CRUZADAS, SANTA INQUISIÇÃO, REFORMA PROTESTANTE E CAÇA ÁS BRUXAS – COMO A IGREJA CRISTÃ PERSEGUIU E MATOU EM NOME DE DEUS.

Algumas pessoas têm dificuldade de aceitar que no passado a Igreja foi responsável por diversas atrocidades. Aqui, retratamos alguns desses episódios históricos.

A Batalha de Arsuf foi travada em 7 de setembro de 1191, durante a Terceira Cruzada (1189-1192).

O revisionismo histórico é uma ferramenta importante na vida dos historiadores, pois diante de novas evidências científicas os eventuais erros interpretativos podem ser corrigidos. O problema é quando o revisionismo ocorre de modo intencional para reprimir um dado fato histórico porque incomoda a crença – ou pressupostos – de uma pessoa ou um ideal. Isto tem se tornado muito comum nos dias atuais, há negações de teses científicas muito bem consolidadas, como o formato da Terra, a validade do programa de vacinação e os revisionismos históricos a respeito do holocausto ou da posição ideológica do nazi-fascismo. Eventualmente, também surgem aqueles que negam o caráter truculento que a igreja conduziu na Idade Média e os episódios da Reforma Protestante.

A Idade Média teve suas qualidades e seus defeitos. É verdade que na Idade Média surgiram as primeiras universidades, que a arquitetura trazia consigo um forte componente artístico que é patrimônio mundial, que contribuíram com mudanças sociais, estimularam os contatos econômicos e culturais para benefício permanente da civilização europeia; que houve forte relações comerciais entre a Europa e a Ásia Menor permitindo o surgimento de novos produtos – em especial, o açúcar e o algodão -, que os contatos culturais que se estabeleceram entre a Europa e o Oriente tiveram um efeito estimulante no conhecimento da humanidade e, até certo ponto, prepararam o caminho para o Renascimento. Contudo, é verdade também que esta caminhada histórica teve efeitos colaterais nefastos. A história da Igreja é também marcada por muito sangue, e de pessoas que foram julgadas, condenadas e executadas. Nosso objetivo aqui é tratar de alguns desses fatos históricos, quando perseguições e assassinatos foram cometidos em nome do deus do cristianismo.

Algumas pessoas eventualmente discorrem críticas a ideia de que a Igreja agiu de modo truculento, em especial em nosso texto “CIENTISTAS, FILÓSOFOS E LIVRES PENSADORES QUE A INQUISIÇÃO MATOU EM NOME DE DEUS”. O texto pode ter dado a impressão de que a igreja somente perseguiu uma porção diminuta da sociedade e assim, poderia ser aliviada a responsabilidade alegando que os benefícios da Idade Média superariam episódios de opressão. Contudo, a expressão da violência medieval foi muito mais expressiva do que observamos no campo dos intelectuais, e aqui trataremos delas ao recordar situações onde o pensamento religioso protagonizou episódios de derramamento de sangue.

É inegável que em nome do deus do cristianismo imperadores, reis e cidadãos comuns de diversas localidades da Europa em diversos momentos da sua história protagonizaram episódios de violência a quem não era cristão, recorrendo a perseguições de pensamento, tortura (física, moral ou psicológica) e até execuções de pessoas que muitas vezes foram condenadas por crimes que jamais cometeram ou simplesmente porque manifestavam um credo diferente.

As primeiras manifestações truculentas do cristianismo começam assim que tal crença foi estabelecida no Império Romano pelo Imperador Constantino. Este, cessou a perseguição contra os cristãos que outrora foram mortos nos governos de Nero (37-68) e Diocletiano (244-311). A ideia de Constantino no século IV era criar uma única religião oficial como uma manobra política para evitar o colapso do Império. Ao tornar o cristianismo a religião dominante no Império Romano – um processo que começou no Concílio de Niceia em 325 – aqueles que então eram considerados hereges começaram a ser perseguidos. Em pouco tempo, os adeptos de crenças cristãs não-convencionais não cobertos pelo credo Niceno do Primeiro Concílio Ecumênico, como o Novatianismo e Gnosticismo, foram terminantemente proibidos de se reunirem. A ideia era acabar com um conflito que ocorria entre o cristianismo ortodoxo e o arianismo (seguidores do pensamento cristão de Árius), que resultou na queima de livros arianos. Sua intenção era acabar com a heterodoxia cristã e impor uma única concepção cristológica. Considerando que a bíblia alertava contra os falsos profetas, o cristianismo desde sempre se preocupou em manter e ensinar uma interpretação ortodoxa da fé e qualquer desvio era visto com outros olhos.

No caso mais extremo ocorreu a queima de Prisciliano e seis de seus seguidores na fogueira no ano 385. Neste ano, Prisciliano foi acusado por Evódio, prefeito do imperador, de praticar rituais mágicos que incluem danças noturnas, o uso de ervas abortivas e a prática da astrologia cabalística. As acusações a Prisciliano foram feitas porque na realidade, sua proposta teve muito sucesso no ano 380, em especial entre as mulheres e as classes populares a respeito da recusa à união da Igreja com o Estado imperial e à corrupção e enriquecimento das hierarquias.

Condenado mediante tortura, Prisciliano foi decapitado junto aos seus seguidores Felicíssimo, Armênio, Eucrócia (a viúva de Delphidius), Latroniano, Aurélio e Asarino. Alguns historiadores consideram este o primeiro caso de pena capital de um herege.

Durante o reinado de 3 anos de Juliano, o Apóstata (entre 361 a 363), o paganismo havia revivido no estado romano por um curto período de tempo, os últimos imperadores romanos cristãos sancionaram “ataques à adoração pagã” (Coffey, 2000). O ano de 385 foi decisivo na medida em que um dos bispos responsáveis pela extinção do neoplatonismo alexandrino, o fanático Teófilo, tornou-se patriarca da cidade, sob o domínio do imperador Teodósio e começou a legitimar ataques contra os pagãos. Em 391, Teodósio oficializou o cristianismo nos territórios romanos e perseguiu os dissidentes, protagonizando muitos ataques ao paganismo com propagação do fundamentalismo cristão. É nesta época que viveu a matemática e filósofa Hipátia– sendo bem representado no filme “Ágora”. O resultado foi a destruição de qualquer local de culto não-cristão e a invasão da Biblioteca de Alexandria onde queimaram todos os livros que eram considerados exemplares do paganismo, além de destruírem o Serapeu (Templo pagão de adoração a Serápis).

Posterior a isto, a cristianização da Europa foi em grande parte pacífica (von Padberg, 1998), mas houve momentos em que judeus e os muçulmanos foram claramente perseguidos, explicitando casos de conversões forçadas no Império Bizantino. Mesmo Santo Agostinho (um dos mais importantes teólogos nos primeiros séculos do cristianismo, cujas obras foram muito influentes no desenvolvimento do cristianismo e filosofia ocidental), foi convencido da eficácia das formas leves de perseguição e desenvolveu uma defesa de seu uso. Sua autoridade nesta questão ficou indiscutível por mais de um milênio no cristianismo ocidental servido de inspiração a criação do Tribunal do Santo Ofício (Coffey, 2000). Agostinho apenas discordava sobre até que ponto os cristãos deveriam perseguir os hereges, defendendo multas, prisão, banimento e flagelações moderadas aos hereges.

A partir de então, muitos encontros entre cristãos e pagãos se tornaram conflituosos e alguns reis cristãos ficaram historicamente conhecidos por sua violência contra os pagãos. Este é o caso de Carlos Magno e Olaf I da Noruega.

