O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO DURANTE I GUERRA MUNDIAL.

A humanidade promoveu a maior revolução científica jamais vista durante o século XX, especialmente entre 1914 a 1945, um período de 30 anos que corresponde ao começo da I Guerra Mundial e o final da II Guerra Mundial. Evidentemente, a Guerra Fria também promoveu conquistas tecnológico-científicos importantes – especialmente durante a corrida espacial. Contudo, o custo desta conquista foi uma enorme destruição no mundo.

Kurze Marinekanone 14 L / 12 conhecido como “Big Bertha” atuou entre 1914 e 1918

Durante a I Guerra Mundial, grande parte do desenvolvimento científico-tecnológico esteve associado a ações bélicas, mas muito do que foi descoberto foi popularizado e faz parte de nosso cotidiano. Outras descobertas sequer foram feitas para a guerra e sim adaptadas para ela. Por exemplo, a cientista polonesa Marie Curie (1867-1934) trabalhou no serviço médico francês, montando e administrando serviços de radiologia; o sonar dos navios para detectar submarinos foi originalmente desenvolvido para detectar icebergs.

Para entender melhor o desenvolvimento científico na I Guerra Mundial é preciso antes entender o contexto histórico que ocorreu. Embora a I Guerra Mundial tenha ocorrido entre 1914 e 1918 as suas motivações começaram muito antes disto. Um dos motivos foi a Guerra Franco-Prussiana que ocorreu entre 1870 e 1871. Neste conflito a França havia perdido a região da Alsácia-Lorena. Alguns países estavam extremamente descontentes com a partilha da Ásia e da África, ocorrida no final do século XIX. Alemanha e Itália, por exemplo, haviam ficado de fora no processo neocolonial, mas a França e Inglaterra podiam explorar diversas colônias.

Havia também uma forte concorrência comercial entre os países europeus, especialmente quanto aos mercados consumidores. Esta disputa acabou gerando vários conflitos de interesses entre as nações e engatilhando uma rápida corrida armamentista. O potencial bélico dos países começou a criar um clima de tensão entre os países, com um país tentando se armar mais do que o outro e intimidando uns aos outros.

Evidentemente, os países europeus começaram a fazer pactos político-militares entre si desde o final do século XIX. O Reino Alemão estava se tornando uma potência econômica, mas possuía poucas colônias e então, resolveu aliar-se a outros reinos em uma frente conhecida como Tríplice Aliança (1882) formada pela por Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha. Do outro lado, a Tríplice Entente foi formada em 1907 e contava com a participação de França, Rússia e Reino Unido.

A guerra começou quando houve o assassinato de Francisco Ferdinando, príncipe do império Austro-Húngaro, durante sua visita a Sarajevo (atual Bósnia-Herzegovina). O Império Austro-Húngaro não aceitou as medidas tomadas com relação ao crime e declarou guerra à Servia. O Império Austro-Húngaro também disputava com a Rússia a região dos Balcãs começaram a se atacar. No sistema de tríplice, quanto um reino entrava em guerra os outros dois aliados também. Assim, quando o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Servia, os outros países entram na guerra também. Por isto, a Alemanha invadiu a França.

Para invadir a França os alemães tiveram que invadir a Bélgica, promovendo um grande massacre e isto fez com que a Inglaterra atacasse a Alemanha. Desta forma, todos os países europeus começaram a desencadear ataques entre si – exceto a Itália que abandonou o pacto com o argumento de que ele deveria ser defensivo. Posteriormente a Itália troca de lado e passa a apoiar os países da Tríplice Entende.

Assim, de um lado estavam os Alemães junto ao Império Austro-Húngaro e futuramente o Império Otomano e enquanto invadiam a França passaram a sofrer invasões da Rússia. As colônias africanas pertencentes aos reinos das duas tríplices também entraram em guerra entre si para auxiliar seus reinos.

Os japoneses também entraram na guerra contra a Alemanha, visando conquistar a China. A Austrália, Nova Zelândia e até a Índia apoiaram a Inglaterra e lutaram contra os alemães.

As batalhas desenvolveram-se em um primeiro momento com as invasões e posteriormente em trincheiras, com poucos avanços territoriais. Os soldados ficavam, muitas vezes, centenas de dias entrincheirados, lutando pela conquista de pequenos pedaços de território. A fome e as doenças também eram fortes inimigos. Para tirar soldados das trincheiras foram usadas bombas de gás, lança-chamas e tanques de guerra. Os aviões foram usados para mapear território inimigo e eventualmente guerrear entre si nos céus.

Em 1917 os Estados Unidos entraram no conflito visando defender acordos comerciais estabelecidos com Inglaterra e França. Ciente de que se seus aliados perdessem a guerra ele nunca receberia de volta o que havia financiado/investido então ajudou os países da tríplice entende a vencer.

Com a derrota os alemães tiveram que assinar o Tratado de Versalhes, que impunha a Alemanha e seus aliados fortes restrições e punições. Algumas delas era ter seu exército reduzido a no máximo 100 mil soldados; sua indústria bélica controlada; abrir mão da região do corredor polonês; devolver à França a região da Alsácia Lorena; além de “indenizar” os prejuízos da guerra dos países vencedores e de assumir que foram responsáveis pelo início da guerra. O Tratado de Versalhes teve repercussões na Alemanha, quebrando sua economia e destruindo o orgulho alemão – influenciando o início da II Guerra Mundial.

A I Guerra Mundial teve como saldo aproximadamente 15 milhões de mortos. O ano de 1917 ainda foi importante porque marcou a origem da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas por Vladmir Lenin que voltara da Alemanha e assumiria o país quebrado após revoltas desencadeadas pelo fim do czarismo. O fim da guerra também favoreceu a criação da Liga das Nações, uma espécie de antecessora da ONU, responsável por criar um espaço de diálogo entre as nações evitando novas guerras – e que evidentemente foi ignorado pela aliança que desencadeou a II Guerra Mundial.

