O DESENVOLVIMENTO TÉCNICO-CIENTÍFICO DURANTE II GUERRA MUNDIAL.

A humanidade promoveu a maior revolução científica vista durante o século XX, especialmente entre 1914 a 1945, um período de 30 anos que corresponde ao começo da I Guerra Mundial e o final da II Guerra Mundial. Algumas das tecnologias usadas durante a II Guerra Mundial foram desenvolvidas durante os anos entre guerras (1920 e 1930), em resposta às necessidades e lições aprendidas durante a I Guerra Mundial. O Projeto Manhattan foi um empreendimento de pesquisa e desenvolvimento que ocorreu durante a II Guerra Mundial e produziu as primeiras armas nucleares, liderado pelos Estados Unidos com o apoio do Reino Unido e do Canadá (Septimus, 2000).

Extensão do território Nazi-fascista

Após o fim da I Guerra Mundial (1914 a 1918) foi estabelecido o Tratado de Versalhes, direcionando a culpa a Alemanha pela guerra, que perdeu suas poucas colônias, forçou o desarmamento do país e criou diversas restrições alemãs.

Diante desse quadro, o país passa a sofrer uma grande crise econômica, agravada também pela depressão de 1929: iniciada nos Estados Unidos da América ao atuar como financiador da reconstrução da Europa no período pós-I guerra. O agravamento da crise econômica aumentou a sensação de derrota entre alemães que viram nos ideais do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães a saída para a situação de seu país. Na liderança do partido fundado em 1920, estava Adolf Hitler, que chegou ao poder em 1933 com o discurso defendendo duas principais ideias: o anti-semitismo, culpando os dos judeus pela crise econômica; e condenando o Tratado de Versalhes que segundo Hitler foi assinado por políticos, ressaltando que os militares alemães jamais aceitaram o fim da guerra. Pregava ainda a ideia do espaço vital (Lebensraum), defendendo a unificação do povo alemão disperso pela Europa a partir do expansionismo territorial.

Também na Itália a crise econômica do período entre as duas guerras foi aproveitada por um grupo político anti-liberal e anti-comunista, que via na formação de um Estado forte a solução para os problemas econômicos e sociais. Tal grupo organizou-se como Partido Fascista, liderado por Benito Mussolini, que em 1922 foi nomeado primeiro-ministro. Mussolini e Hitler formaram uma aliança em prol de seus ideais nacionalistas e revanchistas. Ambos assinaram em 1936 um tratado de amizade e colaboração entre seus países. Posteriormente o Japão se junto ao grupo formalizando o que veio a ser chamado de Pacto Tripartite, conhecidos popularmente como “Países do Eixo“. Em contrapartida, os opositores eram França, Inglaterra, China e EUA, formando os países Aliados. Esta nova polarização começou a ser renovada quando Hitler simplesmente ignorou o Tratado de Versalhes, criou um exército 5 vezes maior do que o permitido, anexou a Áustria, em 1938, a seu território e incorporou a região dos Sudetos (Tchecoslováquia), pois ali viviam cerca de 3 milhões de pessoas de ascendência alemã. A Alemanha hitlerista ainda entrou em um acordo com a Rússia para que não fossem atacados. A Rússia Stalinista passava por dificuldades internas.

O próximo passo foi a invasão da Polônia na tentativa de recuperar Danzig, cidade perdida pelos alemães na I Guerra. França e Reino Unido exigiram que os alemães voltassem atrás e, diante da negativa de Hitler, declararam guerra à Alemanha em 3 de setembro de 1939. A Alemanha nazista rapidamente se expandiu por toda a Europa graças a uma tática militar que tinha como objetivo destruir o inimigo em ataques surpresa, com rapidez e brutalidade – tática conhecida como Blitzkrieg. Com esta estratégia a Alemanha conquistou a França, Iugoslávia, Bulgária, Albânia, Grécia, Romênia, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia, Lituânia, Estônia, Finlândia, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Holanda e algumas colônias africanas como Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Egito e parte do território Russo, desobedecendo o acordo que Hitler fez com Stalin.

Os Aliados só começaram a derrotar os países do Eixo a partir de 1942. No Pacífico, Estados Unidos e Austrália derrotaram os japoneses e em 1943, os nazistas perderam a batalha de Stalingrado, na União Soviética, e foram expulsos da Bulgária, Hungria, Polônia, Tchecoslováquia, Iugoslávia perdendo também as colônias africanas. Posteriormente, os Aliados desembarcaram na Normandia (França), em uma operação que ficou conhecida como “Dia D” iniciando a libertação francesa.

Sabendo da invasão dos soviéticos e estadunidenses a Berlim, Hitler e sua esposa Eva Braun cometeram suicídio. Mussolini já havia sido assassinado e seu corpo exposto em praça pública. As tropas nazistas fugiram para outros países, alguns soldados cometeram suicídios e outros se renderam colocando, assim, fim à guerra na Europa. Só o Japão resistia mas diante das bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos em Hiroshima e Nagasaki (matando juntas mais de 100 mil pessoas), o imperador Hirohito se rendeu.

Com a rendição da Alemanha, os Aliados reuniram-se em 1945 a fim de decidir o futuro do país derrotado. Assinaram a Conferência de Potsdam, que dividiu a Alemanha em quatro zonas, ocupadas pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética. Entretanto, as relações entre a União Soviética comunista e os outros países Aliados capitalistas deixaram de ser cooperativas e passaram a ser competitivas-agressivas devido as questões político-ideológicas. A Alemanha acabou dividida entre a porção Oriental, comunista, e Ocidental, capitalista. Era o início da Guerra Fria e o Muro de Berlim era símbolo da polarização que o mundo vivia.

A União Soviética buscava implantar o socialismo em outros países para que pudessem expandir a igualdade social, baseado na economia planificada, partido único (Partido Comunista), igualdade social e falta de democracia. Contudo, o regime soviético era muito criticado pelo seu caráter totalitarista, censurador e de culto ao líder. Enquanto os Estados Unidos, a outra potência mundial, defendia a expansão do sistema capitalista, baseado na economia de mercado, sistema democrático e propriedade privada. Estes eram criticados pelas experiências falhas do pensamento liberal-livre mercado que havia desencadeado a crise de 29 e tantas desigualdades sociais.

Adeptos desta competitividade, a Guerra Fria é caracterizada justamente por não ter ocorrido conflito direto entre as duas nações superpotências, dada a inviabilidade da vitória em uma eventual batalha nuclear. Contudo, as disputas se deram tanto em competitividade tecnológica (corrida espacial, com a chegada do homem na lua) quanto em conflitos indiretos, participando de guerras alheias, como na Coreia e Vietnã. Com receio de um levante comunista em outros países, inclusive nas Américas – como o caso da Revolução Cubana – os EUA começaram a vigiar nações e financiar golpes de estados-regimes militares de caráter ideológico direitista no continente americano ignorando as soberanias e democracias alheias.

