A BÍBLIA FOI ESCRITA MAIS CEDO DO QUE PENSÁVAMOS, É O QUE OS MATEMÁTICOS SUGEREM. (Comentado)

Isso poderia empurrar para trás a origem da Bíblia por séculos.

Michael Cordonsky / Tel Aviv University/Israel Antiquities Authority

Michael Cordonsky / Tel Aviv University/Israel Antiquities Authority

Mesmo se você não for religioso, não há como negar a enorme – e às vezes devastadora – influência que a Bíblia teve como um texto histórico sobre o mundo ao longo dos últimos 3 mil anos. E, no entanto, quando se trata do livro mais amplamente distribuído no planeta, ainda não podemos concordar sobre quem o escreveu, e quando isto ocorreu.

Assim, um grupo de matemáticos uniu-se com arqueólogos para lançar um pouco mais de luz sobre as origens da Bíblia, usando a inteligência artificial para chegar a uma estimativa de quantas pessoas sabiam ler e escrever durante certos períodos da história antiga.

Liderados pelo matemático Shira Faigenbaum-Golovin da Universidade de Tel Aviv, em Israel, a equipe veio com novas técnicas de processamento de imagem e uma ferramenta de reconhecimento de escrita manual para investigar 16 inscrições encontradas na fortaleza do deserto de Arad, a oeste do Mar Morto.

Datados de cerca de 600 a.C (ou seja, cerca de 2.600 anos atrás), estas inscrições a tinta detalhavam bastante a vida mundana de comandos militares e ordens de fornecimento  que foram escritos em pedaços de cerâmica chamados ostraca durante o final do período do Primeiro Templo – 24 anos antes do reino de Jerusalém ser derrubado pelo rei babilônico.

Isto é, quando a maioria dos estudiosos concorda que os primeiros textos bíblicos – incluindo o Livro de Josué, Juízes, os dois livros dos Reis, partes de Gênesis e Deuteronômio – foram colocados juntos, de modo que você esperaria que a leitura e a escrita sejam apenas comum entre os poucos da elite neste momento … Ou eram deles?

Para descobrir isso, os pesquisadores primeiro tinham que restaurar as inscrições usando suas novas ferramentas de processamento de imagem, e depois usaram a ferramenta de reconhecimento de escrita manual para determinar quantas pessoas realmente escreveram.

Maddie Stone explicou:

“Eles… desenvolveram algoritmos de aprendizado em máquina que poderia comparar e contrastar a forma dos antigos caracteres hebraicos, a fim de identificar estatisticamente distintas escritas a mão. Em princípio, isso é semelhante aos algoritmos de empresas de tecnologia usar para detecção de assinatura digital.

Ao todo, a análise revelou, pelo menos, seis autores por trás de 16 ostracas. Examinando o conteúdo do texto em si, os pesquisadores concluíram que esses autores viveram durante toda a cadeia de comando militar”.

“Do comandante até ao mais baixo mestre água todos podiam se comunicar por escrito,” disse a equipe, do matemático Arie Shaus. “Este foi um resultado extremamente surpreendente.”

Então, se os homens das águas bíblicos eram capazes de ler e escrever em torno de 600 a.C, isto sugere que a “proliferação de alfabetização” já havia ocorrido muito antes, e os pesquisadores sugeriram, que isto tem implicações para quando os primeiros livros da Bíblia foram provavelmente escritos.

Uma vez que os textos bíblicos mais antigos representam as ideologias políticas e teológicas de seus autores, um membro da equipe, o arqueólogo Israel Finkelstein, disse a Jennifer Viegas no Discovery News, que “faz sentido que, pelo menos, os literatos poderiam lê-los. Se um grande número de pessoas poderia ler o texto, poderia ter sido mais fácil distribuir as idéias dos autores entre a população judaica do tempo”.

Esta situação poderia conduzir a origem dos primeiros textos bíblicos para trás em pelo menos 200 anos, diz o arqueólogo Christopher Rollston da Universidade George Washington, que não esteve envolvido no estudo, acrescentando que temos uma boa quantidade de evidências arqueológicas que sugerem que partes de da Bíblia foram escritos tão cedo quanto 800 a.C.