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O desenvolvimento tecnológico

Vários cientistas mundialmente conhecidos viveram na época da I Guerra Mundial (1914-1918). Desde o início dos conflitos, muitos deles e tantos outros acadêmicos foram mobilizados por vários governos dos países a participar ativamente do conflito, percebendo que ali também havia uma guerra científica – uma corrida armamentista.

Albert Einstein e Max Planck contribuíram muito para o progresso tecnológico durante a I Guerra Mundial, além do químico britânico Francis William Aston (Prêmio Nobel de 1922), o químico belga Leo Baekeland, físico britânico Charles Glover Barkla (Prêmio Nobel de Física de 1922) e Marie Curie (1903 Prêmio Nobel de Física e 1911 Prêmio Nobel de Química). O progresso científico e tecnológico trouxe muitas inovações no setor industrial favorecendo a produção em massa e permitindo a modernização de armas e de tecnologias militares em geral.

Em 1916, Einstein elaborou sua teoria geral da relatividade, na qual descreveu o comportamento do campo gravitacional (a métrica espaço-tempo) de acordo com o conteúdo de energia e material. A teoria da relatividade, juntamente com os artigos de Einstein de 1905 e 1916, formam a base da física moderna. Após essas descobertas, Einstein voltou-se para a física quântica e, em 1917, usando apenas a teoria quântica, mostrou a consistência entre as estatísticas de absorção e emissão de luz pelos átomos e a lei de distribuição de Planck, uma ideia que serviu de base para a desenvolvimento do laser.

Todo esse desenvolvimento foi uma tendência que havia surgido cerca de cinquenta anos antes, ainda Guerra da Criméia (1853-1856), na Guerra Civil Americana (1861-1865), Guerra Anglo-Boer (1899-1902), Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) e nas Guerras dos Bálcãs (1912-1913) a partir do desenvolvimento de armas cada vez mais letais. Com as inovações tecnológicas nas armas e aumento no número de feridos houve também novos desenvolvimentos no tratamento médico.

As novas tecnologias bélicas e o alistamento de milhões de soldados deram uma dimensão maior, mais destrutiva e até então, exclusiva à I Guerra Mundial – entre 10 e 15 milhões de combatentes morreram neste conflito. Pelo número de mortos a guerra evidenciava não apenas alterações geopolíticas globais, mas uma mudança no padrão de armas usadas até então. Muitas delas eram absolutamente novas e agora poderiam ser produzidas em escala industrial. Para ilustrar isto lembremo-nos que os fuzis usados a partir de 1914 podiam disparar 20 balas por minuto, em vez de três, como ocorria em 1870.

Outro fator importante é que durante a I Guerra Mundial lutar à noite era especialmente improdutivo porque não havia como ver para onde se estava atirando. O combate noturno só foi facilitado com a invenção britânica de balas traçadoras – projéteis que emitiam pequenas quantidades de material inflamável e criavam uma trilha fosforescente. A primeira tentativa, em 1915, não era realmente tão útil, já que a trilha era “errática” e limitava-se a um alcance de 100 metros, mas com o aprimoramento os modelos seguintes (especialmente o SPG Mark VIIG, 303), emitia um tom esverdeado claro branco regular. Este tipo de munição logo se tornou popular porque apresentava um benefício colateral interessante do ponto de vista bélico: quando soldados atiravam em balões zepelins o rastro inflamável que criava entrava em contato com o hidrogênio que os inflava e que é um gás absolutamente inflamável. Ficou mais fácil explodir os balões de guerra.

PrimeiraI Guerra Mundial: Luneville, soldados franceses inspecionam um dirigível

Uma novidade desta guerra foi o desenvolvimento do “Big Bertha”, uma peça de artilharia fabricada para o exército alemão por Krupp em 1908. Sua finalidade era destruir as fortificações francesas a partir do lançamento de granadas diferenciadas que internamente carregavam explosivos. Cada munição deste armamento pesava mais de 800 quilos e facilmente poderiam atravessar paredes de 3 metros de espessura a uma distância curta – cerca de 14 quilômetros.

Houve também uma artilharia chamada de “Arma de Paris”, que se assemelha ao “Big Bertha”, mas que bombardeou Paris em 1918. Os alemães a usariam para abrir os portos ingleses, mas diante da inviabilidade do procedimento passaram a usá-la para aterrorizar o povo de Paris. A arma pesava 7 mil toneladas e tinha um alcance de 130 quilômetros. Durante a guerra, sua localização foi descoberta e foi bombardeada. A arma foi levada de volta para a Alemanha antes do final da guerra para ser desmontada, para que não pudesse ser usada pelos Aliados.

Em 1914, a “guerra de movimento” esperada pela maioria dos generais europeus se estabeleceu em uma guerra de trincheiras, com metralhadoras reforçando os tiros de rifle na defesa e milhares de mortos do outro lado quando tentavam atacar. Uma solução criada para invadir com mais facilidade foi a partir do desenvolvimento de um veículo que começou a ser idealizado nos anos 1900. Alimentado por um pequeno motor de combustão interna queimando diesel ou gás, o veículo era fortemente blindado e poderia avançar mesmo diante de algumas trincheiras. Acrescentou-se algumas armas pesadas e os pneus foram substituídos por esteiras metálicas com uma capa blindada para lidar com terrenos acidentados. Surgiu assim o primeiro tanque de guerra.

O primeiro tanque, o britânico Mark I, foi projetado em 1915 e foi o primeiro a ser usado em setembro de 1916. Os franceses logo seguiram o exemplo e desenvolveram o Renault FT com o visual clássico do tanque (torre no topo). Apesar de suas proezas posteriores no combate a tanques na Segunda Guerra Mundial, os alemães nunca conseguiram produzir grandes tanques na I Guerra Mundial, apesar de produzirem 21 tanques do modelo A7V.