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Desenvolvimento bélico-tecnológico                                                                                          

A II Guerra Mundial inovou muito o cenário mundial com operações militares que visaram ampliar a pesquisa do comportamento inimigo. Algumas das tecnologias usadas neste momento foram desenvolvidas durante os anos entre guerras (1920 e 1930) e muito foi desenvolvido em resposta às necessidades que surgiram ainda na I Guerra Mundial, enquanto outras estavam começando a ser desenvolvidas quando a II Guerra Mundial terminou.

A II Guerra Mundial teve o maior efeito sobre a tecnologia e os dispositivos que são usados ​​atualmente – junto com os desenvolvimentos tecnológicos da Guerra Fria. Muitas tecnologias foram personalizadas para uso militar e os principais desenvolvimentos ocorreram no aprimoramento de navios, veículos de guerra, submarinos, aviões, tanques, foguetes, aeronaves automáticas, artilharia, armas de pequeno porte, armas biológicas, químicas e atômicas. Também houve desenvolvimento nas comunicações e centros de inteligência com dispositivos usados ​​para navegação, comunicação, sensoriamento remoto e espionagem. Na medicina houve muitas inovações cirúrgicas, medicamentos químicos e técnicas e procedimentos médicos.

Após a I Guerra Mundial, em agosto de 1919, a Regra dos Dez Anos da Grã-Bretanha declarou que o governo não deveria esperar outra guerra, mas no final da década de 1920, a Alemanha já ajudava a indústria soviética a se modernizar e estabelecer instalações de produção de tanques na fábrica bolchevique de Leninegrado e na fábrica de locomotivas de Kharkov. Esta cooperação iria quebrar quando Hitler subiu ao poder em 1933.

A tecnologia de armas militares experimentou avanços rápidos durante a II Guerra Mundial e, ao longo de seis anos, houve uma taxa de mudança desorientadora nos combates envolvendo desde aeronaves até pequenas armas. De fato, a guerra começou com a maioria dos exércitos utilizando tecnologia que pouco mudou desde a I Guerra Mundial e, em alguns casos, permaneceu inalterada desde o século XIX. Por exemplo, cavalaria, trincheiras e navios de guerra da I Guerra Mundial eram normais em 1940, porém em apenas seis anos, exércitos de todo o mundo haviam desenvolvido aviões a jato, mísseis balísticos e claro, as armas atômicas no caso dos Estados Unidos. Evidentemente, uma elite científica alemã também ascendeu e levou o país à liderança nos ramos de balística, química, aviação e construção de foguetes (Selwood, 2014).

Com o tempo começou a se desenvolver armamentos e veículos mais sofisticados como as aeronaves Glide bombs, as primeiras “bombas inteligentes”, o míssil anti-remessa Fritz X que tinham controle remoto por fio ou rádio. Os mísseis V-1 que era do tipo cruzeiro e rapidamente progrediram para o foguete V-2, foguetes de artilharia Katyusha ou foguetes lançados do ar.

Bombas especializadas também surgiram, como as de fragmentação, bombas blockbuster e bunters. O napalm foi desenvolvido, mas não teve um amplo uso até as guerras na Ásia.

Criou-se também os explosivos plásticos como Nobel 808, Hexoplast 75 e C, C2. Novos métodos de produção de armas como estamparia, rebitagem e soldagem surgiram para produzir o número de armas necessárias para suprir as demandas dos exércitos. Os métodos de design e produção avançaram o suficiente para fabricar artilharia de confiabilidade razoável, como os vistos em armas como a PPSh-41, PPS-42, Sten, Beretta modelo 38, MP 40, M3 Grease Gun, Gewehr 43, submetralhadora Thompson e o rifle M1 Garand. Outras armas comumente encontradas durante a II Guerra Mundial incluem o rifle americano Browning Automatic (BAR), carabina M1 bem como o Colt M1911 A-1, o japonês Type 11, a metralhadora Type 96, e os rifles de ação Arisaka que foram usadas durante a guerra.

E mais ao final da guerra, em 1945 começou a se trabalhar com o design do fuzil AK-47 (Kalashnikov) pelos russos, arma que se tornou popularmente conhecida.

Dentre os principais desenvolvimentos tecnológicos da II Guerra Mundial está a bomba atômica. A fissão nuclear induzida foi descoberta na Alemanha em 1939 por Otto Hahn (e judeus expatriados na Suécia), mas muitos dos cientistas que precisavam desenvolver energia nuclear já haviam sido perdidos devido a políticas anti-semitas e anti-intelectuais.

As enormes demandas de pesquisa e desenvolvimento da guerra incluíram o Projeto Manhattan, o esforço para desenvolver rapidamente uma bomba atômica ou uma ogiva de fissão nuclear. Foi talvez o desenvolvimento militar mais profundo da guerra, e teve um grande impacto na comunidade científica, criando uma rede de laboratórios nacionais nos Estados Unidos. Os britânicos, no entanto, iniciaram seu próprio programa de armas nucleares em 1940, sendo o primeiro país a fazê-lo.

Em 1942, e com a ameaça de invasão pela Alemanha ainda aparente, o Reino Unido despachou cerca de 20 cientistas e técnicos britânicos para a América, juntamente com seu trabalho, que tinha sido realizado sob o codinome de Tube Alloys, para evitar o risco potencial da informação cair nas mãos do inimigo. Os cientistas deram uma contribuição britânica para o Projeto Manhattan, onde seu trabalho sobre o enriquecimento de urânio foi fundamental para impulsionar o projeto. De fato, as implicações estratégicas de tal arma maciçamente destrutiva ainda reverberam no século XXI.

Houve também um projeto de energia nuclear alemã, incluindo a produção de uma arma atômica. Isto falhou por diversos motivos mas, mais notavelmente devido ao antissemitismo alemão. Metade dos físicos teóricos continentais – incluindo Einstein, Bohr, Enrico Fermi e Oppenheimer – que fizeram muito de seus primeiros estudos e pesquisas na Alemanha, eram judeus ou, no caso de Enrico Fermi, casados ​​com um alguém que era judeu. Erwin Schrödinger também havia deixado a Alemanha por motivos políticos. Quando deixaram a Alemanha, o único físico nuclear líder na Alemanha foi Heisenberg, que aparentemente arrastou o projeto. Otto Hahn, o químico físico que teve a parte central na descoberta original da fissão, foi outra figura chave no projeto. O projeto estava condenado devido a recursos insuficientes, tempo e falta de interesse do governo (Selwood, 2014).

