O CAMPO GEOMAGNÉTICO, ANOMALIA E A RESSONÂNCIA DE SCHUMANN.

O campo magnético da Terra é resultado de fenômenos que ocorrem no interior do planeta. A Terra funciona como um enorme dínamo. De acordo com essa teoria, a maior parte do campo magnético é gerado pela movimentação dos metais líquidos que compõem a porção mais interna do manto do planeta.

Um elemento fundamental que favoreceu a origem da vida na Terra é a presença de um grande núcleo metálico que junto com a rápida rotação produz um campo magnético que blinda o planeta da radiação cósmica nociva (Gribbin, 2018). Este campo é formado pela atividade geológica interna do planeta que ocorre a cerca de 3 mil km de profundidade.

Durante a formação do nosso Sistema Solar e da Terra, houve o choque de Theia, um corpo celeste (planetesimal) formado na mesma órbita que a de nosso planeta. Esse planetesimal foi extremamente importante para que o material metálico dos dois objetos fosse unido e se estabilizasse no centro do nosso planeta. Tal impacto foi extremamente importante, caso contrário a Terra seria apenas uma estrutura rochosa estérea muito semelhante a Vênus, sem um campo magnético e sem placas tectônicas.

A crosta terrestre de Vênus é espessa e sem sinal de tectonicidade e o planeta é basicamente sem campo magnético. A Terra, no entanto, tem uma crosta fina e móvel, principalmente junto a borda das placas e transporta material para superfície por meio do vulcanismo. Tal atividade transportou minerais e compostos químicos do interior para a superfície do planeta e favoreceu o ciclo biogeoquímico que é fundamental para a origem da vida, pois fazem a ciclagem do carbono e a estabilização da temperatura do planeta em escalas longas do tempo geológico.

A Terra oscila muito pouco em torno de seu eixo a medida que gira em torno do Sol. Graças ao efeito gravitacional da Lua essa oscilação nunca é demais, diferente do que parece ter acontecido com Marte. Além do planeta vermelho ter perdido seu campo magnético.

O campo magnético da Terra é uma força dinâmica que nos protege da radiação cósmica e das partículas carregadas expulsas pelo Sol. Grande parte dessa radiação solar chega a nosso planeta e é retida pelo campo magnético e, portanto, somente uma parcela desta radiação consegue invadir nossa atmosfera. O campo magnético da Terra interage com as radiações eletromagnéticas solares repelindo-as ou desviando-as de sua trajetória inicial.

O campo magnético ocorre porque a Terra funciona como um enorme dínamo. De acordo com essa teoria, a maior parte do campo magnético é gerada pela movimentação dos metais líquidos que compõem a porção mais interna do manto do planeta. Conforme o núcleo sólido se movimenta as partículas de ferro e níquel da porção mais viscosa do interior no manto entram em atrito com este sólido energizando seus íons e dando origem ao campo magnético da Terra. Quando esse fluxo interno do manto varia o campo geomagnético também se altera.

Desta forma, podemos dizer que a Terra se comporta como um ímã gigante. A primeira pessoa a afirmar que a Terra funciona como um imã gigante foi o cientista Willian Gilbert, em 1600. Ao realizar uma experiência simples pode comprovar esse comportamento da Terra. Gilbert suspendeu um imã livremente pelo seu centro de gravidade na superfície da Terra. Nesta experiência, repetida diversas vezes, verificou que o ímã sempre se orientava na direção norte-sul, com isso concluiu que a Terra tinha característica semelhantes a de um ímã. E como todo imã, há uma orientação norte e sul.

Na Terra, os polos geomagnéticos não são orientados pelos polos geográficos, isto é, o polo sul magnético está próximo do norte geográfico e o polo norte magnético está próximo do sul geográfico. Além disto, o eixo magnético da Terra não coincide com o eixo de rotação da Terra, sendo separados por aproximadamente 13º.

Representação dos polos magnéticos da Terra e suas linhas de indução. Ilustração: Siberian Art/Shutterstock.com

As linhas de energia do campo magnético correm em um sentido. Elas saem do polo norte magnético e se deslocam em direção ao polo sul magnético e durante este percurso desviam da superfície terrestre as partículas emitidas pelos ventos solares. Sem essas linhas a força dos ventos solares poderia varrer a atmosfera terrestre para o espaço sideral, inviabilizando as condições de vida no planeta – como ocorreu com Marte.