Tanques tinham a capacidade de combinar poder de fogo e proteção contra o fogo inimigo, permitindo que os combatentes se aproximassem das trincheiras inimigas.

Foi o canadense Carleton J. Lynde que contribuiu para o desenvolvimento dos primeiros tanques de ataque britânicos a partir de seu trabalho sobre a resistência dos metais. Os britânicos foram os primeiros a inovar neste campo, criando o Comitê de Naves para modernizar o veículo. Sua inspiração para o sistema de locomoção veio de lagartas que permitia a movimentação em qualquer tipo de terreno. Embora eles pudessem atravessar trincheiras de 2,4 metros de largura apresentavam deficiências de design que prejudicavam certos avanços territoriais ou atirar. Esses primeiros tanques eram vulneráveis ​​aos tiros que vinham de seus cantos e muitas vezes desmontavam, consumiam muito combustível já que eram pesados e limitava seu alcance de ação. Os tanques Mark I foram usados ​​pelo exército britânico na Batalha do Somme, onde impressionaram os alemães, mas eram poucos e pouco confiáveis ​​para penetrar nas linhas inimigas. Eles se tornaram muito eficazes somente a partir da Batalha de Cambrai em 1917. Contudo, diante da contra-ofensiva de Amiens, dos 534 tanques que foram enviados para a batalha, a maioria ficou inutilizável depois de alguns dias devido ao grande peso (dezenas de toneladas), combustível para percorrer distâncias estratégicas, e pelo ritmo lento de deslocamento por causa de seu volume maciço e motores fracos.

A esquerda um tanque Mark I e a direita um Renault FT.

Para poder disparar em todas as direções, como as torres de armas de guerra, eles tinham que possuir uma grande tripulação de geralmente 18 homens. Diante dos problemas com os pesados ​​protótipos britânicos, o leve tanque francês FT-17 foi uma melhoria bem-vinda. Ele exemplificava o conceito de “soldado de infantaria blindado”, completo com uma torre de tiro giratória. Era uma máquina de ataque altamente eficaz. Pesava apenas 6,5 toneladas, era montado por uma metralhadora Hotchkiss de 8 mm ou por um canhão de 37 mm. A tripulação foi reduzida a dois homens, o artilheiro e o piloto.

Em março de 1917, 150 tanques FT-17 foram encomendados à fábrica da Renault, e o primeiro batalhão foi oficialmente formado em abril de 1918. Mais de 300 FT-17 foram usados pela primeira vez em maio de 1918, em Villers-Cotterêts, e foram usados ​​massivamente durante o contra-ataque dos Aliados em 1918.

O lança-chamas também foi uma novidade na I Guerra Mundial. Embora os bizantinos e chineses usassem armas que lançavam material flamejante no período medieval, o primeiro projeto de um lança-chamas moderno foi submetido ao exército alemão por Richard Fiedler em 1901, e testado pelos alemães em 1911. Seu verdadeiro potencial só foi realizado durante a guerra de trincheiras.

Depois de um ataque maciço nas linhas inimigas, não era incomum que os soldados inimigos se escondessem em bunkers e abrigos escavados na lateral das trincheiras. A guerra ficava muito restrita aos locais de trincheiras e nenhum dos dois exércitos avançava invadindo o território do outro, então o lança-chamas se tornou uma arma essencial para a movimentação das tropas.

Diferente das granadas, os lança-chamas podiam “neutralizar” soldados inimigos nesses espaços confinados sem causar danos estruturais, mantendo a integridade de bunkers que poderiam ser úteis para os novos residentes – diferente da granada que destruía tudo quando lançada. O lança-chamas foi usado pela primeira vez por tropas alemãs perto de Verdun em fevereiro de 1915.

Em contraste com as outras armas da I Guerra Mundial que haviam sido testadas nas guerras anteriores, os lança-chamas eram novidades. A arma, quando acionada, criava uma grande linha de gás ou líquido inflamado (gasolina ou nitrogênio) que alcançava as trincheiras e queimava os inimigos. Por ser um dispositivo portátil com um longo tubo conectado a um cilindro de transporte o lança-chamas abriu espaço para a guerra avançar.

Durante a I Guerra Mundial bombas de gás também foram usadas como arma de combate, um período chave para a escalada das técnicas que levam à guerra química moderna. Cloro, fosgênio, yperita e gás mostarda foram usados. Estima-se que 112 mil toneladas desses produtos químicos foram usadas para matar cerca de 500 mil soldados. Os franceses usaram gás lacrimogêneo na guerra desde o início, mas a Alemanha foi o primeiro país a adotar o uso sistemático de gás letal e incapacitante para forçar os soldados inimigos a deixar as trincheiras que ocupavam, apesar da Convenção Internacional de Haia proibir seu uso. Os alemães começaram usando o cloro gasoso em abril de 1915 e, posteriormente, ambos os exércitos usaram fosgênio e gás mostarda. Yperita, também foi usado pelos alemães a partir de 1917 em Ypres (daí seu nome).

O gás mostarda se destacou como um símbolo da guerra química devido a seus efeitos extremamente nocivos quando a exposição era longa o suficiente: bolhas na pele e hemorragia interna, danificando fortemente o trato respiratório, os olhos e destruía o tecido pulmonar. As vítimas sofriam muito e geralmente morriam após cerca de cinco semanas. Máscaras de gás distribuídas para proteger os combatentes foram continuamente atualizadas para enfrentar novas ameaças e diminuir os danos causados ​​por estes agentes químicos. No entanto, embora o gás tenha causado uma porcentagem relativamente “baixa” do total de mortes no combate na I Guerra Mundial (4%), essa arma permaneceu com um espectro temeroso em batalhas e uma importante fonte de ansiedade que agravou o trauma psicológico dos soldados.

Os alemães usaram em grande escala armas químicas em um ataque de gás às posições russas em 31 de janeiro de 1915, durante a Batalha de Bolimov, mas as baixas temperaturas congelaram o veneno (brometo de xililo).

