MITOS NÃO RELIGIOSOS – A FÉ COLETIVA DE QUE AS IDEIAS SÃO LEIS FIXAS.

É natural que as pessoas adotem certas crenças para melhor conviver em sociedade, elas podem ser religiosas ou não. O compartilhamento e aceitação de uma mesma ideia em um certo povo aumenta a coesão social e faz as pessoas se notarem como irmãos que não compartilham qualquer laço sanguíneo. A religião é o exemplo mais claro disto. Eventualmente as pessoas abandonam crenças religiosas, outras seguem acreditando de forma mais ou menos regular e algumas podem até cair no fundamentalismo. O que as pessoas ainda não notaram é que há outros elementos míticos que são socialmente erguidos, todos nós adotamos e que se aproximam a religiões.

Religião é um fenômeno exclusiva humano até onde sabemos, pois parte de uma narrativa com regulamentos adotados pelas pessoas, transmitidos por um deus para que nossa relação com ele seja mais íntima a tal ponto de nos fornecer respostas, conforto espiritual, redenção e uma vida pós-morte absolutamente platônica. A religião não é algo ruim, ela se torna ruim dependendo do modo como é utilizada. Costumo dizer que “deus não é o problema, o problema é seu fã clube!”

Toda religião parte de uma série de regras, normas e valores que são apresentados como sobre-humanos, ou seja, regras tidas como absolutamente verdadeiras, acima de nós e irrefutáveis. Comumente são chamados dogmas, são revelados a nós a partir de um profeta que tem uma linha exclusiva com o criador. São adotadas pelos membros da sociedade como verdadeiras por serem reveladas e não devem ser questionadas. Estas regras são elementos intersubjetivos, ou seja, aceitos coletivamente como bem ressaltou o historiador e filósofo Yuval Noah Harari em “Sapiens – Uma breve História da Humanidade” (2014). Essas intersubjetividades são o oposto dos elementos objetivos, como por exemplo a gravidade que não depende da crença ou da consciência das pessoas para existir.

 O que caracteriza uma religião é que tais regras e valores naturais intersubjetivos e sobre-humanos foram apresentados a nós a partir de um deus. Contudo, há valores, normas e regras que são aceitos de forma intersubjetiva pela sociedade e que não foram revelados por uma entidade divina, mas ainda assim são sobre-humanos, pois seriam regras fixas naturais. Partem de uma crença, diferenciando-se ligeiramente da religião pelo fato de não terem sido reveladas por um deus, mas sim pelo próprio homem.

Na verdade muitas coisas que aceitamos como fato na realidade são construções intersubjetivas. Muitas delas ainda se encaixam em aspectos da religião. Tome o budismo como exemplo e algumas religiões asiáticas que possuem as mesmas estruturas intersubjetivas sobre-humanas e que dão conta não de herdar um reino dos céus, mas aprender a lidar com o sofrimento, por exemplo. O caráter divino é dispensável e o objetivo dessas religiões é o homem e seu sofrimento. Poderíamos considerar o budismo uma religião, pois apesar do buda ser visto como uma entidade divina, ele não é. Ele apresentou apenas uma série de práticas de meditação e regras, como o óctuplo, para lidar com o sofrimento e o desapego em relação as sensações de alegria ou tristeza inerentes a nós e não sendo elas reveladas a ele mas alcançadas por ele ainda assim é religião.

Há diversos elementos que criamos, aceitamos e que partimos do pressuposto serem regras naturais. São elemento sobre-humanos que portanto, são crenças e mitos que todos nós temos. Tais crenças não necessariamente são ruins, mas certamente não são naturais e sim constructos sociais que serviram para nos ajudar como civilização e nos separar do mundo animal – aliás, são elas que justamente nos “diferenciam” no estado selvagem e amoral da natureza.

Muitas dessas criações e crenças sociais míticas são fundamentais para nossa existência como por exemplo, a ideia de nação, constituição, dinheiro, democracia, feminismo, direitos humanos e todas as nossas ideologias socialmente defendidas pelos cidadãos. Sim, todas elas são crenças que aceitamos coletivamente, atribuímos valor e socialmente compactuamos com sua validade. Algumas delas são boas, outras são ruins e algumas vezes as pessoas que as adotam elevam tais crenças a um patamar que se tornam absolutamente nada diferente dos fundamentalistas religiosos. Os ideólogos liberais, socialistas, comunistas, conservadores, nacionalistas, nazi-fascistas, capitalistas não gostam de serem chamados de religiosos, mas a estrutura de suas ideias é absolutamente igual ao descrito acima: um conjunto de normas, regras e valores tidos como naturais e irrefutáveis (sobre-humanos) que foram coletivamente aceitos (intersubjetivos) – muitos deles são tão semelhantes a religiões que defendem discursos messiânicos, culto a um líder, apocalipses econômicos e dogmas.

Essas ideias só têm valores porque aceitamos que tem. Peguemos o dinheiro como exemplo: na realidade é um pedaço de papel ou metal com uma estampa que acreditamos conter algum valor. Em uma ilha isolada um naufrago facilmente queimaria uma mala com milhões de dólares para acender uma fogueira e sobreviver no ambiente. Nas cadeias os cigarros valem mais do que moedas. Experimente pagar a conta do celular usando as antigas notas de Cruzeiros ou Cruzados. Você será visto como um louco pela pessoa no caixa e por todos ao seu redor porque aparentemente você acredita em um valor monetário que ninguém mais acredita. O valor é estabelecido pela confiança e fé de que algo funciona. O valor não está mais na nota porque coletivamente (intersubjetivamente) aceitamos o Plano Real de Fernando Henrique na década de 1990. O real, dólar, peso, dinar, iene e tantas outras moedas são mitos que aceitamos coletivamente possuir valor porque confiamos coletivamente que se eu entregar aquela nota ao cobrador do ônibus, ele a aceitará. Ou seja, aquela nota de Cruzeiro ou Cruzado não tem valor coletivo, tal como hoje as pessoas não enxergam valor em Enlil, deus sumério. Evidentemente, o dinheiro facilitou nossa vida, especialmente no período mercantilista pré-capitalista de profundas mudanças na Europa, pois facilitou lidar com uma subjetividade do período feudal – quantas frutas seria preciso dar para obter um carneiro no escambo?

A constituição é outro exemplo, não é nada mais que um contrato que todos aceitamos ser a regra da nação, mas nunca nos foi perguntado se aceitamos aquelas regras. Aceitamos que somos brasileiros porque temos uma constituição e uma linha imaginária que separa nosso espaço geográfico do Paraguai. Nossa linha territorial mítica linha imaginária brasileira já foi maior e abrangeu a Província Cisplatina que atualmente é conhecida como Uruguai. Os direitos humanos também são regras que compartilhamos mundialmente e que nos foram ditas que se todos cumpríssemos tais regras o mundo seria melhor. Possivelmente isto seria verdade, mas não deixa de ser uma construção social. Como dito, algumas dessas soluções construídas socialmente são boas e geniais.

Na natureza selvagem não há jurisdição, dinheiro, constituição, direitos animais ou ideologias. A natureza é amoral mas nossa consciência e o fato de vivermos em sociedade nos forçou a criar regras de melhor convivência. Não estou dizendo que a ideia de nação, constituição, dinheiro ou direitos humanos é ruim porque não é natural. Estou dizendo que são absolutamente importantes para nós, mas também estou dizendo que não passam de mitos intersubjetivamente adotados e que algumas delas podem andar por caminhos perigosos. A grande diferença é que tais regras tidas como verdadeiras e absolutamente corretas não foram reveladas a nós por um deus, mas por um humano, comumente conhecido pela alcunha de ideólogo.

O mais curioso é que compartilham de uma mesma perspectiva mítica: acusar que as regras de sua ideologia são absolutamente fixas, naturais quando na realidade são idealizadas por um pensador humano. Um ideólogo defende que se a regra que ele descobriu for seguida à risca a sociedade viverá dias de glória, mas na maioria dos casos as ideologias escritas no papel não diferem do valor que damos ao pedaço de papel que chamamos de dinheiro; que sofrem com a diferença na prática diante dos interesses humanos; que tem prazo de validade uma vez que as sociedades estão em constante mudança de tal forma que muitas vezes se tornam utópicas. Ainda que haja experiências com certas ideologias que foram positivas, isto não as torna natural, mas apenas um exemplo de bom funcionamento de uma ideia e não de uma lei da natureza. As notas de dinheiro ou os cigarros na cadeia funcionam muito bem, nem por isto elas tem um valor verdadeiramente objetivos.