Contudo, o magnetismo tem papel fundamental à vida não apenas no quesito proteção contra radiação solar. Para muitos seres vivos ele determina sistemas de navegação espacial, como no comportamento de insetos, em geral, formigas e abelhas, além de influenciar propriedades magnéticas de tecidos de alguns animais. Há também bactérias magnetotácticas, procariotos como o Candidatus Magnetoglobus multicellularis, vacas que se orientam no eixo norte-sul quando pastam. Aves, minhocas e tantos outros seres vivos conseguem perceber o campo magnético da Terra e utilizá-lo como referência para navegação. Bússolas, satélites, GPS’s e outros instrumentos de navegação também utilizam o campo magnético como referência.

No entanto, a posição dos polos geomagnéticos nem sempre foi esta. Periodicamente ocorre sua inversão. Os cientistas defendem que há 770 mil anos os polos magnéticos ocupavam posição invertida da qual conhecemos hoje. Ou seja, o polo norte magnético era localizado no polo norte geográfico assim como o polo sul geográfico e magnético ocorriam na mesma região.

O estudo do magnetismo antigo, denominado paleomagnetismo ou magnetismo fóssil, é um importante instrumento para estudar a história do nosso planeta. Os cientistas coletam amostras de rochas em todos os continentes e estabelecem a sua idade e magnetismo para reconstruir a história do campo magnético terrestre.

Uma importante propriedade dos materiais magnetizáveis a temperaturas muito altas é que, quando a sua temperatura começa a baixar e chega a menos de 500°C, ficam magnetizados na direção do campo magnético. Uma vez resfriado os átomos do material mantêm-se nos seus lugares e sempre magnetizados na mesma direção.

Atualmente, existe um ângulo entre os eixos de rotação e magnético, como vimos na figura acima, mas essa distância está aumentando. O polo magnético caminha por volta de 20 km por ano. Esse movimento precisa ser constantemente calculado para que os sistemas de geolocalização, como os GPS’s que utilizamos, possam ser corrigidos, ajustados e atualizados.

Nos últimos 10 anos houve um pronunciado deslocamento do polo magnético, tendo variado em uma velocidade muito maior do que constatado antigamente. O polo norte magnético muda constantemente de posição, mas sempre dentro de um limite. Embora a direção dessas mudanças seja imprevisível, a velocidade costumava ser constante. Nos últimos anos o norte magnético está se movendo do Canadá em direção a Sibéria em uma velocidade muito maior do que a projetada pelos cientistas.

A movimentação do polo norte pode estar ligada a um acúmulo de ferro líquido se deslocando sob a superfície da crosta terrestre na região sob o Canadá, segundo um estudo de pesquisadores da Universidade de Leeds publicado na Nature Geoscience em 2017. Uma vez que a distribuição do campo não é homogênea, então onde ele é mais fraco oferece menor proteção criando regiões, principalmente a altíssimas altitudes, que são um pouco mais vulneráveis a atuação dos ventos solares.

Segundo Philip W. Livermore, um dos autores do estudo, esse acúmulo de ferro poderia estar enfraquecendo o campo magnético no Canadá, enquanto o da Sibéria se mantém forte, o que estaria “puxando” o norte magnético em direção à Rússia. Evidentemente, essa inversão total demoraria milhares de anos para ocorrer.

Como existe um deslocamento constante do magnetismo ao longo do ano, periodicamente o modelo do campo geomagnético deve ser atualizado, para não comprometer a posição de satélites e do GPS. A versão mais recente do modelo foi feita em 2015 e deveria durar até 2020, mas a velocidade com o que a magnetosfera tem se deslocado está forçando os cientistas a atualizarem o modelo antes do previsto.

Além da mudança do polo, um pulso eletromagnético detectado sob a América do Sul em 2016 indicou uma anomalia grande que faz o campo magnético ter baixa intensidade.

Novos dados de satélite da Agência Espacial Europeia (ESA) revelam que existe também uma anomalia magnética que enfraquece o campo da Terra. As observações mais recentes de sua evolução indicam que em breve poderemos lidar com mais de um desses fenômenos estranhos. O fenômeno é conhecido como Anomalia do Atlântico Sul e encobre vasta extensão de intensidade magnética reduzida, que se estende da América do Sul até o sudoeste da África. A Anomalia do Atlântico Sul não é nova e está parada desde 1970 crescendo em tamanho, além de se mover para oeste, a um ritmo de aproximadamente 20 quilômetros por ano.

