O QUE A CIÊNCIA TEM A DIZER SOBRE O POTENCIAL CLÍNICO DA MACONHA.

A maconha tem múltiplos usos, a maioria sem qualquer conotação criminosa, principalmente para fabricação de tecidos, papel e extração de compostos medicinais. A proibição de seu uso se deu a partir da década de 60 e com as políticas de combate e abuso da força policial a partir da década de 70 a política proibicionista sempre foi bastante criticada. Com isto, poucas chances foram dadas para testar cientificamente o valor da erva do ponto de vista clínico.

As histórias das habilidades da cannabis para aliviar as apreensões existem há cerca de 150 anos, mas o interesse pela maconha medicinal aumentou acentuadamente na última década com a ajuda de campanhas de legalização.

A maconha já foi considerada sagrada, teve seu uso medicinal reconhecido há milhares de anos. Estudos arqueológicos e antropológicos admitem que o homem já usava plantas alucinógenas desde o período Paleolítico entre 40 e 10 mil anos, registrados em pinturas e paredes de cavernas da Idade da Pedra (Saiba mais aqui).

A cerca de 12 mil anos a.c nas ilhas de Taiwan, chineses usavam fibra de cânhamo (uma variedade da maconha) para confeccionar tecidos. Na Mongólia e no sul da Sibéria ela era usada em rituais religiosos. A própria maconha é citada no Antharva Veda, um livro sagrado do hinduísmo. Ela é citada como uma das cinco plantas sagradas da religião.  A maconha, álcool, tabaco e a efedra (Calisto secundifolia) são consideradas as drogas mais antigas do mundo e datam cerca de 10 mil anos. Sítios arqueológicos de 8 mil anos também comprovam o uso de plantas psicoativas fazendo parte da vida do homem e usada em funerais (New Scientist, 2016).

Cientificamente, a eficácia da maconha medicinal está comprovada em diversas patologias demonstrando sua eficiência como analgésico às dores miopáticas ou neuropáticas, músculos e nervos (Barros & Peres, 2011).

Novas evidências sugerem que produtos derivados da maconha podem ser eficazes no tratamento de pacientes com epilepsia resistente a outros medicamentos. Outros estudos mostraram que ele pode atuar como um anticonvulsivo e pode até ter efeitos antipsicóticos.

As duas principais substâncias de interesse clínico que estão presentes na maconha são o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD). O primeiro é responsável pelo efeito psicoativo do vegetal, a sensação alucinógena durante o uso recreativo. O THC foi isolado em 1964 e no final dos anos 80, início dos anos 90, os cientistas começaram a identificar e mapear dois grupos de moléculas, conhecidas como receptores, no sistema nervoso central e no sistema imunológico, que ajudam os canabinóides a se ligarem às células. Essa interação desempenha um papel crítico nos vários efeitos da maconha (Scientific American, 2015).

O segundo composto químico, o CBD, ironicamente age como um antagonista do primeiro, atuando como analgésico e desempenhado outros efeitos terapêuticos semelhantes.

Nosso sistema nervoso produz naturalmente substâncias chamadas endocanabinoides. Elas são semelhantes às extraídas da maconha, as principais substâncias são a anandamida e o 2-araquidonoilglicerol, ambos derivados do ácido araquidônico – um lipídio com diversas utilidades em nossa fisiologia.

Os endocanabinoides atuam no controle da atividade neuronal, sendo liberados nas sinapses pelos neurônios pós-sinápticos e atuam em receptores na membrana pré-sináptica – ao contrário do que estamos acostumados a ver. Seu principal receptor é o CB1, uma vez ativado, inibe a atividade do neurônio pré-sináptico, interrompendo ou diminuindo a comunicação neuronal. Isso acontece toda vez que o neurônio pós-sináptico é hiperativado, em uma tentativa de controlar a própria estimulação. É a partir desde processo fisiológico que deriva-se sua importância como medicamento!

Os receptores CB1 estão presentes em todos os tipos de neurônios (produtores de dopamina, noradrenalina, serotonina, glutamatado, GABA etc) e em praticamente todo o cérebro, apresentando uma concentração particularmente alta em certas regiões como núcleo estriado, hipocampo e cerebelo, mas também na amigdala, córtex cerebral e mesencéfalo.

Além disto, são essenciais na formação intrauterina do cérebro, coordenando os processos de proliferação e diferenciação neuronal, migração dessas células para seus devidos lugares no sistema nervoso central, bem como a formação de axônios e outras estruturas importantes da arquitetura cerebral (LISAM-UFU, 2015).

Ao contrário do THC, o CBD não é psicoativo, o que significa que não tem um forte efeito sobre a atividade cognitiva do cérebro. Cada variedade do grupo da Cannabis produz canabinóides, incluindo o cânhamo. Enquanto CBD e THC são os canabinóides mais conhecidos, existem muitos tipos diferentes, e só recentemente foram investidos recursos significativos em seu estudo.

Nos últimos anos, houve muitos avanços metodológicos no processamento e consumo da maconha. Os produtos concentrados como o óleo e a resina (semelhante a seiva extraído por calor e pressão), permitiram que métodos mais limpos de consumo – como a vaporização – se tornassem mais difundidos. Essas novas tecnologias trouxeram dosagens mais consistentes e identificáveis ​​para pacientes e entusiastas, ao mesmo tempo em que possibilitam métodos mais seguros de consumo.