Carlos Magno (742-814) foi o primeiro Imperador do Sacro Império Romano do ano 800 até sua morte, além de Rei dos Lombardos a partir de 774 e Rei dos Francos começando em 768. Magno era um monarca guerreiro que expandiu o território Franco a partir de várias campanhas militares, especialmente contra os saxões pagãos cuja submissão foi bastante difícil de se obter e muito violenta (772-804), mas também contra os lombardos na Itália e os muçulmanos da Península Ibérica, até formar o Império Carolíngio, que incorporou a maior parte da Europa Ocidental e Central. Magno protagonizou muitas campanhas contra os povos a leste subjugando-os ao seu comando, forçando a cristianização dos saxões e banindo sob pena de morte o paganismo germânico. Ele os integrou ao seu reino e criou o que futuramente seria a dinastia Otoniana (Christiansen).

Na Noruega, o rei Olaf I teve um papel importante na conversão dos Vikings ao cristianismo. Viveu na Polônia, Irlanda e Inglaterra, lugar onde se converteu ao cristianismo. Alcançou a coroa norueguesa no ano de 995. Sendo rei, tentou expandir a fé cristã pelo seu reino enfrentado a rivalidade da Dinamarca. Em uma de suas batalhas, faleceu no ano 1000. Olaf construiu a primeira igreja da Noruega em 995 e fundou as cidades de Trontêmio e Sarpsborg. Durante a cristianização da Noruega, o rei mantinha as völvas (mulheres xamãs) amarradas em pequenas rochas à mercê da maré.

A perseguição aos hereges cristãos ficou mais intensa a partir de 1022, quando inicialmente 14 pessoas foram queimadas em Orléans (França). Nesta época, o bogomilismo (seita gnóstica cristã fundada durante o Primeiro Império Búlgaro pelo padre Bogomilo), o catarismo (um movimento cristão de ascese extrema na Europa Ocidental entre os anos de 1100 e 1200, estreitamente ligado aos bogomilos) e os valdeses (uma denominação cristã ascética que surgiu em Lyon, na França, em 1173 e caracterizavam-se por fazer votos de pobreza e de desapego às coisas materiais) apareceram na Europa.

Em Constantinopla, 1182, alguns anos após a cisão (Cisma) entre Católicos e Ortodoxos houve um conflito entre eles que ficou conhecido como o Massacre dos Latinos. Embora não existam números precisos, a maior parte da comunidade latina (católica), estimada em mais de 60 mil pessoas (Ducellier, 1997) foi assassinada ou forçada a fugir.

As seitas dos cátaros-valdeses-bogomilos eram vistas como heréticas pela Igreja Católica e no começo do século XII a França se propôs a combate-las, em particular, os cátaros e valdenses. Assim, criaram a Inquisição, um grupo de instituições dentro do sistema jurídico da Igreja Católica Romana cujo objetivo era combater a heresia. A partir de 1095 iniciou-se então um ciclo de diversas Cruzadas que só cessou em meados do século XIII. As cruzadas foram movimentos militares de inspiração cristã que partiram da Europa Ocidental em direção à Terra Santa e à cidade de Jerusalém com o intuito de conquistá-las, ocupá-las e mantê-las sob domínio cristão. Tradicionalmente se fala em 9 Cruzadas, mas, na realidade, elas foram um movimento quase permanente, assim como houve diversas inquisições.

As cruzadas foram episódios muito violentos e comumente as cabeças dos inimigos mortos eram empaladas em lanças. Uma crônica da época das cruzadas registra uma história de um bispo que se referiu às cabeças empaladas de muçulmanos mortos como um espetáculo alegre para o povo de Deus. Quando as cidades muçulmanas eram capturadas pelos cruzados cristãos, era procedimento padrão para todos os habitantes – não importando sua idade – serem sumariamente mortos. As ruas ficaram vermelhas de sangue enquanto os cristãos eram sancionados pela igreja (Learn Religions).

A Cruzada Popular (1096) tinha como objetivo encontrar infiéis ricos mais próximos e ao expandir seu território para regiões mais distantes atacavam judeus europeus. Os primeiros foram os judeus da Renânia. O fanatismo religioso era tão intenso que o conde Emich de Leisengen marcou a própria testa com queimadura em forma de cruz e liderou um grupo de peregrinos para atacar os judeus da cidade de Spier. Assim também o fez também em Judengasse onde mataram mais de mais de 1000 judeus, seguindo em direção a Mogúncia onde mais 990 judeus foram mortos (Barber, 1994).

A Cruzada dos Nobres ou dos Cavaleiros (1096-1099) teve como estímulo a ideia de pregar e prometer a salvação a todos os que morressem em combate contra os pagãos. Neste caso, os pagãos eram os muçulmanos e o organizador desta cruzada foi o papa Urbano II que ordenou massacrar muito dos residentes que se opunham à conversão, indiferentemente sobre a idade, fé ou sexo. Nessa cruzada foi criada a famosa Ordem dos Templários.

Houve uma cruzada entre 1147 e 1149 onde o exército de Conrado do Sacro Império acabou destruído pelos turcos em um local de descanso. Aqueles que sobreviveram juntaram-se aos franceses e aos Templários. A Ordem dos Templários foi fundada com o propósito original de proteger os cristãos que voltaram a fazer a peregrinação a Jerusalém após a sua conquista. Os membros da Ordem faziam votos de castidade, pobreza, devoção e obediência. Com o passar do tempo, os Templários foram obtendo privilégios e honrarias da Igreja e de reis cristãos que os tornaram ricos e uma das maiores potências financeiras da Europa, com amplo domínio em Portugal, Espanha, Inglaterra, Alemanha e França. Em 1229, o papa Gregório IX emitiu a bula, Ipsa nos cogit pietas, dirigida ao Mestre do Templo e aos cavaleiros da Ordem do Templo que os isentava de pagar o dízimo para as despesas da Terra Santa, atendendo “à guerra contínua que sustentavam contra os infiéis, arriscando a vida e a fazenda pela fé e amor de Cristo”. A ordem tornou-se uma das favoritas da caridade em toda a cristandade e os membros que com o tempo iam deixando de participar dos combates passavam então administrar a infraestrutura econômica dos bens adquiridos, criando práticas financeiras que constituíam a base do que seria o sistema bancário (Nicholson, 2010).

Em 1307, após graves problemas de dívida e tendo de recorrer a empréstimos junto dos Templários para financiar os negócios do seu reino, o rei Filipe IV da França usou a sua influência sobre o papa Clemente V, sob a sua dependência, para acabar com a Ordem e confiscar todos os seus bens. Os membros foram acusados de heresia, imoralidades, sodomia e foram queimados vivos.

Entre os anos de 1209 e 1229 ocorreu a Cruzada dos Albigenses cujo objetivo principal era suprimir a fé cátara (ou “albigense”) que surgiu por volta de 1170. Os cátaros acreditavam no dualismo, professando a existência de um deus do Bem e outro do Mal, Cristo seria o deus do bem enviado para salvar as almas humanas, após a morte as almas boas iriam para o céu, enquanto as más iriam praticar metempsicose (Cotrim). A violência desta cruzada foi extrema até mesmo pelos padrões medievais com diversas pessoas executadas por heresia. Somente os valdenses conseguiram sobreviver em áreas remotas no norte da Itália.  As cruzadas Albigenses agiram sob a orientação de um legado papal e do abade católico Arnaud Amalric matou cerca de 20 mil pessoas, tanto cátaros quanto católicos ortodoxos (Oldenbourg, 2006).