É aqui que o canhão vira em meu peito. Revelar que nossas ideologias não passam de crenças porque partem de pressupostos sobre-humanos intersubjetivamente adotados faz com que aqueles fieis mais assanhados revelem a face religiosa de suas crenças ideológicas. Questione um militante de uma certa ideologia e verás que por trás de sua militância há um discurso religioso. Este texto se torna perigoso na medida em que revelo esta alma religiosa, que os militantes de todos os espectros diferem pouco de um Testemunha de Jeová.

Certa vez o filosofo da mente Daniel Dennett revelou que não há uma maneira educada de revelar a uma pessoa que ela tem devotado sua vida inteira a uma tolice. Em um momento de polarização política e de ideologias que muitas vezes são alinhadas com o ateísmo, revelar que a ideologia de um militante parte dos mesmos pressupostos religiosos é pedir para ser ofendido – como realmente já fui.

Nenhum seguidor de uma bandeira político-ideológica gosta de ver sua militância ser contabilizada como uma crença religiosa por mais que ambas sejam contempladas com a mesma estrutura sobre-humana e intersubjetiva. Todos os militantes gostam de defender que suas ideológicas foram racionalmente construídas e que são leis naturais – se possível, cientificamente comprovadas – na tentativa de validá-las. O mais interessante é que ao revelar esta semelhança, a não aceitação do caráter mítico de sua ideologia o faz agir exatamente como um fanático religioso.

Não estou dizendo que devemos viver sem ideologias, isto seria impossível. Cada decisão que tomamos é política e como disse certa vez o grande filósofo educador Paulo Freire “todos nós somos orientados por alguma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”

Todos somos orientados por ideias, por princípios norteadores e portanto, não existe cidadão sem-partido ou sem ideologia. Também não estou dizendo que devemos lutar contra todos estes mitos pois ideias nos movem, movem o mundo e nos dão motivos para seguir em frente. O que defendo é que devemos aceitar que nossas ideologias são construções de nossa vida em sociedade e não que sejam leis naturais. O fato de vivermos organizados em sociedades não implica que nossa espécie seja, naturalmente socialista, por exemplo. As relações sociais se dão de forma bastante variadas. Nossas ideologias são sugestões humanas sobre como devemos nos relacionar mediante aos jogos de poder que são intrínsecos em nossa espécie. Não se espera que abelhas que vivem em grandes colônias tentem dar golpe na monarquia e buscar independência; que suricatos planejem uma revolução armada unindo o proletariado; que leões sejam nacionalistas em relação ao Serengeti; e as relações entre macacos prego se importem com livre-mercado e mão invisível. Chimpanzés, com quem partilhamos um ancestral comum há mais de 7 milhões de anos fazem coalizões, mas chamar isto de golpe de Estado é antropomorfizar o animal. Transferir a sua dinâmica social elementos que são particulares a nossa espécie e nossas relações sociais.

Iluminar a ideia de que todos esses pressupostos são crenças serve como princípio para as pessoas observem que é possível mudar para melhor; que os direitos humanos por mais que sejam constructos sociais são fundamentos importantes para a humanidade que podem ser melhorados. Quando uma pessoa afirma que direitos humanos deveriam ser para “humanos direitos” está defendendo uma posição segregacionista. Ela está presumindo que possui o dom da jurisdição perfeita e critérios absolutos para definir quem é humano e quem não é. Este tipo de pensamento segregacionista vimos no apartheid e em regimes como o nazismo. Por incrível que pareça, entende-se direitos humanos aqueles direitos que são para todos os humanos.

Muitos constructos já foram superados e pudemos abandonar e fazer melhor e alguns ainda precisam para fomentar ações mais humanas, solidárias, empáticas diante de sistemas político-econômicos que agem de forma a mercantilizar a vida e as relações sociais. Estes precisam ser superados como superamos o mito de que Marte é o deus guardião da agricultura.

Alguns desses mitos ideológicos evidentemente são mais fáceis de observar suas estruturas mitológicas, mas outros que são profundamente aceitos e defendidos até hoje são mais resistentes. Algumas construções simplesmente não são míticas porque aceitam que suas regras não são universais. Por exemplo, o futebol não se encaixaria no caso apresentado aqui porque suas regras sabidamente mudam. O fato de ser flexível e não carregar um caráter sobre-humano não gera uma estrutura dogmática. O que pode ser perigoso é a questão de como cada pessoa enxerga seu time. As pessoas podem brigar acreditando que seu time é melhor do que o outro – o que não faz sentido algum, pois o que importa se um time tem 15 títulos de libertadores e outro só tem 1? Afinal, se não há um limite para títulos então nada garante que daqui 100 anos o time com apenas um título conquiste outros 16 e passe a frente e assim em diante. Uma corrida só é uma corrida porque tem um ponto de chegada! Por isto que, pessoalmente, o futebol perdeu todo o sentido para mim e a discussão de qual time é melhor se tornou uma discussão do sexo dos anjos.

As brigas de estádio de futebol têm mais a ver com a incapacidade de lidar com a frustração do que com uma questão dogmática. Algumas décadas atrás as torcidas sentavam juntas nos estádios – misturadas com pouquíssimos casos de briga. Com a criação de torcidas organizadas muitas facções foram criadas e a frustração de uma sociedade que não sabe lidar com o “não” porque não foi educada para a vida (nem e para a derrota) parece explicar melhor o fato de torcedores vandalizarem estádios alheios ou brigarem nas ruas. Associado uma psicologia das massas do “nós” e “eles” como uma característica tipicamente primata muito do que vemos não parece ser religioso, mas apenas frustrações mal resolvidas.

A ciência (e filosofia) também não pode ser vista como uma estrutura mítica porque seu princípio básico é assumir sua ignorância. Assumir que não sabe e questionar os modelos que supostamente já sabíamos traz à ciência um elemento auto-corretor bom para estudar a natureza. Os modelos científicos não são verdades reveladas e sim modelos descritos a partir de evidências abertos a mudanças. Ainda que não saibamos como é de fato um átomo, o modelo atômico não é um mito. Pude dedicar um texto inteiro a diferenciar ciência de religião em: POR QUE É UM ERRO PRESUMIR QUE A CIÊNCIA É COMO A RELIGIÃO?

Uma ideologia fácil de ser desconstruída é a do nazi-fascismo que partia de um pressuposto supostamente científico de superioridade racial, e portanto, os inferiores deveriam ser dizimados já que corresponderiam a variedades prejudiciais em comparação aos descendentes dos Arias. Mesmo a ideia de descendência de Arminius como ícone do nacionalismo alemão se mostrou mitológica quando se descobriu que este personagem foi morto pelo próprio povo germânico – e que a ideia de Europeu puro é ilusão. A ideia de superioridade racial foi forjada por um discurso ideológico, uma pseudociência eugênica de pureza racial na qual a mistura entre raças – reprodução entre judeus e alemães – poluiria este “pedrigree” ariano. Assim, o povo judeu, ciganos os homossexuais e comunistas deveriam ser exterminados por questões étnicas e ideológicas. Todo o discurso nazista foi respaldado em uma série de falsificações pseudocientíficas, pseudoreligiosas, míticas e antropológicas que aos olhos da ciência moderna não tem sentido algum presumir que sejam regras, valores e leis naturais. Pelo contrário, o extermínio de etnias dos discursos de ódio prejudica o pool genético da espécie humana pois eventuais genes favoráveis que poderiam ser homogeneizados na população humana e que futuramente poderiam salvaguardar nossa espécie frente a mudanças climáticas, estariam sendo exterminados em um gargalo genético. Imagine se no passado um povo hipotético resolvesse promover um genocídio as pessoas que ganharam na loteria genética a capacidade de digerir a lactose. Certamente teríamos dificuldade de viver em ambientes frios onde não há tantos alimentos e o leite seria nossa única fonte nutricional.