Estudos mais precisivos e detalhados sobre os efeitos e uso da canabis estão em andamento, uma vez que a proibição continua a ser questionada. Há um grande interesse nos possíveis efeitos terapêuticos do CBD, mas há pouca evidência de eficácia”, disse o Dr. J Hampton Atkinson, co-diretor do Centro de Pesquisa Médica em Canabis (CMCR) da Universidade de Califórnia, San Diego. O CBD pode trazer benefícios para a saúde, mas a falta de pesquisas nessa área significa que simplesmente não há dados suficientes para sustentar a maioria das alegações informais. Na mesma linha, a falta de pesquisa também significa que os riscos potenciais à saúde de consumidos de CBD não são claros.

No entanto, agora que a canabis está desfrutando de um renascimento da pesquisa por meio de esforços de legalização, a ciência médica está ganhando uma perspectiva muito mais detalhada.  De acordo com ClinicalTrials.gov, um banco de dados federal de ensaios clínicos credenciados em todo o mundo, existem cerca de 150 ensaios em andamento que estão testando o CBD como tratamento para uma ampla variedade de condições de saúde, incluindo autismo, alcoolismo, esquizofrenia e até doenças de pele. Por sua parte, o CMCR está realizando estudos rigorosos de CBD especialmente pelo seu potencial no tratamento da esquizofrenia e autismo.

Algumas pesquisas sugerem que o CBD pode reduzir a ansiedade e pensamentos auto-depreciativos e há evidências de que o CBD tem efeitos antipsicóticos em pessoas com esquizofrenia. Outros estudos não mostram nenhum benefício significativo do CBD sobre um placebo.

Um estudo clínico de 2017 publicado no New England Journal of Medicine descobriu que o CBD era altamente eficaz na redução de convulsões em pessoas com síndrome de Dravet, uma forma rara de epilepsia. A Food and Drug Administration (FDA) aprovou uma solução oral de CBD chamada Epidiolex, para tratar esta doença rara.

Dentro do CMCR, há também “muito interesse nos possíveis efeitos anti-inflamatórios do CBD, para uso em artrite de vários tipos, incluindo joelhos e mãos”, disse Atkinson. Pesquisas recentes in vitro com linhagens de células humanas afligidas por artrite reumatóide sugerem que o tratamento com CBD pode ajudar a reduzir processos inflamatórios.

Atkinson enfatizou que “o CBD, como muitas outras substâncias, provavelmente deve ser evitado na gravidez“. Além disso, uma vez que o mercado comercial de canabis é em grande parte não regulamentado, não há uma boa maneira de saber que o que você compra é realmente o que você obtém em termos de dosagem ou conteúdo do produto. “Em estudos feitos pelo estado da Califórnia, parece que uma boa dose de rotulagem do produto está incorreta – a dose ou porcentagem de CBD ou THC é normalmente exagerada”, disse ele.

A observação científica leva tempo, e a comunidade de pesquisa apenas começou a investigar cientificamente os efeitos discretos de vários canabinóides. Dito isso, muitos pesquisadores acreditam que o potencial levado a cabo pelo CBD é promissor (Live Science, 2019).

No cérebro, quando o componente psicoativo THC se liga ao CB1, ele retarda ou bloqueia a liberação de vários neurotransmissores – moléculas sinalizadoras liberadas pelos neurônios – incluindo o glutamato e a dopamina. O resultado é um efeito alucinógeno pelo qual a maconha é mais conhecida, muitas vezes junto com o prejuízo temporário da memória de curto prazo. Dois outros efeitos bem conhecidos da ligação THC-CB1 são a estimulação do apetite, um benefício para pacientes com AIDS ou para aqueles que precisam manter o peso corporal; e a supressão da náusea e dor, que benefícios para alguns pacientes com câncer que recebem quimioterapia (Scientific American, 2015).

O segundo receptor mais comum é o CB2, o outro principal receptor canabinóide, é encontrado principalmente no sistema imunológico. O interesse clínico neste caso é porque o sistema imunológico desencadeia a inflamação e estudos mostram que a maconha pode ter um efeito anti-inflamatório.

Cientistas israelenses descobriram que o CBD pode diminuir a incidência da doença do enxerto contra o hospedeiro em pacientes transplantados de medula óssea, provavelmente porque o canabinóide diminui a atuação do sistema imunológico e impede que ocorra rejeição no paciente. Os canabinóides também apresentam propriedades antibacterianas, antifúngicas e inseticidas.

Contexto histórico da política proibicionista

As histórias das habilidades da canabis para aliviar convulsões existem há cerca de 150 anos, mas o interesse pela maconha medicinal aumentou acentuadamente na última década com a ajuda de campanhas de legalização. Em particular, tanto pacientes quanto cientistas começaram a se concentrar nos benefícios potenciais do CBD. O modo da Lei Tributária de proibir a maconha federal tornou-se ilegal em 1969 com o caso Leary vs. Estados Unidos estimulando o Congresso a revogar a Lei de Impostos e substituí-lo pelo mais abrangente Ato de Substâncias Controladas de 1970. Assim, a maconha foi colocada na “Lista I” em 1971, provisoriamente, até que a ciência pudesse ser avaliada. O presidente em exercício era Richard Nixon e viu na proibição de maconha uma maneira política de neutralizar a esquerda e os hippies anti-guerra. Nixon convocou a Comissão Nacional de Maconha e Abuso de Drogas (o que ficou conhecido como a Comissão Shafer) para projetar apoio científico para a colocar a canabis na categoria de proibição “I”. A Comissão Shafer descobriu ainda em 1972 que a canabis era tão segura quanto o álcool e recomendou o fim da proibição em favor de uma abordagem de saúde pública. Mas então o Federal Bureau of Narcotics foi removido do Departamento do Tesouro e fundido no Departamento de Justiça dos Estados Unidos – onde o aliado de Nixon, o Procurador Geral John Mitchell, foi quem colocou maconha na Lista I.

A especulação está crescendo sobre a possibilidade de que a Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) revise a classificação da maconha dada como equivalente à heroína, ou seja, entre as drogas mais perigosas do mundo.

