A PROLIFERAÇÃO DA ANTICIÊNCIA E PSEUDOCIÊNCIA A PARTIR DO APARELHAMENTO DO ESTADO BRASILEIRO.

Um terreno adubado com superstição, jogo de poder, negação e auto-vontade leva ao envenenamento intelectual-científico da nossa nação. Aqui vamos dar um exemplo para a categoria de anticiência e pseudociência que evidencia os prejuízos que a ciência brasileira passará nos próximos anos.

A chegada de Jair M. Bolsonaro (PSL) ao Governo Federal contou claramente com o apoio de dois setores públicos da sociedade: um grupo que oferece apoio do militarismo findado em um saudosismo de época de ordem idealizada. Sendo o modo de atuar dos militares caracterizado justamente pelo pensamento binário – amigo ou inimigo; e o apoio do setor evangélico neo-pentecostal e crenças variáveis – inclusive católicas – que também pensam de certa forma, de modo binário – deus ou diabo.

Associado a uma ideologia – que por definição limita o modo de livre pensar prendendo-nos a uma cosmovisão maniqueísta – e munido de um discurso moralizante é evidente que tanto o poder político quando o religioso compartilham de um mesmo desejo, o poder absoluto do povo. Se por um lado o líder político quer eleitores que não sejam críticos ou intelectualmente emancipados e desejam que o povo cultue alguma forma de liderança, do outro está o poder religioso fornecendo um reforço positivo a este modo de pensar a partir do discurso messiânico.

O cristianismo é caracterizado pelo ato de pastorear ovelhas. A função do sacerdote cristão é pastorear suas “ovelhas” fieis nos caminhos de cristo Jesus e tal devoção absoluta do crente é justamente que faz do público evangélico o mais fácil de se manipular – inclusive para fomentar a crença de um enviado de deus e cultua-lo como manifestação quase divina – daí o nome de “mito”.

Não digo que o governo de Jair Bolsonaro seja teocrático ou mesmo uma democracia cristã, mas parece delinear-se dentro de uma perspectiva populista, e como tal tem se adequado ao modelo religioso que mais interessa ao brasileiro. A razão mais evidente disto é seu slogan “Deus acima de tudo”, sua presença constante em cultos da igreja Universal do Reino de Deus, sua relação com o pastor Silas Malafaia, sua presença na Marcha para Jesus, suas justificativas moralizantes envolvendo censura em produções cinematográficas e o claro aparelhamento do Estado, distribuindo cargos para militares e evangélicos.

Bolsonaro não é evangélico, mas serve aos interesses evangélicos tal como os evangélicos servem a sua manutenção de poder. Nessa relação ganha-ganha, são as produções laicas que saem prejudicada, em especial aqui para nós, aquelas referentes a ciência: educação, ambiente e produção acadêmica de conhecimento.

É evidente para qualquer profissional com licenciatura bem formado, ambientalista consciente e politizado ou cientista crítico, percebe que o governo de Bolsonaro tem sucateado estes setores e dado brechas a produção pseudocientífica além de fomentar claramente anticiência.

Como – infelizmente – o empreendimento científico está obrigatoriamente vinculado a educação, ambiente, saúde eles estão sujeitos a sofrer nas mãos de pressões políticas e ideológicas. Por isto nossa discussão aqui obrigatoriamente esbarra nestes pontos.

Pensando nisto, nos parece evidente que a pseudociência/anticiência tem sido altamente promovida e favorecida no governo atual e evidentemente, a principal dificuldade está em definir o que é o governo Bolsonaro – o que é natural uma vez que vivemos influenciado por ele neste momento.

Somente quando a onda se for é que poderemos refletir com mais calma sobre sua passagem. Portanto, a sociologia só vai compreender o que vivemos atualmente daqui uns 20 anos – tal como somente hoje conhecemos o que foram os regimes stalinismo, fascismo, nazismo, getulismo e a psicologia social envolvida neles.

Contudo, os termos pseudociência e anticiência são bem definidos e nos permitem fazer uma reflexão sobre como tem se expandido no atual contexto.

Em filosofia da ciência consideramos que: pseudociência é entendida como discursos com aparência científica que muitas vezes sequer podem ser submetidos ao crivo da experimentação, mas que partem de falsas premissas e/ou que não usam métodos rigorosos de pesquisa; e que anticiência é definida por indivíduos ou instituições que fazem afirmações se posicionando de forma subjetiva acima de evidências científicas.

Ambos os casos ganharam campo e legitimação no governo Bolsonaro de forma bastante clara. Como exemplos de anticiência temos: 1) a recente rejeição dos dados produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre o monitoramento da Amazônia; 2) a rejeição dos dados da pesquisa feita sobre drogas pela FIOCRUZ; 3) o corte de 30% no setor da educação que evidentemente prejudicará tanto a questão ambiental quanto a alfabetização científica; 4) os cortes de investimento em pesquisa e bolsas no CNPq prejudicando 80 mil pessoas; 5) o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles que assumiu não se pautar em artigos científicos quanto a questões ambientais; 6) corte de 26% dos investimentos no censo realizado pelo IBGE em 2020 que são indicadores sociais para o futuro do país. Todas estas são atitudes de desmantelamento da ciência nacional e rejeição a pesquisa produzida no país indicam claramente uma postura anticiência.

Em pseudociência temos principalmente a volta da discussão sobre o ensino do criacionismo em escolas públicas. É muito claro que pseudociências como o criacionismo/design inteligente ganharam força na administração Bolsonaro. Então, aqui nosso foco será a postura anticiência em relação a Amazônia e a crescente expansão do criacionismo/design inteligente.

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Amazônia – Uma agenda anticiência

Como diz o ditado popular “contra fatos não há argumentos”. E os fatos são claros, o desmatamento na Amazônia em Junho de 2019 foi 88% maior do que no mesmo período de 2018.

Entre o dia 1º a 30 de Junho, foram destruídos 920,4 km² de floresta amazônica no território brasileiro, contra 488,4 km² no mesmo mês em 2018. Os dados consolidados do mês foram inseridos no sistema Terra Brasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). No total, Junho de 2019 teve 2.903 alertas inseridos no Terra Brasilis, e 97% do desmatamento foi registrado em quatro estados (Pará 48,54% – Amazonas 20,01% – Mato Grosso 16,69% – Rondônia 10,81%).

