PORQUE SOU CÉTICO QUANTO AO ROMANISMO.

É comum as pessoas confundirem o debate entre a existência de deus e as razões particulares do porquê uma pessoa não segue uma determinada doutrina religiosa. A discussão sobre a existência de deus me parece muito mais interessante, do ponto de vista intelectual, do que o questionamento e a não aceitação de um deus particular de uma religião. Este debate é interessante e aqui não vou descrever sobre a existência de deus, mas exatamente porque o cristianismo não é apetecível como a melhor forma de religação com deus. De fato, minha dissertação se baseia no fato de que o cristianismo sequer existe!

Concílio de Niceia (325 d.c)

O cristianismo existia muito antes do Imperador Constantino torná-lo religião oficial do Império Romano. Aceito, como me foi sugerido recentemente por um cristão, que sua religião foi marginalizada pelo Império Romano durante muito tempo. Lembremo-nos que Jesus morreu pelas mãos de Pôncio Pilatos (mandato de 26 – 36 d.c), que Nero (segundo escritos dos historiadores Tácito, Suetônio e Dião Cássi) e Diocletiano (Reinado de 284 a 305 d.c) perseguiram ferrenhamente cristãos e, portanto, não tinham qualquer apoio do Império.

Desde o século I, os cristãos exerciam sua religião no território romano e não reconheciam a divindade do imperador. Portanto, foram considerados praticantes de uma religião transgressora, que desconsiderava a moralidade local. Contudo, ainda assim o cristianismo estava disseminando-se por Roma, persistindo de forma ilícita e ganhando espaço entre os cidadãos e superando as medidas persecutórias (chamadas de éditos) de Diocleciano para restaurar a pureza moral do Império Romano que pregava o respeito às leis romanas que promoveriam a indulgência divina e a credibilidade na divindade do Imperador.

Os primeiros éditos persecutórios foram promulgados em 303 d.c, retirando cristãos de cargos públicos e destruindo seus templos. O maior medo dos cristãos nesta época era o dies traditionis, que consistia no dia da entrega das escrituras bíblicas ao império, para que estas fossem queimadas, pois acreditavam que assim perderiam o poder sacramental que esses elementos continham. Os próximos éditos lançados até 304 d.c tornavam a vida e o culto cristãos cada vez mais difíceis, pois estabeleciam medidas como detenção de líderes eclesiásticos e a obrigatoriedade do sacrifício aos deuses pagãos sob pena de execução. Diocleciano não era favorável da “pena de morte”, porém houve esse apelo no quarto édito.

Após a abdicação de Diocleciano e Maximiano em 305 d.c, a perseguição não se manteve no Império Ocidental. No Oriente, em 311 d.c, Galério, enfermo, promulgou sua retratação, permitindo os cristãos a retomarem sua religião e seus lugares de culto. Galério ainda pediu que rezassem pela saúde dos imperadores e por Roma.

O Édito de Galério cessou oficialmente a perseguição, tornou o deus dos cristãos umas das divindades patronas do Império e ajudou na consolidação das relações do cristianismo com o poder imperial.

Constantino acabou proclamando em 313 d.c o Édito de Milão, que garantia liberdade para cultuar qualquer deus, o que seria fundamental para a futura conversão total do império à religião. Neste sentido, Constantino acabou garantindo que os cristãos não fossem mais perseguidos. Com o passar do tempo, a pressão de Constantino levou os mais influentes cristãos a se reunirem no Concílio de Niceia (325 d.c) para estabelecer as diretrizes de uma religião unificadora do Império. O Império que durou cinco séculos (entre 27 a.c e 476 d.c) estava em decadência. Constantino foi astuto, acatou a liberdade religiosa, notou a religião mais difundida no Império e definiu o cristianismo como religião legal do Império e por fim, proibiu, logo em seguida a liberdade religiosa.

Esta decadência do Império começou no final do século II devido a ameaça de invasões bárbaras e a própria onda de perseguição aos cristãos que se recusavam a servir no exército romano. Isso não impedia o cristianismo de ganhar seguidores e a escolha do cristianismo se deu também pela própria estrutura da crença cristã ser semelhante a da tradição judaica que acreditava na chegada de um messias à Terra, que seria responsável por pacificar a humanidade.

A crença desta forma era novidade, pois trazia um único deus e um discurso pacificador, diferente da proposta do Império Romano que era politeísta. A postura cristã gerou controvérsias, tanto por parte dos judeus, como por parte das autoridades romanas, que temiam seu domínio sobre o povo – e de fato passaram a dominar. Considere que muitos habitantes do Império simpatizavam com as ideias da nova religião, pois além de pregar a igualdade entre os homens, defendia um discurso de humildade e o amor ao próximo. Então as perseguições não foram suficientes para acabar com o cristianismo. Pelo contrário, elas fortaleciam o povo cristão, que se expandia por todo o Império Romano, primeiramente entre as populações mais pobres, como os escravos, chegando aos mais abastados da população.