Albert Einstein, como tantos outros cientistas judeus, fugiu da Alemanha nazista e foi criticado pelo físico Max von Laue (Nobel de física em 1914 pela descoberta da difração do raio-x em cristais) quando decidiu ir para os EUA em 10 de março de 1933 – um mês antes de uma lei expulsar todos os descendentes de judeus do funcionalismo público, fazendo cerca de 1000 cientistas de elite perder o emprego. Cerca de 30 dias depois universitários alemães começaram a sair às ruas para aplaudir a queima de mais de 10 mil livros em praças públicas. Diante da obrigatoriedade de fazer a saudação nazista quando visse um soldado de Hitler, sempre que von Laue saia de sua casa levava algum embrulho nas mãos para ocupa-las e evitar fazer o gesto hitlerista.

Em maio de 1933, um dos maiores cientistas da época, o alemão Max Planck procurou Hitler para aconselha-lo a amenizar a perseguição a pesquisadores judeus. Planck argumentou que há diversos tipos de judeus e que alguns eram muito valiosos. Hitler respondeu que “Se a ciência não pode passar sem judeus, teremos de nos haver sem a ciência!” E começou a gritar com Planck. O físico se calou e despediu-se desapontado. Planck, foi um dos fundadores da física quântica e presidente do Kaiser Wilhelm Institute (hoje denominado Instituto Max Planck) e recorreu a estratégia de convencer Hitler na tentativa de evitar a demissão do amigo judeu Fritz Haber – que por ironia do destino, foi quem desenvolveu o gás mostarda e cloro amplamente usado em Ypres (Bélgica) na I Guerra Mundial entre 1915 e 1917 deixando mais de 5 mil mortos (Rezende, 2019).

Max Planck não suportou o clima no país e pediu demissão em 1937. Já não estava na Alemanha quando seu filho Erwin foi executado por envolver-se em um plano para matar Hitler.

O poder aéreo sempre foi uma grande preocupação da Alemanha e da Grã-Bretanha no período entre as guerras. O comércio de motores de aeronaves já era expressivo, com a Grã-Bretanha vendendo seus melhores motores para empresas alemãs – que as usaram em uma primeira geração de aeronaves, e depois melhoraram muito para serem usadas nas frotas. Estas invenções lideraram o caminho para o grande sucesso dos alemães na II Guerra Mundial que se manteve na vanguarda do desenvolvimento de motores de combustão interna.

Na Europa Ocidental da II Guerra Mundial, o poder aéreo tornou-se crucial, tanto em operações táticas quanto estratégicas (respectivamente, campo de batalha e longo alcance). Aviões alemães superiores, auxiliados pela introdução contínua de inovações de design e tecnologia, permitiram que os exércitos alemães invadissem a Europa Ocidental com grande velocidade em 1940 (Blitzkrieg), grande parte resultado da falta de aeronaves dos países Aliadas – o que de qualquer forma ficou aquém do design e do desenvolvimento técnico durante a queda investimento em pesquisa após a Grande Depressão.

Desde o final da I Guerra Mundial, a Força Aérea Francesa foi seriamente negligenciada, pois os líderes militares preferiam investir dinheiro em exércitos terrestres e fortificações estáticas. Como resultado, em 1940, a Força Aérea Francesa tinha apenas 1562 aviões e estava junto com 1070 aviões da Força Aérea Real enfrentando 5.638 caças da Luftwaffe (força aérea nazista) e caças-bombardeiros. A maioria dos campos de pouso franceses ficava no nordeste da França e foi rapidamente invadida (Winchester, 2012).

Voar a grande altitude coloca os ocupantes de uma aeronave em risco de hipóxia (baixos níveis de oxigênio no sangue), mal-estar de altitude, doença descompressiva e barotrauma (causado por diferenças de pressão). Diante deste risco, os bombardeiros no início da II Guerra Mundial estavam equipados apenas com máscaras de oxigênio, que restringiam o movimento e eram propensos a falhar. Até o Superfortress B-29 ser introduzido em 1944, apenas aeronaves experimentais foram produzidas com cabines pressurizadas. Nesse avião, os americanos criaram o primeiro sistema de pressão de cabine e após a guerra, os benefícios das cabines pressurizadas foram introduzidos em aviões de passageiros, permitindo que todos nós voássemos em altas altitudes em relativo conforto (ExpertReviews, 2015).

Superfortress B-29

Um dos problemas mais comuns na II Guerra Mundial era levar aviões para o alvo com segurança e relativa precisão aos alvos. No início da guerra, não havia sistemas de navegação e muitas equipes de bombardeiros estavam completamente fora do alvo, perdendo completamente as áreas que deveriam atacar. Isso foi ainda mais dificultado pela decisão do Comando de Bombardeiros de fazer vôos noturnos.

Para ajudar as tripulações, vários sistemas de navegação foram criados. Para um bombardeio cego preciso, os sistemas Oboe e Gee-H (sistemas baseados em rádio) foram desenvolvidos, embora estes só pudessem ser usados ​​por um grande número de aviões ao mesmo tempo.

Para todos os outros, o GEE entrou em jogo. GEE foi um sistema de navegação de rádio inventado por Robert Dippy, projetado para ser usado por vários aviões. O sistema funcionava usando três estações base de transmissão, enviando transmissões em intervalos regulares.

Com um alcance de cerca de 400 milhas, o sistema era impreciso para um bombardeio cego, mas foi o suficiente para colocar o bombardeiro na direção certa e obter a posição de aviões em território inimigo. Após a guerra, Dippy mudou-se para os EUA, onde trabalhou no sistema sucessor, o LORAN (Long Range Navigation), que tinha um alcance de 1.200 milhas (1930 quilômetros). Este sistema de navegação a rádio foi usado em todo o mundo em conjunto com a navegação baseada em VOR e só recentemente foi eliminado devido a maior precisão do GPS. No entanto, há campanhas para obter financiamento de volta ao sistema LORAN, para que ele possa ser usado como backup caso o GPS falhe. A partir do desejo do Comando de Bombardeiros de revidar na Alemanha, veio o primeiro sistema de navegação por rádio e o início da busca de direção precisa e moderna (ExpertReviews, 2015).

Aterrissar com sucesso e no escuro, era muito perigoso para as tripulações dos bombardeiros. A solução veio com a criação da unidade de transponder Rebecca montada na aeronave. Ela atuava como um sistema que informava para um aliado sobre um inimigo e sistemas similares são usados ​​nos planos modernos de voo para identificá-los.

Dessa tecnologia foram inventados modernos sistemas de navegação dos quais ainda estão em operação, embora o GPS seja o principal. Uma vez que os aviões soubessem onde aterrissar, os britânicos inventaram o Sistema de Sinalização de Blind Approach (BABS) para ajudar as aeronaves a descer com segurança.

