IMPERIALISMO, CAPITALISMO E CIÊNCIA – UM BREVE RECORTE HISTÓRICO/FILOSÓFICO DESTA RELAÇÃO.

O sistema capitalista é profundamente relacionado aos interesses imperialistas e a origem da ciência. O capitalismo começa a se estruturar ainda no século XV, com o enfraquecimento do sistema feudal, passando por três fases: capitalismo comercial (ou pré-capitalismo), industrial e financeiro. O capitalismo não apenas se tornou um sistema econômico, mas o modo de produção passou a interferir profundamente nos aspectos políticos, sociais e econômicos da Europa, influenciando a organização da sociedade.

Mapa mundi “Universalis Cosmographia”, de Martin Waldseemüller, 1507, mostrava o mundo conhecido pelos europeus na época. No canto à esquerda, o continente recém-descoberto chamado “América”, em homenagem a Américo Vespúcio.

Feudalismo é o sistema que antecede o capitalismo e ocorreu entre os séculos V e XV. Vigente durante a Idade Média na Europa Ocidental o sistema era baseado na posse de terras, onde as classes sociais eram estáticas, ou seja, não havia possibilidade de mobilidade e ascensão social. Isto significa que as pessoas nasciam e morriam pertencendo à mesma classe social. As três classes no sistema feudal eram: nobreza, o clero e os servos.

A nobreza era a classe mais alta da sociedade e composta pelos proprietários de terras denominados senhores feudais. Os feudos eram grandes terras concedidas pelo rei aos senhores que tinham o poder absoluto; o clero era composto pelos membros da Igreja Católica, a instituição mais poderosa durante o feudalismo. Nesse momento, a Igreja Católica não tinha apenas a função de evangelizar, mas também exercia poderes políticos e era grande proprietária de terras; por fim, os servos, que eram os trabalhadores submissos aos senhores feudais, não tinham direito a salários e trabalhavam em troca de lugar para viver e se alimentar.

A produção feudal era autossuficiente, pois consumiam o que produziam no local, não havendo comércio ou moedas. Quando havia troca, era de mercadorias e não dinheiro. Somente na fase pré-capitalista com o crescimento populacional, o desenvolvimento das cidades e das atividades comerciais, surge a moeda para facilitar as trocas. Com a criação das moedas o mercantilismo começou a surgir, época em que teve início o processo de formação das monarquias nacionais. Porém, foi somente na Idade Moderna (XV a XVIII) que ele se firmou como política econômica nacional caracterizando a fase pré-capitalista.

Neste momento, a economia era muito limitada, pois havia pouco dinheiro em circulação e impossibilidade da economia crescer financeiramente. Não havia sistemas de crédito, pois a possibilidade de emprestar dinheiro e receber de volta era pequena diante das incertezas do futuro. Era uma época sem garantias na medida em que a imprevisibilidade não oferecia garantias. Desta forma, a riqueza disponível no mundo não poderia ser aumentada, apenas redistribuída. Assim, os países buscavam acumular riquezas por meio da proteção da economia local (protecionismo) e acúmulo de metais decorrente das trocas comerciais que realizavam com outros países. O controle estatal da economia era estabelecido pelo rei que controlava o mercado.

Por esta razão, durante esse momento da história a Ásia era a maior potência mundial, cresceu após séculos de funcionamento da rota da seda que funcionou até o 1400. A Ásia mantinha diversas relações comerciais com o Oriente que era um enorme polo intelectual. No século XV, os comerciantes de Gênova e Veneza, cidades italianas, tinham o monopólio de especiarias. Compravam no Oriente, principalmente na Índia e China, e vendiam com alta porcentagem de lucro no mercado europeu. Estas especiarias eram levadas para Europa através da rota do Mar Mediterrâneo, dominada pelos comerciantes italianos.

Na Europa feudal havia apenas feiras livres, que eram espaços onde as pessoas passaram a levar seus produtos para trocar, mas a dificuldade de encontrar uma equivalência entre produtos distintos levou a ideia da moeda começar a fazer sentido. Trocar frutas por um animal levava ao dilema de quantas frutas equivaleria a um animal? Esta subjetividade levou a criação de uma estratégia coletiva que foi o dinheiro característica do mercantilismo pré-capitalista.

As mesmo tempo as intenções imperialistas que eram somente regionais, visando a riquezas dos povos dominados passou a ser mais ousada. Foi então que a economia e organização social da Europa sofreu uma grande modificação.

A partir do desenvolvimento dessas novas atividades comerciais imperialistas que a Europa passou a buscar novos horizontes além da vizinhança e começou a financiar navegações na busca de novas rotas e novas terras que levaram ao descobrimento das Américas. Houve não apenas a extensão territorial de impérios europeus para além dos oceanos, mas o resultado foi um grande fluxo de entrada de nova matéria-prima para Europa e principalmente de conhecimento.

Portanto, o início do sistema pré-capitalista impulsionou a origem da ciência, na medida em que os interesses imperialistas passaram a financiar navegações na busca de novas rotas comerciais, novas colônias, novos conhecimentos e novas matérias-primas. A riqueza passou a ser investida não mais na ostentação da nobreza mas, buscando fazer o dinheiro virar mais dinheiro. Esta lógica é o pilar central do pensamento capitalista. Então, a partir desta segurança econômica originou-se as linhas de crédito que alteraram toda a estrutura econômica da Europa e permitiu financiar ainda mais projetos imperialistas e pesquisas científicas.

Questão do ENEM em 2019-2020 sobre imperialismo europeu e ciência.

Em toda história da humanidade os grandes impérios cresceram e enriqueceram subjugando e colonizando povos vizinhos. Tornando-se grandes potenciais econômicas e tendo garantido as necessidades básicas da população, começam um profundo desenvolvimento intelectual. A Grécia foi assim ao fundar a filosofia que floresceu somente quando as necessidades básicas do povo haviam sido garantidas e o mesmo vale para as potencias econômicas nos séculos seguintes que após enriquecer se tornaram também potencias intelectuais: França (Descartes), Grã-Bretanha (Lock, Hume e contratualistas) e Alemanha (frankfurtianos). A mesma coisa aconteceu com a ciência que floresceu em uma Europa pré-capitalista associada aos interesses do império e do capitalismo.