O Terra Brasilis foi desenvolvido em 2015 pelo INPE e é alimentado com dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), um sistema de alerta que oferece suporte à fiscalização e controle de desmatamento e da degradação florestal ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama).

Os dados compilados no sistema não têm o objetivo de consolidar o desmatamento no bioma da mesma forma que é feito, por exemplo, pelo sistema do MapBiomas ou do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes). O MapBiomas reúne informações coletadas ao longo de todo o ano e faz a limpeza e verificação dos dados, eliminando por exemplo nuvens e outras interferências para apresentar o dado consolidado do ano anterior. Tomando como base o Deter, que também é usado pelo Terra Brasilis, o MapBiomas também lançou um sistema de alertas de desmatamento que promete ajudar na aplicação de multas (G1, 2019).

Fonte: G1

Quanto a Julho, em 2018 houve alerta sobre o desmatamento em 596,6 km² na Amazônia. Em 2019, o mês de Julho registrou 2.254,9 km², de acordo com dados do Deter. Os dados indicam que as áreas com alerta de desmatamento na Amazônia Legal que incluem 9 estados tiveram um aumento de 278% em Julho, em comparação ao mesmo mês de 2018.

Os dados também são do Deter, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) estão vinculados ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Em Junho, o presidente Jair Bolsonaro questionou a veracidade dos dados e foi rebatido pelo então diretor do INPE, professor Ricardo Galvão.

O Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgou um manifesto em apoio ao INPE. Em seu manifesto a SBPC salientou que:

“Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza”, diz o texto do manifesto. “Críticas sem fundamento a uma instituição científica, que atua há cerca de 60 anos e com amplo reconhecimento no País e no exterior, são ofensivas, inaceitáveis e lesivas ao conhecimento científico”

Ainda assim, Ricardo Galvão foi exonerado por divulgar a verdade inconveniente. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou em seguida que os percentuais de desmatamento da Amazônia divulgados pelo órgão eram “interpretações sensacionalistas e midiáticas” feitas por “aqueles que manipulam para criar factóides” e “conseguir mais doações das ONGs estrangeiras para os seus projetos pessoais” revelando uma postura clara de anti-ciência e negacionista dos fatos.

Como vimos, os alertas têm como função informar aos fiscais do Ibama onde há sinais de devastação, que podem ou não ser comprovados posteriormente. Além disto, os dados oficiais de desmatamento são feitos por outro sistema, o Prodes, que mede as taxas nos meses em que há seca, para evitar que as nuvens cubram as áreas.

É importante entender como os dados divulgados pelo INPE são coletados para que as críticas sejam feitas de modo correto. Os dados do INPE sobre o desmatamento da Amazônia são bastante precisos, o que faz do órgão – e do próprio Ricardo Galvão – reconhecido e confiável internacionalmente. Para serem divulgados, os dados do INPE precisam ser confirmados por outros sistemas de monitoramento – que tem uma precisão mínima de 95%. É um monitoramento com modelagem absolutamente bem feito que faz uso de três sistemas:

  1. o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes);
  2. o Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter);
  3. o TerraClass, que mapeia o uso da terra após o desmatamento, em parceria com a Embrapa.

No Prodes, ocorre a sistematização do levantamento das áreas desde 1988, calculando as taxas anuais de desmatamento. Para isto, são utilizadas cerca de 220 imagens que são obtidas pelo satélite estadunidense Landsat-5/TM, que tem de 20 a 30 metros de resolução espacial. Isto significa que cada ponto da imagem gerada corresponde a uma área de 400 a 900m². Então, os mesmos pontos do mapa são revistos a cada 16 dias, para minimizar o problema da cobertura de nuvens.

O Landsat-5/TM é o quinto satélite lançado pela agência espacial americana (NASA), que ocorreu no ano de 1984 – nesta época, o INPE não fazia o monitoramento da Amazônia.

A organização Global Forest Watch, faz o monitoramento internacional do planeta e do uso de terras com apoio de diferentes instituições e faz uso do Landsat-5/TM.

Além das imagens do Landsat, o Prodes faz uso também das imagens do satélite sino-brasileiro CBERS 4, lançado em 2014, e do satélite indiano IRS-2, enviado pelo governo da Índia em 2010. Portanto, é um conjunto de satélites internacionais que fornecem os dados para o INPE que expõem quanto foi desmatado na Amazônia.

Os dados do Prodes são usados em diversas atividades:

  1. Na certificação de cadeias produtivas do agronegócio – especialmente da soja e da pecuária;
  2. Acordos intergovernamentais como a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 21);
  3. Relatórios de Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa;
  4. Doações monetárias pelo Fundo Amazônia, que usam o Prodes como dado de referência à atividade de desmatamento na Amazônia Legal.

A identificação do desmatamento é feita com base no padrão de alteração da cobertura, como cor, tonalidade, textura, forma e contexto. O sistema permite classificar a alteração como desmatamento, degradação ou exploração madeireira.

Portanto, a crítica feita ao INPE na pratica não seria a ele, mas a todos estes órgãos nacionais e internacionais que compilam todas as variáveis para permitir a cobertura do território (G1, 2019).

A devastação da floresta amazônica em áreas privadas para criação de pastos ou produção da monocultura de soja – ou ainda cana – agora se repete nas áreas que a princípio deveriam estar sob proteção: assentamentos, Unidades de Conservação e terras indígenas. Essas estão entre as áreas mais desmatadas na região, segundo o boletim do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) publicado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Os estados do Amazonas e do Pará lideram o ranking do desmatamento, com 30% e 26% do total desmatado, respectivamente, seguido por Rondônia (19%), Mato Grosso (17%), Acre (5%), Roraima (1%), Tocantins (1%) e Amapá (1%).

Em sua maioria (56%), a derrubada de floresta nativa foi feita em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse – áreas ainda sem destinação pelo Estado. O restante do desmatamento foi registrado em Assentamentos (26%), Unidades de Conservação (13%) e Terras Indígenas (5%) (Rede Brasil Atual, 2019).

