O RODÍZIO CONTINUA – AGORA A CULPA É DA TEORIA DA EVOLUÇÃO.

Algumas semanas atrás publiquei aqui um texto destacando que entraríamos entrando em uma espécie de Idade-Média Tupiniquim, resultado da força tarefa protagonizada pelo setor evangélico unindo fé+política.

Já faz alguns anos que vejo um setor religioso evangélico (neo-pentecostal) se aproximando da política e rodiziando ataques ora na educação, ora na questão de gênero, nos professores, no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e como não seria diferente, agora chegou a vez da teoria da evolução de acordo com Damares, Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. A mesma que foi flagrada em vídeo dizendo que encontrou Jesus em um pé de goiaba.

O objetivo agora é catequizar a ciência, como sempre foi desde o Iluminismo. Com Damares a falsa ciência travestida de verdade absoluta e incontestável ganha forma e nome. Em reportagem publicada pelo jornal “O Globo a Ministra afirma que a Igreja perdeu espaço na sociedade brasileira ao deixar a teoria da evolução entrar nas escolas.

O movimento é claro, seleciona-se um setor, sataniza-se com a ideia de que é um problema e oferece a si mesmo como a solução.

As pessoas se afastam de deus não apenas porque passam a questionar a sua existência, autoridade ou papel na criação. O primeiro passo para que as pessoas se afastarem de deus não é dado pela Teoria da Evolução, Big Bang ou qualquer elemento do tipo. O primeiro passo para que as pessoas se afastem de deus vem da própria religião que adota posturas inadequadas, imorais, perturbadoras, da satanização de quem pensa diferente, do desejo absolutista plenamente alinhado com os mesmos ideias da política mundana. As pessoas se afastam desta atmosfera nociva e tentam conhecer outros pontos de vista, seguem por caminhos próprios em uma crença não institucionalizada e em último caso, abandonam a crença em deus. Quando começam a questionar a autoridade da igreja, da religião como representante de deus, o passo seguinte é, naturalmente, questionar onde está deus quando falsos profetas e seu povo mancha seu nome.

Episódio do desenho “The Simpsons” onde a inteligente Lisa Simpson critica a escola por satanizar a Teoria da evolução (imagem acima). No presente episódio o autor Matt Groening nos leva a uma versão bizarra e hilária do que foi o Julgamento do Macaco, ocorrido em 1925 com a prisão do professor John Scopes por ensinar evolução adaptado ao Homer Simpson.

Quem acende o pavio que pode levar as pessoas ao ateísmo é a profunda ignorância e soberba da própria religião que promove a sensação de despertencimento do grupo quando este reproduz atrocidades morais ao próximo ou promove a hipocrisia.

Não é preciso uma teoria científica para que as pessoas se afastem de deus, pelo simples fato de que há pessoas que não negam as constatações científicas e nem a deus. Como lidar com esta contradição é um problema realmente individual, mas não significa que a adesão da ciência leva obrigatoriamente as pessoas ao ateísmo. Não é o conhecimento científico que direciona as pessoas a se afastar de deus. Durante grande parte da história da ciência a crença em deus serviu de inspiração a produção do conhecimento científico. A própria ciência é, em si mesmo, incompetente em direcionar as pessoas a uma posição de descrença, pois a questão da existência, ou não, de deus transcende o método científico e necessita de argumentações muito mais depuradas, especialmente na filosofia.

As pessoas atualmente têm se afastaram da religião cristã também porque seus representantes cometem crimes como estupro, abuso infantil, dominação de povos e de ímpios em nome de deus. As pessoas se afastam de setores evangélicos porque não aceitam as condições financeiras impostas teologias Malafaistas, Damarismo, Felicianistas, Macedismo empresarial e tantos outros “ismos” para receber bençãos e ter acesso a deus.

As pessoas se afastam da religião porque esta deixou de suprir as necessidades espirituais das pessoas e passou a mercantilizar a salvação.

Minha experiência pessoal com o setor evangélico vem de família. Lembro-me, ainda pequeno, em meados da década de 80 e 90 pertencer á Igreja Batista na qual já entrei em contato com as imoralidades da igreja. A sua associação clara com política defendendo partidos a partir de interesses particulares e de casos extra-conjugais, posturas ofensivas, posturas injustas de fieis moral e financeiramente e de pastores que sequer conseguiam conter seus desejos pelas fieis. Com o estouro do setor evangélico, especialmente neo-pentecostal que se iniciou em 1970 a decepção com a religião somente tem sido amplificada, exceto para aqueles que acriticamente seguem um sacerdote como detentor da palavra última.

