DAVID HUME – CAUSALIDADE E O PROBLEMA DA INDUÇÃO.

David Hume (1711-1776) é um dos empiristas britânicos do início da modernidade, juntamente com John Locke e George Berkeley. Embora os três defendam padrões empíricos semelhantes para o conhecimento – que não haja ideias inatas e que todo conhecimento é fruto da experiência – Hume é conhecido por aplicar rigorosamente esse padrão à causa e à necessidade. Em vez de considerar a noção de causação como certa, Hume nos desafia a considerar o que a experiência nos permite saber sobre causa e efeito.

Hume mostra que a experiência não nos diz muito. De dois eventos, “A” e “B”, dizemos que “A” causa “B” quando os dois sempre ocorrem juntos, isto é, são constantemente unidos. Sempre que encontramos “A”, também encontramos “B” e temos a certeza de que essa conjunção continuará a acontecer. Uma vez que percebemos que “A” deve trazer “B” notamos que é equivalente “devido à sua constante conjunção e estamos psicologicamente certos de que “B” seguirá “A”, então ficamos com uma noção muito fraca de necessidade. Essa tênue compreensão da eficácia causal ajuda a dar origem ao Problema da Indução: de que não estamos razoavelmente justificados em fazer qualquer inferência indutiva sobre o mundo. Parte da fama e importância de David Hume se deve à sua abordagem cética a uma série de assuntos filosóficos. Ele defendeu a posição cética de que a razão humana é inerentemente contraditória, e é somente através de crenças instaladas naturalmente que podemos navegar em nosso caminho pela vida comum.

Na filosofia da religião, ele argumentou que não é razoável acreditar em testemunhos de alegados eventos milagrosos, e ele sugere, portanto, que devemos rejeitar as religiões que são baseadas em testemunhos de milagres. Hume descreveu contra a crença comum de seu tempo de que a existência de deus poderia ser provada através de um projeto ou argumento causal. Hume ofereceu críticas convincentes às provas teístas padronizadas. Ele também avançou com teorias sobre a origem das crenças religiosas populares, fundamentando tais noções na psicologia humana e não no argumento racional ou na revelação divina. O objetivo maior de sua crítica era desvincular a filosofia da religião e, assim, permitir que a filosofia seguisse seus próprios fins sem uma excessiva extensão racional ou corrupção psicológica.

Na teoria moral, Hume foi contra a visão comum de que deus desempenha um papel importante na criação e reforço dos valores morais, oferecendo uma das primeiras teorias morais puramente seculares, que fundamentavam a moralidade nas conseqüências agradáveis ​​e úteis que resultam de nossas ações. Ele introduziu o termo “utilidade” em nosso vocabulário moral, e sua teoria é a precursora imediata das visões utilitaristas clássicas de Jeremy Benthame e John Stuart Mill. Alguns veem Hume como um dos primeiros proponentes da visão metaética emotivista em que os julgamentos morais expressam principalmente nossos sentimentos.

Em epistemologia, ele questionou noções comuns de identidade pessoal e argumentou que não existe um “eu” permanente que continue ao longo do tempo. Ele descartou relatos padrão de causalidade e argumentou que nossas concepções de relações de causa e efeito são baseadas em hábitos de pensamento, e não na percepção de forças causais no mundo externo em si.

Aqui, veremos um pouco dos fundamentos empíricos que levam Hume ao seu relato de causalidade e como ele usa essas informações-chave para gerar o Problema da Indução.

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Causalidade

As contribuições mais importantes de Hume para a filosofia da causalidade são encontradas em “Um Tratado da Natureza Humana” e em “Investigação sobre o Entendimento Humano”, a qual geralmente é vista como uma reformulação parcial da primeira. Ambas as obras começam com o axioma empírico central de Hume, conhecido como o Princípio da Cópia. Vagamente, afirma que todos os constituintes de nossos pensamentos vêm da experiência. Hume nomeia o conteúdo das percepções da mente, que ele divide em impressões vindas dos sentidos e as ideias. Embora o próprio Hume não seja rigoroso quanto a manter uma distinção objetiva entre os dois vemos que as impressões têm sua gênese nos sentidos, enquanto as ideias são produtos do intelecto.