Os pesquisadores agora estão trabalhando no desenvolvimento de ainda mais ferramentas para recolher a partir de textos mais antigos, e é esperado que, com mais evidências, podemos juntar os primórdios do livro best-seller na Terra.

“Estamos trazendo novos elementos para o jogo”, diz Shaus. “Agora, vamos ver o que mais sai”.

O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academies of Sciences.

Fonte: Science Alert 

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Comentários internos

É preciso destacar algo importante que não ficou muito claro no texto acima. O que o título trata não é exatamente da Bíblia e quando ela foi escrita, mas quando textos que estão na Bíblia foram escritos. Parece não haver diferença, mas há.

Bíblia vem do grego ta biblia, que significa “Os livros”, e é formada pelo Novo e Velho, Testamento. Testamento vem da tradução hebraica de berit, que designa uma aliança, diathèkè, que significa pacto. Portanto o Antigo ou Novo Testamento trata de antigas e novas alianças feitas entre os homens e Deus (História Viva, 2015). A Bíblia é o livro sagrado do cristianismo, e os livros analisados no estudo acima são Josué, Juízes, os dois livros dos Reis, partes de Gênesis e Deuteronômio fazem parte do Velho Testamento. Eles constituem somente a primeira parte da Bíblia cristã. Isto significa que ele trata das relações entre Deus e o povo Israelita.

A Bíblia cristã, tal como a conhecemos, foi concebida no ano de 390 d.C a partir de escrituras ditas inspiradas. Jerônimo começou a tradução da versão hebraica utilizando a Septuaginta grega, originária de Alexandria.

Há primordialmente duas fontes antigas para o Velho Testamento: o texto massorético escrito pelos judeus “massoretas” que escreveram a Bíblia de Massorá, examinando e comparando todos os manuscritos bíblicos conhecidos à época, no século VI; e há a versão mais antiga, a Septuaginta. Esta, foi traduzida em etapas para o grego koiné (que significa língua-comum), entre o século III a.C. e o século I a.C., em Alexandria.

Posteriormente, no século II d.C, em Osroena (atual cidade de Urfa, antiga Edessa, na Turquia) o Antigo Testamento também foi escrito em siríaco (História Viva, 2015).

O Velho Testamento também tem ligação com a Tanak, um acrônimo formado por três letras: T para Torah, N para Nebiim e K para Ketoubim e indica leis trazidas pelos profetas e hagiógrafos (História Viva, 2015). A Torah é chamada pelos gregos de Pentateuco, ou seja, cinco rolos. Ela consiste nos 5 livros que a tradição atribui a Moisés do final da época persa no começo do século IV a.C (História Viva, 2015).

A Bíblia cristã.

Tudo começou com o Concílio de Nicéia, uma assembleia realizada sob a ordem do Imperador Constantino para ser obter um consenso da igreja a fim de buscar uma única religião para o Império Romano.

O encontrou contou com a participação de diversos presbíteros (os pais da Igreja). Os bispos Orientais estavam em maioria; na primeira linha de influência hierárquica estavam três arcebispos: Alexandre de Alexandria, Eustátio de Antioquia, e Macário de Jerusalém, bem como Eusébio de Nicomédia e Eusébio de Cesareia. Entre os bispos encontravam-se Stratofilus, Bispo de Pitiunt (Bichvinta, reino de Egrisi). O Ocidente enviou cinco representantes na proporção relativa das províncias: Marcus de Calábria da Itália, Ceciliano de Cartago da África, Ósio de Córdoba (Hispânia), Nicasius de Dijon na França, e Domnus de Stridon da província do Danúbio.

O consenso teve como fim estabelecer uma única religião para o Império, que até a época tinha aceitado e criado muitos deuses conforme se registra na própria Bíblia (1 Corinthios 8:5) e várias seitas com diferentes doutrinas entraram em conflito, devido a grande diversidade destes deuses (Optatus of Milevis).

