O QUE HÁ DE CIÊNCIA NO CASO DA HIDROXICLOROQUINA.

Muitos pacientes internados em UTIs conseguiram se recuperar de quadros severos quando submetidos à cloroquina ou mesmo sem fazer uso do medicamento. O uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no Brasil ocorreu de forma precoce e irresponsável.

Diante da pandemia causada pelo coronavírus SARS-CoV-2 uma série de medicamentos surgiram como potenciais curas ou atenuadores dos sintomas. Um deles chamou atenção, a cloroquina e sua variante hidroxicloroquina.

Segundo a organização Medicines for Malaria Venture na Suíça, a cloroquina é um derivado do quinino, que químicos franceses isolaram em 1820 da casca da árvore cinchona encontrada na América do Sul, e usaram para tratamento da febre. Posteriormente, em 1934, cientistas alemães criaram a cloroquina sintética como parte de uma classe de medicamentos antimaláricos. A cloroquina e o DDT se tornaram as duas principais armas na campanha global de erradicação da malária da Organização Mundial da Saúde após a II Guerra Mundial.

A hidroxicloroquina é um análogo da cloroquina, o que significa que ambas têm estruturas semelhantes, mas com propriedades químicas e biológicas diferentes. A hidroxicloroquina é considerada um derivado menos tóxico.

Do ponto de vista científico, o uso de cloroquina ou da hidroxicloroquina teria potencial para tratar a infecção pelo coronavírus. Contudo, o medicamento não é considerado seguro e segue desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) uma vez que ainda não se conhece os possíveis riscos dessas substâncias em longo prazo no tratamento da COVID-19. De fato, a Anvisa enquadrou a hidroxicloroquina e cloroquina como medicamentos de controle especial destinada a pacientes específicos e não contempla os acometidos pela COVID-19

Alguns testes preliminares até apresentaram bons resultados contra o coronavírus, mas a eficácia não foi comprovada. A visão popularesca da cloroquina como uma “cura” surgiu a partir de dois gatilhos; o primeiro foi o estudo do cientista Didier Raoult e o segundo pelo presidente Donald Trump.

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que a drogas hidroxicloroquina poderia ter bons resultados contra o coronavírus, com base em um estudo feito na China, pedindo agilidade nos testes para a possível aprovação pela Food and Drugs Administration (FDA). O discurso de Trump, inicialmente, deu a entender que os EUA tinham descoberto uma cura para o novo coronavírus, mas nada foi confirmado definitivamente.

Um estudo da revista Nature sugeriu que tanto a cloroquina quanto o sulfato de hidroxicloroquina bloquearam o transporte dos endossomos iniciais (organelas com várias formas localizadas entre o Complexo de Golgi e a membrana celular) para os endolisossomos. Este processo parece ser o requisito para o vírus liberar o genoma viral na célula saudável, como observado no caso da Síndrome Respiratória Aguda Severa provocada pelo SARS-CoV. Infelizmente, a forma com que Trump fez o pronunciamento apenas induziu as pessoas a comprar o medicamento de farmácia. Ainda não foi comprovada a eficácia ou a dose necessária e segura do medicamento, se outros medicamentos têm funcionalidade mais expressiva e o pronunciamento do presidente norte-americano acabou levando ao esgotamento da cloroquina nas farmácias, dificultando o acesso à medicação para as pessoas que realmente precisam dele (pessoas com malária ou mesmo lúpus).

Embora alguns estudos recentes realizados na China e França tenham indicado resultados promissores para o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina ainda são necessárias pesquisas mais abrangentes para confirmar a verdadeira eficácia e principalmente a segurança para a população.

Este tipo de discussão surge também porque os experimentos convencionais para testar medicamentos não tem o tempo como um fator limitante. Qualquer medicamento antes de ser disponibilizado para venda popular passa anos sendo testado sob diversas etapas que vão desde o uso in vitro nas placas de petri, modelos animais, testes clínicos, visando determinar as dosagens corretas, acerto de formulações, descrever possíveis efeitos colaterais, grupos de risco e assim por diante. Tudo isto para evitar o que ocorreu com a talidomida na década de 50 – agente teratogênico que em mulheres grávidas levou a má formação dos membros do feto. Por esta razão as amostragens são bastante altas, ou seja, experimento feito ao longo de anos com milhares de pessoas.

Em um contexto de pandemia as amostragens são baixas, pois há necessidade de se salvar vidas. Os pesquisadores não testam milhares de pessoas pela questão do tempo disponível e a urgência de atuação. Assim, o nível de fidelidade dos resultados pode não ser ter alto quando os experimentos convencionais.

Este é o caso da cloroquina e da hidroxicloroquina que foi muito testada e cientificamente aprovada para casos de malária, lúpus e artrite, mas apenas para estes casos. Apesar de ser um medicamento comercializado no mercado, é usado no tratamento dessas doenças e, por isso, precisaria ser amplamente testado em humanos para avaliar sua eficácia contra a COVID-19 e seus eventuais riscos a saúde dos pacientes. Não faz sentido presumir que um medicamento que foi testado e aprovado para uma doença seja a cura de outra – especialmente se os efeitos colaterais forem severos.

Existem alguns estudos com resultados positivos, mas ocorrem em uma etapa inicial do processo de experimentação de um potencial medicamento e com um espaço amostral baixo que não confere confiança para seu uso. De fato, até o momento, os melhores resultados contra o novo coronavírus foram obtidos em cultura de células – o primeiro degrau de um longo processo para se desenvolver um medicamento. Há pelo menos outras três etapas: testes em camundongos, estudos em animais não-roedores (como cães e macacos) e, por fim, testes em humanos.

Por exemplo, um estudo realizado in vitro na China demonstrou que a cloroquina e a hidroxicloroquina conseguem impedir a entrada do novo coronavírus nas células, assim como inibir seu transporte entre as organelas celulares, reduzindo a capacidade do vírus de se multiplicar. Este é o primeiro passo, mas um resultado positivo in vitro não diz quase nada sobre ser eficaz em humanos. Ele apenas sinaliza que mais testes precisam ser feitos.

Da mesma forma, outro estudo desenvolvido na França, indicou que a hidroxicloroquina parece ser capaz de reduzir a carga viral em pessoas infectadas e se for associada à azitromicina, poderia levar a resultados ainda mais promissores. Este último é o estudo conduzido pelo professor Didier Raoult. Porém, as amostras obtidas foram um fator limitante da pesquisa. As amostras de pacientes utilizadas nesses estudos foram muito reduzidas e nem todos os pacientes obtiveram resultados positivos com o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina. Mesmo os estudos chineses que apontaram um resultado positivo para a cloroquina insistiram na necessidade de mais testes e com um número maior de pacientes, para poder fazer qualquer afirmação relevante sobre esse medicamento no caso do coronavírus.