Na época de Constantino, diante da corrupção, dificuldade de administração, desarticulação do povo, impostos elevados e invasões de bárbaros uma das formas de tentar unificar o maior Império do mundo era criar o sentimento de unidade e nada melhor que usar uma única religião para consolidar uma liga e fortalecer a coesão social. De fato, nada melhor do que uma única palavra, uma única religião, um único sentimento, uma única crença e uma única ordem divina.

O próprio Constantino era um Imperador iniciado na tradição teológica do Sol invicto e seguidor de Mitra, mas se converteu ao cristianismo para também servir de exemplo a estímulo a sociedade romana. Sol Invicto foi o deus sol oficial do Império Romano e um patrono de soldados, também conhecido pelo nome completo de “Deus Sol Invicto”. O título invicto era aplicado a Mitra em inscrições de devotos e também aplicado ao deus Marte.

Com a conversão de Constantino o cristianismo ganhou novos adeptos em todos os grupos sociais e se expandiu com mais facilidade, acabando por se tornar indispensável para um bom governo do Império Romano temporariamente, representando uma força para a união imperial.

Rachel Weisz interpretando Hipátia em “Ágora”.

Em pouco tempo os cultos pagãos passaram a ser proibidos, como mostrado no filme “Ágora”. No ano de 385 d.c, um dos bispos responsáveis pela extinção do neoplatonismo alexandrino, Teófilo, tornou-se patriarca da cidade, sob o domínio do imperador Teodósio, comandante dos ataques contra o paganismo, e que resultou em um édito de destruição de qualquer local de culto não-cristão. Essa atitude resultou na destruição do Serapeu (Templo de Serápis, onde estava localizada a “biblioteca filha” da grande Biblioteca de Alexandria), que incitou os revoltosos cristãos a saquearem não apenas o templo, mas também aquilo que se encontrava em suas proximidades, como a Biblioteca Alexandrina. Esses eventos acarretaram no fim de estudos a partir das bibliotecas da cidade de Alexandria, pois, além de parte de seu acervo ter sido saqueado, a propagação da cultura pagã, incluindo manuscritos da Antiguidade e de diversas outras culturas não-cristãs se tornaram estritamente proibidas. Atitudes extremas foram tomadas como a ocorrida com a consagrada filósofa e matemática contemporânea aos acontecimentos Hipátia, que foi martirizada pelos cristãos por conta de sua linha de pensamento filosófica heliocentrista e sua inimizade com o bispo da época, Cirilo.

De perseguido, o cristianismo se tornara-se perseguidor e futuramente inauguraria a Idade Média com ainda mais perseguições.

Contudo, houve um preço alto que o Império acabou tendo que pagar: na medida em que a expansão do cristianismo não permitia a crença em outros deuses, que acabou intensificando a crise no império. A tentativa de unificação de um povo constituído por invasões e multiculturalizado não funcionou. Depois do Concílio de Niceia em 325 d.c ocorreu o de Laodicéia em 364 d.c e tantos outros até em 476 d.c o Império desabar.

O ovo da serpente constantinista

O cristianismo só se tornou a religião oficial do Império Romano no ano 380 d.c por ordem do imperador Teodósio I, que tornou a medida de Constantino uma lei conhecida como Édito de Tessalônica. Estabeleceu-se que o cristianismo tornaria-se, exclusivamente, a religião de estado, no Império Romano, abolindo todas as práticas politeístas dentro do império e fechando templos pagãos. Já em 395 d.c ele dava sinais quando o Teodósio sugeriu dividir em 2 o Império. Quando Roma foi saqueada em 476 d.c sobrou apenas o Império Bizantino que perdurou até próximo do Renascentismo.

A crise do Império Romano iniciou-se a partir do século II e III d.c, marcadas por corrupção, sucessivos golpes e assassinatos realizados contra imperadores, finalizando com as invasões germânicas.

Em especial, o século III foi marcado por uma grande sucessão de imperadores, o que evidenciou a instabilidade desse período, uma vez que em um período de cerca de 50 anos o Império Romano teve cerca de 16 imperadores – muitos deles mortos após conspirações.

Além disso, o fim da expansão territorial romana afetou fortemente a economia. A partir do século II, o Império Romano passou a dar prioridade na manutenção do gigantesco território conquistado. Isso afetou diretamente o sistema escravista, que era sustentado a partir dos prisioneiros de guerra. A crise do sistema escravista foi ampliada na medida em que os povos conquistados recebiam o direito à cidadania romana.

Esse contexto desencadeou uma crise econômica em razão da diminuição da produção agrícola e do encarecimento dos alimentos. O encarecimento dos alimentos gerou fome, e revoltas aconteceram em determinadas regiões. A crise econômica afetou diretamente a manutenção dos exércitos localizados nas fronteiras do Império Romano e facilitou para os bárbaros atacarem e saquearem tudo.

Contudo, mesmo com a queda do Império Ocidental a parte Oriental continuou existindo sob o nome de Império Bizantino. O império Romano que dominava parte do Oriente Médio pode ter desaparecido, mas a religião cristã se espalhou por toda Europa e posteriormente as Américas. O que nos faz pensar que as Américas só são cristãs devido aos seus colonizadores. Se o Império árabe que chegou a península Ibérica tivesse resistido por mais tempo (cerca de 2 séculos) certamente as Américas atuais seriam muçulmanas.