O século XV representa uma profunda mudança mundial na medida em que promove profundas alterações econômicas e sociais em toda Europa. Ao superar o sistema feudal começa a surgir uma nova classe econômica denominada burguesia. A sociedade de classes sociais estáticas é quebrada pelo surgimento desta nova classe que promove uma reorganização econômica e social, permitindo a mobilidade social daqueles que passaram a desenvolver atividades comerciais. Essa guinada social se dá com a criação de linhas de crédito que desengessaram a economia. As navegações que tinham finalidades militares futuramente teriam funções científicas cuja função era mapear, cartografar o planeta, coletar informações e matéria das colônias. As expedições traziam informações astronômicas, geográficas, meteorológicas e antropológicas tinham grande importância política e militar. Este modo de operação se manteve durante muitos séculos. Embora as expedições militares e científicas para novos continentes tenham surgido no século XVI este tipo de pensamento seguiu até recentemente. Por exemplo, no século XIX o naturalista que Charles Darwin que elaborou a teoria da evolução pela seleção natural acompanhou o H.M.S Beagle em uma missão de cartografia junto ao naturalista oficial Robert McCormick (1800-1890).

A Europa, que sofria ataque de bárbaros no final do século XV, passou então a obter os avanços militares, políticos, culturais e econômicos que começaram a florescer e entre 1500 e 1750 ganhou o mundo pareando sua economia com a da Ásia. A Europa só se torna a maior potencial mundial definitivamente após a Revolução Industrial.

Até então a Europa estava ascendendo rumo a uma potência mundial, pois entendeu que conhecimento lhe dava poder, facilitava o imperialismo pois permitia conhecer suas colônias. Além disto, para tirar o poder das mãos da nobreza a recém surgida classe social surge acumulando capital para gerar mais capital questionando a integridade da Igreja Católica que era dona de diversos feudos e acusada de corrupção. Não é por menos que a partir de 1517 surge um movimento reformista cristão liderado por Martinho Lutero publicando suas 95 teses em um movimento conhecido como Reforma Protestante. Nele, Lutero questionava os abusos da Igreja Católica nas práticas de venda de indulgências. Essas mudanças foram os principais acontecimentos para a transição da Idade Média para a Idade Moderna e da decadência do feudalismo. Para a ciência, foi o momento em que o sistema heliocêntrico de Nicolau Copérnico passou a ser conhecido, passou a ser entendido por Galileu, que foi um marco para a origem da ciência moderna; para Giordano Bruno que foi muito hostilizado pela igreja – seja pelo reformista Martinho Lutero ou pela Igreja Católica – até ser assassinado em praça pública. Iniciou-se um enorme fluxo de informação proveniente das novas terras invadidas que deu fôlego a ciência.

A ciência floresceu devido a diversos substratos intelectuais. Os impérios europeus e sua relação com civilizações gregas clássicas, China, Índia e muçulmana acabaram ganhando características modernas graças a expansão territorial da Espanha, Portugal, Grã-Bretanha, França, Rússia e Holanda. Foi admitindo a própria ignorância em botânica, medicina, zoologia que os europeus viram que o mundo não era só a Europa. Perceberam que o conhecimento poderia se tornar uma arma importante, dentre tantas coisas, para sua visão imperialista quanto para a economia capitalista. Em termos comparativos, impérios em geral, como o Romano, Asteca, Mongól, guerreavam e colonizavam novas terras buscando riquezas. Os imperialistas europeus passaram a viajar para terras mais distantes na busca de riqueza e conhecimento. Por esta razão as invasões cristãs europeias ao Império muçulmanos já havia criado um fluxo de informação filosófico e científica enorme para a Europa. Até então a Europa havia esquecido e abandonado os pensamentos filosóficos de Aristóteles que foram retomados somente com a invasão no império árabe.

Por esta razão é falacioso atribuir a origem da ciência ao cristianismo como fazem alguns grupos pseudocientíficos. Embora a ciência tenha surgido em uma Europa cristã, o substrato científico é absolutamente amplo e multifacetado pois ao longo do período de colonização e do fluxo constante de informações gerado os chineses, indianos, muçulmanos, polinésios e até indígenas americanos acabaram fornecendo aparatos intelectuais para a revolução científica. Isto se dá porque grande parte dos estudos médicos britânicos foram feitos sobre os tratamentos tradicionais de populações indígenas americanas que forneceram grande conhecimento após terem sido dominadas e dizimadas.

Além disto, o fluxo de informações proveniente do mundo árabe foi fundamental para a estruturação da ciência moderna. Ideias como a de Copérnico, Darwin e mesmo de Descartes quanto ao dualismo cartesiano já haviam sido cogitadas pelos muçulmanos. O argumento de Kalam muito utilizado pelos cristãos para defender um projetista do universo deriva do argumento de Al-Ghazali que só foi estruturado a partir da ideia aristotélica do Primeiro Motor.

Aprender e conhecer o ambiente, a fauna e flora de outros locais facilitava expandir seus planos colonialistas nessas novas terras. Conhecer a cultura desses povos, a geologia local facilitava a dominação. Foi a partir de iniciativas assim que surgiram trabalhos como o de William Jones, que em 1783 sugeriu que a língua hindu, grego, latim, gótico, celta, persa antigo, francês e inglês descendiam de uma língua ancestral, hoje conhecida como Indo-europeia.

Portanto, entre os séculos XVIII e XIX toda expansão militar passou a carregar um grupo de naturalistas para fazer descobertas científicas. A descoberta da América é vista como um marco na Revolução Científica pois, dentre tantas outras descobertas, forneceu um fluxo de conhecimento a Europa que outrora esteve afundada na ignorância da Idade Média de um sistema feudal de economia engessada.

