PORQUE REJEITO O ARGUMENTO COSMOLÓGICO.

Vários argumentos estreitamente relacionados a existência de deus se resguardam na aparente necessidade do Universo ter uma causa. Aparentemente, há três possibilidades: o universo começou a existir por si; existiu desde sempre; ou, então, foi trazido para a existência por alguma força poderosa.

As provas lógicas que tentam provar que o Universo é fruto de uma criação é chamado de argumento cosmológico. Em geral são argumentos que tentam provar que deve haver uma “causa primeira” de todo o universo — geralmente, nomeada de deus.

Os argumentos puramente filosóficos sobre a existência de deus servem apenas como indicadores ou sugestões da presença de um criador, mas não podem prová-lo.

Esses argumentos apenas dão a sensação de reforçar a crença, mas não atingem o cerne da questão de fato, porque apenas o raciocínio sem experiência alguma não é capaz de comprovar a existência de algo. Além disto, podem soar muitas vezes como um mero jogo de palavras.

Por exemplo, um dos mais antigos e comuns argumentos a favor da existência de deus vem do argumento ontológico, no qual parte do nosso intelecto ser capaz de conceber um ser maior do que todos os outros, sendo ele perfeito e superior a tudo que existe no Universo. Para que tal perfeição e superioridade realmente existam é preciso conceber também a existência real desse ser, portanto, deus existe. Afinal, existir pressupõe mais perfeição e superioridade do que não existir.

Outro argumento bastante comum e que ainda é difundido, principalmente pelos criacionistas, é o que chamaremos aqui de “argumento de projeto”, que parte da analogia do relógio de William Paley utilizado pelos teólogos naturais no século XVIII e XIX. Um relógio encontrado pressupõe que houve um relojoeiro ou um projetista inteligente. Sendo o universo tão complexo quanto um relógio, pressupõe-se que deus seja o seu projetista.

Evidentemente, o argumento ontológico é mais fácil de descartar. Basta trocar a palavra deus por com algum personagem folclórico, inventado ou qualquer outra entidade mística e ele é válido da mesma forma, ainda assim, não significa que este personagem inventado realmente exista.

O nosso destaque aqui são as variações que existem do argumento da “Primeira Causa” que se baseia na ideia de que tudo o que experimentamos no Universo deriva de alguma causa anterior. Por exemplo, um relâmpago é a causa do fogo que atingiu um mato seco e gerou um incêndio. Ou ainda, de que cada um de nós é o efeito de uma causa maior, que são nossos pais. Contudo, nossos pais, além de ser nossa causa, também são efeitos de uma causa anterior, os nossos avós e assim por diante em uma regressão em direção ao passado. Diante disto, surge um dilema epistemológico, afinal, poderíamos ir regredindo em direção ao passado até chegar à ideia de um ponto onde deve haver a primeira causa, ou, o primeiro domino da fila a cair – uma causa não causada geradora de todos os efeitos.

É natural e lógico remontar esses trilhões de eventos que ocorrem no Cosmo afora a uma única causa original e faz sentido designar que essa causa seja deus, pois é mais fácil, cômodo e reforça a crença pessoal em um criador. Mas ainda assim, não é algo comprovado.

O argumento cosmológico deriva do argumento de Kalam ou argumento de Al-Gazhali que originalmente constituía o argumento do “Primeiro Motor” escrito pelo filosofo grego Aristóteles. Toda sua obra só é conhecida graças aos árabes que as salvaram e ao longo de séculos de desenvolvimento intelectual foram revisadas e comentadas em todo Império Árabe.

Na Idade de ouro islâmica, por causa do sucesso de Avicena em reconciliar o neoplatonismo e o aristotelismo, o “avicenismo” eventualmente se tornou a principal escola de filosofia islâmica já no século XII, com Avicena assumindo um papel de autoridade maior no assunto (Nahyan, 2006).

Anteriormente, no século VIII, as escolas de pensamento Islâmicas se viram obrigadas a defender os seus princípios contra o Islã ortodoxo que crescia. Os ortodoxos foram os primeiros a perseguir uma teologia islâmica racional chamada de Ilm-al-Kalam (Teologia escolar). O argumento teleológico para um cosmo intencionalmente criado e ajustado a vida foi apresentado pelos antigos filósofos islâmicos, em especial Alcindus e Averroes (fundador do Averroísmo), enquanto Avicenna (fundador da escola de filosofia islâmica) apresentava tanto o argumento cosmológico como o ontológico em sua obra “O Livro da Cura” no ano 1027. O argumento de Kalam era então um argumento em favor de uma causa, mas não um argumento teísta em defesa a uma causa religiosa.

Posteriormente, Al-Ghazali escreveu mais de 70 livros sobre ciência, antiga filosofia islâmica, psicologia islâmica, sufismo e em defesa do IIm al-Kalam em um discurso teológico da “escolástica islâmica” que defendia os princípios da fé islâmica contra os que duvidam e detratavam-na.

O “primeiro motor” de Aristóteles se tornou no mundo árabe e especialmente na Europa medieval um argumento religiosamente “convertido”. O argumento de Kalam conhecido se tornou atualmente o argumento cosmológico. É defendido nos dias de hoje, especialmente pelo filósofo cristão William Lane Craig, como resultado de uma re-leitura aristotélica feita pelos árabes e uma re-adaptada para o cristianismo.

Para reconhecer a contribuição do islamismo medieval para o desenvolvimento desta versão do argumento, Craig cunhou o nome “argumento cosmológico kalam”. Em seu livro “The Kalam Cosmological Argument” ele formula o argumento da seguinte forma:

  • Premissa maior: Tudo que começa a existir tem uma causa.
  • Premissa menor: O Universo começou a existir.
  • Conclusão: Portanto, o Universo teve uma causa.

