DUAS LINHAGENS DE PRIMATAS CRUZARAM O ATLÂNTICO HÁ MILHÕES DE ANOS. (Comentado)

Novas descobertas fósseis sugerem que um segundo grupo atravessou cerca de 35 a 32 milhões de anos atrás.

Os dentes do recém-descoberto primata de Ucayalipithecus no Peru se assemelham aos dos primatas que viveram no norte da África já há cerca de 56 milhões de anos, dizem os cientistas. E. Seiffert.

Quatro dentes molares fossilizados escavados na bacia amazônica do Peru provêm de uma linhagem de primatas agora extinta que atravessou o Oceano Atlântico a partir da África e atingiu o local interior entre 35 e 32 milhões de anos atrás, dizem os pesquisadores.

Até agora, os locais da América do Sul haviam produzido apenas fósseis de primatas ancestrais aos que habitam o continente hoje. Fósseis do mesmo local peruano haviam sugerido anteriormente que os ancestrais dos modernos macacos sul-americanos atravessaram o oceano partindo da África cerca de 36 milhões de anos atrás. A nova descoberta adiciona um segundo grupo de chegadas de primatas.

Os dentes se assemelham aos dos Parapithecideos, uma família de primatas que habitava o norte da África entre 56 e 23 milhões de anos atrás, diz o paleontólogo Erik Seiffert, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles e seus colegas. Como os ancestrais dos macacos vivos da América do Sul, os parapithecideos devem ter atravessado o mar em tapetes de vegetação criados por tempestades, concluíram os cientistas na revista Science.

Correntes oceânicas favoráveis ​​e um Oceano Atlântico mais estreito do que hoje, devido aos níveis mais baixos do mar, ajudaram os primatas antigos a flutuarem pelo oceano. Ainda assim, o Atlântico provavelmente tinha mais de 1.500 a 2.000 quilômetros de largura quando ocorreram cruzamentos, dizem os cientistas.

As duas linhagens de primatas se adaptaram bem a um novo continente, viajando de onde aterrissaram na América do Sul a mais de 4.000 quilômetros até o interior do país, segundo os pesquisadores. O grupo de Seiffert suspeita que ambos os grupos tenham competido por recursos até que Ucayalipithecus, o nome de gênero dado aos fósseis recém-relatados, acabou por desaparecer.

Fonte: Science News

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Comentários internos

É difícil saber exatamente quando os primeiros primatas precisamente chegaram e colonizaram a América do sul porque florestas úmidas como a Amazônia e Mata Atlântica dificultam o processo de fossilização. Este é exatamente o mesmo problema que os especialistas em morcegos encontram para decifrar a origem deste grupo animal. Se morcegos surgiram a partir de animais planadores com um comportamento arborícola semelhante ao dos colugos, então o ancestral de todos os morcegos preencheu um nicho em floresta densa, úmida e fechada, que caracteristicamente é um local de difícil fossilização.

Seja para morcegos ou para primatas, poucos são os fósseis que nos dão pistas de como esses animais surgiram ou de onde vieram. Atualmente, existem cerca de 150 espécies de macacos do Novo Mundo cientificamente classificados como Platyrrhini, que significa “nariz chato”. Eles vivem na América Central e do Sul e incluem desde os macacos prego, saguis, micos-leões, macacos-esquilo, macacos noturnos, macacos-coruja, macacos bugios, macacos-aranha e macacos-aranha lanosos.

A princípio poderíamos pensar que a América do Sul foi se afastando dos demais continentes a partir da deriva continental, tendo se destacado da África a 90 a 120 milhões de anos atrás. Os animais que viviam na América do Sul na época em que esses continentes divergiam seguiram linhagens independentes e evoluíram para uma variedade de diferentes tipos de animais isolados. Por exemplo, os avestruzes na África, ema na América do Sul e emus na Austrália. Isto faz bastante sentido no caso dessas aves, mas não com primatas do Novo mundo. Isto porque o grupo dos primatas surgiu após a separação dos continentes. Primatas surgem com continentes já separados.