As redes de colônias conquistadas ao redor do mundo, em especial nas Américas criaram os primeiros impérios globais.  O “Império Português” foi um dos primeiros, talvez o primeiro império global da história – embora Portugal jamais tenha se autodenominado oficialmente como um império”. O império espalhou-se ao longo de um vasto número de territórios que hoje fazem parte de 53 países diferentes.

Foi destes estudos europeus que futuramente surgiria uma antropologia científica racista. A pseudociência do racismo científico começa a surgir a partir de discursos antropológicos que tratavam as espécies colonizadas como inferiores e os europeus como superiores. Durante o Iluminismo (entre 1650 e 1780), os conceitos de monogenismo e poligenismo tornaram-se populares, embora só fossem sistematizados durante o século XIX. O monogenismo afirma que todas as raças têm uma única origem, enquanto o poligenismo é a ideia de que cada raça tem uma origem separada. O nazismo vai recorrer a discursos deste tipo para se sustentar: partindo do aryanismo a partir de deturpações do pensamento de Darwin. E embora mais recentemente o racismo científico tenha sido sucessivamente criticado e enterrado pelas evidências científicas o preconceito tomou novas formas ganhando argumentos direcionados não a raça mas a cultura alheia.

Capitalismo Industrial

Este sistema se manteve assim até a segunda fase do sistema denominada capitalismo Industrial que ocorreu entre os séculos XVIII e XIX. A passagem do capitalismo comercial para o capitalismo industrial se deu em meio às revoluções tecnológicas e políticas. A Revolução Industrial se inicia na Inglaterra em 1760, e tem como seu marco principal a introdução da máquina a vapor nos processos de produção, o que deu início à transição de uma produção manufatureira para um modelo industrial.

A produção industrial tornava-se necessária, pois com o crescimento demográfico e expansão das cidades necessitava que os produtos fossem criados e distribuídos com mais eficiência em larga escala. Como vimos, grande parte do conhecimento que banhou a Europa provem de invasões imperialistas e muitas ideias de economistas muçulmanos (dentre eles ibne Caldune) foram próximas ou mesmo estudadas tanto por Adam Smith (pai da economia liberal) e Karl Marx (pai do pensamento comunista).

Desta forma, até o ano 1770 os europeus não tinham qualquer vantagem tecnológica sobre os muçulmanos, indianos e chineses e em 1775 a Ásia ainda era responsável por 80% da economia mundial. A economia da Índia e China representava 2/3 de toda produção global. Só a partir de 1780 a Europa ganha a economia mundial especialmente a partir de guerras que conquistaram porções da Ásia e conquistando a economia global junto aos EUA a partir de 1900. Mas até isto acontecer houve muitas mudanças no mundo.

Em 1776 o pensamento capitalista ganhou um novo fôlego com Adam Smith e sua obra “A Riqueza das Nações“, na qual fomentou a ideia de que os proprietários de terras quando obtém mais lucro do que precisam para se manter utiliza o excedente para expandir seus negócios e acaba empregando mais pessoas. Assim, o aumento de seus lucros ou riquezas individuais leva automaticamente a prosperidade coletiva ao contratar mais pessoas. No pensamento de Smith, o desejo egoísta/individualista de aumentar o lucro privado é a base para uma riqueza coletiva, criando a perspectiva de que a ganância de alguns é um elemento fundamental para o benefício de todos. A lógica é que se um empreendedor é pobre o povo também é pobre mas, se ele enriquece, acaba enriquecendo o povo. Nesse pensamento Smith ignorou uma série de contradições entre riqueza e moralidade ou que nem sempre o empreendedor usa o excedente para expandir seu negócio e empregar ainda mais pessoas – ou que o salário pago seja proporcional ao que foi produzido.

No pensamento econômico de Smith ser rico é ser moralmente bem sucedido na medida que pressupõe que os interesses individuais e gananciosos enriquecem o outro. Este pensando fomentou a ideia de que as pessoas mais egoístas da sociedade são as mais benevolentes e são, portanto, o motor do crescimento econômico e da sociedade. Nesta lógica o lucro reinvestido geraria, inclusive, financiamento de pesquisas que daria ainda mais fôlego a lógica capitalista levando ao aumento da produção.

O capitalismo então passa a atuar sobre as pessoas educando-as a como se comportar e pensar de modo exclusivamente financeiro. Confunde-se então crescimento econômico com desenvolvimento e econômico. Enquanto o primeiro visa crescer o bolo financeiro gerando cada vez mais concentração e aquisição de capital, o segundo visa o quanto do capital acumulado é reinvestido para a melhoria das condições sociais do país.

Além disto, a lógica de Smith não pressupôs que os interesses do empregador pode ser gerar mais lucro ao pagar salários mais baixos aos empregados e/ou ao aumentar a jornada de trabalho. Geralmente, se pensaria que o livre mercado de Smith protegeria o trabalhador, mas na prática, se o empregador paga pouco e exige muito trabalho, os melhores empregados se deslocaram para trabalhar na concorrência sobrando quase nenhum trabalho ao empregador explorador. Neste caso, a ganância do empregador em não tratar bem o empregado geraria sua falência. Além do fato de que um mercado sem qualquer tipo de supervisão (o que veio a ser chamado de Estado Mínimo) criaria sistemas de monopólio ou cartel impossibilitando o empregado de se proteger da exploração dos empreendedores.

Os interesses imperialistas de Portugal, um dos primeiros impérios globais, por exemplo implantou diversos ciclos econômicos no Brasil: pau-brasil, açúcar, café, ouro e claro, nesse caminho houve o comércio de escravos. O livre mercado foi um elemento fundamental na construção do comércio de escravos no Brasil já que a competitividade do açúcar se tornou maior na Europa na medida que não era preciso pagar um salário aos empregadores no Brasil colônia, afinal, eles eram escravos e escravos não tem salário. A escravidão no Brasil serviu para produzir muito açúcar para tornar esta iguaria algo popular na Europa. A escravidão brasileira aqueceu a economia europeia e as mortes dos negros trazidos da África serviram, em última instância, para adoçar cafezinhos dos europeus. Na prática, o pensamento liberal capitalista torna-se indiferente a questão humana.