É sabido que durante a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano diferentes versões e interpretações da vida e obra de Jesus existiam, ficaram conhecidas como Vetus latina. Com a pregação do cristianismo por todo Império Romano, houve a necessidade de se traduzir os escritos bíblicos para os cristãos que não liam o grego ou o hebraico. Acredita-se que esta tradução dos escritos bíblicos seja do início do século I, e que foram realizadas por tradutores informais.

Não existiu uma definição oficial da bíblia denominada “Vetus latina” como uma coleção de manuscritos traduzidos para o latim que precedeu a oficialização do cristianismo no Império. Essas versões e interpretações encontradas na intitulada Vetus latina não foram consideradas autorizadas como traduções bíblicas que poderiam ser usadas por toda Igreja. Muitos dos textos que fazem parte desses manuscritos foram desenvolvidos para suprir uma necessidade de uma comunidade local.

Muitos desses manuscritos existentes contêm os quatro evangelhos canônicos e também possuem várias diferenças substanciais de um para o outro. Após a conversão do imperador Constantino, o eixo do cristianismo se deslocou do Oriente Médio para Roma. Só que, para completar a romanização da fé, faltava traduzir a palavra de deus para uma linguagem comum. A missão foi cumprida pelo teólogo Eusebius Hyeronimus, que posteriormente foi canonizado com o nome de são Jerônimo. Sob ordens do papa Damaso, Jerônimo viajou a Jerusalém em 406 para aprender hebraico e traduzir o Antigo e o Novo Testamento. O trabalho durou 17 anos.

Deste trabalho saiu a Vulgata latina, uma bíblia latina que até os dias atuais é o texto oficial da Igreja Católica e que todo mundo conhece. A Vulgata é uma obra romana que oferece o alicerce da Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto, o cristianismo é confeccionado pelas mãos de Roma. Apesar de conter erros, a Vulgata reinou absoluta ao longo da Idade Média durante séculos sem que houvesse outras traduções.

O único jeito de disseminar o livro sagrado era copiá-lo à mão, tarefa realizada pelos monges copistas. Eles raramente saíam dos mosteiros e passavam a vida copiando e catalogando manuscritos antigos. Só que, às vezes, também se metiam a fazer o papel de autores. Com a queda do Império Romano, grande parte da literatura da Antiguidade grega e romana se perdeu – foi graças ao trabalho dos monges copistas que livros como a Ilíada e a Odisséia chegaram até nós.

Ao longo do tempo a igreja nomeou vários “Doutores da Igreja” ou “Pais da igreja”, título conferido por uma variedade de igrejas cristãs a indivíduos de reconhecida importância, particularmente na consolidação da teologia e doutrina católica. No Cristianismo, tanto no Ocidente quanto no Oriente, quatro padres são chamados de “Grandes Pais da Igreja”. No Ocidente os principais são: Ambrósio, que nasceu em uma família romana cristã por volta de 340 d.c; Eusébio Sofrônio Jerônimo nasceu em Estridão por volta de 347 d.c. e Estridão era uma cidade na província romana da Dalmácia; Agostinho nasceu em 354 d.c no município de Tagaste na província romana da Numídia; e Gregório cuja origem é incerta, mas estima-se que tenha ocorrido por volta do ano 540 d.c em Roma.

No Oriente os Pais da Igreja são: Basílio, que nasceu por volta de 330 d.c em Cesareia na Capadócia, território romano; Atanásio nasceu em Alexandria ou, possivelmente, na cidade de Damanhur, perto do delta do Nilo, no Egito romano em 296 d.c; Gregório nasceu em Arianzo, perto de Nazianzo, no sudoeste da Capadócia; e João Crisóstomo foi arcebispo de Constantinopla e nasceu em 347 d.c em Antioquia, Síria (província romana). Nota-se então que todos são de origem romana.

Em sua obra “A Doutrina Cristã” Santo Agostinho lamenta a variação na qualidade dos textos presentes nos manuscritos disponíveis que foram usados para versar a bíblia. Solecismos gramaticais eram comuns e alguns reproduzem literalmente expressões no grego ou hebraico conforme constam na Septuaginta (tradução em grego do texto hebreu do Antigo Testamento, feita para uso da comunidade de judeus do Egito no final do século III a.c e no II a.c).

A Vulgata latina foi produzida para ser mais exata e mais fácil de compreender do que suas predecessoras. Portanto, é verdade que antes de Constantino o cristianismo era bastante heterodoxo, com muitas leituras teologicamente diversificadas, ricas leituras sobre as parábolas de Jesus. Com a oficialização – que foi muito mais política do que necessariamente religiosa – o “pluralismo” cristão da época foi executado diante da formulação da ortodoxia. Historicamente, a humanidade perdeu leituras cristãs muito diferentes, como a do cristianismo gnóstico, por exemplo.