Drogas de classificação “I” são consideradas como não tendo uso médico e um alto potencial para abuso –ignorando décadas de dados científicos e médicos sobre a canabis. As tentativas de retirá-la encontraram entraves burocrático e distorções políticas.

Na realidade, a proibição da canabis começa muito anteriormente a década de 60. Um elemento importante desta classificação está relacionado ao racismo ostensivo, combinado com as reformas do New Deal e o interesse próprio burocrático são frequentemente atribuídos à primeira rodada da proibição federais da maconha sob a Lei de Impostos da Marihuana criado em 1937, que restringiu a posse àqueles que pagaram um imposto alto por um conjunto limitado de atividades médicas e industriais. Por isto, a canabis foi removida da Farmacopeia oficial dos EUA em 1942 – uma época com profundos desdobramentos raciais. A Associação Médica Americana inicialmente se opôs à proibição e a canabis que era medicamente útil mas foi proibida pois ninguém naquela época estava preparado para defender uma substância que os negros, latinos e músicos de jazz usavam.

A Lei Tributária foi aprovada em meio às reformas do New Deal e os primeiros vendedores de maconha foram presos naquele ano. Em 1944, o relatório do Comitê La Guardia da Academia de Medicina de Nova York foi o primeiro de uma longa fila de órgãos oficiais a questionar a proibição. O comitê defendeu que a maconha não era fisicamente viciante, não era uma droga de entrada a uma vida no crime. Mas Harry Anslinger, chefe do então Departamento Federal de Narcóticos, rotulou o relatório como não-científico e a proibição continuou. Daí surgiu a ideia de fazer com que o público associasse os hippies à maconha e aos negros com heroína, e depois da criminalização ambos seriam fortemente rejeitados pela sociedade com apoio da mídia. Assim o governo poderia prender líderes negros e hippies, invadir suas casas e acabar com as reuniões. Portanto, a questão da política proibicionista é muito mais antiga e ligada a questões político-ideológicas do que realmente científicas.

Décadas atrás o juiz de direito administrativo da DEA, Francis Young, recomendou a não-proibição da canabis em resposta a uma petição de grupos ativistas. Young declarou em 1988 que “a maconha, em sua forma natural, é uma das substâncias terapeuticamente ativas mais seguras conhecidas pelo homem”.

Em 1999, em resposta à legalização médica na Califórnia, o Institute of Medicine descobriu que a maconha tinha potencial medicinal e relativamente baixo de abuso, levando a outra rodada de petições. A DEA negou uma petição novamente em 2011, citando a falta de pesquisa disponível. Ora, evidentemente que há escassez de pesquisas, isto é o resultado direto de um bloqueio federal em tais pesquisas determinado pelo próprio DEA e do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (NIDA). Em síntese, a proibição se dava pela falta de estudo e o próprio governo proibir a estudo – um argumento cíclico.

Muitos médicos também se frustram com a aparente intransigência da DEA diante de evidências e interesses crescentes. Em 2009, a Associação Médica Americana recomendou que a DEA revisasse o status de categoria I da maconha e em 2014, uma pesquisa da Medscape com cerca de 1.500 médicos descobriu que 56% das pessoas entrevistadas apoiaram a legalização da canabis medicinal em escala nacional, com 82% de apoio entre os oncologistas – se os médicos estão apoiando a canabis como medicamento, por que então não nota-la como um medicamento?

Em 2014, legisladores criticaram a administradora da DEA, Michele Leonhart, no plenário do Congresso por não responder a perguntas sobre se a heroína era mais ou menos perigosa do que a maconha, que também é usada para tratar a dor.

Embora a maconha esteja na classificação “I”, a forma sintética e pura do ingrediente mais alucinatório da planta, o THC, está na Tabela III junto com a codeína sob uma formulação farmacêutica chamada Marinol que pode ser legalmente prescrita para náusea e emaciação. O THC puro é uma molécula única e, portanto, considerado mais seguro do que a planta canabis, que contém mais de 300 tipos de moléculas (Scientific American, 2016).

A maconha é quase 144 vezes menos mortal do que o álcool, de acordo com uma pesquisa publicada na revista científica Scientific Reports. Dentre as 7 drogas incluídas no estudo, o álcool foi considerado a mais perigosa em nível individual, seguido pela heroína, cocaína, tabaco, ecstasy, metanfetamina e maconha.

Os pesquisadores determinaram o risco de mortalidade ao comparar uma dose letal de cada substância com a quantidade geralmente usada pelas pessoas. A maconha não apenas teve a razão mais baixa entre as drogas testadas, como foi verificada uma grande diferença entre suas doses letais e típicas. Foi a única droga testada classificada como “baixo risco de mortalidade”. Todas as outras foram classificadas como “médias” ou “altas”.

Os autores do estudo sugerem que as agências governamentais de combate a drogas poderiam, baseadas nos números, alterar a estratégia de combate aos entorpecentes. Segundo os pesquisadores, colocar o foco do trabalho no álcool e tabaco seria mais efetivo em termos de saúde pública.

Além disto, as experiências práticas indicam um caminho contrário ao da política proibicionista. Ao invés de favorecer financeiramente narcotraficantes, a política de liberação da venda da maconha no estado do Colorado nos EUA acabou com a principal fonte de renda do cartel mexicano. O resultado foi publicado no documento divulgado pelo grupo Lawyer Herald, que usou estatísticas atuais de várias fontes para concluir que a produção, distribuição e venda de maconha recreativa legalizada no estado é um dos fatores que causou a redução das operações de venda de drogas dos cartéis mexicanos.