Até o momento, não há motivos para se alarmar. A ESA observa que os efeitos mais significativos no momento estão em grande parte limitados a falhas técnicas nos satélites e naves espaciais, que podem ser expostas a uma quantidade maior de partículas carregadas em órbita baixa da Terra à medida que passam pela anomalia do Atlântico Sul nos céus acima América do Sul e Oceano Atlântico Sul.

Não há indicações de que a magnitude da anomalia deva diminuir. Nos últimos dois séculos, o campo magnético da Terra perdeu cerca de 9% de sua força em média, diz a ESA, auxiliado por uma queda na força mínima de campo na Anomalia do Atlântico Sul, de aproximadamente 24.000 nanoteslas para 22.000 nanoteslas nos últimos 50 anos.

O campo magnético da Terra gerado por correntes elétricas parece estável, mas em vastas escalas de tempo, nunca é realmente imóvel. As pesquisas indicam que o campo magnético da Terra está constantemente em um estado de fluxo e entender como ele muda e porque polos magnéticos norte e sul trocando de lugar ainda esta sob estudo. O motivo por que isso está acontecendo permanece um mistério. Ainda precisamos saber porque há um enfraquecimento e porque ocorrem anomalias. Não está totalmente claro como essas reversões podem estar ligadas ao que está acontecendo atualmente com a Anomalia do Atlântico Sul – o que alguns cientistas estão sugerindo é que ele poderia ser causado por um vasto reservatório de rochas densas sob a África, chamado Província Africana de Alta Velocidade de Baixo Cisalhamento. As novas leituras fornecidas pelos satélites Swarm da ESA mostram que, nos últimos cinco anos, um segundo centro de intensidade mínima começou a se abrir dentro da anomalia. Isso sugere a anomalia poderia estar no processo de se dividir em duas células separadas – com o original centralizado acima do meio da América do Sul, e a nova célula emergente aparecendo no leste, pairando na costa do sudoeste da África. O desafio agora é entender os processos no núcleo da Terra que impulsionam essas mudanças para entender como o campo enfraquece e porque ocorrem anomalias como esta na América do Sul.

Não se sabe exatamente como a anomalia se desenvolverá daqui em diante, mas pesquisas anteriores sugeriram que rupturas no campo magnético como esta podem ser eventos recorrentes que ocorrem a cada poucas centenas de anos. Se estamos testemunhando isto agora, não está totalmente claro (Science Alert, 2020).

Ressonância De Schumann

Outro fenômeno interessante, bem mal compreendido e mal utilizado é a ressonância de Schumann, um conjunto de picos no espectro na banda de frequências extremamente baixas do campo eletromagnético terrestre, formado pela superfície da Terra e nas camadas inferiores da ionosfera.

O campo magnético é a concentração de magnetismo criada em torno de uma carga magnética em um determinado espaço. No campo eletromagnético, as cargas movimentam-se como ondas e, assim, são chamadas de onda eletromagnéticas. O campo magnético é uma grandeza física vetorial medida em tesla (T), por isto a que do campo na anomalia da América do Sul é calculada em nano teslas – queda de 24.000 nanoteslas para 22.000 nanoteslas.

A ionosfera é a região da atmosfera da Terra que começa entre 50 e 100 km acima da superfície e alcança várias centenas de quilômetros. Devido à radiação solar, elétrons individuais são deslocados de átomos de gás neutros nessa região, criando íons com carga positiva. Isso torna a ionosfera condutora e capaz de capturar ondas eletromagnéticas. Ao redor da Terra, existem aproximadamente duas mil tempestades de raios ocorrendo a todo tempo, produzindo cerca de 50 relâmpagos a cada segundo.

Isso significa que há uma grande quantidade de atividade elétrica está ocorrendo entre a superfície da Terra e a ionosfera. Parte disso ocorre na forma de ondas estacionárias de eletricidade, que são conhecidas como ressonâncias Schumann.

Cada rajada de raios cria ondas eletromagnéticas que começam a circular a Terra entre a superfície do planeta e a ionosfera. Algumas das ondas – se elas têm o comprimento de onda certo – combinam-se e aumentam a força para criar uma ressonância Schumann. Assim, a ressonância funciona como um diapasão onde a Terra possui freqüências sonoras naturais. O modo de frequência mais baixa das ressonâncias Schumann é de aproximadamente 7,83 hertz (Hz), apresentando uma variação diária de cerca de ±0,5 Hz. As outras frequências são 14,3, 20,8, 27,3 e 33,8 e 45Hz.