Foi o primeiro sistema de pouso por radar a ser criado. Hoje, o Instrument Landing System (ILS) usa um sistema similar, apresentando ao piloto as instruções sobre se deve voar para a esquerda, direita ou até para cima ou para baixo. Essa tecnologia é essencial para ajudar milhares de aviões em todo o mundo a aterrissar em condições precárias, todos os dias (ExpertReviews, 2015).

Göttingen era o centro mundial da aerodinâmica e dinâmica de fluidos em geral, pelo menos até o momento em que Hitler chegou ao poder. Isso contribuiu para o desenvolvimento alemão de aviões a jato e de submarinos com melhor desempenho submarino.

Embora o primeiro motor a jato tenha sido desenvolvido em 1937 por Sir Frank Whittle, o governo britânico não estava interessado nele e o trabalho progrediu lentamente. Somente com os alemães que houve impulso na tecnologia, com o Messerschmitt Me 262 sendo o primeiro caça a jato. O Me 262 era um avião muito superior e consideravelmente mais rápido, introduzido em 1944 e seus pilotos apresentavam uma proporção de 5:1 de aviões aliados abatidos para Me 262s perdidos.

Os alemães também produziram o Arado Ar 234, que foi o primeiro bombardeiro a jato e o último avião nazista a sobrevoar a Inglaterra em abril de 1945. Embora tenha atuado pouco, sua velocidade tornou praticamente impossível intercepta-lo. A pesquisa do motor a jato continuou, e o caça a jato Heinkel He 162 mono-motor foi produzido até o final da guerra. Felizmente para os Aliados, a escassez de combustível reduziu drasticamente o impacto dos aviões a jato de origem alemã (ExpertReviews, 2015).

Com as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes à construção de veículos para fins militares na Alemanha, ao longo das décadas de 1920 e 1930, os fabricantes alemães de armas e a Wehrmacht (forças armadas do Terceiro Reich) começaram a desenvolver secretamente tanques. Como esses veículos eram produzidos em segredo, suas especificações técnicas e potenciais de campo de batalha eram amplamente desconhecidas pelos Aliados europeus até que a guerra realmente começasse. Ao mesmo tempo, os britânicos também desenvolveram tanques Cruiser mais rápidos, porém, levemente blindados, para ficarem atrás das linhas inimigas. Os tanques Matilda Mk I do Exército Britânico também foram projetados para apoio de infantaria e foram protegidos por uma armadura espessa. Isso era ideal para a guerra de trincheiras, mas tornava os tanques bem mais lentos em batalhas abertas. Assim, seus canhões leves e metralhadoras geralmente não podiam causar sérios danos aos veículos alemães evidenciando uma clara corrida armamentista (Chamberlain & Ellis, 1975).

Matilda Mk I

Os países do Eixo tinham sérias carências de petróleo para produzir combustível líquido e os Aliados tinham muito mais devido a sua alta produção de petróleo. A Alemanha, muito antes da guerra, desenvolveu um processo para produzir combustível sintético a partir do carvão.

Os EUA adicionaram chumbo tetra-etil ao seu combustível de aviação, com o qual forneceu a Grã-Bretanha e outros Aliados. Este aditivo de aumento de octanagem permitiu maiores taxas de compressão, permitindo maior eficiência, dando

O galão de combustíveis (bidão ou jerrycan) era conhecido entre os alemães como Wehrmachtskanister é um recipiente robusto projetado para transportar combustível. Foi inventado pelo exército nazista para transportar combustível à mão.

O bidão é uma criação muito engenhosa porque possuía três alças, o que permitia ser transportado por uma ou duas pessoas, além de passar por uma corrente humana como um balde cheio de água para apagar o fogo (ExpertReviews, 2015).

A guerra naval mudou drasticamente no decorrer da II Guerra Mundial, com a ascensão de porta-aviões sofisticados e o impacto de submarinos cada vez mais capazes no curso da guerra. O desenvolvimento de novos navios durante a guerra foi de certa forma limitado devido ao período de tempo prolongado necessário para a produção, mas desenvolvimentos importantes foram frequentemente adaptados a navios mais antigos. Tipos avançados de submarinos alemães entraram em serviço tarde demais e depois que quase todas as tripulações experientes se perderam.

Além de porta-aviões, sua contraparte assistente de Destroyer também avançou. Da Marinha Imperial Japonesa, o destroyer da classe Fubuki foi introduzido. A classe Fubuki estabeleceu um novo padrão não apenas para embarcações japonesas, mas para destroyers em todo o mundo (Parshall & Tully).

Uma grande matriz de artilharia foi desenvolvida durante a guerra para atender às necessidades específicas que surgiram, mas muitos traçaram seu desenvolvimento inicial antes da II Guerra Mundial. Os torpedos começaram a usar detonadores magnéticos; sistemas de orientação orientados por bússola, programados e até acústicos; e propulsão melhorada.

Houve também muitas invenções e avanços na tecnologia de mísseis e foguetes. O foguete V-1, é hoje conhecido como “míssil de cruzeiro” foi desenvolvido no Centro de Pesquisa do Exército Peenemünde pela Luftwaffe nazista durante a II Guerra Mundial. Durante seu desenvolvimento inicial, era conhecido pelo codinome “Cherry Stone”, sendo o primeiro da chamada série Vergeltungswaffen projetada para o bombardeio terrorista de Londres. O V-1 foi disparado de instalações de lançamento ao longo das costas francesa (Pas-de-Calais) e holandesa. O primeiro V-1 foi lançado em Londres, em 13 de junho de 1944 e uma semana depois, motivado pelo seu sucesso, mais de cem V-1 por dia foram disparados no sudeste da Inglaterra. No total, foram 9.521 lançamentos diminuindo em número conforme os locais foram invadidos até outubro de 1944.

Vergeltungswaffe 1 (Míssil V-1)

O V-2 (Vergeltungswaffe 2) cujo nome técnico era Aggregat-4 (A-4), foi o primeiro míssil balístico guiado de longo alcance do mundo. O míssil com motor de foguete propelente a líquidos foi desenvolvido como uma “arma de vingança”, destinada a atacar as cidades aliadas como retaliação aos bombardeios aliados contra cidades alemãs. O foguete V-2 também foi o primeiro objeto artificial a cruzar o limite do espaço, ultrapassando a linha de kármán – a 100 km de altitude onde há a fronteira entre o fim da atmosfera e começo do espaço.