Houve uma redução de até 70% no tráfico da maconha que era controlada por cartéis mexicanos. Um relatório emitido em outubro 2015, pela Drug Enforcement Administration dos EUA, confirmou a redução, mostrando que em 2014 houve uma queda de 23% no contrabando de fronteira em relação ao ano anterior.

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A ciência do lado A e lado B.

Apesar de todos os efeitos medicinais há também ressalvas a serem feitas sobre a canabis. Aqui trataremos dos dois lados da questão.

Um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences resolveu averiguar a sugestão controversa apontada por estudos anteriores de que o cérebro adolescente em desenvolvimento era particularmente vulnerável a danos causados ​​pelo uso da maconha.

Para o estudo, os pesquisadores examinaram dados que foram coletados para dois grandes estudos com gêmeos nos EUA. Eles se concentraram em 3.066 participantes que receberam uma bateria de testes de inteligência com idades entre 9 e 12 anos – antes de qualquer um deles ter usado maconha – e novamente com idades entre 17 e 20 anos. Eles rastrearam mudanças nas pontuações dos testes e estudaram se essas trajetórias eram piores para usuários de maconha do que para não-usuários. Se fumar maconha prejudicasse os resultados dos testes, os pesquisadores argumentavam que as pessoas que fumaram mais maconha deveriam, obviamente, apresentar tendências mais pobres do que aquelas que fumaram menos.

O estudo também analisou 290 pares de gêmeos nos quais um usava maconha e o outro não. Os membros de cada dupla cresceram juntos e 137 conjuntos eram gêmeos idênticos, então compartilhavam o mesmo DNA.

Em nenhum dos casos os usuários se saíram pior do que os irmãos gêmeos que se abstiveram. Assim, concluíram os pesquisadores, o consumo de maconha não apresentou uma relação causal para ser responsável pelo declínio nos resultados dos testes. Joshua Isen, autor do estudo observou, no entanto, que o trabalho não diz nada sobre outras possíveis conseqüências prejudiciais do fumo da maconha na adolescência (MedicalXpress, 2016).

Valerie Curran, psicofarmacologista da University College London e seus colegas chegaram as mesmas conclusões que outros estudos de que não há evidência de que o uso da maconha interfira no QI de adolescentes. Seu estudo analisou mais de 2000 adolescentes britânicos irmãos gêmeos. O estudo foi publicado no Journal of Psychopharmacology.

Aproximadamente metade dos americanos consome a maconha em algum momento de suas vidas, e muitos começam ainda na adolescência. Embora alguns estudos sugiram que a droga poderia prejudicar o cérebro adolescente em fase de maturação, o verdadeiro risco é controverso. Agora, no primeiro estudo desse tipo, cientistas analisaram o uso de maconha de longo prazo em 3 mil adolescentes, comparando as mudanças de QI em irmãos gêmeos que usaram ou se abstiveram da maconha durante 10 anos. Considerando fatores ambientais, os cientistas não encontraram nenhuma ligação mensurável entre o uso de maconha e o menor QI (Saiba mais aqui). O CB1, que é o mais comum dos dois principais receptores, é amplamente distribuído no cérebro, com altas concentrações no córtex e no hipocampo (uma região importante para a formação de novas memórias). Esses receptores também ocorrem em partes do cérebro envolvidas na percepção da dor. Existem baixos níveis de CB1 no tronco cerebral, onde as funções cardíaca e respiratória são reguladas; sua escassez relativa nessa região pode explicar por que, ao contrário dos opioides, mesmo doses pesadas de canabinóides não representam ameaças agudas para o coração ou sua capacidade de respirar.

Assim, o pior desempenho cognitivo dos usuários de maconha poderia resultar de outros fatores associados ao uso de maconha, em vez da maconha em si – e é muito difícil controlar todos esses outros fatores.

Usando dados de 2235 adolescentes coletados como parte do projeto “Crianças dos anos 90” do sudoeste da Inglaterra, um estudo analisou a relação entre quantas vezes alguém relatou ter usado maconha aos 15 anos de idade e seu desempenho em um teste de QI concluído na mesma idade. Os adolescentes também fizeram um teste de QI previamente, aos 8 anos de idade – antes de qualquer um deles ter consumido maconha.

À primeira vista, os resultados sugeriram que os adolescentes que usaram canabis tiveram um desempenho pior nos testes de QI na adolescência, depois de contabilizarem o QI ‘básico’ aos 8 anos de idade. Mesmo aqueles que usaram canabis apenas algumas vezes obtiveram cerca de 2 pontos de QI mais baixos do que aqueles que nunca experimentaram canabis – o que é estatisticamente pouco significativo. No entanto, também foi notado que os adolescentes que usavam maconha tinham muito mais probabilidade de usar cigarro, álcool e outras drogas ilícitas – e todos esses fatores também preveem menores pontuações em testes de QI na adolescência. Os usuários de maconha eram muito mais propensos a serem fumantes de tabaco – 84% daqueles do grupo de usuários de canabis mais ativos (que relataram ter usado maconha pelo menos 50 vezes aos 15 anos de idade) haviam fumado mais de 20 vezes sua vida, em comparação com apenas 5% daqueles que nunca usaram canabis.

Quando analisadas estatisticamente, essas diferenças nas taxas de uso de outras substâncias, juntamente com outros fatores, incluindo problemas comportamentais na infância e sintomas de saúde mental, foi demonstrado que a canabis não consome a pontuação do QI. Além disto, após a análise estatística, o grupo mais pesado de usuários de maconha previu pontuações de QI que não eram diferentes daqueles que nunca experimentaram maconha. Uma análise semelhante para examinar as mesmas notas escolares em adolescentes, nas quais eles tinham entre 15 e 16 anos, mostrou dados semelhantes sobre o QI (o equivalente a apenas 2 pontos mais baixos comparado a não usuários) e novamente, outros fatores relacionados demonstrou que o uso de canabis não previa um desempenho escolar pior (The Guardian, 2016).

