FENÔMENOS NATURAIS TRAZEM UMA REVELAÇÃO RELIGIOSA.

Vivemos em um país absolutamente religioso e isto interfere claramente na interpretação dos fatos.

Nuvem de gafanhotos América do Sul (2020)

Se você espera que este texto esteja alinhado com o que esta escrito no livro bíblico das revelações (apocalipse) então será desapontado. A revelação que trago é outra, não é aletheia, mas sim um logos. A reflexão apresentada aqui traz sim uma revelação; o quão religioso nosso país é e o quanto isto interfere e prejudica nossa compreensão do mundo.

Diante de uma série de fenômenos naturais ocorridos recentemente no atípico ano de 2020 é esperado que o país mais católico do mundo – e com um crescente número de evangélicos – recorra às suas crenças para entender o que passamos.

É esperado que as pessoas mais religiosas fizessem uma ponte entre o que ocorre em 2020 e as pragas do Egito ou as simbólicas passagens do livro do apocalipse. Isto ocorre principalmente pela coincidência da passagem de uma nuvem de gafanhotos pela Argentina e que se deslocou para o Uruguai. Bastou essa semelhança com um relato bíblico e as pessoas guiadas pelo senso-comum incorporaram o ano de 2020 com uma prévia do apocalipse. De repente o terremoto do México, a pandemia pelo SARS-CoV2, a nuvem de poeira do Saara, o vulcanismo de Anak Krakatoa e a nuvem de gafanhotos viraram sinais do fim dos tempos.

O gatilho foi a nuvem de gafanhotos que na prática, em nada tem de especial como sinalizador de fim dos tempos. Nuvens de gafanhotos ocorrem em diversos locais da África quase todos os anos e em muitas regiões antropizadas. Isto quer dizer que a destruição de habitats naturais e sua substituição por monoculturas servem como alimento desses insetos em certas épocas de seu desenvolvimento e eventualmente permite que esse comportamento gregário forme nuvens. O que este tipo de comportamento do inseto revela não é o fim dos tempos segundo o apocalipse, nem o dia do juízo final e tão pouco a volta de Jesus. No máximo pode sinalizar a necessidade do homem mudar seu sistema agrícola, pois prejudica muito as interações ecológicas planta-inseto-predador e gera muitos prejuízos econômicos – especialmente se a frequência aumentar. A revelação é bem mais simples do que as trombetas, diademas ou a morte do primogênito. Somos nós que precisamos mudar!

Tal como estabelecer uma falsa relação entre a atual pandemia de coronavírus e as pústulas e chagas do Egito, também não passa de uma sinalização para mudarmos também nosso modelo de desenvolvimento baseado no desmatamento e perda de habitats. Na prática, a partir desmatamento e expansão territorial de centros urbanos ou áreas rurais o homem entra em contato direta ou indiretamente com essas partículas virais que outrora estiveram isoladas. A infecção pode ocorrer pelo contato direto entre o homem e um animal silvestre que serve como vetor da partícula (como foi o caso da febre amarela em 2017 no Brasil) ou o animal silvestre entra em contato com o animal de estimação do homem que então é infectado.

Nas últimas duas décadas, houve acúmulo de evidências científicas indicando que o desmatamento, inicia complexas cadeias de efeitos, estabelecendo condições para que se espalhe entre os humanos uma vasta gama de microrganismos e promova a disseminação doenças infecto-contagiosas como os vírus Nipah, a febre de Lassa, os parasitas causadores da malária e da doença de Lyme (borreliose).

Áreas como o interior da China ou mesmo no Brasil, que concentram grande biodiversidade animal (especialmente de mamíferos) são reservatórios de grande biodiversidade viral e portanto, o estilo de vida desastroso e perverso da humanidade eventualmente vai seguir criando novas epidemias e pandemias se nada for feito. Jade Goodall sinalizou algo parecido em uma entrevista ao The Guardian (Veja mais aqui também).

Uma nuvem de poeira do deserto do Saara que atravessou o Oceano Atlântico e atingiu o Caribe e a Flórida também alimentou a crença no fim dos tempos.