Além do desmatamento, há também o crescimento do garimpo. Imagens de satélite divulgadas pela BBC News Brasil mostram uma expansão recente nos focos de garimpo ilegal dentro de terras indígenas da Amazônia ocorrida desde janeiro de 2019.

Indígenas e ambientalistas atribuem o avanço – verificado em diferentes pontos do Pará e de Roraima – a declarações do presidente Jair Bolsonaro em favor da exploração mineral em terras indígenas e ao que consideram um afrouxamento do combate a crimes ambientais pelo governo. Este mesmo afrouxamento foi sentido por países que contribuíam com o Fundo Amazônico para a preservação.

Outro efeito negativo no governo Bolsonaro ocorreu dia 19 de agosto com o “dia do fogo”, quando uma série de queimadas conjuntas ocorrida na floresta alguns dias antes que criou uma enorme cortina de fumaça que se deslocou por todo o país e deixou o céu da tarde absolutamente escuro.

Fumaça vinda de partículas oriundas de incêndios florestais em regiões da Amazônia, Acre, Rondônia e Bolívia chegou a São Paulo no dia 19/08/2019 pela ação dos ventos. O material fez com que o céu de São Paulo ficasse escuro as 3 horas da tarde. Créditos: R7

No dia 10 de agosto, mais de 70 pessoas – de Altamira e Novo Progresso – produtores rurais, comerciantes e grileiros, combinaram através de um grupo de whatsApp incendiar as margens da rodovia BR-163, que liga regiões do Pará aos portos fluviais do Rio Tapajós e ao Estado de Mato Grosso.

A intenção era mostrar apoio ao presidente Jair Bolsonaro e suas ideias de “afrouxar” a fiscalização do Ibama visando conseguir o perdão de multas aplicadas por infrações cometidas ao meio ambiente.

Em 7 de agosto, uma denúncia à procuradora do Ministério Público Federal (MPF) revelou que poderia acontecer um “dia do fogo” em Novo Progresso. No dia 12, o mesmo escritório local do Ibama respondeu ao MPF que, apesar de ter enviado ofícios ao Ministério da Justiça, não havia recebido resposta da pasta.

O problema é que estes recordes de queimada, a exoneração de Ricardo Galvão, o fato de saber sobre o dia do fogo, a fumaça que cobriu parte do país e que foram captadas inclusive por satélites teve repercussão mundial.

Ricardo Salles, culpou a seca pelo crescente número de incêndios florestais na Amazônia em um tweet, mas um artigo publicado na Science Magazine (2019) em que entrevistou Paulo Artaxo, físico atmosférico da Universidade de São Paulo sabe-se que as queimadas da Amazônia estão surgindo em um padrão típico de desmatamento, ao longo das fronteiras agrícolas. Segundo Artaxo, os dados históricos mostram que os dois fenômenos estão intimamente ligados: o uso de motosserras lidera o caminho, seguidas de chamas, e depois o gado ou outras formas de desenvolvimento, não deixando dúvidas de que esse aumento na atividade de fogo está associado a um aumento acentuado no desmatamento. O INPE já havia contabilizado mais de 41.000 focos de incêndio na Amazônia brasileira neste ano, em comparação com 22.000 no mesmo período do ano passado e os dados são fruto do projeto Global Fire Emissions Database, que inclui cientistas do Centro de Vôo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, Maryland; a Universidade da Califórnia, Irvine; e a Universidade Vrije, em Amsterdã, vê a mesma tendência, embora seus números sejam um pouco mais altos.

A NASA informou que suas estatísticas corroboram os dados do INPE e que no Pará e no Amazonas os principais focos estão localizados às margens das rodovias. A agência espacial explicou em sua página “Earth Observatory” que “apesar da seca ter desempenhado um papel importante na intensificação dos incêndios em outras ocasiões, o momento e a localização das queimadas detectadas no início da estação mais seca de 2019 estão mais ligados ao desmatamento do que à seca regional” (G1, 2019).

Para Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Centro de Vôo Espacial Goddard da NASA, os satélites costumam ser os primeiros a detectar incêndios em regiões remotas da Amazônia. A principal ferramenta da NASA para detecção de incêndios desde 2002 tem sido o instrumento MODIS (sigla em inglês de um Espectrorradiômetro de Imagem em Resolução Moderada) nos satélites Terra e Aqua (Earth Observatory – NASA).

O mapa acima mostra as detecções ativas de incêndio no Brasil, conforme observado pela Terra e Aqua MODIS entre 15 e 22 de agosto de 2019. Os locais dos incêndios, mostrados em laranja, foram sobrepostos nas imagens noturnas adquiridas pelo VIIRS. Nestes dados, cidades e vilas parecem brancas; as áreas florestadas parecem pretas; e savanas e bosques tropicais (conhecidos no Brasil como Cerrado) parecem cinza. Observe que as detecções de incêndio nos estados brasileiros do Pará e Amazonas estão concentradas em faixas ao longo das rodovias BR-163 e BR-230. Desde 2003, os sensores MODIS nos satélites Aqua e Terra da NASA fazem observações diárias de anomalias térmicas (geralmente incêndios) em todo o mundo. O mapa de detecção de incêndio nesta página é baseado em dados do Sistema de Informações sobre Incêndios para Gerenciamento de Recursos (FIRMS), um produto desenvolvido pela Universidade de Maryland e pelo Programa de Ciências Aplicadas da NASA. A FIRMS fornece informações de incêndio quase em tempo real para gerentes e pesquisadores de recursos naturais. Observe que cada ponto no mapa não corresponde necessariamente a um incêndio no chão. As detecções ativas de incêndio representam o centro de uma área de 1 quilômetro quadrado com uma ou mais anomalias térmicas. Às vezes, um incêndio contínuo pode ser registrado como várias anomalias dispostas em uma linha, representando uma frente de incêndio.