A linhagem dos primatas surgiu há cerca de 65 milhões de anos (Williams et al, 2010), apesar do mais antigo fóssil de primata ser o Plesiadapis (datado entre 55 a 58 milhões de anos atrás) do final do Paleoceno. Estudos com relógio molecular estimam a origem dos primatas para cerca de 85 milhões de anos atrás, no Cretáceo Médio (Lee, 1999).

Ou seja, os primatas surgem quando os continentes já estavam separados há pelo menos 50 milhões de anos e quando os primeiros macacos chegam na América do Sul já havia se passado pelo menos 85 milhões desde o início da deriva dos continentes.

Muitas hipóteses sobre como os primatas chegaram ao Novo Mundo foram levantadas. Uma delas defende que uma dispersão de primatas asiáticos primitivos poderia ter chegado a América do Sul seguindo uma rota através da Antártica (Houle, 1999). Embora existam diversos fósseis primitivos de primatas encontrados na Ásia, a ausência de fósseis de primatas na Antártica descarta efetivamente essa hipótese (Kay, Ross e Williams, 1997).

Outra hipótese liga primatas Sul-americanos e africanos. De acordo com essa última hipótese, os primatas poderiam ter se originado na América do Sul e subsequentemente migrado para a África (Szalay, 1975). No entanto, a falta de exemplares prossímios no registro fóssil da América do Sul lança dúvidas sobre essa hipótese. Além disso, há fósseis de primatas africanos que são muito mais antigos que os primatas fósseis da América do Sul (Fleagle, 1999).

Contudo, é inegável que há muitas semelhanças morfológicas entre macacos do Novo Mundo e os fósseis africanos de primatas, particularmente os dos depósitos de Fayum no Egito, que indicam que os ancestrais dos primatas Platyrrhini provavelmente vieram da África (Ross, Williams e Kay 1998; Houle 1999) e não o contrário.

Se admitirmos uma origem africana para macacos Sul-americanos, a questão de como eles fizeram a jornada ainda precisa ser esclarecida. Uma viagem transatlântica da África para a América do Sul não é uma tarefa fácil para primatas. Sabe-se que, apesar da disposição geral inalterada das massas continentais, várias mudanças drásticas no clima marcaram a fronteira Eoceno-Oligoceno (Ivany, Patterson e Lohmann, 2000), ou seja, por volta de 39 milhões de anos.

Tais mudanças também incluem variações nas temperaturas globais que podem ter afetado o nível do mar; cordilheiras do Oceano Atlântico Sul, como a Serra Leoa e o Walvis Ridge que poderiam ter sido expostas como ilhas, criando caminhos que, em conjunto com correntes favoráveis ​​de água e vento que permitiram a migração da fauna para a isolada América do Sul (Houle, 1999).

O fato é que outros mamíferos também invadiram o continente Sul-americano vindos da África, como os roedores caviomorfos do Novo Mundo que apareceram repentinamente no registro fóssil da América do Sul aproximadamente ao mesmo tempo em que os primatas do Novo Mundo (Wyss et al, 1993). Curiosamente, esses mamíferos, como o Novo Mundo, também têm uma relação de táxon irmã com grupos africanos, os roedores phomomorfos (Mouchaty et al. 2001). Então, a existência de uma conexão faunística entre a África e a América do Sul na transição Eoceno-Oligoceno é bastante sugestiva e corroborada por fósseis (Schrago, C. G.; Russo, 2003).

Os biólogos defendem a tese de que os ancestrais dos macacos do Novo Mundo migraram da África atravessando o Atlântico. Na época o istmo do Panamá ainda não havia se formado e as correntes oceânicas e o clima eram bem diferentes. O oceano Atlântico tinha menos de um terço dos atuais 2.800 km de largura; possivelmente 1.000 km a menos, com base na estimativa atual dos processos de formação de cordilheira no meio do oceano Atlântico, com taxa de espalhamento de 25 mm/ano.

A travessia poderia ter ocorrido de duas maneiras, como sugerem as hipóteses científicas. A primeira é a partir de uma “balsa de vegetação”, ou seja, uma viagem de mais de 1300 quilômetros em jangadas flutuantes de vegetação que se desprenderam do litoral, possivelmente durante uma tempestade.