O Quarto Conselho do Laterano (1215) codificou a idealização e a prática da perseguição (Coffey, 2000). Em seu terceiro cânon, o conselho declarou:

“Autoridades seculares, qualquer que seja o cargo que possuam, serão admoestadas e induzidas e, se necessário, compelidas pela censura eclesiástica, … a prestar juramento de que irão se empenhar … para exterminar nos territórios sujeitos à sua jurisdição todos os hereges apontados pelo Igreja.”

(Medieval Sourcebook: Twelfth Ecumenical Council: Lateran IV 1215)

No processo de eliminar esses movimentos heréticos, os funcionários da Igreja/Inquisição fizeram amplo uso da tortura para provocar confissões. Os hereges que se recusaram a desmentir suas crenças foram enforcados ou queimados vivos (Sean Martin, 2005).

As Cruzadas do Norte compõem uma série de campanhas contra os pagãos bálticos e eslavos do nordeste da Europa que criaram uma forte resistência, exigindo décadas de violência por monges-guerreiros para forçar a submissão e obrigar a conversão dos habitantes da região – que muitas vezes eram deixados como servos de uma nobreza cristã de língua alemã (Christiansen). No século XII, os povos que habitavam as terras do que atualmente é a Estônia, Letônia e Lituânia formavam um enclave pagão entre os emergentes e poderosos estados cristãos – ortodoxos à Leste e católicos romanos à Oeste. Viveram desta forma durante mais de 150 anos, mas com a chegada dos cruzados alemães à região a Estônia foi atacada treze vezes pelos principados russos e também por dinamarqueses e suecos. Os Estonianos, por sua vez, fizeram incursões na Dinamarca e na Suécia apesar de ocorrer algumas tentativas pacíficas pelos cristãos ocidentais, para a conversão dos Estonianos – iniciadas a partir de missões enviadas por Adalberto, Arcebispo de Brema em 1045-1072. Contudo, esses esforços de paz duraram pouco tempo.

A cruzada contra os países bálticos foi amparada por uma Bula Pontifícia que declarou que a luta contra os pagãos bálticos teria a mesma importância de uma participação em uma cruzada à Terra Santa. Os reinos cristãos da Escandinávia e o Sacro Império Romano-Germânico fizeram diversas tentativas para dominar e converter muitos povos vizinhos pagãos. Os povos não-cristãos que foram alvos das campanhas foram os Vendos e Rúgios eslavos, de Rúgia, Pomerânia e Meclemburgo (em 1147 pelos dinamarqueses, e mais tarde também pelos saxões e poloneses), os povos da (atual) Finlândia em 1154; em 1249 (Taváscia) e em 1293 (Carélia) (pelos suecos, embora a cristianização de Novogárdia Magna tenha se iniciado mais cedo); os os Estonianos, Latgálios e os Livônios (pelos alemães e dinamarqueses, 1193–1227), os Lituanos (pelos alemães, sem sucesso, no início do século XIV-1316); os Curônios e os Semigálios e os antigos Prussianos; os Vendos Polábios e os Obotritas (entre os rios Elba e Oder).

Uma parte das cruzadas do norte ficou conhecida como Cruzada Wendish realizada em 1147, liderada principalmente pelo Reino da Alemanha dentro do Sacro Império Romano. No início do século XII, os arcebispados alemães de Bremen e Magdeburg buscaram a conversão ao cristianismo dos vizinhos eslavos ocidentais pagãos por meios pacíficos. Então bula papal foi emitida apoiando a cruzada contra esses eslavos. Além de patrocinar a conversão forçada, a Igreja aceitou a eliminação de tribos hostis ou relutantes que não se renderam (Fonnesberg-Schmidt, 2009).

Após muita resistência o exército cristão, composto principalmente de saxões e dinamarqueses, forçou o tributo dos eslavos pagãos e afirmou o controle alemão de Wagria e Polabia através da colonização, mas não conseguiu converter a maior parte da população imediatamente.

Em 1171 ou 1172, o Papa Alexandre III, em Nos parum animus noster, declarou a conquista e a conversão forçada de pagãos no norte da Europa em uma cruzada oficial, reconhecendo-a como uma atividade meramente espiritual, cujos participantes receberiam a mesma remissão de pecados que os que lutavam no Levante (Christiansen). O conceito de guerra justa foi estendido para incluir qualquer guerra contra os pagãos, com táticas descontextualizadas do conceito de guerra justa. Os frades dominicanos ajudaram ideologicamente a justificar as cruzadas e suas táticas retratando os pagãos como maus e merecedores de conquista, perseguição e conversão forçada em suas pregações em apoio às cruzadas (Urban, 2011; Harmut & Falkenberg, 1975).

Todas, exceto a sexta cruzada (1228-1229), foram prejudicadas pela cobiça e brutalidade; judeus e cristãos na Europa foram massacrados por turbas armadas em seu caminho para a Terra Santa. O papado se tornou incapaz de controlar as imensas forças à sua disposição e assim foi durante as cruzadas.

Mesmo após o fim do período das cruzadas a violência ainda continuou, pois a Inquisição permaneceu. A Inquisição espanhola ou Tribunal do Santo Ofício da Inquisição foi uma instituição fundada em 1478 por Fernando II de Aragão e Isabel de Castela para manter a ortodoxia católica em seus reinos. Esta Inquisição foi fruto da reconquista da Espanha das mãos dos árabes muçulmanos e da política de conversão forçada de judeus e muçulmanos espanhóis ao catolicismo. A Inquisição atuou como ferramenta política do que ficou conhecido como “limpeza de sangue” contra os descendentes de judeus e de muçulmanos convertidos. Como uma corte religiosa, operava a partir de autoridades da Igreja Católica e se uma pessoa fosse considerada herege, a punição determinada às autoridades seculares, pois a Igreja supostamente “não derramava sangue”.

A tortura frequentemente era usada como modo de penitência. As punições variavam desde passar vergonha em público (obrigar o uso do sambenito, uma roupa de penitente, usar máscaras de metal com formas de burro, usar mordaças) até ser queimado em praça pública quando a heresia era de maior gravidade. A morte pelo garrote (estrangulamento) era usada para os arrependidos e geralmente, as punições eram executadas publicamente, durante os chamados autos-de-fé, que aconteciam uma vez por ano na maioria dos casos. Algumas pessoas acusavam outras por vingança ou para obter recompensas da Coroa. A própria Coroa Espanhola beneficiava-se, ao desapropriar os bens dos conversos (Carrol, 2002).

A Inquisição também foi usada contra os primeiros focos do protestantismo, contra a disseminação das ideias de Erasmo de Roterdã (1466-1536), contra o iluminismo e, no século XVIII, contra o enciclopedismo inaugurado por Denis Diderot (1713 – 1784), filósofo e poeta que foi incessante perseguido por ter feitos duras críticas ao cristianismo.

Erasmo de Roterdã foi um dos primeiros defensores da tolerância religiosa, e recebeu o título de “príncipe dos humanistas”. Ele preparou edições latinas e gregos do Novo Testamento e levantou questões que seriam influentes na Reforma Protestante. Era crítico dos abusos generalizados dentro da Igreja Católica e entre os principais objetos de seu ataque eram os excessos da Igreja e os princípios da vida em ordens religiosas. Membros do movimento Contra-Reforma Católica muitas vezes acusaram Erasmo como tendo “posto o ovo que chocou a Reforma”. Sua erudição e enorme e popularidade era assegurada por sua segurança pessoal, mas todas as suas obras foram colocadas no Index librorum prohibitorum pelo Papa Paulo IV (Hoffmann, 1989) – o index era a lista de livros censurados pela igreja.