Não é a primeira vez que ocorre deslocamento de poeira africana até as Américas. De fato, o ano de 2020 registra a mais forte nuvem registrada nos últimos 50 anos. Isto significa que o fenômenos é estudado e conhecido há pelo menos meio século. A diferença é que desta vez uma combinação de fatores atmosféricos fez com que o fenômeno que ocorria em etapas fosse mais intenso.

Um sistema de alta pressão empurra a poeira do Saara até a costa do Golfo da Flórida. A nuvem é uma massa de ar seco carregada de partículas de areia se forma ainda no Saara no final da primavera, no verão e no começo do outono no Hemisfério Norte. Ela geralmente se desloca em direção ao Oeste sobre o Oceano Atlântico a cada três ou cinco dias. Geralmente é um fenômeno de curta duração, que dura cerca de uma semana e depois recomeça novamente. Tradicionalmente as imagens de satélites mostram que a nuvem marrom que vai da África até o Caribe aumenta em meados de junho, alcançando seu ponto máximo do final de junho mês até meados de agosto, quando começa a diminuir rapidamente. A nuvem tem uma função ambiental muito importante. O calor da camada ajuda a estabilizar a atmosfera quando o ar quente da nuvem passa por cima de ares mais frios e densos. A poeira mineral absorve luz solar e contribui para regular a temperatura do planeta. Os minerais contidos na poeira também repõem nutrientes nos solos das zonas tropicais, que são afetados por chuvas. Mas os especialistas também alertaram para a presença de alguns elementos tóxicos que podem ser nocivos para algumas espécies, incluindo o homem. Dentre os materiais prejudiciais à saúde humana estão o ferro, cálcio, fósforo, silício e mercúrio. Além disto, a poeira pode carregar vírus, bactérias, fungos, ácaros patogênicos, estafilococos e poluentes orgânicos (Estadão, 2020).

Imagem de satélite capturada no dia 16 de junho de 2020 (Foto: NASA/NOAA)

Imagem de satélite capturada no dia 16 de junho de 2020 (Foto: NASA/NOAA)

Nada disto é novidade e sim previsível. O problema é que as pessoas não conseguem vem às relações entre fenômenos da natureza, pois lhes falta uma visão sistêmica. Por exemplo, o mar caribenho apresenta uma grande biodiversidade também graças ao rio amazonas. Na foz o rio Amazonas empurra uma pluma grande de água doce no oceano. A pluma é de cerca de 400 km de comprimento e entre 100 e 200 km de largura. A água doce, sendo menos densa, substitui a do oceano salgado, diluindo a salinidade e alterando a cor da superfície do oceano por uma área de até 1.000.000 de quilômetros quadrados. Essa pluma se desloca graças as correntes marinhas levando sedimentos para o norte que se deslocam até a região caribenha.

Os 175 milhões de litros de água doce carregados de sedimentos que o rio despeja a cada segundo no oceano diminuem a penetração de luz solar e a acidez da água, além de promoverem um ambiente com queda mais brusca de oxigenação e de temperatura conforme a medição se aproxima do fundo do oceano. A pluma de sedimentos gerada pelo rio tem 1,3 milhão de km2 e flui predominantemente para o norte.

A Amazônia também é importante para o restante do Brasil devido aos rios voadores. Cerca de 30% da chuva que cai em São Paulo se origina na Amazônia – o que evidencia mais uma vez outro sistema de grande extensão e complexidade.

Recentemente um terremoto de magnitude de 7,5 ocorreu no sul e centro do México deixando alguns mortos e muitos danos materiais na região do seu epicentro, no Estado de Oaxaca, um dos mais pobres do país (G1, 2020).

Antes mesmo do terremoto o vulcão Anak Krakatau, localizado na ilha de Krakatoa, na Indonésia, entrou em erupção. As cinzas formaram uma coluna com 500 metros de altura, segundo o chefe da Agência de Geologia do Ministério de Energia e Recursos Minerais.