Surgiu a necessidade de difundir uma única religião, pois o Império vivia uma era de ignorância, confusão teológica e rodeado de pessoas pouco letradas ou analfabetas (Catholic Encyclopedia, Pecci). Não havia religião cristã no Império de Constantino até este momento, apenas cristãos (Catholic Encyclopedia, Farley) dentre tantas outras religiões. E mesmo o cristianismo era uma doutrina heterodoxa (História Viva, 2015)

Eusebio de Cesareia (260-339) notou então que estas seitas e doutrinas lutavam por um Império mais religioso (Life of Constantine). Diante desta confusão, Constantino notou a necessidade de uma nova religião, ligada ao Estado, porém neutra em termos de conceito e protege-la por Lei. Constantino enviou seu conselheiro Ósio de Cordoba a Alexandria e cartas a vários bispos/presbíteros querendo estabelecer a paz entre vários povos. Tal missão falhou, e então Constantino emitiu um decreto ordenando a todos os presbiteros que viessem a Niceia, na província romana de Bitínia, na Ásia menor. A instrução era trazer testemunhos e apresentar um códice oficial com o discurso teológico de cada seita (The Catholic Dictionary, Addis and Arnold, 1917, “Council of Nicaea”)

O total foram de 2.231 pergaminhos e contos lendários de diversos deuses, doutrinas e salvadores (Life of Constantine) dando uma noção do clima intelectual da época. O Imperador Constantino era iniciado na ordem do Sol Invictus, um culto de prosperidade ligado ao mistraísmo. Devido sua adoração a este Deus, Constantino instruiu Eusébio a convocar a primeira das 3 sessões do solstício de verão em 21 de junho de 325 d.C (Catholic Encyclopedia & Ecclesiastical History).

Eusébio fez o discurso inaugural do Concílio. Muitos bispos da África, Ásia e 70 bispos do Oriente em geral estavam presentes (Catholic Encyclopedia) totalizando de 318 entre bispos, sacerdotes, exorcistas, diáconos que debateram sobre um único sistema de crença, sob a tutela de um único Deus (An Apology for Christianity).

Um série de deuses e textos circulavam entre os diferentes presbíteros (Catholic Encyclopedia) e muitos apoiavam uma grande quantidade de deuses e deusas tanto do ocidente quanto do oriente: Jupiter, Baal, Tor, Apolo, Aries, Taurus, Minerva, Mitra, Theos, Ati, Indra, Hermes, Tamuz, Iao, Saturni, Maximo (God´s Book of Eska).

A intenção de Constantino era apresentar um Deus inédito, exclusivo, unindo o Império a partir de sua religiosidade, por uma necessidade política. Ao longo dos debates acalorados entre os presbíteros, a intenção era saber qual era o melhor candidato ao Deus do Império e 53 deuses foram apresentados no final da discussão (God´s Book of Eska). Então o cristianismo foi se consolidando dentre todas essas seitas e religiões.

Eusébio foi instruído então a compilar um conjunto de textos religiosos com os aspectos selecionados no Concílio. O restante dos livros deveria ser rejeitado. O que era bom deveria ser unido e estabeleceria a doutrina do povo, recomendando a todas as nações que cessasse os conflitos religiosos (God´s Book of Eska). Ele solicitou aos escribas 50 copias do livro que agora se tornará oficial do Império e chamou de Nova Aliança (Life of Constantine).

Em 331 surge a primeira menção do Novo testamento. Apesar dos livros serem selecionados, o processo de canonização só ocorre em 363. Deste modo, Constantino decretou a todos os presbíteros que todos os manuscritos e textos não oficializados por ele fossem destruídos, e qualquer pessoa quem não aceitar suas ordens seria decapitada (Life of Constantine).