Inquisição espanhola auto da fé 02 Quadro Robert Fleury

Na Inquisição Espanhola os judeus e muçulmanos foram forçados a se converter ou a serem exilados e evidentemente, muitos foram mortos. A perseguição aos judeus remonta à Espanha visigótica do século XII. Embora os espanhóis tenham concordado em permitir aos muçulmanos a liberdade de religião em 1492, isso foi muitas vezes ignorado. Em 1501, os muçulmanos receberam a opção de conversão ou exílio e em 1556, a vestimenta árabe ou muçulmana era proibida. Em 1566, a língua árabe como um todo era proibida na Espanha (Fernandes, 2004).

Os pesquisadores Gustav Henningsen e Jaime Contreras (1992) estudaram os registros da Inquisição Espanhola, que listam 44.674 casos, dos quais 826 resultaram em execuções presenciais e 778 em efígies (um boneco de palha que era queimado no lugar da pessoa condenada). William Monter calculou que havia 1000 execuções entre 1530 e 1630 e 250 entre 1630 e 1730 (Monter, 2003). Jean-Pierre Dedieu estudou os registros do tribunal de Toledo, que colocou 12 mil pessoas em julgamento. Para o período anterior a 1530, Henry Kamen estimou que havia cerca de 2 mil execuções em todos os tribunais da Espanha (Kamen, 2004).

Houve também a Inquisição Portuguesa, cuja principal heresia eram as práticas judaizantes dos chamados cristãos-novos (Pieroni, 2000 & Rowland, 2010). Em 1506, houve no Massacre de Lisboa, momento no qual centenas de cristãos-novos foram mortos pelos antigos cristãos de Portugal.

A Inquisição portuguesa centrou-se principalmente sobre os judeus sefarditas, a quem o Estado forçou a converter-se ao cristianismo. O rei João III (reinou entre 1521 e 1557) estendeu a atividade dos tribunais para cobrir a censura, adivinhação, feitiçaria e bigamia.

A Inquisição de Goa, na Índia, começou em 1560, foi iniciada pelo padre jesuíta Francisco Xavier de sua sede em Malaca, originalmente por causa dos cristãos-novos que lá viviam e também em Goa cuja população havia retornado ao judaísmo. A inquisição de Goa também se concentrou em convertidos católicos do hinduísmo ou do islamismo que se pensava que retornaram aos seus modos originais. Além disso, esta inquisição processou os não-convertidos que quebraram as proibições contra a observância de rituais hindus ou muçulmanos ou interferiram nas tentativas portuguesas de converter os não-cristãos ao catolicismo (Salomon & Sassoon, 2001).

Foi o único tribunal inquisitorial situado em território português do oriente, ou seja, do leste africano ao Timor Mais de um século depois, em 1774, o Marquês de Pombal acabou abolindo a Inquisição de Goa e todos os prisioneiros foram libertados. Contudo, após a renúncia de Pombal em 1777, a Inquisição foi restaurada e funcionou até ser definitivamente extinta em 1812.

Além disto, a colonização espanhola e portuguesa das Américas destruiu em grande parte a civilização asteca e inca. A supressão das religiões indígenas era seu efeito colateral, não seu objetivo principal. Nas nações colonizadas, as tentativas de converter os povos nativos ao cristianismo tornaram-se mais encorajadoras e menos vigorosas. Na Índia britânica durante a era vitoriana, cristãos convertidos receberam tratamento preferencial para consultas governamentais.

A Inquisição no Brasil não ocorreu da mesma forma que em Portugal. Em um primeiro momento, o Brasil-colônia serviu como refúgio para os cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo) que conseguiram escapar das punições. Por muito tempo, também serviu como lugar para onde eram enviados os condenados por heresia, feitiçaria, blasfêmia entre outras acusações. Acredita-se que essa população foi um contingente importante para o povoamento do Brasil pelo fato de compor a maior parcela da população. A ação inquisitorial no Brasil se deu inicialmente por meio das visitações de líderes religiosos portugueses, mas diante de diversas dificuldades apresentadas a ação da Inquisição passou a se apoiar cada vez mais nos agentes locais, ou seja, nos membros do clero presentes no Brasil.

Esse sistema se dava através do envio das denúncias para o tribunal de Lisboa que, após analisadas pelos inquisidores, eram devolvidas com o respectivo mandato de prisão para cada correspondente local podendo, assim, prender os réus e enviá-los à Portugal. Desta forma, a maioria das prisões no Brasil foram efetuadas e as principais acusações eram a prática do judaísmo e bigamia, mas o número de prisões ou qualquer tipo de ocorrência registrada no Brasil foi muito inferior ao português, tendo como exemplo em Pernambuco, onde se registrou 200 prisões para 700 denúncias (Feitler, 2013 & Pieroni, 1997).

Posteriormente, no Brasil colonial, dois massacres registrados no Rio Grande do Norte foram marcantes e apontados como símbolos da intolerância religiosa dos holandeses que em 1645 dominavam o Nordeste brasileiro. Em Cunhaú, 70 pessoas foram assassinadas em 16 de julho de 1645 como retaliação holandesa aos católicos que se recusavam a serem convertidos para o movimento religioso protestante calvinista. Quase três meses depois desse episódio, em 3 de outubro, outras 80 pessoas também foram assassinadas às margens do rio Uruaçú. Elas foram despidas mortas por não terem se convertido ao protestantismo. Nem crianças foram poupadas do ataque, sendo uma delas com dois meses de vida, morta junto com uma irmã e o pai. O camponês Mateus Moreira acabou virando símbolo do martírio porque, no momento de sua morte, teria bradado: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”. A louvação seria uma prova incontestável de sua fé, na visão católica. Ele foi morto ao ter o coração arrancado pelas costas (BBC, 2017).

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Protestantismo, Catolicismo e banho de sangue

Houve também episódios de violência protagonizados pelo Protestantismo e seus conflitos com a igreja Católica. Quando Martinho Lutero escreveu suas 95 Teses em 1517, o catolicismo reagiu da mesma maneira que às heresias do final da Idade Média. Protestantes comumente alegaram que o papa católico era o anticristo e os conflitos surgiam atingindo seu ápice na França com o massacre do dia de 1572 em São Bartholomeu, na Alemanha e na Europa Central com a Guerra dos 30 Anos (1618-1648) e na Inglaterra com a Guerra Civil Inglesa (1641-1651). Além disto, ocorriam também os julgamentos das bruxas no início da Europa Moderna realizados tanto pelos católicos quanto pelos protestantes, atingindo seu auge entre 1550 e 1650 e continuando até 1750 (Coffey, 2000).

Dois desses eventos foram marcantes. Na guerra dos 30 anos as rivalidades entre Católicos e Protestantes e os assuntos constitucionais germânicos foram gradualmente se intensificando até se tornar um conflito sangrento. Apesar de os conflitos religiosos serem a causa direta da guerra, ela envolveu um grande esforço político do Império Sueco e da França para procurar amenizar a situação. As tensões religiosas agravaram-se na Alemanha no reinado do imperador Rodolfo II (1576-1612), quando foram destruídas muitas igrejas Protestantes. As liberdades religiosas deste grupo foram limitadas somente à liberdade de culto. Então, os oficiais do governo lançaram as bases do Tratado de Augsburgo, que criou condições para o refortalecimento do poder católico.