Algo análogo foi defendido no nazismo: exterminar a variabilidade genética humana presumindo que a pureza racial seria o estado de melhor bem estar da raça ariana. De forma absolutamente religiosa há pessoas que acreditam nesse mito supremacista branco, são chamados de neo-nazistas. Cientificamente não há qualquer respaldo para o discurso racial em termos biológicos: a presença de mais melanina na pele não tem correlação alguma com o intelecto de uma pessoa; o sexo feminino não apresenta qualquer sinal de inferioridade ao sexo masculino; e indígenas, judeus, homossexuais ou asiáticos são tão competentes intelectualmente quando os supostos alemães civilizados do III Reich. Embora hoje o racismo científico não tenha mais sentido algum porque ficou claro que tais defesas deterministas da biologia foram muito mais discursos antropológicos de higienização social do que realmente científicos muitas etnias sofrem com outro tipo de preconceito, o cultural.

As pessoas presumem adotando um pensamento conservador de que cidadãos que vem de outros países ou tem outros costumes estão poluindo ou interferindo nos costumes locais, daí surgem discursos xenofóbicos e supremacistas. Os simpatizantes deste preconceito cultural presumem que uma condição passada, idealizada seria muito melhor e se pautam no argumento nacionalista. Esses casos acontecem tanto com muçulmanos que sofrem por preconceito religioso quanto com homossexuais que são acusados de levar a espécie humana a extinção. Muitas vezes essas ideologias ganham novas versões bizarras, como é o caso do ecofascismo que busca em uma visão deturpada da temática ambiental justificar suas perseguições. Um exemplo de ecofascismo ocorreu no caso do atirador de Christchurch em El Paso que chamou a si mesmo de um “ecofascista” crendo não ser possível “nacionalismo sem ambientalismo”. A questão é que mesmo o movimento ambientalista é também uma construção sociológica e mítica.

Na Hungria, Polônia e mesmo na Rússia existe um discurso vindo dos conservadores de que os homossexuais têm um plano de dominação global. Quando os regimes são conservadores e autoritários eles rejeitam a fluidez e a complexidade da realidade social que estão vivendo e se sentem nostálgicos a uma era idealizada de fixidez social. O saudosismo vem de uma era onde as identidades eram fixadas (homem ou mulher) e as pessoas tinham pouco espaço para fazer escolhas pessoais (sem identidade de gênero, orientação sexual e sexo biológico). Nesses imaginários tempos os homens eram apenas homens e as mulheres eram apenas mulheres, os imigrantes eram inimigos e sendo tudo isto já pré-definido não havia porque discutir tais variações. Quando o movimento LGBT ganha visibilidade, exigem respeito acabam obscurecendo esses limites, misturam identidades e forçam as pessoas a pensar e escolher, o que leva a rejeição desses conservadores saudosistas de tempos idealizados.

Geralmente, quando uma crise acontece os sentimentos nacionalista e conservador afloram acusando os grupos que são minorias. Isto é esperado e cola muito bem nessas sociedades já que as minorias não têm poder político e rapidamente se tornam bode expiatório de supostas conspirações. Este e o caso do movimento LGBT! É fácil acusá-los, pois geralmente tem pouco poder e baixa representatividade política, sendo então barato financiar perseguições a eles. No Brasil o bode expiatório é o comunismo segundo um discurso saudosista da Guerra Fria e da ditadura militar para explicar nossos problemas sociais atuais. Assim, tais grupos se tornam mais perigosos do que realmente deveriam ser. Antes, uma pessoa para ser comunista precisava lutar pela igualdade, planejar a revolução armada, lutar para socializar os meios de produção e instaurar a ditadura do proletariado. Hoje, basta pedir igualdade de oportunidade ou respeito aos direitos humanos e o brasileiro ganha o status de foice e martelo. Mas até ai, seja o comunismo/socialismo ou mesmo o liberalismo também são mitos erguidos socialmente.

O mesmo bode expiatório foi utilizado nas caçadas às bruxas no início da Europa moderna, que eram minorias, frequentemente mulheres idosas e excêntricos solitários que pagaram com a vida um discurso sociológico apocalíptico.

A mesma lógica está agora em operação em lugares como a Rússia – um país que sofre de muitos problemas econômicos, a corrupção sistêmica e para proteger a nação os conservadores russos apontam para uma conspiração gay global.

Conservadorismo e nacionalismo são exemplos de mitos adotados por sociedades mas não tem base alguma e sequer são leis naturais. O problema é quando estes discursos são doces a população (especialmente em épocas de crises econômicas) e acabam sendo adotados como uma psicologia das massas. As pessoas aceitam aquilo como explicações verdadeiras porque lhes faz sentido, é cômodo, por presumir que sejam naturais e por partir de ideais vistos como sobre-humanas. Sendo coletivamente aceitos surgem: nacionalismo, xenofobia, culto ao líder, desprezo pelo direito a vida, supressão de direitos, idealização de inimigos como elemento de unificação e mobilização, militarização, censura, manipulação de dados sociais, obsessão por proteção, proteção as corporações e diluição da barreira entre governo e religião. Ocorre também perseguição a cultura, arte e vigilância de qualquer forma de pensamento contrário ao status dominante. Estas características emergem em qualquer sistema totalitarista, seja no nazismo, fascismo, comunismo e todas as ditaduras da direita.

O fato de uma pessoa amar sua pátria não quer dizer que ela seja obrigada a odiar estrangeiros que vieram morar em seu país – especialmente se for refugiado. Se ponha no lugar de um refugiado e perceberá a necessidade de valor a vida. Amar o seu país não significa odiar o outro e se você for cristão, por coerência, o amor ao próximo deve ser o maior de todos os critérios contra a xenofobia. Presumir que sua nação é a melhor ou que um passado idealizado foi melhor não é uma lei natural, apenas uma incapacidade de lidar com a dinâmica da sociedade que sempre foi e sempre será dinâmica. Primeiro porque a humanidade é fruto de migrações: os europeus não surgiram magicamente na Europa e os povos americanos chegaram no continente a mais de 15 mil anos atrás. Se desejamos levar o mito do nacionalismo ao extremo rejeitando estrangeiros considere então que todo americano branco é apátrida pois não é fruto da colonização original e veio parar no continente por razões imperialistas. Somos frutos da mestiçagem. Um brasileiro como eu (Victor Rossetti), descendente de italiano certamente sofreria ataques xenofóbicos dos conservadores se resolvesse morar na Itália.

A truculência dos nacionalistas e conservadores apenas reflete o caráter religioso de suas crenças sociológicas, representando exemplos de mitos negativos. Contudo, há exemplos positivos, como a democracia que evidentemente da voz a todos e permite que a escolha feita pela maioria prevaleça. Democracia não existe na natureza e nenhum suricato ou chimpanzé reflete profundamente antes de votar no membro do grupo que julgaram ser mais bem preparado para guia-los. Mas mesmo a democracia sendo o melhor (ou menos problemático) sistema que temos até o momento não está a salvo. Ela também possui limitações importantes: todas as pessoas têm direito de manifestar suas escolas, mas isto não significa que as pessoas saibam escolher os melhores candidatos: 2) as pessoas foram educadas para racionalmente utilizar critérios de avaliação sobre os candidatos?

Talvez os exemplos mais complicados de constructos sociais sejam as principais ideias das frentes de direita e esquerda na política: o liberalismo e o comunismo.

O liberalismo traz a frente o pensamento de Adam Smith de um equilíbrio natural de mercado e que os interesses individuais do empreendedor levam ao enriquecimento coletivo. No comunismo a ideia de que a socialização dos meios de produção gera a melhor condição social econômica coletiva. Em ambos os casos o capital é fundamental para as ideias acontecerem. Mas mesmo o capitalismo é uma construção social.