Desta forma, os escritos de presbíteros anteriores ao Concílio são poucos, a maioria foi destruído, salvo alguns casos em que foram bem escondidos. Os livros que sobreviveram trouxeram informações sobre o Concílio. Alguns deles informam que o Concílio durou até novembro de 326, outros dizem que a briga para a instauração de um único Deus foi tão intensa que durou cerca de 4 anos (Secrets of the Christian Fathers). Algumas interpolações foram feitas no testemunho de Constantino (Catholic Encyclopedia).

O cânon da Bíblia ocorreu no Concílio de Laodiceia em 360 d.C. Quando houve o fechamento das cartas para a oficialização da Vulgata latina por Jerônimo, onde somente 26 livros estavam presentes. Apocalipse não estava inserido.

Jerônimo usou a Septuaginta (que havia sido rejeitada no Concílio de Jâmnia, um conselho rabínico realizado entre o final do século I d.C e o início do século II d.C.) como versão válida das escrituras judaicas devido a supostos erros de tradução e elementos heréticos helenísticos que encontrou em outras versões (Verband, 1999).

Jerônimo terminou seu trabalho em 405 d.C. Entretanto, hoje coloca-se dúvidas sobre o quanto Jerônimo de fato conhecia de hebraico e alguns autores ainda defendem que Jerônimo usou a “Hexapla” grega como fonte para a tradução devido a semelhança muito próxima à tradição judaica e suas respectivas alegorias místicas no estilo de Fílon e da “Escola de Alexandria”.

Assim sendo, Jerônimo concretizou a Bíblia cristã com o Velho e o Novo Testamento. A compilação dos livros que compõem o Novo Testamento foi feita a partir da Vetus Latina: nome comumente dado aos textos bíblicos traduzidos para o latim antes da tradução. A Vetus latina é uma expressão em latim que significa “latim antigo”. Com o estabelecimento do cristianismo como religião oficial do Império Romano após o Concílio e Nicéia em 325 d.C, houve a necessidade de se traduzir os escritos bíblicos para os cristãos que não liam o grego ou o hebraico. As primeiras traduções dos escritos bíblicos haviam sido feitas já no início do século I, e foram realizadas por tradutores informais, criando cerca de 27 variações dos evangelhos do Novo Testamento. Isto significa que havia diversas versões do Novo Testamento, muitas delas escritas em siríaco, em ge´ez (etíope clássico), armênio, georgiano, latim, gótico e árabe. (História Viva, 2015).

Essas versões da Vetus latina não foram consideradas autorizadas como traduções bíblicas que poderiam ser usadas por toda Igreja. Muitos destes textos foram desenvolvidos para suprir a necessidade de uma comunidade local, especialmente em sermões. Os textos que relatam a vida de Jesus não foram escritos por pessoas que conviveram diretamente com Jesus. As epístolas Paulinas, por exemplo, que são os textos mais antigos, foram redigidos a partir do ano 50. Nenhum dos quatro evangelhos parece ser datado antes do ano 60. O que mostra que os evangelhos não foram escritos pelos respectivos autores, mas por pessoas desconhecidas que entraram em contato com a história relatada nos livros de Marcos, Mateus, Lucas e João. De tal forma, que somente a tradição atribui-lhes a autoria (História Viva, 2015). Os textos mais recentes do Novo Testamento são da segunda epístola da Pedro e de Judas, escritos no início do século II (História Viva, 2015).

Foi Orígenes, um erudito nascido em Alexandria (Egito) por volta de 185 (e morto em 254) que destacou que as epístolas dos apóstolos representavam o pensamento de sábios homens em nome de Cristo e traziam o testemunho da Lei dos profetas (História Viva, 2015).

Muitos dos manuscritos da Vetus Latina contêm os quatro Evangelhos canônicos (Marcos, Mateus, Lucas e João) também possuem diversas diferenças de um para o outro, estabelecendo a necessidade de interpolação para se complementarem. Por outro lado, em outras passagens bíblicas possuem exatamente o mesmo texto.

Codex Bobbiensis no trecho de Marcos 16. Este Codex contém partes do Evangelho de Marcos e o Evangelho de Mateus Um estudo paleográfico do texto determinou que ele é uma cópia de um papiro do século II.