A ressonância tem este nome porque foi descoberta pelo físico alemão Winfried Otto Schumann (1888-1974), que trabalhou brevemente nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial e previu que a atmosfera da Terra ressoaria certas frequências eletromagnéticas. Na época, o físico publicou os resultados de sua pesquisa sobre essas ressonâncias na revista  Technische Physik. Em seguida, o médico Ankermülle fez uma conexão entre as ressonâncias Schumann e o ritmo de ondas cerebrais.

Ele imaginou que a Terra estaria atuando na mesma ressonância natural que o cérebro e contatou o professor Schumann, que por sua vez pediu a um candidato a doutorado para estudar esse fenômeno. O aluno de doutorado foi Herbert König que se tornou o sucessor de Schumann na Universidade de Munique. König demonstrou uma correlação entre ressonâncias Schumann e ritmos cerebrais. Ele comparou as gravações de eletroencefalograma (EEG) humano com os campos eletromagnéticos naturais do ambiente em 1979 e descobriu que as cinco primeiras ressonâncias Schumann (de 0 a 35 Hz), estavam dentro da mesma faixa de frequência que as ondas cerebrais em um EEG humano e o sinal de 7,83 Hz estava muito próximo da frequência do ritmo alfa do cérebro.

As cinco primeiras ressonâncias Schumann se sobrepõem às bandas de frequência cerebral e à medida que a intensidade média das ressonâncias Schumann aumenta ou diminui devido a diferenças de dia/noite, mudanças na atividade solar, clima global etc. A quantidade de ressonância flutuaria à medida que a ionosfera se torna mais ou menos densa, o que depende em grande parte da quantidade de radiação solar que a atinge. Assim, supostamente nossos ossos cérebros e sistemas nervosos responderiam às mudanças.

Ao estabelecer esta conexão rapidamente alguns começaram a relacionar a frequência de 7,83 Hertz à hipnose, sugestionabilidade, meditação e aumento dos hormônios do crescimento humano. No entanto, não há provas científicas definitivas para nada disso e não se sabe se esta sobreposição tem efeitos sobre os seres vivos, provavelmente não, ou pouquíssimos.

Um estudo publicado na revista Nature indicou que a atividade de EEG exibiu segmentos de sincronização com as três primeiras frequências ressonantes da ressonância Schumann (7 a 8 Hz, 13 a 14 Hz e 19 a 20 Hz), sugerindo que, sob certas condições, variáveis ​​que afetam os parâmetros de Schumann (como vento solar) poderiam afetar a atividade cerebral, como modificações da percepção e consolidação da memória relacionada ao sonho (Persinger et al, 2015). Ritmos alterados observados no EEG em resposta à mudança de campos magnéticos também foram observados por outros pesquisadores diante de oscilações magnéticas de baixa frequência (em torno de 3 Hz) tendo efeito sedativo (Belov et al, 1998). O estudo indica que embora os mecanismos específicos desse fenômeno ainda não estejam claros, fatores ambientais energéticos podem afetar direta ou indiretamente a psicofisiologia e os comportamentos humanos de diferentes maneiras, dependendo do estado de saúde e da maturidade dos indivíduos (McCraty & Deyhle, 2015). Essa perspectiva é apoiada pelo descobrindo que aumentos no fluxo de radiação solar e raios cósmicos e a de ressonância Schumann estão todos associados a aumento da variação de frequência cardíaca e atividade do sistema parassimpático. O sistema nervoso autônomo também parece responder rapidamente às mudanças nos raios cósmicos.

Outro estudo publicado na revista Nature estabeleceu um modelo de sensor magnético em animais e sugeriu que os campos geomagnéticos seriam percebidos por reações químicas sensíveis à luz envolvendo o criptocromo da flavoproteína (CRY) também em humanos. O estudo fez uma abordagem transgênica usando o CRY2 humano, que é muito expresso na retina e que poderia funcionar como um magnetosensor no sistema de recepção magnética de moscas Drosophila e que o faz de maneira dependente da luz. Os resultados mostram que o CRY2 humano tem a capacidade molecular de funcionar como um magnetosensor sensível à luz.

Isto não impediu que charlatães e conspiracionistas utilizassem a informação para tirar proveito para si. A ressonância em si é apenas um fenômeno das dimensões físicas do espaço entre a superfície da Terra e a ionosfera que em certas frequências, por alguns milissegundos pode se sobrepor, mas não tem nada a ver com a dominação de formas de vida, da mente ou com qualquer fenômeno espiritual como alguns sugerem.