Começa primeiramente com trocas de mercadorias (o escambo) que eram realizadas através de produtos cultivados nos feudos, visto que não existia um sistema monetário. Com o mercantilismo e uma economia engessada pela falta de crédito a abonada nobreza acumulava riquezas e ostentava. A burguesia da origem ao capitalismo justamente porque pegar o capital excedente e reinvestir visando obter mais lucro e não apenas ostentação. Moeda, acumulo de riquezas e circulação monetária produzindo mais moeda são elementos intersubjetivos e que partem da ideia de que são leis naturais. As pessoas argumentam que o caráter acumulador do capitalismo surge devido a necessidade biológica do homem europeu guardar mantimentos devido as épocas de inverno – especialmente na última Era Glacial. Pode até seja que seja verdade mas as moedas, capitalismo, feudos e empreendedorismo são construções sociais e só tem valor porque foram aceitos popularmente.

Neste sentido duas ideologias vão tentar dar conta da forma como a economia deveria ser moldada. Primeiramente as ideias de Adam Smith e posteriormente a crítica de Karl Marx feita ao capitalismo industrial no século XIX. No fundo, essas duas leituras refletem sobre a contradição existente entre o egoísmo e o altruísmo como diversas vezes se refletiu na história da humanidade.

Na prática maioria das discussões acaloradas entre a direita e esquerda, liberalismo e socialismo descende dessas contradições. A história nos informa isto pois todas as ordens criadas pelos homens para viver em sociedade têm contradições. Por exemplo, a Revolução Francesa introduziu na humanidade os mitos da igualdade e a liberdade como valores fundamentais, mas há uma contradição entre eles. Igualdade só pode ser garantida se certas liberdades forem suprimidas – evidentemente somos diferentes entre si. Da mesma forma, garantir a liberdade inevitavelmente interfere na igualdade – visando o bem comum. Desde então, as discussões que envolvem este tema são justamente tentativas de lidar com tal contradição. Regimes liberais da Europa no século XIX priorizaram as liberdades individuais acima de tudo enquanto que no comunismo o ideal igualitário corria no sentido proposto. Hoje, a política estadunidense gira em torno de democratas e republicanos. Os democratas defendem sociedades mais igualitárias, nem que seja necessário aumentar impostos para isto, criando programas sociais que ajudariam os mais pobres, idosos e doentes. Isto, evidentemente, infringe as liberdades individuais de gastar dinheiro com individualmente as pessoas desejam. Na outra ponta estão os republicanos que incentivam as liberdades individuais ampliadas, mesmo que isto signifique aumentar o abismo entre pobres e ricos.

Muitas vezes, mesmo dentro da ideologia há contradições. No Brasil o melhor exemplo pode ser visto no caso do armamento da população: se por um lado defende-se o direito individual de andar armado e se proteger, por outro, é também direito individual dos cidadãos não correr o risco de ser atingido por uma bala perdida vinda de uma arma legalizada.

Evidentemente que altruísmo ou egoísmo são elementos encontrados na natureza. Contudo, a forma na qual as relações sociais se dão são bem diferentes. O fato de nossa espécie ser sociável não significa que somos naturalmente socialistas. Até porque em sociedades humanas há comportamentos tanto altruístas como egoístas. Confundir ser sociável com ser socialista é como dizer que somos naturalmente capoeiristas porque evolutivamente fomos contemplados com o comportamento de luta e fuga.

Se o ser humano fosse biologicamente socialista como seria possível explicar o mundo capitalista girando em torna do pressuposto liberal de Adam Smith? A mesma máxima vale para o contrário: Se os humanos são naturalmente liberais, como explicar comportamentos altruístas e algumas mais sociais que deram certo? Ora, se podemos agir de forma altruísta ou egoísta e os regimes políticos podem ser pautados em ideologias altruístas ou egoístas isto significa que as relações sociais puderam se consolidar de formas bastante distintas ao longo da história e no atual momento, o capitalismo é o regime vigente desde o século XV.

As relações sociais não parecem ser um interruptor de tomada que atua de forma binária (ou altruísta ou egoísta) e por isto a sociologia é algo complexo e que não pode ser visto somente como aspecto biológico pois pode se tornar absolutamente determinista. Desta forma, o capitalismo e o pensamento liberal (ou neoliberal) que por nós é visto como a única forma na qual a humanidade pode se estabelecer econômica e ideologicamente é um daqueles valores que são aceitos socialmente – intersubjetivos. É análogo ao caso do Plano Real e do Cruzado. As pessoas veem o capitalismo e liberalismo como corretos porque aceitam o valor e validam sua existência tal como o brasileiro valida a moeda real – e portanto, rejeita o socialismo, o ambientalismo ou qualquer outra ideologia como rejeitamos o uso da moeda Cruzado. Não enxergamos valor ou credibilidade nele por sermos crentes em outras “religiões ideológicas”. No fundo, todos são sistemas socialmente construídos que dependem da fé em sua validade.

Fé no Liberalismo

Até o ano 1770 os europeus não tinham qualquer vantagem tecnológica sobre os muçulmanos, indianos e chineses e em 1775 a Ásia ainda era responsável por 80% da economia mundial. A economia da Índia e China representava 2/3 de toda produção global. Somente a partir de 1780 a Europa começa a ganhar a economia mundial – especialmente a partir de guerras que conquistaram porções da Ásia. Foi a Revolução Industrial que lançou a Europa como economia global junto aos EUA a partir de 1900.

Em 1776 o pensamento capitalista ganhou um novo fôlego com Adam Smith e sua obra “A Riqueza das Nações“, na qual fundamentou a ideia de que os proprietários de terras, quando obtém mais lucro do que precisam para se manter, utilizam o excedente para expandir seus negócios e acabam empregando mais pessoas. Assim, o aumento de seus lucros ou riquezas individuais leva automaticamente a prosperidade coletiva ao contratar mais pessoas. No pensamento de Smith, o desejo egoísta/individualista de aumentar o lucro privado é a base para uma riqueza coletiva, criando a perspectiva de que a ganância de alguns é um elemento fundamental para o benefício de todos. A lógica é que se um empreendedor é pobre o povo também é pobre mas, se ele enriquece, acaba enriquecendo o povo. Nesse pensamento Smith ignorou uma série de contradições entre riqueza e moralidade ou que nem sempre o empreendedor usa o excedente para expandir seu negócio e empregar ainda mais pessoas – ou que o salário pago seja proporcional ao que foi produzido.

No pensamento econômico de Smith ser rico é ser moralmente bem sucedido na medida que pressupõe que os interesses individuais e gananciosos enriquecem o outro. Este pensando justificou a ideia de que as pessoas mais egoístas da sociedade são as mais benevolentes e são, portanto, o motor do crescimento econômico e da sociedade. Nesta lógica, o lucro reinvestido geraria – inclusive – financiamento de pesquisas que daria ainda mais fôlego a lógica capitalista levando ao aumento da produção.

A lógica de Smith não pressupôs que os interesses do empregador podem ser gerar mais lucro ao pagar salários mais baixos aos empregados e/ou o aumentar a jornada de trabalho. Geralmente, se pensaria que o livre mercado de Smith protegeria o trabalhador, mas na prática, se o empregador paga pouco e exige muito trabalho, os melhores empregados se deslocaram para trabalhar na concorrência sobrando quase nenhum trabalho ao empregador explorador. Neste caso, a ganância do empregador em não tratar bem o empregado geraria sua falência e poderia contribuir para a crescente precarização do trabalho. Além do fato de que um mercado sem qualquer tipo de supervisão (o que veio a ser chamado de Estado Mínimo) criaria sistemas de monopólio ou cartel impossibilitando o empregado de se proteger da exploração dos empreendedores. Por razões bem simples, então, notamos que o liberalismo não é uma lei natural.

Smith foi um grande intelectual que tentou descrever fenômenos de seu período. Sua ideia da Mão Invisível como elemento de oferta e demanda ajustando automaticamente o mercado a um “equilíbrio geral” satisfazendo o maior número possível de pessoas foi uma proposta genial que permitiu entender a economia de sua época, mas na prática, é apenas uma metáfora sobre como os mercados podem funcionar e não realmente uma lei rígida.

