COMO O NACIONALISMO E A EXTREMA-DIREITA ANDAM DE MÃOS DADAS COM A PSEUDOCIÊNCIA.

Um fenômeno vem emergindo em toda Europa e nos Estados Unidos: o nacionalismo conservador. Surgiu uma espécie de “medo” de invasões de imigrantes e de crises, como a econômica de 2008. O interesse de grandes investidores acaba ajudando a alimentar a onda ultra-nacionalista.

Tem se tornado evidente a adesão de populares a partidos políticos de extrema-direita que agora ameaçam alcançar o poder na Europa. Nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump revelou a influência de um nacionalismo isolacionista e o apoio de grupos como a Ku Klux Klan, neo-confederados e neo-nazistas.

Partidos como a Frente Nacional (França), Alternativa para a Alemanha (AfD) e Liga Norte (Itália), têm ganhado público com as manifestações populares, mas não adquiririam tal dimensão se não fossem financiados por grupos poderosos.

Esta ascensão conservadora tem alimentado a polarização política e diferentes modelos de direita têm emergido: que defende valores democráticos, mas é favorável à liberdade econômica; favorável a valores patriarcais; com um nacionalismo radical; contrária à imigração; à igualdade das mulheres, aos direitos da população LGBT (R7, 2018).

Tal polarização social tem criado políticos cada vez mais influenciadores que disseminam ideias pseudocientíficas e anticientíficas utilizando estratégias conhecidas há séculos, e que agora ganham eficácia extra graças à internet, bolhas sociais e tantas outras novas formas de interação social.

A pseudociência ganha campo ao despertar a curiosidade das pessoas, mas a falta de critérios de pesquisa, ceticismo, criticidade e o conforto que as notícias falsas trazem inaugurou a era das auto-verdades onde o crer é a verdade e não o fato em si. Assim, as crenças sugerem respostas as curiosidades de modo ilegítimo, assumindo muitas vezes deter o mesmo grau de confiabilidade das ciências e prejudicam de modo perverso as pessoas individualmente, coletivamente e também o planeta. Um exemplo disto vem de setores específicos da sociedade que, por motivos religiosos, políticos ou econômicos articulam-se para tirar proveito do baixo conhecimento que a população tem de como a ciência é feita, e também do grande nível de desinformação presente no meio virtual. Assim, tais grupos fazem a manutenção do poder (UNICAMP, 2019).

O nacionalismo e a extrema-direita alteram de modo intencional o modo das pessoas enxergarem a realidade a partir de pseudociências, argumentos falaciosos e revisionismos históricos. Não custa lembrar que a falsificação histórica e arqueológica para atender objetivos de orgulho étnico ou fervor nacionalista foi uma estratégia popularmente abraçada com entusiasmo na Alemanha nazista, quando o ideólogo genocida Heinrich Himmler construiu todo um passado fictício de glória para as tribos germânicas da pré-história em relação ao povo ariano.

Os pseudo-historiadores nacionalistas geralmente não têm credenciais em história, linguística, na arqueologia ou em qualquer outro campo que possa estar relacionado ao estudo de sua cultura. São leigos com mais sentimentos do que conhecimento e que muitas vezes descrevem tudo sobre o seu próprio país a partir de um nacionalismo irracional, idealizado e exacerbado. Quando encontram um campo mais amplo, buscam semelhanças com sua própria cultura e, como resultado de seu etnocentrismo e completa ignorância de conhecimento científico relevante, derivam conclusões rasas a partir daquilo que estão familiarizados. Muitos dos argumentos usados pelos pseudocientistas nacionalistas derivam dessa tendência universal do movimento nacionalista e são encontrados em muitos países. Aqueles que fazem uso desses argumentos muitas vezes acreditam que o seu grupo sozinho conseguiu encontrar as “evidências” óbvias ignorando completamente que todos os grupos nacionalistas e muitos outros grupos étnicos também fazem uso extensivo deles.

A partir de livros, artigos, programas de TV, documentários, sites e blogs os pseudo-historiadores e pseudocientistas nacionalistas divulgam tais argumentos associados a falácias lógicas, afirmações sem referências (ou enviesadas) e falsificações para milhões de pessoas se tornando incapazes de notar os absurdos promovidos por eles mesmos (AltIasi).