No estudo de Didier, 6 pacientes estudados eram assintomáticos, 22 apresentavam sintomas de infecção do trato respiratório superior e 8 apresentavam sintomas de infecção do trato respiratório inferior.

Vinte casos foram tratados neste estudo e mostraram uma redução significativa do transporte viral. A azitromicina associada à hidroxicloroquina foi significativamente mais eficiente na eliminação do vírus. Apesar de seu pequeno tamanho amostral, a pesquisa indicou que o tratamento com hidroxicloroquina estava significativamente associado à redução e até desaparecimento da carga viral em pacientes com COVID-19 e seu efeito é reforçado pela presença da azitromicina.

O estudo foi duramente criticado porque apresentou indícios de manipulação, uma vez que em condições normais, não seria aceito por nenhuma revista científica. Primeiramente devido ao baixo número de pacientes envolvidos. Vinte e seis pessoas receberam a hidroxicloroquina em Marselha e 16 no grupo de controle em duas outras cidades francesas.

Dos 26 pacientes que receberam a medicação, seis acabaram abandonando a pesquisa; um porque morreu; três porque foram entubados, outro por deixar o hospital e um por ter náuseas. Nenhum deles foi incluído no resultado final, pois a pesquisa pressupunha testar todos os dias os pacientes para medir a carga viral.

Segundo o jornal Le Monde, no mesmo dia da publicação do artigo (20 de março) Phillipe Ravaud, diretor do Centro de Pesquisas Epidemiológicas e Estatística Sorbonne Paris Cité, pediu os dados brutos da pesquisa, mas não os recebeu. No dia 23, Karine Lacombe, professora e infectologista do departamento de doenças tropicais infecciosa do Hospital Saint-Antoine, em Paris, ficou assustada com o conteúdo do artigo, classificando-o como absolutamente questionável do ponto de vista científico e por expor para as pessoas à falsa esperança de cura para uma doença que se sabe que, em 80,9% dos casos, as pessoas se curam em alguns dias.

O estudo de Didier Raoult apresenta uma série de falhas e gerou muitas críticas. Em entrevista o médico cardiologista Luis Correia, professor adjunto da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública disse que “A qualidade metodológica é tão ruim que ele não pode nem ser usado como referência”.

Natalia Pasternak, diretora do Instituto Questão Ciência ressaltou que além da amostra ser pequena, de apenas 36 pacientes, Didier deixou de seguir uma série de critérios estatísticos importantes de uma pesquisa científica. A amostragem utilizada no estudo não é randomizada. Isto quer dizer que os pacientes não foram escolhidos aleatoriamente e, portanto, não há confiança alguma de que não há um viés de confirmação.

Um estudo clínico randomizado controlado serve para estudar, por exemplo, o nível de toxicidade do medicamento, ou se interage com outros medicamentos e descrever possíveis efeitos colaterais. O estudo randomizado controlado é um procedimento preferencial nos experimentos terapêuticos e é chamado randomizado porque os grupos utilizados no experimento têm seus integrantes escolhidos de forma aleatória. O termo “controlado” diz respeito a determinadas variáveis que são controladas, buscando-se identificar a relação entre variáveis.

Outra forma de pesquisa é realizar um ensaio clínico multicêntrico, quando o estudo é realizado de acordo com um único protocolo, em mais de um centro de ensaio e em mais do que um país.

Talvez a modalidade mais comum de pesquisa seja o duplo-cego, um método de ensaio clínico realizado em seres humanos onde nem o examinado (objeto de estudo) nem o examinador sabem o que está sendo utilizado como variável em um dado momento. É comumente usado como critério de validação de práticas experimentais quantitativas em ciência. Um exemplo: quando queremos testar a eficácia de um medicamento em uma determinada doença. O pesquisador contrata médicos examinadores que irão entregar a pacientes voluntários que apresentam esta doença uma cápsula que pode ou não conter medicamento. Assim o pesquisador consegue excluir o efeito placebo existente em um medicamento inerte e validar um medicamento que realmente faça efeito.

No caso do estudo de Didier o espaço amostral e a randomização foram as principais críticas, além de ignorar os mortos, dos que foram para a UTI e dos abandonaram o tratamento justamente devido os efeitos colaterais muito fortes.

Em contrapartida, um estudo recente realizado pelo Journal of Zhejiang University na China com 30 pacientes que metodologicamente seguiu a randomização foi noticiado pela agência Bloomberg. Ele mostrou que não havia diferença entre o tratamento convencional para pacientes com COVID-19 e aqueles que foram submetidos à hidroxicloroquina.

O estudo envolveu apenas 30 pacientes. Dos 15 pacientes que receberam o medicamento, 13 apresentaram resultado negativo para o coronavírus após uma semana de tratamento. Dos 15 pacientes que não receberam hidroxicloroquina, 14 apresentaram resultado negativo para o vírus. Ou seja, o resultado com ou sem cloroquina foi quase idêntico, com uma ligeira melhora para os que não fizeram uso do medicamento.

Um paciente tratado com hidroxicloroquina evoluiu para doença grave durante o estudo. Quatro pacientes que receberam o medicamento apresentaram diarreia e sinais de possíveis danos ao fígado, em comparação com três recebendo tratamento convencional.

O estudo sinaliza para a necessidade de mais estudos com tamanho amostral maior para investigar os efeitos da droga no tratamento. O estudo até sugere a cloroquina como um potencial medicamento, mas sinaliza que pesquisas subsequentes devem determinar um melhor desfecho e considerar completamente a viabilidade de experimentos como o tamanho da amostra.

Além dos problemas neste estudo de Didier, em 2006, o pesquisador e quatro outros co-autores foram proibidos por um ano de publicar nas revistas da American Society for Microbiology (ASM) depois que um revisor da Infection and Immunity descobriu que ilustrações utilizadas em um artigo haviam sido alteradas, além de utilizar imagens idênticas em experimentos diferentes. Em resposta, Didier renunciou ao conselho editorial de dois outros periódicos da ASM. Além de cancelar sua participação proibiu seu laboratório de enviar pesquisas para as revistas da ASM. Didier coleciona não apenas má conduta acadêmica como também esteve envolvido em escândalos da vida pessoal, em assédio moral.

O grande problema no caso da cloroquina é que embora haja artigos publicados que eventualmente indiquem um potencial terapêutico para a COVID-19, ressaltam também a baixa amostragem, a necessidade de mais pesquisa e os efeitos colaterais adversos. Por exemplo, o CDC citou um estudo documentado na revista Bioscience Trends, em que o fosfato de cloroquina demonstrou “aparente eficácia e segurança aceitável contra pneumonia associada ao COVID-19” em ensaios na China. No estudo, a cloroquina parece ter apresentado “propriedades antivirais de amplo espectro”, ou seja, válida para vários vírus e efeitos na resposta imune. Dados de pesquisa clínica pré-clínica e em evolução inicial realizados na China ainda são limitados, embora mostrem potencial para o uso de Resochin, um composto a base de cloroquina que em tratamento de pacientes com infecção por COVID-19 surgiu algum efeito positivo.

