UM EXEMPLO PRÁTICO DE COMO A PSEUDOCIÊNCIA SE INFILTRA EM CURSO DE EVOLUÇÃO.

Museu de Universidade Maringá promove curso de extensão e permite que criacionistas ministrem aulas de temas na qual rejeitam a validade científica. Após nosso contato com o museu e questionamentos sobre o autor criacionista o site deste apagou um texto cujo conteúdo era expor suas intenções em infiltrar-se no ambiente acadêmico e científico para ensinar religião.

Acima, o criacionista Everton defendendo o design inteligente em um livro, abaixo é apresentado como palestrante e um curso de extensão em paleontologia em Maringá. Ao que parece, a universidade e o museu de Maringá não vê contradição alguma.

Diante do claro aparelhamento da ciência e da educação por religiosos na situação atual, o maior prejuízo que temos é imaterial, a promoção de pensamentos pseudocientíficos.

Recebi recentemente, via FaceBook, uma chamada para um curso de extensão em paleontologia, e cogitei compartilha-lo na página do NetNature como faço algumas vezes com diversos cursos. Contudo, o diabo mora nos detalhes e fui alertado por um colega de profissão sobre dois palestrantes. Estes palestrantes são assumidamente defensores do design inteligente e terra jovem, conceitos que estão longe de estar alinhados com o pensamento científico e assumidamente presente no criacionismo – uma tentativa de comprovar cientificamente relatos literais da Bíblia.

Diante do fato, alertei a comunidade na rede social expondo a linha de pensamento de um deles. Particularmente, um dos textos do autor criacionista nada mais é do que uma versão mais escancarada da estratégia da cunha (The Wedge), que caracterizou-se como uma manobra dada pelo movimento do design inteligente na tentativa de travestir o criacionismo com um termo científico, o design inteligente, uma crença religiosa comum nos EUA.

No texto, o autor criacionista destaca claramente sua estratégia: agir como cientista, infiltrar no ambiente acadêmico e disseminar religião.

Diante deste fato, resolvi alertar o responsável pela promoção do curso de extensão no Museu Dinâmico Interdisciplinar da Universidade de Maringá (MUDI) a respeito da presença de criacionistas apresentando tal curso em evolução e paleontologia, que seria incoerente na medida que não tem sentido algum criacionistas ministrarem aulas sobre um assunto na qual não aceitam a validação científica – por mais escancarada que seja.

Meu contato feito com o MUDi dia 14/06 (sexta feira) explicando a situação

Infelizmente a resposta obtida pelo museu foi de consentimento com tal prática, com a justificativa de que seria uma apresentação sem cunho religioso e com temática apenas evolucionária seguindo as diretrizes do MEC:

Resposta dada pelo MUDI dia 16/06 (domingo)

Contudo, lembremo-nos que anteriormente o MEC já havia se pronunciado sobre o assunto anteriormente:

E atualmente o MEC passa por mudanças na qual segue um aparelhamento do Estado por motivações religioso-político-partidária.

Infelizmente, diante do estado atual que a ciência e a educação brasileira passam – sucateamento e corte de investimentos – é esperado que ações como esta se tornem mais frequentes na medida que o cenário atual promove o pseudointelectualismo, as auto-verdades em que o crer é mais importante que o saber.

Com o aparelhamento do Estado onde membros religiosos – na maioria das vezes incompetente – toma conta de decisões importantes do cenário social, é esperado a ciência e sua neutralidade sejam impactadas com discursos travestidos de ciência e filosofia, mas que visam simplesmente o controle da produção científica e a tentativa de converter o conhecimento científico em ferramenta de auto-promoção ou satanização do que não lhes convém.

Diante desta posição do MUDI frente a presença de criacionistas no curso respondi:

Resposta dada ao MUDI no dia 16/06 (domingo).

Depois destes questionamentos feitos não obtive mais resposta. Consideramos este curso algo que reflete um profundo desrespeito com a profissão de biólogos e paleontólogo na medida em que garante representatividade a um grupo que assumidamente se posiciona contra a evolução e ministrará aulas de evolução. Entendemos que tal situação tem desdobramentos religiosos sim, ao contrário do que presume o MUDI. Tal caso alimentará a falsa ideia de que há uma equivalência entre uma tese genuinamente científica (evolução biológica) e uma crença religiosa (cristianismo) como algo que disputa explicar um dado fenômeno ignorante os aspectos fundamentais da epistemologia, filosofia da ciência e metodologia científica. O fato de abrir espaços em uma universidade para que religiosos antievolução ministrem aulas de evolução é um exemplo de absoluto desrespeito ao ensino e a profissão científica.