A distorção nacionalista da história é freqüentemente usada para apoiar a ação xenofóbica.

Os nacionalistas assumem a posição inversa, de que as minorias étnicas são opressoras, embora úteis, porque estão a serviço da sua pátria. Ao mesmo tempo, ficam indignadas sempre que isso é feito com seu próprio grupo. O argumento nacionalista pseudo-histórico se sustenta na falsa premissa de que eles são donos das terras que vivem (embora na maioria das vezes foram historicamente invadidas por processos de colonização) e que as minorias étnicas são apenas intrusas indesejáveis, que não teriam direito de estar ali, que poluem uma idealizada raça, que deveriam se curvar a maioria ou ser expurgadas. Na mesma medida, defendem que todos os membros nacionalistas de um grupo étnico devem ter o direito de preservar suas terras, língua e cultura próprias, defendendo inclusive a guerra.

Os pseudo-historiadores nacionalistas alegam que seu próprio grupo étnico é a “raça mestra” e que todas as línguas são apenas dialetos de sua própria língua e então todos os outros grupos étnicos são apenas versões “degeneradas”, “inferiores” do seu, que não têm o direito de existir ou deveriam ser purificados racialmente. Assim, a pseudo-história nacionalista serve como justificativa para o ódio e a opressão.

Casos como este são ainda comuns na Europa. A extrema-direita europeia Free West Media  citou recentemente (2018) um documento para afirmar que “elementos criminosos são representados por certos grupos étnicos”, e no blog de um candidato presidencial francês de extrema direita sob o título  “Immigres la science valide les prejuges” (Estudo valida preconceitos). É possível encontra-lo até em um dos sites de notícias mais populares nos EUA e circulando nos cantos da extrema direita do Reddit.

Está cada vez mais comum as manifestações ultra-nacionalistas pautadas em pseudociência mesmo entre membros acadêmicos. Um colaborador da Conferência de Inteligência de Londres foi Adam Perkins, do King’s College London, cujo livro The Welfare Trait propôs que “características de personalidade agressivas, violadoras de regras e anti-sociais” podem ser “eliminadas” da sociedade através da redução do apoio à criança nas rendas mais baixas. Uma forma clara de criminalização da pobreza e higienização social.

Perkins engajou-se ativamente com meios de comunicação de extrema-direita ao promover seu livro, aparecendo em entrevistas com o blogueiro canadense Stefan Molyneux. Molyneux não “vê a humanidade como uma espécie única porque não somos todos iguais”, e argumenta que “os africanos comuns estavam em melhor situação no colonialismo”. No Brasil, Molyneux foi convidado a participar do debate The Function of the State in Society (A função do Estado na Sociedade) promovido pelo Instituto Mises Brasil, e com a participação do professor de filosofia da Universidade de São Paulo, Vladimir Safatle.

Perkins não é o primeiro acadêmico do King’s College London a usar sua plataforma para promover a ciência contestada na imprensa. Na década de 1980, o Pioneer Fund apoiou um trabalho de Hans Eysenck, cujo objetivo era “reviver a confiança” de “grupos racistas de direita” como a Frente Nacional. O objetivo original do Pioneer Fund era a busca do “melhoramento de raça” que atualmente é considerado um grupo de ódio pelo grupo de direitos civis dos EUA, o Southern Poverty Law Center.

A ascensão da extrema-direita na Europa e na América do Norte indica claramente a intolerância a imigrantes, diferentes etnias e a tolerância concedida à pseudociência racista não sendo uma questão meramente acadêmica. Os nacionalistas brancos e neo-nazistas fazem amplo uso da pseudociência racista para reforçar seus posicionamentos políticos fundamentalistas. Em alguns casos de forma escancarada ao defender tanto o racismo científico ou as vezes na forma de higienização social pela criminalização e intolerância da pobreza.

A eugenia está mais intimamente associada à imaginação popular com o fascismo e a ideologia distorcida do partido nazista. No entanto, a eugenia racial estava intimamente ligada ao imperialismo europeu mais amplo, conforme ilustrado nos objetivos de Francis Galton, que cunhou o termo e posteriormente foi reforçado por Eugene Pearson.