Codex Bobbiensis no trecho de Marcos 16 – Este códex contém partes do Evangelho de Marcos e o Evangelho de Mateus. Um estudo paleográfico do texto determinou que ele é uma cópia de um papiro do século II.

Santo Agostinho, em sua obra “A Doutrina Cristã” (Verband, 1999 & New York: The Christian Literature Company, 1893), destaca estas variações textuais presentes nos manuscritos disponíveis, e algumas sentenças que reproduzem literalmente expressões no grego ou do hebraico contidos na Septuaginta. Os vários manuscritos da Vetus latina refletem as diversas recensões da Septuaginta que circulavam com os manuscritos africanos (como o Codex Bobiensis) que preservam leituras do texto típico ocidental, enquanto as leituras nos manuscritos europeus estavam mais próximas ao texto Bizantino. Várias particularidades gramaticais usadas no latim vulgar encontram-se nestes nos textos.

Tal compilação dos livros da Vetus latina que compõem o Novo Testamento deu origem a Vulgata latina pelas mãos de Jerônimo. A tradução para o latim da Bíblia foi feita a pedido do bispo Dâmaso I. Nesta língua foi escrito todo o Novo Testamento, incluindo a Carta aos Romanos, de Paulo, bem como muitos escritos cristãos de séculos seguintes.

No Novo Testamento encontramos os quatro evangelhos: Marcos, Mateus, Lucas e João. Eles foram escolhidos para formar as regras representativas das comunidades cristãs espalhadas no Império Romano, cujo objetivo era falar expressamente de Jesus e dos seus ensinamentos.

O evangelho de Marcos foi escrito na Síria, por um cristão desconhecido, por volta do ano 70 d.C, utilizando várias fontes. Entretanto, alguns dos materiais presentes neste evangelho são bastante antigos, representando uma importante fonte de informações históricas sobre um Jesus histórico.

Alguns pesquisadores acreditam que o evangelho de Mateus foi composto na parte final do primeiro século por um judeu cristão (Foster, 2003), o período mais aceitável por evidências históricas é entre a queda de Jerusalém 70 d.C. e de Inácio de Antioquia ao escrever a epístola aos Esmirniotas por volta de 115 d.C. O consenso atual é que o livro de Mateus foi originalmente escrito em grego por um autor desconhecido e baseado em fontes como o evangelho de Marcos e na Fonte Q.

A Fonte Q é uma fonte hipotética usada na redação tanto no evangelho de Mateus quanto no de Lucas, pois representa um material em comum consultado, mas não no evangelho de Marcos. Este texto supostamente continha várias palavras e sermões de Jesus (Schiavo, 2009).

O evangelho é escrito como uma narrativa histórica, e muitas das retratações são feitas sob o uso de tradições orais e anteriores aos quatro evangelhos canônicos, além de ser baseado não em fatos, mas em um sistema religioso de devoção, representando a crença e não a realidade.

O evangelho de Lucas também pode ter utilizado registros escritos independentes e sua composição data do início dos anos 60 d.C (Carson et al, 1997). Há uma crítica ao evangelho de Lucas, que apresentaria possíveis contradições entre Atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo, induzindo muitos estudiosos a duvidar do evangelho (Gerd & Merz, 1998). De acordo com a opinião da maioria, o autor do evangelho é simplesmente desconhecido e que o autor também escreveu os Atos dos Apóstolos (Cullman, 2001). Muitos acreditam que o evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos originalmente constituíam uma obra de dois volumes (Aune, 1987), que os estudiosos chamam de Lucas-Atos (Miller, 1992). Embora o semitismo exista por todo livro, a obra foi composta em grego koiné (Ben Witherington, 2005).

Existem grandes discussões sobre a autoria e validade dos livros que compõem a bíblia. Muitas delas são abafadas porquê de alguma forma pessoas religiosas se sentem ofendidas ao contestar ou estudar a origem de tais livros. Desta forma, as observações feitas sob a bíblia ficam quase sempre restrita a fé de seus seguidores, e não sob a perspectiva histórica da narrativa. Por exemplo, mesmo Jerônimo declara que os Atos dos Apóstolos e o quinto livro do Novo Testamento foram falsamente escritos (The Letters of Jerome). No livro de Atos do Apóstolos está uma citação que faz referência ao texto acima sobre o analfabetismo.