Defendemos que há momentos em que é possível abrir um espaço para o diálogo entre ciência e religião, mas este momento não é dentro de um curso de extensão. Há muitos profissionais na área de paleontologia competentes capazes de ministrar tal curso e que gozam de artigos, argumentos e que respeitam a validade científica da teoria da evolução e de uma terra com milhões e bilhões de anos de história.

Consideramos irracional a presença destes representantes religiosos antievolução ministrando tais aulas tal como soa irracional um membro anti-vacinação ministrar aulas sobre a vacinação ou um terraplanista dar aulas de astronomia.

Por esta razão, por uma questão de respeito a profissão o NetNature repudia veementemente tal curso e não aconselha as pessoas a cursa-lo: não pela presença de professores que de fato apresentam grande competência no assunto e que fazem parte do elenco de selecionados para ministrar o curso, mas pela abertura que o museu está dando a um aparelhamento da ciência e da educação com leituras anticientíficas, pseudocientíficas que assumidamente fazem parte de uma tentativa de catequização das ciências naturais.

Da mesma forma que um cientista jamais sobre em um púlpito de igreja para dar uma aula sobre evolução não compactuamos com a ideia de que durante uma atividade acadêmica que deveria ter cunho pedagógico e compromisso com o letramento científico haja membros de grupos religiosos ministrando um curso sobre uma temática na qual rejeitam mesmo diante das imensas evidências publicadas e revisadas por pares. Se estas pessoas não aceitam a validação científica da evolução, como poderiam ministrar aulas de evolução e ciência?

Esperamos que a universidade e o museu possam rever suas decisões e desenvolver critérios mais coerentes sobre a seleção de palestrantes e que a Sociedade Brasileira de Paleontologia acompanhe de perto estes casos sempre se posicionando em favor do pensamento científico.

Nossa crítica não é sobre o fato do curso não ser direcionado a discutir religião, mas o fato de que fora do ambiente acadêmico alimentar a ideia de que eles conseguiram autenticidade em seus argumentos ao ministrar aulas em universidades. O fato de um criacionista dar aulas em um curso de uma universidade sobre um tema na qual rejeita serve de argumento para tentar legitimar como científica sua crença particular e assim propagar ainda mais sua visão religiosa como científica e ganhar prestígio em cima de um relato falso. Em síntese, este tipo de abertura apenas prejudica ainda mais a ciência nacional na medida que facilita a inserção de pensamentos religiosos como se fossem validados cientificamente e torna nebuloso e obscurantista o conhecimento produzido.

Curiosamente

A data em cada umas dos diálogos acima é importante. Curiosamente, meu primeiro contato (vide acima) com o MUDI ocorreu na sexta-feira (14/06/19) e sua resposta veio no domingo dia 16/06 (vide acima). Na segunda-feira (exato dia 17/06) o texto de Everton Fernandes na qual expõe os passos para um criacionista se infiltrar no ambiente acadêmico simplesmente foi apagado, embora o link quebrado ainda mantenha o título original. Curiosamente, somente após o contato com o MUDI pedindo explicações sobre este caso a página foi retirada do ar. Felizmente, a página foi salva por um de nossos colegas de profissão. O fato é que claramente tentaram ocultar a estratégia após nossos questionamentos!

Dia 17/06 (domingo) a página foi retirada do ar. Mas o título permanece no endereço eletrônico.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Curso, Paleontologia, Pseudociência, Criacionismo, Design Inteligente.

4 thoughts on “UM EXEMPLO PRÁTICO DE COMO A PSEUDOCIÊNCIA SE INFILTRA EM CURSO DE EVOLUÇÃO.

  1. Quando eu digo que criacionistas são todos mentirosos e falsários, sem ética e sem moral alguma, ficam reclamando que eu sou um intolerante religioso…

    A estratégia da cunha nada mais é que a admissão que eles não tem ética alguma, nem mesmo honestidade. “Vamos fingir que somos evolucionistas” = “vamos mentir”.

    Se são tão crentes na divindade, por que desobedecem o mandamento de “não dar falso testemunho” e a ordem do Cristo de “seja teu sim, sim, e teu não, não”.

    E como última reflexão, não é o Diabo o pai de todas as mentiras? Eles, usando da mentira para se infiltrar, estão demonstrando que são de Cristo ou do Diabo? Qual é o valor da palavra dos cristãos se eles acham que mentir para evolucionistas “está tudo bem”?

    Sobre a posição do MUDI, quem duvida que não seja de propósito que estejam convidando criacionistas ferrenhos, fanáticos e impenitentes para ministrar as palestras? Qual é o alinhamento dos responsáveis, eles são pela ciência ou pela mentira?