Os Protestantes, que constituíam a maior parte da população, estavam indignados com a agressividade da hierarquia católica e exigiam de Fernando II, o rei da Boêmia e futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, uma intercessão em seu favor. As reivindicações foram totalmente ignoradas pelo rei que era um católico convicto e um potencial herdeiro do poder imperial dos Habsburgos. Fernando II estabeleceu o catolicismo como único credo permitido na Boêmia e na Morávia. Os Protestantes boêmios consideraram o ato de Fernando como uma violação da Carta de Majestade, instaurando nos boêmios o desejo de independência. A resposta da maioria protestante veio em 23 de maio de 1618 quando descontentes com os católicos destruíram um de seus templos, invadiram o palácio real em Praga e jogaram pela janela dois dos ministros e um secretário do rei (Clodfelter, 2017).

Uma manhã perto dos portões do Louvre, pintura de Édouard DebatePonsan.

Contudo, o pior episódio foi o massacre da noite de São Bartolomeu que ocorreu na França antes da Guerra dos 30 anos. Foi um episódio de repressão ao protestantismo, estabelecido pelos reis franceses, que eram católicos. Foi o pior dos massacres religiosos do século (Koenigsberger et al, 1999) e se espalhou pela Europa a ideia o catolicismo era uma religião sanguinária e truculenta (Chadwick & Evans, 1987). Os relatos históricos da quantidade de cadáveres arremessados nos rios afirmam uma visível contaminação, de modo que ninguém comia peixe, pelas condições insalubres do local. Esses assassinatos ocorreram na noite de 23 e 24 de agosto de 1572, e estima-se que entre 5 e 30 mil pessoas tenham sido mortas (Perry, 1997).

A Reforma Protestante mudou a face do cristianismo ocidental para sempre, mas inicialmente não fez nada para mudar a perseguição religiosa. De fato, contribuiu muito com ela. Os reformadores abraçaram totalmente a defesa de coerção por Agostinho em questões religiosas e muitos consideraram a pena de morte por heresia como uma punição legítima.

Martinho Lutero escreveu contra a perseguição na década de 1520 e demonstrou genuína simpatia pelos judeus em seus escritos anteriores, especialmente em “Das Jesus ein geborener Jude sei” (Jesus nasceu como judeu) de 1523, mas depois de 1525 sua posição endureceu. Em “Wider die Sabbather an einen guten Freund” (Contra o Sabbath a um bom amigo), em 1538, ele ainda considerava uma conversão dos judeus ao cristianismo como possível (Kaufmann, 2005), mas em 1543 ele publicou “Sobre os judeus e suas mentiras”, uma trato anti-semita que fazia apologia à violência. João Calvino, um dos principais nomes da Reforma Protestante também ajudou a garantir a execução da heresia de Michael Servetus, embora ele tenha pedido sem êxito que ele fosse decapitado em vez de ser queimado na fogueira (Coffey, 2000).

Martinho Lutero era radicalmente contra o movimento anabatista que surgiu durante a Reforma. O movimento era liderado por Thomas Münzer que inicialmente era adepto de Lutero, porém ao defender juntamente com seu movimento uma sociedade sem diferenças entre ricos e pobres e sem propriedade privada foi atacado por Lutero. Lutero argumentou que a existência de “senhores e servos era vontade divina” (Azevedo & Seriacopi, 2007) legitimando assim o poder político.

Em 1524 Münzer iniciou uma revolta camponesa comandada pelos anabatistas, que provocou a Guerra dos Camponeses, comandando massas de regiões rurais contra a nobreza imperial. Nesse conflito Lutero escreveu aos príncipes contra Munzer, afirmando:

“Contra as hordas de camponeses (…), quem puder que bata, mate ou fira, secreta ou abertamente, relembrando que não há nada mais peçonhento, prejudicial e demoníaco que um rebelde”.

(Azevedo & Seriacopi, 2007)

Após a derrota dos Camponeses na guerra, os anabatistas foram perseguidos e executados em países protestantes, suas partes do corpo colocadas em gaiolas do lado de fora da catedral para servir de aviso. Na Holanda e Frísia, massacraram aproximadamente 30 mil anabatistas nos dez anos que se seguiram a 1535 (Blainey).

Também houve outros episódios de violência e intolerância religiosa com João Calvino e seus seguidores em Genebra, quando instauraram um governo teocrático (História das Religiões – Crenças e práticas religiosas do século XII aos nossos dias, 2008) e quem descumprisse as normas e doutrinas oficiais do Estado era punido. Centenas de pessoas (Bommbeg, 1959) foram sentenciadas à morte (Cotrim). O caso mais famoso é o do cientista e reformador Miguel Servet, condenado à morrer na fogueira por suas ideias teológicas pelo Conselho de Genebra presidido por Calvino (McNeill), que havia inclusive consultado outros reformadores sobre o assunto, como os seguidores de Martinho Lutero, que concordaram de modo unanime com sua execução (Schaff, 1910). Servert, por exemplo defendia o Anti-Trinitarismo (contrário a trindade do pai, filho e espirito santo) e portanto, foi condenado tanto por católicos quanto e protestantes.

Após o ocorrido Calvino escreveu:

“Quem sustenta que é errado punir hereges e blasfemadores, pois nos tornamos cúmplices de seus crimes (…). Não se trata aqui da autoridade do homem, é Deus que fala (…). Portanto se Ele exigir de nós algo de tão extrema gravidade, para que mostremos que lhe pagamos a honra devida, estabelecendo o seu serviço acima de toda consideração humana, que não poupamos parentes, nem de qualquer sangue, e esquecemos toda a humanidade, quando o assunto é o combate pela Sua glória”.

(Cambridge University Press, 2006)

Durante todos estes episódios conflituosos entre católicos, protestantes e anabatistas houve também diversos julgamentos de pessoas que eram acusadas de bruxaria – que ocorreu entre 1550 e 1700. Ao longo de um século e meio, cerca de 80 mil pessoas foram julgadas por bruxaria e pelo menos metade delas foram executadas.

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Perseguição ás Bruxas

O Tribunal Eclesiástico instituído pela Igreja Católica no começo do século XIII tinha como objetivo investigar e julgar sumariamente pretensos hereges e feiticeiros acusados de crimes contra a fé católica. Ninguém duvida de que se há um tribunal deste calibre é porque as pessoas pensavam e seguiam crenças que estavam além dos limites impostos pelo dogma cristão e evidentemente isto teria consequências.

Contudo, é preciso salientar que o equivalente a “caça às bruxas” antecede os episódios de perseguição por justificativas cristãs. O relato mais detalhado de um julgamento por magia remete a Grécia Clássica e refere-se a história de Teóris de Lemnos, que foi executado junto com seus filhos em aproximadamente 338 a.c, supostamente por lançar encantamentos e usar drogas prejudiciais (Collins, 2001).

Em 451 a.c, as Doze Tábuas da lei romana tinham provisões contra magias e feitiços malignos destinados a prejudicar as plantações de cereais. Em 331 a.c, 170 mulheres foram executadas acusadas como bruxas em uma época de epidemia. Em 186 a.c, o Senado Romano emitiu um decreto que restringia severamente a Bacanália, rituais celebrados em homenagem a Dionísio/Baco. Após a proibição, em 184 a.c, cerca de 2 mil membros do culto de Baco foram executados e em 182-180 a.c outras 3 mil execuções ocorreram (Durrant, 2012). A perseguição às bruxas continuou no Império Romano até o final do século 4 d.c e diminuiu apenas após a introdução do cristianismo como a religião oficial do Império Romano no ano 391 (Behringer, 2004).