O primeiro passo que dei para longe de deus foi a experiência que tive com o cristianismo. Contudo, foi o primeiro passo em direção a uma postura que futuramente se tornaria mais crítica e mais técnica em relação á ciência. Não foi minha renuncia ao cristianismo que me tornou um biólogo, divulgador de ciência e/ou crítico da religião. A minha inclinação ao setor da biologia me parece mais antiga que as idas e vindas á igreja. Mas com certeza, a minha renuncia ao cristianismo diante de seus abusos e hipocrisias foi o motivo pela qual hoje sou cético em relação a existência de deus.

Existem diversos motivos que levam as pessoas a se tornarem ateias e não dependem da ciência, teoria da evolução ou Big Bang. Muitas pessoas se tornam ateias depois de ler criticamente a Bíblia e o modus operandi das religiões, procurando uma coerência nela, mas por fim concluindo que as Escrituras sagradas não fazem sentido, de tantas que são as contradições deixa de ser vista como sagrada.

O que também leva outras pessoas a tomarem partido de uma postura cética a deus é experimentar várias outras religiões a partir da insatisfação de uma experiência mal sucedida. Na busca daquela que contém a verdade de deus se dão conta de um padrão geral nas religiões com ligeiras variações e acabam se tornando ateias.

Há quem se torne descrente após se decepcionar com uma única religião. Geralmente pelo caráter fundamentalista, que prega a intolerância aos seus ex-fiéis. A pessoa, nesse caso, percebe que segue uma religião opressiva e hipócrita.

O instituto de pesquisa Barna Group divulgou um estudo sobre o avanço do ateísmo nos Estados Unidos. Segundo os dados, 1 em cada 4 adultos que não frequentam igrejas se identificam como ateus ou agnósticos. O estudo também constatou que a rejeição pela Bíblia e a falta de confiança na igreja são as principais razões pela quais as pessoas estão se afastando da fé. O estudo foi feito com 23 mil pessoas que não frequentavam a igreja há pelo menos seis meses, e constatou que a maioria delas se identificam como ateus praticantes. Desse número, cerca de um terço disse que nunca participou de um culto cristão em suas vidas.

Não significa que a escola ou a universidade converta as pessoas ao ateísmo, mas que nas Universidades o jovem, especialmente da Geração Z, que renunciou a deus e assumiu controle de sua vida encontra um lugar mais confortável, mais do que na igreja.

Os dados mostram que algumas cidades – principalmente as gerações mais jovens – são mais resistentes ao Evangelho do que outras. É cada vez mais comum as pessoas deixarem a religião, deus, as igrejas e a tradição de anos. Os mais jovens são mais propensos a serem descrentes do que as pessoas mais velhas. O relatório diz que hoje, 34% de todos os descrentes têm menos de 30 anos. As estatísticas também mostram que metade dos descrentes têm um diploma universitário, e que muito mais mulheres estão se unindo dentro desta filosofia de vida – apenas 16% dos descrentes em 1993 eram mulheres, em 2013 esse número aumentou para 43%. Isto indica que o problema não ocorre dentro das Universidades ou nas escolas, mas que a igreja não esta dando conta de manter o jovem na igreja por razões internas.

Fonte: Barna

Dados como este devem servir não como motivo para se catequizar a educação e a ciência, mas para fomentar uma auto-crítica: Em que ponto da religião esta errando e promovendo o afastamento dos fieis?

Notamos então que as pessoas se afastam de deus não porque uma teoria apresenta uma alternativa natural para explicar a natureza. A teoria por si só sequer falha em se apresentar como ciência segundo sua análise filosófica (veja aqui e aqui). Dentre os variados motivos pela qual as pessoas começam a se afastar de deus está claramente a decepção com a religião e o que ela se tornou, um partido político que age massacrando os opostos diante de um discurso de amor e tolerância. Porque as posturas da frente evangélica liberal-conservadora de direita extrema nada produzem em termos culturais, elas apenas subvertem o que os povos produzem aos seus reais interesses, o poder absoluto. Isto ocorre quando tentam catequizar a ciência, a educação, quando querem determinar o que é uma família, ao fiscalizar a sexualidade alheia, em todo patrimônio intelectual da arte que sempre foi convertido aos interesses de grupos dominadores e impositores de verdades absolutas. O movimento então é simples, seleciona-se um setor, sataniza-se com a ideia de que é um problema e oferece a si mesmo como a solução. É um processo de terceirização ou externalização da culpa em que nunca se assume a responsabilidade. Com isto, o ensino de ciências corre o risco de receber teses como o criacionismo/design inteligente como uma alternativa a Teoria da evolução e o passo seguinte é o ensino confessional.

A partir do domínio e do poder as ameaças visam, evidentemente a educação, promovendo no educador primeiramente a auto-censura, quando o educador deixa por si próprio de tocar em um determinado assunto considerando a repercussão e ameaça que pode sofrer.

