NEANDERTAIS MUITO ALÉM DE NOSSAS EXPECTATIVAS.

O Neandertal não é mais aquele. A ideia de um hominídeo desprovido de inteligência, idiota e carrancudo perdeu completamente o sentido.

Homo neanderthalensis. reconstituição de como seria a face do Neandertal de Gibraltar I. Fonte: Natural History Museum

O custo da mudança de concepção a respeito dos Neandertais é sua maior proximidade com os Homo sapiens e portanto, a diluição da fronteira entre as duas espécies. Evidentemente, há evidências que ainda os separam em espécies distintas, mas o fato de terem o mesmo ancestral em comum, provavelmente o Homo heidelbergensis revive sempre as discussões diante de novas evidências. É natural este conflito, pois quanto mais próximas duas espécies são filogeneticamente, mas difícil fica estabelecer a barreira que as separa.

Os Neandertais vem surpreendendo por sua alta capacidade tecnológica e cognitiva, comparável a humana e nosso objetivo aqui é reforçar essa releitura a respeito dos Neandertais, de que não são mais aqueles estúpidos e carrancudos hominídeos e sim mostram grandes feitos.

Ok! Muitas das descobertas feitas dependem de maiores evidências, mas revelam fortes indícios de um Neandertal cada vez mais surpreendente. Contudo, muito do que trouxe as novas expectativas sobre os Neandertais foi abordado aqui em 5 textos (Veja: 1, 2, 3, 4 e 5).

Uma concepção revolucionaria a respeito de Neandertais é saber que aqueles que viveram na região da Toscana (Itália), usaram fogo e pedras para produzir ferramentas.

Em um artigo publicado na revista PNAS pela equipe liderada por Biancamaria Aranguren, do Ministério de Beni e Diversidade Cultural e Turismo, em Florença, na Itália, descreve artefatos descobertos durante a construção de algumas piscinas termais localização conhecida como Poggetti Vecchi.

O artigo destaca a descoberta de ferramentas fragmentadas de madeira e pedra, juntamente com os ossos fossilizados do elefante de presas retas (Paleoloxodon antiquus). Os achados localizavam-se na parte inferior de sete camadas de solo e datavam em cerca de 171 mil anos de idade.

As ferramentas de madeira eram todas feitas de uma espécie de árvore chamada buxo (Buxus sempervirens), reconhecida por ser pesada e densa. Formados em pontos contundentes em uma extremidade com alças bulbosas na outra, os instrumentos de um metro de comprimento foram possivelmente feitos como instrumentos de escavação, embora os pesquisadores não descartem um uso secundário como armas.

Artefatos desenvolvidos para múltiplos propósitos semelhantes são encontrados até hoje entre muitas sociedades de caçadores-coletores. As pontas e os eixos mostram ranhuras e indicam que ferramentas líticas foram usadas para raspar. Mas o que interessava a Aranguren e seus colegas era evidência de carbonização na superfície.

Uma microanálise sugeriu que o fogo tinha sido deliberadamente usado no processo de fabricação, talvez para reduzir o esforço físico necessário para raspar e moldar a madeira.

O punho de uma vara de escavação de Pogetti Vecchi.

A descoberta de madeira é considerada significativa por duas razões: a primeira é que a madeira, embora tenha sido amplamente usada em toda a pré-história, raramente é encontrada em contextos arqueológicos devido à sua tendência natural em apodrecer; a segunda é que constitui a prova mais antiga ainda que os Neandertais aprenderam a controlar o fogo, o que confere a evidência mais antiga de pirotecnologia na fabricação de ferramentas de madeira, fornecendo-nos uma visão significativa do comportamento e habilidades dos primeiros Neandertais para a modernidade humana (Saiba mais aqui).

Outro elemento que supera nossa expectativa sobre Neandertais é que evidências mostram que ele podia se automedicar, uma vez que foram encontrados traços de plantas contendo ácido salicílico – o ingrediente ativo da Aspirina – em seus dentes.