Os economistas acreditam na Mão Invisível e acreditam que se o mercado de, digamos, o milho se auto-ajusta, também ocorrerá em toda a economia. Na prática, a Mão Invisível é uma suposição e não uma lei com base científica – embora suas limitações não impediram sua influência suprema na economia. O fascínio de tal ideia é a sua elegância e simplicidade. A fraqueza profunda é que não é um modelo de mercado tão completo quanto muitos economistas insistem que seja. Ele falha em uma série de suposições subjacentes: que as pessoas têm preferências materiais que não mudam, que as pessoas são tomadoras de decisão racionais e que têm todas as informações de preço e produto de que precisam.

Smith também assumiu o papel ativo do governo na criação das regras e regulamentos da sociedade e plenamente consciente da necessidade de compaixão e comunidade, ao contrário do que é defendido hoje de forma selvagem. Smith acreditava que os indivíduos podiam tomar suas próprias decisões sem a ajuda de uma autoridade superior – uma ideia básica do Iluminismo que estava rapidamente ganhando aceitação cultural – e um mercado não dirigido pelo governo se encaixa muito bem nessa disposição filosófica. Smith estava determinado a mostrar que esse comportamento auto-orientado por parte dos indivíduos levava a um bem comum. Hoje, sabemos que o crescimento econômico não pode ser explicado única e exclusivamente pelo simples mecanismo da Mão Invisível, por mais importante que tenha sido o papel. Esses outros fatores econômicos menosprezados ou não reconhecidos são importantes reguladores da economia.

Assim, ao contrário das leis objetivas das ciências naturais, as ideias de Smith só podem ser consideradas intersubjetivas. São amplamente aceitas por economistas como leis fixas, sobre-humanas e estrutura o modelo de pensamento capitalista.

Os principais inovadores teóricos da história tentavam entender o que viam como avanços econômicos surpreendentes e robustos desde os anos 1700. Eles observaram como muitos indivíduos estavam se tornando ricos, como as cidades estavam crescendo, como a agricultura estava alimentando mais pessoas e como novas usinas estavam produzindo mercadorias mais baratas. Esses teóricos criaram edifícios econômicos fora do campo da ciência. Por esta razão as teorias econômicas não previam a Revolução Industrial ou a riqueza fabulosa das nações ricas de hoje. Isto representa a incapacidade de sua ideologia prever eventos futuros como faz a ciência quando produz modelagens. Por esta razão o pensamento liberal é uma estrutura intersubjetiva enquanto que das teorias de Newton ou Einstein são objetivas – essas oferecem previsões baseadas em leis imutáveis ​​da natureza.

Os economistas atuais ignoram que o tamanho do mercado é um elemento tão crítico quanto a produção. A divisão do trabalho e outras melhorias de produtividade só poderiam ser feitas se o mercado fosse grande o suficiente. Smith sabia disso, dando ênfase ao tema em sua obra, mas os economistas atuais ignoram. Os economistas tentam tornar suas ideias mais explícitas e aceitam suposições sem elaborar uma explicação completa de como o preço e a demanda são determinados.

Uma lacuna importante na explicação de como a Mão Invisível funciona vem da ideia de como o preço envia uma mensagem aos compradores e vendedores sobre como eles podem ajustar seu consumo e produção. Mas os compradores e vendedores precisam se comunicar e esta não é uma tarefa fácil.

Há ainda uma ambiguidade central na ideia de não interferência na economia. Os preços podem ser empurrados por forças poderosas: grandes empresas, sindicatos fortes, monopólios ou por oligopólios com poder de mercado. Nos mercados financeiros, os preços podem ser manipulados por conluio ou negociação secreta ou acesso a informações privilegiadas. Nos mercados de trabalho, os salários podem ser afetados pela capacidade das empresas de despedir trabalhadores sem justa causa ou por políticas severas do governo que restringem o crescimento e mantêm o desemprego alto. Mas a fé na Mão Invisível é tão forte que os economistas minimizam essas preocupações.

A fé neste mecanismo também levou à crença generalizada de que um salário mínimo mais alto resulta na perda de empregos partindo do pressuposto de que o salário pago reflita o valor dos trabalhadores e que qualquer aumento de salário resultante de uma lei de salário mínimo represente um pagamento em excesso aos trabalhadores, reduzindo os lucros e também reduzindo a contratação de novos trabalhadores. Mas, na verdade, muitas vezes o salário pode ser muito baixo por causa do poder de uma empresa ou de políticas governamentais geralmente restritivas que mantêm o desemprego alto. Nesse caso, um aumento no salário mínimo seria economicamente saudável poderia restaurar a demanda por bens e serviços e não causaria a perda de empregos.

A economia comportamental descobriu muitos exemplos de compradores incapazes de tomar tais decisões racionais, um fator que os economistas antes minimizavam. Um exemplo óbvio é o comportamento do rebanho que ocorre na dinâmica de investimentos, por exemplo.

O oposto, também prejudicial, é a aversão irracional ao risco, com os investidores se recusando a comprar mesmo quando as chances de ganho são boas. Outro exemplo é a suscetibilidade a publicidade enganosa. Outra é a moda em si, evidente no aumento da demanda por novos produtos. Todos estes são exemplos da falha ao argumentar que tais leis sejam naturais e objetivas, demonstrando-se claramente falhas e que só ocorrem porque aceitamos intersubjetivamente sua condição sobre-humana.

A Mão Invisível é uma aproximação, geralmente não aplicável no mundo real sem modificações significativas. A dependência disso leva a grandes erros de política, a maioria deles relacionada à restrição da intervenção do governo.

As previsões sobre economias baseadas nessa ideia generalizada muitas vezes se provaram erradas. A ideia de auto-ajuste para um equilíbrio geral mostrou-se falha diante de inúmeras recessões profundas, bolhas e colapsos financeiros desde o início da Revolução Industrial. A Mão Invisível é uma idealização brilhante dos mercados que mostra como a ideia do capitalismo laissez-faire é limitada na realidade. Não apenas não tem o equilíbrio ou o auto-ajuste como o resultado como tem promovido a desigualdade.

Se ousarmos argumentar que a Mão Invisível poderia beber da teoria evolutiva para dar um suporte naturalista poderíamos considera-la morta, afinal, a teoria da evolução deixa bem claro que a busca não regulamentada do interesse próprio é frequentemente tóxica para o bem comum. Experimente viver em uma sociedade absolutamente egoísta e observará a extinção de tal espécie.

Somos egoístas, em grande medida. Mas também somos seres morais, altruístas, temos sentimentos e crenças éticas – formadas ou não – que desempenham um papel onipresente em nossas interações com os outros, mesmo no moderno mundo aquisitivo dos negócios e do consumismo. Como Smith e Darwin enfatizaram, a sociedade ou a economia não podem funcionar sem vínculos e regras morais.

A evolução nos proporcionou instintos que desencadeiam nosso desenvolvimento moral em contextos socioculturais adequados e instintos básicos. Por meio de nossa socialização, tipicamente desenvolvemos personalidades complexas, onde todos os impulsos herdados biologicamente são estendidos ou restringidos em diferentes graus e de maneiras diferentes.

Herbert Spencer (1820 – 1903) apoiou o liberalismo econômico (laissez-faire) com base em seu apoio a tese lamarckiana de que a luta pela sobrevivência estimulou um auto-aperfeiçoamento que poderia ser herdado (Bowler, 2003). Saiba mais sobre o darwinismo social aqui.

Spencer descreveu seu primeiro esquema evolucionário geral sobre a sociedade humana em seu livro “Estática Social” (1851), na qual sugere que a evolução social é considerada um processo de crescente de “individualização”. Ele via as sociedades humanas evoluindo por meio da crescente divisão do trabalho de hordas indiferenciadas em civilizações complexas. Spencer acreditava que a classificação sociológica fundamental era entre sociedades militares nas quais a cooperação era garantida pela força e sociedades industriais nas quais a cooperação era voluntária e espontânea.

Além disto, a evolução não era a única concepção biológica que Spencer aplicou em suas teorias sociológicas. Ele também realizou uma abordagem comparativa entre organismos animais e sociedades humanas. Em ambos, ele supôs análogos para um sistema regulador: o sistema nervoso central nos organismos e o governo nas sociedades; um sistema de sustentação (alimentação em um caso, indústria no outro) e um sistema de distribuição (veias e artérias em um, estradas e telégrafos no outro).

