pode elevar o aprofundamento das desigualdades sociais, ao contrário do exposto em propagandas oficiais. Os cientistas que assinaram e aprovaram a manifestação entendem que a educação pública necessita de significativos aportes financeiros, e que o PNE para o decênio 2014-2024, apesar de ter excluído pontos importantes para o progresso da educação, como as questões étnico-raciais e de gênero, constitui um importante aporte à educação brasileira.

O PNE tem tido suas metas sistematicamente descumpridas pelo governo, então, propôs-se a revogação da Lei no 13.415, que estabelece a reforma do ensino médio, bem como um amplo debate sobre a reestruturação desse nível de ensino, no qual todos os atores da sociedade envolvidos possam participar. Além disso, a SBCC defende que a BNCC seja devolvida ao MEC para reavaliação de sua estrutura e conteúdo.

Ao Ataque

O Brasil tem passado por momentos conturbados que vem envolvem uma ideologia de extrema-direita associada a religião e sinalização para mudança não só no alicerce da educação, mas também da ciência e que tem criado uma profunda mudança no cristianismo, protagonizada especialmente pelo setor evangélico neopentecostalista. É fato que muito tempo antes da recente eleição conturbada que tivemos acompanhamos episódios de profunda intolerância religiosa não só em relação a outras matrizes religiosas, mas a qualquer postura que não se adeque a um modelo conservador idealizado – como ataque a homossexuais, museus, música e episódios da história do próprio país como a escravidão.

O termo “conservador” é empregado para se referir a práticas, atitudes e ideias que estão relacionadas com a esfera da política. Em uma “definição mínima”, podemos conceber tal ideia como uma defesa da manutenção da ordem social ou ordem política existente, em contraposição às forças que buscam a inovação e mudanças sociais. Nele, ocorre a defesa de uma moralidade privada em uma sociedade na qual homens e mulheres sejam regidos pela crença em uma ordem moral permanente, por um forte senso de certo e errado, por convicções pessoais sobre justiça e honra. Em alguns casos as motivações caem em um pensamento reacionário na busca de um passado nostálgico idealizado que se opõem à evolução da sociedade e aos princípios democráticos – por isto o saudosismo a época da ditadura militar se manifesta com maior afinco em momentos de instabilidade financeira e injustiça social. A mais recente manifestação deste tipo veio do próprio Aléssio Ribeiro, o mesmo general que defende o ensino do criacionismo. Aléssio sugeriu a ideia de banir livros que não apresentam a “verdade sobre o que ocorreu em 1964”. Segundo Aléssio:

“Os livros de história que não trazem a verdade têm que ser eliminados das escolas brasileiras […] Os livros de história que não tratam o regime de 64 no contexto da verdade têm que ser eliminados das escolas.”

Referindo-se ao milagre econômico da época da ditadura militar que sabemos hoje, ocorreu de forma artificial. Infelizmente querem encobrir episódios tristes que ocorreram na época da ditadura militar (inflação astronômica, escândalos de corrupção com empreiteiras, altas taxas de homicídios, censura e repressão) vendendo uma imagem idealizada e falaciosa de uma “não-totalitarismo militar” pós-64.

Vale lembrar que em nome de deus a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” foi o nome comum dado a uma série de manifestações públicas ocorridas entre 19 de março e 8 de junho de 1964 que pedia a presença dos militares na governança do país.

Ao longo dos últimos anos vimos também diversos ataques a templos religiosos de matriz africana, a destruição de estatuas e quadros e até apedrejamentos, como o caso de 2015 com uma menina de apenas 11 anos em Vila penha no Rio de Janeiro (Folha, 2017).

Tivemos também episódios de censura como a polêmica do Museu de Arte Moderna, na qual em nome de uma moral ideológico-religiosa julgaram a mãe sem compreender por que ela deixou a filha participar da performance e ignorando o fato de que as pessoas pensam diferente no mundo, que cada um e cada família é de um jeito. Ou ainda, que episódios de crimes sexuais ocorrem dentro de igrejas, casas e escolas e não em museus.

Outro setor em que o conservadorismo tem satanizado é a questão da homossexualidade, com a tentativa de implantação de curanderismos gays protagonizado pela frente evangélica, que em termos metodológicos claramente é uma pseudociência (Estadão, 2017).