Quanto a combinação de hidroxicloroquina e o antibiótico azitromicina defendida por Trump o CDC ressaltou que o medicamento pode interromper a atividade elétrica do coração e alertou contra a prescrição dos medicamentos para pacientes ou qualquer pessoa que apresente condições médicas crônicas, como insuficiência renal ou doença hepática.

Em um estudo ainda de 2004 os resultados mostram que a cloroquina inibia a replicação do SARS (SARS-CoV). Como fatores imunopatológicos podem desempenhar um papel significativo na SARS, o estudo indicou que seria interessante estudar mais o potencial da cloroquina em termos de modulação das respostas inflamatórias em infecções por este vírus.

No estudo, a cloroquina foi administrada de modo preventivo na dose de 300 mg por semana para pessoas que viajam para locais onde a malária é endêmica. A ideia era que se a SARS ressurgisse, a cloroquina poderia então ser de grande importância como medicamento profilático para pessoas que vivem viajando para áreas afetadas. A cloroquina, por ser bastante disponível, de baixo custo e fácil de administrar seria uma estratégia.

Em outro estudo mais recente, foi considerado seu uso no tratamento para o SARS-CoV-2 se respaldando em outros estudos em que o fosfato de cloroquina teve uma ampla gama de efeitos antivirais. Neste caso, recomendaram o uso para tratar os pacientes diagnosticados como SARS-CoV-2 visando não uma cura e sim melhorar a recuperação do paciente, diminuindo o tempo de internação.

Em outros estudos a rejeição ao medicamento é categórica. Um estudo recente da China em indivíduos com COVID-19 não encontrou diferença na taxa de depuração virológica em 7 dias com ou em 5 dias sem a hidroxicloroquina e nenhuma diferença nos resultados clínicos (duração da hospitalização, normalização da temperatura, progressão radiológica).

Os resultados são consistentes com a falta de benefício virológico ou clínico da cloroquina em várias infecções virais, onde foi avaliado tanto tratamento quanto a profilaxia, às vezes com um efeito deletério na replicação viral (veja mais aquiaquiaquiaqui).

Em síntese, apesar de uma atividade antiviral relatada da cloroquina contra COVID-19 in vitro, não foram encontradas evidências de forte atividade antiviral ou benefício clínico algum da combinação de hidroxicloroquina e azitromicina no tratamento dos pacientes hospitalizados com COVID-19 grave. Evidentemente, mais ensaios clínicos randomizados em andamento com hidroxicloroquina devem fornecer uma resposta definitiva sobre a alegada eficácia dessa combinação e sua segurança.

Em outro estudo de 2020 foi indicado que a cloroquina mostra antagonismo contra COVID-19 in vitro. No entanto, as evidências sobre seus efeitos nos pacientes são limitadas. Exigindo maior amostragem e claro, ser revisado por pares.

No hospital francês Pitié-Salpêtrière o uso da hidroxicloroquina não mostrou resultados animadores. Apesar do uso insistente do medicamento, Éric Caumes, chefe de doenças infecciosas do hospital de Paris, em entrevista à rede BFM TV destacou que havia esperança de alta eficácia, mas o constatado foi o oposto.

A Mayo Clinic, uma organização sem fins lucrativos nos EUA afirmou que a hidroxicloroquina bloqueia um dos canais que controlam os sistemas de recarga elétrica do coração. Desta forma, tal interferência aumenta a possibilidade de o ritmo cardíaco degenerar em batimentos cardíacos erráticos perigosos, resultando em morte cardíaca súbita.

O médico Émile Ferrari disse ainda que a hidroxicloroquina administrada juntamente com o antibiótico azitromicina, com o qual está sendo prescrito em combinação para o tratamento de coronavírus, potencializa o risco. Para o médico, o tratamento com esses medicamentos pode ser mais prejudicial que a própria doença.

Em uma entrevista ao jornal diário francês Nice-Matin, o professor Émile Ferrari, chefe do departamento de cardiologia do hospital Pasteur, em Nice, disse que devido aos efeitos colaterais alguns pacientes interromperam o tratamento por causa do risco de morte. Segundo o médico, as gravações de eletrocardiograma dos pacientes envolvidos no estudo foram monitoradas constantemente. Perguntado se havia alguma constatação havia sido feita, o doutor revelou que “Sim, desde o início do teste. Graças a esse acompanhamento do ECG, destacamos os principais riscos de um acidente muito grave em um paciente e o tratamento foi imediatamente interrompido”.

Outro detalhe importante quanto ao uso da cloroquina refere-se à automedicação. A cloroquina é um medicamento utilizado para tratar malária há mais de 70 anos. Porém, em 1970, observou-se resistência ao medicamento. Por isso, hoje ela é usada para somente um tipo de malária, causada pelo Plasmodium vivax, mais comum no Brasil.

Segundo Claudio Marinho, imunologista do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo), um dos efeitos do remédio é modificar o pH de vesículas que estão no interior das células. Isso prejudica a produção de partículas virais. Assim, ele acaba não se reproduzindo e a infecção é controlada. Por esta razão, o disfosfato de cloroquina não é vendido nas drogarias. É um medicamento controlado pelo Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária. Isto ocorre porque o outro parasita da malária já se tornou resistente à droga devido o uso abusivo, por esta razão é preciso dosar seu consumo, explica Claudio Tadeu Daniel-Ribeiro, pesquisador e Chefe de Laboratório de Pesquisa em Malária do IOC (Instituto Oswaldo Cruz-FioCruz).

A prática da automedicação é recorrente entre os brasileiros e perigosa. Ela é desaconselhada independentemente da situação, pois pode trazer graves consequências para a saúde e colocar a vida em risco. Bastou Trump ou mesmo Bolsonaro anunciar falsamente a cloroquina como “cura” que rapidamente as pessoas correram as drogaria e compraram o medicamento, prejudicando aqueles que realmente precisam dela.

A consequência deste uso indiscriminado são os efeitos colaterais da cloroquina que incluem sintomas gastrointestinais (náusea, vômito e diarreia), surdez, lesões de retina, alterações da visão (e até cegueira) e da pressão arterial baixa, arritmia cardíaca, hipoglicemia, efeitos neuropsiquiátricos (agitação, confusão, alucinações e paranoia), interações com outros medicamentos, variabilidade metabólica (algumas pessoas metabolizam mal a cloroquina e a hidroxicloroquina e uma pequena porcentagem as metaboliza rapidamente, o que afeta a resposta ao tratamento), sobredosagem (a cloroquina e a hidroxicloroquina são altamente tóxicas na sobredosagem e podem causar convulsões, coma e parada cardíaca), o problema da escassez de medicamentos para quem realmente precisa (Neuroscience news, 2020), hepatite medicamentosa, as alterações hematológicas como anemia, queda das plaquetas.

