ANOMALIAS CLIMÁTICAS – O “PERÍODO DE AQUECIMENTO MEDIEVAL” E A “PEQUENA ERA DO GELO” NA IDADE MÉDIA.

O que indicadores indiretos do clima – proxies – sugerem é que na Idade Média as temperaturas estavam em alta em alguns pontos do planeta e em certos momentos caíram. Essas variações de períodos de altas e baixas temperaturas nos permitem analisar o que ficou conhecido como Aquecimento Medieval e as Pequenas Eras de Gelo.

Uma forma de saber se o clima quente atual é inédito, precisamos conhecer como foi o do passado. Em nível global, nossos dados atuais provêm de termômetros e registros feitos nos últimos 150 anos. Portanto, é necessário que um perfil climatológico do passado seja construído, com base em outras fontes – uma tarefa susceptível a incertezas.

Sem termômetros, tudo o que os cientistas têm nas mãos são indicadores climáticos indiretos chamados de proxies. Por exemplo, documentos históricos são um deles; registros feitos nos mosteiros, colheitas, observação do tempo, catástrofes meteorológicas, épocas de floração também são e ajudam a reconstituir o clima do passado.

Na própria natureza estão as maiores e melhores fontes climáticas. Amostras de gelo de regiões polares – permafrost – guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura de gelo, a composição da atmosfera no passado e os corais do Pacífico também permitem extrair dados climáticos.

Há cientistas que se dedicam a avaliar o clima passado estudando os tipos de pólen encontrados em diferentes camadas de solo – trabalho feito pelo ramo da Paleopalinologia. Outros analisam a composição de estalagmites nas cavernas, cuja formação pode estender-se por dezenas de milhares de anos. Sedimentos recolhidos em lagos também dão pistas sobre como foi o clima há séculos ou milênios. De todos os indicadores indiretos, os anéis de crescimento das árvores são considerados um dos mais importantes. A sua largura e densidade indicam, ano a ano, se o clima foi mais quente ou mais frio, mais úmido ou mais seco. Combinando-se amostras de diferentes idades, é possível reconstituir as condições climáticas ao longo de milhares de anos (Público, 2010).

O que todos estes indicadores indiretos sugerem é que na Idade Média as temperaturas estavam em alta, pelo menos em alguns pontos do planeta e em certos momentos caíram. Essas variações de períodos ligeiros de altas e baixas temperaturas nos permitem analisar o que ficou conhecido como o Aquecimento Medieval e as Pequenas Eras de Gelo.

 

Pequeno Resfriamento Global

Recentemente, o jornal The Guardian tratou de trazer mais elementos e evidências que reforçam uma das explicações para a origem de uma “Pequena Era do Gelo”, um período de resfriamento que ocorreu após outro período climático denominado “Período Quente Medieval”.

Tecnicamente, o período não corresponde a uma verdadeira Era do Gelo como estamos acostumados a pensar, em termos globais, de ocorrência a longo-prazo e com forte intensidade. Aqui, falamos de períodos quentes e frios com alguns séculos ou décadas de duração enquanto que Eras de Gelo e períodos Interglaciais (de aquecimento global) ocorrem em intervalos milhares de anos. Uma Era de Gelo pode durar entre 90 e 110 mil anos e períodos Interglaciais podem durar de 8 a 15 mil anos.

Em 1920, o matemático Milutin Milankovitch defendeu sua teoria de que o clima do planeta seria determinado pela energia solar incidida, sendo isto determinante para as glaciações, no período em que três grandes fatores ocorrem: O primeiro fator é basicamente devido à irregularidade da orbita terrestre, em forma oval, sendo no afélio o momento em que a Terra recebe menor insolação; O segundo é devido à inclinação do eixo do planeta, que varia a cada 40 mil anos, de 21,8 a 24,4 graus; O terceiro é a precessão, que afeta a inclinação do planeta a cada 21 mil anos (InfoEscola).

O termo “Pequena Era do Gelo” foi introduzido na literatura científica por François E. Matthes em 1939 e foi convencionalmente definido como um período que se estende do século XVI ao século XIX.

O Observatório da Terra da NASA destaca três intervalos particularmente frios no passado recente: um começando por volta de 1650, outro por volta de 1770 e o último em 1850. Todos eles foram separados por intervalos de ligeiro aumento de temperatura média.