Tivemos o caso da psicóloga Rozângela Alves Justino, uma das autoras de ação que pedia a suspensão de norma do Conselho Federal de Psicologia que proíbe o tratamento da homossexualidade como doença, embasando sua defesa de “reversão sexual” em trechos da bíblia. A presbiteriana é dona de uma entidade descrita como associação de “apoio ao ser humano constituída segundo os princípios cristãos” e foi punida pelo colegiado após representação de duas pessoas no Conselho regional de Psicologia do Rio. Atualmente, É atuando junto a bancada evangélica trabalhando com o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), também envolvido com a bancada evangélica.

A psicóloga moveu ação para suspender a Resolução de 1999 do Conselho Federal de Psicologia, que prevê que “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”. Ela foi punida em 2009 justamente com base nesta norma já que nunca apresentou qualquer evidência da homossexualidade como uma suposta patologia, mas tentar alterar juridicamente o processo para que sua posição religiosa-ideológica pessoal fosse favorecida. O mesmo encontramos no caso do criacionismo que corre o risco de ser inserido na grade de ciência não por méritos científicos, mas por imposição político-ideológica.

Claro, houve também a polêmica criada em cima do falso Kit-gay, que jamais fez parte do Programa Nacional do Livro Didático do MEC e apenas serviu para instigar ainda mais casos de homofobia e prejudicar a educação criando um argumento caricato de “ideologia de gênero” da educação no país.

Criou-se uma versão caricata do que é a “identidade de gênero” chamada de “ideologia de gênero” e então, refuta-se e sataniza-se tal caricatura que não corresponde a ideia em si. O mesmo ocorre quando os criacionistas criam uma caricatura do que acreditam ser a evolução e refutam-na.

Nesse caso é bastante comum criticarem o saltacionismo como se fosse sinônimo de evolução, quando na realidade o próprio Darwin criticava o saltacionismo, citando inclusive a frase “Natura non facit saltum“.

Contudo, como nos dias atuais o que mais apetece as pessoas são as auto-verdades, pós-verdades e fake news que corroboram as pretensões e paixões ideológicas e nada do que é dito ou demonstrado empiricamente é aceito, mas sim satanizado. Parafraseando um dos aforismos de Mark Twain “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas”.

Tudo que foi abordado acima apenas serve para nos indicar que vivemos é uma espécie de Inquisição semelhante a Idade média em alguns aspectos e distinta em outros.

Em termos de diferenças temos o fato de estarmos em outro momento histórico e protagonizado principalmente pelo setor protestante, evangélico neopentecostalista. Não que grupos católicos não sejam adeptos de tudo que foi citado acima, mas que a intolerância e a virulência dos discursos evangélicos são muito mais expressivos devido a um profundo sentimento de devoção irracional e desmedido. Portanto, o que há de diferente, é que evidentemente, não temos a formação de reinos independentes como no final do século V e tão pouco as integrações culturais como a romana com a germânica porque vivemos tempos distintos. Contudo, como elemento em comum temos o fortalecimento do cristianismo e um teocentrismo que leva ao enfraquecimento da cultura laica e da democracia. Embora essa posição teocêntrica atual seja diferente a vista em qualquer momento da historia da humanidade.

O fato da religião e a política andarem de mãos dadas apresentando um discurso unitário que endossa práticas socialmente nocivas e intoxicantes á razão faz com o cristianismo esteja sempre presente quantitativamente nas decisões políticas, mas qualitativamente inferiorizado nos discursos em que a religião é o estopim das mudanças sociais. Isto vai refletir a longo-prazo na conta do setor evangélico e manchar ainda mais a história do cristianismo no Brasil – um fardo que o setor evangélico já pôs em suas costas.

“Gott ist tot” – Deus está morto?