O período clássico da caça às bruxas recomeçou no início da Idade Moderna por volta de 1450 e seguiu até 1750, abrangendo os levantes da Reforma e da Guerra dos 30 Anos, resultando entre 35 e 100 mil execuções (Wolfe, 1997). Em outras regiões, como a África e a Ásia, caças às bruxas contemporâneas têm sido relatadas na África Subsaariana e Papua Nova Guiné e a legislação oficial contra bruxaria ainda é encontrada na Arábia Saudita e em Camarões.

Entre os anos 900 e 1400 a doutrina cristã dominante havia negado a existência de bruxas e feitiçaria, considerando-a como superstição pagã. É possível que obras do dominicano Tomás de Aquino no século XIII ajudou a lançar as bases para uma mudança na doutrina cristã, pelo qual certos teólogos cristãos eventualmente começaram a aceitar a possibilidade de que humanos pudessem estabelecer pactos colaborativos com o diabo, resultando em uma pessoa obtendo certos poderes sobrenaturais.

Em 1258, o papa Alexandre IV emitiu um cânone determinando que os inquisidores deveriam limitar seu envolvimento aos casos em que houvesse alguma clara presunção de crença herética, mas futuramente as autoridades cristãs haviam invertido sua posição quanto a ideia de bruxaria e instaurou uma caça às bruxas.

Certa vez, foi argumentado a mim que os episódios de caça às bruxas foram protagonizados pelo protestantismo sem a participação da Igreja católica. Os economistas Peter Leeson e Jacob Russ, da George Mason University, na Virgínia, argumentam que os julgamentos de bruxaria refletiram uma competição por poder estabelecida entre as Igrejas Católicas e os Protestantes pela participação no mercado religioso. Não era apenas “católicos ou protestantes” que realizavam estes atos mas, “católicos e protestantes” condenavam as pessoas por bruxaria.

As duas frentes religiosas passaram a competir para conquistar ou manter seus seguidores causando choque com os julgamentos. Eles chegaram à conclusão depois de analisar análises de novos dados que abrangem mais de 43 mil pessoas julgadas por bruxaria em 21 países europeus.

Os dados levantados pelos economistas mostram que a caça às bruxas decolou somente após a Reforma em 1517, exatamente no momento em que houve uma rápida disseminação do protestantismo. Leeson e Russ defendem que, pela primeira vez na história, a Reforma apresentou um grande número de cristãos com uma escolha religiosa: criando a opção de se manter com a velha igreja ou mudar para a nova. Assim, quando os freqüentadores de igreja têm uma escolha religiosa, as igrejas devem competir para angariar fiéis.

A caça às bruxas teve seu auge entre os anos de 1555 e 1650, quando houve um pico de competição por fieis que foi evidenciada pela Contra-Reforma Católica, durante a qual as autoridades da Igreja recuaram diante dos sucessos Protestantes na conversão dos católicos.

A caçada às bruxas foi mais intensa onde a rivalidade católica-protestante era mais forte. Isso explica por que a Alemanha, é um marco da Reforma e representou 40% de todos os processos de feitiçaria na Europa. A Escócia, onde diferentes grupos do protestantismo estavam em competição, viu o segundo nível mais alto de caça às bruxas, com um total de 3.563 pessoas processadas.

Na Espanha, Itália, Portugal e Irlanda que eram países que permaneceram como uma fortaleza católica após a Reforma e nunca viu uma séria competição do protestantismo – coletivamente representaram apenas 6% dos europeus julgados por bruxaria.

Por volta de 1650, no entanto, o entusiasmo contra as bruxas começou a diluir com processos por bruxaria praticamente desaparecendo em 1700. Leeson e Russ atribuem isso à Paz da Vestfália, uma série de tratados em 1648, que diminuiu a intensidade guerra religiosa na Europa.

Os registros das atividades de perseguição geralmente eram mantidos pelos inquisidores franceses, mas a maioria deles não sobreviveu. Um historiador trabalhando em 1880, Charles Molinier, refere-se aos registros sobreviventes como apenas fragmentos escassos. Molinier observa que os próprios inquisidores descrevem suas tentativas de salvaguardar cuidadosamente seus registros, especialmente quando se deslocam de cidade em cidade. Contudo, inquisidores eram odiados e sofriam com emboscadas nas estradas e seus registros eram mais frequentemente alvo de ataques. Os registros eram alvo do acusado ou de seus amigos e familiares, sabotando o processo ou, na falta dele, poupando sua reputação e a reputação de seus descendentes. Isso seria ainda mais comum para os acusados ​​de feitiçaria (Molinier, 1880).

A partir de 1428, com os julgamentos de bruxas do Valais, de seis a oito anos de duração espalharam para as regiões de língua alemã. Este período também coincidiu com o Conselho de Basiléia (1431–1437) e alguns estudiosos sugeriram que uma nova visão doutrinária de ódio ao que se considerava bruxaria se espalhasse entre certos teólogos e inquisidores que participaram deste conselho (Thurston, 2001).

A tortura de bruxas começou a aumentar em freqüência após 1468, quando o papa declarou que a feitiçaria era “crimen exceptum” e, portanto, removia todos os limites legais sobre a aplicação da tortura nos casos em que era difícil encontrar provas (Medway, 2001).

Em 1484, o papa Inocêncio VIII publicou a bula Summis desiderantes affectibus, permitindo o aprisionamento, punição e castigo dos adoradores do diabo, entre outros crimes. Ele o fez a pedido do inquisidor Heinrich Kramer que se tornou conhecido por criar o mais completo manual de tortura aplicado aos condenados por bruxaria.

Em 1486 o Malleus Maleficarum de Kramer foi publicado e se tornou referência de tortura. A prensa tipográfica de Gutenberg havia sido inventada recentemente ao longo do rio Reno, e Kramer a utilizou para conduzir seu trabalho para impressão e espalhar seu manual de caça e tortura as bruxas. O Malleus Maleficarum foi impresso 13 vezes entre 1486 e 1520 e – após uma curiosa pausa de 50 anos que coincidiu com o ponto máximo da Reforma Protestante – foi novamente impresso mais 16 vezes, seguindo o Concílio de Trento (1574-1669). Serviu de referência para muitos trabalhos semelhantes, como um trabalho influente de Jean Bodin, e foi citado em 1692 por Increase Mather, então presidente do Harvard College (Behringer, 2004).

Malleus Maleficarum

O período dos julgamentos de bruxas europeus, com o maior número de fatalidades, parece ter ocorrido entre 1560 e 1630 (Behringer, 2004) incluindo os julgamentos das bruxas de Trier (1581-1593), os julgamentos de bruxas de Fulda (1603–1606), a bruxa basca (1609-1611), o julgamento de bruxas de Würzburg (1626-1631) e os julgamentos de bruxas de Bamberg (1626-1631). Também eram bem conhecidos os julgamentos das bruxas escocesas de North Berwic, os julgamentos de bruxas suecas de Torsåker e, um pouco mais tarde, em 1692, os julgamentos de bruxas de Salem na Nova Inglaterra.

Os julgamentos das bruxas de Trier ocorreram na Alemanha entre os anos de 1581 a 1593. Pode ter sido o maior julgamento de bruxas na história europeia. As perseguições começaram na diocese de Trier em 1581 e atingiu a própria cidade em 1587, onde levou a morte de cerca de 368 pessoas, sendo a maior execução em massa na Europa em tempos de paz. Este número representa apenas as pessoas que foram executadas dentro da própria cidade, e o número total de executados – contando também os mortos em toda a caça às bruxas dentro da diocese como um todo – era ainda maior. O número exato de executados nunca foi estabelecido, mas a estimativa mais conservadora sugere um total de 1000 pessoas.