O estudo publicado na revista Nature por pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, e da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, usou DNA de amostras de placa dentais de quatro Neandertais datados entre 50 e 42 mil anos das cavernas de El Sidrón, na Espanha e Spy na Bélgica para obter informações sobre comportamento e dieta.

A placa dentária aprisiona microrganismos que viviam na boca e patógenos encontrados no trato respiratório e gastrointestinal, além de pedaços de alimento presos aos dentes – preservando o DNA por milhares de anos. Na condução de sua análise, os pesquisadores sequenciaram material genético que encontraram nos Neandertais e compararam os dados a amostras retiradas dos dentes de um chimpanzé, bem como a humanos modernos e antigos.

Eles analisaram os resultados para ver que tipos de DNA animal ou vegetal estavam presentes nos dentes de Neandertal – uma pista para os tipos de comida que eles estavam consumindo. Os Neandertais da Bélgica tinham gosto por rinoceronte, ovelha e cogumelos, enquanto os espécimes de El Sidrón pareciam ter uma dieta menos intensiva em carne, preferindo comer musgo, cogumelos e pinhões.

Os resultados “suportam evidências de que grupos de Neandertais em toda a Europa usaram várias estratégias de subsistência de acordo com a localização e a disponibilidade de alimentos. Dos quatro exemplares testados, os dentes de um dos Neandertais de El Sidrón mostraram traços de choupo, uma planta que contém o ácido salicílico analgésico natural. Os pesquisadores também encontraram vestígios do fungo Penicillium – que produz o antibiótico penicilina.

Testes adicionais indicaram também que a amostra estava infectada com um patógeno conhecido por causar diarreia em seres humanos, e também sofria de um abcesso dentário. Isso sugere que os Neandertais podem ter tido um conhecimento sólido das plantas medicinais e de suas várias propriedades.

A pesquisa também encontrou correlação entre bactérias orais e ingestão de carne. Análises de sequenciamento adicionais no DNA retirado da placa do Neandertal de automedicação levaram ao mais antigo genoma microbiano a ser seqüenciado – o Methanobrevibacter oralis, uma bactéria associada à doença da gengiva.

Por causa de pequenas diferenças entre o M.oralis associado ao homem e o tipo encontrado no Homem de Neandertal, os pesquisadores puderam rastrear a divergência de duas cepas do micróbio. A analise filogenética permitiu descobrir que eles se separaram muito depois que os Neandertais e os humanos modernos divergiram, indicando que a transferência microbiana continuou bem depois que as espécies hominíneas se tornaram distintas (Cosmos, 2017).

Outro elemento que indica grandes capacidades cognitivas dos Neandertais veio das lâminas de ferramentas líticas. As ferramentes Neandertais são chamadas de Mousterianas, um tipo clássico que foi escavado em um sítio arqueológico de Stelida, uma ilha grega de Naxos perto da universidade de McMaster. Até ai nada de incomum, exceto pelo detalhe: essas ferramentas Neandertais foram encontradas em uma ilha, o que indica que eles fizeram uma travessia.

As cabeças de lança fornecem evidências de que os seres humanos chegaram às ilhas do Mar Egeu há pelo menos 250 mil anos, ou talvez mais cedo. Se confirmado, significa que as primeiras pessoas em Naxos eram Neandertais, ou seus prováveis ancestrais, Homo heidelbergensis ou ainda, talvez mesmo Homo erectus.

Poderiam estes arcaicos hominídeos ter viajado de barco?

Nunca antes havia sido considerada a possibilidade de Neandertais se lançarem ao mar, muito menos as populações/espécies ainda mais primitivas. Agora devemos considerar essa possibilidade. Isso não deve ser surpreendente, porque nós já temos registros que indicam claramente que Neandertais entalhavam símbolos em cavernas, pintavam seus corpos com pigmento, criavam jóias e intencionalmente enterravam seus mortos – todas as práticas pensadas como sendo exclusivamente de seres humanos modernos.