O fato é que as descobertas científicas e a exploração das colônias geravam lucros imensos que por consequência aumentava a confiança em novas pesquisas e isto aumentava ainda mais os créditos que se traduzia em mais imperialismo.

A lógica capitalista foi extremamente importante para entender o que acontecia na Europa no século XVIII que culminaria em duas mudanças de ordem científica e econômica, a chamada Revolução Industrial.

O fato é que o modelo capitalista começou a mostrar certas contradições, seja pelo fato de não dar conta da densidade demográfica e por crises. Geralmente atribui-se a depressão de 1929 como um motivo importante na descrença do sistema capitalista de ordem liberal, mas o capitalismo já mostrou falhas muito mais antigas. A primeira e talvez mais importante para a Europa foi a conhecida Bolha do Mississippi, a maior crise financeira do capitalismo que começou em 1717.  Neste ano popularizou-se a ideia de que o vale do Baixo Mississippi nos EUA continha terras valiosas – quando na prática eram grandes pântanos.

A Companhia do Mississippi de 1684 tornou-se a Companhia do Oeste em 1717 e expandiu-se como a Companhia das índias a partir de 1719 e entrou na jogada pois a corporação possuía o monopólio econômico (domínio exclusivo) nas colônias francesas na América do Norte nas Índias Ocidentais. A Companhia acabou atraindo uma série de aristocratas e burgueses da França em 1719 indicando investimentos na região do Mississippi. No intervalo de alguns meses os investimentos na região disparam e passaram de 2,5 mil livres para mais de 10 mil livres. O impacto levou a euforia em Paris e as pessoas passaram a vender objetos de suas residências ou fazer empréstimos para comprar ações da Companhia acreditando que se tratava de um investimento de fácil enriquecimento. Supostamente era um território promissor em termos de riquezas até que a especulação das terras começou a notar o quanto tais valores eram ilusórios e longe da realidade. Concluíram então que seria melhor vender seus investimentos. Quando a venda começou a acontecer e os preços despencaram repentinamente. O sistema financeiro da França entrou em colapso forçando o Banco da França a comprar ações da Companhia. O banco gastou todo seu dinheiro, lançou mais moeda em circulação e várias manobras que acabaram não tendo sucesso e criando uma bolha econômica. Os preços das ações caíram de 10 mil livres para 1 mil livres de uma só vez desvalorizando o investimento e tornando pessoas pobres de um dia para o outro – muitos deles cometeram suicídio.

A França em colapso econômico e nunca conseguiu se recuperar financeiramente. Em 1780 o orçamento do país ainda era, em grande parte, direcionado ao pagamento das dívidas criadas por esta bolha. Em 1789 o rei Luiz XVI convocou o parlamento francês na tentativa de solucionar esta crise econômica. Convocou a nobreza e o clero para contribuírem no pagamento de impostos, na aristocrática Assembleia dos Notáveis. Luís XVI não conseguiu promover reformas tributárias, impedido pela nobreza e pelo clero. Daí a diante o problema foi se tornando cada vez mais complexo que culminou no início da Revolução Francesa: movimento que buscava o fim da organização política, social e econômica vigente na época; que oferecia privilégios a pequenas parcelas da população e concedia poucos direitos ao povo.

Diante das indiferenças, o capitalismo contribuiu para a morte de milhões de pessoas ao longo de séculos de escravidão, imperialismo, pesquisas científicas para colonização e revoltas religiosas. Demonstrando assim que não há garantia alguma de que os lucros obtidos pelos empreendedores fossem distribuídos de forma justa – essa é a base da má distribuição de renda.

Modelo de motor a vapor de 1777.

Contudo, ao mesmo tempo que a economia europeia dava sinais de altas contradições acontecia uma mudança drástica do ponto de vista científico. A Inglaterra perdia cada vez mais suas florestas, cortando-as para produzir lenha e a população havia crescido demais. O cenário começou a mudar com uma invenção do ano de 1698 produzida por Thomas Savery. Ele havia inventado um modelo rudimentar de motor movido a vapor que usava com o objetivo de bombear água do interior das minas de carvão inundadas. Este motor foi aprimorado por Thomas Newcomen em 1712 e por James Watt em 1777. Com o apoio da Universidade, através de máquinas e equipamentos, Watt pode pesquisar e fazer diversos experimentos na área. Até que ele mostrou que 80% do calor do aquecedor é consumido para esquentar o cilindro, por que o vapor é condensado e separado em um compartimento no pistão, que mantém o cilindro na mesma temperatura do vapor injetado. Sua pesquisa teve fim em 1765. No mesmo ano, Watt inventou uma máquina a vapor com menores problemas de perda de energia em relação às bombas anteriores e que poderia também gerar movimento circular. Com o progresso da metalurgia, a máquina pode obter a precisão que requeria. Os motores a vapor foram conectados a teares mecânicos e descaroçadores de algodão revolucionando a indústria têxtil.

Todas essas mudanças possibilitaram o britânico Richard Trevithick inventar a primeira locomotiva em 1801. Com 10 vagões atrelados, à velocidade de 8 Km/hora, fez a sua primeira viagem no dia 21 de Fevereiro de 1804 embora fosse cheia de defeitos. Construiu também barcos, máquinas de debulhar e de dragar a vapor, no entanto nunca conseguiu investidores que o ajudassem a desenvolver as suas invenções.