Os julgamentos das bruxas de Fulda também ocorreu na Alemanha, entre os anos 1603 e 1606, que resultou na morte de cerca de 250 pessoas.

Os julgamentos de bruxas bascas ocorreram no século XVII, representando a tentativa mais ambiciosa de acabar com a feitiçaria, e foi empreendida pela Inquisição Espanhola. Entre os acusados ​​não estavam apenas mulheres, mas muitas crianças, homens e até mesmo padres acusados de criarem amuletos com nomes de santos. A primeira fase terminou em 1610, com uma declaração de auto-da-fé contra 31 acusados, 12 dos quais foram queimados até a morte (5 deles simbolicamente, como haviam morrido antes do auto-da-fé).

Como era habitual em casos deste tipo, várias denúncias foram feitas e confissões de ao menos 2 mil pessoas foram tiradas a força, 1.384 das quais eram crianças entre as idades de 7 e 14 anos, implicando em mais de 5 mil indivíduos nomeados bruxos. A maioria das denúncias (1.802) foram confissões mediante tortura (Midelfort, 1983).

O julgamento das bruxas em Wurtzburgo, que ocorreu na Alemanha em 1626-1631, é um dos maiores julgamentos e execuções em massa ocorridos na Europa durante a Guerra dos 30 Anos. Houve a confirmação de que pelo menos 157 homens, mulheres e crianças da cidade de Wurtzburgo foram queimados na fogueira após serem decapitados. Outra estimativa sugere que 219 pessoas foram executadas na própria cidade, e um número estimado de um total de 900 mortos em toda a Diocese.

Durante a Guerra dos 30 Anos o que antes era uma crença de que algumas pessoas possuíam habilidades sobrenaturais se tornou um sinal de um pacto com o diabo e as pessoas acusadas de bruxaria supostamente tinham habilidades sobrenaturais. Para justificar os assassinatos, o cristianismo Protestante e suas instituições seculares acusaram a feitiçaria como sendo associada a rituais satânicos selvagens nos quais havia muita dança nua e infanticídios canibalísticos. Também foi visto como heresia por ir contra diversas passagens bíblicas:

  • O primeiro dos dez mandamentos – “Amar a Deus sobre todas as coisas”
  • “Ninguém se achará entre vós que fizer passar um filho ou uma filha pelo fogo, que praticar adivinhação, ou adivinhar, ou um augusto, ou um feiticeiro, ou um que lance feitiços, ou que consulta fantasmas ou espíritos, ou que busca oráculos dos mortos, pois quem faz estas coisas é abominável ao Senhor” – Deuteronômio 18: 10–12
  • “A feiticeira não deixarás viver”. – Êxodo 22:18
  • Cortou aqueles que têm espíritos familiares e os magos da terra”. – I Samuel 28

Os julgamentos das bruxas de Bamberg ocorrido entre 1626-1631, estão entre os casos mais famosos da história da feitiçaria europeia. Durante um período prolongado, estes julgamentos resultaram nas execuções de cerca de 1.000 pessoas.

Os julgamentos das bruxas de North Berwick foi uma série de julgamentos ocorridos entre 1590 e 1592, envolvendo um notável número de pessoas de East Lothian, na Escócia, acusadas de bruxaria. Eles ocorreram por dois anos, condenando 70 pessoas. As confissões foram extraídas por meio de tortura, no Old Tolbooth, em Edimburgo. Duas pessoas foram mais significativamente acusadas: Agnes Sampson, uma mulher idosa respeitada, e Dr. John Fian, um professor e estudioso. Ambos se recusaram a confessar a prática de bruxaria, mas foram condenados à tortura.

Sampson foi levada até o rei James e um conselho de nobres onde negou as acusações, mas depois de ser torturada confessou. Sampson foi presa à parede de sua cela por um freio de bruxa – um instrumento de ferro com pontas afiadas que forçava para dentro da boca, de modo que dois dentes pressionavam a língua, e os dois outros iam contra as bochechas. Ela foi mantida sem dormir, lançada com uma corda em volta de sua cabeça e só depois de confessar três acusações foi finalmente estrangulada e queimada como uma bruxa (Barbara, 1969).

John Fian também sofreu tortura quando lhe arrancaram as unhas e em seguida, alfinetes de ferro foram introduzidos em sua pele. Após confessar foi levado para o Castlehill, em Edimburgo, e queimado na fogueira em 16 de Dezembro de 1592. Entre 3 e 4 mil pessoas acusadas de bruxaria foram sentenciadas a tortura e morte na Escócia nos anos 1560-1707.

Os julgamentos das bruxas de Torsåker ocorreram em 1675, quando pastor luterano Johannes Wattrangius pediu para Laurentius Christophori Hornæus investigar a prática de feitiçaria em sua paróquia. Foram os maiores julgamentos de bruxas na história do país. Em um único dia, 71 pessoas (65 mulheres e 6 homens) foram condenadas por prática de bruxaria e sentenciados à decapitação. Após a morte, todos os corpos dos condenados foram queimados (Högman, 2002).

Houve também o famoso caso das Bruxas de Salém, um episódio gerado pela superstição e pela credulidade que levaram, na América do Norte, aos últimos julgamentos por bruxaria na pequena povoação de Salém, Massachusetts, em uma noite de outubro de 1692 (Gretchen, 2009). O medo da bruxaria começou quando uma escrava negra chamada Tituba contou algumas histórias de vooduismo tradicional da África Ocidental a algumas amigas. O medo da bruxaria durou cerca de um ano, durante o qual 20 pessoas, na sua maioria mulheres, foram declaradas culpadas de realizar bruxaria e executadas. Foram presas cerca de cento e cinquenta pessoas.

Os julgamentos das bruxas de Salém ocorreram quando a prática estava diminuindo na Europa. Na década de 1690, Winifred King Benham e sua filha Winifred foram julgados três vezes por feitiçaria em Wallingford, Connecticut, o último desses testes na Nova Inglaterra. Embora inocentes, eles foram obrigados a deixar Wallingford para se estabelecer em Staten Island, Nova York. Em 1706, Grace Sherwood, da Virgínia, foi julgada por fugir e ser presa por supostamente ser uma bruxa.

Houve ainda os julgamentos de bruxas de Salzburgo na Áustria, onde 139 pessoas foram executadas de 1675-1690. Enquanto os julgamentos de bruxas começaram a desaparecer em grande parte da Europa em meados do século XVII, eles continuaram nas extremidades da Europa e nas colônias americanas.

Na França, com o aumento da capacidade fiscal e um governo central mais forte, as acusações de bruxaria começaram a declinar (Scarre & Callow, 2001) indicando que os julgamentos eram indicativos de um sistema legal fraco que facilitava a acusação e condenação de pessoas a pratica da bruxaria.

Durante o início do século XVIII, a prática diminuiu. Em 1712, o caso de Jane Wenham foi um dos últimos julgamentos, sendo perdoada após sua condenação e libertada. A última execução de feitiçaria na Inglaterra aconteceu em 1716, quando Mary Hicks e sua filha Elizabeth foram enforcadas. Em 1727 Janet Horne foi a última pessoa a ser executada por feitiçaria na Escócia. O ato Witchcraft de 1735 pôs fim à ideia de acusações por feitiçaria na Grã-Bretanha. Os acusados ​​sob o novo ato eram restritos àqueles que fingiam ser capazes de conjurar espíritos (destinado mais a cartomantes e médiuns profissionais), e a punição era leve (Johnson & Koyama, 2014).