Em uma análise baseada no método conhecido como luminescência óptica estimulada, que funciona em depósitos de solos extremamente antigos, mas leva meses para processar, indicou que alguns dos artefatos de Stelida datam pelo menos 50 mil anos. Mas a equipe ainda está aguardando pelos resultados das camadas mais baixas do sítio, até onde as ferramentas pré-Neandertais foram encontradas.

Para alguns, esta descoberta, bem como a de um artigo de 2012 no Journal of Archaeological Science que encontrou lanças semelhantes nas ilhas de Zakynthos, Lefkada e Kefalonia são evidências claras de que as origens da navegação no Mediterrâneo começaram bem antes do Homo sapiens. Outros, no entanto, contestam que outros lugares como Flores possam ter sido um pequeno salto do continente, sugerindo que poucos passeios casuais na Indonésia e agora no Egeu não são evidências de viagens marítimas deliberadas e estabelecidas (Veja mais aqui).

Outra descoberta surpreendente, mas que merece cuidado é que mais de 65 mil anos atrás, um Neandertal chapiscou ocre vermelho na parede de uma caverna supostamente antes do Homo sapiens chegar na Europa. A descoberta coloca em xeque a crença generalizada de que os seres humanos modernos são a única espécie que se expressou através de obras de arte.

A descoberta é descrita como um grande avanço no campo da evolução humana pois até o momento as evidências para a arte de Neandertais foram tênues e muito disputadas, muitas vezes porque as obras não tinham idade suficiente para excluir os humanos modernos como os verdadeiros artistas. Mas as descobertas mais recentes, baseadas em novas datas de símbolos, estênceis de mão e formas geométricas encontradas em paredes de cavernas em toda a Espanha, tornam o caso mais convincente ainda. Os Neandertais já estavam firmemente se sentindo em casa na Europa, quando os humanos modernos deixaram a África e chegaram ao continente há cerca de 40 mil anos. Os restos de Neandertais, sob a forma de esqueletos, ferramentas e adornos decorativos, alcançam mais de 120 mil anos na região.

Em um estudo publicado na revista Science, uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Reino Unido e da Alemanha encontrou crostas de calcita que cresceram em cima de obras de arte antigas em três cavernas na Espanha. Como as crostas foram formadas após as pinturas serem feitas, o material fornece uma idade mínima para a arte subjacente.

A grande mudança de concepção que estamos tendo sobre este hominídeo, no que se refere a sua complexidade social (que sugere finas competências cognitivas) tem permitido defender esta tese. Isto fica bastante evidente no texto ao referir-se sobre as conchas tingidas encontradas na caverna do mar de Aviones, no sudeste da Espanha, que atribui-se aos Neandertais devido a data de 115 mil anos, apontando para uma longa tradição artística.

Contudo há algumas considerações a serem feitas que talvez ainda não permitam definitivamente atribuir aos Neandertais tais manifestações artísticas. A primeira delas talvez seja o fato do Homo sapiens ter sua origem estendida para 315 mil anos atrás, ou mais – segundo os achados feitos em Marrocos. Isto leva a questões que precisam ser feitas: Será que durante mais de 200 mil anos o Homo sapiens ficou restrito somente a África? Será que não houve migrações anteriores há de 50 mil anos feitas por Homo sapiens – ainda não captadas pelas evidências genéticas – rumo a Europa que podem justificar tais pinturas como Neandertalense?

Seja como for, o fato é que nossa concepção sobre os Neandertais mudou radicalmente desde sua descoberta e especialmente nos últimos 10 ou 15 anos, tirando ele da zona da ignorância e elevando seu status a um hominídeo de grandes competências cognitivas, tecnológicas e sociais.

Victor Rossetti

Palavras chave: Rossetti, NetNature, Neandertais, Ferramentas Líticas, Navegação, Automedicação, Evolução Humana, DNA, Paleoantropologia.

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