Orrin Devinsky, neurologista do Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, e seus colegas de vários centros de pesquisa publicaram os resultados do maior estudo feito com um medicamento à base de canabis para a epilepsia resistente na revista The Lancet Neurology. Os pesquisadores trataram 162 pacientes com um extrato de 99% de CBD e os monitoraram por 12 semanas. Este tratamento foi dado como um complemento aos medicamentos existentes dos pacientes e o estudo foi aberto, ou seja, todos sabiam o que estavam recebendo.

Os pesquisadores relataram que a intervenção reduziu as convulsões motoras a uma taxa similar às drogas existentes (uma média de 36,5%) e 2% dos pacientes ficaram completamente livres de crises. Além disso, 79% dos pacientes relataram efeitos adversos, como sonolência, diarreia e fadiga, embora apenas 3% abandonassem o estudo devido a eventos adversos.

Estudos anteriores mostraram ser especialmente fortes com os produtos à base de maconha. Por exemplo, um estudo anterior de 2015 realizado por Chapman e seu grupo na Universidade do Colorado revelou que 47% dos pacientes cujas famílias se mudaram para o Colorado para tratamento de epilepsia baseada em canabis relataram melhora, em comparação com 22% em pessoas que já viviam lá.

Outra questão importante é a possibilidade de interações medicamentosas pois, o CBD é um potente inibidor de enzimas hepáticas que pode aumentar a concentração de outras drogas no organismo. Isso significa que, quando administrados com outros compostos, os efeitos consequentes nos pacientes podem ser devidos ao aumento da exposição a essas outras drogas, e não ao CBD especificamente.

Evidências sugerindo que o CBD é eficaz contra a epilepsia resistente ao tratamento podem estar crescendo, mas os cientistas ainda sabem muito pouco sobre como ele funciona – além da probabilidade de que seja completamente diferente de qualquer outro medicamento conhecido (Scientific American, 2016). Foi constatado, por exemplo que o CBD tem efeitos colaterais. Elizabeth Thiele, epileptologista de Harvard, diz que algumas crianças, por razões que não são claras, sofrem alterações de humor ao receberem óleos de CBD sem receita médica (New York Times, 2019).

Outras pesquisas recentes sugerem que o THC também pode proteger os neurônios de traumas. David Plurad e seus colegas fizeram uma revisão retrospectiva de 446 casos de traumatismo cranioencefálico tratados no Harbor-UCLA Medical Center de janeiro de 2010 a dezembro de 2012. O estudo, publicado na revista American Surgeon, constatou que 82 desses pacientes tiveram teste positivo para THC e dois deles morreram, para uma taxa de mortalidade de 2,4% para estes traumas. A taxa de mortalidade entre os 364 pacientes que não fizeram uso do THC em seu sistema foi de 11,5%, ou seja, quase cinco vezes maior. Considerando fatores como a idade, gravidade da lesão e nível de álcool no sangue, os pesquisadores concluíram que a ligação entre o THC e uma menor taxa de mortalidade nesses pacientes se manteve. Embora os mecanismos não sejam totalmente compreendidos, pesquisas anteriores sugerem que tanto o THC quanto o CBD podem aumentar o fluxo sanguíneo no cérebro, trazendo oxigênio e nutrientes necessários para os neurônios em perigo. Como eles inibem o glutamato, também podem prevenir os efeitos tóxicos que ocorrem após o trauma cerebral, quando os neurônios podem ser superestimulados pelo neurotransmissor. Algumas pesquisas, incluindo um estudo financiado pelo Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, mostraram que o uso intenso da maconha (pelo menos quatro vezes por semana nos últimos seis meses) pode levar a mudanças adversas em partes do cérebro associadas a recompensa e tomada de decisão.

A empresa britânica GW Pharmaceuticals desenvolveu duas drogas derivadas da maconha: Epidiolex e Sativex para os ensaios clínicos. Epidiolex, citado acima, é uma forma purificada de CBD cuja função é tratar convulsões e é foi testado em ensaios clínicos internacionais pela Universidade da Califórnia, San Francisco, Epilepsy Center. Já foi concedido o status de medicamento órfão – um caminho para aprovação baseado em estudos clínicos menores do que o normal pela FDA. A outra droga, o Sativex é um spray para a boca que contém THC e CBD, aprovado no Canadá e em vários outros países – mas não nos EUA – para o tratamento da espasticidade muscular em pacientes com esclerose múltipla, além de ser testado como tratamento para dor.

Na verdade, o primeiro medicamento que fez uso da maconha foi o Marinol, usado para suprimir náuseas e estimular o apetite – contém THC. Mas o Epidiolex é o primeiro medicamento que contém apenas CBD e o primeiro derivado diretamente da própria planta de canabis. Isto porque o THC do Marinol é sintético. As drogas são normalmente desenvolvidas no laboratório e passam por testes antes de chegar aos pacientes. Porém, no caso do Epidiolex, duas mães de crianças epilépticas experimentaram em seus próprios filhos e, em seguida, ajudaram a introduzir uma versão do que descobriram no canal da FDA (New York Times, 2019).

Além dessas condições, estudos em animais e em células, publicados em 2014, sugerem que os canabinóides podem eventualmente desempenhar um papel útil no tratamento de outros tipos de doença. Depois de induzir tumores de câncer de mama em camundongos, pesquisadores do Reino Unido descobriram que poderiam reduzir os tumores administrando o THC. A substância química pode interromper o crescimento das células cancerígenas à medida que se liga aos receptores CB2, que são muito mais abundantes nas células cancerígenas do que nas saudáveis.