A questão no final das contas é saber se o cosmo foi intencionalmente criado, recorrendo assim a uma questão metafísica – buscar fora da physis o que explica sua origem -, ou simplesmente buscar na própria natureza algo que explique sua origem, de modo natural.

Craig remodelou e subverteu o argumento aristotélico para tentar dar conta de tornar o desconhecido em algo conhecido sob a luz do cristianismo – tendência esta que surgiu na Idade Média, assim como o fizeram com as obras de Platão e inauguraram o neo-platonismo agostiniano.

Poderíamos começar questionando que tal argumento diz respeito a condição grega aristotélica ou árabe para justificar a crença em suas respectivas causas, sendo elas deuses ou não. Nada no argumento confirma que de fato, há um deus criador intencional do Cosmo e que este seja deus, ou ainda, que este deus é necessariamente aquele que se encontra na tradição cristã como pressupõe Craig.

A conclusão do argumento é que, já que há um Universo em vez de nenhum, ele deve ter sido causado por algo ou alguém além dele mesmo – e essa primeira causa deve ser deus. Esse raciocínio baseia-se na lei da causalidade, que diz que toda coisa finita ou ocasional é causada por algo além de si mesma. Poderíamos então questionar esta conclusão cosmológica da existência de deus de diferentes maneiras: pela ideia de que uma série infinita de causas não seja possível; ou questionar a validade da conclusão de que há apenas uma primeira causa e que esta seja deus; ou ainda defender que qualquer deus proposto como primeira causa para explicar o Universo precisa tanto de uma causa como o próprio Universo e, assim, o argumento deve provar a existência de um deus a partir de algo maior que deus, criando uma série infinita de deuses – chamado de looping.

Aqui abordarei o argumento cosmológico sob a perspectiva filosófica inicialmente e por fim, a partir da perspectiva científica.

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Analisando filosoficamente

Existem diversas críticas ao argumento, e a primeira delas se refere ao fato de que as premissas não são necessariamente verdadeiras. É possível que o Universo não tenha um começo, sendo totalmente cíclico em uma eterna inflação seguida de contração cósmica. Ou que de fato haja uma causa, mas ela não seja deus.

Um problema – de ordem filosófica – é a necessidade de recorrer a uma causa para tudo, e isto inclui o próprio criador. Outro problema provém do fato de que modelos de causalidade podem ser não-lineares (em que não há proporcionalidade entre a causa e o efeito gerado), como sugere a teoria do caos, nos quais cada evento é causa e efeito de outro.

Caracterizar uma relação causal, distinguindo-a de uma simples correlação, é um assunto delicado. Pelo método científico, deve-se estabelecer não apenas a correlação significativa entre eventos em questão, mas uma relação causal.

Causalidade é uma relação obrigatória, mais profunda do que uma correlação. Se um evento A e um evento B ocorrerem simultaneamente não implica que “A” seja a causa de “B” ou que “B” gere “A”. Isto é uma correlação, porque a ligação entre dois eventos não implica necessariamente em uma relação de ocorrência, ou seja, que um dos eventos seja decorrente do outro. A correlação pode, no entanto indicar uma possível relação causal oferecendo áreas para um estudo mais aprofundado. É preciso provar a relação causal de que A seja elemento fundamental e causador de B. Ou seja, é preciso demonstrar clara e objetivamente que um dos eventos seja a causa do o outro, e que “B” decorra de “A”.

Assumir que uma condição de correlação prove automaticamente causalidade é uma falácia lógica denominada “cum hoc ergo propter hoc” (do latim “com isto, logo por causa disto”) e direciona as pessoas a falsos positivos. A falácia se constitui no ato em que se salta de imediato para uma conclusão de causalidade. Tudo depende, sobretudo, da complexidade do problema, e é verdade que a causalidade é dificilmente estabelecida como uma certeza absoluta. Obviamente, dois eventos que possuam de fato uma relação de causalidade deverão apresentar também uma correlação.

Utilizando o método científico é possível muitas vezes estabelecer uma relação de causa-efeito com uma segurança confortável em algumas situações. O que acaba por ter mais importância no final é a reprodutibilidade da relação causa-efeito e a possibilidade de fazer previsões corretas sobre eventos futuros – embora isto se desdobre em outra discussão envolvendo David Hume.

Um exemplo de relação causal claro vem do fato da indústria do tabaco não poder mais afirmar que a correlação entre o tabaco e o câncer do pulmão não implica necessariamente causalidade porque existem conjuntos de pesquisas clínicas sérias com evidências científicas a favor da relação causa-efeito. Por exemplo: O hábito de fumar aumenta em 40 vezes a chance de desenvolver câncer de pulmão. Entre 80% e 90% dos casos de câncer de pulmão estão associados ao consumo de tabaco. Nos anos 1960, as mulheres começaram a fumar mais, e cerca de 20 anos depois, registrou-se um aumento significativo do número de mortes por câncer de pulmão entre a população feminina. Substâncias relacionadas ao desenvolvimento de tumores são encontradas no cigarro (hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, aminas aromáticas e nitrosaminas, estas últimas relacionadas a nicotina sendo quatro as principais nitrosaminas do tabaco: 1) NNK2 – 4-(metilnitrosamina)-1-(3-piridil)-1-butanona; 2) NNN – N’-nitrosonornicotina; 3) NAB – N’-nitrosoanabasina; 4) NAT – N’-nitrosoanabatina. As nitrosaminas encontradas em maior quantidade são NNK2, NNN e NAT) (OncoGuia).