  2. Importante frisar que o Design Inteligent não faz parte da teoria religiosa do criacionismo fundamentalista. Este acredita que a terra somente tem no máximo 6 mil anos, enquanto que o Design corrobora com teoria da evolução e seus bilhões de anos que levaram a tudo que temos. O Di somente diferencia da evolução darwiniana por acreditar numa inteligência que criou tudo e que através da evolução dos seres em geral tem um objetivo comum….
    Observem o que o Michael Behe (um dos pais do DI) , bioquímico norte americano disse sobre isso:
    MUITAS PESSOAS PENSAM QUE QUESTIONAR A EVOLUÇÃO DARWINIANA SIGNIFICA DEFENDER O CRIACIONISMO. DA FORMA HABITUALMENTE ENTENDIDA, O CRIACIONISMO IMPLICA A CRENÇA EM QUE A TERRA FOI FORMADA HÁ APENAS DEZ MIL ANOS, UMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA AINDA MUITO POPULAR. DESEJO DEIXAR CLARO QUE NÃO TENHO MOTIVOS PARA DUVIDAR QUE O UNIVERSO TEM OS BILHÕES DE ANOS DE IDADE QUE OS FÍSICOS ALEGAM. ACHO A IDÉIA DA ASCENDÊNCIA COMUM ( QUE TODOS OS ORGANISMOS TIVERAM UM MESMO ANCESTRAL) MUITO CONVICENTE E NÃO TENHO NENHUMA RAZÃO PARTICULAR PARA PÔ-LA EM DÚVIDA. (MICHAEL BEHE, BIOQUÍMICO DO DESIGN INTELLIGENT do livro A Caixa Preta de Darwin, parte 1, pag 15, Editora Jorge Zahar Editor- RJ-1997)

    • Tudo isto é muito bonito no papel, mas na prática sabemos que não é verdade.
      O movimento do design inteligente surge nos EUA claramente associado ao movimento criacionista, só olhar a historia do Of Pandas e a edição-mudança da palavra creationism para Intelligent design. Os membros do Discovery Institute claramente defendem a identidade do design como sendo o deus do cristianismo, no Brasil os defensores do design inteligente são assumidamente criacionistas, fazem encontros criacionistas, apresentam blogs criacionistas, fazem videos no youtube falando de criacionismo e defendem uma terra jovem e sequer se prestam a oferecer uma alternativa de experimentação e sugestão do que ou quem seria o tal autor do design.
      A raiz do design inteligente e seu modus operandi é assumidamente criacionista – algo que explicitei neste texto: https://netnature.wordpress.com/2017/03/13/a-historia-podre-do-criacionismo/
      Dizer que “acredita numa inteligência que criou tudo” é meramente um sinônimo para deus: primeiro porque parte da ideia de acreditar; segundo, que parte de uma inteligencia acima do constatável e que é epistemologicamente fora da ciência; e terceiro porque não sugere qual seria a identidade deste design, pois toda vez que pretendem defender uma tese que não seja religiosa cai em religião! Voce poderia me dizer o que ou quem seria o Designer autor do design encontrado na natureza?
      É muito bonito no papel o seu discurso Cavalcanti, mas impraticável! Seu friso não muda em absolutamente nada a essência da operação do movimento do design inteligente… comece olhando dentro da sua casa e veja Marcos Eberlin (presidente do Design Inteligente no Brasil): assumidamente criacionista, terra jovem e prega nas igrejas sobre design inteligente tal como faz Dembsky nas igrejas do Texas ou mesmo o Meyer do Discovery Institute que defende o D.I como deus.
      Conheço esta citação de Behe, alias, ela ronda na internet porque eu expus ela primeiramente no blog há anos. Ainda sim, Behe foi questionado em 2005 sobre o caráter científicos de suas alegações e foi obrigado a assumir diante de Eric Rostchild que seus exemplos de complexidade irredutível eram fruto da sua falta de leitura na literatura cientifica e claro, o próprio Behe hoje anda cercado dos missionários cristãos do design inteligente e não deu continuidade a uma carreira realmente cientifica que buscasse maneiras experimentais ou intelectuais e publicações para tornar sua tese científica ou ao menos um argumento filosófico palpável. Behe pode até ser uma pessoa que esteja aberta a ver o autor do suposto design como algo não religioso, mas caminha ao lado dos criacionistas, assessorado por ele que se apropriaram e catequizaram sua tese.
      Sinto muito, mas o d.i é sim uma plataforma religiosa que nega a teoria da evolução e vende como fato uma crença, se encaixando em pseudociência.

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