Argumentos utilizados na venda de produtos que supostamente alinhariam a biologia humana aos 7,83H é falso. Muitos presumem que este número representa uma frequência de perfeição natural. Muitos charlatões usam a pseudociência para enganar as pessoas utilizando uma linguagem que soa como científica de modo a parecer impressionante para o leigo. Na prática, não existe qualquer medicamento que atue como um “afinador” e deixe o suposto diapasão do corpo e da mente humano sincronizado com a ressonância de Schumann nos 7,83H. Outros presumem que governos ocultos usam aparelhos bilionários para manter a mente humana alinhada com frequências na qual impedem a humanidade de se rebelar contra os sistemas de dominação universal. Eles fazem isto em volta de um discurso de pseudociência misturada com misticismo, esoterismo, uma numerologia sem nexo e introduzindo elementos religiosos apocalíptico/messiânico.

Não há sentido algum em presumir que 7,83H seja uma medida específica ou mágica da natureza. Isto é só mais uma espécie de numerologia mal intencionada criada por aproveitadores e/ou conspiradores para fortalecer uma crença ou opinião e não é uma comprovação científica.

É comum grupos conspiracionistas espalharem medo a partir daquilo que as pessoas não entendem e não conhecem visando conseguir seguidores na internet. Na plataforma do YouTube é comum e mais frequente encontrar vídeos sobre a ressonância Schumann em canais de conspiracionistas e de “curandeiros digitais” do que realmente a história e caracterização científica que há por trás do fenômeno. Esta é sem duvida uma falha da ciência e dos divulgadores.

Também há discursos alarmistas sobre a Anomalia da América do Sul ou das oscilações do campo geomagnético. Na maioria das vezes são informações utilizando gráficos que não se sabe de onde foram tirados, não tem referências científicas e as interpretações dadas às imagens são apresentadas por pessoas que se julgam gurus e possuidores de informações privilegiadas sobre o fenômeno, mas que nunca apresentam credenciais verdadeiramente científicas ou artigos publicados que sustentem suas falas. A imensa maioria grava vídeos alarmando o público a partir de um discurso falsamente científico e buscando “curtidas” na plataforma digital para ganhar dinheiro ou popularidade. Portanto, nenhum desses discursos tem compromisso com produção científica ou divulgar informações corretas. O objetivo dos conspiracionistas não é educar e nem informar, seus objetivos são desinformar em busca de satisfações pessoais.

Evidentemente, é possível pegar verdades cientificamente comprovadas e distorcê-las para que “digam” aquilo que o interlocutor quer o público acredite. Por exemplo, é possível usar a frequência de Schumann e as oscilações no campo geomagnético – que são ideias verdadeiramente científicas – para defender que diferentes frequências representam aberturas de portais de diferentes dimensões ou planos espirituais – algo que é nada científico. Ou seja, é possível criar um relato absolutamente falso dizendo verdades.

Não é recente o uso de elementos da física ou mesmo do campo das frequências de ondas ou campos magnéticos para defender crenças e pressupostos conspiracionistas. Temos exemplos que vão desde crenças religiosas usando de forma absurdamente pseudocientífica o termo “quântico” para defender espiritualidade, curas e até produtos de saúde até conspirações no sinal de wi-fi. Recentemente no Brasil a pandemia pelo coronavírus SARS-CoV-2 desencadeou uma enxurrada de notícias falsas, não apenas referente à origem do vírus como suposta arma biológica, mas até a ideia de que a tecnologia 5G interferiria na imunidade das pessoas ou que elas carregariam o vírus.

Em Birmingham e no condado de Merseyside na Inglaterra antenas de telefonia móvel 5G foram incendiadas devido essas crenças conspiracionistas. A questão é que a tecnologia 5G ainda nem estava em operação na região, ainda estava sendo instalada. Em países como Irã e o Brasil, que tem casos de coronavírus ainda nem implantaram a tecnologia e em alguns lugares já havia adeptos da crença.

A ideia por trás dessa afirmação é que o sistema imunológico seria enfraquecido pelas ondas da tecnologia 5G, tornando as pessoas mais suscetíveis a pegar o vírus. Uma variação bizarra dessa conspiração é que o vírus pode de alguma forma, ser transmitido através do uso da tecnologia 5G. É como se o vírus “surfasse” na onda de wi-fi até as pessoas.