Desta forma, é evidente que a leitura da vida e obra de Jesus ficou a cargo do Império Romano e graças a Constantino, de tal forma que em termos genuínos o cristianismo morreu com Jesus e o que veio depois deste imperador nada mais é do que uma leitura meramente romana do que acreditavam ser a verdade sobre a vida e obra de Jesus, com leituras folclóricas, metáforas e figuras de linguagem muito bem delineadas no pressuposto teológico do personagem Jesus.

Denominamos isto de Romanismo ou Constantinismo na medida em que o verdadeiro legado do pensamento de Jesus se perdeu quando ele foi morto e quando a igreja romana determinou a ortodoxia do cristianismo pelas suas próprias mãos.

O que vem depois da morte de Jesus é, então, apenas leituras humanas corrompidas de um Império que inaugurou a Igreja Católica Apostólica Romana e a Idade Média. Os doutores da igreja eram todos romanos, como vimos acima, que determinaram e estruturam o cristianismo segundo as necessidades do Império e os objetivos do Imperador Constantino. Ainda que eventualmente tivessem competências apostólicas; deveríamos confiar que obedeceram critérios apostólicos? Ou será que os doutores da igreja delinearam critérios que convinham a manutenção política do Império?

O grande salto de fé que os cristãos dão hoje não é em relação a existência de deus, mas é – antes de tudo – um salto em direção a acreditar em um Romanismo que determinou o que hoje é conhecido como cristianismo. O cristianismo morreu com Jesus, o que veio posteriormente restringe-se a uma leitura corrompida com os vícios dos seus discípulos, de romanos, de filósofos como Agostinho e de releituras (como a dos protestantes na Reforma). Consideremos oficiais ou não, quem determinou as bases do cristianismo foram os romanos. Assim, a concepção real de Jesus e sua vida foi perdida no meio de todas estas releituras, ortodoxias e queima de informações que não contemplavam o cânon. Restou apenas aquilo que a fé individualmente determina segundo um livro romano dito sagrado, e não o Jesus em si – que a concepção histórica dele tenta resgatar com a arqueologia sírio-palestina.

Mesmo o cânone é duvidoso. Notemos, por exemplo, o livro de Hebreus que supostamente uma carta paulina (sem comprovação de autoria). Deveriam estar na bíblia ou ser considerados apócrifos? O livro de apocalipse (que foi introduzido na bíblia após sua elaboração) bebe de fontes mais antigas e apócrifas (como Livro de Enoque). Além do fato de ter sido escrito por João de Patmos e não São João.

Apocalipse 4:8

“E os quatro animais tinham, cada um de per si, seis asas, e ao redor, e por dentro, estavam cheios de olhos; e não descansam nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir”.

II Enoque 19 21-1

“E os querubins e serafins que estavam perto do trono, os de seis asas e muitos olhos não se afastaram da face do Senhor, fazendo sua vontade e rodeando seu trono, cantando com doces vozes diante da face do Senhor: “Santo, Santo, Santo, Senhor Soberano de Sabaoth, céus e terra estão pleitos de tua glória”

A datação paleográfica datou os documentos de Qumran entre 200 a.C. e o fim do primeiro século da era cristã – eles compõem o Livro de Enoque. A datação de Apocalipse de João de Patmos a partir do radiocarbono estabelece sua origem entre 81 e 96 d.C

No Novo Testamento encontramos os quatro evangelhos: Marcos, Mateus, Lucas e João. Eles foram escolhidos para formar as regras representativas das comunidades cristãs espalhadas no Império Romano, cujo objetivo era falar expressamente de Jesus e dos seus ensinamentos.

O evangelho de Marcos foi escrito na Síria, por um cristão desconhecido, por volta do ano 70 d.c, utilizando várias fontes. Entretanto, alguns dos materiais presentes neste evangelho são bastante antigos, representando uma importante fonte de informações históricas sobre um Jesus histórico.

Alguns pesquisadores acreditam que o evangelho de Mateus foi composto na parte final do século I por um judeu cristão (Foster, 2003), o período mais aceitável por evidências históricas é entre a queda de Jerusalém 70 d.c. e de Inácio de Antioquia ao escrever a epístola aos Esmirniotas por volta de 115 d.c. O consenso atual é que o livro de Mateus foi originalmente escrito em grego por um autor desconhecido e baseado em fontes como o evangelho de Marcos e na Fonte Q. A Fonte Q é uma fonte hipotética usada na redação tanto no evangelho de Mateus quanto no de Lucas, pois representa um material em comum consultado, mas não no evangelho de Marcos. Este texto supostamente continha várias palavras e sermões de Jesus (Schiavo, 2009).

O evangelho é escrito como uma narrativa histórica, e muitas das retratações são feitas sob o uso de tradições orais e anteriores aos quatro evangelhos canônicos, além de ser baseado não em fatos, mas em um sistema religioso de devoção, representando a crença e não a realidade.