O V-2 pode ter matado mais de 2.500 pessoas diretamente (e outras 20 mil morreram indiretamente), mas foi um passo fundamental para colocar o homem na Lua, bem como desenvolver GPS, Google Earth e comunicações por satélite. Enquanto o V-1 era um míssil guiado o V-2 era uma arma incrivelmente avançada para sua época. Era o primeiro míssil balístico intercontinental do mundo tinha um alcance de 200-225 milhas (360 quilômetros), e poderia atacar Londres apenas três minutos após seu lançamento na Holanda.

O V-2 é o ancestral de todos os foguetes modernos, e está relacionado aos veículos que lançaram o Sputnik – por Sergei Korolev – e colocaram o primeiro americano no espaço, o R-7 Soviético e o Mercury-Redstone dos EUA.

Tanto os EUA quanto a Rússia se apropriaram de mísseis V-2 e equipamentos relacionados após a II Guerra Mundial, e ambos os poderes contrataram ex-engenheiros – nos EUA foi Wernher von Braun – para ajudar em seus programas de mísseis. Embora os foguetes tivessem sido usados ​​na guerra por centenas de anos, os combustíveis sólidos tradicionais não tinham a densidade de energia necessária para impulsionar um veículo por centenas de quilômetros e tornavam impossível estrangular o empuxo. Os foguetes também eram imprecisos demais para atingir um alvo em outra massa de terra. O V2 neutralizou essas dificuldades com duas grandes inovações: um propulsor líquido e navegação inercial (ExpertReviews, 2015).

Ainda antes do início da guerra, havia um grande interesse em usar combustíveis líquidos para lançar foguetes tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Um americano, Robert H. Goddard, lançou o primeiro foguete de combustível líquido em março de 1926, e na Alemanha, em 1929, o cientista austro-húngaro Hermann Oberth disparou com sucesso foguete com um motor movido a líquido.

O assistente de Oberth no teste de tiro foi von Braun, que continuou a liderar a pesquisa de foguetes do exército alemão. Em dezembro de 1934, no campo de testes de Kummersdorf, perto de Berlim, von Braun realizou seu primeiro teste com sucesso – um pequeno foguete ‘A-2’ de 1,6 metros de comprimento que queimava uma mistura de álcool e oxigênio líquido para atingir 2,2 milhas (3,5 quilômetros). Dois anos depois, o centro de pesquisa foi transferido para a ilha de Peenemünde, na costa da Alemanha ao sul da Suécia, onde os testes começaram com foguetes A-3 e A-5 – camas de teste para componentes a serem usados ​​no modelo A-4 foram realizados e culminou na construção do míssil balístico V-2.

Um dos principais problemas enfrentados pelos cientistas foi gerar impulso suficiente para levantar um foguete tão grande e pesado quanto o V-2 no espaço. O foguete A-2 gerou 300 quilos de empuxo, mas o V-2 precisou de 25 mil.

O motor final do V-2 usou bombas duplas movidas por uma turbina a gás para empurrar grandes quantidades de uma solução de etanol/água, além de oxigênio líquido, para uma câmara de combustão, onde se misturavam e incendiavam para produzir uma enorme quantidade de empuxo. Esta mistura de álcool/oxigênio continuou a ser usada bem depois da guerra – o foguete PGM-11 Redstone, do Exército dos Estados Unidos, usou a mesma configuração de combustível e permaneceu em uso até 1964 (ExpertReviews, 2015).

Vergeltungswaffe 2 (V-2)

Do ponto de vista médico, houve a descoberta dos antibióticos por Alexander Fleming em 1928. Somente em 1939 que Howard Florey e uma equipe de pesquisadores mostraram o potencial da penicilina; e foi durante a guerra que o antibiótico ganhou popularidade. Em 1943, o Conselho de Produção de Guerra dos EUA elaborou um plano para a distribuição em massa de penicilina às tropas aliadas que lutavam na Europa. Em 1944, os EUA produziram 2,3 milhões de doses e o medicamento é responsável por economizar de 12 a 15% das vítimas (ExpertReviews, 2015).

Embora a penicilina ainda seja usada e foi o precursor dos antibióticos que tomamos para evitar que infecções simples se tornem doenças que ameaçam nossas vidas, medicamentos contra doenças tropicais, como a malária, também se tornaram críticos para os Estados Unidos lutarem em climas tropicais como o Pacífico Sul. Agrotóxicos como o DDT tiveram um papel crítico na morte de mosquitos (embora os impactos ambientais do DDT durassem muito tempo; um livro famoso sobre o DDT, “Silent Spring”, de Rachel Carson (1962), ajudaria a formar o movimento ambiental moderno). A ciência e a tecnologia das transfusões de sangue também foram aperfeiçoadas durante a II Guerra Mundial, assim como a medicina aeronáutica, que permitia que as pessoas voassem em segurança em grandes altitudes por longos períodos. Estudos de visão noturna, oxigênio suplementar, até capacetes de segurança e cintos de segurança surgiram da medicina aeronáutica (Mindell).

O uso disseminado de mepacrina (atropina) para a prevenção da malária, sulfanilamida, plasma sanguíneo e morfina também estavam entre os principais avanços médicos em tempo de guerra. Avanços no tratamento de queimaduras, incluindo o uso de enxertos de pele, imunização em massa para o tétano e melhorias nas máscaras de gás também ocorreram durante a guerra (Trueman, 2019). O uso de placas de metal para ajudar a curar fraturas começou durante a guerra (Tobey, 2018).

A ciência da nutrição expandiu-se muito durante a II Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, os cientistas trabalharam para identificar quais vitaminas e minerais e quais quantidade eram essenciais para manter um corpo saudável. Estudos foram realizados para determinar quantas calorias eram queimadas em diversas atividades físicas. Preparação, armazenamento, manuseio e preparo adequados de alimentos tornaram-se uma prioridade nas atividades militares. As rações humanas para soldados foram formuladas com a finalidade de suprir a demanda nutrição e energética, concomitantemente proporcionavam variedade e sabor. O desenvolvimento laboratorial se refletiu na cozinha e o desenvolvimento da Ração-D usada em situações de emergência e altamente calórica veio na forma de uma barra de chocolate fortificada. Um pacote de três partes dessas barras forneceria um soldado com 1, 800 calorias de energia (Mindell).

Em 1939, o professor de medicina Julius Hallervorden determinou a aplicação da eutanásia a doentes mentais, um programa que exterminava quem recebesse dos médicos o diagnóstico “lebensunwertes leben”, que significava “vida indigna de viver”. A longo do tempo, Hallervorden formou uma coleção de cérebros que, em 1944, contava com 697 exemplares. Contudo, médicos como Hallervorden e tantos outros que exerceram a medicina nazista não tinham as mesmas possibilidades que Sigmund Rascher, responsável pelo campo de concentração de Dachau. Ele usava cobaias humanas vivas para seus experimentos sádicos. Rascher dizia que “Sou, sem dúvida, o único que conhece por completo a fisiologia humana, porque faço experiências em homens e não em ratos”. Rascher era admirado e protegido por Heinrich Himmler, o braço direito de Hitler, e entusiasta das pesquisas a ponto de assistir aos terríveis experimentos em câmaras de baixa pressão.