19 de agosto de 2019. Créditos: NASA

Em imagem de 19 de agosto, 18h, manchas vermelhas mostram alta concentração atmosférica de monóxido de carbono (CO) nos Estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, passando por Bolívia e Paraguai. Indicam queimadas em andamento Windy.com

Foi exatamente por causa disto que países como a Alemanha e Noruega retiraram o investimento que faziam para o Fundo Amazônico, cuja função era captar doações para investimentos não-reembolsáveis em ações de prevenção, monitoramento, combate ao desmatamento, promoção da conservação e do uso sustentável das florestas no Bioma Amazônia atuando, inclusive, segundo a legislação brasileira nos termos do Decreto no 6.527, de 1º de agosto de 2008 (Ministério do Meio Ambiente, 2008).

O corte no Fundo Amazônico foi feito porque o Brasil demonstrou para o mundo que perdeu interesse em preservar a Amazônia –revelando uma mudança de paradigma na política brasileira, se deslocando de um país ambientalmente preocupado e exemplo na questão ambiental para um país com uma agenda anti-ambientalista. A repercussão mundial levou a discussões sobre sanções econômicas no Brasil por parte de países europeus por descumprimento de compromissos internacionais assumidos.

Também aumentou o número de focos de queimadas que ocorrem no Pantanal, em especial entre 1º Janeiro até 11 de setembro de 2019 com um aumento de 334% – sendo o maior o registrado no mesmo período e 43,6% acima da média registrada nos mesmos dias dos últimos 21 anos (de 1998 a 2018). Os dados são do Programa Queimadas, do Inpe.

Apesar de conhecido por ser a maior planície alagável do planeta por receber água e sedimentos dos principais rios que nascem no Brasil (especificamente no Cerrado), o Pantanal nem sempre está coberto por água. As inundações da região começam somente em outubro e duram até maio. Depois, a água regride e o ambiente fica seco novamente.

Ao todo, no Pantanal são 4.515 focos de incêndio em 2019, contra 1.039 em 2018 (de janeiro a 11 de setembro). A média histórica de 1998 a 2018 é de 3.086 focos – o pico foi em 2005, quando foram registrados 9.881 focos de queimadas no bioma neste período.

O diretor-executivo da organização SOS Pantanal, Felipe Augusto Dias, afirma que os incêndios têm origem na ação humana, seja intencional ou não, e que os ventos fortes ajudam a levar as chamas a distâncias acima de 10 km. Outro problema são os ventos, que reavivam focos quase extintos. Às vezes, o fogo começa a 10 ou 15 km de distância e vem migrando com o vento (G1, 2019), formando inclusive redemoinhos de fogo.

A postura anticiência neste caso é evidente, Jair Bolsonaro tomou uma postura negacionista diante dos dados do INPE, perseguiu e exonerou Ricardo Galvão, negligenciou ações para combate do dia do fogo, não houve movimentação política visando reaver os investimentos no Fundo Amazônico a partir de novos acordos deixando claro o desinteresse pela preservação da Amazônia. Para finalizar, o Palácio do Planalto informou dia 26 de agosto que Jair Bolsonaro rejeitou a oferta de US$ 20 milhões dos países do G7 para ajudar no combate às queimadas na Amazônia (O Globo, 2019).

O professor João Paulo Candia Veiga, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, explicou que o conceito de desenvolvimento sustentável precisa ser mais bem aplicado para a manutenção da floresta amazônica, e também ressaltou a importância de envolver governos e municípios para a preservação da Amazônia.

Como e não bastasse, o desmatamento na Amazônia em agosto de 2019 cresceu 222% em relação ao mesmo mês de 2018. Em agosto de 2019 foram desmatados 1.698 km²de floresta, segundo o INPE. Ainda que os dados não sejam a medição direta do desmate, o sistema Deter pode ser usado para apontar tendências de aumento ou queda na destruição da floresta. Com uma maior precisão, o sistema do Prodes determina anualmente as taxas de desmate. Para efeito de comparação, em agosto de 2018 foram desmatados 526 km².

Todas estas posturas são claramente relacionadas a negação da ciência e desinteresse pela preservação do patrimônio natural.

Outro exemplo de postura anticiência vem do projeto de lei (PL 2.362 / 2019) apresentado ao Congresso no início do ano pelos senadores Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e Marcio Bittar (MDB/AC) propunha revogar todas as áreas de Reserva Legal no Brasil, buscando a exploração econômica dessas áreas.

Fortemente criticado, o projeto só foi retirado de tramitação no dia 15 de agosto devido à crise internacional das queimadas na Amazônia que ganhou repercussão mundial. A revogação das Reservas Legais deixaria uma área do tamanho da Argentina aberta ao desmatamento – o correspondente a cerca de 270 milhões de hectares.

Perda de serviços ecossistêmicos – como regulação climática e proteção da biodiversidade – geraria um prejuízo de R$ 6 trilhões por ano. Esse é o valor total dos serviços ambientais prestados por essas áreas de vegetação nativa, incluindo controle de erosão, a geração de chuvas locais e nas regiões sul e sudeste do Brasil – via rios aéreos – e regulação climática, foram calculados por um grupo de cientistas brasileiros e publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation, com o apoio de mais de 400 outros pesquisadores, de 79 instituições acadêmicas, que tiveram acesso ao trabalho e concordaram com os resultados.

As Reservas Legais são a porção de uma propriedade privada que precisa ser preservada com vegetação nativa, conforme determina o chamado Código Florestal brasileiro (Lei 12.651/2012). Esse porcentual varia de acordo com bioma em que a propriedade se encontra: na Amazônia, é de 80%. Em uma propriedade de 100 hectares localizada no Estado do Amazonas, por exemplo, 80 hectares têm devem obrigatoriamente ser preservados com vegetação nativa, enquanto que os outros 20 hectares podem ser desmatados para construir casas, plantar soja, criar gado ou qual atividade o cidadão desejar. Nas áreas de Cerrado localizadas dentro da Amazônia Legal, esse índice é de 35%; e em todo o resto do País, 20% (Jornal da USP, 2019).