O evangelho de Lucas também pode ter utilizado registros escritos independentes e sua composição data do início dos anos 60 d.c (Carson et al, 1997). Há uma crítica ao evangelho de Lucas, que apresentaria possíveis contradições entre Atos dos Apóstolos e as cartas de Paulo, induzindo muitos estudiosos a duvidar do evangelho (Gerd & Merz, 1998). De acordo com a opinião da maioria, o autor do evangelho é simplesmente desconhecido e que o autor também escreveu os Atos dos Apóstolos (Cullman, 2001). Muitos acreditam que o evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos originalmente constituíam uma obra de dois volumes (Aune, 1987), que os estudiosos chamam de Lucas-Atos (Miller, 1992). Embora o semitismo exista por todo livro, a obra foi composta em grego koiné (Ben Witherington, 2005).

O evangelho de João foi escrito entre os anos 95 e 100 d.C. Cronologicamente, foi o último a ser escrito. Seu propósito foi inspirar os leitores a fé em Jesus Cristo como o filho de deus e dar ênfase à dependência humana em relação a deus para ser salvo. A maioria dos papiros encontrados data dos primeiros 300 anos da Era Cristã. Sendo assim, é possível estabelecer um estudo da gramática desse período. Com base nos argumentos da gramática histórica, a composição dos livros do Novo Testamento é datada do primeiro século da nossa Era. O Papiro P52, fragmento do evangelho de João, encontrado no Egito em 1920 por C. H. Roberts pode ser paleograficamente datado de c. 125 d.c. Contém partes do capítulo 18 do evangelho de João, em grego (31 – 33 e 37-38). Embora o papiro seja aceito geralmente como registro canônico, a datação do papiro não é consensual entre os pesquisadores. Mas o estilo da escrita leva a uma data entre os anos de 125 e 160 d.c.

Há várias teses sobre a origem de diferentes livros da Bíblia. Uma delas sugere que em 397 João Crisóstomo reestruturou os escritos de Apolônio de Tiana, um sábio local, e inseriu-os no Novo Testamento (Secrets of the Christian Fathers, op. cit.). O nome latim de Apolônio é Paulus, conhecido hoje como epístolas de Paulo, companheiro de Damis, um escriba assírio, que é Demas citado no Novo Testamento (2 Timótio 4:10) (Latin-English Dictionary, J. T White and J. E. Ridlle, Ginn & Heath, Boston, 1880).

Mesmo Paulo, que supostamente forneceu a primeira estrutura filosófica do cristianismo, era romano e nada melhor para o próprio Império que usar um cristianismo oficializado para tirar de cima de si mesmo o peso por ter dado o aval para a crucificação do seu próprio salvador.

Portanto, não apenas o cristianismo era uma criação romana, mas era heterodoxo, elaborado com objetivos políticos claros e também foi entendido sob outra ótica além da religiosa ao subverter elementos da filosofia grega que convenhamos, evidentemente não faz parte do cânon.

Agostinho

Agostinho leva a vulgarização da filosofia platônica ao inseri-la no cristianismo. A filosofia platônico-cristã refere-se a correntes presentes na Filosofia da Idade Média que fez uso da apropriação da filosofia platônica pelos primeiros padres da Igreja Cristã (a chamada Patrística). À medida que a Igreja se tornava a instituição mais poderosa do Ocidente, a filosofia de Santo Agostinho definia a cultura de seu tempo. Educação e catequese praticamente se equivaliam – as escolas eram orientadas para a formação de membros do clero, ficando em segundo plano a transmissão dos conteúdos tradicionais.

O conhecimento tinha lugar central na filosofia de Santo Agostinho, mas ele se confundia com a fé. Diante disso, a educação patrística, em referência aos padres que a ministravam estimulava acima de tudo a obediência aos mestres, a resignação e a humildade diante do desconhecido. O objetivo era treinar o controle das paixões para merecer a salvação em uma suposta vida após a morte. Esta educação usava elementos do mundo real e das ideias de Platão. O mundo perfeito, sem sofrimento só existe em outro plano, portanto, o mundo ideal é aquele invisível e inalcançável em vida. Nosso mundo físico é imperfeito, corruptível e cheio de sofrimento. Sendo assim, o mundo perfeito, só pode ser acessível seguindo um conjunto de regras e condutas específicas. Este é o custo para ganhar o acesso ao mundo perfeito de felicidade absoluta – o paraíso – seguir a doutrina cristã.

Vejo muitos evangélicos atualmente defendendo os pais da igreja e a validade dos critérios de canonização, mas não podemos esquecer que eles eram romanos agindo para os interesses do Império. Se os detalhes históricos já evidenciam um cristianismo moldado aos interesses romanos, lembremo-nos que a Reforma Protestante traz uma completa revisão do cristianismo e mais uma vez, uma releitura cristã vai se apresentar como absolutamente correta tal como a ortodoxia do Império Romano. A Reforma que vai rever as bases do cristianismo usa exatamente as mesmas fontes bíblicas católicas e, portanto, reproduz exatamente o livro católico sob uma nova ótica.

No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero fixou na porta da igreja do Castelo as 95 teses que criticavam certas práticas da Igreja Católica. Atualmente, luteranos de todo mundo comemoram neste dia o “Dia da Reforma Protestante”. Em 2017, a Reforma Protestante fez 500 anos.