Dentre as mais de 200 cobaias que passaram pelas câmaras de baixa pressão até maio de 1942, 80 morreram durante os testes. Algumas tiveram o cérebro dissecado enquanto ainda estavam vivas para que o médico observasse a presença de bolhas de ar que se formavam nos vasos sanguíneos. Além dos experimentos sádicos em baixa pressão para observar o congelamento e hipotermia nas pessoas, Rascher também fez experimentos com a coagulação sanguínea amputando sem anestesia e atirando nos membros das pessoas e usando um preparado chamado Polygal que agia como redutor de sangramento. Himmler se aproximou de Rascher porque este afirmava que poderia estender a expectativa de vida das mulheres alemãs e com isto seu tempo de fertilidade. Rascher usou como argumento o fato de sua esposa Karolina ter 48 anos e ter engravidado três crianças. Posteriormente, descobriu-se que os filhos do casal haviam sido sequestrados por Karolina. Rascher ainda havia cometido crime financeiro, fraudes científicas e tinha assassinado um ex-assistente do campo de concentração e ambos foram condenados sem julgamento. Rascher foi encarcerado no próprio campo de concentração de Dachau e Rascher foi morto em 1945, três dias antes do campo de concentração ser libertado pelos EUA.

Contudo, nenhum alemão foi tão cruel no exercício da medicina nazista quanto Joseph Mengele, cujas experiências foram responsáveis pelo extermínio de 400 mil pessoas em Auschwitz. Mengele inoculava tinta azul nos olhos de crianças judias, unia veias de gêmeos, introduzia pessoas em caldeiras com água fervente, amputava membros de prisioneiros, dissecava anões-vivos e coletava milhares de órgãos em seu laboratório. Depois da guerra, fugiu e viveu escondido no Brasil até morrer afogado, em 1979 na praia de Bertioga.

Os nazistas eram obcecados por ar limpo, comida natural e um estilo de vida saudável, na medida em que desejavam cultivar uma raça superior pura e limpa. Tendo isto em mesmo, os nazistas foram os primeiros a fazer estudos que relacionavam o hábito de fumar ao câncer de pulmão. Ironicamente, um estudo sobre vida saudável veio de uma sociedade que pregava a higienização social (Rezende, 2019).

Existe uma forte discussão sobre a utilidade dos resultados obtidos em todos esses episódios experimentais feitos pelos nazistas. Para discutir essa questão, é necessário encarar o legado científico do nazismo, que era desconhecido até pouco tempo atrás. Estudos recentes, começam a deixar mais claro como era feita a ciência no período nazista. Duas das questões básicas a serem consideradas são: É eticamente válido considerar os resultados? Houve experimentos de qualidade feito pelos nazistas?

Um estudo da Sociedade Max Planck descobriu que parte das pesquisas criminosas conduzidas pelos nazistas não era pseudociência e seguiam métodos científicos tradicionais. Contudo, lembremos que as atividades de Rascher ou mesmo a eugenia nazista eram claramente fraudes e pseudociência. Portanto, é importante rever até que ponto essas atividades eram de fato criteriosas, pois é possível que muitas delas não tivessem critério algum, expressando somente violência de ódio. Até as pesquisas de Mengele devem ser revistas pois sua atividade não era baseada somente em um comportamento em sádico, mas havia interesses científicos que, para a época, não eram totalmente implausíveis, segundo a alemã Susanne Heim, líder do estudo da Sociedade Max Planck (Rezende, 2019).

É difícil buscar algo útil e positivo diante de todos estes episódios de violência, o que leva-nos a pensar sobre até onde é eticamente válido considerar a ciência produzida na Alemanha entre as décadas de 1930 e 1940. Os experimentos causaram dor, humilhação e mortes terríveis às pessoas confinadas em campos de concentração – fossem elas judias, ciganas, homossexuais ou qualquer tipo de inimigo do regime (Rezende, 2019).

Os responsáveis por essas “pesquisas” podiam ser sádicos, mas nem sempre eram leigos. Muitos foram formados em escolas tradicionais antes da instauração do regime nazistas ao poder. A Alemanha era um dos líderes mundiais em inovação científica e os alemães sempre foram pesquisadores metódicos que sistematizavam suas experiências, coletaram dados, chegaram a conclusões. A questão é se isto se manteve durante as experiências, ou se elas eram feitas mais pelo próprio prazer na dor alheia? O fato é que independente dos episódios, os nazistas geraram informações que, além de inéditas na época, nunca mais foram ou deveriam ser reproduzidas em testes.

As pesquisas sobre hipotermia, por exemplo, além de matar centenas de prisioneiros do campo de Dachau, produziram dados que alguns cientistas gostariam de usar em pesquisas atuais. Robert Pozos, diretor do Laboratório de Hipotermia da Universidade de Minnesota, nos EUA, é um deles. Ele estuda como o corpo responde ao frio para descobrir a melhor maneira de reanimar pessoas que cheguem quase congeladas aos hospitais. Mas seu trabalho enfrenta um problema: muitas de suas pesquisas não podem ser concluídas, pois os voluntários podem morrer quando sua temperatura vai abaixo de 36ºC. A única fonte conhecida de dados sobre pessoas nessas condições são exatamente os experimentos nazistas. É ético utilizá-los agora para salvar vidas? Há como saber se os experimentos de Rascher feitos em Dacheu seguiram critérios científicos ou eram apenas mais fraudes científicas como o caso dos seus 3 filhos? Os estudos feitos pelos nazistas em relação ao câncer de pulmão passaram longe de oferecer uma alternativa de cura e essas falhas metodológicas, fraudes como a de Rascher e a antropologia tendenciosa dentro da eugenia colocam em dúvida o critério de muitos experimentos nazistas (Rezende, 2019).

Eticamente, talvez fosse mais interessante aguardar os avanços tecnológicos da ciência moderna para fazer estudos não invasivos e não violentos que tenham como objetivo averiguar a validade dos resultados obtidos pelos nazistas, da mesma forma com que os avanços da pesquisa hoje tendem a diminuir o uso de animais em testes laboratoriais e substituí-los por modelos não-vivos, modelagens ou elementos sintéticos. Se consideramos errado utilizar os resultados dessas experiências porque para obtê-las muitas vidas foram ceifadas com muito sofrimento, então, alguém poderia questionar se as tecnologias de foguetes, satélites, aeronaves, automóveis também deveriam já que foram construídas em um contexto de guerra para invadir e matar o inimigo com maior eficiência.