Mas nem todo desenvolvimento tecnológico produzido nessa época foi associado as atividades bélicas. Marie Curie, por exemplo, trabalhou no serviço médico francês, montando e administrando serviços de radiologia.

Com milhões de soldados sofrendo ferimentos graves em guerra e correndo risco de vida, havia obviamente uma enorme necessidade de desenvolvimento de um facilitador de diagnósticos médicos, e a radiografia foi a solução. Contudo, as maquinas de radiografia eram enormes e delicadas demais para ser movidas constantemente até próximo dos campos de batalha. Marie Curie começou a trabalhar no desenvolvimento de estações de raios-X móveis para os militares franceses logo após estourar a guerra. Em outubro de 1914 ela instalou máquinas de raios X em vários carros e pequenos caminhões que percorriam estações cirúrgicas menores. Até o final da guerra, havia 18 desses “carros radiológicos” ou “Little Curies” em operação. Posteriormente, o inventor afro-americano Frederick Jones desenvolveu uma máquina de raios-X portátil ainda menor em 1919 (Jones também inventou unidades de refrigeração, unidades de ar condicionado e o cortador de grama a gasolina com arranque automático).

A I Guerra Mundial viu também o surgimento da moderna cirurgia reconstrutiva, liderada pelo cirurgião neozelandês Harold Gillies. A prática surgiu também graças a demanda criada pelas vítimas de guerra, principalmente com danos faciais causados ​​por ferimentos a bala. Gillies convenceu o Corpo Médico do Exército Britânico a dedicar um hospital inteiro em Sidcup, Kent, para a reconstrução facial onde mais de 5 mil pacientes foram tratados.

Walter Yeo, um marinheiro que perdeu as pálpebras na batalha de Jutland, é frequentemente descrito como o primeiro a se beneficiar de uma cirurgia plástica avançada. Gillies realizou um enxerto de pele, introduzindo as abas da pele de áreas não danificadas para reconstruir as pálpebras de Yeo. Embora muitos cirurgiões plásticos resistissem à pressão de realizar operações cosméticas após a guerra, foi inevitável que a prática se desenvolvesse. Em 2013, cerca de 11 milhões de procedimentos cosméticos foram realizados nos EUA, em uma indústria avaliada em US$ 12 bilhões.

Walter Yeo

Outro benefício da guerra foram as transfusões de sangue. Elas já ocorriam desde antes da guerra, mas estas eram diretas de doador para receptor, pois não havia como armazenar sangue. Os médicos já tinham noção da necessidade de compatibilidade dos tipos sanguíneos, e muitos soldados feridos morriam por causa da falta de um doador adequado. Peyton Rous, do Rockefeller Institute em Nova York, procurou maneiras de preservar sangue fresco e descobriu que uma solução salina faria o trabalho, com a adição de citrato de sódio para evitar a coagulação e a dextrose como fonte de energia.

O capitão Oswald Robertson levou a nova solução para o Corpo Médico do Exército dos EUA na Bélgica em 1917. Soldados no acampamento eram doadores dispostos e frascos de sangue podiam ser armazenados em uma caixa de gelo portátil por até 28 dias. O sangue armazenado foi usado em cirurgia no campo de batalha e foi creditado como salvando muitas vidas. Este foi o primeiro banco de sangue e preparou o caminho para as modernas técnicas de armazenamento de sangue.

Durante as décadas que precederam a I Guerra Mundial – como a Revolução Industrial – o progresso nos métodos metalúrgicos e de construção possibilitaram a construção de motores cada vez mais potentes, beneficiando a indústria naval. Isto significava que navios de guerra e cruzadores se tornavam maiores e mais rápidos, com proteção blindada mais eficiente e melhor poder de fogo com artilharia de longo alcance. As frotas inimigas poderiam entrar em batalhas deixando uma distância maior entre eles.

Na Grã-Bretanha, o lançamento do HMS Dreadnought em 1906 representou a revolução na construção de navios de guerra, deixando um marco na história da tecnologia bélica. Além disso, a Grã-Bretanha possuía a frota de superfície mais poderosa do mundo e a Alemanha, por outro lado, concentrou-se particularmente no desenvolvimento de submarinos.

A guerra no mar era uma prioridade importante para ambos países e como dependiam fortemente das importações, cada um impôs um bloqueio ao outro assim que a I Guerra Mundial começou. O bloqueio da Marinha Real aos portos da Alemanha incitou o país a aumentar ainda mais sua frota de submarinos, os U-boats, desencadeando a Batalha do Atlântico, que culminou em eventos que levaram os Estados Unidos à guerra.

Submarino costeiro UC-1

Submarino alemão

Os avanços na construção naval e armamento naval estavam fortemente em evidência na Batalha da Jutlândia em 1916 e os alemães logo foram prejudicados pela capacidade dos inimigos em detectar seus submarinos e isto só foi possível graças ao físico nascido em Newfoundland Robert William Boyle que contribuiu para o desenvolvimento do primeiro sistema de detecção de ultrassom usado pelos navios britânicos em 1918, um protótipo de sonar. O trabalho do físico francês Paul Langevin em 1917, também foi crucial nesse aspecto. O sistema de detecção, combinado com o aumento da eficácia da arma, melhorou muito os resultados na localização dos submarinos.

Para localizar o U-boat a partir de ondas sonoras foi necessário um microfone que pudesse funcionar embaixo d’água. Surgiu então o hidrofone, criado em 1914 por Reginald Fessenden, um inventor canadense que começou a trabalhar na ideia como uma maneira de localizar icebergs e evitar desastres como o do Titanic em 1912. Contudo, seu uso era limitado porque não podia dizer a direção de um objeto submerso, apenas a distância. O hidrofone foi aprimorado ainda mais pelo francês Paul Langevin e pela russa Constantin Chilowsky, que inventaram um transdutor de ultrassom baseado em piezoeletricidade, ou a carga elétrica em certos minerais: uma fina camada de quartzo entre duas placas de metal respondia a pequenas mudanças na pressão da água resultante de ondas sonoras, permitindo ao usuário determinar tanto a distância quanto a direção de um objeto submerso.