O artigo na qual o The Guardian se respaldo para sua reportagem foi publicado por cientistas da University College London e trata de uma causa específica para o período de resfriamento onde a temperatura caiu cerca de 0,15ºC no final dos anos 1500 e início de 1600.

E não apenas a baixa na população humana foi proposta para explicar tal fenômeno. Dentre as várias causas propostas estão: baixas cíclicas na radiação solar, aumento da atividade vulcânica, mudanças na circulação oceânica, variações na órbita da Terra e inclinação axial (forçamento orbital) e variabilidade inerente no clima global.

Os decréscimos na população humana causados tanto pelas mortes geradas pela colonização das Américas quanto às mortes associadas a epidemia de peste negra na Europa (Koch, 2019) formam apenas um hipótese que agora foi reforçada pelo estudo acima. Não apenas a colonização das Américas, mas a peste negra também teria contribuído com o evento ao assolar populações da Europa, Ásia Oriental e Oriente Médio durante o século XIV. Na Eurásia a peste negra dizimou entre 75 e 200 milhões de pessoas (Austin Alchon, 2003). Somente no continente europeu, estima-se que tenha vitimado pelo menos um-terço da população em geral, sendo o auge da peste acontecendo entre os anos de 1346 e 1353 (BBC News, 2001).

O estudo atual da University College London não é o único a sustentar a tese da Pequena Era de Gelo no período de redução populacional. O pesquisador Brierley e colegas também afirmaram que a chegada europeia nas Américas causou mortes em massa por doenças epidêmicas, o que causou abandono das terras agrícolas, e causou muito retorno da floresta, que fixou muito dióxido de carbono da atmosfera em sua biomassa e reduziu a temperatura (Koch, 2019).

A reconstrução da Pequena Era do Gelo e suas variações entre os diferentes estudos (as anomalias mostradas são do período de referência de 1950-1980).

Ruddiman (2003) também sugere que o reflorestamento ocorreu como resultado desta redução da população humana e da atividade agrícola, permitindo uma maior absorção de dióxido de carbono da atmosfera para a biosfera, tendo assim um efeito de resfriamento. Para Ruddiman, se as diminuições de 10 ppm de CO2 forem causadas por eventos de reflorestamento induzidos pela peste, eles resfriam as temperaturas do hemisfério norte em -0,17°C, assumindo uma sensibilidade de 2×CO2 de 2,5°C”.

Um estudo de 2008 analisou os núcleos de sedimentos e amostras de solo em diversos locais da Europa e chegou a mesma conclusão (Bergeron, 2008). Além disto, em outro estudo concluiu-se que o despovoamento estava ligado a uma queda nos níveis de dióxido de carbono observada no Law Dome (Faust, 2006), uma grande cúpula de gelo que se eleva a 1.395 metros diretamente ao sul do Cabo Poinsett, na Antártida.

Outra tese para a queda de temperatura por volta de 1600 recorre a condição orbital de forçamento dos ciclos da Terra ao redor do sol que ocorre periodicamente. Nesta tese, durante os últimos 2 mil anos, tal variação orbital causou uma tendência de esfriamento do hemisfério norte a longo-prazo que continuou através da Idade Média e da Pequena Idade do Gelo (Kaufman, 2009).

A Pequena Era do Gelo ocorreu aproximadamente dos séculos XVI a XIX e durante este período de tempo houve períodos de atividade solar significativamente diminuída conhecida como o Mínimo de Spörer (1460-1550) e Mínimo de Maunder (1645-1715). Esses mínimos foram discutidos em um estudo seminal de Eddy (1976) – há ainda o Mínimo de Dalton, um período menos proeminente de diminuição da atividade solar observada entre 1790 e 1830.

Esses períodos de atividade solar diminuída poderiam ser contribuintes significativos para o resfriamento da temperatura e caracterizam uma anomalia climática. E a atividade solar aumentou desde o final do Mínimo de Dalton até o atual ‘Máximo Moderno’. No entanto, a atividade solar não aumentou em média desde meados do século XX.

O vulcanismo é o fator mais conhecido como causador de queda de temperatura global. Um estudo constatou em 2012 que uma erupção vulcânica tropical especialmente massiva em 1257, possivelmente no atual extinto vulcão Monte Samalas perto do Monte Rinjani, ambos em Lombok (Indonésia), seguido por três pequenas erupções em 1268, 1275 e 1284 não permitiram que o clima recuperasse suas temperaturas a longo-prazo. Isso pode ter causado o resfriamento inicial, e a erupção de 1452-53 da Kuwae em Vanuatu desencadeou um segundo pulso de resfriamento que teria causado a Pequena Era do Gelo de 1650.