Quando o dominicano Tetzel foi vender indulgências em Wittemberg, Martinho Lutero (1483-1546), se pronunciou contrário. Lutero ingressou no mosteiro de Erfurt e tornou-se professor na Universidade de Wittemberg. Diante das indulgências, ele afixou suas teses ou convites para o debate na comunidade desafiando a autoridade da Igreja.

O protestantismo vai se diferenciar do catolicismo a partir da liturgia e da teologia bíblica considerando-a como a Palavra de Deus e a suprema autoridade da Igreja, segundo o conceito de sola fides (somente as Escrituras), sem a interposição de méritos obtidos por obras praticadas, diferente da igreja católica.

Martinho Lutero

O protestantismo não reconhece senão a autoridade da bíblia, negando a tradição católica e apregoa o livre exame da bíblia sem a intermediação da Igreja. Outra diferença temática é em relação a autoridade doutrinária que a Igreja Católica reivindicava. Para Lutero se a religião é oficial, ao Estado cabe zelar pela preservação das verdades da fé e autoridade da bíblia, tal como Lutero a interpretava. A Igreja Católica atribuía – e ainda o faz – a si uma autoridade doutrinária pelo fato de ser a Igreja instituída por Cristo sobre o fundamento dos Apóstolos, mas não afirma que os bispos e os Papas sejam outros Apóstolos no sentido de fundadores da Igreja, independentes da primeira geração, mas que os Papas são guardiães e transmissores, credenciados por Cristo, do depósito sagrado que receberam dos Apóstolos.

Outra diferença está nos Sacramentos, considerados sete no Catolicismo e apenas dois no protestantismo. Os sacramentos católicos vão desde o nascimento até à morte do fiel: o batismo, a crisma ou confirmação, confissão de pecados, eucaristia ou ceia da comunhão, casamento, ordem ou ordenação, extrema unção. Para o protestantismo são consideradas como sacramentos apenas aqueles que o próprio Cristo ordenou: o batismo e a ceia eucarística (comunhão), entendida como transubstanciação, ou seja, o pão e o vinho simbolizados na hóstia se transformam no próprio corpo e sangue de Cristo – o que gerou bastante discussão entre os próprios protestantes.

Portanto, enquanto os protestantes ou reformados magisteriais (luteranos, calvinistas e anglicanos) no século XVI buscaram restaurar a estima e o culto da palavra de deus uma vez que para eles, todos os predicados de santificação estavam sendo trocados por mentalidades e escolas filosóficas decadentes no fim da Idade Média. Neste sentido, os protestantes também ultrapassaram os limites das próprias escrituras por conta de interpretações humanas e subjetivismo.

O Romanismo atualmente

Se a própria estrutura escrita do cristianismo que é resultado de interesses romanos coloca em xeque o que se entende por cristianismo, há também um profundo desalinhamento do próprio indivíduo cristão com os pressupostos de suas crenças em função de uma releitura teológica que retira Jesus e insere o homem como centro das atenções. A leitura personalizada de uma religiosidade cristã light tem permitido o indivíduo se permitir defender pressupostos claramente incoerentes a estrutura teológica de sua crença. Uma pobreza teológica domina o cenário cristão atualmente. Apesar de se falar em nome de deus com muito mais frequência e familiaridade as práticas são pobres e ocorrem em função de interesses materiais e individuais.

Agostinho dizia que a pessoa que rejeita o que afirma a bíblia e seleciona somente o que quer dela para justificar sua própria posição não acredita em deus, mas apenas em si mesmo. Tal personalização da fé/deus/Jesus desobriga a responsabilização dos atos cometidos em nome de deus e permite o fiel aceitar elementos que estão além da bíblia e discordar de elementos básicos de sua bíblia.

A concepção de um deus/Jesus subjetivo, menos autoritário faz com que as pessoas não se sintam ameaçadas por uma punição divina quando sentem que de fato suas atrocidades são em nome do divino. Os cristãos sentem que uma devoção cega – qualitativamente inferior – é suficiente para lhe garantir o reino da eternidade. Notemos que no Brasil a população carcerária é composta majoritariamente por cristãos que sentem-se merecedores do Reino dos céus, reforçando a ideia de uma espécie de liquidez que o cristianismo se permitiu especialmente após a década de 70 – no Brasil.

Isto permite as pessoas defenderem torturas em nome de Jesus, pena de morte e atrocidades que outrora foram pregadas como absolutamente incoerentes a teologia cristã e que foram cometidas contra o símbolo do cristianismo, Jesus. Em sua perspectiva plena, ser cristão é ser, por obrigação, contra tortura ou a violência, pois o corpo humano é o corpo de Cristo. Afinal, qual seria a diferença entre um cristão armado em nome de seu deus e um jihadista do Estado Islâmico armado? Ambos usam deus como liga para a coesão social e criar o sentimento de unidade e justificar atrocidades! Em nome de Jesus o cristão está se igualando exatamente a grupos fundamentalistas que usam o nome de seus deuses para cometer atrocidades. Quem elogia a tortura é abusivamente inimigo de Jesus e da fé cristã, pois o representante de tal religião foi torturado e destruído sob a condenação de pena de morte.