A questão primordial para Craig é estabelecer a relação causal entre deus e um Cosmo todo. A partir da mera lógica não é possível, afinal, ela apenas nos sugere com um jogo de palavras. Sendo deus um ser não-mensurável, não-visível, não-constatável e externo ao Cosmo fica difícil estabelecer uma relação causal entre uma causa divina e um Cosmo. E mais difícil ainda é estabelecer a causalidade especificamente ao deus do cristianismo. Neste sentido, o argumento é pautado basicamente exclusivamente no desejo de que esteja certo, ou seja, na fé, que por definição é uma crença em uma divindade sem evidências.

O fato de um argumento ser logicamente concatenado, mas deficiente em evidências empíricas é arriscado de ser defendido. Por isto a ciência pode trazer um vislumbre na medida em que lógica associada as evidências empíricas, a capacidade de verificação e falsear podem auxiliar a estabelecer tais relações causais ou correlações com mais confiança.

Um argumento lógico nem sempre bebe da fonte factual. Posso partir de premissas bem estruturadas logicamente, mas erradas na prática. Por exemplo:

  • Premissa maior: Todos os gatos têm cinco patas.
  • Premissa menor: Xaxá é o nome de meu gato.
  • Conclusão: Logo, Xaxá tem cinco patas.

De nada adiante obter premissas e conclusão logicamente alinhadas se gatos não possuem 5 patas. Portanto, a lógica e o empirismo devem estar alinhados e graças a razão isto pode ocorrer.

Há ainda a possibilidade de – ainda que remota – de que eventos ocorram sem que haja uma causa. Determinados assim por eventos aleatórios subjetivos e objetivos. A aleatoriedade subjetiva estabelecida por Demócrito refere-se ao desconhecimento de causa(s), sendo um outro nome para a ignorância humana acerca das causas determinantes de um dado evento. A aleatoriedade objetiva descrita por Epicuro é dada pela ausência de causa(s). Ela é um processo aleatório cujo comportamento é imprevisível e não-controlável. Significa que se o repetirmos a partir de estados iniciais e causas idênticas produzirão efeitos diferentes que são determinados de um modo totalmente ao azar ou sorte. Um exemplo deste tipo vem da desintegração de um átomo radioativo e a emissão de um fóton por um átomo excitado porque não existe nenhum modo de prever o momento exato de ocorrência de tais fenômenos.

Alguns físicos sugeriram em 2015 que o Universo poderia não ter uma origem. Enquanto trabalhavam com a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica, tentando concilia-las, acabaram chegando a um modelo (ainda que mais incompleto que o Big Bang) em que não há uma singularidade para o Universo. Os cientistas Ahmed Farag Ali, da Universidade de Benha, Egito, e Saurya Das, da Universidade de Lethbridghe em Alberta, Canada, não estavam procurando resolver o problema da singularidade e acabaram criando uma nova hipótese para a origem do Cosmo sem a singularidade, em que o Universo é eterno.

Embora o modelo seja novo e ainda não impacte o modelo do Big Bang, ele descreve o Universo como sendo preenchido por um fluido quântico constituído de grávitons, partículas hipotéticas que não tem massa e que são mediadoras da força da gravidade. Essa nova hipótese tem o potencial de resolver o problema da singularidade, e ao mesmo tempo explicar a matéria escura e a energia escura. Um Universo eterno sem origem e fim também é sugerido pelo Edward Milne em sua tese de um Universo Estacionário.

Pensando em termos de religião, há algumas em que não há um mito de criação. No budismo não há criação do Universo nem do homem, o mundo se tornou como é desde o despertar de Buda. Na tribo Pirarrã, localizada no município de Humaitá (Amazonas) sequer acreditam em divindades recusando-se a acreditar em personagens na qual não podem ser vistos. Evidentemente são exceções à regra, mas para eles não há uma causa primordial.

Por outro lado, outra hipótese científica sugere que nosso universo poderia ser fruto de um “embrulho” tridimensional que surgiu em torno de um horizonte de eventos de um buraco negro de quatro dimensões. Neste cenário, o nosso universo explodiu no momento em que uma estrela em um universo de quatro dimensões caiu em um buraco negro. Em nosso Universo tridimensional, os buracos negros têm horizontes de eventos bidimensionais – isto é, eles são cercados por uma fronteira bidimensional que marca o “ponto-sem-retorno”. No caso de um Universo de quatro dimensões, um buraco negro teria um horizonte de eventos tridimensional.

Os pesquisadores enfatizam que esta ideia, embora possa parecer “absurda”, é solidamente fundamentada nos melhores modelos matemáticos modernos descrevendo o espaço e o tempo. Especificamente, eles usaram as ferramentas da holografia para “virar o Big Bang em uma miragem cósmica”. Ao longo de seus modelos resolveram alguns enigmas cosmológicos de longa data e – crucialmente – produziram predições testáveis. Portanto, para este modelo, o Universo surge a partir de uma causa natural.

Evidentemente, o modelo que sugere o Big Bang como o processo pelo qual nosso Universo e passou a se expandir sugerido pelos físicos provém de causas naturais também. O que causou a singularidade seguida da inflação (o Big Bang propriamente dito) encontra-se na própria natureza: flutuações quânticas de energia. Assim, seja o Universo fruto desta singularidade que foi única e exclusiva, seja o Universo fruto de um processo de Big Bang e Big Crunch eterno (inflação e contração), ambos são fruto de uma causa natural.