O médico Júlio César Antunes de Oliveira, 39 anos, que contraiu a COVID-19 utilizou a cloroquina e relatou que sentiu em seu corpo os efeitos colaterais do medicamento. Em seu relato ele destacada que seguiu o protocolo de hidroxicloroquina com azitromicina, e sentiu dores oculares, náusea, diarreia, desidratação e perda de apetite.

Seu tratamento seguiu cinco dias de azitromicina e cinco dias de hidroxicloroquina e o médico relatou que não saberia se um idoso toleraria essa medicação, fazendo uso em casa, sem estar monitorado, sem receber hidratação venosa. Passou por um processo de desnutrição, perdendo peso, força e massa muscular.​

Dentre os mais perigosos efeitos colaterais apresentados pela hidroxicloroquina registrados pelos estudos clínicos estão às arritmias cardíacas, a hepatite medicamentosa, as lesões de retina e as alterações hematológicas e cardíacas.

Dessa forma, não devem ser utilizadas como forma de tratar ou prevenir a infecção pelo novo coronavírus porque não oferecem segurança alguma e podem até piorar os sintomas do paciente. Por esta razão, vários países desistiram de seu uso ou utiliza o medicamento somente em casos específicos e/ou de modo restrito.

Médicos da Suécia decidiram desistir do protocolo clínico com o medicamento por conta dos efeitos adversos. Houve a constatação de que pessoas que tomaram a cloroquina relataram dores de cabeça muito fortes, perda de visão periférica e cólicas dias depois de começarem com a medicação. A estatística de que 1% dos pacientes pode sofrer com arritmia também foi considerada na tomada de decisão. Os relatórios indicaram mais efeitos colaterais do que pressupunham no começo do tratamento. Não podendo ignorá-los, principalmente os que afetam o coração, tomaram tal decisão. Além disso, a falta de evidências científicas fez o médico Magnus Gisslen, tomar a decisão.

Mais de 20 ensaios estão sendo realizados nos EUA, Reino Unido, Espanha e China. O ministro do Gabinete, Michael Gove, informou que o Reino Unido está realizando testes clínicos rápidos com antimaláricos para avaliar se eles são capazes de reduzir o impacto do COVID-19 nas pessoas afetadas. O FDA, encarregado de licenciar medicamentos nos Estados Unidos, concedeu autorização de “uso de emergência” para esses medicamentos no tratamento do COVID -19 para um número limitado de casos hospitalizados. Contudo, a FDA não afirma que os medicamentos definitivamente funcionam. Isso significa que, em circunstâncias específicas, os hospitais podem solicitar e usar os medicamentos dos estoques do governo para uso no tratamento COVID-19 e acompanhar caso a caso.

A França autorizou médicos a prescrever alguns medicamentos para pacientes, mas o órgão de vigilância médica do país alertou para os efeitos colaterais.

Na Índia, o Ministério da Saúde recomendou o uso da hidroxicloroquina como prevenção apenas para os profissionais de saúde ou para as famílias em contato com casos confirmados apenas se tiverem receita médica. A Índia é um grande produtor do medicamento e impôs uma forte proibição de exportação. O órgão de pesquisa do governo indiano alertou contra o uso irrestrito do medicamento que era classificado como “experimental” e deveria ser utilizado apenas em situações de emergência.

Vários países do Oriente Médio autorizaram o uso ou estão testando a eficácia da cloroquina. Isso inclui o Bahrein, um dos primeiros países a usar hidroxicloroquina em pacientes com coronavírus, Marrocos, Argélia e Tunísia. A Jordânia proibiu a venda em farmácias para evitar que as pessoas estocassem e retirassem de circulação para quem realmente precisa. No Kuwait o Ministério da Saúde retirou todos os medicamentos das farmácias particulares e limitou-o aos hospitais e centros de saúde. No Quênia a venda foi proibida sem receita, e agora está disponível somente mediante receita médica (BBC, 2020).

Lagos, a maior cidade da Nigéria foi relatada três overdoses causadas pelo uso da cloroquina. No Arizona, um homem morreu após administrar em si mesmo uma forma não médica de cloroquina usada para combater parasitas em aquários. Nos EUA, um homem morreu e sua mulher foi internada em estado grave após ingerirem cloroquina como método de “prevenção”.

Um estudo feito pela Fiocruz indica que não há evidências suficientes para garantir que a cloroquina faz diferença nos tratamentos. Segundo o estudo publicado pela Fiocruz e a Fundação de Medicina Tropical, a letalidade em pacientes graves que foram submetidos a administração de cloroquina foi de 13%. Onze pacientes morreram em um grupo de 81 testados positivos para COVID-19. De acordo com pesquisas internacionais, a taxa de mortalidade de infectados pelo novo coronavírus em situações semelhantes, mas que não usaram a cloroquina é de 18%.

Mesmo que a mortalidade da cloroquina pareça menor, o estudo brasileiro ainda é preliminar e precisa ser expandido para conclusão mais definitiva. “Estatisticamente, é igual, na margem de confiança”, disse o infectologista Marcus Lacerda, da Fiocruz, à Folha de S.Paulo. A única descoberta concreta até o momento é sobre a quantidade de cloroquina que se mostra tóxica para o paciente. Aqueles que receberam doses de 10g apresentaram reações indesejadas, como arritmia e outras complicações graves. Já os participantes que foram medicados com 5g não tiveram os mesmos efeitos colaterais.

Apesar de ser preliminar, médicos de doenças infecciosas e especialistas em segurança de medicamentos disseram que o estudo forneceu mais evidências de que a cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar danos significativos a alguns pacientes, especificamente o risco de arritmia cardíaca fatal. Os pacientes do estudo também receberam o antibiótico azitromicina, que apresenta o mesmo risco cardíaco.

Aproximadamente metade dos participantes do estudo recebeu uma dose de 450 miligramas de cloroquina duas vezes ao dia por cinco dias, enquanto o restante recebeu uma dose maior de 600 miligramas por 10 dias. Dentro de três dias, os pesquisadores começaram a perceber arritmias cardíacas em pacientes que tomavam a dose mais alta. No sexto dia de tratamento, os 11 pacientes haviam morrido, levando ao fim imediato do segmento de altas doses do estudo.