De acordo com as descobertas feitas por um estudo publicado recentemente, o câncer de pâncreas pode ser tratado por um composto encontrado na maconha, mas não se trata de um canabinóide e sim por um flavonoide, responsável por dar cor as flores. Além disto, este fitonutriente da sabor e aroma de diferentes cepas de maconha. A partir dele foi desenvolvido um medicamento chamado FBL-03G.

O câncer de pâncreas é particularmente mortal, com uma taxa de sobrevida em cinco anos em 8% dos casos. Quando o câncer de pâncreas encontrou esse flavonóide derivado da canabis – associado a radiação – as células cancerígenas passaram pela morte celular do tumor.

Em um experimento específico, ratos com o câncer desenvolvido deixados sem tratamento morreram em 20 dias; entre 30 e 50% dos ratos tratados com o flavonóide e a radioterapia ainda estavam vivos após 40 dias.

Este estudo destaca algo completamente diferente: outros compostos da canabis – que não têm nada a ver com o sistema endocanabinoide – também podem ter valor terapêutico (Observer, 2019). Os resultados foram publicados on-line em 23 de julho na revista Frontiers in Oncology. Estudando o CBD como um possível tratamento para distúrbios do espectro do autismo pesquisadores espanhóis estão testando THC e CBD em um câncer cerebral agressivo chamado glioblastoma.

Na Universidade da Carolina do Sul, uma equipe descobriu que o THC poderia reduzir a inflamação associada a doenças autoimunes, suprimindo a atividade de certos genes envolvidos na resposta imune. E na Universidade do Sul da Flórida, pesquisadores trabalhando com células em laboratório mostraram que concentrações extremamente baixas de THC poderiam reduzir a produção de beta-amilóide, a proteína que forma placas abundantes no cérebro e está ligada a origem do Alzheimer. Serão, no entanto, necessários vários anos para que os cientistas aprendam como o THC funciona e como pode atuar como um mecanismo de regressão dessas doenças – especialmente diante de políticas proibicionistas (Scientific American, 2015).

O giro dentado é uma porção do hipocampo ligada a memória no cérebro de mamíferos adultos e contém células-tronco e progenitoras neurais, ou seja, capazes de gerar novos neurônios em um processo conhecido como neurogênese. Um estudo demonstrou que tanto as células-tronco quanto as progenitoras neurais do hipocampo de ratos embrionários e de adultos são imunorreativos aos receptores canabinóides CB1, indicando que os canabinóides podem atuar nos receptores para regular a neurogênese.

O tratamento crônico, mas não agudo, com a administração de um canabinóide sintético chamado HU210 promoveu a neurogênese no giro dentado do hipocampo de ratos adultos e exerceu efeitos semelhantes a ansiolíticos e antidepressivos. O estudo ainda sugere que o tratamento crônico com HU210 produz efeitos semelhantes a ansiolíticos e antidepressivos, provavelmente via promoção da neurogênese do hipocampo.

Outro estudo realizado com células progenitoras do hipocampo em cultura mostrou que o CBD promove a proliferação celular e a progressão do ciclo celular, imitando o efeito proliferativo da ativação dos receptores canabinóides CB1 e CB2. O estudo ainda indicou um aumento da proliferação celular no hipocampo e a neurogênese em camundongos do tipo selvagem.

Outro estudo ainda demonstrou o efeito da ativação do receptor de canabinóide tipo 1 (CB1R) na auto-renovação, proliferação e diferenciação neuronal em culturas de células-tronco e progenitoras da zona subventricular neonatal de camundongos. No cérebro adulto, a zona subventricular neonatal é dotada de células-tronco neurais que dão origem a células progenitoras altamente proliferativas, capazes de se diferenciar em neurônios e células da glia. As células recém-geradas migram da zona subventricular neonatal em direção às áreas danificadas devido a várias lesões cerebrais e doenças neurodegenerativas. Portanto, essas células proliferativas e multipotentes podem representar uma fonte potencial de neurônios e glia para reparo cerebral.

Portanto, há vários estudos que indicam potenciais clínicos para a canabis. Entretanto, há alguns estudos que indicam efeitos negativos. Um estudo envolvendo doses intensas de maconha indicou que altos níveis de uso da variedade skunk da maconha pode afetar a substância branca do cérebro, tornando menos eficiente a comunicação entre os hemisférios direito e esquerdo. Skunk é uma das variedades da maconha que apresenta odor mais forte (skunk em tradução livre significa gambá) e produz maiores concentrações de THC, pois é resultado do cruzamento de várias espécies do mesmo gênero (Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruderalis) cultivadas em ambiente controlado.

Varreduras cerebrais de pessoas que fumavam regularmente uma canabis forte como skunk revelaram diferenças sutis na matéria branca que conecta os hemisférios cerebrais e que nunca foram vistas naqueles que nunca usaram canabis ou que fumaram apenas as variedades menos potentes da erva. Observando o corpo caloso, que formado por feixes de fibras nervosas, nota-se que ele é rico em receptores de canabinóides, nos quais o THC atua. Os detalhes do estudo são relatados na revista Psychological Medicine.

Paola Dazzan, neurobióloga do Instituto de Psiquiatria do King’s College de Londres, informou que os efeitos parecem estar ligados ao nível do psicoativo THC. Enquanto as formas tradicionais de canabis contêm de 2 a 4% de THC, as variedades mais potentes (das quais existem cerca de 100) podem conter entre 10 a 14% de THC, de acordo com a organização de caridade DrugScope.