Gott ist tot é uma expressão cunhada pelo filólogo Friedrich Nietzsche que diz “Deus está morto” referindo-se ao fato de que na civilização ocidental, a religião em geral, e o cristianismo em particular, estão em um declínio irreversível pois deus está perdendo seu lugar central. Deus deixei de ter papel central nas esferas da política, filosofia, ciência, literatura, arte, música, educação, vida social cotidiana, e as vidas espirituais interiores dos indivíduos. Se no passado a religião e deus desempenhava papel central em nossa cultura servindo de inspiração a produção musical de Bach, a arte do Renascimento (como A Última Ceia de Leonardo da Vinci) e a cientistas como Copérnico, Descartes, Newton, Tomás de Aquino, Descartes, Berkeley e Leibniz, agora ela deixa de ser o centro das atenções.

Durante as decisões mais importantes da vida das pessoas deus não é mais levado em consideração, nem mesmo nas manifestações de religiosidade diante de um Jesus diluído.

Contudo, será mesmo que deus está morto? Talvez esta questão seja um tanto subjetiva pois depende da forma na qual as pessoas introduzem ou manifestam deus em suas vidas. Durante grande parte da história da humanidade, e no cristianismo, a presença de deus nas decisões da nação era totalmente presente. Antigamente deus era visto como “Deus de Israel”, erguemos divindades como representantes de um território e uma nação abençoada. Qualitativamente tínhamos compromissos e responsabilidade em rituais e liturgias (missa, orações, cerimônias, sacramentos, palavras, gestos, ritos objetos de culto etc.) que exigiam respeito, submissão e devoção a divindade esperando sua misericórdia sob a nação.

Será que agimos deste modo ao expressar nossa relação com deus nos dias atuais, ou deus se tornou um amuleto na qual serve como justificativa aos nossos desejos? Será que as pessoas que declaram-se em nome de deus e cometem atos hediondos, crimes de violência verbal, moral, física como a tortura e pena de morte em nome de deus/Jesus tem adotado uma postura de fariseu? A quantidade de justificativas e uso do nome pode indicar que deus se faz presente no cotidiano do brasileiro, mas qualitativamente esta justificativa tem sentido?

Um fariseu poderia dizer “Gott ist nicht tot”? (deus não está morto) não porque tenha responsabilidade com sua crença, mas pelo proveito tirado da hipocrisia.

Há um profundo desalinhamento do indivíduo cristão com os pressupostos do cristianismo em função de uma releitura teológica que retira Jesus e insere o homem como centro das atenções. A leitura personalizada de uma religiosidade cristã light tem permitido o indivíduo se permitir defender pressupostos claramente incoerentes a estrutura teológica de sua crença.

Agostinho dizia que a pessoa que rejeita o que afirma a bíblia e seleciona somente o que quer dela para justificar sua própria posição não acredita em deus mas apenas em si mesmo. Tal personalização da fé/deus/Jesus desobriga a responsabilização dos atos cometidos em nome de deus e permite o fiel aceitar elementos que estão além da bíblia e não concordar com elementos básicos da bíblia.

A concepção de um deus/Jesus subjetivo, menos autoritário faz com que as pessoas não se sintam ameaçadas por uma punição divina quando sentem que de fato suas atrocidades são em nome do divino. Os cristãos sentem que uma devoção cega – qualitativamente inferior – é suficiente para lhe garantir o reino dos céus. Note que até mesmo a população carcerária composta em sua maioria por cristão sente-se merecedora do Reino dos céus, reforçando a ideia da liquidez que o cristianismo se permitiu especialmente após a década de 70 no Brasil.

Isto permite as pessoas defenderem torturas em nome de Jesus, pena de morte e atrocidades que outrora eram absolutamente incoerentes a teologia cristã e que foram cometidas contra o símbolo do cristianismo, Jesus.

Em sua perspectiva plena, ser cristão é ser, por obrigação, contra tortura ou a violência, pois o corpo humano é o corpo de Cristo. Afinal, qual seria a diferença entre um cristão armado em nome de seu deus e um jihadista do Estado Islâmico armado? Em nome de Jesus o cristão brasileiro está se igualando exatamente a grupos fundamentalistas que usam o nome de seu deus para cometer atrocidades. Quem elogia a tortura é abusivamente inimigo de Jesus e da fé cristã, pois o representante de tal religião foi torturado e destruído sob a condenação de pena de morte.