Big Bang e Big Crunch cíclico

A grande discussão então não é se o Universo tem uma causa ou se ele é fruto da ausência de causa (acaso). O cerne da questão é se o Universo é fruto de um processo natural ou de um elemento sobrenatural. Neste sentido, se interpretarmos o argumento de Kalam como um argumento que refere-se somente a causalidade e não um argumento teísta, então uma causa – seja ela sobrenatural ou natural – valida-o. Kalam só estaria errado nesta posição se não houvesse causa.

Caso não haja uma causa, ou a causa seja de fato um fenômeno natural como sugere os cosmólogos, então Craig estaria errado e Kalam poderia ter acertado em uma e errado em outra.

Outro problema comum do argumento está em respaldar-se na Falácia da Súplica Especial, na qual as pessoas aplicam padrões, princípios e regras sobre a posição do oponente, esperando que sua posição esteja isenta das mesmas regras. Se a premissa maior diz que “Tudo que começa a existir tem uma causa”, então tudo, pela definição da palavra abrange inclusive um possível deus.

Se tudo requer uma causa, então surge um paradoxo conhecido como regressão infinita. De fato, Craig tem o costume de apelar a esta falácia com muita frequência. A única maneira de se esquivar do paradoxo é assumir que deus não se restringe as leis de causa e efeito. Mas se assumirmos que a existência do Universo também não se restringe a essas leis então aniquilaríamos o argumento e deus se tornaria desnecessário, afinal, a grande maioria dos físicos/cosmólogos não tem problema algum em aceitar que o Universo passou a existir em algum momento, e então se ele pode fazer isso sem a necessidade de um criador.

Assim, da mesma forma com que deus poderia existir sem a necessidade de um criador, torna deus também um passo desnecessário para o cosmo. Portanto, o Argumento Cosmológico torna-se obsoleto.

Além disto, para que o argumento tenha sentido, exige dos teístas a prova prévia de que deus realmente existe e que ele criou o Universo, entretanto, deus é recorrido justamente para provar esses pontos, levando assim o argumento cosmológico a uma “lógica circular” em que ele diz provar a existência de deus porque este deus prova que o argumento é certo.

Geralmente, as pessoas ignoram o argumento da primeira causa reconhecem que há outros argumentos que também são deficientes porque suas premissas são duvidosas e questionáveis quanto as conclusões que chegam; ou ainda, as respectivas conclusões não estão logicamente de acordo com as premissas. Um exemplo claro de objeção levantada em relação ao argumento cosmológico é o de que a segunda premissa (O Universo começou a existir) é inaceitável, especialmente entre alguns cientistas.

Os matemáticos têm argumentado a favor da possibilidade de séries infinitas de eventos ou causas em termos técnicos e alguns filósofos têm aceitado o seu raciocínio. Por exemplo, se hipoteticamente rejeitamos a ideia de que pode haver uma série infinita de causas, de tal modo que ambas as premissas do argumento se tornem aceitáveis, ainda assim o argumento não teria validade. Ele apenas sugeriria que cada série de causas tem uma causa primeira, mas não comprova que todas as causas sejam parte de uma série única de causas que tenha a única causa primeira. Afinal, é possível que nem todas as causas sejam partes de uma série única de causas. Em outras palavras, o argumento provaria que há uma ou mais causas primeiras, mas não que exista apenas uma. No melhor dos cenários, a uma primeira causa que poderia ser sugerida não seria deus. E mesmo que o argumento provasse que tal primeira causa seja um deus, não significa que ele seja aquele previsto pelos cristãos, judeus ou muçulmanos (Filosofia na Escola).

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Analisando cientificamente

Em relação à expansão do Universo, Craig aceita o modelo Big Bang de Friedman-Lemaitre baseado na aplicação cosmológica das equações de campo gravitacional de Albert Einstein em que sua Teoria Geral da Relatividade prediz uma singularidade cósmica que constitui um limite no passado para o espaço-tempo e, portanto, marca a origem absoluta do Universo em um passado finito. Logo, Craig aceita a descrição física de que há um ponto no passado que os cosmólogos identificaram.

De acordo com o modelo cosmológico nada existia anteriormente à singularidade cosmológica inicial, no sentido de que é falso que qualquer coisa existiu anteriormente à singularidade, o espaço-tempo e todo seu conteúdo vieram a existência naquele ponto. Se existiu ou não algo antes do atual Cosmo parece ser algo cientificamente incapaz de ser verificado até o momento. Sendo assim, não há como escapar da ideia de que há um início absoluto no modelo padrão e que modelos alternativos se provaram insustentáveis. A questão é, há um ponto inicial que é a singularidade, e, portanto, ela deve ter uma origem.

Se a tese de Borde-Guth-Vilenkin de 2003 requer que qualquer Universo que está em estado de expansão cósmica não pode ser eterno no passado, e deve ter um ponto de limite (Mitchell, 2014).

Com a descoberta de que não só o Universo está em expansão, mas que ela é acelerada sugere que se voltarmos a no tempo, ele se concentra em uma condição primordial. E que em direção a expansão, tende no futuro com uma desintegração e morte fria e escura. A maioria dos físicos, portanto, tomam o desequilíbrio do Universo como evidência de que ele não é eterno em direção ao passado e sua baixa entropia é uma condição inicial.

Evidentemente, Craig pressupõe que a causa desta singularidade que retrata o Universo primordial era inteligente, atemporal, que sempre existiu antes mesmo da singularidade – impondo regras a física que não valem ao seu deus.