No pensamento darwinista social de Spencer a diferença entre um animal e um organismo social seria que: enquanto no primeiro há uma consciência relacionada ao todo, no segundo existe apenas em cada indivíduo. Assim sendo, a sociedade existia para o benefício de seus membros e não para o benefício coletivo. A partir desta lógica, Spencer justificava o liberalismo clássico tentado validar biologicamente pressupostos sociológicos (Acton – Britannica, 2018).

É um erro grosseiro puxar as ideias do Darwin para fora do contexto tentando atribuir valores morais á aspectos científicos mesmo quando os cientistas deixam claro que as alegações científicas explicam fenômenos naturais e não justificam os atos das pessoas. Dizer que o darwinismo fundamenta comportamentos imorais é um equívoco triplo do pensamento do darwinismo social: é diluir a especificidade da natureza humana a uma natureza genérica, desconsiderando o fato de que somos natureza com atributos próprios que nos definem como espécie (cultura, trabalho, história e etc); acaba forçando o ideológico discurso de orientação liberal de que é natural para a evolução a eliminação dos mais fracos, ou seja, que é eticamente válido a desigualdade socioeconômica e a miséria. Geralmente os criacionistas fazem isto e não sabem o que Darwin quis dizer com evolução por seleção natural levando as suas alegações para um discurso anti-ético e descontextualizado; e ignora o contexto histórico em que Darwin formula os paradigmas dominantes naquele momento de expansão do capitalismo, cultura europeia como a única válida e de afirmação das abordagens positivistas cartesianas. Distorcida biologização da política e politização da biologia no nazismo, em um uso tendencioso da antropologia para justificar a existências de raças ou de desigualdades.

No debate presidencial de 2008, três candidatos republicanos levantaram a mão em resposta à pergunta: “Quem não acredita na evolução?” conservadores americanos são os que mais repudiam a Teoria da Evolução e os que mais adeptos do darwinismo sociais. O darwinismo social argumenta contra oferecer ajuda aos doentes e pobres, já que a natureza tem intenção de atuar sobre eles, seja para sobreviver por conta própria ou perecer. Pena que algumas pessoas não têm seguro de saúde, de modo que o argumento ao darwinismo social, é feito por aqueles que podem pagá-lo. O senador Jon Kyl, do Arizona foi um passo adiante – causando um clamor na mídia e protestos em seu estado natal -, votando contra a cobertura dos cuidados de maternidade. Ele mesmo nunca tinha tido qualquer necessidade para isso, explicou.

A lógica da máxima deste pensamento “competir é bom para você” tem sido extraordinariamente popular desde Reagan e Thatcher e nos assegurou que o livre mercado/Mão invisível iria cuidar de todos os nossos problemas. A lógica pode ter sido grande, mas a sua conexão com a realidade é pobre. O que os defensores do livre mercado perderam é a natureza intensamente social da nossa espécie. Eles gostam de apresentar cada indivíduo como uma ilha, mas o puro individualismo não é o que foi projetado pela evolução. Empatia e solidariedade fazem parte da nossa evolução – não apenas uma parte recente, mas capacidades antigas que compartilhamos com outros mamíferos (Saiba mais aqui).

Muitos grandes avanços sociais – democracia, direitos iguais, segurança social – tem surgido a partir do que costuma ser chamado de “empatia”.

Fé no Marxismo

O marxismo frequentemente é considerado uma ciência, a partir do termo “marxismo científico”. O socialismo embasado no marxismo é reivindicado como “socialismo científico”, por isto existe uma tendência a considera-lo como ciência. No entanto, há considerações a serem feitas que deixam claro que não se trata de uma lei natural.

Primeiramente, porque muitos socialistas – incluindo marxistas – não se sentem confortáveis em utilizar o termo “científico”, na medida em que iguala o status de sua ideologia socialista ao das ciências naturais – física, química, ciências da terra e biologia – ou, inversamente, porque compara o marxismo a outras “ciências sociais”, incluindo economia, geografia, história, sociologia, psicologia e assim por diante.

Como proposta econômica, é uma alternativa à economia convencional e como ideologia, adota todas as ciências sociais dentro de uma estrutura histórica buscando uma maneira de entender toda a sociedade. Marx fez uma leitura do capitalismo pós-Revolução Industrial do século XIX e muitos de seus pressupostos são absolutamente funcionais ainda hoje para entender o capitalismo que vivenciamos, o capitalismo financeiro – embora, talvez fosse necessário aos socialistas fazer uma nova leitura no contexto atual.

O marxismo tem algo a dizer sobre as ciências naturais, mas não é ele próprio uma “ciência” como a física ou a química, seja em sua abordagem teórica ou em sua metodologia. Foi, inclusive, incessantemente questionado se poderia ser falseado dentro da filosofia da ciência. A indução e dedução são os pilares do pensamento científico. A indução parte de uma ideia de generalização a partir de um conjunto de observações específicas. Isso permite a formulação de uma hipótese que, se não for contrariada pelas observações, torna-se incorporada em um corpo de teoria. A dedução funciona no sentido oposto: parte de uma observação geral e a partir desta presume que uma situação específica deve seguir no mesmo caminho. Os dois processos de indução e dedução são inseparáveis e conferem o caráter auto-corretivo da ciência, levando a um aperfeiçoamento progressivo da teoria.

Marx nunca afirmou que o marxismo era uma ciência da mesma maneira que as ciências “experimentais” como física ou química. E tão pouco afirmou que o “socialismo científico” era infalível. De fato, é provável que Marx soubesse as falhas de sua tese.

Então, qual é a base para reivindicações de um socialismo “científico” com o marxismo como sua base teórica? A resposta está em seu nome, no nome original, em alemão. “Socialismo científico” é uma tradução do alemão de “wissenschaftlich sozialismus“. “Wissenschaft” é um conceito mais amplo que “ciência”, incorporando pesquisa, teoria, entendimento e competência.

É por isso que você pode ter “Kunstwissenschaft” em alemão, mas não “Scientific art” em inglês. Marx não quis dizer “científico” no sentido estrito em que é frequentemente usado hoje. O socialismo de Engels, utópico e científico no ano 1880 em alemão Die Entwicklung des Sozialismus von der Utopie zur Wissenschaft – entendido literalmente como “o desenvolvimento do socialismo da utopia à ciência” – foi escrito para desafiar os socialistas idealistas e perfeccionistas de sua época que, segundo ele “Não pretenda emancipar uma classe específica para começar, mas toda a humanidade ao mesmo tempo” e que viam o socialismo como “a expressão da verdade absoluta, razão e justiça, [que] só deve ser descoberta para conquistar o mundo inteiro em virtude de seu próprio poder”.

Lenin e Stalin usaram frequentemente o termo “socialismo científico”, sendo o último em relação à construção do estado soviético, para significar uma sociedade governada por princípios “científicos”. Evidentemente não era científico no sentido das ciências naturais e claro, a experiência deu absolutamente errado. O sentimento religioso em relação ao marxismo costuma aparecer quando seus militantes dizem que os países onde as experiências deram erradas não eram verdadeiramente socialistas e portanto, somente aqueles em que as experiências foram mais positivas deveriam ser considerados. Conveniente!

Isto nada mais é do que agir de forma absolutamente religiosa, nada diferente dos economistas que defendem com fé a sua crença na Mão Invisível. De fato, a visão marxista é basicamente idealizada, funcionando de modo utópico, no mundo das ideias e do imaginário. Como ideológica, goza de falhas como qualquer outro constructo social. Aceitar isto deveria ser o primeiro pilar para construir uma discussão mais honesta e menos religiosa – tal como os cientistas aceitam os limites epistemológicos da ciência e entendem que ela é a melhor ferramenta para estudar a parte material da natureza, sendo incompetente para responder questões teológicas; ou que a ciência tem problemas burocráticos que precisam ser superados; ou ainda, que a ciência surgiu no contexto de expansão do capitalismo durante as expansão das navegações.