A condenação de outrem em nome de uma moral erguida sob os pilares de um pensamento cristão é uma conta cara que o cristianismo no Brasil terá de pagar no futuro por seguir todo este caminho atual do cristianismo no Brasil associado a barbáries. Não é possível julgar uma pessoa por sua conduta (criminosa ou não) e condena-la em nome da crença cristã. Jesus escolheu preferencialmente viver ao lado de pecadores, pessoas socialmente excluídas, pobres, prostitutas e adúlteros.

Quando Jesus afirma que quem não tiver pecado atire a primeira pedra, falava exatamente da hipocrisia e das posturas alinhadas de muitas pessoas que agem hoje como fariseus – religiosos por fora, hipócritas por dentro. Para a filosofia de Jesus, não se deve interromper a prática do pecado a partir de outro pecado, e tão pouco a partir do crime. Roubar e matar é errado, mas se deveria fazer o que for preciso dentro da lei para direcionar e orientar a pessoa a deixar de ser um criminoso, desalinhando-se da máxima de que “bandido bom é bandido morto” – frase característica de quem não conhece e não vive o cristianismo e acredita somente em si mesmo.

Justiça não é a eliminação de quem se considera errado em nome de Deus. Não deve se usar a teologia cristã para defender a punição severa e absoluta, e tão pouco personalizar Jesus para que este apoie a crença pessoal de que a justiça deve ser feita pelas próprias mãos, pela pena de morte ou pelo porte de arma. Jesus nunca foi um justiceiro, mas um justo!

Na concepção personalizada de um novo cristianismo o cristão acabou com a prática da misericórdia usando o nome de um Jesus misericordioso, defende a tortura em nome de um Jesus torturado e usa sua crença pessoas em um deus customizado para justificar suas atrocidades e ódios pessoais.

Um cristão real não julga, não distingue pessoas independente do que for (cor, sexualidade ou pecados cometidos) não condena outro ser humano porque sabe que tal atributo pertenceria somente a deus e não ao homem imperfeito. Um cristão de verdade não diz “direitos humanos para humanos direitos” porque entende o significado do termo “humano” e que não pode atirar a primeira pedra sendo imperfeito. Um cristão real entender que o objetivo final é perdoar dada sua condição de imperfeição e portanto, não tem competência para advogar contra o outro. Um cristão verdadeiro entende que o direito a vida é para todos os humanos independente de seus pecados ou virtudes. O cristão verdadeiro não é aquele que vai na igreja uma vez aos domingos, mas aquele que se põe no lugar do outro e ama o próximo independente dos defeitos e das virtudes.

É triste que toda esta leitura de um cristianismo verdadeiro e virtuoso tenha que vir de mim, um ateu. Contudo, diante das atuais circunstâncias do Brasil, talvez algum elemento de fora tenha que notificar as pessoas sobre como o cristianismo está sendo visto porque quem está de fora desta onda de corrupção do cristianismo.

Uma característica contemporânea do cristianismo no Brasil é que ele diluiu deus a uma concepção animista. Deus agora está em tudo, exceto dentro do coração das pessoas.

Nesta concepção o mundo conspira, graças a deus, a seu favor individual, pois deus compreende a pessoa. A infantilização de deus como um salvador que obrigatoriamente dará o reino dos céus ao crente leva as pessoas a manifestarem publicamente sua crença embora não expresse nenhum compromisso com as atitudes cristãs, devoção verdadeira ou com preceitos básicos da bíblia. Deus serve ao homem para trazer a cura, e não mais explica a angustia e a dimensão trágica da existência humana. As pessoas clamam a deus não pela nação, pelo povo e sim para si. A dimensão coletiva de deus perdeu o sentido. A leitura do real significado do cristianismo se diluiu tanto que permite manifestar-se em associação a outras leituras religiosas, se relacionando ao animismo (deus conspira o universo), a concepção new age (o deus na picaretagem quântica), no panteísmo (deus em tudo) e na energia (deus explica a existência). O cristão hoje medita, consulta a astrologia, incorporação de elementos de outras religiões como a consciência cósmica, cabala, faz um passe, frequente mesa branca espírita, faz simpatias e se veste de branco no Reveillon (algo que é característico de religiões africanas, embora satanize tais práticas nos outros dias do ano).