Pode parecer impossível, mas há evidências e registros disto ocorrendo. Em junho de 2012, uma doca do tamanho de um vagão de trem chegou flutuando na Agate Beach, em Oregon, ao norte de Newport. Uma placa fixada ao lado trazia escrituras em japonês, revelando que o material passou por uma longa uma jornada que começou na cidade costeira japonesa de Misawa durante o tsunami catastrófico de 11 de março de 2011. Durante 9 meses ela vagou do Japão até os EUA.

O mais interessante é que a doca carregava vários habitantes, cerca de cem espécies, incluindo moluscos, anêmonas, esponjas, ostras, caranguejos, cracas, minhocas, estrelas do mar, mexilhões e ouriços do mar. Eles percorreram meses no mar, até 8.000 quilômetros no Pacífico Oceano. Biólogos marinhos do Hatfield Marine Science Center da Oregon State University estudaram a doca e identificaram as espécies asiáticas.

Doca na região de Agate Beach.

Antes deste exemplo das docas japonesas, o caso moderno mais conhecido de rafting de longa distância ocorreu em 1995, quando uma dúzia ou mais de iguanas verdes foram vistas nadando em uma jangada flutuante de árvores desenraizadas que chegou a ilha caribenha de Anguilla, que anteriormente não tinham iguana alguma.

As iguanas naufragas foram avistadas por pescadores algumas semanas depois que os furacões Luis e Marilyn passaram pelas ilhas. Com base nos padrões e correntes de tempestades na região, as iguanas foram localizadas na ilha de Guadalupe, localizada a várias centenas de quilômetros a sudeste. O evento foi relatado na Nature em 1998, depois que uma pesquisa encontrou iguanas reprodutoras masculinas e femininas em Anguilla, confirmando que os répteis não-nativos haviam sobrevivido e colonizado a ilha. Tudo isto nos leva a concluir que qualquer coisa que flutue pode ser usada como jangada: tapetes de algas, baleias mortas, blocos de gelo, árvores arrancadas, docas e até pedra-pomes vulcânica e plásticos.

Eventualmente, nem mesmo com uso de rafting ocorre, mas o próprio animal é lançado ao mar e com sorte pode colonizar ilhas próximas. Um exemplo disto foi filmado por um praticando de caiaque que filmou uma iguana nadando no meio do mar caribenho entre os EUA e Cuba. Em seu relato no youtube ele diz “Já vi muita coisa nadando pelas ilhas, mas nunca tão longe”.

Sabe-se que durante tempestades e eventos de inundação enormes pedaços flutuantes de terra, verdadeiros “iates”, completos com vegetação viva, árvores verticais e ecossistemas em miniatura podem se formar e flutuar durante longos períodos de tempo e longas distâncias. Em alguns casos não são apenas pedaços de vegetação, mas ilhas inteiras, com mais de um quilômetro de diâmetro, tão sólidas que animais e até humanos poderiam subir a bordo e andar.

Charles Darwin discorreu sobre essa possibilidade em sua obra “A Origem das Espécies” em 1859, no capítulo XII denominado Distribuição Geográfica, especificamente no tópico “Meios de Dispersão” onde tratou de destacar modos e experimentos pela qual espécies poderiam atravessar longas distâncias. Neste tópico ele cita enchentes e frutos carregados até o mar dispersando-se por longas distâncias; sementes flutuando na água por longas distâncias; e um experimento feito pelo próprio Darwin sobre avelãs e aspargos flutuando na água por longos períodos de tempo.

No início de 2016, como resultado das inundações da bacia do Rio da Prata, as costas deste curso de água foram afetadas pela chegada maciça de vegetação flutuante. O objetivo da presente contribuição é relatar pela primeira vez a flora arrastada pelas balsas da planta jacinto-de-água (Eichhornia) até a costa do Rio da Prata na província de Buenos Aires, o volume de vegetação transportada e até onde ela pode chegar no oceano.