Este auto exame é fundamental, pois sem fazê-lo, o marxismo tem agido exatamente como uma religião, inclusive com culto a líderes, fazendo profecias apocalípticas (com o fim do capitalismo e a adoção natural do comunismo presumindo que não estejamos extintos antes da mudança capitalista para socialista/comunista) no aguardo messiânico por um líder revolucionário guiará uma luta armada rumo a vitória dos camaradas no que basicamente é uma Jihad. Lenin e Stalin não esperam o capitalismo ruir por si só, eles partiram para uma luta visando apressar o fim do capitalismo e só obtiveram mortes.

E então, o marxismo – “socialismo científico” – é realmente científico?

A resposta é evidentemente não, pelo menos no sentido que as ciências naturais são “científicas”. Não é uma ciência experimental na qual hipóteses sucessivas são “testadas” para elaborar um corpo teórico que interpreta o mundo natural. E, o mais importante, não é infalível.

Mas o que as ciências naturais e o marxismo têm em comum (e por que o marxismo teve uma influência tão significativa em todas as ciências sociais hoje em dia) é que sua abordagem é materialista e dialética. Ambos tomam como ponto de partida que o mundo, o universo, a “natureza” realmente existe. Ambos também defendem que todos os fenômenos – inclusive a consciência – são, resultados de processos materiais e que os humanos podem, entender esse mundo. Evidentemente, de modo incorreto e nunca completamente, mas que com o tempo, é possível coletivamente trabalhar para um melhor conhecimento do que é a realidade e como ela funciona.

Alguns defensores contemporâneos do marxismo argumentam que muitos aspectos do pensamento marxista são viáveis, mas que o corpus é incompleto ou um pouco desatualizado em relação a certos aspectos da teoria econômica, política ou social.

Ainda assim, como ideologia, a estratégia de Marx foi bastante interessante. Sua lógica de argumentação baseou-se em minar a economia política britânica e o pensamento liberal. Marx aceitou todos os axiomas propostos de Adam Smith e David Ricardo para demonstrar que, no contexto de suas suposições, o capitalismo era um sistema contraditório.
Marx percebeu que única maneira de desestabilizar e desafiar os economistas convencionais seria demonstrar as inconsistência internas de seus próprios modelos econômicos. Ele faz uma descrição ideológica crítica partindo de uma narrativa dramática e condenatória a espécie humana, que também estava ligada à possibilidade de salvação e espiritualidade autêntica.

Marx utilizou os elementos da história (trabalhadores, capitalistas, funcionários e cientistas) e descreveu a luta entre as classes. Os personagens da história lutaram para capacitar a humanidade enquanto, ao contrário de suas intenções, desencadeavam forças demoníacas que usurpavam e subvertiam sua própria liberdade e humanidade. Com isto, Marx fez uma descoberta que deve permanecer no centro de qualquer análise útil do capitalismo.

Sua visão da essência das crises capitalistas foi que quanto maior o sucesso do capitalismo em transformar o trabalho em uma mercadoria, menor é o valor de cada unidade de produção gera, menor a taxa de lucro e, finalmente, mais próxima da recessão seguinte o capitalismo fica. Ele leu a economia como um sistema e claro, diante disto saíram cenários escatológicos que levaria ao fim do capitalismo e começo do comunismo. Isto se não formos extintos antes! Contudo, sempre que o capitalismo entra em colapso na Europa, as recessões não revelam uma esquerda socialista atuante em busca de seus objetivos. Pelo contrário, cada recessão tem revelado a militância de grupos desencantadas com o capitalismo e flertando com o nacionalismo e neonazismo.

A saída de um país da zona do euro logo levaria a uma fragmentação do capitalismo europeu, criando um clima de recessão econômica. Quem você acha que se beneficiaria com esse desenvolvimento? Uma esquerda progressista, que surgirá como Phoenix das cinzas das instituições públicas da Europa depois do estigma do comunismo? Ou os grupos neonazistas, os variados neofascistas, os xenófobos? Sem dúvida alguma o sentimento nacionalista supremacista branco aflorará novamente.

Muito da contribuição de Marx permanece relevante ainda hoje.  Além de ter capturado o drama básico da dinâmica capitalista, Marx ofereceu ferramentas críticas ao modelo neoliberal. Marx olhou por outra perspectiva: é fácil sucumbir à ideia de que a riqueza é produzida de forma privada e depois apropriada por um Estado quase ilegítimo, através da tributação. Para Marx é o oposto, a riqueza é produzida coletivamente e depois, apropriada pelo setor privado através de relações sociais de produção e direitos de propriedade.

No século XX, os dois movimentos políticos que buscavam suas raízes no pensamento de Marx eram os partidos comunista e social-democrata. Ambos, além de seus outros erros (e, de fato, crimes) falharam em seguir a liderança de Marx em um aspecto crucial: em vez de abraçar a liberdade e a racionalidade como seus gritos de guerra e conceitos organizadores, optaram pela igualdade e justiça, legando o conceito de liberdade aos neoliberais.
Tendo falhado em apresentar uma crítica ao capitalismo em termos de liberdade e racionalidade, a social-democracia – e a esquerda em geral – permitiram aos neoliberais usar o discurso da liberdade e conquistar um grande público na disputa de ideologias.

Esses são exemplos de das falhas do pensamento de Marx que reverberam até os das de hoje na esquerda, principalmente na Europa. Um de seus erros foi sobre o impacto de sua própria tese sobre o mundo na qual a produziu. Pessoas que compreenderam melhor suas ideias entenderam seu poder e usaram em seu favor para se tornar líderes opressores. Isto revela o abismo que existe entre o plano teórico e o prático. A partir das próprias ideias de Marx, a fim de abusar de outros camaradas para construir seu próprio poder os comunistas criaram um regime ditatorial e não de liberdade, além do modelo de economia que não funcionou. O poder das ideias de Marx se transformou no poder de um líder, e dando poder a um homem saberemos quem ele realmente é. Afinal, mostrou-se responsável por uma grande quantidade de erros e, mais significativamente, por autoritarismo. Erros e autoritarismo que são os principais responsáveis ​​pela impotência atual da esquerda como força do bem e como controle dos abusos da razão e da liberdade que a equipe neoliberal está supervisionando hoje.

Outro erro é que Marx supunha que a verdade sobre o capitalismo pudesse ser descoberta na simples matemática de seus modelos.

Marx tinha consciência de que uma teoria econômica adequada deve respeitar a ideia de que as regras dos elementos indeterminados são elas mesmas indeterminadas. Em termos econômicos, isso significava o reconhecimento de que o poder de mercado e, portanto, a lucratividade dos capitalistas não era necessariamente redutível à sua capacidade de extrair trabalho dos funcionários e ainda, que alguns capitalistas podem extrair mais de um dado conjunto de trabalho ou de uma determinada comunidade de consumidores por razões externas à própria teoria de Marx.

Infelizmente, reconhecer isto equivaleria a aceitar que suas “leis” não eram imutáveis – o que revela o caráter mítico do marxismo. Marx teria que admitir que sua teoria era indeterminada e, portanto, que seus pronunciamentos não podiam ser única e inequivocamente corretos mas sim provisórios. Essa determinação de ter a história completa e fechada é algo pelo qual não permite ver sua tese como uma lei imutável e que a compromete como a leitura econômica verdadeira (The Guardian, 2015).

O comunismo soviético claramente fracassou, mas mesmo a social-democracia foi uma versão mais moderna ou o movimento político com um pouco mais de sucesso. Democracias europeias estáveis ​​surgiram após a II Guerra Mundial porque um consenso social casou mercados relativamente livres e propriedade privada dos meios de produção com estados assistenciais ampliados, tributação progressiva e outras formas de intervenção governamental na economia e na sociedade. Sem os resultados econômicos gerados pelo mercado, as enormes melhorias nos padrões de vida no Ocidente após a guerra não teriam sido possíveis. Foi preciso somente os 30 anos seguintes após o fim da II Guerra Mundial para que a Europa se projetasse economicamente. Mas sem o estado de bem-estar social, os benefícios do crescimento não teriam sido tão amplamente distribuídos: a desigualdade diminuiu dramaticamente durante as décadas do pós-guerra.