O “cristianismo descolado” new age e irresponsável com a crença e a devoção. A busca atual é de um cristianismo em que tudo que ocorre se faz em função de um bem pessoal e não um bem maior. As doenças são punições por uma vida de pecado, as pessoas más morrem de câncer ou HIV por não estarem alinhadas a crença cristã e ao mesmo tempo, o otimismo e a fé cura tudo porque um deus infantil nos serve em função do quanto o alimentamos.

Estes são atributo que também fazem parte da manifestação religiosa da teologia da prosperidade como elemento de substituição a teologia da libertação. Deus abençoa e traz a prosperidade individual não só da sua saúde, mas principalmente a prosperidade material. Deus deixou de estar ao lado dos pobres e agora se manifesta ao lado da classe média em ascensão. Ao mesmo tempo, a fé se tornou midiática, expressa não mais em compromissos sérios e duradouros de devoção absoluta e entrega, mas sendo manifestada em marchas popularescas expondo um Jesus infantilizado, submisso aos desejos materiais dos humanos. A dimensão espiritual se perdeu e deu origem a dimensão material.

A fé midiática ganhou todas as emissoras de TV com programas evangélicos e garante o futuro da religião dentro de reciclagens teológicas, releituras cristãs e customização de deus ramificando e ganhando campos nunca antes fertilizados.

Nunca houve tantas pessoas evangélicas na periferia e tantas ramificações protestantes. Lembremos que historicamente, as cidades brasileiras foram fundadas pela nossa tradição portuguesa católica. Como de praxe, os centros das cidades são marcados por uma igreja católica e a partir dela a cidade cresce para todos os lados. Nas cidades grandes as periferias esquecidas pelo poder público serviram de nicho aberto para a colonização da teologia evangélica que serve como uma diretriz moral as famílias dentro de uma conduta cristã. Afinal, o poder público falha em fiscalizar educar e orientar os indivíduos.  Ao mesmo tempo que o evangelho faz um serviço social fundamental ao guiar as pessoas em uma conduta não criminosa, o cristianismo também sobrevive do esvaziamento da responsabilidade religiosa e deturpação de Jesus.

A fé se tornou uma forma de fugir de punições em vez de ser a entregar total as responsabilidades religiosas, aos rituais, sermões e participação efetiva de deus nas decisões cotidianas do indivíduo. A fé como entrega total a uma vida religiosa dentro de um convento ou que leva o indivíduo a doar tudo em nome de um bem maior foi perdida em função de uma fé que favorece interesses individuais. Na tristeza deus consola, na felicidade deus garante sua permanência, nos obstáculos deus ajuda a superar, na facilidade deus ajuda a manter. Deus se tornou um amuleto que serve somente ao egoísmo das pessoas, reduzido a um cão domesticado que voce alimenta e ele devolve benção; Deus se tornou um gênio da lâmpada mágica que serve para suprir nossos desejos quando precisamos de ajuda; Deus se tornou a galinha que bota os ovos de ouro.

Vivemos um período de grande religiosidade, e embora seja quantitativamente presente em nosso cotidiano a ideia de Deus, ele foi diluído a uma dimensão do “personal God”. Sendo assim, a máxima de Nietzsche pode ou não ser verdadeira: Deus se faz presente de forma animista, infantil e personalizada, logo Deus não está morto. Mas a ideia de um deus reduzido a um cão domesticado disponível para suprimir nossos desejos pessoais em uma relação sem responsabilidades e rasa talvez indique que Deus realmente esteja morto e que vivemos uma espécie de “ateísmo religioso” ou um panteísmo cristão: onde há um esvaziamento do significado geral de deus e sua subordinação aos interesses humanos materiais.

Talvez este seja o maior desafio atual do cristianismo, catequizar o próprio cristão dissolvido em uma concepção personalizada de deus, uma divindade líquida na concepção Zygmun Baumanniana. Catequizar um ambiente que formalmente e religioso mas na prática e egoísta, irresponsável as crenças, práticas litúrgicas e alienado. Pois no cristianismo atual, como vemos em todas as práticas vistas acima em que agride a pluralidade, a educação, o homossexual as minorias têm deus apenas nas palavras e retóricas, nas ideologias, marchas e nas decisões políticas, mas não o tem no seu coração e nas atitudes. Neste sentido deus está morto e mais do que isto, no Brasil “Das Christentum ist tot”.