Em Atos 4:13 diz-se que:

13 Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens iletrados e incultos, maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus.

Esta citação, como destacado, vem do grego koiné:

ἄνθρωποι ἀγράμματοί εἰσιν καὶ ἰδιῶται

(antropos agramatoi eisin kai idiotai)

Onde ἀγράμματοί no grego antigo refere-se a incapacidade de alguém em escrever. O vocábulo ἰδιῶται (ou idiotai), apesar de não estar presente na Septuaginta (para título de comparação) pode ter sido emprestou do hebraico, que na literatura rabínica pode designar um trabalhador não qualificado, e homens que não estudaram em escolas rabínicas.

O Papiro P52

O Papiro P52

O evangelho de João foi escrito entre os anos 95 e 100 d.C. Cronologicamente, foi o último a ser escrito. Seu propósito foi inspirar os leitores a fé em Jesus Cristo como o filho de Deus e dar ênfase à dependência humana em relação a Deus para ser salvo. A maioria dos papiros encontrados data dos primeiros 300 anos da Era Cristã. Sendo assim, é possível estabelecer um estudo da gramática desse período. Com base nos argumentos da gramática histórica, a composição dos livros do Novo Testamento é datada do primeiro século da nossa Era. O Papiro P52, fragmento do evangelho de João, encontrado no Egito em 1920 por C. H. Roberts pode ser paleograficamente datado de c. 125 d.C. Contém partes do capítulo 18 do evangelho de João, em grego (31 – 33 e 37-38). Embora o papiro seja aceito geralmente como registro canônico, a datação do papiro não é consensual entre os comentadores. Mas o estilo da escrita leva a uma data entre os anos de 125 e 160 d.C.

Há várias teses sobre a origem de diferentes livros da Bíblia. Uma delas sugere que em 397 João Crisóstomo reestruturou os escritos de Apolônio de Tiana, um sábio local, e inseriu-os no Novo Testamento (Secrets of the Christian Fathers, op. cit.). O nome latim de Apolônio é Paulus, conhecido hoje como epístolas de Paulo, companheiro de Damis, um escriba assírio, que é Demas citado no Novo Testamento (2 Timótio 4:10) (Latin-English Dictionary, J. T White and J. E. Ridlle, Ginn & Heath, Boston, 1880)

Mesmo a igreja admite por exemplo, que as epístolas de Paulo podem ser falsificadas: “Mesmo as epístolas genuínas foram interpoladas para dar peso as opiniões de seus autores” (Catholic Encyclopedia, Farley., vol vii. p 645)

Alguns textos do Velho Testamento indicam quem os escreveu parcialmente, como por exemplo, Salvos de Davi e o Cântico dos Cânticos do rei Salomão (História Viva, 2015).

Gênesis por exemplo, registra em dois capítulos iniciais dois relatos de criação distintos suficientes para serem conservados e depois colocados lado a lado representando não uma constatação da criação, mas uma realidade teológica pautada na devoção e não em fatos. E claro, ele bebe de fontes distintas e autores distintos.

Segundo os estudos mais recentes, Gênesis é um livro escrito nos séculos 6 e 5 a.C. (Van Seters, 1998 & Davies 1998) e foi redigido sob quatro fontes, ou estilos literários distintos; Javista, o Elohinista, Deuteronomista e Sacerdotal, cada um contando a mesma história básica, porém, unidas por vários editores diferentes e com ideologias também diferentes (Gooder, 2000).

Outro exemplo é o Livro de Isaías cuja história literária é complexa e dividida em três partes, redigidas por três autores de épocas bastante distintas (Proto-Isaías, Deuterô-Isaías e Trito-Isaías) (História Viva, 2015).