Os hidrofones atuavam então, como microfones subaquáticos direcionais dependes do ruído do submarino – e um subwoofer estacionário pode ser silencioso. Então, o sonar criado pela Divisão Anti-Submarino da Marinha Britânica nada mais era do que um aparelho de eco subaquático usando ultrassom – que foi batizado com o nome de ASDIC.

O ASDIC ainda estava em forma de protótipo até o final da primeira guerra mundial, mas logo evoluiu para um sonar mais sofisticado importante para a II Guerra Mundial. A mesma tecnologia deu origem, posteriormente, à ultrassonografia.

O hidrofone reivindicou sua primeira vítima no U-boat em abril de 1916. Uma versão posterior aperfeiçoada pelos americanos poderia detectar U-boats até 25 milhas de distância.

Os submarinos – especialmente os alemães – eram uma grande ameaça durante a I Guerra Mundial e chegaram a afundar cerca de 5 mil navios franceses. Munição de profundidade foram desenvolvidas para atacá-los, e na corrida armamentista o grande desafio estava em localizar o submarino submerso.

A campanha alemã de submarinos contra os países da Triplice Entende afundou milhões de toneladas de carga e matou milhares de marinheiros e civis, forçando esses países a elaborar uma maneira de combater a ameaça que eram os submarinos. Além do sonar houve também o desenvolvimento das cargas de profundidade: basicamente uma bomba submersa que podia ser lançada do convés de um navio usando uma catapulta ou calha. As cargas de profundidade foram ajustadas para disparar a uma certa profundidade por uma pistola hidrostática que mede a pressão da água, assegurando que a carga de profundidade não danificaria os navios de superfície, incluindo o próprio navio lançador. Depois que a ideia foi esboçada em 1913, a primeira carga de profundidade prática, o Tipo D, foi produzida pela Torpedo e Escola de Minas da Marinha Real em janeiro de 1916. O primeiro submarino alemão afundado pela carga de profundidade foi o U-68 em 22 de março de 1916.

Muito do que foi desenvolvido nessa época foi graças a guerra – como a aviação – e serviram para aprimorar a atividade militar. Embora Santos Dumont ou os irmãos Wrigth não fossem cientistas propriamente ditos, a necessidade de melhores máquinas fez com que cientistas fossem recrutados para desenvolver projetos de aeronaves, o que resultou em progresso da aerodinâmica, metalurgia e meteorologia.

O primeiro voo feito na história usando um aparelho para esta finalidade foi feito em 1903 com os irmãos Wright ao colocar o Flyer sobre os trilhos e alçar voo. Contudo, o primeiro voo feito com um aparelho que alçava voo de maneira autônoma/independente – sem trilhos – foi o 14Bis do brasileiro Santos Dumont, em 1906. Os irmãos Wright só revelaram seu voo após o feito de Santos Dumont e não anteriormente, pois tinham receio de que sua invenção fosse copiada – o que gera uma enorme discussão a respeito de quem é reconhecido como o autor do primeiro avião. Posteriormente, os irmãos ainda fizeram voos, porém sem curvas e as aterrissagens eram em forma de queda – sendo uma delas destruindo o motor em ventos fortes. Só em 1908 os irmãos Wright fizeram um voo de mais de 100 km na França.

Neste sentido, o 14Bis foi o primeiro aparelho autônomo, que alçou voo de modo independente, sem auxílio de qualquer aparato e aterrissou de forma segura. Em 1907 o 14Bis fez seu último voo e após tentar estabilizar a aeronave em um voo ele também se chocou contra o chão. Dumont resolveu utilizar as peças do 14bis em outros projetos de aviação.

Na guerra, para superar a força de artilharia de seu adversário, ambos os lados da guerra rapidamente buscaram técnicas de reconhecimento eficazes para localizar posições inimigas para poder apontar seus ataques com mais precisão. Isso foi feito inicialmente pelos dirigíveis, mas logo foram ultrapassados ​​pelos primeiros aviões de guerra, que, embora ainda estivessem no estágio preliminar, eram mais rápidos, aerodinâmicos, manobráveis ​​e menos visíveis do que os enormes zepelins. Além disso, as aeronaves poderiam carregar e soltar bombas nas linhas inimigas.

Os aviões existiam há apenas uma década quando a I Guerra Mundial começou, e embora eles tivessem um potencial óbvio para aplicações de combate como uma plataforma aérea para bombas e metralhadoras, não estava claro como a última iria funcionar, já que as pás da hélice estavam no meio do caminho. Na primeira tentativa, o Exército dos EUA basicamente amarrou a arma no avião (apontando para o chão) com uma sinta de couro, e foi operado por um artilheiro que estava sentado ao lado do piloto. Esta não era uma posição ideal para combate aéreo e inconveniente porque exigia que dois aviadores operassem. Outra solução era montar a arma bem acima do piloto, de modo que as balas desviassem das pás da hélice, mas isso dificultava a pontaria. Depois que o engenheiro suíço Franz Schneider patenteou sua ideia de um trem de pouso em 1913, uma versão final foi apresentada pelo designer holandês Anthony Fokker, cujo “sincronizador”, centralizado acoplado ao eixo da hélice, permitiu que uma metralhadora disparasse entre lâminas da hélice enquanto girava. Os alemães adotaram a invenção do Fokker em maio de 1915, e os países Aliados logo produziram suas próprias versões. Schneider mais tarde processou a Fokker por violação de patente.