Contudo, a simples existência da causa primária não é suficiente para o acontecimento da singularidade. A causa primaria além de existir deve “decidir” começar a singularidade. Daí ela deve ter também vontade, intenção e livre-arbítrio.

A física e a relação causa-efeito não tem como admitir dentro da lógica e da própria fenomênica observável, que alguma coisa surja sem deixar evidências de como o processo aconteceu, e a origem do Cosmo deixou marcas nele. Por esta razão, o nada absoluto é rejeitado como capaz de produzir algo, afinal, implicaria em um Universo ilógico e sem leis, já que o desconhecido que define o nada não poderia formar o conhecido Cosmo.

Devemos considerar também que nossa impressão de que tudo deva ter começo e fim é meramente ilusória, pois não existe nenhuma coisa que tenha um começo e um fim. O que existe é somente uma transformação de uma forma para outra, um estado para o outro, uma posição para a outra: como o gelo (sólido) que se transforma em água (líquido) e posteriormente pode voltar ao estado anteriormente sólido ou formar o vapor (gasoso) – ou ainda se deslocar do sólido diretamente ao gasoso (sublimação). Neste sentido se o Universo sempre existiu é óbvio que é cíclico e apenas transita entre estados. Mas a origem de um Cosmo em um ponto do passado também é transitória, afinal, o nada absoluto não existe. Espera-se que a transição seja compreendida pelas leis da física.

Portanto, o Big Bang que iniciou a expansão de nosso Cosmo pode não ter sido o único, representando um sistema cíclico entre Big Bang/Big Crunch: um sistema de expansão criado por flutuações quânticas anteriores a singularidade, seguida de contração cósmica devido a atração gravitacional que leva o Universo a colapsar sobre si voltando ao estado inicial. Ou ainda, sendo o Universo atual a sua única versão, surgiu a partir de uma transição de um estado quântico da energia do vácuo para a singularidade e posteriormente o Cosmo.

A lei de causa e efeito se aplica aos estados de mudança da matéria, pois depende da reorganização de átomos ou a mudança de estados. Assim como também a transferência de energia, liberando-a seja através de calor, movimento ou som, assim como armazenando-a outra vez. Esses são os casos onde as leis de causa e efeito tem sido observados e dessa forma não são aplicáveis a criação da energia e da matéria. De forma mais clara, quando um artista pinta um quadro ou um engenheiro/arquiteto constrói uma casa, não está criando coisa alguma em um nível atômico, ele está simplesmente remodelando a matéria, partindo de algo que já existia e transformando-o em algo novo, em escala maior (Universo Racionalista, 2014).

Se aplicarmos as 4 causas de Aristóteles, temos a causa material (tijolos), causa formal (a casa), a causa eficiente (construtores) e a causa final (a intenção). Para uma casa é fácil atribuir um criador, conhecemos os protagonistas do projeto, da construção, do que é feito e como foi esquadrinhada. Há uma espécie de “gabarito” para a construção da casa feita pelo homem. No Cosmo, não há um gabarito descrito por um suposto projetista cósmico. Casas e objetos apenas servem como referência para dizer que o homem produz coisas com intencionalidade, mas não pode dizer nada sobre um Universo todo sendo criado, afinal o homem não produziu o Universo e não há um gabarito divino que possa ser consultado.

Apesar da teoria do Big Bang ser o modelo vigente, há outros modelos de origem do Universo que sugerem modelos próximos ou estacionários de Universo. Além da Teoria do Big Bang temos a tese do Universo Oscilante, Universo de Estado Estacionário, Teoria Inflacionária, Gravidade quântica em loop e a Teoria-M.

O Big Bang é a teoria mais aceita e sugere que a origem do Universo se deu há cerca de 13 bilhões de anos, quando o Cosmo com todas suas Galáxias e matéria era denso, quente e concentrado em um único ponto. Este ponto quente de densidade infinita em um dado momento começou a se expandir. Quando começa inflacionar em cerca de microssegundos, sua temperatura começa a cair de forma drástica, iniciando a formação da matéria obedecendo à relação entre massa e energia determinada pela equação de E=m.c2.

Isso se deu por meio dos prótons, elétrons e outros elementos hoje conhecidos. Os primeiros átomos se juntaram em nuvens de gases formando as primeiras estrelas e Galáxias. A teoria é, cientificamente aceitável devido a estudos e constatações feitas pelo telescópio Hubble. Ao captar a luz das estrelas, o equipamento consegue decifrar como eram elas há milhões de anos atrás, além de identificar a velocidade com a qual viajam entre as Galáxias.

A Radiação Cósmica de Fundo traz também uma assinatura do Big Bang. Ela é a mesma não importa a direção que se olha para o Universo. Galáxias como a Via Láctea apresentam velocidades peculiares em relação a este referencial. A velocidade e a direção do movimento da Galáxia podem ser detectadas a partir da ocorrência da anisotropia dipolar, causada pelo efeito Doppler, em que a radiação que está na direção da velocidade da Galáxia sofre desvio para o azul, enquanto a radiação proveniente da direção oposta sofre desvio para o vermelho (Spergel et al, 2006).

O Wilkinson Microwave Anisotropy Probe (WMAP) é um sistema de sensoreamento térmico da energia remanescente de fundo, ou ruído térmico de fundo do Universo conhecido. Esta imagem é um mapeamento em microondas do Universo conhecido cuja energia que chega ao sistema está reverberando desde 379.000 anos após o Big Bang, há aproximadamente 13 bilhões * de anos (presume-se). A temperatura está dividida entre nuances que vêm do mais frio ao mais morno, do azul ao vermelho respectivamente, sendo o mais frio a matéria, ou o “éter”, onde a energia térmica de fundo está mais fria, demonstrando regiões mais antigas. A comparação, feita pelo autor da imagem, é como se tivéssemos tirado uma fotografia de uma pessoa de oitenta anos, mas, no dia de seu nascimento.

