CRIACIONISTA NA CAPES – A ASCENSÃO SEM MÉRITO COMO SINTOMA DE ATRASO INTELECTUAL.

A inserção de um membro criacionista na CAPES é mais um sintoma de uma época específica de nosso país, caracterizada por uma série de bizarrices, insultos e um contingente de incompetentes que representa muito bem o atual Governo Federal.

O cristão Ned Flanders no desenho The Simpsons assustado ao entrar no museu de história natural e ver a trajetória da evolução humana.

Há tempos venho indicando a ascensão de uma extrema-direita evangélica que vinha de forma corrosiva atuando sobre a carta maior do Estado laico brasileiro – como quem começa comendo o mingau pelas beiradas. Desde 2017 quando sentávamos na sala dos professores, um colega da filosofia (Cristiano Teixeira) e eu discutíamos as manobras em Brasília para a realização de cultos em espaços públicos, as tentativas de pastores e da bancada evangélica em enfiar o ensino criacionista e ensino confessional nas escolas públicas em meio a discursos hipócritas de cristofobia.

Como poderia o Brasil, uma nação fundada em bases absolutamente cristãs, a nação mais católica do mundo e que persegue até hoje quilombolas praticantes de religiões de matriz africana ser um país cristofóbico?  Tal ideia nunca se sustentou ao mais simples dos questionamentos.

Com a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, nós aqui do NetNature sinalizamos para este processo e o risco que corríamos de inaugurar uma “Idade Média Tupiniquim”. Mesmo colegas meus da história disseram que isto não ocorreria e que o termo seria inapropriado. Posso concordar até certo ponto quanto ao termo na medida em que o modelo religioso seria evangélico e não católico, mas o pensamento catequista ainda existe: o que seria considerado oposto ao cristianismo é satanizado, profano, extinto ou deve ser convertido.

Não seria novidade alguma tentar catequizar (ou puxar de volta) a ciência nos moldes da época de Richard Owen onde as teorias científicas deveriam identificar traços da suposta criação na natureza quando estariam indicando uma natureza que não testemunhava a criação divina. O pensamento religioso pós-Darwin nunca aceitou o divórcio entre as ciências naturais e a teologia natural. Não que este divórcio seja absoluto, pois há muitos cientistas que são religiosos, encontram em suas crenças motivações e inspirações mas não necessariamente são criacionistas.

O fato é que nas décadas seguintes a Darwin muitos fanáticos religiosos tentaram fazer este resgate criando alegorias, folclores e termos nada científicos e que serviram como  muletas para salvaguardar uma crença atávica da ciência como testemunha da criação. Na década de 1920 com o Julgamento do Macaco de Scopes inauguraram o termo “criacionismo”, defendido por vigorosos fanáticos religiosos até chegar a década de 90 quando o termo evoluiu para “design inteligente” e o famoso fracasso de 2005 que caracterizou o julgamento Dover vs Kitzmiller onde o design inteligente foi exposto como um outro nome para a pseudociência criacionista.

No Brasil, os tentáculos da pseudociência e da anticiência nunca demoraram a chegar e portanto, em 2018 o meu anúncio da ascensão do pensamento anticientífico/pseudocientífico no Governo Federal era uma questão de tempo, afinal, desde 2010 eu havia tido contato com a nata da pseudociência criacionista/design inteligente do Brasil e conhecia o movimento: gente defendendo criação em 6 dias, deus anestesiou Adão para fazer Eva das costas, geologia de dilúvio, involução pós-éden, suspensão da endogamia no caso de Adão e Eva etc e tal…

Toda pseudociência que estoura nos EUA é comprada diretamente pelos cidadãos do Brasil. A instituição criacionista promotora do design inteligente Discovery Institute esticou seus tentáculos para o Brasil através do Mackenzie, na qual o atual presidente da CAPES é reitor.

Benedito Guimarães Aguiar Neto, reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, escolhido agora novo presidente da Capes. Reinaldo Canato/Folhapress

A ascensão dessas pseudociências no Brasil não vem pela qualidade da proposta apresentada. De fato, desde 2010 nota-se que cada argumento criacionista é frágil como cristal e nunca foi difícil colocar o grupo em maus lençóis quando se fala de produção científica e intelectual. Mesmo entre os criacionistas que tem formação não publicaram nada em revista científica porque o caráter pseudocientífico do design inteligente é universal e não uma determinação brasileira. Assim, suas publicações são feitas em FaceBook, em revistas predatórias, em livros que não passam por revisão ou em revistas com lay-out semelhante a de revistas sérias que o próprio grupo cria em inglês para maior propagação.