Vários ensaios clínicos para cloroquina e hidroxicloroquina estão testando doses baixas por períodos mais curtos em pacientes com coronavírus. Mas a Comissão de Saúde da província de Guangdong, na China, recomendou inicialmente que os doentes do vírus fossem tratados com 500 miligramas de cloroquina duas vezes ao dia, durante 10 dias. O Dr. Marcus Lacerda, informou que “a alta dose que os chineses estavam usando é muito tóxica e mata mais pacientes”. Essa é a razão pela qual este ramo do estudo foi interrompido mais cedo.

A cardiologista Ludhmila Abrahão Hajjar, que é diretora de ciência e tecnologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia e participou deste estudo criticou o exagerado otimismo criado em cima da cloroquina.

Ludhmila integra um grupo de pesquisa que tem avaliado a eficácia e a segurança da cloroquina e ressaltou que boa parte do otimismo com a cloroquina vem de um grupo de pesquisa da França liderado por Didier Raoult, cujos dados são cientificamente frágeis. Até 40% dos pacientes infectados pela COVID-19 têm algum tipo de injúria ao sistema cardiovascular.

Uma publicação recente no Science Magazine revelou que a OMS anunciou um grande estudo global, chamado Solidarity, cujo objetivo é descobrir qual o melhor método e medicamento para tratar a COVID-19. A ideia é que em vez de criar compostos do zero os cientistas e que agências de saúde pública busquem redirecionar medicamentos já aprovados para outras doenças e conhecidos por serem amplamente seguros. Eles analisam também se medicamentos não aprovados que tiveram bom desempenho em estudos com animais e/ou com os outros dois coronavírus mortais, como os que causam a síndrome respiratória aguda grave (SARS) e síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS) poderiam ser adaptados à nova situação.

Os cientistas sugeriram dezenas de compostos para testes, mas a OMS está se concentrando em quatro principais terapias que se mostraram mais promissoras: o composto antiviral experimental remdesivir; a hidroxicloroquina; um protocolo que é uma combinação de dois medicamentos para o HIV, lopinavir e ritonavir; e essa mesma combinação associada ao uso de interferon-β, um mensageiro molecular do sistema imunológico que pode ajudar a neutralizar os vírus.

O remdesivir foi desenvolvido pela Gilead Sciences para combater o Ebola e vírus relacionados. Este medicamento inativa a replicação viral inibindo uma enzima viral chave, a RNA polimerase dependente de RNA.

A enzima que ela visa é semelhante em outros vírus, e em 2017 pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, mostraram em tubo de ensaio e estudos em animais que a droga  pode inibir os coronavírus que causam SARS e MERS.

O primeiro paciente com COVID-19 diagnosticado nos Estados Unidos (um jovem no condado de Snohomish, em Washington) recebeu este medicamento quando sua condição piorou. Ele melhorou no dia seguinte, de acordo com um  relato de caso no The New England Journal of Medicine (NEJM). Outro paciente, da Califórnia, que também recebeu remdesivir e se recuperou também.

Tais evidências de casos individuais não provam que um medicamento é seguro ou mesmo eficaz, mas exige experimentação e maior averiguação. O remdesivir tem o melhor potencial para ser usado em clínicas até agora, segundo Jiang Shibo, da Universidade de Fudan, que trabalha há muito tempo na terapêutica com coronavírus.

O medicamento pode ser muito mais potente se administrado no início de uma infecção, como a maioria dos outros medicamentos, diz Stanley Perlman, pesquisador de coronavírus da Universidade de Iowa.

No caso da cloroquina, a Science Magazine pontuou diversos estudos desanimadores, inclusive o de Didier.

A principal porta de entrada para o SARS-CoV-2 é usando a proteína Spike, que se conecta a um receptor na superfície das células humanas chamadas ACE2. Estudos em cultura de células sugeriram que a cloroquina possui alguma atividade contra a SARS-CoV-2, mas como vimos, as doses necessárias podem ser altas e, portanto, podem causar problemas de saúde devido a sua alta toxicidade.  Quando resultados de estudos celulares com a cloroquina contra outras duas doenças virais (dengue e chikungunya) não foram animadores em ensaios clínicos randomizados, tentaram em primatas não-humanos infectados com chikungunya e se saíram ainda pior quando receberam cloroquina. Então, os pesquisadores experimentaram esta droga em diversos vírus e não funcionou em humanos. A constatação foi de que a dose necessária para ter algum efeito era muito alta, segundo informou Susanne Herold, especialista em infecções pulmonares na Universidade de Giessen.

A Science Magazine ressaltou o estudo de pesquisadores chineses que trataram mais de 100 pacientes com cloroquina  e divulgaram seus benefícios em uma carta da  BioScience – mas os dados não foram publicados. No total, mais de 20 estudos com COVID-19 na China usaram cloroquina ou hidroxicloroquina, mas seus resultados têm sido limitados ou difíceis de se sustentar. Além disto, a cloroquina pode interagir com medicamentos geralmente administrados a pacientes graves, e os médicos alertaram que pode causar danos significativos ao fígado (hepatite medicamentosa).

Então, o outro protocolo científico a ser testado foi a combinação entre ritonavir e lopinavir. Estes medicamentos combinados, foram aprovados nos Estados Unidos em 2000 para tratar infecções por HIV. Os Laboratórios Abbott desenvolveram lopinavir especificamente para inibir a protease do HIV, uma enzima importante que quebra uma longa cadeia de proteínas em peptídeos durante a montagem de novos vírus. Como o lopinavir é rapidamente decomposto no corpo humano por nossas próprias proteases, é administrado com baixos níveis de ritonavir, outro inibidor da protease, que permite que o lopinavir persista por mais tempo.

A combinação também pode inibir a protease de outros vírus, especificamente os coronavírus. Ele mostrou  eficácia em saguis infectados com o vírus MERS, e também foi testado em pacientes com SARS e MERS, embora os resultados desses ensaios sejam ambíguos.

O primeiro estudo com COVID-19 não foi encorajador. Médicos em Wuhan, China, deram a 199 pacientes duas pílulas de lopinavir e ritonavir duas vezes ao dia, além de tratamento padrão ou apenas tratamento padrão. Não houve diferença significativa entre os grupos conforme relataram na revista NEJM  em 15 de março. Os autores do estudo ainda alertam que os pacientes estavam muito doentes – mais de 1/5 deles morreu e, portanto, o tratamento pode ter sido dado tarde demais para ajudar.

O último protocolo era combinar os dois antivirais com o interferon-β, uma molécula envolvida na regulação da inflamação no corpo que mostrou efeito em modelo animal, utilizando saguis infectados com MERS. Uma combinação dos três medicamentos está sendo testada em pacientes com MERS na Arábia Saudita  no primeiro estudo controlado randomizado para essa doença. O uso de interferon-β em pacientes com COVID-19 grave pode ser arriscado, pois pode facilmente levar a danos teciduais, em vez de ajudar os pacientes.