Um observador estacionário em relação ao fluxo de Hubble, por sua vez, não detecta nenhum desvio na radiação incidente. Isso significa que a imagem mostra que de um lado (azul) há um comprimento de onda de radiação menor que a do outro (vermelho) – o que é esperado se considerarmos que estamos nos movendo em relação a fonte de emissão dessa radiação. Esse é o efeito Dopper.

Se subtrairmos a velocidade da rotação e translação da Terra, a velocidade de translação do Sol ao redor da Via Láctea e a velocidade da Via láctea dentro de seu aglomerado galáctico obtemos uma flutuação de 0,001%. A radiação cósmica de fundo chega por igual em todos os locais. Ou seja, esse efeito Dopper da radiação também atesta que o sistema que vivemos é heliocêntrico.

As evidências do Big Bang vêm de muitos dados observacionais consistentes. Muitos destes são consistentes com o Big Bang e até com outros modelos cosmológicos, mas se tomadas no conjunto, estas observações mostram que o Big Bang é atualmente o melhor modelo para o Universo. Dentre essas observações a favor deste modelo estão: a escuridão do céu noturno (o Paradoxo de Olbers); a Lei de Hubble que relaciona a distância linear e o desvio para o vermelho; a homogeneidade cósmica indicando que nosso local no Universo não é especial; a isotropia, ou seja, evidências bastante sólidas demonstrando que o céu se parece o mesmo em todas as direções até 1 parte em 100.000; e a dilatação do tempo em curvas de Supernovas; as fontes de rádio e contagem de quasares indicando que o Universo evolui de uma condição menor; a existência de uma radiação micro-ondas de fundo de corpo negro que indica que o Universo evoluiu de um estado denso e isotérmico; a variação da temperatura da radiação micro-ondas de fundo com o desvio para o vermelho, sendo esta uma observação direta da evolução do Universo; a abundâncias do 3He, 4He, e 7Li, isótopos leves que estão de acordo com as reações preditas para terem acontecido nos primeiros minutos de existência e expansão do Cosmo; e finalmente, o espetro angular de potência da anisotropia da radiação de fundo que existe no nível de várias partes por milhão e que é consistente com o modelo de um Big Bang dominado pela matéria escura, que segue um cenário inflacionário.

A tese do Universo Oscilante descreve o Cosmo como o último surgido após muitos que apareceram no passado, depois de várias inflações e contrações. Apresentada por Paul Steinhardt, a teoria aponta um futuro colapso do Universo sobre si mesmo, marcando o seu fim. Tal colapso é nomeado como Big Crunch. A partir dele um novo Universo nasceria. Esta tese teria o respaldo das mesmas evidências que apontam para a Teoria do Big Bang.

Outra tese defende que o Universo está em um Estado Estacionário. A teoria defendida por Edward Milne afirma que o Universo nunca veio de uma expansão e, muito menos, corre o risco de entrar em um Big Crunch. De acordo com esta hipótese – também chamada de Princípio Cosmológico – o Cosmo não tem começo e nem fim. Milne afirma que os dados coletados pela observação de um objeto a milhões de anos-luz são idênticos aos observados na Via Láctea na mesma distância. A explicação, neste caso, seria a de que o Universo não tem origem nem fim porque sua matéria sempre existiu. Sua aparência, então, seria idêntica no espaço e no tempo.

A Teoria da Inflação Cósmica não desmente a Teoria Big Bang, mas pretende complementa-la. Por isso, também é bastante aceita e recebe diversas fundamentações. A hipótese criada pelo físico Alan Guth tenta explicar a origem do Universo a partir de campos gravitacionais. Tais campos teriam uma força considerável, similar à encontrada próximo aos buracos negros. Segundo a teoria, uma única força teria se dividido em quatro, hoje conhecidas como as forças fundamentais do Universo: gravidade, eletromagnética, força nuclear forte e força nuclear fraca. Mesmo com tempo extremamente curto, o impulso inicial foi extremamente violento. Tanto que o Universo segue em expansão, apesar do retardamento das Galáxias causado pela força gravitacional (Guth, 2002 & Guth et al, 1984).

Há também a tese da Gravidade Quântica em Loop que tenta unir a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica. A hipótese indica que outro Universo tenha existido antes do nosso. Seu surgimento, também, foi a partir de um ponto que se expandiu para, depois, encolher – assim como Big Bang. Nela, o espaço-tempo quântico corresponde a diagramas matemáticos similares denominados espumas de spin.

Há ainda a Teoria-M que procura explicar o Big Bang a partir da Teoria da Gravitação de Einstein e a Mecânica quântica. Segundo a hipótese, há outros Universos paralelos ao nosso e o Big Bang, então, seria o resultado do choque entre eles. Esta tese descende a Hipótese das Supercordas, cuja essência explica que a matéria é formada por cordas microscópicas que vibram no tempo e no espaço. Cada vibração, então, daria origem a uma partícula. Stephen Hawking e Leonard Mlodinow sugerem a origem do Universo a partir da Teoria-M em seu livro “O Grande Projeto” (2010) sugerindo a busca pela unificação teórica e criando uma “teoria de tudo”.