Nos rios da América do Sul, a planta Eichhornia crassipes e outros vegetais flutuantes se entrelaçam e formam jangadas flutuantes conhecidas como “camalotales”, que são especialmente abundantes durante os períodos de inundação. Durante inundações extraordinárias, hectares de tapetes flutuantes são desviados pelos rios da Bacia do Prata. No Rio da Prata, vários relatórios sugerem que muitas espécies de animais e plantas de latitudes subtropicais colonizam a área através dessas grandes balsas. Foram registradas 32 espécies de plantas vasculares arrastadas pelo sistema fluvial Paraná-Prata para a província de Buenos Aires, nordeste. Além das jangadas típicas da Eichhornia, foi observada a presença de plantas canutillares e embalsados, além de plantas enraizadas, troncos e muitos resíduos que também contribuíram para o arrasto passivo da biota ripária (Guerrero et al, 2018).

Darwin também fez experimentos com galhos expostos à água salgada e dispersos no mar. Também cita o experimento de Martens sobre este mesmo tema; como pássaros mortos no mar dispersam sementes de seu conteúdo estomacal em longas distâncias. Darwin cita a presença de gafanhotos dispersando sementes em ilhas distantes do continente e até como os pés de aves migratórias com torrões de terra acabam dispersando sementes ali fixadas. Isto não é difícil de imaginar. A Antártida sofre uma invasão de plantas exóticas carregadas deste modo, porém, causado pelo homem de forma não-intencional. As plantas exóticas já crescem na Península Antártica com o aquecimento da região resultado das mudanças climáticas. No artigo Continent-wide risk assessment for the establishment of nonindigenous species in Antarctica publicado na revista PNAS, uma equipe de pesquisadores destacou que as plantas são propensas a se espalharem com o aquecimento do clima.

A Península Antártica, se aqueceu em cerca de 3ºC em mais de meio século. Como resultado, a cobertura de gelo está diminuindo e sendo gradualmente substituída por vegetação. Muitas ilhas da região sub-Antártica viram mudanças ecológicas bruscas causadas por espécies invasoras que chegaram acidentalmente. Durante o Ano Polar Internacional em 2007/2008, a equipe coletou amostras de turistas e operadores de turismo, cientistas e sua equipe de apoio. Em média, cada visitante carregava 9,5 sementes para a Antártida, embora os cientistas tenham levado muito mais do que cada turista.

Foi descoberto que as botas das pessoas e as bolsas eram os objetos que mais tinham material anexo. A língua das botas, o cadarço e roupas usadas pelos humanos são os locais onde sementes são fixadas e deslocam até a Antártida durante visitações turísticas. Extrapolando valores, isto significa que cerca de 70 mil sementes chegam à Antártica a cada ano e os locais de maior visitação turística tendem a serem os mais quentes do continente e os locais onde as sementes são mais prováveis ​​de sobreviver e florescer, colonizando o continente.

Não é difícil de imaginar que estas longas distâncias podem ser vencidas. Há muitos registros de espécies de aracnídeos praticando o balonismo, que é flutuar junto aos ventos soltando um fio de teia.

O exemplo mais famoso do rafting é a colonização da ilha de Madagascar onde lêmures e plantas percorreram um canal de 400 quilômetros de largura da África continental até a ilha e a colonizaram.

Madagascar parece ter sido uma ilha por pelo menos 120 milhões de anos. Estudos genéticos sugerem que os animais começaram a chegar na ilha há cerca de 60 milhões de anos. Nunca foram encontradas evidências geológicas para pontes terrestres ou cadeias de ilhas entre a África e Madagascar, deixando o rafting como a explicação mais provável.

Em uma escala evolutiva do tempo, o rafting tem desempenhado um papel muito importante na dispersão de organismos ao redor do mundo. Em certas áreas com distâncias curtas entre ilhas, vimos que os eventos de rafting acontecem com certa frequência, onde tempestades e furacões auxiliam no processo. Eventos de longa distância são muito mais raros, imprevisíveis e quase nunca vistos, mas as evidências existem e podemos estudar os efeitos do rafting (Earth – The Science Behind the Headlines, 2013).