Nosso sistema imunológico pode ser afetado por diversos fatores (dieta, estress, mudanças no clima, consumo de drogas líticas e ilícitas, radiação, doenças, sono, sedentarismo) e afetar nossa saúde, mas as oscilações que supostamente o 5G provocaria não ocorrem. As ondas emitidas pela tecnologia 5G não são suficientemente potentes para causar algum efeito prejudicial ao sistema imune. Sequer são ondas de radiação ionizantes.

Ondas de rádio poderiam atrapalhar a fisiologia e o sistema imune à medida que o aquecem, o que significa que seu sistema imunológico poderia não funcionar. Mas os níveis de energia das ondas de rádio 5G são minúsculos e não estão nem perto o suficiente para afetar o sistema imunológico. Existem muitos estudos sobre isso. As ondas de rádio envolvidas no 5G ou em outras tecnologias de telefonia móvel ficam na extremidade de baixa frequência do espectro eletromagnético. Menos poderosos que a luz visível, eles não são fortes o suficiente para danificar células, ao contrário da radiação na extremidade de maior frequência do espectro, que inclui os raios solares e os raios-X usados na medicina (BBC, 2020).

Portanto, não faz sentido algum presumir que a ressonância Schumann tenha um efeito na psiquê humana, que torne os humanos acríticos e submissos a uma ordem oculta ou que as diferentes frequências representem portais a planos e dimensões astrais diversas. O acriticismo está justamente em aceitar como verdade estas afirmações porque algum guru do YouTube disse que é verdade!

É mais evidente que este tipo de discurso carregue um conteúdo de crença esotérica, mística ou que recorra a uma alegoria conspiracionista para tentar simplificar os problemas globais a uma rede de afirmações extraordinárias que dependeria de evidências extraordinárias para ser verdade. A melhor estratégia que temos para lidar com estas leituras é usar o criticismo e questionar de onde estes “profetas” da conspiração adquirem essas supostas informações. Seriam eles abençoados com algum tipo de dom ou simplesmente dizem aquilo que um público específico já acredita e precisa reforçar sua crença?

Como se trata de campo magnético da terra a melhor ferramenta que temos para estuda-lo é a ciência, a mesma ciência que em momento algum publicou qualquer artigo científico afirmando veracidade de planos e dimensões paralelas nas diferentes frequências da ressonância Schumann. O que se sabe é que há ressonâncias e que elas podem afetar fracamente nossa vida; que o campo geomagnético tem uma função planetária importante à vida; que suas oscilações são naturais e afetam muito mais os aparelhos eletrônicos. Para que o campo magnético parasse seria necessário interromper todo o funcionamento interno de nosso planeta, o que não há indício algum de que vai acontecer recentemente. Além disto, a anomalia da América do Sul ocorre sem que traga maiores prejuízos a quem vive na região, sendo prejudicial somente para satélites que eventualmente passem por ela. As inversões são processos naturais, ocorreram muitas vezes na história planetária como indicam os estudos de paleomagnetismo e ainda assim, a vida seguiu seu curso.

O porquê este tipo de anomalia do campo geomagnético ocorre ainda não se sabe, mas a ciência vai preferir assumir sua ignorância frente ao fenômeno – o que é intelectualmente honesto – e dela tirar motivação para estudar e compreender do que assumir uma afirmação pseudocientífica que recorre a crenças no misticismo, esoterismo e conspirações sobre Nibiru.

Essa anomalia e as oscilações do campo magnético foram identificadas há anos. Para escrever este texto consultei artigos e até mesmo vídeos de divulgadores de ciência gravados a pelo menos 5 anos atrás e que discutiam as oscilações e a anomalia. O que se sugere é que os especialistas na área de astronomia, geofísica e geologia/geografia divulguem mais sobre não apenas o campo magnético e como ele ocorre, mas especificamente sobre a ressonância Schumann, clareando o público leigo sobre como ocorre e despoluindo os campos da divulgação científica e plataformas como o YouTube dessas leituras não-científicas, conspiracionistas que apenas tem comprometido a compreensão correta dos fenômenos naturais, misturando-as com elementos esotéricos, místicos, religiosos e pseudo/anticientíficos.

Victor Rossetti

Palavras chave: Rossetti, NetNature, Campo Magnético, Geomagnetismo, Paleomagnetismo, Núcleo, Manto, Ressonância Schumann.

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Referências

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