Na Áustria, Maria Teresa proibiu a queima de bruxas e a tortura no final do século XVIII. O último julgamento foi de Maria Pauer que ocorreu em 1750, em Salzburgo, que era então fora do domínio austríaco.

Apesar do término oficial dos julgamentos por feitiçaria, ainda haveria assassinatos não oficiais ocasionais dos acusados ​​em partes da Europa. Alguns desses casos foram o de Anna Klemens na Dinamarca (1800), Krystyna Ceynowa na Polônia (1836), e Sible Hedingham na Inglaterra (1863). Na França, houve violência esporádica e até assassinato na década de 1830, com uma mulher supostamente queimada em uma praça da vila de Nord (Brian, 2013).

Na década de 1830, uma acusação por bruxaria foi iniciada contra um homem em Fentress County, Tennessee e vários episódios de tortura foram usados ​​contra pessoas acusadas de bruxaria para coagir confissões e levá-los a fornecer nomes de supostos conspiradores. A maioria dos historiadores concorda que a maioria dos perseguidos nesses julgamentos de bruxas as pessoas eram inocentes de qualquer envolvimento na adoração do diabo.

Na Itália, uma bruxa acusada foi privada de sono por períodos de até quarenta horas. Essa técnica foi usada também na Inglaterra, mas sem limitação no tempo (Trevor-Roper, 1969). A humilhação sexual também foi usada, como sentar de forma forçada em fezes quentes com a alegação de que a mulher acusada não realizaria atos sexuais com o diabo. Na maioria dos casos, aqueles que suportaram a tortura sem confessar foram libertados (Henry Charles Lea, 1991).

O uso de tortura foi identificado como um elemento chave na conversão e julgamento de uma acusação de bruxaria, já que os que estão sendo torturados têm maior probabilidade de acusar uma grande variedade de outros indivíduos locais de serem também bruxos (Henry Charles Lea, 1991).

Uma variedade de punições diferentes foi empregada para aqueles considerados culpados de bruxaria, incluindo prisão, flagelação, multas ou exílio.

O consenso acadêmico sobre o número total de execuções por feitiçaria varia de 40 e 60 mil, mas não incluindo os linchamentos não-oficiais de pessoas acusadas que não foram registradas, mas que, no entanto, foram raras no início da Idade Moderna. Também há o caso que vários indivíduos teriam morrido como resultado das condições insalubres de sua prisão, mas novamente isto não é registrado dentro do número de execuções (Scarre & Callow, 2001). No início do século XX, algumas estimativas acadêmicas sobre o número de execuções ainda variavam em centenas de milhares. A estimativa só foi confiavelmente colocada abaixo de 100 mil a partir de estudos realizados nos anos 70.

Conclusões

Nota-se que a história do cristianismo, seja católico ou protestante (e seus derivados), foi marcada por episódios de violência representadas tanto em sua condição primitiva, nas cruzadas, inquisição e nos conflitos entre católicos e protestantes que culminaram também na caça às bruxas. Considere também que não destacamos com profundidade os conflitos religiosos que ocorreram no Renascentismo, Iluminismo até os dias atuais.

Na história do catolicismo houve as perseguições, torturas, linchamentos, flagelações, execuções, violência física moral e psicológica em nome de deus.

Fica evidente também que tanto católicos como protestantes travaram uma disputa por fiéis protagonizando os episódios de caça às bruxas. Embora esses episódios certamente não alcancem a cifra de milhões de mortos – como ocorreu mais recentemente na história das guerras mundiais envolvendo nazi-facistas e os regimes soviéticos – ainda assim representa um episódio que precisa ser constantemente relembrado.

Da mesma forma que observamos um revisionismo histórico tendencioso visando diminuir ou menosprezar a violência cometida pelo cristianismo (católico ou protestante) houve revisionismo por parte daqueles que amplificaram os números de forma exacerbada. Um desses casos é a acusação de que durante a caça às bruxas o número de pessoas executadas seria entre 50 e 60 milhões. Evidentemente, este número não parece representar os fatos.

Em termos comparativos, a peste negra, que foi uma das mais devastadoras pandemias na história humana resultou na morte de um número estimado de 75 a 200 milhões de pessoas na Eurasia (Europa e Ásia) – com um pico em Europa a partir de 1347 a 1351. As estimativas mais conservadoras sugerem que os valores demográficos europeus na época da peste negra eram de cerca de 80 milhões de habitantes e cerca de 60% da população morreu acometida pela pandemia. Isso significa que cerca de 50 milhões de pessoas morreram vítimas da peste negra (Benedictow, 2005).

O período de caçada às bruxas não poderia matar tanto quanto a peste negra. As estimativas mais coerentes atualmente indicam que somente durante o período dos julgamentos de bruxas (entre 1550 e 1700) cerca de 80 mil pessoas foram julgadas e um pouco mais da metade foram executadas, ou seja, 43 mil pessoas condenadas pela prática em 21 países europeus foram brutalmente assassinadas. O número de pessoas mortas em cruzadas não é conhecido e algumas pessoas sugerem entre 200 e 300 mil, embora sejam afirmações informais.

Independente dos números, o que menos importa aqui são as quantidades de mortos, mas quais motivações qualitativamente justificaram tais atos. O fato é que tais períodos legitimaram atrocidades vindas de uma frente religiosa cujo código de conduta moral fundamental era “amar o próximo como a ti mesmo” e o reino dos céus é garantido somente aos “pacificadores, mansos e os que tem sede de justiça”. Papas e líderes reformadores declaradamente apoiaram e deram aval para tais práticas.

Pensando em termos teológicos é fatal para o cristianismo o que aconteceu nas cruzadas e nos conflitos da Reforma onde cristãos se aniquilavam em nome de leituras e releituras cristológicas que independente de como se estruturavam acabavam em conflitos.

Aqui, em nossa análise pensamos somente nos elementos que fizeram parte da história cristã após a morte de Jesus Cristo. Se considerarmos os elementos que fazem parte da origem do cristianismo teríamos de incluir o massacre de Canaã, os assassinatos dos seguidores de Moisés que adoraram o bezerro de ouro ou mesmo – para aqueles que fazem uma leitura literal da bíblia – os assassinatos cometidos pelo próprio deus em Somoda e Gomorra e a morte de quase toda humanidade em um diluvio que deixou apenas a família de Noé viva.

Não estamos dizendo que o problema da humanidade é a religião, mas que o problema parece estar centralizado no que o homem faz das suas crenças ao manifestar sua religiosidade, especialmente quando une suas convicções teológicas ao poder centralizado em um líder político. Em todas os episódios de nossa história a imposição de verdades teológicas unidas as verdades político-ideológicas nunca surtiram efeito positivo. Os efeitos negativos sempre foram debitados na conta destes regimes na medida em que religião e o poder político partem de objetivos em comum, o absolutismo.

Neste sentido, relembrar os fatos históricos é fundamental para que o passado possa servir de métrica para ter uma ideia do que pode ser o futuro dependendo das escolhas que fazemos no presente.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Inquisição, Cruzadas, Tribunal do Santo Ofício, Bruxaria, Perseguição religiosa, Intolerância, Tortura, Execução, Reforma, Protestantismo, Contra-Reforma, Igreja Católica.

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