A ascensão deste tipo de pensamento não vem pela qualidade do produto, mas pela quantidade de cabeças de gado que viralizam a ideia e a grande explosão do movimento evangélico que ocorrera no Brasil em décadas anteriores. Na prática, a lógica meritocrática não se aplica ao criacionismo/design inteligente como no caso do novo presidente da CAPES, pois este modo de pensar é sintoma e não uma produção intelectual genuinamente construída. Criacionismo é parte das deficiências que o país tem passado recentemente. Todos são sintomas de uma “esquizofrenia político-social” que o país vive. É verdade que o criacionismo é um insulto ao intelecto nos dias de hoje, mas só quando passarmos por este período notaremos que toda estas falas nunca fizeram sentido, que apareceram nesse momento de nossa história por ser um momento conturbado de ideias e sentimentos que foram promovidos via redes sociais e permitiram a nata da ignorância se congregasse. Terraplanismo, design inteligente/criacionismo, nazismo de esquerda, integralismo, Jesus na goiabeira, anti-vacinação erros grotescos do ENEM, parafraseamentos de Goebbels etc são sintomas de um período de doença social específico do país, e é evidente que o criacionismo deveria aparecer, pois faz parte do pacote de absurdos. Se a terra plana faz parte do pacote porque uma terra de 6 mil anos não faria? Estranho seria se não aparecesse!

Só entenderemos este fenômeno de hoje daqui uns 20 anos, quando muitos sociólogos tiverem estudado o Brasil de 2020, tal como somente hoje entendemos a psicologia e a sociologia do fascismo italiano.

Infelizmente, o mérito deste tipo de pensamento está na quantidade de pessoas cientificamente prejudicadas ou analfabetas que foram capturadas por uma lógica religiosa política perversa que diluiu a barreira entre o que Jesus e o fascismo diziam e criou um amálgama.

Por esta razão nota-se discurso de ódio em nome do deus de amor, que aumentou o número de casos de violência para membros de religiões de matriz africana, na superficialidade das questões do ENEM, na falsa premissa de que educação sexual é “disciplina para ensinar alunos a transar”. O Ministro da Educação conseguiu destruir o processo de correção do ENEM, mas na avaliação do Governo o falecido patrono da pedagogia Paulo Freire que é “um energúmeno”.

O criacionismo no governo é um problema sério não apenas na perspectiva da educação, mas é reflexo do contingente de incompetência Federal e da demolição da educação como projeto de uma nação sem autonomia, formada para servir como engrenagens de um sistema. Caso não queira servir, facilmente é substituída por outra que aceita ser explorada por mais recebendo menos. E a lógica de atuação é simples, binária e militar: se você compartilha das mesmas crenças você esta com nós, se não, está contra nós. Na educação criacionista a máxima é a mesma: o aluno é ovelha que serve ao pastoreio e não um pesquisador intelectualmente autônomo.

Todos estes discursos conspiracionistas, revisionismos históricos, anticientificismo e pseudocientificismo que envolvem terraplana, criacionismo/design inteligente, anti-vacinação, anti-alunissagem, anti-mudanças climáticas são reproduções que nasceram foram do Brasil e servem a este propósito político.

Em sua maioria, são fruto de pensamentos americanos. O terraplanismo brasileiro vem da FlatEarth Society; o criacionismo e design inteligente também como evidenciado. O discurso anti-mudanças climáticas tem frutos nos interesses econômicos americanos; a anti-vacinação surge na Europa e ganha asas na imaginação americana levando a grupos de Oregon inclusive a rejeitar a fluoretação da água, por exemplo.

Este é o legado que o criacionismo tem a nos dar, conspirações, alienações, uma lógica catequista e perversamente maniqueísta.

Não há mérito algum no criacionismo estar na cabeça da CAPES pelo simples fato de que não é um presidente competente, mas sim indicado segundo um projeto político intelectualmente desonesto. O mundo científico como um todo condena o design inteligente e criacionismo na esfera da pseudociência ainda que eventualmente o Brasil reconheça-o por eventual aparelhamento político.

Contudo, mais do que necessário é o estabelecimento de uma relação duradoura com a comunidade científica internacional e as nacionais no repúdio ao criacionismo. Especialmente as internacionais, na medida em que qualquer manifestação interna possa gerar desafetos e demissões uma vez que o modus operandi atual é o aparelhamento do Estado por afiliações ideológicas e não por competências – vide o caso de Ricardo Galvão no INPE . A conclusão que se chega é que se podem colocar um criacionista para cuidar da ciência do Brasil não assustaria ver um anti-vacinacionista no Ministério da Saúde ou um terraplanista cotado para administrar a agência espacial brasileira. Chegamos a um ponto em que todos os absurdos se tornaram previsíveis: do nazismo ao guruísmo!

De qualquer modo, a repercussão internacional fez efeito e a Science Magazine destacou o caso entrevistando o biólogo evolucionista Antonio Carlos Marques, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo que disse:

“É completamente ilógico colocar alguém que tenha promovido ações contrárias ao consenso científico em posição de gerenciar programas que são essencialmente de treinamento científico”.

A revista ressalta também que a nomeação cria “insegurança” sobre como a CAPES moldará os programas educacionais, segundo Carlos Joly, pesquisador de biodiversidade da Universidade de Campinas.

A CAPES é uma agência federal importante do Ministério da Educação do Brasil, responsável pela regulação, supervisão e avaliação de todos os programas de pós-graduação em universidades brasileiras, e os fundos de milhares de bolsas de estudo para mestrado s  e doutorandos. Também emite apelos de financiamento para pesquisa e fornece treinamento para professores no ensino fundamental e médio.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Criacionismo, Design Inteligente, Pseudociência, Anticiência, Evolução.

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