Há ainda, a tese da Seleção Cosmológica Natural de autoria do físico canadense Lee Smolin. O físico defende que o surgimento do Universo se deu a partir de um buraco negro existente em outro. A estrutura da tese é bem similar à apresentada pela Teoria Big Bang. A hipótese baseia-se, também, nas teorias evolucionistas de Darwin. A partir dela, Smolin indica que um Universo “pai” daria origem a vários universos “descendentes”, iguais em sua semelhança.

Para entender a origem do Cosmo de forma natural é preciso ter em mente que o espaço vazio parece não ser nada para nós tal como a água pode não parecer nada para um peixe, sendo o que resta quando você tira tudo que há flutuando no mar.

Os físicos sabem que o Universo é muito vazio e que a densidade média do espaço é de cerca de um átomo em cada dez metros cúbicos – muito mais rarefeito do que qualquer vácuo que possamos alcançar na Terra. Se retirarmos toda a matéria, o espaço fica somente com um tipo de elasticidade que permite que as ondas gravitacionais – as ondulações no próprio espaço – se propaguem através dele, como constatado recentemente.

Alguma forma de transição ou flutuação ainda pouco conhecida pelos físicos poderia ter desencadeado uma parte do espaço a se expandir. Flutuações intrínsecas à teoria quântica seriam capazes de abalar todo o Universo se fossem espremidas a uma escala suficientemente pequena, como na singularidade que originou o Universo primordial. Isso aconteceria em um tempo de cerca de 1044 segundos – o que é chamado de tempo de Planck. Essa é uma escala em que o tempo e o espaço estão interligados.

A singularidade seria como uma pequena bolha de vácuo, criada a partir de flutuações quânticas do vácuo metaestável. Esta bolha pode se expandir exponencialmente, não importando se é fechada, chata ou aberta. O que interessa neste caso, é o fato de que a expansão exponencial termina quando a bolha se torna grande o suficiente para originar o Universo primordial.

Para a física quântica, essas flutuações criam pares de partículas virtuais. Quando surgem, tais partículas virtuais naturalmente se unem e se aniquilam. Elas só são capazes de se separar imediatamente antes de se aniquilarem diante da expansão exponencial da pequena bolha cósmica. Em física, uma partícula virtual é uma variação transitória que apresenta muitas das características de uma partícula normal, mas que existe em um período de tempo extremamente limitado.

Essas partículas pipocam espontaneamente deste estado em vácuo. Logo, se o Universo não se expandir rapidamente ele se esvanecerá devido às mesmas flutuações quânticas que geram a pequena bolha. No caso de uma rápida expansão, um Universo em estado de expansão será então irreversível. Portanto, há flutuações no vácuo quântico do Universo e há partículas quânticas estourando dentro e fora da existência em todo o Universo a todo tempo. Este vácuo quântico e suas respectivas flutuações é o que ficou conhecido popularmente como o “nada”.

Um nada absoluto como sinônimo de ausência de existência de qualquer coisa não é assegurado pela física. Se o nada não produz nada, nada existiria seja pela física ou pelas mãos de um criador, afinal, do nada nada pode vir. Diferente da concepção absoluta, o “nada” na física é algo, e refere-se a estas flutuações quânticas que permite as partículas virtuais pipocarem em existência. Portanto, a condição de nada absoluto não existe na física.

Evidentemente, o que não passou a existir não precisa de uma causa, como é o caso da energia que sempre existiu respeitando a 1ª Lei da termodinâmica da conservação de energia. Neste sentido o argumento cosmológico se desfaz, já que a energia é a base para as flutuações quânticas. Neste caso, uma entidade que age de forma intencionada se torna desnecessária diante deste fato natural constatado. Alguém poderia perguntar “Mas porque existe algo em vez de não existir?”, contudo, talvez a pergunta correta seria “Por que não deveria existir?”

O fato do “nada” poder produzir Universos diferentes é, na verdade, bem simples. A mecânica quântica nos mostra que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e que todas as possibilidades são realizadas. Mesmo em um espaço vazio, há partículas saindo do “nada”, constantemente. Não apenas isso acontece, como é vital. Na verdade, a maior parte da massa corporal de uma pessoa é determinada pelas partículas que saltam, constantemente, para dentro e para fora do espaço, a todo o momento. A mecânica quântica nos diz que este “nada” vai, eventualmente, produzir algo, pois é instável.

Físicos como Lawrence Krauss, autor do livro “A Universe From Nothing” (2012) discutem o que realmente significa um universo potencialmente surgir desta condição. Ele resume ao fato de, se adicionarmos toda a massa e energia do Universo, toda a curvatura gravitacional e absolutamente tudo que há no Cosmo, no final todas as somas vão dar zero. Por isso, é possível que o Universo realmente tenha vindo desta condição denominada “nada”, algo instável e que sempre acaba reagindo, sem precisar de interferência divina.

A capacidade destas flutuações em gerar partículas tem sido comprovada cientificamente. Por exemplo, através das equações que consolidaram a cromodinâmica quântica (a união entre eletromagnetismo e força nuclear fraca) os físicos incluíram em seus cálculos as interações entre quark-antiquark – uma das maiores complexidades da força nuclear forte. Agora, além dos glúons (um tipo de bóson que media as forças fortes entre quarks), os físicos sabem que a massa dos quarks-antiquarks se origina da flutuação do vácuo quântico.

Além disto, o campo de Higgs também cria a massa a partir das flutuações do vácuo quântico. Isto significa que, com a atual confirmação de que a massa dos glúons e quarks-antiquarks tem sua origem na flutuação do vácuo quântico é compreensível que quando o Universo começou a esfriar o campo de Higgs surgiu dando massa às partículas e assim, a matéria que compõe o Universo começou a se “condensar”. Claro, como todos os campos de força, o campo de Higgs dependia de uma partícula correspondente. Essa partícula é o bóson de Higgs, e é quem dá toda matéria ao Cosmo (Kronfeld, 2008).