Impressões fornecem as sensações e são mais vivas do que ideias. O Princípio da Cópia de Hume, portanto, afirma que todas as nossas ideias são produtos finais de impressões, que é característico da visão empirista: as experiências pelos sentidos são conduzidas ao intelecto onde se consolidam como ideias.

Para usar o exemplo de Hume, podemos ter uma ideia de uma montanha dourada sem nunca termos visto uma. Contudo, a mente pode combinar ideias relacionando-as se já tivermos a ideia do ouro e a ideia de uma montanha proveniente de experiências passadas. Assim, podemos combiná-las para chegar à ideia de uma montanha dourada mesmo sem nunca ter visto uma. O Princípio da Cópia exige apenas que, no fundo, as ideias constituintes mais simples que nós relacionamos provenham das impressões dos sentidos. Isso significa que qualquer ideia complexa pode, eventualmente, ser rastreada até os sentidos que constituem sua gênese.

Em seu tratado, Hume identifica duas maneiras pelas quais a mente associa ideias, através de relações naturais e através de relações filosóficas.

Nas relações naturais há um princípio de conexão tal que a imaginação naturalmente nos leva de uma ideia a outra. Essas três relações naturais são a semelhança, o contato e a causa e efeito. Destes, Hume nos diz que a causalidade é a mais prevalente. Mas causa e efeito também é uma das relações filosóficas, em que os relatos não têm um princípio de conexão, sendo, ao contrário, artificialmente justapostos pela mente. Podemos observar relação causa e efeito quando acertamos uma bola de bilhar em outra e a segunda se desloca, ou muitas vezes relação causal entre passar de baixo de uma escada e ter 7 anos de azar.

Das relações filosóficas, algumas podem nos dar certeza, mas algumas não. Causa e efeito é uma das três relações filosóficas que nos proporcionam menos do que certos conhecimentos, sendo os outros dois a identidade e a situação. Mas destes, a causalidade é crucial. Só ela nos permite ir além do que está imediatamente presente aos sentidos e, juntamente com a percepção e a memória, é responsável por todo o nosso conhecimento do mundo.

Hume, portanto, reconhece causa e efeito como uma relação filosófica e uma relação natural em seu tratado, a única obra em que ele faz essa distinção. A relação de causa e efeito é fundamental no raciocínio, e Hume define como a descoberta de relações entre objetos de comparação. Mas quando Hume diz “objetos”, ele refere-se aos objetos da mente, isto é, as ideias que são as impressões do sentido. Mas a causalidade em si deve ser uma relação e não uma qualidade da ideia, pois não há uma propriedade comum a todas as causas ou a todos os efeitos. Assim, a causação é uma relação entre ideias que empregamos em nosso raciocínio para produzir algo menor do que o conhecimento demonstrativo do mundo além de nossas impressões imediatas.

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O Problema da Indução

Um dos argumentos causais influentes de Hume é conhecido como o Problema da Indução, um argumento cético que utiliza os insights de Hume sobre a experiência que limita nosso conhecimento sobre relações causais. Embora Hume forneça uma versão rápida do problema em sua discussão sobre a causalidade no seu tratado, ele é um argumento influente, pois as conclusões céticas do problema tiveram um impacto drástico no campo da epistemologia (Internet Encyclopedia of Philosophy).

A indução parte de dados particulares da experiência sensível e após sucessivos dados estabelece uma verdade geral. De acordo com o indutivista, a ciência começa com a observação, e esta, por sua vez, fornece uma segura base sobre a qual o conhecimento científico pode ser edificado. Vejamos um exemplo:

  • Todo cão é mortal
  • Todo gato é mortal
  • Todo peixe é mortal
  • Todo pássaro é mortal
  • Logo, todo animal é mortal

Se nos casos particulares detectados (cão, gato, peixe e pássaro) no processo da indução levam a uma conclusão a respeito do todo (serem mortais), o contrário também pode ocorrer.

O método dedutivo é uma modalidade de raciocínio que parte da intuição para obter uma conclusão a respeito de uma determinada premissa. Essencialmente, o raciocínio dedutivo se caracteriza por apresentar uma conclusão que deve ser verdadeira caso todas as premissas sejam verdadeiras e se o raciocínio respeitar uma forma lógica válida.