A escala de cores de cabelo do Dr. Eugene Fischer é uma forma de seleção de 30 variedades diferentes de cabelo sintético, uma escala contínua de pessoas africanas a europeus usada para classificar a humanidade. O trabalho de Fischer foi utilizado no século XX desde a Alemanha até determinar a brancura da população mestiça da Namíbia. Mesmo antes de ter sido usado pelos nazistas para projetar a Leis de Nuremberg a escala foi usada no apartheid da África do Sul, onde pesquisadores usaram-na como ferramenta até a década de 1960.

Trinta amostras de cor e textura de cabelo em uma caixa de lata, projetada pelo Dr. Eugene Fischer em 1905.

Sua importância para o projeto imperialista significava que a eugenia gozava de amplo apoio nos estabelecimentos científicos e políticos britânicos. A Sociedade de Eugenia de Galton, criada para difundir tais ideias e pressionar por políticas eugênicas, tinha filiais em Birmingham, Liverpool, Cambridge, Manchester, Southampton e Glasgow, atraindo centenas de acadêmicos para suas reuniões. Foi um movimento da classe média adotado por pessoas instruídas, incluindo desde líderes progressistas como John Maynard Keynes, Marie Stopes e os fabianos cujos presidentes das sociedade vieram das universidades de Edimburgo, Oxford, Cambridge, LSE e UCL (New States Man, 2018).

O caso da Índia

Recentemente a Índia se tornou notícia mundial. Uma cúpula científica começou a convidar acadêmicos com inclinações nacionalistas hindus para fazer apresentações e um conteúdo escancaradamente pseudocientífico começou a se tornar evidente. Alguns acadêmicos indianos contestaram descobertas de Isaac Newton e Albert Einstein. KJ Krishnan da Universidade no Estado de Tamil Nadu, no sul do país afirmou que Newton falhou em “entender as forças gravitacionais repulsivas” e que as teorias de Einstein eram “enganosas”. Segundo ele, as ondas gravitacionais deveriam ser chamadas de “Ondas de Narendra Modi”, uma referência ao primeiro-ministro do país.

O primeiro-ministro Narendra Modi (ao centro) participou da abertura do 106º Congresso Científico Indiano. GETTY IMAGES retirado de BBC, 2019.

Um diretor de uma universidade do sul do país citou um antigo texto hindu como prova de que a pesquisa com células-tronco foi descoberta na Índia há milhares de anos.

A mitologia hindu e as crenças religiosas estão cada vez mais inseridas na agenda de discussões do Congresso Científico Indiano indicando claramente o avanço da chamada pseudociência. Por exemplo, G. Nageshwar Rao, vice-reitor da Universidade de Andhra, disse que o rei demônio do Ramayana – um épico religioso hindu – tinha 24 tipos de aeronaves e uma rede de pistas de pouso no território em que hoje está localizado o Sri Lanka, país vizinho.

A Índia tem uma rica tradição de cientistas de destaque, como o caso do Bóson de Higgs – também conhecido como a ‘partícula de Deus’ – que recebeu parte do nome em homenagem ao físico indiano Satyendra Nath Bose, contemporâneo de Einstein e o físico Ashoke Sen que ganhou, o Fundamental Physics Prize, considerado um dos prêmios acadêmicos mais respeitados do mundo”, destaca.

Contudo, segundo o jornalista Soutik Biswas, correspondente da BBC News em Déli, a Índia é um país que tem uma relação confusa com a ciência. Essas alegações pseudocientíficas de cunho nacionalistas geralmente remontam a um passado hindu idealizado na tentativa de reforçar o sentimento no país. O Partido Nacionalista Hindu (cuja sigla é BJP) e seus aliados autoritários divulgam mitologia e religião para reforçar o hinduísmo político e o nacionalismo acrescentando distorções da ciência para propagar pseudociência e charlatanismo e corroer o pensamento crítico.

O país tem uma longa tradição de substituir a ciência por mitos e o primeiro-ministro Narendra Modi é um dos que propagam este tipo de pensamento. Em 2014, Modi afirmou em um encontro com profissionais de saúde em um hospital de Mumbai que a história do deus hindu Ganesha – cuja cabeça de elefante está presa a um corpo humano – mostra que a cirurgia estética existia na Índia na antiguidade.