O Brasil, uma pesquisa da Fiocruz constatou que o medicamento Atazanavir, utilizado no tratamento do HIV, foi capaz de inibir a replicação viral, além de reduzir a produção de proteínas que estão ligadas ao processo inflamatório nos pulmões e, portanto, ao agravamento do quadro clínico da doença. Os especialistas também investigaram o uso combinado do atazanavir com o ritonavir, ambos utilizados para combater o HIV.

Considerando que trabalhos científicos anteriores já haviam apontado à protease viral ‘Mpro’ – uma enzima responsável por permitir que as proteínas do vírus sejam fabricadas corretamente – como um alvo central na busca de medicamentos para o novo coronavírus, os pesquisadores passaram a olhar para o potencial de uso do atazanavir.

Além de possuir ação sobre a Mpro, também existiam indícios da atuação da medicação sobre o trato respiratório, o que chamou a atenção dos cientistas na fase de seleção das substâncias a serem investigada. Também foram realizados experimentos comparativos com a cloroquina, que vem sendo incluída em diversos estudos clínicos. Neste caso os resultados obtidos apenas com o atazanavir e em associação com o ritonavir foram melhores que os observados com a cloroquina. Ainda são necessários mais estudos para este medicamento também.

Recentemente o Ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Marcos Pontes sugeriu a nitazoxanida, princípio ativo do vermífugo Annita, como possível cura a COVID-19. A droga supostamente se mostrou menos efetiva e mais tóxica do que outras usadas para o tratamento. Marcos Pontes sugeriu que in vitro, a droga demonstrou ter 93,4% de eficácia em combater a infecção causada pelo novo coronavírus Sars-Cov-2. Não encontramos o estudo in vitro que sugeriu este percentual de eficácia.

A ideia de usar a nitazoxanida no combate ao coronavirus já foi sugerida anteriormente em um estudo de 2016. Por ser um agente antiviral de amplo espectro em desenvolvimento clínico para tratamento da gripe e outras infecções respiratórias virais foi uma sugestão para coronaviroses. A nitazoxanida exibiu atividade in vitro contra o coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV) e outros coronavírus. Mas como já ressaltado, in vitro é somente a primeira etapa do processo. O artigo ainda sugere que pesquisas futuras devem incluir  modelos animais de infecção por MERS-CoV, ensaios clínicos, incluindo ensaios de variação de dose e avaliação da terapia combinada com outros potenciais antivirais de MERS-CoV.

Diante de tudo que foi abordado aqui concluímos que a cloroquina faz parte do elenco de potenciais drogas para tratamento da COVID-19, mas não há indicações diretas comprovadas e publicadas de seu potencial.

Existe um protocolo médico em casos graves de COVID-19, com uso de respiradores e o controle da atividade pulmonar. Muitos pacientes internados em UTIs conseguiram se recuperar quando submetidos a esses procedimentos assim como pacientes que foram submetidos à cloroquina também saíram de quadros mais severos. Assim, sua eficácia é bastante duvidosa.

No Brasil e no mundo milhares de medicamentos estão sendo testados contra a COVID-19 e de longe a cloroquina e seus derivados não são a melhor solução no momento. O que tem sido demonstrado é muito mais popularidade do que cientificidade. Mensagens espalhadas via Whats app circularam dizendo que a combinação hidroxicloroquina com azitromicina apresentariam 100% de cura no HCor, que as desmentiu. Essas publicações falsas apenas contribuem para desinformação e colocar em risco a vida de pessoas. Buscamos aqui contribuir para informar sobre o status em que se encontra a cloroquina e a hidroxicloroquina na ciência e outras eventuais drogas potenciais.

A liberação da cloroquina e da hidroxicloroquina no Brasil aconteceu de forma precoce e irresponsável, devido à falta de evidências científicas concretas. Alguns estudos e alguns casos os médicos tem utilizado em pacientes graves, com alguma comorbidade (diabetes e cardiopatias), e que podem sofrer efeitos adversos significativos. O que claramente é perigoso.

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Quando o dedo podre do design inteligente toca no assunto.

Diante de toda repercussão da cloroquina o químico Marcos Eberlin, publicou um documento junto com mais 30 cientistas em defesa do uso da hidroxicloroquina em pacientes não-graves com COVID-19. Marcos Eberlin é conhecido porque preside o grupo que defende a pseudociência do criacionismo/design inteligente no Brasil.

O documento foi divulgado em um site de apoiadores do presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, e elenca supostos argumentos em favor do uso da hidroxicloroquina associada à azitromicina.

  1. A cloroquina já é usada há décadas, conhecemos as dosagens, as suas contraindicações.
  2. Africanos a tomam todos os dias, e missionários na África são aconselhados a tomar doses diárias. Muitas vidas na África talvez sejam salvas por essa “feliz coincidência”.
  3. Não há relatos científicos de muitas mortes ou sérios efeitos colaterais pelo uso da HCT.
  4. Vários estudos fervilham no Brasil e no mundo mostrando sua eficácia.
  5. Um dos maiores especialistas em epidemias no Brasil, entre eles um pesquisador sênior e altamente produtivo e respeitado, o Dr. Paolo Zanotto, aconselha fortemente seu uso.
  6. O pior efeito colateral é a morte, e este efeito colateral ronda milhares no Brasil pelo não uso da HCQ+ AZT!
  7. Vários médicos têm feito uso próprio da HCQ + AZT, em casos “brandos”, inclusive o coordenador da equipe de Governador Dória em SP, o Dr. David Uip. Por que para ele pode, e para o povo, não pode? Um amigo meu, biólogo e cientista, consultou seu médico, tomou e sarou, em poucos dias.

E como argumento contra o uso da cloroquina Eberlin argumentou:

-A falta de consenso científico.

 Consenso, não raro, diz respeito a políticos. Mas como afirma Richard Feynman, um dos maiores físicos e filósofos da atualidade: “A ciência é a cultura da dúvida”.

Quanto a primeira e segunda alegação, referem-se ao uso contra a malária, portanto, a dosagem e contraindicações foram estabelecidas em critérios diferentes para outra doença. E mesmo pessoas que tomaram cloroquina como método profilático também desenvolveram problemas de saúde. No Brasil temos o caso da jornalista Mariele Previdi Pedroso que teve contato com a cloroquina em 2002, tomando o medicamento como forma de prevenção a malária antes de viajar para Camarões, na África Central. A profissional perdeu cerca de 60% da audição do ouvido esquerdo e 40% do direito. Por ter sido causada por dano neurológico, o quadro é irreversível. Atualmente, ela precisa usar aparelhos auditivos que custam cerca de R$ 14 mil cada.