Outra possibilidade de travessia entre continentes pode ter sido feita por uma “ponte terrestre” temporária, ou por conjunto de ilhas e ilhotas que posteriormente submergiu e isolou os continentes conforme o nível do mar subiu (BBC, 2016).

Estudos biogeográficos sugerem que além da distância considerável que isolava a África da América do Sul, o mar de Tétis exercia um papel eficaz como uma barreira de migração entre a África e a Europa, mas as evidências parecem sugerir que o rafting intercontinental é o caminho mais provável.

A fauna nativa do continente americano evoluiu por algumas dezenas de milhões de anos em isolamento relativo e eventos ocasionais deram origem a importantes concorrentes ecológicos e parece que o fenômeno que deu origem aos macacos do Novo Mundo ocorreu com outros animais. Os roedores Caviomorphos chegaram as Américas através da dispersão da África provavelmente há 40 milhões de anos. Esse grupo diversificou-se em capivaras modernas, chinchilas, viscachas e porcos-espinhos do Novo Mundo (Bond et al, 2015)

Há milhões de anos, as placas tectônicas subjacentes às Américas do Norte e do Sul colidiram, criando o Istmo do Panamá: a estreita faixa de terra que separa o oceano Atlântico do Pacífico. Pesquisas genéticas sugerem que esse foi o momento e o caminho em que os macacos atravessaram regiões da atual América Central a partir de seus lares ancestrais ao sul. Acredita-se que os macacos chegaram à América Central durante um evento chamado Grande Intercâmbio Biótico Americano, que ocorreu após o Istmo do Panamá conectar os dois continentes, permitindo que parentes de gambás, tatus e porcos-espinhos se dirigissem para o norte e veados, gatos, guaxinins, ursos e outras espécies para atravessar o istmo para o continente sul.

Os pesquisadores estimam que os macacos chegaram ao Novo Mundo entre 40 e 31 milhões de anos, divergindo assim dos macacos do Velho Mundo. Esse intervalo é relativamente pequeno, pois diferentes estudos, com diferentes ferramentas de pesquisa chegaram a este intervalo de tempo. Por exemplo, Uma estimativa bayesiana do mais recente ancestral comum das espécies primatas existentes tem um intervalo de 95% de credibilidade de chegada nas Américas entre 31 e 27 milhões de anos atrás  (Perez et al, 2013).

A falta de fósseis para descrever os primeiros momentos da evolução dos primatas abre uma ampla porta para dados moleculares para esclarecer a origem dos macacos do Novo Mundo. Vários estudos moleculares abordaram esse assunto, algumas com incongruências entre suas estimativas outras mais precisas. Em um estudo, foi analisado os genomas mitocondriais de primatas Cebus (Platyrrhini), HomoHylobatesPanPongo (Hominóides), MacacaPapio (Cercopitecoides) e Tarso (grupo externo) para investigar as relações evolutivas. Duas metodologias distintas foram empregadas nos genes mitocondriais para estimar os tempos de divergência: o teste de razão de verossimilhança tradicional de sequências de genes individuais e concatenadas e a abordagem bayesiana multigênica. Usando a divisão Cercopitecóide-Hominóide como ponto de calibração (25 milhões de anos), os resultados mostram consistentemente que macacos do Novo Mundo e separam dos macacos do Velho Mundo por volta de 35 milhões de anos (Schrago, C. G.; Russo, 2003).

Outro estudo que examinou 399 características diferentes de dentes, crânios e esqueletos de 16 espécies vivas e 20 de macacos extintos da América do Sul e África. Em seguida, construiu uma árvore filogenética usando software que reconstrói relacionamentos evolutivos. O estudo comparou isso a uma árvore construída estritamente a partir de estudos moleculares de espécies vivas, a fim de determinar se os dois tipos de estudos mostraram resultados semelhantes ou diferentes. A maioria era parecida (Creager, 2014).