Ao que parece, ainda que o míssil V2 tenha sido responsável tanto por mortes quanto pela tecnologia básica para foguetes e viajem espacial, é valido pensar que essa tecnologia, mais cedo ou mais trade, poderia ser desenvolvida, portanto, utiliza-la não legitima as mortes. Contudo, matar pessoas em experimentos sádicos não torna os meios justificáveis porque o homem futuramente poderá obter resultados sobre hipotermia sem a necessidade de matar pessoas e com um nível de precisão cientificamente éticos. O mesmo vale para os dados do câncer que hoje são muito mais precisos do que a época dos nazistas. Da mesma forma que hoje reduziu-se o número de animais como cobaias em tanto testes de medicamentos e outros produtos, futuramente obteremos resultados satisfatórios sem a necessidade de usar as atrocidades da medicina nazista e garantir que tais atrocidades não sejam legitimadas ao serem utilizadas por cientistas.

Em 1886, Heinrich Hertz mostrou que as ondas de rádio poderiam ser refletidas por objetos sólidos, colocando em movimento os avanços tecnológicos que se tornariam o radar. Este trabalho deveria ser desenvolvido e melhorado durante a guerra, particularmente pelos britânicos que precisavam da tecnologia para detectar os bombardeiros que chegavam durante a Batalha da Grã-Bretanha e embaralhar uma resposta de caça (ExpertReviews, 2015).

Com a perspectiva de guerra pairando sobre a Grã-Bretanha, investigações foram feitas sobre as possíveis armas que os alemães poderiam implantar. Uma preocupação era que uma descarga elétrica forte que estava sendo desenvolvida, seguindo uma reivindicação de Nikola Tesla. Em 1935, Robert Watson Watt, um especialista em rádio, foi contatado para descobrir se as ondas de rádio poderiam ser usadas neste “raio da morte”. Várias semanas depois Arnold F. ‘Skip’ Wilkins apresentou um documento chamado “A Detecção de Aeronaves pela Radio Methods”, que descrevia como um transmissor e um receptor poderiam ser construídos para refletir ondas de rádio de um avião para detecção (Arruda, 2013).

Onde os aliados realmente venceram foi através do desenvolvimento do magnetron. Esse transmissor de micro-ondas – que atualmente é usado em fornos – permitia a criação de sistemas de radar menores e mais precisos, capazes de detectar objetos muito menores. O moderno magnetron foi criado por John Randall e Harry Boot em 1940 na Universidade de Birmingham. Com a Grã-Bretanha não tendo dinheiro para produzir em massa e desenvolver a ideia, uma amostra de trabalho foi enviada para os EUA, onde a Bell Telephone Laboratories criou uma versão que poderia ser fabricada (ExpertReviews, 2015 & Arruda, 2013).

Os laboratórios químicos desenvolveram uma série de novas tecnologias, como diferentes de explosivos e bombas incendiárias. O Napalm era uma forma de gasolina gelatinosa muito utilizada no Vietnã, mas só foi amplamente usada na ilha de Tinian, no Pacífico, contra os japoneses. Houve também o aprimoramento do lança-chamas usado na I Guerra Mundial e o uso de telas de fumaça. Novos materiais e funções foram estabelecidos para as versões antigas.

Empresas que fabricam bens de consumo (como prataria) foram convertidas para a fabricação de artigos militares (como instrumentos cirúrgicos). Essas modificações industriais exigiam soluções rápidas e criativas da engenharia, transporte e comunicações. Para suprir a demanda de colocar a maior parte dos recursos no esforço de guerra, os consumidores populares passaram por um período de escassez e racionamento de muitos itens básicos, como borracha, gasolina, papel, e café. As saias das mulheres ficaram mais curtas para reduzir o consumo de matéria-prima e as roupas de banho eram feitas de duas peças.

Novos materiais plásticos surgiram para preencher necessidades anteriores e durante a guerra. O envoltório de plástico tornou-se um substituto para a folha de alumínio para cobrir alimentos (e foi usado para cobrir armas durante o transporte); embalagens de leite e suco de papelão substituíram garrafas de vidro; chapas acrílicas foram moldadas em narizes de bombardeiros e copas de avião de caça. O compensado surgiu como um substituto para metais escassos, para tudo, desde os cascos de barcos PT a asas de aeronaves. A aparência da América dos anos 50 – um mundo “moderno” de móveis de compensado moldado, fibra de vidro, plástico e poliéster – teve suas raízes nas inovações de materiais da II Guerra Mundial (Mindell).

Diante da escassez de petróleo os alemães precisavam desesperadamente de uma alternativa e inventaram uma mistura de éster de ácido adípico com óleo de polietileno. Isso ajudou a manter a Luftwaffe no ar durante a guerra. Os americanos também desenvolveram seu próprio óleo sintético e começaram a usá-lo na força aérea, uma vez que foi descoberto que os óleos sintéticos tornavam os aviões mais fáceis de ligar no inverno e reduziam os depósitos de fuligem nos radiadores de óleo.

Além disso, com as potências do Eixo controlavam a maior parte do suprimento mundial de borracha natural, havia uma necessidade desesperada de os Aliados melhorarem a produção de borracha sintética. Em 1940, Waldo Semon desenvolveu a Ameripol, que era mais barata de produzir e atendia com facilidade a necessidade aliada de borracha (ExpertReviews, 2015).

A questão energética sempre foi um problema durante a II Guerra Mundial e em 1943, na Holanda ocupada, a empresa Philips desenvolveu o projeto de uma lanterna com dínamo para as tropas. A ideia era que a lanterna era alimentada por uma alça na parte superior e a luz era gerada a partir do perto da alça na parte superior. A unidade não tinha bateria para carregar, então a energia só era gerada enquanto a alça estava sendo rapidamente pressionada. As lanternas foram apelidadas de knijpkat (grosseiramente traduzido como gato espremido) devido ao barulho que o dínamo fazia ao ser pressionado.

A Philips conseguiu produzi-las em massa e popularizá-las se tornando comum nos anos 50. Eles também apresentavam grande durabilidade, algumas funcionam mesmo após 70 anos de uso, usando os componentes e lâmpadas originais. Atualmente, as lanternas usam uma manivela que carrega uma bateria interna, facilitando a produção de energia com menos esforço (ExpertReviews, 2015).

A eletrônica ganhou proeminência rapidamente na II Guerra Mundial com os britânicos desenvolvendo computadores eletrônicos que foram usados ​​principalmente para quebrar os códigos “Enigma” criados pelos nazistas. Esses códigos para mensagens de rádio eram indecifráveis ​​para os Aliados e o trabalho meticuloso dos decifradores de código baseados no Bletchley Park, na Grã-Bretanha (entre eles Alan Turing), desvendou os segredos da comunicação alemã em tempo de guerra e desempenhou um papel crucial na derrota final da Alemanha (Macintyre, 2010).