Somente em 1825 vagões conectados passaram a se deslocar sobre trilhos carregando carvão por mais de 20 quilômetros. O avanço científico na Europa só ocorreu quando surgiram as primeiras ferrovias. A primeira felas tinha finalidades comerciais surgiu em 1830 na Grã-Bretanha. Em 1850 as nações Ocidentais tinham mais de 40 mil quilômetros de extensão enquanto a Ásia, África e América latina apenas 4 mil. Em 1880, o Ocidente já possuía 350 mil quilômetros e o restante do mundo 35 mil linhas ferroviárias. A primeira ferrovia chinesa só surgiu em 1876 e tinha 25 quilômetros de extensão, sendo construída por europeus – esta ferrovia durou pouco mais de um ano. Em 1880 a China não tinha mais nenhuma ferrovia.

Somente em 1888 surgiu uma ferrovia na Pérsia que servia para conectar Teerã a um e território sagrado dos muçulmanos cerca de 10 quilômetros de distância. Em 1950 a Pérsia tinha 2,5 mil quilômetros – considere que a Pérsia é 7 vezes maior que a Grã-Bretanha. Era o sinal da Europa passando economicamente a frente do mundo – e que deu iniciou aos principais problemas ambientais que hoje enfrentamos.

A Revolução Industrial é chamada de revolução pois um elemento básico foi notado pelo homem: a capacidade de transformar uma forma de energia em outra. A revolução foi energética, pois até então não se podia transformar artificialmente uma forma de energia em outra. Com a descoberta do motor a vapor, o calor poderia se converter em movimento mecânico e então, descobriu-se que aparelhos criados pelo homem poderiam converter uma forma de energia em outra. Foi assim em 1879 quando a primeira lâmpada foi acesa. Uma lâmpada nada mais é que um dispositivo converso de energia elétrica em luz, com o petróleo que transforma energia química em mecânica e claro, futuramente descobriu-se que a energia do núcleo de um átomo poderia ser convertida em explosão nuclear. Foi desta revolução que surgiram interesses em estudo sobre energia – os estudos de Ludwig Boltzmann, pioneiro da aplicação da estatística nos estudos e da termodinâmica.

Ludwig Boltzmann

O avanço científico da Revolução Industrial impulsionou o selvagem capitalismo mudando o mundo economicamente, mas também nas relações humanas.

O modo de produção vigente nos séculos de capitalismo industrial permitiu o aumento da produtividade, a diminuição dos valores das mercadorias e a acumulação de capital. Por outro lado, esses avanços só foram possíveis a partir de condições precárias de trabalho, jornadas de trabalho muito altas, diminuição dos salários e aumento do desemprego.

Houve mudanças na quantidade de profissões, de mercadorias produzidas, de unidades de produção (as fábricas); as cidades passaram a crescer em um processo de urbanização desenfreado; o campo conheceu um processo de mecanização das suas produções a longo-prazo e surgiram os grandes refrigeradores, navios, fertilizantes, medicamentos, hormônios etc. As ferrovias aumentaram a capacidade de circulação de mercadorias e de pessoas, além de terem agilizado o transporte; a necessidade por matérias-primas agrícolas e minerais ampliou-se significativamente e, em decorrência disso, muitos povos foram explorados

Tai mudanças foram, em um primeiro momento, restritas aos países que hoje denominamos de desenvolvidos – diversos da Europa, como Alemanha, França, Bélgica e Holanda entre outros, além da própria Inglaterra; EUA; Japão. Somente a partir de meados do século XX, alguns países subdesenvolvidos se industrializaram.

Desta maneira, o capitalismo industrial enfoca no desenvolvimento do sistema fabril de produção. Este vai necessitar mais mão de obra e desta maneira surge a classe operária em oposição a classe burguesa que agora é dona das industrias, o novo meio de produção.

Novas relações de trabalho surgiram mediante a existência destas duas classes. Os salários recebidos eram baixos e as cargas horárias passaram a ser extenuantes. A Revolução Industrial não cumpriu a promessa de que o homem teria menos trabalho, ganharia bem e teria portanto mais tempo com sua família já que as máquinas fariam grande do trabalho do homem.

Antes, a execução de trabalho que era feita manualmente demandava muito tempo, visto que os trabalhadores precisavam realizar todas as etapas do sistema produtivo. Com o avanço tecnológico, foi possível desenvolver máquinas capazes de otimizar o tempo, possibilitar a produção em maior escala e, consequentemente, o aumento dos lucros. Nesse período, passa a existir o que conhecemos por “divisão do trabalho”. Cada trabalhador passa então, a exercer apenas uma etapa da produção e não todas as etapas (da matéria-prima à comercialização), como era feito anteriormente. Isto é vantajoso em alguns pontos e desfavorável em outros.

Se um trabalhador se atrasa para o serviço acaba atrasando toda a linha de produção. Desta forma, todos os trabalhadores devem aderir um horário em comum para a entrada, a hora do almoço (independentemente de estar com fome ou não) e a saída. Toda vez que a sirene sinalizava o fim da ornada de trabalho era sempre o fim de um turno e jamais o um de um projeto. Diferente de uma produção manual em que cada projeto tem começo meio e fim.

O fato é que a dinâmica industrial levou ao desenvolvimento e aprimoramento de relógios e itinerários em comum a população – o que deu muito trabalho de se estabelecer já que as locomotivas não seguiam um itinerário específico e poderiam variar dependendo da região da Inglaterra em que passassem devido fuso horário.

Naquele momento era difícil acompanhar um horário específico, até porque as pessoas não estavam acostumadas a seguir horários. Atualmente, vivemos em função de horários e a todo lugar que olhamos há algum relógio (celular, na rua, no DVD, TV, pulso e etc). Somente em 1840 um trem comercial passou a seguir um itinerário definido.

Ao mesmo tempo as relações humanas também modificaram na medida em que agora se tornavam mais independentes em relação ao passado quando nos momentos de necessidade amigos, vizinhos e colegas eram solidários e prontos a ajudar uns aos outros. A urbanização democratizou o individualismo levando a desintegração de certos vínculos afetivos, solidários e empáticos. Houve profundas mudanças nas relações famílias e comunidade local substituindo a responsabilidade para a ideia de Estado e mercado.