Além disso, as partes do mundo consideradas as mais “social-democratas”, como os países escandinavos, são  bem-sucedidas em quase todas as medidas: o  crescimento é forte, o índice de desemprego é  baixo, suas economias são constantemente classificadas como altamente competitivas, a qualidade da economia é boa e a qualidade de vida é  extremamente alta.

Conclusão

Evidentemente que é mais fácil a nós observarmos o caráter negativo do neoliberalismo e capitalismo pela vivência que temos, por ter de encarar os erros e contradições do neoliberalismo cotidianamente. Evidentemente que o processo de “descomunização” que o Leste europeu revela também as experiências ruins do comunismo. O que vemos é que em ambos os casos as falhas escancaras que ideias são muito mais bonitas quando concebidas no papel. Evidentemente, como seres políticos que somos, adotamos um ou outro posicionamento – ou suas variantes – o que é natural de se esperar. Seja Smith ou Marx, dois grandes intelectuais de épocas distintas conceberam leituras distintas da economia. Faz sentido as críticas de Marx a forma com que o capitalismo se desdobrou e como atua, mas devemos sempre ter em mente que as estruturas ideológicas são acima de tudo, limitadas, concebidas sob pilares falhos e susceptíveis as mudanças no tecido social pelo espaço e tempo. Essas estruturas coletivas (intersubjetivas) são naturalmente adotadas ao longo da história por serem convenientes ou necessárias e apresentadas como leis imutáveis ou cientificamente comprovadas. Elas podem ser cientificamente entendidas mas não necessariamente científicas teorizadas: previsões foram falhas, podem ter sido ignoradas ou simplesmente não puderam ser feitas. Podem ser estruturas que seguem uma certa lógica, mas como não podem ser modeladas ou ainda acompanhadas experimentalmente em ambientes controlados são muito mais religiosas do que realmente leis imutáveis. Certamente a Mão Invisível de Smith funcionaria muito bem em pequenos agrupamentos, mas em uma economia global facilmente o livre mercado se desdobra em cartel e monopólio.

Isto não significa que certos pontos dessas ideologias estejam errados. Me parece claro que Marx ofereceu uma ferramenta interessante de observar o capitalismo que em grande parte é válido até hoje, que a história da humanidade pode ser vista através de um constante duelo entre elites e o “povão”; ou que a ferramenta da mão invisível foi muito importante para compreender o capitalismo em 1780. Não há como ser “ateu” em relação aos mitos ideológicos, ao dinheiro, a constituição… mas há como ser cético, crítico e consciente de que precisamos constantemente repensar as contradições da sociedade com o uso da razão – e não com o poder da polarização. A polarização e o olhar religioso em relação a nossas próprias crenças é o que simplesmente tem poluído o exercício da militância – embora em alguns casos seja o estopim para acender uma revolta popular e promover mudanças. Estes são processos históricos que são observados e constatados cientificamente.

Nosso objetivo aqui foi demonstrar que muito daquilo que presumimos ser verdade absoluta, leis naturais são na realidade constructos sociais. Nosso objetivo não é direcionar o posicionamento das pessoas a uma frente ou outra, razão pela qual as críticas foram feitas em todas as direções. Como biólogo e evidentemente preocupado com a questão ambiental, não me exime a responsabilidade de ver o movimento ambientalista como uma estrutura mítica. Contudo, também não exime a minha luta em favor de uma educação ambiental emancipadora crítica que promova a autonomia, exercício da cidadania e da militância. Como biólogo e ciente da problemática socioambiental tenho plena noção de que o modelo capitalista não tem qualquer comprometimento que se alinhe com o ambientalismo. São evidentemente contraditórios. Não há como defender uma modelo mais sustentável de economia e de relações humanas sem superar o capitalismo que observa as áreas verdes como recurso natural a ser explorado e mercantiliza a vida humana. Embora na natureza não haja qualquer regra imutável que determine que os seres vivos são engajados em um ambientalismo ideológico, é cientificamente comprovado que nossas relações econômicas, especialmente após a Revolução Industrial, têm abusivamente contribuído para a extinção de espécies, alterações climáticas regionais globais, poluição, desertificação e criação de ambientes nocivos a vida e em alguns casos quase estéreis.

Como biólogo e pensador das questões científicas também devo reconhecer que muitos setores da esquerda rejeitam muitos avanços científicos relacionados a organismos geneticamente modificados, que tem sido estigmatizados embora cientificamente não haja comprovação científica de efeitos negativos, como geralmente é alegado Shermer, 2013 e Mooney, 2014 discorreram como os dois espectros políticos agem contrários a ciência. Liberais, conservadores, socialistas ou seja qual for a ideologia invariavelmente apresentam argumentos anticientíficos ou negacionistas que muitas vezes carecem de base empírica mas que aceitos por reforçar suas fés. Da mesma forma, como homem da ciência, reconheço que a ciência tem sido usurpada para serviço do capitalismo e neoliberalismo. Não podemos ser ingênuos em relação a ciência e as ideologias.

Faz-se necessário superar o modelo econômico selvagem que vivemos e a melhor ferramenta que temos até o momento para apontar todas as contradições do capitalismo e neoliberalismo vem do socialismo, ainda que este também goze de contradições que precisam ser superadas. Se a luta pelo respeito a vida, pela liberdade, pela justiça social, direitos humanos, igualdade de oportunidades me encaixa, neste momento de polarização política, a uma condição chamada de “comunista” – determinada pelos leigos e ideólogos de rede social – então que seja. Tal rotulagem não deveria incomodar as pessoas desde que a sua luta seja pela vida.

De qualquer modo, devemos estar cientes de que estes mitos ideológicos são constructos sociais que não são leis imutáveis, para seu bem ou mal. Bem porque podem ser repensados diante das necessidades sociais e mal, pois muitas vezes podem ser subvertidos e ressignificados em leituras prejudiciais, como a mercantilização de tudo (da vida e principalmente da consciência) promovida pelo capitalismo ou em regimes autoritários como os da União Soviética. Seja como for, em ambos os casos os resultados foram genocídios.

Sendo o capitalismo mais antigo e ainda vigente, revitalizando sua lógica a cada crise, parece que estamos absolutamente atrasados em supera-lo na medida que durante séculos tem contribuído para desvalorização da vida na medida que mercantiliza tudo.

Muitas dessas ideologias não me parecem ser casos de pseudociência. O nazi-fascismo nunca foi uma pseudociência. Ele foi uma ideologia que se fundou em cima de uma pseudociência racista. Assim, no caso específico do nazi-fascismo este componente esteve presente, tal como o lysenkoismo na União Soviética stalinista. Os demais casos parecem estruturas pautadas em ideias interessantes de intelectuais importantes que coletivamente foram aceitas como verdadeiras a partir de uma lógica específica a cada tempo e espaço da história. Alguns de seus aspectos caducaram frente a constante mudança da sociedade outras ainda são bem pertinentes. Enquanto a objetividade de teorias científicas como a gravidade é certa e, portanto, ninguém que pule de um prédio vá flutuar até sua casa, a estrutura intersubjetiva das ideologias caduca pois, aceitemos ou não, não há ideologia perfeita. Cada pessoa que acredita que sua ideologia é perfeita e pautada em leis naturais, fixas é tão religiosa quanto um sacerdote.

Victor Rossetti

Palavras chave: Rossetti, NetNature, Ciência, Mitos, Intersubjetividade, Leis, Constituição, Nação, Direitos Humanos, Liberalismo, Socialismo, Marxismo, Nacionalismo, Nazi-fascismo, Dinheiro, Capitalismo, Ambientalismo.

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Referências

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Berman, S. Five myths about socialismo. Washington Post. 2019
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Harari, Y. N. 50 years after Stonewall: Yuval Noah Harari on the new threats to LGBT rights. 2019
Harari, Y. N. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. Edi. LPM. 2014.
Mooney, C. Liberals deny science, too. Washington Post. 2014
Morning Star. Is Marxism scientific – and what is scientific socialism? 2019
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Shermer, M. The Liberals’ War on Science. Scientific American. 2013
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