Os pesquisadores usaram duas técnicas de varredura, ressonância magnética (MRI) e imagem de tensor de difusão (DTI), para examinar o corpo caloso, a maior região da substância branca, nos cérebros de 56 pacientes que relataram um primeiro episódio de psicose, e 43 voluntários saudáveis ​​da comunidade local. Os exames descobriram que os usuários diários de canabis de alta potência tinham um pouco maior – cerca de 2% – “difusividade média” no corpo caloso. Isso reflete em um problema na substância branca que, em última análise, a torna menos eficiente na transmissão de sinais e não se sabe exatamente o que isso significa para o funcionamento do sistema nervoso da pessoa.

O estudo não pode confirmar que altos níveis de THC na canabis foram os responsáveis por causar as alterações na substância branca. Dazzan e outros colegas no Instituto de Psiquiatria relataram que a disponibilidade imediata de skunk no sul de Londres pode estar por trás de um aumento na proporção de novos casos de psicose atribuídos à canabis (The Guardian, 2015).

Em outro estudo publicado na revista Molecular Psychiatry, pesquisadores encontraram evidências de um sistema de dopamina comprometido em usuários de maconha de forte intensidade. Foi registrado uma baixa liberação de dopamina na região estriado do cérebro, local que está envolvido na memória de trabalho, no comportamento impulsivo e na atenção. Anteriormente, já havia sido demonstrado que a dependência de outras drogas de abuso, como a cocaína e a heroína, tem efeitos semelhantes na liberação de dopamina, mas até agora não havia evidências para canabis.

O estudo incluiu 11 adultos entre as idades de 21 e 40 anos que eram severamente dependentes de canabis e 12 controles saudáveis ​​pareados. Em média, o grupo de canabis começou a usar aos 16 anos, tornou-se dependente de canabis aos 20 anos e esteve dependente nos últimos 7 anos. No mês anterior ao estudo, quase todos os usuários neste estudo fumavam maconha diariamente.

Usando tomografia por emissão de pósitrons (PET) para rastrear uma molécula radiomarcada que se liga aos receptores de dopamina no cérebro, os cientistas mediram a liberação de dopamina no estriado e suas sub-regiões, bem como em várias regiões do cérebro fora do estriado, incluindo o tálamo, mesencéfalo, e globus pallidus. Os participantes foram examinados antes e depois de receberem anfetamina oral para induzir a liberação de dopamina. A alteração percentual na ligação do radiomarcador foi tomada como um indicador da capacidade de libertação de dopamina.

Os pesquisadores também exploraram a relação entre a liberação de dopamina em uma área chave do corpo estriado e desempenho cognitivo em tarefas de aprendizagem e memória de trabalho. Embora não tenha havido diferença entre os grupos no desempenho da tarefa, em todos os participantes a menor liberação de dopamina foi associada com pior desempenho em ambas as tarefas. Estas descobertas aumentam o crescente número de pesquisas que demonstram os efeitos potencialmente adversos que a canabis pode ter (Science Daily, 2016).

Um estudo de 2015 publicado na revista Journal of the American College of Cardiology indica que usuários de maconha tem maiores chances de desenvolver acidente vascular cerebral por estreitamento de artérias no crânio.

Pesquisadores examinaram 334 pacientes com idade inferior a 45 anos que foram hospitalizados por acidente vascular cerebral isquêmico, entre 2005 e 2014 e um total de 58 pacientes eram usuários de maconha. Os resultados mostraram que a estenose arterial intracraniana foi a causa de acidente vascular cerebral em 45% dos usuários de canabis em comparação com 14% dos não-usuários. Na internação hospitalar, os usuários de maconha e não-usuários apresentavam deficiência motora unilateral semelhante, mas os consumidores de canabis apresentavam mais transtornos visuais e menos afasia em comparação aos não-usuários. A independência funcional foi similar em ambos os grupos.

A embolia cardíaca, coágulo sanguíneo formado em outra parte do corpo que se move para o cérebro, foi a causa mais comum de derrame isquêmico em não-usuários no estudo. Os investigadores descobriram que 29% dos acidentes vasculares cerebrais em não usuários foram causados ​​por embolia cardiovascular, em comparação com apenas 14% nos usuários de maconha.

Os usuários de maconha no estudo eram mais jovens, mais propensos a serem do sexo masculino, mais propensos a fumar tabaco e mais propensos a ter outros fatores de risco para o estilo de vida do que os não usuários do estudo (American College of Cardiology, 2015).

A porcentagem de americanos que relataram usar maconha em 2015 mais que dobrou em comparação com 2001-2002 e 2012-2013, e o aumento dos distúrbios por uso de maconha durante esse período foi bastante expressivo, de acordo com um estudo no American Journal of Psychiatry. A pesquisa mostrou que 2,5% dos adultos – quase 6 milhões de pessoas – experimentaram distúrbio relacionado ao uso de maconha, enquanto 6,3% haviam atendido aos critérios diagnósticos para o distúrbio em algum momento de suas vidas.

Para ser diagnosticado com o transtorno, os indivíduos deveriam atender, pelo menos, dois dos 11 sintomas que avaliam o desejo, a retirada, a falta de controle e os efeitos negativos nas responsabilidades pessoais e profissionais. A gravidade do distúrbio foi classificada como leve, moderada ou grave, dependendo do número de sintomas. À medida que a gravidade do transtorno do uso de maconha aumentou, também aumentaram os níveis de incapacidade associados e a frequência do uso de maconha.

O estudo colaborativo foi realizado por cientistas da Escola de Saúde Pública Mailman da Columbia University, do Columbia University Medical Center, e do Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA), parte do National Institutes of Health e também descobriu que o transtorno do uso de maconha é frequentemente associado a outros transtornos por uso de substâncias, problemas comportamentais e incapacidade, e é largamente não tratado.