O antigo testamento foi redigido em hebraico, mas algumas passagens de Esdras e Daniel, por exemplo, foram conservadas em aramaico (História Viva, 2015). O Livro de Isaías é formado de passagens que correspondem a atos proféticos de diferentes épocas, diferentes autores cuja redação final se deu por volta de 400a.c. Isso significa que 300 anos após a morte de Isaías, novas profecias foram criadas, re-editadas e revistas sobre uma perspectiva pós-exílica (já que Isaías escrevia em um momento em que a Assíria se tornará domínio dos Babilônios). O segundo livro de Isaías foi escrito por um profeta anônimo (Bíblia de Jerusalém, 2004).

A versão chega pela necessidade que existia no Egito antigo, no reino dos Ptolomeus. Redigiu-se então a Septuaginta. Este nome vem de uma nome deve-se a lenda contada pela primeira vez na carta de Aristeu a Filócrates (século II a.C) e retomada posteriormente várias vezes segundo a qual Ptolomeu II Filadelfo desejava dotar a recém criada Biblioteca de Alexandria de um exemplar das leis dos Judeus. Para isto, convocou seis homens renomados de cada uma das 12 tribos de Israel, em um total de 72 homens designados pelo grão-sacerdote Eleazar. No final, a leitura da tradução em público gerou ovações e por ter sido feito de fora tão correta, rigorosa e devota decidiu que o texto deveria ser mantido intacto, desta forma, de modo inalterado. Sendo assim, os livros que compõem a Bíblia são compilações de escritos anteriores, alguns com confusões entre si (História Viva, 2015).

O caso Apocalipse

A forma na qual o livro de apocalipse foi inserido dentro da Bíblia é interessante, pois depende do cânon; regra que os pais da igreja estabeleceram para definir quais livros seriam considerados inspirados divinamente. Três critérios principais foram estabelecidos: para ser considerado canônico um livro precisava ter sido escrito por um apóstolo, ser endossado (ou citado) por outro apostolo, e ter sido escrito de forma inspirada (embora a definição de inspirado seja uma construção meramente humana).

Claro, há falhas neste critério pois há livros cuja autoria é desconhecida, por pessoas que não são apóstolos, como Hebreus. Mesmo Eusébio assume que a autoria do livro de apocalipse sempre esteve dividida, e teve grande receio em aceita-lo como oficial (Historia Eclesiástica, III, 25).

A maioria dos pais da Igreja primitiva ou pais Apostólicos, como São Papias, Hipólito, Irineu, Policarpo, Justino Martir (todos entre 140 e 180 d.C) e tantos outros afirmam que o autor de Apocalipse foi João o evangelista. O Cânone Muratori, é uma cópia da lista mais antiga que se conhece dos livros do Novo Testamento datada do ano 200 d.C. Nele o apocalipse é tratado como um livro escrito por um João, mas não refere-se ao apóstolo como o autor. De fato, existe a grande possibilidade de que a autoria do Apocalipse seja da comunidade “joanina”, que é atestada até mesmo por Tertuliano (200 d.c) Hipólito (240 d.C) Clemente de Alexandria (200 d.c) e Orígenes (230 d.C)

Hahn, Scott (2001). Ha também a citação de que o livro de apocalipse era de autoria de uma pessoa chamada Cerinto (205 d.C).

Donísio de Alexandria (250  d.C) defendia que o quarto livro do Novo Testamento e o Apocalipse não vieram do mesmo indivíduo, por apresentar linguagens distintas (Euseb,. HE, VII, 25)

Na igreja Ocidental o apocalipse foi rejeitado por unanimidade e nas Igrejas Sírias a dúvida permaneceu. O cânon da Bíblia que ocorreu no Concílio de Laodiceia em 360 d.C não aceitou o livro de Apocalipse, exatamente por todas as dúvidas levantadas. Quando houve o fechamento das cartas para a oficialização da Vulgata latina por Jerônimo, somente 26 livros estavam presentes. Apocalipse não estava inserido. O livro de apocalipse foi inserido na Bíblia posteriormente mediante controvérsias sobre a autoria.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Velho Testamento, Novo Testamento, Bíblia, Nicéia, Jerônimo, Vetus Latina, Vulgata Latina, Apocalipse.