Esta condição esta bem próxima de nós. Nos Estados Unidos este processo é bastante evidente. Segundo dados publicados por Adam Piore na edição de novembro de 2018 na revista “Scientific American” ele revela o mais abrangente estudo feito junto aos professores de biologia nas escolas públicas americanas em que apenas 28% dos professores da área implementam as principais recomendações e conclusões indicadas pelo Conselho Nacional de Pesquisa que pede que a introdução clara ás evidências da Teoria da Evolução em aula. Por outro lado, 13% dos professores em todos os estados da união e no distrito de Columbia relataram defender explicitamente o criacionismo/design inteligente passando pelo menos uma hora na sala apresentando-os sobre uma perspectiva positiva. Outros 5% disseram que endossaram o criacionismo apenas de passagem. A maioria – 60% dos professores – tentou evitar completamente o tópico ou passou por ele de forma rápida permitindo que os alunos debater pouco a evolução ou diluiu o conteúdo em suas aulas. Muitos professores alegaram temer a reação dos alunos, pais e membros religiosos de sua comunidade, e embora apenas 2% dos professores tenham relatado evitar o tópico por completo, 17%, ou cerca de um em cada seis professores evitou discutir a Teoria da Evolução.

Várias organizações lançaram novos tipos de sessões de treinamento destinados a preparar melhor os educadores que vão enfrentar a sala de aula, repensando o modo que se pretende lidar com o assunto e com a as questões religiosas em sala de aula.

Vale lembrar que nos Estados Unidos cerca de 70 projetos de lei sobre liberdade acadêmica foram introduzidos em assembleias estaduais desde que o primeiro surgiu no Alabama em 2014 e três foram aprovados: Mississipi (2006), Louisiana (2008) e no Tennessee (2012). São as famosas manobras criacionistas que culminaram em diversos casos ao longo de várias décadas.

A ideia do grupo é que se não é possível proibir o ensino da evolução, então tentam equilibrar a balança com o ensino do criacionismo – como se fosse algo proporcional – e menosprezar a evolução referindo-se a ela como uma mera teoria, desprezando o significado filosófico profundo desta palavra. Teoria é uma síntese aceita de um vasto campo de conhecimento, consistindo-se de hipóteses que foram incessantemente testadas em experimentos e aquelas que passaram pelo crivo formaram um amálgama concatenado explicando mais e melhor um determinado fenômeno. Quando dizemos que a Teoria da evolução é só uma teoria, elas estão validando o status de veracidade científica da tese. O que nos leva a pensar que além do profundo viés político e religioso há uma constatação básica do analfabetismo científico. Nunca na história o homem foi tão dependente da tecnologia e das ciências sem ao menos saber o que é ciência e tecnologia, ou o básico sobre elas.

Portanto, o problema da teoria da evolução não é de ordem metodológica, mas um asco criado pela necessidade de manutenção do poder e de um conservadorismo idealizado.

Notamos assim, que seja no Brasil ou ao redor do mundo, a religião assumidamente deseja destruir a humanidade na medida em que tem um desejo absolutista a cumprir e faz com que prenda, julgue, condene e execute aqueles que não partilham do mesmo dogma, costumes e das mesmas práticas ritualísticas.

A constante tentativa de homogenizar um sociedade em função da crença (teocracia) dizima as pessoas porque obrigatoriamente em uma sociedade, as pessoas pensam de forma diferente, novas vertentes, leituras e releituras religiosas surgem e em um contexto multiculturalizado, quando se aplica a fórmula teocrática “julgar, condenar e executar” ela pretende expurgar aqueles que pensam de forma distinta. Elas desejam cordeiros!

Todas desejam a supremacia, desejam ser a regra vigente e todas degladiam-se em uma espécie de jogo de xadrez, onde os fieis são as peças sacrificadas: o bispo, o peão, a torre… Mesmo aquelas que usam a palavra “amor ao próximo” como código de conduta, não passa de um engodo, um blefe neste jogo. Neste, a função é manter quem pensa diferente mais perto, para na hora certa dar uma cartada final e impor suas regras. No cristianismo foi assim quando se oficializou no Impero Romano, quando se aliou ao Fascismo, quando envia missionários para converter indígenas, quando um setor apoiou o golpe de 1964, quando envia representantes aos hospitais e quando se alia a política. Religião e política andam de mãos dadas porque há um interesse comum e mútuo, o poder absoluto e não a bondade e benevolência.

A religião tem por desejo extinguir a humanidade, se não for para homogenizar as pessoas e fazer a manutenção o poder, é para acelerar o fim da humanidade buscando ascender aos céus abraçando uma profunda ilusão neo-platônica.

A receita da tragédia brasileira começou muito antes da nova ordem política vigente no país chegar, mas se agravará com ela na medida em que o desejo de poder associado a ignorância tende a ser uma mistura nociva a nossa cultura e ao patrimônio intelectual.

Victor Rossetti

Palavras chaves: NetNature,Rossetti, Religião, Ciência, Evolução, Política, Cultura.

 

Referências

Piore, A. Trazendo Darwin de Volta. Scientific American. Ano 17. No. 189. 2018