Um número crescente de adultos americanos não percebe o uso de maconha como prejudicial e alguns podem usar maconha sem sofrer danos mas, outros usuários experimentam conseqüências negativas, que podem incluir problemas mentais e físicos. Os pesquisadores descobriram que apenas cerca de 7% das pessoas com transtornos por uso de maconha no último ano recebem qualquer tratamento específico para a maconha, e apenas 14% das pessoas com transtornos por uso de maconha ao longo da vida recebem tratamento (Science Daily, 2016).

O consumo de canabis durante a gravidez está associado ao desenvolvimento cerebral anormal, e isto foi constatado em um estudo publicado na revista Biological Psychiatry. Em comparação com crianças não expostas, aquelas que foram expostas à maconha no período pré-natal tinham um córtex pré-frontal mais espesso, uma região do cérebro envolvida em cognição complexa, tomada de decisão e memória de trabalho.

O autor do estudo, Dr. Hanan El Marroun, do Centro Médico Universitário Erasmus na Holanda, informou que seu estudo é importante porque o consumo de canabis durante a gravidez é relativamente comum e sabemos muito pouco sobre as potenciais consequências da exposição à canabis durante a gravidez. Estima-se que entre 2 e 13% das mulheres em todo o mundo usam canabis durante a gravidez. Estudos anteriores identificaram as consequências comportamentais de curto e longo prazo da exposição pré-natal à canabis, mas os efeitos sobre a morfologia do cérebro eram desconhecidos.

Os pesquisadores usaram imagens de ressonância magnética estrutural para examinar os cérebros de 54 crianças de 6 a 8 anos de idade, que foram expostas ao consumo de canabis no período pré-natal. A maioria das crianças expostas à maconha também foi exposta ao tabaco, então os pesquisadores as compararam com 96 crianças expostas ao tabaco apenas no pré-natal, bem como 113 crianças sem exposição. As crianças faziam parte de um estudo prospectivo de base populacional na Holanda.

A comparação de crianças expostas ao tabaco com crianças expostas ao tabaco e canabis revelou diferenças na espessura cortical, sugerindo que a exposição à canabis tem efeitos diferentes do tabaco. Outras pesquisas podem explorar a natureza da relação causal entre a exposição pré-natal à canabis e as anormalidades cerebrais estruturais. No entanto, o estudo atual, combinado com a literatura existente, apoia a importância de evitar fumar maconha e cigarros durante a gravidez (Science Daily, 2016)

Outro estudo ainda analisou a questão financeira e como ela é afetada por pessoas que fumam muita maconha desde a adolescência até a idade adulta – mesmo que não se viciem na droga.

Quanto mais anos os indivíduos fumam maconha – quatro ou mais vezes por semana – maior a probabilidade de sofrer sérios problemas financeiros, segundo a epidemiologista social Magdalena Cerdá e seus colegas da Universidade da Califórnia, em Davis. Má gestão do dinheiro levaram a inadimplência nos pagamentos com cartão de crédito, desencadeando dificuldades em pagar contas ligadas ai aluguel e alimentação e bem-estar.

Em uma amostra representativa de 947 neozelandeses que foram estudados desde o nascimento até os 38 anos, problemas econômicos e sociais adultos – que também incluem queda do status de classe média, roubo de dinheiro no trabalho e violência doméstica – ocorreram igualmente entre usuários regulares de maconha e álcool, segundo o estudo que foi publicado na revista Clinical Psychological Science (Science News, 2016)

Em termos ecológicos, descobriu-se ainda que a canabis com baixo teor de THC atrai uma grande variedade de espécies de abelhas que coletam alimentos para larvas. As plantas de cânhamo para fins industriais e as variedades com baixo teor estão sendo visitadas com maior frequência por abelhas americanas, à medida que os estados criam programas pilotos para cultivo legal. Nem o cânhamo nem as outras variedades da espécie Cannabis sativa cultivadas para fins recreativos ou medicinais oferecem aos insetos qualquer néctar, e todos dependem do vento para espalhar o pólen. Ainda assim, uma grande variedade de abelhas apareceu em dois lotes experimentais de cânhamo durante uma pesquisa de um mês feita pelo estudante de entomologia Colton O’Brien, da Colorado State University, em Fort Collins.

Abelhas em 23 dos 66 gêneros conhecidos por viverem no Colorado caíram nas armadilhas de O’Brien, como ele relatou na revista Entomology e na reunião anual dos EUA e duas sociedades entomológicas canadenses. O’Brien e seu conselheiro, Arathi Seshadri, acham que esta é a primeira pesquisa de abelhas em campos de canabis.

As abelhas precisam de pólen para alimentar seus filhotes e, durante o levantamento da armadilha em agosto de 2016, não havia muitas outras flores desabrochando. Pouco se sabe tudo sobre as qualidades nutricionais do pólen de cânhamo para as larvas. Ainda assim, as plantações comerciais de cânhamo podem acabar como fontes raras de alimentos para os polinizadores em tempos estressantes, disse O’Brien (Science News, 2018).

Considerando tudo que foi pontuado aqui, vale considerar que à medida que a ciência avançou, o CBD se tornou um fenômeno da cultura pop. Alguns cientistas estão preocupados com o quão longe a moda do CBD foi além da ciência. Especialmente porque os usuários recreativos, particularmente aqueles que começam a usar maconha mais cedo na vida, apresentam algumas dificuldades cognitivas e estrutura e função cerebral alteradas. As pessoas usam maconha desde sempre e a questão agora é: Como os cientistas podem contribuir para um uso mais consciente e saudável?

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Cannabis, Maconha, Teste de QI, Política Proibicionista, Epilepsia, Anti-Inflamatório, Anti-convulsivo, Skunk, Memória, Hipocampo, Neurogênese.

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