A primeira batalha aérea da história ocorreu em outubro de 1914, quando um avião alemão foi abatido por dois pilotos franceses. A partir de então, os confrontos diretos entre aeronaves inimigas tornaram-se frequentes, facilitados por uma grande inovação tecnológica: a instalação de metralhadoras que disparavam balas através das hélices. Foi o nascimento do avião de combate.

A eficácia da aviação na guerra foi confirmada em 1917 quando houve uso mais amplo de aeronaves na última parte do conflito. Aviadores franceses como Georges Guynemer e René Fonck tornaram-se heróis lendários, assim como seus colegas alemães, Manfred Von Richthofen (o “Barão Vermelho”) e Hermann Goering, em seu próprio país.

Os britânicos foram os primeiros a criar uma corporação aérea separada que não estava sob o comando do exército terrestre: a Força Aérea Real. Na primavera de 1918, o exército francês criou a 1ª Divisão Aérea, composta de várias centenas de aviões de combate e bombardeiros. Aeronaves aliadas conseguiram interromper a ofensiva terrestre alemã na Segunda Batalha do Marne, mudando a guerra.

O bombardeamento aéreo intensificou-se com o desenvolvimento de aviões bimotores e de quatro motores capazes de transportar cargas pesadas. Esta inovação beneficiou principalmente os Aliados, permitindo-lhes ganhar claramente a vantagem na guerra aérea. Os alemães tendiam a usar dirigíveis, incluindo zepelins para o bombardeio de Paris e Londres.

Acima: Handley Page O/400. Abaixo: um Farman F60 Goliath

Com o desenvolvimento de aeronaves maiores e com múltiplos motores na I Guerra Mundial, as primeiras companhias aéreas foram sendo criadas.

A série Handley Page O foi construída para atacar a Alemanha, em parte em resposta aos ataques do zepelim em Londres. Eles poderiam carregar uma carga de bombas impressionante para seu tempo – 16 bombas de 112 libras. Mais de 500 bombardeiros Handley Page O/400 foram produzidos e, após a guerra, alguns foram convertidos para uso de passageiros. Os tanques de combustível, que ocupavam a fuselagem, foram transferidos para o compartimento de bombas e substituídos por 14 assentos de madeira. As comodidades eram básicas, embora os passageiros tivessem um item não disponível nas linhas aéreas modernas – um paraquedas.

A Handley Page Transport Company realizou vôos programados entre Londres e Paris e várias outras rotas, viajando a menos de 100 milhas por hora a 8.000 pés. O alemão Farman F60 Goliath, também projetado como bombardeiro, também foi convertido para uso de passageiros após a guerra e transportado por quatro linhas aéreas francesas.

Nos primeiros vôo, uma vez que um avião deixava o solo, o piloto estava praticamente isolado do mundo terrestre, incapaz de receber qualquer informação além de sinais óbvios usando bandeiras ou lâmpadas. Isso mudou graças aos esforços do Exército dos EUA, que instalou os primeiros rádios bidirecionais operacionais em aviões durante a Grande Guerra. O desenvolvimento começou em 1915 em San Diego, e em 1916 os técnicos podiam enviar um telégrafo de rádio por uma distância de 140 milhas (225 quilômetros); mensagens de radiotelegrafia também foram trocadas entre aviões em voo. Finalmente, em 1917, pela primeira vez, uma voz humana foi transmitida por rádio de um avião em voo para um operador no solo.

A primeira vez que um avião foi lançado a partir de um navio em movimento foi em maio de 1912, quando o comandante Charles Rumney Samson pilotou um biplano de curto alcance S.27 de uma rampa no convés do HMS Hibernia em Weymouth Bay. Contudo, o Hibernia não era um porta-aviões, uma vez que os aviões não podiam pousar no convés; eles tiveram que pousar na água e depois serem puxados para dentro do navio, retardando consideravelmente todo o processo. O primeiro porta-aviões real foi o HMS Furious, que começou como um cruzador de 786 pés de comprimento equipado com duas armas de 18 polegadas – até que os designers navais britânicos descobriram que essas armas eram tão grandes que poderiam quebrar o navio em pedaços. Procurando outro uso para a embarcação, eles construíram uma longa plataforma capaz de lançar e aterrissar aviões. Para ter mais espaço para decolagens e aterrissagens, os aviões foram armazenados em hangares sob a pista. O Comandante do Esquadrão, Edward Dunning, tornou-se a primeira pessoa a pousar um avião em um navio em movimento quando ele pousou um Sopwith Pup on the Furious em 2 de agosto de 1917.

Edwin Harris Dunning pousando seu biplano Sopwith Pup no HMS Furious

O primeiro drone sem piloto foi desenvolvido para a Marinha dos EUA em 1916 e 1917 por dois inventores, Elmer Sperry e Peter Hewitt, que originalmente o projetaram como uma bomba aérea não tripulada. Basicamente, era um protótipo de míssil de cruzeiro que media cerca de 18,5 pés de largura, com um motor de 12 cavalos. O Hewitt-Sperry Automatic Aircraft pesava 175 libras e foi estabilizado e “pilotado” com giroscópios e um barômetro para determinar a altitude. O primeiro voo não tripulado da história ocorreu em Long Island em 6 de março de 1918. No final, a técnica de voo era muito imprecisa para ser útil contra navios durante a guerra. Só houve maiores ajustes quando se investiu em controle remoto de rádio e assim continuou por vários anos após a guerra, até que a Marinha perdeu o interesse em 1925.

Na I Guerra Mundial os veículos motorizados desempenharam um papel importante. A Ford, por exemplo, produziu e forneceu 390 mil caminhões ao Exército dos Estados Unidos em 1917, e como não podiam se mover sem pneus, a partir de 1914, um bloqueio dos Aliados cortou o fornecimento de borracha natural da Alemanha do sudeste asiático.

Drone (avião não tripulado) Hewitt-Sperry Automatic Aircraft

A indústria química alemã enfrentou a escassez desse material. A divisão farmacêutica da Bayer que vinha experimentando alternativas desde 1910 viu na guerra a possibilidade de iniciar a produção em larga escala da borracha metílica – os químicos da Bayer elaboraram uma maneira de fazer esse substituto sintético da cal e do carvão.