Muitos ministros seguiram seu exemplo e fizeram declarações semelhantes. Um dos casos foi do ministro da Educação, Satyapal Singh, que afirmou em uma cerimônia de premiação de engenharia que os aviões foram mencionados pela primeira vez no épico hindu Ramayana. Ele defendeu que o primeiro avião a voar foi inventado por um indiano chamado Shivakar Babuji Talpade, antes dos irmãos Wright e de Santos Dumont (BBC, 2019).

Somando a isto, está o fato da onda de nacionalismo na Índia está levando cidadãos comuns a espalhar notícias falsas. Uma pesquisa, encomendada pela BBC World Service analisou Índia, no Quênia e na Nigéria e faz parte do “Beyond Fake News“, uma série de TV cujo objetivo é entender como a desinformação e as notícias falsas afeta as pessoas ao redor do mundo.

Nos três países estudados, a desconfiança em relação aos principais veículos de notícias levou as pessoas a buscar informações de fontes alternativas, sem tentar verificá-las, acreditando que estavam ajudando a espalhar a história real. Além disto, as pessoas também estavam confiantes em sua capacidade de detectar notícias falsas. Em 2018 a Índia recebeu diversas informações digitais falsas agravando o problema.

Índia – Os tópicos de assuntos atuais mais populares: Porcentagem de mensagens compartilhadas no WhatsApp por tópicos. Por BBC, 2018

A pesquisa descobriu que os fatos eram menos importantes para alguns do que o desejo emocional de reforçar a identidade nacional e constatou que as redes de divulgação da extrema-direita são muito mais organizadas do que as opositoras e identificaram muitas fontes de notícias falsas no Twitter e redes de apoio do primeiro-ministro Narendra Modi.

Modi foi o primeiro político indiano a interagir virtualmente com a população através de suas atividades no Google Hangouts em agosto de 2012, tal como faz atualmente Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil (BBC, 2018).

Conclusão

Devemos reconhecer que a ciência gerar apenas um conjunto limitado de fatos sobre o mundo – como é o caso dos mecanismos da diversificação biológica – e não deixa claro como eles poderiam informar qualquer coisa tão distante quanto a teoria econômica ou a diferenciação moral intelectual das pessoas.

Apesar da competência da ciência em apresentar respostas para fenômenos naturais de forma clara e bem verificadas experimentalmente, seus usos mais amplos podem corresponder a usurpações para sustentar afirmações que agregam valores e ideologias distintas, algo que é ideologicamente construído e não cientificamente comprovado. Os resultados aparentemente claros das ciências naturais foram aproveitados para endossar visões ideológicas concorrentes. E curiosamente, muitas vezes nós temos setores ideológicos conservadores que tradicionalmente negam a teoria da evolução, mas adotam uma versão distorcida dela com aplicações sociológicas para justificar seus pressupostos ideológicos.

As ideologias que entram na ciência são consideradas resultados derivados da ciência. Tais ideologias tentam se “naturalizar” a partir da ciência e tornar eticamente legitimo o que defendem pois receberam credibilidade adicional, um status de “fato porque foi cientificamente comprovado”.

A concepção eurocêntrica favoreceu o pensamento do darwinismo social, da eugenia fomentadas pela pseudociência do racismo científico trazendo análises enviesadas e imprecisas para suportar discursos antropológicos. Os erros do racismo científico foram: analisar a partir de metodologias não-criteriosas e enviesadas as etnias gerando resultados tendenciosos a partir de conclusões pré-concebidas; partir do pressuposto antropológico de que havia diferenças intelectuais etno-culturais; e classificar e julgar moralmente tais povos a partir de um viés eurocêntrico.

As ideias de Darwin são tiradas fora do contexto quando os ideólogos nacionalistas e negacionistas de Darwin tentam atribuir valores morais á aspectos científicos mesmo quando os cientistas deixam claro que as alegações científicas explicam fenômenos naturais e não justificam os atos e julgamentos das pessoas.