Outro exemplo de sucateamento da ciência nacional pôde ser comprovado no dia 2 de setembro quando o Governo Federal anunciou que seriam cortadas no mês 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, e não seriam aceitos novos pesquisadores. Esse foi o terceiro anúncio de cortes de bolsas em 2019 – governo Jair Bolsonaro já extinguiu 10% delas desde o início do ano, o equivalente a mais de 11 mil benefícios. Com o corte, o governo deixa de investir R$ 37,8 milhões no ano.

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O adubo para a erva daninha da pseudociência.

Diante do aparelhamento do Estado com evangélicos, são esperadas brechas para se introduzir o ensino do criacionismo/design inteligente em escolas públicas. Evidentemente que as tentativas de inserção desta doutrina religiosa não se deram pela via da meritocracia em se justificar como ciência, mas porque o componente cristão é parte essencial do pacote ideológico no Bolsonarismo. Não é uma questão de mérito mas de imposição, como de fato tem se caracterizado o governo Bolsonaro. Não é novidade alguma que a bancada da bala anda de mãos dadas com a bancada da bíblia e que Bolsonaro da liga entre ambos.

Ainda nas eleições, o general Aléssio Ribeiro Souto, que elabora propostas para o Ministério de Educação do governo de Bolsonaro já discursou em defesa do ensino do criacionismo nas escolas públicas:

“Cabe citar o criacionismo, o darwinismo, mas não cabe querer tratar que criacionismo não existe”.

Esta leitura pobre indica que Aléssio não compreende as bases da temática. Como crença não há problema algum em defender que tudo é criação divina. O que se rejeita é que este pensamento assumidamente religioso seja caracterizado como ciência a tal ponto de ser ensinado como conteúdo da disciplina em tom de equivalência e equidade, uma vez que claramente do ponto de vista da filosofia da ciência não há base alguma. E claro, a intenção é ensinar como se houvesse validação científica para um tema que é assumidamente teológico e direcionado a doutrinação cristã. A questão é que: se o ensino do criacionismo é genuinamente bem intencionado, abordaria somente o mito de criação cristão ou de outras religiões? Qual seria o problema em abordar isto em aulas não-confessionais de religião?

Manobras para o ensino do criacionismo são antigas no Brasil, nos EUA e no mundo! Aqui, se deu especialmente no Rio de Janeiro protagonizadas pela escandalosa família Garotinho e pelo pastor-político Marco Feliciano. De fato, tais projetos ainda tramitam as escondidas e agora ganham força diante do cenário Bolsonarista que visa a manutenção de seu poder dialogando e trocando favores com evangélicos.

A Ministra Damares Alves também sinalizou para direção do ensino criacionista, que gerou a manifestação de Marcos Pontes do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Muitos criacionistas no Brasil aguardam que o governo abra brechas para a inserção de suas crenças religiosas travestidas de ciência. E naturalmente, diante desse acordo entre o Governo Federal e o apoio da ala neo-pentecostal afetará a qualidade da ciência do país que, como vimos acima, já é deficiente devido a cortes de investimento que começaram ainda no governo anterior.

Damares Alves é pastora evangélica e ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo. Representa o exemplo de aparelhamento do estado e como a ciência verdadeira pode estar ameaça pelo obscurantismo. COm ela, o representante do Design Inteligente no Brasil – demonstrando que o movimento não é apenas pseudocientífico, mas ideológico ultraconservador.

Marcos Eberlin que é assumidamente criacionista e representante do design inteligente no Brasil foi pessoalmente a Brasília entregar seu livro defendendo tal crença a Damares Alves. Práticas como essa e pronunciamentos a favor do criacionista corroboram o fato de que depois da ascensão de Bolsonaro na presidência se tornou ainda mais comum a presença de palestras e seminários citando o design inteligente como se fosse uma teoria científica epistemologicamente justificada em Universidades – ainda que os principais centros de pesquisa do mundo vejam o design inteligente como uma pseudociência. O Brasil não segue apenas na contramão do ambientalismo mundial ao ver a proteção de seus recursos naturais como empecilho ao desenvolvimento do país mas, também está na contramão do mundo ao sucatear sua ciência e tecnologia com cortes generosos e fortalecendo a pseudociência com inserção do fundamentalismo religioso dentro de ministérios relacionados a educação, conhecimento e cultura promovendo censura e vigilância do livre pensar. Os discursos de Bolsonaro não legitimaram apenas os interesses dos desmatadores, de homofóbicos ou racistas mas também da ala mais fundamentalista do cristianismo.

Por diversas vezes aqui no NetNature denunciamos tentativas e manobras do criacionismo/design inteligente e em algumas delas a pseudociência teve sucesso em se apresentar em universidades públicas designando a si mesmo como “teoria”.

Uma das ocasiões recentes foi no Museu Dinâmico Interdisciplinar da Universidade de Maringá, quando um curso de extensão permitiu que criacionistas ministrassem aulas de paleontologia sendo que dois representantes rejeitam e militam contra a validade científica da teoria da evolução e defendiam assumidamente a Terra Jovem. Entramos em contato com o museu questionando a presença destes religiosos mediadas por uma universidade pública denunciando os apresentadores. Infelizmente a resposta obtida pelo museu foi de consentimento com tal prática, com a justificativa de que seria uma apresentação sem cunho religioso.

Além deste caso, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte teve o 1o Congresso de Pesquisa e Inovação em Design Inteligente, inclusive, com certificação e reconhecimento do CNPq. Este tipo de movimentação tem colocado o MEC, o CNPq e tantos outros órgãos de fomento à produção científica em dúvida quanto à capacidade de conseguir separar ciência de pseudociência. A longo prazo, será importante separar as publicações científicas daquelas não científicas mesmo em ambientes acadêmicos para restaurar a confiabilidade desses setores que hoje estão aparelhados com pessoas cujo objetivo não é produzir conhecimento genuinamente científico mas sim firmar suas crenças religiosas com uma roupagem de conhecimento tentando catequizar a própria ciência quando ela não está de acordo com o dogma.

Para Michelson Borges, criacionista e representante da Igreja Adventista do Sétimo Dia, a Constituição da República e leis infraconstitucionais, é unânime no sentido de viabilizar o ensino irrestrito, sem preconceitos e livre de qualquer imposição. O Direito Educacional Brasileiro determina que todo cidadão tem direito à liberdade de, sem interferência, ter opiniões e procurar, receber e transmitir conhecimento mediante fontes abalizadas e independentemente de fronteiras.