A Terra experimentou uma atividade vulcânica elevada em todo o período da Pequena Idade do Gelo e tais erupções liberaram aerossóis na atmosfera que difundiram a luz do sol, causando escurecimento e queda global da temperatura.

Segundo Crowley et al, (2000), no intervalo de 1400 a 1850, a contribuição vulcânica para a variação da escala decadal nas temperaturas globais aumenta entre 41 e 49%, indicando um papel muito importante para o vulcanismo durante a Pequena Era do Gelo.

Outra contribuição proposta para o resfriamento da Pequena Idade do Gelo é a desaceleração da circulação termohalina através da introdução de uma grande quantidade de água doce no Oceano Atlântico Norte, potencialmente como resultado do derretimento do gelo da Groenlândia devido ao aquecimento das temperaturas durante o Período Quente Medieval. A Corrente do Golfo faz parte da circulação termohalina e transporta água quente dos equadores em direção à Europa. Se o oceano Atlântico Norte se diluir com água doce, essa corrente poderia ficar mais lenta ou até mesmo cessar completamente sua circulação. Broecker (2000) propôs esse mecanismo como contribuinte para o resfriamento da Pequena Idade do Gelo. Contudo, uma vez que o manto de gelo da Groenlândia tem diminuído devido ao aquecimento global no século passado, e a desaceleração e possível paralisação da circulação termohalina tornou-se uma preocupação, obviamente o transportador oceânico não teve um efeito de aquecimento o século passado (Skeptical Science, 2010).

O fato é que com a publicação acima um peso maior é dado a hipótese de que a Pequena Era do Gelo ocorrida entre 1500 e 1650 teve participação do reflorestamento causado pelo decréscimo populacional humano. Contudo, as outras hipóteses também têm certo respaldo, o que torna difícil definir somente um fenômeno como protagonista do evento.

 

Período de Aquecimento Medieval

No ano de 1914, o cientista sueco Otto Pettersson descreveu como extensas áreas da Islândia eram cultivadas no século X, antes de serem cobertas de gelo. Do mesmo modo, identificou que os vikings colonizaram a Groenlândia.

Foi o climatologista britânico Hubert Lamb que criou o termo “Medieval Warm Period” (Período Quente Medieval) em 1965, quando publicou um artigo sugerindo que, pelo menos na Europa, o clima foi particularmente quente entre os anos 1000 e 1200, seguido de séculos de frio, entre 1500 e 1700.

Lamb calculou que, entre esses dois períodos, a temperatura média na Inglaterra variou entre 1,2 e 1,4 graus Celsius – muito mais do que os 0,7 graus Celsius de diferença verificado no planeta ao longo do século XX. Anos mais tarde, Lamb estimou que, em alguns locais, as temperaturas na Idade Média chegaram a ser 1,0 a 2,0 graus mais elevadas do que no início do século XX.

Uma parcela razoável de reconstruções climáticas feitas desde então corrobora a tese de um aquecimento durante a época medieval, pelo menos no Hemisfério Norte. Com base nesses resultados, o Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (o conhecido IPCC) concluiu que o período mais quente dos últimos dois mil anos, antes do século XX, ocorreu entre 950 e 1100.

Ao que tudo indica, o Período Quente Medieval foi marcado por muitas perturbações climáticas, como secas intensas que ocorreram no território que atualmente são os Estados Unidos. Duas secas ocorreram simultaneamente – uma no atual Nebrasca, que durou 38 anos (1276-1313), e outra, de 24 anos (1276-1299), no Colorado, que teria afastado populações nativas que ali viviam, da civilização Anasazi.

Na Califórnia, o cientista norte-americano Scott Stine encontrou vestígio de plantas que viviam em regiões submersas, indicando que a seca foi tão intensa que dizimou tais vegetais. As evidências de secas ali apontam para um período de seca de até dois séculos de duração. Já no Egito, há registros de cheias avassaladoras, combinadas com crises de fome, entre os séculos IX e XV.