A condenação de outrem em nome de uma moral erguida sob os pilares de um pensamento cristão é uma conta cara que o cristianismo terá de pagar no futuro por seguir todo este caminho atual associando-se a barbáries. Não é possível julgar uma pessoa por sua conduta (criminosa ou não) e condená-la em nome da crença cristã. Jesus escolheu preferencialmente viver ao lado de pecadores, pessoas socialmente excluídas, pobres, prostitutas e adúlteros. Ao que parece o cristianismo atual se esqueceu destes detalhes mínimos.

Quando o cristianismo afirma que quem não tiver pecado atire a primeira pedra, versava exatamente da hipocrisia e das posturas alinhadas de muitas pessoas que agem hoje como fariseus – religiosos por fora, hipócritas por dentro. Para a filosofia de Jesus, não se deve interromper a prática do pecado a partir de outro pecado, e tão pouco a partir do crime. Roubar e matar são errados, mas se deveria fazer o que for preciso dentro da lei para direcionar e orientar a pessoa a deixar de ser um criminoso, desalinhando-se da máxima de que “bandido bom é bandido morto” – frase característica de quem não conhece e não vive o ou prega ao se assumir cristão.

Justiça não é a eliminação de quem se considera errado em nome de deus. Não deve-se usar a teologia cristã para defender a punição severa e absoluta, e tão pouco personalizar Jesus para que este apoie a crença pessoal de que a justiça deve ser feita pelas próprias mãos, pela pena de morte ou pelo porte de arma. Jesus não deveria ser apresentado como um justiceiro, mas como justo. Neste sentido, o papel dos cristãos e especialmente dos sacerdotes (pastores) tem feito um péssimo trabalho. Na concepção personalizada de um novo cristianismo o cristão acabou com a prática da misericórdia usando o nome de um Jesus misericordioso, defende a tortura em nome de um Jesus torturado e usa sua crença pessoas em um deus customizado para justificar suas atrocidades e ódios pessoais. Como ser cristão desprezando o código de conduta mínimo que o cristianismo determina no livro de Mateus 5 e 6?

Um cristão não deveria julga, não distinguiria pessoas independente de suas especificidades (cor, sexualidade ou pelos pecados cometidos), não condena outro ser humano porque sabe que tal atributo pertenceria somente a deus e não ao homem imperfeito. Um cristão deveria entender que jamais poderia dizer “direitos humanos para humanos direitos” porque entende o significado do termo “humano” e que não pode atirar a primeira pedra sendo imperfeito. Um cristão deveria entender que o objetivo final é perdoar (a indulgência) dada sua condição de imperfeição e, portanto, não tem competência para advogar contra o outro. Um cristão deveria entender que o direito a vida é para todos os humanos, independente de seus pecados ou virtudes. Cristão não é aquele que visita a igreja uma vez por semana, mas aquele que se põe no lugar do outro e ama o próximo independente dos defeitos e das virtudes. O exercício proposto por Jesus na bíblia não é amar o próximo que pensa exatamente como nós. Cristão que ama outro cristão da mesma igreja não é o real ensinamento de Jesus, amar quem pensa de forma distinta, quem sequer é cristão e amar inclusive o inimigo compreende o ensinamento de Jesus. Neste sentido, a grande maioria das pessoas que se assumem como cristãs não passariam neste critério de Jesus e agem como fariseus.

Se por um lado o cristão reduziu deus a um dispositivo de validação de pensamentos individuais legitimando seus interesses como sendo os de deus, por outro lado o cristianismo ganha características que vão além de seus próprios limites teológicos.

Uma característica contemporânea do cristianismo no Brasil é que ele diluiu deus a uma concepção animista. Deus agora está em tudo (trazendo o cristianismo para a dominância do campo panteísta), exceto dentro do coração das pessoas. Contudo, o cristianismo em sua longa jornada de colonização mundial e re-significação de cultos alheios absorve elementos de outras tradições e culturas que são elevados a status divinos e que o aproximam a uma espécie de neo-paganismo.

Em ambos os elementos, deus e Jesus são extrapolados aos limites do interesse individual do cristão. Nesta concepção o mundo conspira, graças a deus, a seu favor individual, pois deus compreende a pessoa. A infantilização de deus como um salvador que obrigatoriamente dará o reino dos céus ao crente leva as pessoas a manifestarem publicamente sua crença, embora elas não expressem qualquer compromisso significativo com as atitudes cristãs, devoção verdadeira ou com preceitos básicos da bíblia. Deus serve ao homem para trazer a cura, e não mais explicar a angustia e a dimensão trágica da existência humana. As pessoas clamam a deus não pela nação ou pelo povo, mas para si mesmas evidenciando que a dimensão coletiva de deus perdeu o sentido. Quando se manifesta de forma coletiva nos tempos atuais, é qualitativamente inferior, com a citação de fragmentos bíblicos e o total o desprezo do contexto original que foi retirado.