Site criacionista que defende a tese de que criacionismo e design inteligente são coisas distintas defende o design inteligente.

De fato, o ensino sem preconceitos e dialogando com a liberdade ocorria, exceto pelo fato de que o conteúdo abordado dentro da disciplina de ciência deve obrigatoriamente estar alinhado com o método científico e o discurso do criacionismo/design inteligente que é invariavelmente fundado sobre as bases do mito da criação cristã cai obrigatoriamente na esfera teológica e não científica. Sendo assim, a abordagem sobre os mitos de criação deveriam somente ser abordadas em aulas de religião não-confessional e não ser apresentada como teoria científica pela própria definição de teoria. Da mesma forma que a manifestação religiosa deve ser respeita na escola, seja ela qual for, as teorias científicas com validação experimental – como a evolução – também devem ser e sem preconceitos e livre de qualquer imposição, inclusive religiosa. Borges, assim como a maioria dos criacionistas parece defender que sua posição criacionista cristã deve ser ensinada na disciplina de ciência em escolas públicas quando na verdade não deveria porque: 1) não é ciência e sim teologia, basta olhar o discurso; 2) o discurso criacionista, ou seja, de que tudo é criação divina não se restringe somente ao cristianismo. Há também mitos de criação no umbandismo, por exemplo!

Borges tenta ainda argumentar que os cientistas confundem design inteligente com criacionismo:

“Há um aparente mal-entendido quando o assunto é o ensino da Teoria da Evolução das Espécies (TE) e a Teoria do Design Inteligente (TDI), pois cientistas e professores confundem TDI com Criacionismo…” 

É cômico ler esta tentativa de diferenciação de criacionismo e design inteligente sendo feita em um site cujo nome é criacionismo e que constantemente defende design inteligente. Nos Brasil Marcos Eberlin é assumidamente criacionista da Terra Jovem e representante do design inteligente. Nos EUA mesmo Stephen Meyer, presidente da entidade inteligentista Discovery Institute ou mesmo o membro William Dembski defendem que o projetista cósmico seria deus, em especial, o do cristianismo. No Brasil, todos os principais membros do movimento criacionista obrigatoriamente estão associados ao movimento do design inteligente e vice e versa como pontuamos aqui com prints – Veja aqui.

Se o design inteligente fosse empiricamente testável, capaz de justificar-se como uma tese realmente científica e evidenciar um suposto projetista cósmico que é externo ao mundo material, deveria publicar seus resultados em revistas científicas revisadas por pares e não em blogs pessoais, cultos de igrejas ou revistas predatórias sem validade acadêmica. Se sua tese é científica então não produza seu própria material de publicação de “ciência” e publique por mérito e competência nas revistas especializadas! Certamente, o autor de tal façanha teria ganhado o prêmio Nobel por comprovar um criador cósmico a partir da experimentação e demonstrar que mesmo tal criador seria parte do natural e não do sobrenatural.

A educação brasileira tem como ser democrática abordando de forma plural a questão das religiões, mas não pode apresentar como ciência o que não é ciência tal como a disciplina de história não discorre como realidade a ideia de que extraterrestres construíram as pirâmides do Egito. E – novamente – se o objetivo sugerido pelos criacionistas é abordar de forma plural a criação, deveria abordar também os mitos de criação de religiões asiáticas, indígenas, africanas e todas que forem possíveis. Isto é algo que não se vê em sua militância!

Criacionismo/design inteligente de forma alguma é uma tese científica. Até porque as competências da ciência são limitadas ao mundo material. Neste sentido, o que a escola pode fazer é orientar que a ciência tem um método específico na qual oferece uma explicação sobre a origem da vida e do cosmo através do estudo da matéria enquanto a religião usa relatos de livros ditos sagrados que partem de uma mesma estrutura mítica para explicar a origem e diversidade da vida e do Universo. Cabe ao aluno em ambiente acadêmico desenvolver com o auxílio do professor seu senso crítico e ao longo de sua trajetória se posicionar desta ou daquela maneira. O que interesse é estabelecer os limites epistemológicos e saber diferenciar ciência de religião para que a escolha e as discussões sejam intelectualmente honestas.

Infelizmente, no atual cenário que estamos não são os fatos que importam, mas as vontades. As pessoas abandonaram o uso da razão e o respeito ao próximo em favor do poder que tem impor o que desejam ou o fim do que não desejam. Este é o cenário atual, a pós-verdade cuja vontade pessoal vai estabelecer o que é e não é permitido. Como dito anteriormente aqui mesmo no blog, seria uma questão de tempo para que o atual Brasil populista ganhasse características de países teocratas e que mesmo os setores acadêmicos agora aparelhados tornam-se suspeitos na medida em que os órgãos que cuidariam da integridade das Universidades estão fazendo cortes, censurando a serviço da vontade de forças maiores.

A qualidade da educação cai com os cortes federais e isto abre brecha para que a pseudociência seja legitimada pelo governo e se autopromova.

Vide as discussões sobre a inserção do criacionismo nas escolas e o design inteligente como ciência. O mesmo vale para os discursos de negacionismo das mudanças climáticas feitos tanto por Ernesto Araújo ou pelo Ricardo Felício que se apresentou na última eleição como candidato pelo PSL – mas que ficou conhecido no Programa do Jô Soares por ser formado em geografia e menosprezar o desmatamento na Amazônia.

O criacionismo/design inteligente é absolutamente uma pseudociência não porque seus proponentes estão fazendo ciência ruim – até porque na prática, não estão fazendo ciência alguma – mas principalmente porque ameaçam a educação científica, seja no Brasil ou nos Estados Unidos, violando o muro que separa igreja e estado para promover a confusão no público leigo sobre a natureza de teoria evolucionária e como a ciência é conduzida. É exatamente o que a citação de Michelson Borges faz, o que Eberlin faz e todos aqueles que necessitam impor via lei e não via comprovação empírica suas crenças. Não é apenas pseudociência, é uma violência intelectual.