Vulcanismo e terremoto são fenômenos absolutamente comuns pelo simples fato de que a movimentação das placas tectônicas é dinâmica há milhões de anos e isto também é válido para o Anak Krakatoa bem como muitos outros vulcões espalhados pelo mundo são ativos. Não é de espantar que haja atividades vulcânicas todo o ano e que pequenos abalos sísmicos possam ocorrer. Estranho seria se não ocorressem! Até mesmo porque as atividades vulcânicas e terremotos ocorridos no primeiro semestre de 2020 foram pouco intensos quando comparados com o de alguns anos atrás.

Isto significa que do ponto de vista das atividades vulcânicas e movimentação de placas não há nada de incomum, especialmente porque tanto o terremoto de Oaxaca quanto Anal Krakatoa fazem parte do extenso anel de fogo do pacífico: área onde há um grande número de terremotos e uma forte atividade vulcânica, localizado no Norte do Oceano Pacífico. O Anel de Fogo do Pacífico tem a forma de ferradura, com 40.000 km de extensão. Mas esses fenômenos ocorrendo no mesmo ano de uma pandemia, nuvem de gafanhotos e de poeira alimentam as crenças escatológicas.

Anel de fogo do Pacífico – As estrelas amarelas indicam Oaxaca (México) e Anak Krakatoa (Indonésia)

Evidentemente tivemos muitos outros fenômenos naturais em 2020 ocorrendo que simplesmente foram esquecidos ou ignorados. Por exemplo, no dia 4 de junho um asteroide classificado como potencialmente perigoso pela Agência Espacial Americana (NASA), denominado asteroide 163348 (2002 NN4) passou muito próximo à Terra (cerca de 5 milhões de quilômetros). Isto simplesmente não chamou atenção dos escatologistas da internet ou religiosos porque não representou perigo. Só chama atenção aquilo que potencialmente é desconhecido ou que tem potencial para se encaixar na categoria catastrófica para fim do mundo.

As pessoas também se esquecem que passamos por mais do que uma pandemia de coronavírus, mas também por uma de dengue, gripe, chikungunya e zikavirus. Apesar de não televisionar, todos estes vírus continuam circulando e ativos.

Indico tudo isto porque existe uma tendência em seguirmos aquilo que é mais bombardeado em nossas vidas cotidianamente e como a imensa maioria da população é guiada pelo senso-comum e por manifestações religiosas crescentes tendemos a correr para o víeis de confirmação de nossas crenças. Se serve a causa escatológica é amplificado, se não é menosprezado. Por essa razão o título do presente texto diz que “Fenômenos naturais trazem uma revelação absolutamente religiosa” e não uma revelação divina.

Os fatos relatados acima não compilam-se em uma revelação divina, mas revelam o quanto um país religioso como o Brasil interpreta fenômenos pela luz de suas crendices e não pelo o que os fatos falam em si. Todos esses fenômenos ocorrem com certa frequência mesmo que não sejam televisionados. O que a leitura escatológica faz é uma dissertação muito menos pautada na realidade e bem mais no metafísico. A verdadeira revelação que trago aqui é que somos um povo absolutamente idólatra a tal ponto de olhar tudo sob a perspectiva da crença. Um povo crédulo se perde nas ilusões de suas crenças e não consegue ver o mundo real passar diante de seu próprio nariz sem interpreta-las como sinais divinos. Enquanto pessoas ficam recorrendo a orações pedindo misericórdia diante de seus falsos positivos e vieses de confirmação o mundo segue apresentando-se como sempre foi. Sempre houve terremotos, vulcanismo, animais migrando com maior ou menor frequência.

A grande revelação é que somos prejudicados pelas nossas crenças e não conseguimos ver o mundo tal como ele realmente é. Todas as manifestações da natureza ou mesmo nos costumes da sociedade brasileira revelam isto, um profundo e às vezes até intolerante padrão religioso que prejudica emancipar-se intelectualmente.