Dizer que a tese de Darwin fundamenta comportamentos imorais é um equívoco triplo da tese porque: 1) dilui a especificidade da natureza humana a uma natureza genérica, desconsiderando o fato de que somos natureza com atributos próprios que nos definem como espécie (cultura, trabalho, história e etc) 2) acaba forçando o ideológico discurso de que é natural para a evolução a eliminação dos mais fracos, ou seja, que é eticamente válido a desigualdade socioeconômica e a miséria. Geralmente os ideólogos não sabem – ou sabem, e agem mal intencionadamente – o que Darwin quis dizer com evolução por seleção natural e levam as suas alegações para um discurso contra a ética e descontextualizado; e 3) ignora o contexto histórico em que Darwin formula os paradigmas dominantes naquele momento de expansão do capitalismo, cultura eurocêntrica como a única válida e de afirmação das abordagens positivistas cartesianas. Cria-se então uma distorcida biologização da política e politização da biologia como foi no nazismo, prescrevendo um uso tendencioso da antropologia para justificar a existência de raças ou de desigualdades (Loureiro, 2009).

Naturalmente, é problemático para a ciência que estas visões pseudocientíficas se apropriem de seus termos, pois uma vez deturpada para legitimar interesses particulares, como foi o caso da biologização da política em tempos passados para confirmar pressupostos antropológicos no racismo científico, na eugenia e no darwinismo social, geram a falsa sensação de verdade cientificamente constatada.

Tais ideólogos nacionalistas costumam afirmar que a ciência está do seu lado ou simplesmente negar as afirmações opostas a sua forma de pensar. Isso não é surpreendente, dado o status cultural da ciência, e dado que as ideologias são geralmente informadas por algumas afirmações factuais, supostamente científicas.

No Ocidente, a ciência tem sido muitas vezes moldada por ideologias dominantes que privilegiaram o branco, europeu, macho, heterossexual ao mesmo tempo em que “patologizam” não-europeus, mulheres e homossexuais. Um dos exemplos mais recentes foi do descobridor da estrutura tridimensional do DNA, o bioquímico James D. Watson que pronunciou que negros são intelectualmente inferiores – em 2007 e no início do ano de 2019. Isto levou a punições e perda de honrarias.

Mas da mesma forma que a ciência pode ser deturpada para se transformar em uma arma para os nacionalistas também pode ser motivo para esclarecimento. Por este motivo, a melhor forma de combater estes fenômenos é educar maciçamente as pessoas para recebam de forma crítica o que vem dos outros. Aceitar a existência de outras ideias não é aceitar a validade destas. É preciso constantemente educar-se de forma crítica, cética diante das afirmações que nos bombardeiam cotidianamente e buscar fontes de segura de conhecimento.

É possível que a ciência seja usada como uma barreira contra as ideologias desumanas, como a luta de Darwin contra o tráfico de escravos ou os argumentos de Dobzhansky contra a eugenia. Desse modo, as disputas ostensivamente científicas também podem ser locais de conflito ideológico, embora tal julgamento necessariamente também se baseie em mais do que apenas dados científicos.

Em seus escritos publicados, pelo menos, Darwin parece ter rejeitado de imediato a hipótese de que as mulheres poderiam ser cognitivamente iguais aos homens; tal igualdade pareceria extremamente implausível, dadas as normas de gênero vitorianas que a Europa compartilhava em sua época. Para outros cientistas, hipóteses como a determinação genética da inteligência foram aceitas sem críticas porque se encaixam em uma narrativa ideológica e antropológica socialmente preferida e estabelecida (Richardson, 1984). Mesmo no caso da pesquisadora Alice Lee que no século XIX criticou os métodos dos craniometristas – com a própria craniometria – que concluíram a inferioridade da mulher acabou aceitando a inferioridade intelectual de povos não-europeus. Ao mesmo tempo que cientificamente combateu o sexismo de sua época acabou fomentando o racismo científico em uma posição ambígua característica da época em que viveu (Smithsonian, 2019). Da mesma forma que Alice questionou a validade da inferioridade intelectual das mulheres dada pelos craniometristas ela e tantos outros cientistas poderiam ter questionado se de fato os asiáticos, índios, esquimós, latinos, negros eram inferiores ou se isto era – como no caso do sexismo científico- resultado de uma metodologia enviesada e sem critérios que partia de pressupostos antropológicos.

Com estes episódios aprendemos que a ciência serve-nos para compreender as leis que nos cercam e que elas apenas explicam fenômenos naturais e não servem como ferramenta para legitimar juízo de valores e segregação. O fato das pessoas terem cores de pele distintas, terem origens geográficas distintas ou terem culturas e línguas diferentes não tem correlação alguma com a questão intelectual. São apenas variedades da espécie humana.