Se a dosagem contra o coronavírus for maior pode comprometer a saúde do paciente, ainda mais idosos. É irresponsável aplicar dosagem de medicamentos de uma doença em outra. As evidências científicas claramente têm corrido no sentido aposto ao caráter milagroso que tem sido alegado ao medicamento.

Quanto a terceira e quarta alegações, existem diversos relatos e estudos que indicam diversos efeitos colaterais, sejam estudos brasileiros ou não. Há estudos no Brasil apontando para os diversos efeitos colaterais piores do que a própria doença.

A cardiologista e intensivista Ludhmila Abrahão Hajjar, 42, diretora de ciência e tecnologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia, diz que está havendo um otimismo exagerado em relação à cloroquina, que há riscos cardíacos no uso da droga e que jamais a adotaria para casos leves.

Hajjar também integra um grupo de pesquisadores que tem estudado a eficácia e a segurança da cloroquina. Com os dados ainda preliminares de uma pesquisa em Manaus (AM) as altas doses da substância indicaram aumento a taxa de letalidade em pacientes graves internados. Ela cita ainda que grande parte desse otimismo com o medicamento vem de um único grupo de pesquisa da França, mas os dados são cientificamente fracos – refere-se ao estudo de Didier. Ela ressalta ainda que até 40% dos pacientes infectados pela COVID-19 têm algum tipo de injúria ao sistema cardiovascular e um dos principais efeitos colaterais da cloroquina é justamente a arritmia cardíaca que pode prejudicar ainda mais a saúde do paciente. É irresponsável ignorar os efeitos adversos e os artigos que correm na contramão. Quando se faz ciência, não adianta apenas ler o que esta de acordo com o que acreditamos ou com o que nos conforta, mas com as evidências e o que elas dizem.

Na quinta alegação é falso que dr. Zanotto aconselha fortemente o uso. Zanotto indica que para uma situação bastante específica, ou seja, protocolo precoce, para pessoas no 2º dia de infecção a cloroquina poderia ser utilizada. Ele não aconselha em momento algum o uso indiscriminado ou sem prescrição médica, como podemos ver no vídeo abaixo:

Além disto, Paolo não comenta nada sobre grupos de risco. Será que o uso precoce em pessoas com cardiopatias deve ser recomendado?

Referente ao sexta argumento, é falacioso presumir que o único efeito colateral é a morte, pois muitos efeitos colaterais do uso descontrolado ou irresponsável da cloroquina também podem levar a morte. Lembrando que este é um apelo irresponsável na medida em que 80,9% dos casos de COVID-19 são brandos e a taxa de mortalidade está estabelecida entre 1 e 3%. Se este público em estado grave constituído de pessoas idosas, como é na maioria das vezes porque compõem o grupo de risco, receber a cloroquina pode direcionar a pessoa a morte por irresponsabilidade de não conhecer como a droga age no pulmão ou coração dos pacientes.

Durante a maioria das epidemias de gripe, mais pacientes morrem de complicações cardíacas do que de pneumonia, de acordo com a revisão publicada em 27 de março na revista JAMA Cardiology. As infecções virais podem interromper o fluxo sanguíneo para o coração e levar a batimentos cardíacos irregulares (arritmia) e insuficiência cardíaca.

Portanto, não é uma surpresa que o SARS-CoV-2 possa causar danos ao coração. Ele simplesmente está ocorrendo com mais frequência nesses pacientes do que em pessoas infectadas com outros vírus.

Um dos cenários que explica essa relação do vírus com o coração indica a dificuldade que o órgão tem para bombear sangue na ausência de oxigênio suficiente. Outro cenário afirma que o vírus pode invadir diretamente as células cardíacas e matá-las; ou ainda, que o corpo, na tentativa de erradicar o vírus, pode mobilizar uma tempestade de células imunológicas que atacam o coração. Esses cenários podem até se complementar.

Se o coração de um paciente já tem dificuldade para desempenhar suas funções fisiológicas básicas, eles não têm capacidade para enfrentar o desafio de vencer um vírus como o SARS-COV-2 e por não ter oxigênio suficiente porque seus pulmões não estão funcionando bem a chance de óbito é ampliada.

Se o vírus está invadindo diretamente o coração, o paciente pode precisar de medicamentos antivirais. Se, em vez disso, o sistema imunológico estiver causando danos ao coração, o paciente poderá precisar de imunossupressores. Tudo vai depender de pesquisa e ouso errado da cloroquina pode ampliar a chance de óbito. Medicamentos atualmente sob investigação para o tratamento do COVID-19, incluindo a hidroxicloroquina podem causar danos ao coração, como disseram os especialistas.

Um estudo, publicado em 3 de abril na revista Circulation, descreveu quatro casos de danos cardíacos entre pacientes com COVID-19 em Nova York, alguns com doenças subjacentes. Portanto, é absolutamente irresponsável usar cloroquina em pacientes com comorbidades, pois pode fragilizar sua saúde ainda mais.

No sétimo argumento, é falso que David Uip afirmou ter usado cloroquina. Em momento algum o médico disse se fez uso ou não da cloroquina. Em reportagem a revista Veja reproduziu a fala do doutor:

“Não é uma quebra de transparência. Esse sigilo que eu me impus é para a proteção da sociedade: se eu falar que tomei, haveria uma corrida às farmácias porque estou vivo; se disser que não tomei, eu desacredito estudos que estão em andamento”.

Como argumento crítico a rejeição da cloroquina Marcos Eberlin citou o fato de não haver consenso científico dizendo que este é uma questão política e cita uma frase atribuída a Richard Feynman, de que “A ciência é a cultura da dúvida”.

Ora, Eberlin pelo jeito não entendeu a frase de Feynman, pois é justamente a dúvida lançada sobre a efetividade do medicamento que levou aos testes e corroborar o perigo de seu uso. Se o senso-comum tem levado as pessoas a fazer uso da cloroquina em automedicação ou olha-la como cura é a ciência que foi verificar e lançar dúvidas sobre os alicerces dessa afirmação. Consenso não é uma questão de política, é uma questão de olhar para onde as evidências apontam. Durante todo este artigo elenquei uma série de citações, relatos e reportagens onde especialistas, em sua imensa maioria, são categóricos sobre o risco da cloroquina e lançam dúvidas sobre sua eficácia. O que se salta aos olhos então é que Eberlin está adotando uma postura absolutamente irresponsável e anticientífica – exatamente como sempre fez ao defender design inteligente.

Curiosamente, não são os cientistas críticos do uso da cloroquina que tem tomado decisões com base em política. De fato, aqueles que defendem o uso da cloroquina é que tem adotado uma postura política e escancaradamente anticientífica. Isto é bem evidente seja nas acusações conspiranóicas de Trump ao afirmar que o coronavírus foi forjado em laboratório e usado pela China para se tornar a potencia mundial ou na conspiração entre a OMS e os chineses.