Analisando o componente teológico de modo geral, nota-se que as crenças persistem quando desempenham alguma função útil para o indivíduo ou a sociedade que acredita nelas.

A função realizada por uma crença passa a ser óbvia quando se pensa a respeito delas. Muitas pessoas caem em golpes em esquemas de enriquecimento rápido, porque realmente gostariam de enriquecer rapidamente. As pessoas acreditam em curas milagrosas porque querem se curar de alguma doença. Eles acreditam em espíritos, alma e sessões de psicografia porque não querem aceitar que seus entes queridos se foram de forma definitiva. Nos apegamos com mais tenacidade às nossas crenças, ainda que sejam falsas, quando estas apoiam alguma narrativa sobre o que julgamos ser verdade. A isto chamamos de viés de confirmação. Por esta razão, sempre existe campo para aquelas ideias que parecem justificar a injustiça ou tolerar o intolerável. E essa legitimação está presente tanto nas coisas mais sutis e mais comuns, como foi na pseudociência racista dos séculos XIX e XX, ou, na negação das mudanças climáticas, no uso do nome de Jesus para tornar tolerável a tortura e pena de morte… Não seria diferente no caso do criacionismo que deseja ver deus em tudo mas não consegue comprovar em nada sua respectiva superstição inteligentista de criação proposital.

Talvez, a melhor forma de combater uma falsa crença seja perguntando “Que função essa crença está fazendo para a pessoa que a possui?

Demarcar a ciência da pseudociência pode estar menos ligado a ciência e mais ligado no que os cientistas fazem. A ciência é um conjunto de métodos e ferramentas destinados a testar hipóteses e construir teorias. Eis aqui três modos que a ciência usa para construir conhecimento: detecção direta pelos sentidos; detecção indireta usando aparelhos que auxiliam os sentidos, como o telescópio e microscópio; ou ainda mais indiretamente, a partir de modelos explicativos. Em ciência não adianta uma afirmação conter premissas lógicas e carecer de constatação empírica. Assim como também não pode haver constatação empírica sem seguir a lógica. Ambos devem ser concatenados.

Se uma comunidade de cientistas adota ativamente uma nova ideia, se ela se espalha pelo campo e é incorporada à pesquisa que produz conhecimento útil refletido em apresentações, publicações e especialmente novas linhas de investigação e pesquisa, então, é muito provável que seja uma ciência legítima. Neste sentido, o criacionismo/design inteligente fica na categoria de pseudociência, pois nada produzem em termos de programas de pesquisa, nada testam/experimentam e apenas publicam declarações de cunho religioso em revistas predatórias criadas para pregar sobre aquilo que acreditam – já que não conseguem publicar em revistas científicas pela incapacidade de experimentar um design ou deus em um tubo de ensaio. Trazendo a conclusão pré-concebida antes ou aquém de qualquer experimento mostra o quão prejudicial é a pseudociência criacionista à alfabetização científica.

O que mostramos aqui não é apenas a incompetência do criacionismo em se firmar como ciência pela questão metodológica, mas como ele floresce em momentos propícios tal com ervas daninhas o fazem em campos fertilizados. No presente caso, o adubo desta pseudociência vem do pensamento político que distorce fatos e promove as auto-verdades.

Pessoas com visões políticas radicais – tanto à esquerda quanto à direita do espectro político –  são menos capazes de julgar quando estão incorretas. Isto até estudos tem demonstrado. Por exemplo, cientistas do University College London descobriram que pessoas que estavam à margem política tendiam a superestimar sua certeza depois de errar nas perguntas.

Os pesquisadores usaram um jogo simples no qual os participantes tinham que avaliar qual imagem apresentavam mais pontos. Eles queriam estabelecer se as crenças dogmáticas dos radicais políticos se deviam ao excesso de confiança nessas opiniões específicas ou a diferenças mais gerais em processos metacognitivos.

No estudo, os cientistas pediram a dois grupos de cerca de 400 pessoas que completassem pesquisas que medissem suas crenças e atitudes políticas em relação a visões de mundo alternativas. A partir dessas pesquisas, eles identificaram aqueles nas extremidades direita e esquerda do espectro.

Esses indivíduos foram caracterizados por visões radicais sobre autoritarismo e intolerância para com os outros. Foi solicitado aos participantes que concluíssem uma tarefa simples, na qual olhavam duas figuras e julgavam qual delas tinha mais pontos.

Depois, eles foram solicitados a avaliar o quão confiantes estavam sobre suas decisões, e os cientistas usaram recompensas em dinheiro para incentivá-los a julgar sua confiança com precisão.

“Descobrimos que pessoas que possuem crenças políticas radicais têm processos metacognitivos piores do que aquelas com visões mais moderadas”, disse o principal autor e neurocientista Dr. Steve Fleming. Eles geralmente têm uma certeza equivocada quando estão realmente errados sobre algo e são resistentes a mudar de opinião mesmo diante das evidências que provam que eles estavam errados.

Para testar como os participantes reagiram ao se provar que estavam errados, foi mostrado um conjunto de pontos bônus que deveria tê-los empurrado para a decisão correta.

Para os participantes de pensamento mais moderado que tomaram a decisão errada pela primeira vez, mostrar essas informações de bônus os deixou menos confiantes em sua escolha. Aqueles com pensamentos mais radicais, por outro lado, mantiveram sua decisão inicial mesmo depois de ver evidências sugerindo que ela estava incorreta.

Em Brasília, há culto até nas instalações de Ministério Público. A prática é vedada pela Constituição, pode ser punida como improbidade administrativa.

Uma conclusão que eles tiraram de seu estudo, publicada na revista Current Biology, foi que o fracasso da metacognição se manteve verdadeiro em todo o espectro político. Eles disseram que esse radicalismo sugerido se baseava em uma maneira de pensar que “transcende as inclinações políticas” (Independent, 2018).