O Enigma era uma máquina de codificação que mudava seus códigos diariamente, fazendo com que a decifração se tornasse lenta para os britânicos. Alan Turing foi direcionado para o quartel da GC&CS em Bletchley Park e a partir de uma máquina decodificadora polonesa, Turing projetou a Bombe, um equipamento eletromecânico que ajudaria a decriptar as mensagens do Enigma, sendo montada em 1940. Novas Bombes foram construídas após Turing e sua equipe pedirem apoio a Winston Churchill, e mais de duzentas operavam ao fim da Guerra em 1945. Turing também introduziu sua equipe em Bletchley Park ao matemático Tommy Flowers, que em 1943 projetou o Colossus, um computador primitivo que ajudou a decodificar outra máquina criptográfica alemã, o Lorenz.

Antes de ingressar em Bletchley Park, Turing já era um matemático altamente reconhecido. Na década de 1930, após a constatação de que a matemática não seria capaz de resolver todos os problemas, a comunidade científica tentava delimitar uma fronteira para aquilo que poderia ou não ser resolvido. Turing propôs um modelo formal para fazer essa separação, a conhecida Máquina de Turing. Consistia de um sistema abstrato em que, em vez dos nove dígitos que empregamos para calcular, ele usava apenas 0 e 1 combinados em cifras. Essa máquina hipotética deu origem a nosso computador eu usa estes códigos binários (Strathern, 1997).

Com os alemães criptografando praticamente todas as mensagens, o projeto Bletchley Park foi colocado em operação para decodificá-los e dar aos países Aliados uma enorme vantagem. No processo, a equipe incrível que trabalhou lá, criou o primeiro computador do mundo.

O foco principal de Bletchley Park foi quebrar o código do Enigma e posteriormente o código de Lorenz, cuja cifra de tráfego de informações era conhecido como Tunny – muito mais complexas do que a Enigma. Como esse tráfego era usado pelo Alto Comando Alemão, as mensagens criptografadas eram incrivelmente importantes. As máquinas de Lorenz estavam mais próximas da criptografia moderna do que a Enigma. Eles eram teleimpressores que produzem mensagens não como texto, mas com cada caractere composto em código de cinco bits.

Para criptografar os dados, a máquina de Lorenz gerava cinco bits pseudo-aleatórios. Essa operação examinava os pares de bits e gera 1 se apenas um dos caracteres for um 1, caso contrário, a saída será 0. Os mesmos princípios se aplicam na criptologia moderna e o uso de binário é exatamente como os computadores modernos funcionam (ExpertReviews, 2015).

O Colossus foi então projetado pelo engenheiro de pesquisa de telefonia Tommy Flowers para resolver este problema de códigos. O protótipo, Colossus Mark 1, mostrou estar funcionando em dezembro de 1943 e estava em uso no Bletchley Park no início de 1944. Um Colossus Mark 2 melhorado que usava registros de turno para quintuplicar a velocidade de processamento, trabalhou pela primeira vez em 1º de junho de 1944, a tempo para os desembarques na Normandia no Dia D (Flowers, 1983).

Colossus Mark 1

O uso dessas máquinas por Bletchley Park permitiu que os Aliados obtivessem uma grande vantagem na inteligência militar de alto nível de mensagens de radiotelegrafia interceptadas entre o Alto Comando Alemão (OKW) e seus comandos do exército em toda a Europa ocupada.

A existência das máquinas Colossus foi mantida em segredo até meados da década de 1970; as máquinas e os planos para construí-las haviam sido destruídas na década de 1960 como parte do esforço para manter o sigilo do projeto.

Após o Colossus o maior representante da revolução da computação foi o ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer), que começou a ser desenvolvido por engenheiros da Universidade da Pensilvânia nos Estados Unidos, mas só ficou pronto em 1946, durante a Guerra Fria. Este foi projetado para o exército americano para fazer cálculos de artilharia e ajudou no desenvolvimento da bomba de hidrogênio, testada pelos Estados Unidos em 1952.

Ele realizava cerca de 5 mil operações por segundo, pesava 30 toneladas, tinha mais de 2 metros de altura e ocupava uma área de 15 por 9 metros. Ele custava cerca de 400 mil dólares. Foi o primeiro computador “multiuso” pois os anteriores apenas desempenhavam tarefas específicas, como cálculos de bombardeios em guerra. Desta forma, as primeiras máquinas eram usadas na guerra ou nas universidades, com a chegada do LEO, houve a primeira integração de um computador a uma empresa – inglesa de alimentos.

A partir de então entramos no período da Guerra Fria e em 1955 inaugura-se a corrida espacial.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, II Guerra Mundial, Alemanha, Inglaterra, França, Nazistas, Hitler, Submarino, Avião, Plásticos, Radares, Tanques, Mísseis, Foguetes, Combustível, Bomba Nuclear.

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Referências

Arruda, F. Oito tecnologias inventadas para a guerra que fazem parte do nosso cotidiano. TecMundo2013
Chamberlain, Peter; Ellis, Chris (1975). British and American tanks of World War II; the Complete Illustrated History of British, American and Commonwealth tanks, gun motor carriages and special purpose vehicles, 1939–1945. New York: Arco Pub. Co. [1969]. p. 54.
Flowers, Thomas H. (1983), “The Design of Colossus”, Annals of the History of Computing, 5 (3): 239–252
Homer, Steven; Selman, Alan L. (2001). Computability and Complexity Theory. [S.l.: s.n.] p. 35.
Ludlow, D. Top inventions and technical innovations of World War 2. Expert Reviews. 2015
Macintyre, Ben (10 December 2010). “Bravery of thousands of Poles was vital in securing victory”. The Times. London. p. 27.
Mindell, D. The Science and Technology of World War II. Anchor.
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Rezende, R. Doutores da agonia: por dentro da ciência nazista. Super Interessante. 2019
Selwood, D (29 January 2014). “The man who invented poison gas”. The Telegraph.
Septimus H. Paul (2000). Nuclear Rivals: Anglo-American Atomic Relations, 1941–1952. Ohio State U.P. pp. 1–5.
Strathern, Paul (1997). The Big Idea: Turing & the Computer. London: Arrow.
Tobey, Raymond E. (23 February 2018). “Advances in Medicine During Wars”. Philadelphia, Pennsylvania: Foreign Policy Research Institute. Archived from the original on 15 July 2019.
Trueman, C.N. (16 Jun 2019). “Medicine And World War Two”. The History Learning Site. Archived from the original on 15 July 2019.
Winchester, J. Jet Fighters: Inside & Out”. 2012.

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