Somando a isto, os cientistas descobriram também que as flutuações de origem quântica nas condições iniciais do Cosmo são o ingrediente necessário para explicar o padrão nas partículas.

Tais condições iniciais se comportavam de modo líquido, constituído basicamente por plasma de quarks e glúons, que, segundo o modelo teórico padrão, teria preenchido o Universo durante um diminuto intervalo de tempo após o Big Bang. Nesta condição, temos um sistema com densidade de energia muito alta constituindo um Universo primordial. Um sistema em flutuação quântica que emite partículas em velocidades próximas à da luz e que perdem energia ao transitar.

A detecção experimental das partículas resultantes obtida pelos físicos mostra que a sua distribuição angular segue preferencialmente um padrão elíptico. Os físicos introduziram as flutuações quânticas nas condições iniciais usadas nas simulações computacionais e chegaram a um resultado compatível com o padrão experimentalmente observado (Agência FAPESP, 2016).

O experimento: à esquerda, condição inicial da distribuição de energia do plasma de quarks e glúons sem considerar as flutuações quânticas: a energia decai do centro (vermelho) para a borda (verde). À direita, foram incorporadas flutuações quânticas: a energia define uma “paisagem” composta por “cumes” e “vales”, Fonte: Jornal da USP

De acordo com cosmólogos, no começo do Universo e mais precisamente nos microssegundos após o Big Bang, o Cosmo era cheio desse plasma. Conforme a temperatura altíssima do Universo foi baixando, e ele foi se expandindo e esfriando, a matéria foi se modificando em diferentes modelos e proporções concebendo um Universo formado aproximadamente por 68% de energia escura, 27% de matéria escura e 5% de matéria conhecida, aquela descrita pelo modelo padrão. Desses 5%, aproximadamente 95% são relacionados aos quarks e glúons. Basicamente toda massa do Cosmo vem deles e de suas interações.

Durante mais de 10 anos os físicos calcularam que o plasma não tinha flutuação, era liso. Ao longo dos anos, passaram a compreender que o fluido não é uniforme. De fato, nele foram constatadas as chamadas flutuações quânticas, que são a causa da densidade de energia ser composta por ‘cumes’ e ‘vales’. Portanto, da perspectiva física e quântica, o Universo pode ser compreendido desde suas origens como um fenômeno natural (Jornal da USP, 2016).

 

Conclusão

Apresentamos aqui uma série de reflexões feitas sobre o argumento cosmológico como um sistema lógico e empírico capaz de validar a causalidade intencional na criação do Cosmo. Em uma breve análise nos debruçamos sobre as falhas lógicas e filosóficas apresentadas sobre a questão da causalidade para a origem do Cosmo, a natureza desta causa e/ou ausência de causa. Apesar de ser um argumento logicamente construído, apresenta apenas um indicativo frágil para a existência de um criador proposital. Olhando pela perspectiva de Kalam aceitamos que ele pode estar certo se assumirmos que é possível – e provável – que o Universo de fato tenha uma causa. Consideramos o argumento na perspectiva de Kalam como direcionado a questão da causalidade e não como um argumento teísta, sendo este último apresentado pelo teólogo Willian Lane Craig.

Não consideramos a condição do argumento como válido dentro de um viés teísta porque não há nenhum indicativo diante das deficiências lógicas e limitadas do argumento quanto a regressão infinita em relação a falácia da súplica especial. Consideramos também que a origem do Universo a partir de elementos puramente físicos, logo naturais representa com maior fidelidade o que há constatado pelos físicos, sem a necessidade de um criador. Concluímos a impossibilidade de constatar uma intencionalidade como a causa primordial, a impossibilidade de constatar que uma mente de fato transcenda ao Cosmo, que tenha vontade própria, livre arbítrio, vontade para decidir criar o Cosmo, que é atemporal e que sempre existiu antes mesmo da singularidade.

As leis da física, ainda que sigam gradualmente e metodologicamente construindo um saber científico mais preciso sobre a origem do Cosmo oferta-nos com um vislumbre mais preciso sobre a natureza do Cosmo tornando a necessidade de um criador intencionado irrelevante.

O modelo do Big Bang parece claramente dar conta de explicar como o Cosmo se comporta após se originar e Craig parece aceitar razoavelmente bem a forma como a física o consolidou. Contudo, as flutuações quânticas como elemento que dá origem a toda a matéria, a singularidade, ao Universo primordial e todo o Cosmo claramente soam como uma causa natural para sua origem ainda que sejam limitadas e dependam de novas evidências, descobertas e modelos científicos. Não há motivação filosófica ou científica que fortaleça a presunção de que o Cosmo necessariamente precisa de uma causa inteligente e intencionalmente determinada para cria-lo.

Victor Rossetti

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Referências

Aristotle, Physics VIII, 4–6.
Cline, A. (27 July 2015). “Cosmological Argument for the Existence of God”. About, Inc.
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Guth, A. H. and Paul J. Steinhardt; The Inflationary Universe; Scientific American, May 1984.
Hawking, S & Mlodinow, L. O Grande Projeto. Editora Nova Fronteira. 2011
Kronfeld, A. S; The Weight of the World Is Quantum Chromodynamics.Science 21 November 2008 Vol.: 322, Issue 5905 – pp. 1198-1199
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