Não é difícil de encontrar este tipo de pensamento dentro do criacionismo. Nenhuma alegação sobrenatural feita por criacionistas é baseada na realidade ou apoiada por um corpo de evidências do mundo real. E isto pode ser um pouco difícil para os criacionistas enfrentarem, especialmente quando são doutrinados desde sempre que seus destinos eternos dependem de acreditar em algo incapaz de se comprovar – ou até mesmo falso. Quanto mais extremista o sabor do cristianismo, mais reivindicações entram no corpo de suas crenças – e mais bizarros ficam os argumentos.

O cenário atual revelou proponentes do design inteligente se associando a terraplanistas, teorias de conspiração, negacionistas do clima, de vacinas da alunissagem etc e tal.  Não há apenas uma congregação de factoides dentro da própria teologia cristã, mas a aglomeração de pseudocientistas em campos cada vez mais bizarros vociferando a aletheia como se fosse o logos.

A direita Marcos Eberlin representante do Design inteligente no Brasil e ao centro Douglas Aleodin, defensor da causa inteligentista, anti-vacinação, terraplanista e negacionista da alunissagem.

Por que os cristãos amam a pseudociência? Primeiro, todos nós realmente queremos pensar que mantemos nossas crenças por razões boas, válidas e baseadas na realidade. Os cristãos levam esse desejo a extremos.

Apesar de pertencerem a uma religião que valoriza a fé cega em dogmas muito acima de motivações racionais para acreditar neles. Ao perceber que sua fé pode ser abalada por evidências, aceitam até subverter elementos mundanos, como a ciência, como um mecanismo para comprovar que deus existe. Neste sentido, abandonam a fé e tentam reforçar positivamente sua crença buscando na ciência uma resposta usando o prestígio que o método científico tem no campo material. É uma tentativa de materializar deus a partir de uma fé cega abalada no inatingível.

Todos estes personagens do criacionismo/design inteligente sabem o quanto as evidências contraditórias são prejudiciais aquela fé cega tão apreciada que pretendem valorizar acima de tudo. Em situações extremas, quando não tentam catequizar a ciência diretamente o fazem indiretamente argumentando que chegaram a suas crenças religiosas atuais após fazer uma pesquisa profunda, dizendo que examinaram cuidadosamente todas as evidências disponíveis sobre o assunto e concluíram que o criacionismo é a verdade. Eles querem provar para todos que ouviram e responderam adequadamente às críticas de suas crenças; querem que pensemos que lidaram e descartaram qualquer contradição em potencial com uma diligência razoável.

As pessoas que se empenham tanto em manter sua fé vão realizar esforços extraordinários para manter suas crenças/muletas existenciais face à toda evidência esmagadora que contradiz o corpo de reivindicações que compõem suas crenças. Eles precisam acreditar que são cristãos por motivações boas e racionais, e, no entanto, nenhuma das reivindicações do cristianismo é apoiada por evidências do mundo real. O próprio livro fonte deles – as escrituras sagradas – foi escrito sobre um critério de devoção e inspiração no divino e não de registro da história ipsis litteris.

Como os argumentos que acreditam e inventam contêm adornos da ciência real e confirmam suas crenças, elas se apegam a ela tanto quanto se fosse real.

Obviamente, esta lista não abrange todos os cristãos que acreditam na pseudociência. Por exemplo, alguns tipos amam a pseudociência porque os fazem sentir-se superiores não apenas aos que não acreditam em pseudociência, mas também e principalmente superiores aos cientistas reais envolvidos nesses assuntos. Aqui mesmo discutimos com um desses tipos – que propõem uma deturpação da ciência criando o termo “paleontológica em T” pautada na ideia da Terra-Jovem segundo preceitos cristãos e literais de gênesis. Ao ser questiona, o personagem tem dito aos cientistas “Vá estudar”.

A primeira vez que você se deparar com uma discussão entre um físico quântico e cristão que pensa totalmente que os multiversos e a teoria quântica são evidências de suas crenças, ou um debate entre um criacionista e um biólogo profissional, você rapidamente identificará quem é o profissional e quem é a ovelha. Como as ovelhas são fáceis de dominar, se tornaram cartas importantes para o jogo da manutenção do poder político. Este troca-troca e relação ganha-ganha entre poder político e poder religioso é exatamente o terreno adubado em que todo tipo de violência intelectual e física surge como a história nos revela.

A erva daninha começou a crescer e a violência logo gerará frutos que arduamente colheremos como civilização que outrora foi bem mais democrática!

Conclusão

Líderes populistas utilizam a retórica de outros movimentos de maior consistência ideológica para alimentar uma polarização que em última instância colapsa regimes democráticos que pretendiam expandir e amadurecer.

O objetivo de governos populistas é também a centralização do poder para manutenção do de sua liderança e que se torna bem sucedida em ambientes onde ocorre há a convergência de alguns fatores decisivos: uma liderança capaz de aglutinar e legitimar seu modelo centralizador populista de poder; mobilizar uma maioria carente e/ou insatisfeita com desempenhos partidários ou com a “classe” política; um clima econômico defasado e instituições representativas deficientes cujos mecanismos mal arranjados ou intencionalmente modificados direcionem a centralização do poder na figura do líder “salvador”. Soma-se a isto um discurso “moralizante” cristão, a proposta de uma educação catequizada em uma nação cuja fundação já era cristã e o desejo de poder e influência política dos próprios representantes dessas religiões fica fácil compreender como discursos anticiência e pseudocientíficos começam a florescer na relação ganha-ganha Estado-deus – como bem evidenciado inclusive em obras como a do anarquista “Deus e o Estado” de Mikhail Bakunin.

Neste sentido, a ideia de um líder em defesa da grande maioria dos desfavorecidos e sua tendência comumente autoritária inviabiliza a concretização dos direitos sociais de forma duradoura. Ela externaliza a solução, esperando de um líder militar-religioso messiânico (ou seja, de um líder militar que fala em nome de deus) a solução para uma crise civilizacional interna, de caráter e muitas vezes individual.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Pseudociência, Anticiência, Criacionismo, Design Inteligente, Amazônia, INPE, Democracia, Populismo.

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Referências

Shermer, M. Scientific American – What is PseudoScience? 2011
Kolitz, D. Why Do People Believe in Pseudoscience? 2019

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