A borracha sintética não era tão boa quanto o produto natural porque os pneus eram totalmente sólidos e a borracha sintética se tornava macia apenas quando era aquecida; se ficasse frio durante a noite, os pneus ficariam com pontos achatados causando acidentes. Apesar de ser um substituto limitado, milhares de toneladas de borracha sintética foram produzidas e mantiveram o exército alemão em ação. O esforço também deu início a uma indústria que atualmente é responsável por suprir a maior parte da demanda por borracha no mundo.

Em 1851, o primeiro cabo telegráfico submarino foi posto entre Dover (Inglaterra) e Cap Gris-Nez (França), usando uma técnica alemã desenvolvida pela Siemens para isolar uma linha elétrica na água do mar. A conexão foi interrompida quando um navio de pesca avistou o cabo e o arrastou até a superfície, mas o desafio foi colocado e mais tentativas seguiram em sucessão contínua. Em 1869, a França lançou seu primeiro cabo transatlântico entre Brest e Saint-Pierre e Miquelon, as ilhas francesas na costa sul da Terra Nova.

A Grã-Bretanha, por sua vez, colocou milhares de quilômetros de linhas telegráficas elétricas submarinas para criar uma rede mundial sem precedentes ligando quase todas as partes de seu império. Inaugurada em 31 de outubro de 1902, a All Red Line deve seu nome à cor que habitualmente designava os territórios do império em mapas políticos mundiais.

A Grande Guerra foi o primeiro grande conflito em que as telecomunicações militares e diplomáticas foram amplamente utilizadas e ganharam grandes dimensões tática. As telecomunicações eram vitais na transmissão de mensagens entre diferentes unidades do exército durante as manobras.

Pombos-correio eram usados por apresentarem bom desempenho nas mensagens de retransmissão, foram amplamente utilizados na Grande Guerra. No entanto, eles só podiam ser manipulados por pessoal especialmente treinado e sua confiabilidade era incerta, já que podiam ser desorientados pelas explosões de granadas, barragens de artilharia e disparos em geral.

Contudo, também foram montados sistemas de telégrafos para se comunicar com as colônias, com os Aliados, navios no mar e com todos os postos de comando. Mesmo a Torre Eiffel foi uma estrutura de grande importância estratégica, na medida que sua altura permitia que cabos fossem colocados para permitir que o alto comando se comunicasse com as unidades da linha de frente.

Milhares de quilômetros de cabos cobriam as redes de trincheiras e as comunicações eram freqüentemente interrompidas porque os cabos ficavam do lado de fora das trincheiras e vulneráveis ​​a danos causados ​​por explosões. Mesmo enterrá-los o mais profundamente possível não garantia que não fossem destruídos por bombas. Colocar esses cabos e fazer os frequentes reparos necessários para eles era um trabalho altamente perigoso que exigia inúmeras vítimas.

Além disto, as comunicações – essencialmente rádio sem fio – entre os chefes de equipe, os postos de comando e as linhas de frente podiam ser facilmente interceptadas. Havia uma necessidade urgente de desenvolver meios para impedir que informações essenciais e planos táticos vazassem. Os objetivos eram evitar que o inimigo descobrisse suas manobras futuras e quais eram suas ações planejadas e enviar-lhe desinformação. Nesse contexto, a ciência negligenciada da criptologia, o estudo de códigos e cifras, tornou-se estrategicamente importante.

Em 2 de junho de 1918, ele conseguiu decifrar o código alemão usado para comunicar os preparativos para um ataque a Compiègne, ao norte de Paris, marcado para 9 de junho. O sucesso de Painvin permitiu aos franceses realizar uma contra-ofensiva eficaz.

No começo da I Guerra Mundial os rádios eram de grandes dimensões. O menor sistema móvel do Exército dos EUA era formado por um conjunto de aparelhos rádio que ocupava dois baús de madeira. Todo o arranjo, incluindo um gerador de manivela, exigia três mulas para carregá-lo.

Durante a guerra, o rádio tornou-se menor, mais leve e melhor para filtrar a estática para uma recepção clara. Os comandantes logo apreciaram o potencial da comunicação por rádio em terra, no mar e até no ar. Um relatório oficial descreveu um novo radiofone para aeronaves como “uma das realizações mais espetaculares de toda a guerra”.

Em particular, empresas como a AT & T – em colaboração com o Signal Corps – fizeram grandes avanços na fabricação de válvulas, e a indústria americana estava produzindo um milhão por ano em 1918. Melhores válvulas significavam receptores menores e transmissores mais potentes, abrindo caminho para uma nova tecnologia de transmissão de rádio popular depois da guerra.

Mesmo antes da guerra, os alemães perceberam que o domínio naval britânico interromperia o suprimento estratégico. Poucos materiais eram mais estratégicos do que o salitre usado para fabricar explosivos, que foi importado como calcita extraída no Deserto do Atacama, no Chile.

Químicos alemães descobriram que explosivos poderiam ser feitos sem salitre se pudessem sintetizar amônia. Fritz Haber conseguiu realizar o processo químico: combinou hidrogênio (do gás natural) e nitrogênio atmosférico para produzir amônia. O processo Haber-Bosch requer altas temperaturas e pressão, mas é eficaz e, em 1913, a BASF montou uma fábrica que produz 30 toneladas de amônia por dia.

O processo permitiu que a Alemanha travasse uma guerra sem acesso a suprimentos de salitre. A amônia também é um ingrediente-chave na fabricação de fertilizantes à base de nitrato e, segundo algumas estimativas, o processo Haber-Bosch agora alimenta cerca de um terço da população mundial. O próprio Haber ganhou um prêmio Nobel por seu trabalho, embora também fosse o homem por trás do uso militar do gás cloro.