Geograficamente, a Inglaterra era privilegiada, sendo, dessa forma, um dos fatores mais decisivos para que o país progredisse nesse período. A Inglaterra possuía acesso ao comércio marítimo, facilitando a exploração de novos mercados e aumentando a zona de livre comércio.

A Revolução Industrial foi dividida em três fases, baseadas nos avanços tecnológicos alcançados e suas consequentes transformações. São elas: Primeira Revolução Industrial que ocorreu entre 1760 até meados de 1850; a Segunda Revolução Industrial ocorreu entre 1850 e meados de 1945; e a Terceira Revolução Industrial: meados de 1950 até os dias atuais.

Tear mecânico na Revolução Industrial

Evidentemente, a principal indústria beneficiada no período da Primeira Revolução Industrial era têxtil. Nesse período, surgiram diversas indústrias de tecidos de algodão que utilizavam o tear mecanizado. A produção desses tecidos era destinada à exportação, sendo um dos maiores impulsionadores da economia inglesa.

Portanto, este período que abordamos aqui compreende dois momentos da Revolução Industrial: a primeira iniciou-se em 1760 e durou até sua transição entre 1840/1870 quando o progresso tecnológico e econômico ganhou força com a adoção crescente de barcos a vapor, navios, ferrovias, fabricação em larga escala de máquinas e o aumento do uso de fábricas que utilizavam a energia a vapor. A partir do avanço tecnológico acelerado começa a Segunda Revolução Industrial que dura entre 1850 até meados de 1945 quando diversos inventos passaram a ser produzidos e comercializados. Dentre os principais inventos estão: automóvel, telefone, televisor, rádio e avião.

Na mudança do século XIX para o século XX não ocorre somente uma mudança tecnológica mas também uma mudança econômica global. O termino da Segunda Revolução Industrial é marcado exatamente no fim da II Guerra Mundial exatamente porque as mudanças tecnológicas acabaram sendo utilizadas na indústria bélica e gerando uma renovação no capitalismo, especialmente depois da queda da Bolsa em 1929. O capitalismo deixa de ser industrial, os burgueses não são mais os donos das fábricas e passam a viver do capitalismo financeiro.

O cenário do capitalismo financeiro e o desenvolvimento técnico-científico.

Em decorrência das políticas liberais, em 1929, o sistema capitalista ruiu em uma das piores crises econômicas da história. Por conta de uma produção em excesso nos Estados Unidos e da redução da demanda por produtos desse país, as empresas perderam valor e houve a quebra da bolsa de valores. Novamente as regras primárias do capitalismo mostraram sinais de falhas e insatisfação, novos pensamentos e estruturas ideológicas aparecem questionando o capitalismo tal como era concebido: o nazi-fascismo surge criando uma frente ideológica racial com uma estrutura econômica exclusiva alinhada em alguns pontos ao capitalismo. Outras não e reverenciavam desde o século XIX uma lógica revolucionária de economia planificada e de redistribuição dos meios de produção, retirando-as das mãos do burguês e entregando ao trabalhador (proletariado). Ganha fôlego o socialismo como meio para comunismo – e suas frentes, o socialismo científico, utópico e etc. Nazismo e comunismo encerraram a II Guerra Mundial fragmentando o mundo em dois blocos econômicos bastante distintos. O lado capitalista financeiro inicia a partir de 1950.

Contudo, ainda na década de 1930, para salvar o mercado da crise do ano anterior, alguns países passaram a intervir na economia e a partir de então adotou-se o sistema econômico keynesiano, que defendia a intervenção do Estado na economia na tentativa de garantir o consumo e o emprego. Somente a partir da década de 1970, novas correntes de pensamento econômico começam a combater os princípios do pensamento keynesiano. Nessa época, a retração dos altos índices de desenvolvimento alcançados nas duas décadas seguintes à II Guerra Mundial pôs em cheque o modelo de keynesiano.

A fase financeira do capitalismo é caracterizada pelos bancos e empresas que se unem para obter maiores lucros. Foi assim que surgiram as empresas multinacionais e transnacionais que se fortaleceram a partir de práticas monopolistas. Esse modelo de capitalismo segue vigente até os dias atuais, sendo baseado nas leis das instituições financeiras e dos grandes grupos empresariais presentes no mundo todo – que torna um Estado cliente dos interesses empreendedores de grandes burgueses e fortalece sistemas de corrupção.

As guerras internacionais deixaram de ser o melhor modo de enriquecer, pois depois da demonstração do potencial das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki muitos países desenvolveram seu próprio potencial nuclear e perceberam que se utilizado, não apenas esterilizaria o território adversário impossibilitando domina-lo como também poderia gerar catástrofes globais. Desta forma, o lucro e a econômica gerada pela tecnologia de guerra e pós-guerra foi travado de tal modo que desde então as melhores formas de enriquecer foram a partir da evolução tecnológica. Após a II Guerra Mundial o mundo vê uma corrida tecnológica entre os capitalistas e os comunistas, protagonizados pelos Estados Unidos da América e a União Soviética.

Desde de 1945 e nunca antes na história da humanidade, o mundo não vê uma guerra internacional – exceto a guerra do Kuwait e evidentemente as guerras civis ou ligeiros conflitos de fronteira. Considerando que a história da humanidade pode ser observada na maioria do tempo a partir de impérios que invadem uns aos outros, temos uma mudança absolutamente radical que muda os hábitos sociais, as relações humanas através da mudança econômica. Atualmente, a lógica do imperialismo diminuiu bastante e nunca na história da humanidade se estabeleceu tantos Estados independentes em todo o planeta. A adoção da ideia de Estado se tornou tão interessante que eles têm tentado se isolar dos países vizinhos.

Atualmente, há cerca de 77 muros erguidos no mundo todo separando países: na França há o muro no Porto de Calais para evitar a entrada de refugiados africanos, além do muro que separa a Áustria da Eslovênia e a Hungria que possui muros para se separar da Servia, Croácia e Eslovênia – além do muro entre EUA e México.