Lembremos que todas estas formas de pensar são fruto de uma época vitoriana fundada em uma ideologia eurocentrista em vigor e no atual momento da história se deixar ser influenciado por uma falácia socialmente erguida é aplicar uma escala racial já superada cientificamente. A forma pela qual o racismo persiste não tem mais sentido do ponto de vista científico, mas se mantem por questões sociológicas.

Contudo existe uma ligação direta entre a tolerância dos eugenistas em muitos centros acadêmicos americanos e a ascensão política da extrema direita. Revistas e universidades que permitem que sua reputação seja usada para lavar ou legitimar a pseudociência racista usada para fins políticos. Este é um movimento comum, alguém com uma formação acadêmica, erguido na forma de ídolo por ter uma certa autoridade e competência em um assunto cientifico usa seu prestigio acadêmico para advogar e legitimar pseudociências sem qualquer base. Isto não ocorre somente nos casos de eugenia e racismo científico mas também pode ser observado em médicos que advogam a ideia de que vacina causa autismo; acadêmicos que usam sua formação em uma dada área para advogar em função do criacionismo/design inteligente (geralmente engenheiros); intelectuais autodidatas e pseudo-filósofos que validam concepções esotéricas; líderes religiosos que recorrem a picaretagem quântica e ao curanderismo.

A detecção deste tipo de conteúdo pode ser alcançada se adotarmos estratégias para analisar criticamente alegações que apresentam como científicas. O astrônomo Carl Sagan, assim como outros autores, sugere que há elementos comuns que aparecem no discurso e na posição dos propagadores de pseudociências.  A evidência negativa que é quando os argumentos a favor de uma ideia se resumem, exclusivamente, a alegações sobre erros, reais ou imaginários, que existiriam nas ideias dos outros. O fato de uma ideia “A” estar errada não implica automaticamente que “B” seja a certa.

A correlação e causa que corresponde a um argumento falacioso em apontar que, porque uma coisa varia de modo semelhante a outra, uma é causa e a outra é efeito. Isso nem sempre é verdade: existem inúmeros exemplos de fenômenos desconexos que variam de modo similar durante algum tempo e que mostra apenas correlações e não relações causais. O fato de um evento “A” e “B” ocorrem simultaneamente não implica necessariamente que “A” seja a causa de “B”. Este tipo de falácia é bastante comum e leva as pessoas a falsos positivos.

Outro exemplo de argumento falacioso vem dos exemplos escolhidos a dedo. Nesta falácia encontra-se exemplos de experiência anedótica, ou seja, apresentar somente casos que corroborem as próprias ideias e omitir os dados contrários. Quando o assunto é ciência, quem não leva as falhas em consideração, ou as esconde na hora de apresentar resultados, é incompetente ou intelectualmente desonesto.

Outra forma de detectar uma informação enviesada é quando ocorre o apelo à antiguidade. Neste caso, alega-se que uma ideia ou procedimento é adequado porque é usado há séculos – o apelo a tradição. A história está repleta de mitos que sobreviveram ao teste das gerações, da teoria de que a Terra fica no centro do Universo ao uso de sangrias para combater doenças infecciosas.

As táticas usadas pelos pseudocientistas em geral vêm acompanhadas de linguagem rebuscada, frases de efeito e uma retórica que busca acusar os críticos de serem parte de alguma grande conspiração. Hoje, não é difícil identificar quem usa, de modo sistemático, tais ferramentas na internet (UNICAMP, 2019).

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Nacionalismo, Extrema-Direita, Pseudociência, PseudoHistória, Notícias falsas, Eurocentrismo, Neo-nazismo, Confederados, Racismo Científico, Eugenia, EUA.

 

Referências

Knobel, M.; Orsi, C. Alerta máximo contra as pseudociências. Unicamp, 2019.
Loureiro, C.F.B. Trajetória e Fundamentos da educação Ambiental. Editora Cortez. São Paulo 2009.
McNei, L. The Statistician Who Debunked Sexist Myths About Skull Size and Intelligence. Smithsonian Magazine. 2019
Richardson, Robert C. 1984. “Biology and Ideology: The Interpenetration of Science and Values.” Philosophy of Science 51 (3): 396-420.
Richardson, Sarah S. 2010. “Feminist philosophy of science: history, contributions, and challenges.” Synthese 177 (3): 337–362.