Os fenômenos naturais não revelam a descrição simbólica do apocalipse, que por definição, segundo a sua origem grega significa “retirar o véu”, ou seja, desvendar um relato carregado de simbolismo de um momento social e histórico cultural na qual não temos mais como decodificar. Apocalipse é um livro carregado de simbolismo escrito entre 90 e 100 depois de Cristo. O Brasil tem um povo que não gosta de ler ou tem dificuldades de interpretação de texto, é a maior nação católica do mundo fundada por padres jesuítas que claramente implantou uma educação condicionada a pensar de forma religiosa no seu cotidiano. Por esta razão qualquer manifestação da natureza, se for bela, se torna automaticamente em testemunho da criação divina. Isto é expresso em frases cotidianas como “Olha como deus perfeito”. Se for uma apresentação desastrosa ou destrutiva da natureza é interpretada como fim dos tempos em frases como “Jesus está voltando” ou “Esta chegando o dia do juízo final”.

Todas essas profecias de fim do mundo, da volta de Jesus existem desde algumas décadas ou séculos após a morte do nazareno e da aceitação tardia do livro do apocalipse como componente final da bíblia cristã na Roma antiga.

Em nosso cotidiano a manifestação da idolatria do brasileiro se apresentam no “Vá com deus”, “Deus de guarde”, “Fica com deus”, “Em nome de Jesus”, “Graças a Deus”, “Jesus te ama” e, portanto, não surpreende que uma nação idólatra como o Brasil interprete, ainda que de forma tosca, os atuais fenômenos de 2020 como sinais do fim dos tempos.

Isto se reflete até em nossas decisões políticas (independente da frente ideológica) elegendo a cada 4 anos supostos messias. Políticos (e líderes políticos) se aproveitam dessa paixão religiosa brasileira para se eleger. Quanto eleito, o vencedor é um enviado de deus, quando trai os princípios constitucionais e democráticos se torna um falso profeta. Sempre a interpretação é religiosa. No fim das contas as melhorias da sociedade brasileira nunca vem da idolatria messiânica e só podem vir do próprio povo letrado, emancipado e intelectualmente honesto!

Todo ano e todo dia em que a violência policial aparece na TV mostrando crimes bárbaros sempre vem acompanhada da frase religiosa ”é o fim dos tempos” como se o homem fosse impotente em resolver estes problemas de violência e de causas naturais (alguns deles pelo menos). Essa postura passiva tende a ver a violência como um elemento que confirma a crença religiosa.

Somos uma sociedade afogada até a garganta no misticismo da religião, o que não seria problema algum se os fieis tivessem discernimento entre o que acreditam e o que é o mundo – como ocorre em países secularizados. Essa distinção entre o mundo real e o imaginário da religião foi muitas vezes abordada pelo filólogo Nietzsche e poderia até ser vista até pela alegoria da caverna de Platão. Mas quando a fé conforta demais as pessoas se acomodam em suas posições de “salvos da vida mundana” e se tornam impotentes e passivas até para ver que muitos desses casos são responsabilidades humanas.

Aprendemos a transferir para terceiros a responsabilidade pelos nossos atos. Problemas como a pandemia ou problemas como a violência urbana são reverberações das atividades humanas e não de manifestações malignas ou divinas.

Precisamos para de culpar os personagens deus e diabo pelas nossas escolhas e atitudes desastrosas frente à natureza. Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, sejam boas ou ruins. Terceirizar e covardia! Contudo mais do que as escolhas, somos responsáveis pelos desdobramentos e consequências delas.

Vivemos em um país absolutamente religioso e isto interfere claramente na interpretação dos fatos. Essa suposta revolta da natureza como uma manifestação divina do fim dos tempos certamente explica muito sobre como no passado as pessoas interpretaram as pragas do Egito. Devotos que diante da ignorância de seu momento histórico só puderam entender meros fenômenos da natureza como um castigo divino. Livros escritos sobre o critério da devoção onde os fatos são interpretados como manifestações divinas certamente vão carregar elementos folclóricos e alegorias e não a compreensão de fato de como a natureza funciona, mas como as vontades e as intenções dos deuses funcionam.

Em 2020 temos a oportunidade de compreender a natureza, de produzir conhecimento crítico e intelectualmente libertador. Todo dia é o fim dos dias para muita gente. Portanto, precisamos parar de agir como egípcios de milhares de anos atrás. Estamos em 2020.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Gafanhotos, Saara, Terremoto, Ciência, Apocalipse.