As alterações climáticas nessa altura não se manifestaram apenas na temperatura, e isto fez com que alguns cientistas prefiram designar o período como uma Anomalia Climática Medieval. As evidências sobre este período de aquecimento são fortes no Hemisfério Norte, sobretudo nas latitudes mais altas. Contudo, quanto ao resto do mundo, o conhecimento é ainda modesto em alguns pontos ou desconhecido. Há poucos indicadores para as temperaturas passadas nos trópicos, na África, em grande parte dos oceanos. Os dados ainda estão longe para estimar um aquecimento medieval global, segundo o IPCC informou em seu relatório de avaliação da ciência climática em 2007.

Anomalia de temperatura da superfície reconstruída para o Período Quente Medieval (950 a 1250d.c), relativa ao período de referência de 1961-1990. As áreas cinzas indicam regiões em que os dados de temperatura adequados não estão disponíveis.

Os estudos sugerem que as evidencias ainda são muito pontuais. Um deles, liderado pelo pesquisador Jürg Luterbacher, da Universidade de Giessen, na Alemanha, produziu, pela primeira vez, uma reconstrução das temperaturas de parte do Hemisfério Sul – abaixo do paralelo 20ºS (mais ou menos de São Paulo para baixo) e concluiu que, naquela região, o clima entre 950 e 1350 era, em média, ainda mais quente do que o do século XX, mas as incertezas são grandes, sobretudo pelo número reduzido de proxies além do Hemisfério Norte (Público, 2010).

Um dos grandes argumentos dos céticos do aquecimento global é justamente este: de que já passamos por períodos mais quentes recentemente e sobrevivemos (Revista Época, 2012).

Embora haja evidências sugerindo que o Período Quente Medieval possa ter sido mais quente do que hoje em muitas partes do globo, as evidências também sugerem que alguns lugares eram muito mais frios do que hoje, incluindo o tropical pacífico. Essa é uma das críticas em relação aqueles que defendem um ceticismo baseado no período Medieval.

Quando os lugares quentes são calculados junto com os lugares com temperaturas mais amenas, torna-se claro que o calor global foi provavelmente semelhante ao início e meados de XX.

Desde o aquecimento do início do século, as temperaturas subiram muito além das alcançadas durante o Período Quente Medieval na maior parte do globo. A National Academy of Sciences Report on Climate Reconstructions ainda em 2006 verificou de forma plausível que as temperaturas atuais são mais quentes do que durante o Período Quente Medieval.

Outras evidências obtidas desde 2006 sugerem que, mesmo no Hemisfério Norte, onde o Período Quente Medieval era o mais visível, as temperaturas estão atualmente além das experimentadas durante os tempos medievais. Isto também foi confirmado por um importante artigo com a participação de 78 cientistas representando 60 instituições científicas em todo o mundo em 2013.

Além disto, devemos considerar também que o Período Quente Medieval tem causas conhecidas que explicam tanto a escala do calor como o padrão. É claro para os cientistas que o Período Quente Medieval ocorreu durante um tempo que tinha radiação solar acima da média e menos atividade vulcânica, e quando somados, resultam em aumento da temperatura. Novas evidências também sugerem que mudanças nos padrões de circulação oceânica desempenharam um papel muito importante em trazer água do mar mais quente para o Atlântico Norte. Isso explica muito do extraordinário calor naquela região. Essas causas de aquecimento contrastam significativamente com o aquecimento atual, que sabemos não ser causado pelos mesmos mecanismos. No geral, as conclusões são claras: 1) Globalmente as temperaturas atuais são mais quentes do que nos últimos 2 mil anos e; as causas Anomalia Climática Medieval não são as mesmas que aquelas que causam o efeito no final de XX.

De fato, tanto o Período Quente Medieval  e a Pequena Era do gelo não eram períodos uniformes globais onde diferentes regiões se aqueceram em épocas diferentes, de acordo com as descobertas de pesquisas anteriores publicadas na revista Nature:

“O período de aproximadamente 830 a 1100 abrange geralmente um intervalo quente sustentado em todas as quatro regiões do Hemisfério Norte. Na América do Sul e Australásia, um período quente sustentado ocorreu mais tarde, de aproximadamente 1160 a 1370 dC”.