Sete dentes encontrados no Panamá sugerem que os primatas foram para o norte muito mais cedo e atravessaram 160 quilômetros do oceano para alcançar seu Novo Mundo. De acordo com o artigo publicado na  Nature, os sete dentes de macaco foram descobertos envoltos em rochas de 21 milhões de anos encontradas durante uma escavação de material da expansão do Canal do Panamá.

Os sete dentes de macaco encontrados no Panamá sugerem que os espécimes antigos, nomeados de Panamacebus transitus, estavam relacionadas aos macacos-prego atuais. Não se sabe o quão grande era a população de macacos no Panamá, e escavações em toda a América Central nunca produziram nenhuma evidência de que os macacos antigos chegassem mais ao norte (Smithsonian Institute, 2016).

Outro estudo sugere que os primatas foram transportados da África até a América do Sul, chegando há cerca de 36 milhões de anos (Bond et al, 2015) Os primeiros primatas fósseis já encontrados na América do Sul incluem Perupithecus e as espécies encontradas do leste do Peru. O Perupithecus ucayaliensis era uma pequena criatura semelhante a um sagui e também muito semelhante com Talahpithecus do norte da África no Eoceno (especialmente quanto aos dentes). A datação indica que pelo menos 10 milhões de anos separa a próxima evidência fóssil de primata nos neotrópicos: Branisella em Salla, Bolívia, de 26 milhões de anos (Hoffstetter 1969).

Uma reconstrução do Perupithecus ucayalensis (à esquerda), de 38 milhões de anos, encontrada na América do Sul, é mostrada acima, ao lado de uma espécie com a qual se assemelhava – Talahpithecus parvus, que viveu na Líbia há 39 milhões de anos.

Um estudo apresentado em 2015 e baseado em análise de fósseis da espécie extinta Perupithecus ucayalensis encontrada na Bacia do rio Amazonas, e datada de 36 milhões de anos, mostrou semelhanças excepcionais com os fósseis da espécie africana Talahpithecus parvus, encontrada no território onde hoje é a Líbia. De acordo com a pesquisa, as comparações de crânio, dentes e outras partes encontradas na espécie P. ucayalensis não apresentavam muitas semelhanças com os dos primatas Sul-americanos (extintos ou não), mas com os primatas africanos do período Eoceno (entre cerca de 55 milhões de anos e 36 milhões de anos atrás); o que pode indicar alguma relação entre ambos, e sugerir de algum modo a “jornada intercontinental” através de migração oceânica.

Quatro dentes de macaco fossilizados descobertos nas profundezas da Amazônia peruana fornecem evidências de que mais de um grupo de primatas antigos viajaram pelo Oceano Atlântico a partir da África, de acordo com uma nova pesquisa da USC publicada recentemente na revista Science.

Os dentes da espécie recém-descoberta descrita acima pertencente a uma família extinta de primatas africanos conhecida como parapithecideos datada entre 56 e 23 milhões de anos atrás. Fósseis descobertos no mesmo local no Peru haviam oferecido a primeira prova de que macacos Sul-americanos evoluíram de primatas africanos (Seiffert, 2020).

O extinto Ucayalipithecus perdita, teria sido muito pequeno, semelhante em tamanho a um sagui.  Os pesquisadores acreditam que o local em Ucayali, onde os dentes foram encontrados, é do período do Oligoceno, que se estendeu de 34 a 23 milhões de anos atrás. Com base na idade do local e na proximidade do Ucayalipithecus com seus parentes fósseis do Egito, os pesquisadores estimam que a migração possa ter ocorrido cerca de 34 milhões de anos atrás (Seiffert, 2020) e sugerem uma segunda viajem da África até as Américas.

Uma vez nas Américas, colonizaram o ambiente, preencheram nichos e seguiram evoluindo separadamente da linhagem que produziu os gerou do Velho Mundo (Creager, 2014).

Diversificação na América do Sul

Algumas análises genômicas comparativas apontam para divergência entre Platyrrhini e Catarrhini há 43,5 milhões de anos (Perelman et al. 2011) e sugerem que todos os macacos do Novo Mundo vivos hoje compartilham um ancestral comum mais recente, datado entre 24 e 19 milhões de anos (Hodgson et al. 2009, Perelman et al. 2011, Springer et al. 2012).