No mundo capitalista, as grandes empresas atuam vendendo parcelas de seu capital na bolsa de valores, e a partir de então, passou-se a produzir riqueza por especulação. Nesse momento, a acumulação do capital chegou a níveis exorbitantes. Na década de 1970, como principal resposta à Crise do Petróleo e ao modelo keynesiano, surge o modelo neoliberal, a partir da ideia de que a atuação do Estado na economia limita as ações comerciais, prejudicando aquilo que chamam de “liberdade econômica”. Os defensores do neoliberalismo defendem então duas premissas básicas: as próprias regras do mercado vão garantir o crescimento econômico e o desenvolvimento social; e o desaparelhamento do Estado para que haja privatizações. Após o aumento da desigualdade social proveniente do liberalismo o neoliberalismo se presentou como estratégia que alteraria este patamar em direção a melhor distribuição dos lucros, algo que não se confirmou.

No mundo capitalista os Estados Unidos e a Inglaterra foram não tão somente as primeiras nações a implementarem essa doutrina econômica, como também popularizaram-na pelo mundo. Em alguns casos, como em países latino Americanos os EUA, assustados pelo fantasma do comunismo (especialmente em Cuba) financiaram golpes militares impondo à força regimes ditatoriais. No Brasil é clara a influência dos EUA através de Lincoln Gordon, no golpe de 1964 e também as interferências de soberania no Chile e Argentina.

Além de se comportar como uma corrente econômica, o neoliberalismo age também como um padrão social de comportamento. Sua implantação visando acumulação preconiza a individualização do comportamento, sobretudo no campo profissional, o que é amplamente difundido pelas concepções do empreendedorismo. Por esta razão, o modelo neoliberal é alvo de constantes críticas, sobretudo sobre a desregulamentação da força de trabalho e pelo enfraquecimento ou aparelhamento das forças sindicais.

Tendo em mente o contexto econômico e suas reviravoltas econômicas e ideológicas, podemos entender os avanços científicos do período que ficou caracterizado como a Terceira Revolução Industrial que se iniciou a partir da década de 1950. Nesta época houve uma série de evoluções tecnológicas no mundo, que possibilitou a união de conhecimento científico e produção industrial.

A Terceira Revolução Industrial diferencia-se das revoluções anteriores na medida em que abrange mudanças que vão muito além das transformações industriais. Essa nova fase apresenta processos tecnológicos decorrentes de uma integração física entre ciência e produção, também chamada de revolução técnico-científica. Esta mudança começa graças a Guerra Fria e a vitória do sistema capitalista. Ao longo do conflito, Estados Unidos e União Soviética disputavam a hegemonia mundial e buscavam o apoio de outros países para fortalecer seu posicionamento ideológico. Durante a Guerra Fria ambos os países seguiram investindo em materiais, tecnologias bélicas e o equilíbrio entre essas forças foi o que impediu que ataques entre eles de fato acontecesse. Isto demonstrou ao mundo que o desenvolvimento tecnológico nem sempre se traduzia em paz e tranquilidade. O momento em que mais nos desenvolvemos tecnologicamente no século XX (e na nossa história como espécie) foi aquele em que estava a maior tensão mundial devido os riscos de uma disputa nuclear, fruto de duas lógicas econômicas, políticas, culturais bastante distintas. Lógicas político econômicas distintas que não duelavam diretamente, mas que concorriam bélica e tecnologicamente apavorando o mundo.

Foi nesse período que houve a corrida espacial que levou os soviéticos e estadounidenses a criar satélites artificiais, fazer a caminhada espacial e pousar na Lua. Nele foram criados os primeiros equipamentos eletrônicos como televisores, satélites, robôs e computadores. Devido aos avanços na área tecnológica, a Terceira Revolução Industrial, também passou a ser chamada de Revolução Informacional.

Ela também promoveu progressos na agricultura, na pecuária, no comércio e na prestação de serviços. Com a globalização a produção e as relações comerciais entre diversos países do mundo se tornou mais estreita e a economia se tornou global de tal forma que o que acontecia economicamente em um país afetava todo o planeta e não apenas blocos econômicos como anteriormente.

A Terceira Revolução Industrial proporcionou também a massificação dos produtos, sistemas informáticos na produção industrial, desenvolvimento da robótica, engenharia genética/biotecnologia além de levar a diminuição dos custos e aumento da produção industrial. A tecnologia permitiu a utilização de várias fontes de energia, inclusive as menos poluentes, que mobilizou o mundo a um posicionamento ambiental.

Muitas invenções e descobertas no campo da ciência e tecnologia ocorreram a partir de 1950 seguindo até os dias atuais, mais modernizadas e com designs mais sofisticados. Diversas ligas metálicas novas foram desenvolvidas nesse intervalo de tempo e permitiram avanços na metalurgia e na construção de aeronaves. O uso da energia atômica foi direcionado para fins pacíficos, energéticos e para equipamentos médicos. A corrida espacial que levou o homem na Lua criou não apenas foguetes, estações espaciais, ônibus, satélites artificiais, sondas para estudo de planetas e satélites mas também uma série de tecnologias de astronautas – desenvolvidas pela NASA – foram popularizadas.

O fato dos avanços terem ocorrido em um mundo capitalista vencedor da Guerra Fria não exime-o de críticas. Não faltam biotecnologias para permitir o plantio de diversas variedades geneticamente modificadas em climas que jamais cresceriam as versões nativas. Mas ainda assim, no mundo há 820 milhões de pessoas que passam fome, países que descartam toneladas de alimentos no lixo e uma epidemia de obesidade. Segundo a ONU desde 1990 até 2015 o mundo perdeu 236 milhões de crianças com menos de cinco anos – mais do que toda a população brasileira e mais do que todos os assassinatos cometidos pela União Soviética, estimado em 100 milhões segundo “O Livro Negro do Comunismo”, que é um livro mais fictício do que histórico, escrito para difamar.

O problema não está no potencial e competência da ciência, mas na forma como o homem capitalista administra as conquistas da ciência de forma irracional, desigual e desumana.