Neste caso a lógica dedutiva parte de uma ideia geral (do todo) e se direciona ao particular – no caminho contrário da indução. Vejamos um exemplo:

  • Premissa Maior: Todo mamífero possui pulmão;
  • Premissa Menor: Os golfinhos são mamíferos;
  • Conclusão: Os golfinhos possuem pulmões.

Por esta razão a abordagem de Hume sobre a indução é uma questão filosófica importante, pois questiona de forma profunda se o raciocínio indutivo (do particular para o todo) leva-nos de fato ao conhecimento. Na indução a generalização é uma conclusão mais geral do que as premissas.

A primeira crítica, ou problema da indução vem do ato de generalizar propriedades com base em algumas observações do número de instâncias específicas. Uma inferência assim é arriscada de se fazer. Uma forma de exemplificar o risco pode ser obtida na afirmação:

  • Todos os pardais que temos visto são marrons;
  • Portanto, todos os pardais são marrons.

O problema desta afirmação é que todos os pardais que vimos até hoje não correspondem a todos os pardais existentes na natureza. Nossa amostragem é limitada. Portanto, só podemos afirmar com certeza que todos os pardais que avistamos até hoje são marrons. Como não vimos todos os milhões de pardais que existem na cidade – ou no mundo – não temos como afirmar que todos os pardais são marrons. É possível que haja pardais pretos ou brancos, mas que nunca demos a sorte de encontrar e observar. Assim, o primeiro problema da indução refere-se a amostragem limitada que temos para fazer uma generalização.

Pardal

Quantas observações de pardais constituem um grande número amostral? Quantas vezes teríamos de analisar o resultado de uma bomba nuclear até inferir que ela causa danos ou sofrimento humano? Ou ainda, seria legítimo dar credibilidade a uma cartomante através da observação de uma previsão correta acerca de algum acontecido e ignorar os seus erros de previsão?

Assim, concluímos que o princípio da indução não pode ser justificado meramente pela lógica. Estas questões são importantes para a filosofia da ciência e para demarcar o que é e o que não é de fato científico.

O segundo problema da indução é pressupor que uma sequência de eventos no futuro ocorrerá como sempre foi no passado. Por exemplo: que as leis da física irão se apresentar sempre da forma como foram observadas. Como por exemplo:

  • Até hoje, por toda nossa existência vimos o Sol nascer toda manhã
  • Portanto, amanhã o fenômeno se repetira.

Segundo a linha indutivista, a ciência começa com a observação, que por sua vez, fornece uma base segura sobre a qual o conhecimento científico pode ser construído. O Problema da Indução de Hume coloca em dúvida exatamente todas as reivindicações empíricas feitas na vida quotidiana ou através do método científico e faz uma crítica à afirmação de que o conhecimento só pode ser construído a partir da observação (Chalmers, 1993).

O Problema da Indução está em distinguir os bons dos maus hábitos indutivos, dada a ausência de qualquer distinção objetiva entre eles. Assim, a indução é uma inferência duvidosa e só pode levar a uma conclusão que tem apenas certo grau de probabilidade de estar correta e não uma certeza. A relação causa e efeito é exatamente isto, uma probabilidade, e por isto é uma questão metafisica também, na medida que tenta descrever a realidade.

Em seu Tratado da Natureza Humana, Hume insiste que as conexões probabilísticas, assim como as conexões causais de ideias dependem de hábitos da mente e não têm base na nossa experiência do mundo (Vickers, 2011).

Por mais estranho que pareça, o fato do Sol ter nascido nos últimos 4.5 bilhões de anos de existência da Terra não pode nos garantir que amanhã ele nascerá novamente. Contamos com isto em função de experiências passadas, mas nada garante – inclusive a lógica não pode garantir – que amanhã será como hoje e ontem porque o amanhã ainda não experimentamos e vivenciamos para saber se de fato o Sol nasceu. Até porque a astrofísica defende que o Sol um dia ira cessar suas atividades e terá consequências a todo Sistema Solar.