As reconstruções filogenéticas calibradas por fósseis indicam que a diversificação de primatas já havia ocorrido no nível da subfamília há 12 milhões de anos. Jameson Kiesling et al. (2015) indicam que a diversificação em nível de gênero para os macacos do Novo Mundo ocorreram conjuntamente na bacia proto-amazônica; um habitat tão rico, com uma escassez relativa de competidores arbóreos de tamanho médio, oferecendo amplos nichos ecológicos a serem preenchidos por estes novos habitantes. A diversificação e especialização subsequentes entre primatas podem ter sido motivadas pela competição por estes nichos.

Da Amazônia, os primatas expandiram-se repetidamente para habitats mais temperados, abertos e de grandes altitudes. A intensa elevação andina no Mioceno (22-11 milhões de anos) levou ao isolamento de grupos biológicos andinos e o surgimento de uma enorme área de pântanos de água doce de lagos e pântanos, o Sistema Pebas, no oeste da Amazônia (Hoorn et al. 2010).

Sistema Pebas – Paisagens do mioceno e mares epicontinentais. Existe uma incerteza considerável em torno da formação e conectividade dos mares, mas é claro que esses eram grandes corpos d’água que romperam as florestas do mioceno (depois de Räsänen et al. 1995, Nores 1999 apud Bush & Oliveira, 2005).

As extensas áreas úmidas cortam a floresta tropical ao longo dos Andes e da floresta amazônica. Juntas, essas mudanças levaram à vicariância. Ou seja, a distribuição das espécies ancestrais se fragmentou em diversas áreas, devido ao surgimento de barreiras naturais favorecendo o processo de origem de novas espécies e preenchimento de nichos ecológicos em várias populações de primatas em torno de 11 a 9 milhões de anos. A ascensão final dos Andes e a subsequente redução do nível do mar (devido à expansão da calota de gelo) levaram o atual sistema fluvial do rio Amazonas a fluir para leste, alimentado pelo escoamento dos Andes.

Isto se estendeu por toda a América do sul de tal forma que para cada gênero de primata neotropical encontrado na Mata Atlântica há um taxa irmão na Amazônia. As análises biogeográficas que permitem uma variedade de cenários de diversificação tendem a reconstruir as populações de primatas ancestrais espalhadas pela Bacia Amazônica e pela Mata Atlântica, com a subsequente influência entre a Mata Atlântica e os táxons da Amazônia ocorrendo principalmente no Mioceno médio e tardio (Buckner et al. 2015; Byrne et al. 2017; Lima et al. 2017).

Usando análises estatísticas no BioGeoBEARS, os modelos mais bem suportados reconstroem o ancestral comum a todos os saguis e micos existentes com uma ampla distribuição geográfica entre as florestas da Amazônia e Atlântica. Os micos-leões da Mata Atlântica representam uma Floresta Atlântica Miocena média dividida através de vicariâncias datadas em cerca de 13,4 milhões de anos (Buckner et al. 2015).

Uma análise biogeográfica de saguis e micos na Amazônia sugere que a diversificação de espécies não começou até 5 milhões de anos, o que pode coincidir com a transição para o sistema de drenagem transcontinental da Amazônia. A vicariância de saguis pigmeus e saguis amazônicos ocorreu através do rio Madeira a 5 milhões de anos e o rio Amazonas oriental parece ter uma dispersão norte limitada de saguis amazônicos (Buckner et al. 2015).

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Macacos do Novo Mundo, Rafting, Evolução, Colonização.

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Referência

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One thought on “DUAS LINHAGENS DE PRIMATAS CRUZARAM O ATLÂNTICO HÁ MILHÕES DE ANOS. (Comentado)

  1. A explicação da Biogeografia histórica é muito mais consistente, no meu ver. Veja “Evolution and biogeography of primates: a new model based on molecular phylogenetics, vicariance and plate tectonics”, MICHAEL HEADS, 2009. Uma resposta difícil aos primatólogos, mas menos dependente de explicações ‘ad hoc’.

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