Ainda em 1947, John Eckert e John Mauchly criaram o primeiro computador eletrônico do mundo embora pesasse cerca de 30 toneladas e ocupava uma área enorme. Com o passar do tempo e os avanços tecnológicos, o equipamento foi passando por aperfeiçoamentos até que, na década de 1990, foi criado o primeiro computador pessoal e posteriormente a popularização da Internet – fundamental para o pobre trabalhador do motorista de aplicativo aos burgueses donos de sistemas financeiros bancários. A precursora da internet, chamada de Arpranet, foi criada nos Estados Unidos, em 1969. Quando surgiu, a internet tinha a finalidade de interligar laboratórios de pesquisas. A finalidade que ela tem hoje só ocorreu com sua expansão e popularização a partir do ano de 1990.

O primeiro aparelho celular também foi criado durante a Revolução Informacional. Embora outros aparelhos similares já tivessem sido criados anteriormente, somente em 1973 a Motorola criou o modelo Dynatac 8000X que era de fato portátil. Ao longo das décadas e de avanços tecnológicos em 1991 houve a primeira transmissão do novo formato digital de sinal de celular. Hoje, o celular é o meio mais comum pela qual as pessoas acessam a internet e causam, inclusive, problemas socioambientais graves relacionados ao descarte incorreto de baterias que contém cádmio e poluem o ambiente e a forma escravista na qual se obtém os metais que compõem seus sistemas eletrônicos.

Celular Motorola Razr com tela dobrável.

Entre as principais invenções e descobertas do período destacam-se a o desenvolvimento de tecnologias de ponta como smartphones e tablets, o uso de diferentes fontes de energia, optando por fontes renováveis e menos poluentes. Houve a criação de produtos que facilitam o dia a dia, entre os quais podem se destacar: computador pessoal, caixa eletrônico e sistema de GPS, além dos avanços na área da robótica. A evolução tecnológica também possibilitou a utilização de técnicas e métodos revolucionários como o controle de qualidade aumentando a produtividade e a eficiência, evitando o desperdício.

Por outro lado, com o uso de tecnologia avançada levou a crescente substituição do homem pela máquina (ou do homem como apêndice da máquina) no processo produtivo. A aceleração da economia e os avanços tecnológicos trouxeram consequências negativas, como a desvalorização e a exploração da mão de obra. Em muitas situações o homem passou a ser complemento de um maquinário cada vez mais amplo e complexo, sendo substituído também por softwares. Muitos serviços que anteriormente eram feitos por trabalhadores foram substituídos por aplicativos (apps) de celular desenvolvidos por startups.

A terceirização da economia levou a uma concentração da maioria dos empregos no setor de comércio e serviços gerando desemprego ou criando condições para profissões que ainda não existem e só futuramente se desenvolverão. Com isso, houve a precarização das condições do trabalho, contribuindo para a perda de direitos trabalhistas.

O momento que vivemos atualmente pode então, estar encabeçando uma Quarta Revolução Industrial, onde os sistemas ciberfísicos, que combinam máquinas com processos digitais serão desenvolvidos capazes de tomar decisões descentralizadas e cooperar. O princípio básico é que as empresas poderão criar redes inteligentes que poderão controlar a si mesmas a partir de inteligência artificial além de neurotecnologias, nanotecnologias, sistemas de armazenamento de energia, drones e impressoras 3D.

Ela pode acabar com milhões de vagas de trabalho nos países mais industrializados do mundo. As pesquisas refletem as preocupações com o “darwinismo tecnológico”, onde aqueles que não se adaptam não conseguirão sobreviver ou serão hostilizados. Por exemplo, diante da mudança de perspectiva sobre questão climática tem se popularizado as energias limpas, como a solar obtida a partir de painéis. Evidentemente as classes mais abonadas da sociedade tendem a obter este tipo de recurso e as famílias mais humildes tendem a depender de formas mais antigas e menos ecológicas, sendo hostilizadas por compactuarem com problemas ambientais. Este tipo de preconceito social pode surgir em outras esferas dos avanços tecnológicos.

Há um risco real de que a elite tecnocrática veja todas mudanças que vêm como uma justificativa de seus valores. Esse tipo de ideologia limita muito as perspectivas que são trazidas à mesa na hora de tomar decisões (políticas), o que por sua vez aumenta a desigualdade que vemos no mundo hoje. Precisamos de novos debates: um sobre a forma e os objetivos desta nova economia e outro sobre os avanços tecnológicos e nossa maturidade social para lidar com eles. É notável que apesar das contradições econômicas, políticas e sociais das ideologias socialistas e principalmente capitalista (já que prevaleceu desde do capitalismo comercial, industrial e venceu a guerra contra o comunismo) houve avanços tecnológicos e científicos – sobretudo na Guerra Fria – no mundo que seriam inimagináveis a 150 anos atrás. Contudo, será que as tecnologias estão surgindo a tempo de podermos fazer as devidas reflexões sobre seu potencial e seu uso? Será que temos maturidade para lidar com a internet em meio ao mar de fakenews, crimes cibernéticos a eleições e ondas de ciberbullying no Facebook? Como lidar com crescente e descontrolado avanço tecnológico em uma sociedade que não sabe o que é ciência e desconfia do formato da Terra e da validade das vacinas? Qual será o impacto das tecnologias sobre as democracias? O que parece bem claro neste processo todo é que as pessoas não encontraram nos objetos materiais a felicidade, pois elementos subjetivos também fazem parte da equação. Tecnologia, luxo e conforto não se tornaram sinônimos de felicidade.

Além deste problema de maturidade social, é possível que a quarta revolução só aumente a desigualdade social e na distribuição de renda trazendo contradições e ainda mais problemas de segurança geopolítica.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Capitalismo, Ciência, Imperialismo, Mercantilismo, Sistema feudal, Pré-capitalismo, Capitalismo Industrial, Capitalismo Financeiro, Revolução Industrial.

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Referências

Harari, Y. N. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. Editora LPM. 2014