As mulheres tradicionalmente improvisaram todos os tipos de roupas intimas descartáveis ​​ou laváveis ​​para lidar com o período menstrual. Mas o absorvente higiênico moderno como conhecemos foi possível graças à introdução de novo material de bandagem de celulose durante a I Guerra Mundial. Não demorou muito para que as enfermeiras francesas descobrissem que as ataduras de celulose limpas e absorventes eram muito superiores a quaisquer antecessores. Enfermeiras britânicas e americanas aprenderam o hábito e a América corporativa não ficou muito atrás: em 1920, a Kimberly-Clark lançou o primeiro absorvente comercial, Kotex (que é “algodão” + “textura”). Foi difícil no começo, já que nenhuma publicação teria anúncios para tal produto. Somente em 1926 a Montgomery Ward quebrou a barreira, carregando guardanapos Kotex em seu catálogo popular.

Em meados do século XIX, o governo francês, consciente do potencial da fotografia de guerra, criou um serviço especial dentro do exército. Ao mesmo tempo, a preservação das fotografias foi assegurada por seu depósito legal na Bibliothèque Nationale a partir de 1851. Esse reconhecimento institucional da importância da fotografia documental repercutiu em vários outros países e teve consequências na guerra.

Como conseqüência ao interesse pela fotografia, em 1898, os primeiros jornais pictóricos apareceram na França com o semanário La Vie illustrée e as bimensais Lectures pour tous, e na Inglaterra em 1904, com o The Daily Mirror.

As notícias com fotografia começaram a se espalhar na Alemanha principalmente através da atividade do Dr. Erich Salomon (1886-1944), um fotógrafo e o primeiro a se designar como fotojornalista, assinando suas impressões. O repórter americano Jacob Riis foi o primeiro jornalista profissional a produzir verdadeiras reportagens fotográficas no final do mesmo século.

O progresso tecnológico, incluindo a invenção do rolo de filme em 1884 aumentou o interesse pelos vários usos da fotografia. Em 1914, a primeira imagem para uma reportagem foi transmitida por um belinógrafo, que era um dos primeiros processos de telefonia semelhante ao celular. Esta era uma fotografia da I Guerra Mundial.

O papel da fotografia passou a ser narrar a Grande Guerra logo que o conflito começou. As autoridades militares controlaram a captura e a divulgação de imagens, regulando o uso de câmeras e tornando-a obrigatória a obtenção de permissão oficial para entrar nas zonas de guerra. Na França, na primavera de 1915, os ministérios da guerra, relações exteriores, educação e belas artes criaram a seção de fotografia do exército cujo objetivo era combater a propaganda alemã nos países neutros e criar uma fonte documental para o uso do exército e, acima de tudo, um fundo de arquivo. A fotografia também passou a servir o discurso patriótico e encorajar o esforço nacional de guerra. No entanto, a equipe de fotografia do exército era composta por apenas seis fotógrafos profissionais.

O equipamento era pesado, restrito pelo movimento e dificultando a captura de cenas de combate. A grande maioria das fotografias oficiais eram da rotina diária de soldados nas trincheiras entre os ataques. Junto com fotografias, um filme sobre a guerra, “A Batalha do Somme”, atraiu muita atenção. Este documentário de 1916 (que incluiu algumas cenas encenadas) foi filmado por dois cinegrafistas oficiais do governo britânico, Geoffrey Malins e John McDowell e foi lançado em Londres em 10 de agosto de 1916, o filme mostrava o exército britânico na época do início da batalha. Seu objetivo era dar ao público uma ideia de guerra de trincheiras e as atividades da infantaria. Capturou imagens do bombardeio de posições alemãs, tropas britânicas esperando o sinal para atacar, tratamento médico de soldados britânicos e alemães feridos, britânicos mortos, equipamentos alemães e suas posições. Uma cena em que as tropas britânicas se agacharam em uma vala e depois “passar por cima” foi encenada para a câmera atrás das linhas.

O filme foi um grande sucesso e mais 20 milhões cidadãos britânicos se reuniram para assisti-lo durante os primeiros seis meses após sua estreia sendo, posteriormente, distribuído em 18 outros países

Victor Rossetti

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Referências

Descobertas foram usadas nas Guerras Mundiais. SBPC/Labjor. Brasil. 2002
Sass, E. 12 Technological Advancements of World War I. Mental Floss. 2017
Canopé. Technological And Scientific Progress During The First World War.
Hambling, D. 7 Scientific Advances That Came out of World War I. Popular Mechanics. 2017

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Referências complementares

Arlandis, Fanny, “Pourquoi il n’existe pas de photo vraiment emblématique de la Première Guerre mondiale en France,” online article on the Slate website.
Audoin-Rouzeau, Stéphane, “Le temps des soldats couchés,” L’Histoire, No. 61: 14–18. La catastrophe, October, 2013.
Gingras, Yves, “L’impact de la Grande Guerre sur les sciences au Canada,” in Robert Gagnon, Yves Gingras, proceedings of the colloquium Le Canada et la France dans la Grande Guerre, to be published in 2015.
Guillot, Hélène, “La Section photographique de l’armée et la Grande Guerre: De la création en 1915 à la non-dissolution,” Revue historique des armées, No. 258, 2010, pp. 110-117.
Guillot, Hélène, “Le métier de photographe militaire pendant la Grande Guerre,”Revue historique des armées, No. 265, 2011, pp. 87-102.
Huyon, Alain, “‘La Grosse Bertha’ des Parisiens,” Revue historique des armées, No. 253, 2008, pp.111-125.
Izoulet, Matthieu, and Bouville, Laurent, “La cryptographie. Évolution et algorithmes”, licence Informatique de l’université Nice-Sophia-Antipolis, [2002 ?], online Word document on: http://deptinfo.unice.fr
Larribau, Timothée, “L’aviation militaire de 1914–1918,” online article on the website Scribium.

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