A leitura do real significado do cristianismo se diluiu tanto que permite manifestar-se em associação a outras leituras religiosas, se relacionando ao animismo (deus conspira o universo), a concepção new age (o deus na picaretagem quântica), no panteísmo (deus em tudo) e na energia (deus explica a existência). O cristão hoje medita, consulta astrólogos, incorpora elementos de outras religiões como a consciência cósmica, cabala, faz um passe, frequente mesa branca espírita, faz simpatias e se veste de branco no Reveillon (algo que é característico de religiões africanas, embora satanize tais práticas nos outros dias do ano). Todas essas são características claramente alinhadas ora ao panteísmo ou, ora a um neo-paganismo.

A busca atual é de um cristianismo em que tudo que ocorre se faz em função de um bem pessoal e não um bem maior. As doenças são punições por uma vida de pecado, as pessoas más morrem de câncer ou HIV por não estarem alinhadas a crença cristã e ao mesmo tempo, deus pune quem critica um “ungido do senhor”, o otimismo e a fé curam tudo porque o suposto deus infantil nos serve em função do quanto o alimentamos aos domingos.

Estes são atributo que também fazem parte da manifestação religiosa da teologia da prosperidade como elemento de substituição a teologia da libertação. Deus abençoa e traz a prosperidade individual não só da sua saúde, mas principalmente e especialmente  na prosperidade material. Deus deixou de estar ao lado dos pobres e agora se manifesta ao lado dos ricos e da classe média em ascensão. Ao mesmo tempo, a fé se tornou midiática, expressa não mais em compromissos sérios e duradouros de devoção absoluta e entrega, mas em cultos televisivos e sendo manifestada em marchas popularescas expondo um Jesus infantilizado, submisso aos desejos materiais e políticos humanos. A dimensão espiritual se perdeu e deu origem a dimensão material – e com ela a indústria da fé com pastores sendo divinizados.

A fé midiática ganhou todas as emissoras de TV com programas evangélicos e garante o futuro da religião dentro de reciclagens teológicas, releituras cristãs e customização de deus ramificando e ganhando campos nunca antes fertilizados.

Nunca houve tantas pessoas evangélicas na periferia e tantas ramificações protestantes – e o interesse político no setor evangélico repete o interesse de Roma no cristianismo. Lembremos que historicamente, as cidades brasileiras foram fundadas pela nossa tradição portuguesa católica. Como de praxe, os centros das cidades são marcados por uma igreja católica e a partir dela a cidade cresce para todos os lados. Nas cidades grandes as periferias esquecidas pelo poder público serviram de nicho aberto para a colonização da teologia evangélica que serve como uma diretriz moral as famílias dentro de uma conduta cristã. Afinal, o poder público falha em fiscalizar educar e orientar os indivíduos.  Ao mesmo tempo que o evangelho faz um serviço social ao guiar as pessoas em uma conduta não-criminosa, o cristianismo também sobrevive do esvaziamento da responsabilidade religiosa e deturpação de Jesus e direciona o povo de deus a interesses políticos – absolutamente nada diferente do que ocorreu no Império Romano com Constantino.

A fé se tornou uma forma de fugir de punições em vez de entrega total as responsabilidades religiosas, aos rituais, sermões e participação efetiva de deus nas decisões cotidianas do indivíduo. A fé como entrega total a uma vida religiosa dentro de um convento ou que leva o indivíduo a doar tudo em nome de um bem maior foi perdida em função de uma fé que favorece interesses individuais. Na tristeza deus consola, na felicidade deus garante sua permanência, nos obstáculos deus ajuda a superar, na facilidade deus ajuda a manter. Deus se tornou um amuleto que serve somente ao egoísmo das pessoas, reduzido a um cão domesticado que se alimenta e ele devolve bênçãos. Deus foi reduzido a dimensão de um gênio da lâmpada mágica que serve para suprir nossos desejos quando precisamos de ajuda. Deus se tornou a galinha que bota os ovos de ouro graças aos domingos de devoção.

O cristianismo surge como fruto de um contexto social e histórico específico, moldado segundo objetivos estabelecidos por um Império que resume-se a uma revolução político-teologia romana constantinista e que se disseminou pela Europa com releituras diversas em suas praticas litúrgicas. A reinterpretação é tão evidente que mesmo a representação das características de Jesus e mesmo do que se entendia por inferno ganharam uma face europeia.

Todas as tentativas de justificar o cristianismo como a leitura única e palavra verdadeira a respeito de deus falharam porque partem de uma posição doutrinária ofensiva, que visa conversão e não solucionar ou argumentar quanto a todos eles elementos que fazem parte da história do cristianismo. Por esta razão, até o momento o cristianismo se apresenta como mais uma tentativa infantil e limitada da natureza humana de entender sob a ótica de um discurso vazio questões básicas que remontam a origem da humanidade.

O cristianismo pode dar conta de confortar na tristeza e subsidiar o sentimento de bondade na pessoa, mas historicamente suas bases são claramente humanas, limitadas aos interesses romanos e sem dimensões profundas. Certamente aceita-lo como verdade e ignorar qualquer tentativa de questionar a origem de um livro de mais de 1500 anos é muito confortável a qualquer um que não deseja verificar como estão os pilares que sustentam sua própria fé.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Igreja Católica, Cristianismo, Constantino, Rom, Imperadores, Concílio de Nicéia.

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Referências

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Secrets of the Christian Fathers, op. cit.