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Referências

An Apology for Christianuty, op. op
Aune, D. The New Testament in Its Literary Environment. Philadelphia: Westminster, 1987, p. 77
Ben Witherington III. História e História do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 18
Bíblia de Jerusalém, Nova Edição Revista e Ampliada, Ed. de 2002, 3ª Impressão (2004), Ed. Paulus, São Paulo
Carson, D,A. Douglas Moo, Leon Morris. Lucas in Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997
Catholic Encyclopedia, Pecci d., voli iii, p 299, passim
Catholic Encyclopedia, Farley., vol vii. p 645
Catholic Encyclopedia, Farley ed,. vol xiv, pp. 370-1
Catholic Encyclopedia, Farley ed., vol. v, pp 619-620; Ecclesiastical History, IBID
Catholic Encyclopedia, Farley ed., vol vi. pp. 135-137
Catholic Encyclopedia,  New Edition, Gospel and Gospels
Catholic Encyclopedia, New Edition, vol, i. p. 792
Ecclesiastical History, Bishop Louis Dupin, 1686, vol . i, p. 598
God´s Book of Eska, anon., ch. xlviii, paragraph 36
Gooder, Paula (2000). The Pentateuch: a story of beginnings. T&T Clark.
Cullman. O. A formação do Novo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2001;
Foster, P. 2003. “Why Did Matthew Get the Shema Wrong? A Study of Matthew 22:37” (em inglês). Journal of Biblical Literature 122 (2): 309-333.
Gerd, T & Merz, A. The historical Jesus: a comprehensive guide. Fortress Press, 1998, p. 32;
Hahn, Scott (2001). La cena del Cordero: La Misa, el cielo en la tierra. Madrid, España: Ediciones Rialp.
História viva. A História de Deus – A relação homem com o sagrado, da Antiguidade aos dias atuais. 2015-08-04
Historia Eclesiástica, III, 25
Latin-English Dictionary, J. T White and J. E. Ridlle, Ginn & Heath, Boston, 1880
Life of Constantine, op. cit.,pp. 26-8
Life of Constantine, op. cit., vol. ii, p. 734; N&PNF, op cit., vol i, p. 518
Miller, Robert J. “Introduction to the Gospel of Luke”. In: The Complete Gospels.”Os estudiosos geralmente se referem ao trabalho de Lucas como ‘Lucas-Atos'”. Polebridge Press, 1992, p. 115-117;
New York: The Christian Literature Company, 1893. A Select Library of Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church. vol. VI.
Optatus of Milevis, 1:15-19, early fourth century
Secrets of the Christian Fathers, op. cit.
The Catholic Dictionary, Addis and Arnold, 1917, “Council of Nicaea” entry
Verband der Deutschen Juden (Hrsg.), neu hrsg. von Walter Homolka, Walter Jacob, Tovia Ben Chorin: Die Lehren des Judentums nach den Quellen; München, Knesebeck, 1999, Bd.3, S. 43ff

2 thoughts on “A BÍBLIA FOI ESCRITA MAIS CEDO DO QUE PENSÁVAMOS, É O QUE OS MATEMÁTICOS SUGEREM. (Comentado)

  1. Baita artigo, inclusive ontem eu estava lendo “Os Evangelhos Perdidos” de Darrell L. Bock, e hoje de manhã debati sobre os manuscritos antigos e traduções da Bíblia, caiu como um milagre esse artigo como se fosse pra mim hahahaha, belíssimo texto Victor…

    • Olá; li algo incrível sobre o fato de Constantino ter escolhido pessoalmente os 4 Evangelhos, pois cada um tinha suas preferências, etc. Mas o mais importante e que fez vacilar meu espírito foi o fato de terem descoberto em escavações escritos sobre – “Horus X Jesus” (veja em: ABSOLUM.ORG – escritos pelo menos mil anos aC. – dá o que pensar, meu amigo….

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