Conclusão

O filme “Hanna Arendt” (2012) que conta a parte da vida da filosofa durante o julgamento de Adolf Eichmann – um líder nazista que delegava etapas de atrocidades cometidas pela SS – e a a repercussão de sua análise filosofia. O filme mostra como os judeus e mesmo seus amigos pessoais criaram um asco pela filosofa após sua análise filosofia da frieza do nazista que não sentia remorso ou culpa alguma pelo que havia feito no regime nazista. Hannah conclui brilhantemente que o nazista sentia-se apenas um burocrata que cumpria ordens e por este motivo, para Hannah, ao abdicar de sua razão, atributo que caracteriza o humano, o nazista abriu mão de sua humanidade.

Contudo Hannah em sua análise filosófica conclui que poderia ter havido menos judeus mortos se líderes judeus tivessem se manifestado de modo diferente durante o regime. A cooperação inicial entre nazistas e sionistas, que Hannah Arendt chama de “não-criminosa”, estava relacionada ao projeto do estabelecimento de um Estado Judeu na Palestina, “mutuamente benéfico” às partes envolvidas. Contudo, e evidentemente o deslocamento de 11 shows de judeus da Europa para a Palestina em uma época de guerra era impossível. Os funcionários do Conselho de Anciãos Judeus gozavam de inúmeros privilégios. Na Hungria, por exemplo, os sionistas tinham liberdade usar a estrela amarela que lhes permitia visitar os campos de concentração na Hungria. E obviamente, os nazistas perderam a relação amistosa com as lideranças sionistas culminando no já conhecido genocídio do holocausto.

Quando Hannah pontua isto os judeus de sua época a criticaram profundamente – considerando que Hannah era judia, mas não se considerava filha de um povo ou de uma religião mas sim filha da humanidade.

Chegará o momento aqui no Brasil se reconhecerá como uma nação teocrática alinhada a uma proto-Idade Média. Aqueles que em nome de deus utilizaram a mesma tática para livrar-se do peso da responsabilidade de suas escolhas comprometeu o futuro da nação brasileira.

A suspensão da razão em função das paixões ideológicas e teológicas está levando as pessoas a banalização do mal. Quantos brasileiros cristãos futuramente vão dizer que foram ludibriados por lideres religiosos e políticos e não aceitarão a responsabilidade sobre o futuro da democracia, ciência e educação do país?

A história e a filosofia servem a isto: indicar que as cicatrizes mostram que o passado foi real, e refletir sobre o presente para não comprometer o futuro. O asco, repulsa e nojo que as pessoas sentem em relação especialmente aqueles que em nome de deus pediram armas, tortura e morte e defenderam uma forma idealizada de conservadorismo podem estar alimentando uma futura cristofobia. É o mesmo asco que temos daqueles juntaram a igreja católica ao fascismo (Papa Piu XI), o nazismo, salazarismo, franquismo, Idade Média, Reforma/Contra reforma onde a violência associada ou em nome de deus se aflorou.

O esfacelamento da educação, cultura, democracia e ciência poderá ser um lembrete de que as pessoas foram avisadas e diante de seu egoísmo ergueram uma bandeira vermelha manchada pelo sangue de homossexuais, mulheres, hereges e eleitores inocentes vítimas da barbárie de um regime fundamentalista cristão-ideológico erguido por sacerdotes evangélicos.

O que Eichmann sabia fazer era receber as instruções do alto comando nazista e aplicá-las meticulosamente, sem levar em consideração nenhum aspecto moral ou humano. No cenário atual as pessoas adotam meticulosamente o que um líder político-religioso acena e os aplica sem considerar aspectos humanos do outro. Há um esvaziamento da vida alheia quando não se está alinhado com a ideia vigente. E mesmo aqueles que não concordam com o modus operandi o legitimaram a partir do voto, pois em uma democracia o voto não é apenas representatividade mas também responsabilidade pela escolha.

Victor Rossetti

Palavras chave: Rossetti, NetNature, Cristianismo, Ideologia, Teologia, Cristianismo, Criacionismo.