Mesmo Eberlin quando defende suas teses anticientíficas do design inteligente recorre à política para tentar validar suas crenças religiosas com uma máscara fajuta de ciência. Para começar, Eberlin pública seu manifesto com os 30 cientistas em defesa a cloroquina em um site que assumidamente é aliado ao presidente Bolsonaro, que a exemplo de Trump defende a cloroquina.

Damares Alves é pastora evangélica e ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo. Representa o exemplo de aparelhamento do estado e como a ciência verdadeira pode estar ameaça pelo obscurantismo. Com ela, o representante do Design Inteligente no Brasil – demonstrando que o movimento não é apenas pseudocientífico, mas ideológico ultraconservador.

Marcos Eberlin ainda defende o ensino do design inteligente como contraponto ao ensino da evolução e recorreu a políticos para tentar validar sua crença. O exemplo mais claro foi se encontrar com a Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves. Foi Marcos Eberlin e tantas outras pessoas que simplesmente abandonaram a ciência e a razão e passaram a discursar baseado em crenças ideologias e crenças religiosas. A onda de pseudociência e anticiência que o mundo vive é bem representada por este tipo de pensamento enviesado onde a razão foi substituída pelas muletas das paixões individuais.

Também não é coincidência que foi descoberto que o presidente Donald Trump tem investimentos financeiros pessoais na empresa Sanofi, a farmacêutica francesa que produz um medicamento a partir da droga.

A Sanofi produz o Plaquenil, que de acordo com o “New York Times” é normalmente usado para tratar artrite reumatoide, lúpus e malária. Fundos da família de Trump estão investidos na Dodge & Cox, sendo a Sanofi a maior holding. O bilionário Ken Fisher, um dos principais doadores do partido republicano (inclusive de Trump) é um dos maiores acionistas da Sanofi, enquanto o Secretário de Comércio Wilbur Ross administrava um fundo que investia na Sanofi, informou o “Times”.

Trump promoveu a droga à medida que o coronavírus se espalhou pelos Estados Unidos, mas como a eficácia da hidroxicloroquina ainda não foi conclusivamente comprovada em estudos científicos parece que sobra a Trump apenas discursar sobre o uso e acusar terceiros por sua irresponsabilidade em minimizar a pandemia.

Até mesmo Didier Raoult tem assumido posicionamento político. Em entrevista ele disse “Eu faço ciência, não política”, mas o pesquisador é próximo de políticos de direita e de extrema-direita, como o Rassemblement National (RN, extrema-direita), de Marine Le Pen. Portanto, não são as evidências científicas ou o consenso entre pesquisadores que agem de forma política, são os adeptos da anticiência e pseudocientistas que o fazem.

Vale ressaltar que Eberlin trabalhou durante anos na UNICAMP. A Universidade apresentou um posicionamento absolutamente oposto ao de Eberlin. Em pronunciamento oficial a UNICAMP disse:

“Assim, no que diz respeito a declarações sobre o uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina (HCQ) para o tratamento da COVID-19, isoladamente ou em associação com azitromicina (HCQ + AZT), a Unicamp, ouvindo especialistas na área, de dentro e de fora da instituição, e amplamente amparada por estudos científicos sobre o tema, corrobora as recomendações dos órgãos sanitários e da comunidade médico-científica mundial de que não há, até o momento, evidência científica suficiente baseada em ensaios clínicos com humanos sobre a eficácia desses medicamentos para o tratamento da doença causada pelo novo coronavírus.

Como reiterado em editorial de 08 de abril de 2020 da British Medical Journal, uma das publicações científicas da área médica mais respeitadas do mundo, o uso da cloroquina e seus derivados na COVID-19 é prematuro e potencialmente prejudicial devido a efeitos colaterais amplamente conhecidos pela comunidade médica”.

E a Academia Brasileira de Ciências segue a mesma postura alinhada com a Organização Mundial da saúde e afirma:

“Graças à ciência, conhecemos o agente causador e como ele provavelmente entrou na cadeia de infecção entre seres humanos; sabemos como diagnosticar de forma precisa quem está infectado; conhecemos as formas de contágio e conhecemos estratégias que impedem a sua transmissão na população, que tiveram sucesso na Coreia do Sul, Japão, Singapura e Hong Kong. Sabemos como tratar clinicamente (através de suporte ventilatório), e isso vem se aprimorando nos últimos dias. Conhecemos também alguns experimentos in vitro, que são promissores para algumas drogas, como a cloroquina. Mas esse fármaco nunca se mostrou benéfico em outras viroses em que também havia dados in vitro promissores. Por isso mesmo, é necessário fazer ensaios clínicos de forma controlada, com revisões independentes, para demonstrar o real benefício (ou não) do fármaco e investigar como eliminar efeitos secundários danosos, que podem levar à morte do paciente. Esses ensaios clínicos estão em andamento no Brasil e em todo mundo, na tentativa de demonstrar a eficácia desse e outros medicamentos.”

Podemos nos enganar porque alguma pseudociência nos tira risadas ao defender de forma um tanto bizarra, por exemplo, o formato da terra. Contudo, pseudociências também colocam a vida de pessoas em risco, como é o caso daquelas que negam a eficácia das vacinas, aquelas que negam o potencial da evolução biológica (que tem nos ajudado a identificar a origem do SARS-CoV2) e os que defendem de forma religiosa de medicamentos como curas milagrosas. A cloroquina ganhou ares alquímicos com o auxílio da pajelança da pseudociência, vendendo-a como elixir da longa vida dos acometidos pela COVD-19.

É evidente que por razões não exclusivamente políticas, mas claramente metodológicas (a partir da distorção intencional do método cientifico) a postura que a pseudociência tem tomado em relação ao uso da cloroquina se aproxima a uma forma de pajelança em que suspende os critérios e a rigorosidade em favor de um discurso politizado e egoísta que vem acompanhado de um movimento bastante evidente nos últimos tempos, a congregação de pseudociências outrora isoladas.

Até o presente momento a cloroquina faz parte de um elenco de possíveis medicamentos, mas carece de evidências científicas definitivas, falta amostragem ampla e goza de efeitos colaterais. Não sugerimos o seu uso, pois as evidências citadas acima indicam que o seu uso é arriscado. Desconsideramos também todo e qualquer recomendação feita por Marcos Eberlin e seu pronunciamento, desqualificado de razão e de ciência diante das evidências.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Cloroquina, Hidroxicloroquina, COVID-19, Coronavirus, SARS-CoV-2, Remdesivir,  Lopinavir, Ritonavir, Atazanavir, Nitazoxanida