No Ártico e na Europa, eles também encontraram temperaturas relativamente altas durante os primeiros séculos da era cristã, consistente com um Período Quente Medieval ou “Período Quente Romano”. O Ártico, a Europa e a Ásia passaram do Período Quente Medieval  para temperaturas mais baixas antes da América do Norte e do Hemisfério Sul. Por volta do ano de 1580, todas as regiões, exceto a Antártica, entraram em uma “Pequena Idade do Gelo” e permaneceram em condições de frio até o final do século XIX:

“Nossas reconstruções regionais de temperatura também mostram pouca evidência de deslocamentos multi-decadais globalmente sincronizados que marcariam intervalos bem definidos de Período Quente Medieval  e Pequena Era do gelo em todo o planeta. Em vez disso, o tempo específico de pico de intervalos quentes e frios varia regionalmente, com variabilidade multi-decadal resultando em a temperatura regional específica se afasta de uma tendência de resfriamento global subjacente”

Nature GeoScience

Assim, o Período Quente Medieval foi um fenômeno localizado na Europa. No resto do mundo, as temperaturas estavam mais baixas do que nas últimas décadas. Estima-se que as temperaturas globais entre 950 e 1100 estavam entre 0.1°C e 0.2°C abaixo da média entre 1961 e 1990, e bem abaixo dos recordes recentes registrados nos últimos 20 anos.

Note que em: a) anteriormente publicada Hemisfério Norte 30 anos de média de temperatura em reconstrução relativa ao período de 1961-1990 referência. b) Temperaturas médias padronizadas de 30 anos, em média, em todas as sete regiões de escala continental. Os símbolos azuis são médias ponderadas por área e as barras mostram os 25º e 75º percentis não ponderados para ilustrar a variabilidade entre as regiões; caixas pretas abertas são medianas não ponderadas. A linha vermelha é a temperatura global média anual de 30 anos da série temporal instrumental HadCRUT4 relativa a 1961-1990 e dimensionada visualmente para corresponder aos valores padronizados durante o período instrumental.

Caixas mostram as 7 regiões de escala continental usadas no estudo Pages 2k. Os gráficos de pizza representam a fração dos tipos de dados de proxy usados ​​para cada reconstrução regional .

Uso tendencioso

A Anomalia Climática Medieval ainda é usada por alguns céticos das mudanças climáticas. Geralmente os céticos do clima acusam os climatologistas das mudanças climáticas de usarem dados pontuais e processos regionais para dizer que todo o planeta esta em aquecimento – o que não é verdade. Contudo, nota-se no caso acima que os negacionistas das mudanças climáticas usam dados regionais, limitados para a Europa, para afirmar que o período medieval foi globalmente mais quente.

Sabemos, agora que os períodos quentes passados não rivalizam com o período atual. O físico Mark Boslough, do Sandia National Laboratories, percorreu a origem de um gráfico que aparentemente mostra como a temperatura dos oceanos já haviam sido mais quentes em um passado recente, especialmente, no período medieval. O físico descobriu que os dados usados no gráfico sofreram profundamente alterados para se alinhar com os pressupostos negacionistas.

De fato, tem sido comum notar que as poucas publicações existentes contra a tese do aquecimento global sofrem de defasagens metodológicas graves. As pesquisas científicas publicadas sobre as mudanças climáticas correspondem a 97% dos artigos produzidos e concluem que o aquecimento global é real e problemático para o planeta. O restante, 3%, concluem indicando que a mudança climática não é real, não é prejudicial, ou não são provocados pelo homem.

Contudo, em uma análise publicada no Journal of Theoretical and Applied Climatology os pesquisadores do clima tentaram replicar os resultados desses 3% de artigos que negam as mudanças climáticas, seguindo exatamente o processo de revisão por pares que é um critério de verificação de validade da tese. Eles descobriram que os resultados eram tendenciosos e as conclusões defeituosas.

Katharine Hayhoe, cientista atmosférica da Texas Tech University junto de uma equipe de pesquisadores analisou os 38 artigos publicados em revistas e periódicos na última década que negavam o aquecimento global antropogênico e cada um deles continha erros em seus pressupostos, na metodologia, ou nas análises.

Um dos co-autores de Hayhoe, Rasmus Benestad, que também é cientista atmosférico no Instituto Meteorológico Norueguês, criou um programa de computador que replicar cada um dos resultados dos periódicos e para tentar entender como eles chegaram às suas conclusões. O programa de Benestad descobriu que nenhum dos artigos teve resultados que eram replicáveis e isto é, metodologicamente não-científico.

No caso do físico Mark Boslough a história começa em 1996 quando o americano Lloyd Keigwin publicou um artigo na revista americana Science um gráfico com a reconstituição da variação de temperatura no Mar de Sargaço, no meio do Atlântico Norte.

Keigwi também incluiu vários anos de medições instrumentais modernas na estação hidrográfica “S” nas Bermudas, começando em 1954. As temperaturas modernas ano a ano flutuam significativamente, mas a média está bem acima da média de 23°C de todo o registro de proxy.