No Problema de Hume é que em toda esta sequência de eventos não há nenhum que seja causa disto ou daquilo. Para Hume a ideia de causalidade está além da nossa experiência, quer dizer que não pode ser verificada pela experiência. Assim, apesar da sua improbabilidade física o certo é que do ponto de vista lógico o seu valor de verdade é tão duvidoso quanto o das proposições contraditórias. Portanto a causalidade não é um evento físico, mas um modo de pensar e os eventos físicos não são algo que exista na experiência, mas é uma forma de organizarmos a experiência.

Para David Hume a causalidade resulta do hábito de termos experiências sempre associadas sequencialmente entre si. Nós habituamos as experiências que certos fenômenos ocorrem sempre antes ou depois de outros e por causa disso julgamos que existe uma relação causal universal e necessária. Contudo tais proposições sintéticas não têm valor de verdade necessária e a ciência natural é feita de proposições sintéticas.

A resposta mais notável ao problema de Hume sobre a indução foi formulada só dois séculos mais tarde pelo filósofo da ciência Karl Popper. Popper criou o Problema da Demarcação, que trata de definir as linhas em torno do que seja ciência. Refere-se à grande dificuldade existente na distinção entre teorias científicas e ideias não-científicas (que se passam por ciência – chamadas de pseudociências), à natureza e propriedades das fronteiras que promovem tal distinção.

A solução para Popper é relativa à falseabilidade das afirmações propostas e validade delas até que evidência verificável demonstre o contrário. Este modelo fundamenta a base da definição moderna de ciência, sendo a resposta mais aceita para o problema da demarcação.

No sistema de Popper poderíamos testar as afirmações indutivistas. Por exemplo, no caso da afirmação de que todos os pardais são marrons, pelo menos até que alguma evidência em contrário seja descoberta. Uma vez encontrada, a afirmativa deve ser abandonada, e uma nova afirmativa falseável mais abrangente deve ser proposta como explicação para a cor dos pardais. O indutivista poderia encontrar 5, 10, 100, 1.000 ou 100.000 pardais marrons para suportar a afirmação de que todos são marrons, mas basta que um pardal branco, preto (ou de outra cor) apareça e toda a sua afirmativa se desfaz. Então, a teoria agora deve ser atualizada dentro das evidências encontradas.

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Conclusão

Argumentos lógicos válidos caracterizam-se pelo fato de que, se a premissa do argumento é verdadeira, então a conclusão deve ser verdadeira. Entretanto, como vimos, uma inferência indutiva com premissas verdadeiras pode levar a uma conclusão falsa, mesmo que não haja uma contradição envolvida. Isto significa que os argumentos indutivos não são logicamente válidos, pois a lógica não pode ser usada como garantia de confiança de que a inferência indutiva seja verdadeira. Além disto, outros elementos precisam ser considerados em uma análise na prático. Uma medição, por exemplo, deve considerar uma variação significativa de circunstâncias que influenciam seu procedimento. Um experimento somente é viável caso se mencione quais dessas variações são relevantes para chegar em um resultado: temperatura, pressão, umidade do ar, sentido do vento, altitude etc.

E claro, a formação cultural, conhecimento geral/prévio e expectativas do experimentador também são elementos que influenciam a forma como interpretamos a experiência e observação (Chalmers, 1993).

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, David Hume, Causalidade, Indução, Popper, Filosofia da Ciência, Metafísica, Método Científico.

 

Referências

Chalmers, A. F. O que é ciência, afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.
Hume, David. A Treatise of Human Nature. Clarendon Press, Oxford, U.K., 2007, edited by David Fate Norton and Mary J. Norton.
Hume, David. An Enquiry Concerning Human Understanding. Clarendon Press, Oxford, U.K., 2000, edited by Tom L. Beauchamp.
Internet Encyclopedia of Philosophy
Vickers, John, “The Problem of Induction”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2011 Edition), Edward N. Zalta (ed).

One thought on “DAVID HUME – CAUSALIDADE E O PROBLEMA DA INDUÇÃO.

  1. Causa e efeito serem um modo de pensar e não uma experiência/evento foi o que mais me impactou no pensamento de Hume. Incrível!!

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