Esta é uma região que viu o maior aquecimento localizado no Período Medieval e Keigwin estimou a temperatura a partir do oxigênio fixado em fragmentos de corais que se formaram entre 3 mil anos atrás até o ano de 1965. Portanto, o caso do Mar de Sargaço nos diz somente ao clima desta região.

Para dar melhor noção da temperatura recente, ele acrescentou no gráfico a variação de temperatura de 1965 a 1990 registrada na base meteorológica da Estação S. Esta temperatura recente oscila, mas e fica em média acima da média histórica de 23 graus centígrados.

Em 1998, o gráfico do Mar de Sargaço reapareceu em outra versão em um artigo da revista da Associação de Médicos e Cirurgiões Americanos (cuja sigla em inglês é AAPS) com algumas alterações:

Em janeiro de 1998 apareceu em um periódico publicado pela Associação Americana de Médicos e Cirurgiões (AAPS), uma organização de defesa política com a missão declarada de “combater a medicina socializada e combater a tomada de medicamentos pelo governo”. Autor e coautores do texto fizeram várias mudanças na representação e na rotulagem. Primeiro eles inverteram os eixos para que o tempo passasse da esquerda para a direita, mas não sabiam que quando dados paleoclimáticos são traçados “anos antes do presente” significa “anos antes de 1950”, então seus dados são alterados em cerca de 50 anos. Em segundo lugar, eles removeram os dados da estação hidrográfica “S”, que mostraram que as temperaturas recentes estão acima da média de longo prazo. Terceiro, eles negligenciaram rotulá-lo como um registro para o Mar dos Sargaços. Em quarto lugar, eles chamaram de temperatura global no texto, dizendo: “Nos últimos 300 anos, as temperaturas globais foram se recuperando gradualmente. Como mostrado na figura, eles ainda estão um pouco abaixo da média dos últimos 3 mil anos ”.

O Gráfico mostra indicações para o Ótimo Climático Medieval e para a Pequena Era Glacial que se seguiu, mas com a data trocada e abrangência adulterada – inspirando um artigo de opinião no prestigiado Wall Street Journal dizendo que “nos últimos 3 mil anos houve cinco períodos distintos em que a temperatura ficou mais alta do que atual”.

A história do gráfico continuou até que em 2007, a AAPS publicou uma nova versão dele. Desta vez, com a temperatura mais recente, de 2006. O ponto do gráfico da AAPS sugere que a temperatura atual está um pouco abaixo da média histórica. Questionados sobre a origem dos dados da temperatura atual, os autores do artigo na AAPS informaram que extraíram a média das medições da Estação S segundo novos dados fornecidos por Keigwin. O gráfico que eles publicaram está abaixo.

O capítulo mais recente dessa história começou quando o periódico da AAPS republicou uma versão colorida e editada do artigo em 2007, sob uma rotação diferente do autor. Depois das críticas do físico Mark Boslough feitas em 2004, um ponto de dados instrumentais foi adicionado para o ano de 2006, e a temperatura média foi alterada. O documento explicou a fonte da temperatura de 2006 dizendo se tratar de “Um valor de 0,25 ° C, que é a mudança na temperatura do Mar dos Sargaços entre 1975 e 2006, foi adicionado aos dados de 1975 para fornecer um valor de temperatura de 2006”. Ainda assim, com o tempo o gráfico surge em certas convenções defendendo uma tendencia global usando dados regionais e os autores sequer sabem justificar a procedência de muitos dados usados nos ajustes gráficos.

A sequência de transformações do gráfico original desde 1996 até 2007 mostra como uma informação científica correta pode ser distorcida para contar uma história bem diferente da original e como informações regionais de uma única pesquisa podem ser travestidas de dados globais comparáveis com as grandes e consolidadas medições independentes que mostram o aquecimento da Terra.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Pequena Era do Gelo, Período de Aquecimento Medieval, Temperatura, Mar de Sargaço, Anomalia Climática, Mudanças Climáticas, Interglacial, Vulcanismo, América, Peste Negra.

 

Referências

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Faust, Franz X.; Gnecco, Cristóbal; Mannstein, Hermann; Stamm, Jörg (2006). “Evidence for the Postconquest Demographic Collapse of the Americas in Historical CO2 Levels”. Earth Interactions. 10 (11): 1.
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