FRANCIS BACON E SEU MÉTODO CIENTÍFICO.

Francis Bacon (1561-1626) foi um filósofo Inglês, cientista, jurista, orador dentre tantas outras particularidade. Serviu como procurador-geral e como Lord Chanceler da Inglaterra e mesmo após sua morte, sua obra permaneceu extremamente influente; especialmente como defensor do método científico durante a Revolução Científica.

Francis Bacon (1561-1626)

O sistema lógico que alicerça o processo científico foi apresentado – em sua primeira versão – por Francis Bacon, no século XVII. Atuando em cima de trabalhos feitos por outros autores, como por exemplo Al-Hazen – 600 anos antes – o método de Bacon exige que os cientistas façam observações, formem uma teoria para explicar o que foi observado e depois teste a validade de suas respostas a partir de experimentos. Assim, se forem verdadeiros os resultados poderiam então ser enviados para revisão e constatação de outros cientistas.

Para Bacon a ciência era como um salto dado pelas invenções que poderiam superar e reduzir nossas necessidades e misérias. Acertou em partes!

Enquanto Aristóteles não via a necessidade de experimentações (ou as deixava em segundo plano) e Platão acreditava que as verdades seriam alcançadas quando um número de homens suficientemente intelectuais as estruturavam depois de muitas discussões, Bacon os criticou justamente porque não faziam uso dos experimentos, processo na qual estariam as provas do mundo real.

Bacon tem vários trabalhos chaves, dois deles são o “Novum Organum” (1620) onde apresenta os pilares do método científico (observação, dedução e experimentação) e o “Nova Atlântica” (1623) onde retrata uma ilha fictícia onde há pesquisas sendo feitas por estudiosos focadas em invenções.

Por esta razão, Bacon é chamado de pai do empirismo (Sweet Briar College, 2013). Seus trabalhos defendiam a possibilidade do conhecimento científico baseado apenas no raciocínio indutivo e na observação cuidadosa dos eventos na natureza. Ele argumentou que isso poderia ser conseguido através do uso de uma abordagem cética e metódica pela qual os cientistas pretendem evitar enganar a si mesmos.

A importância metodológica

Novum Organum foi influente nas décadas de 1630 e 1650 entre os estudiosos, em particular para Sir Thomas Browne (1605-1682), que em sua enciclopédia “Pseudodoxia Epidemica” (1646-72) freqüentemente adere a uma abordagem baconiana para suas investigações científicas. Browne propôs em 1646 que as cargas (que ainda não se chamavam elétricas) poderiam conceber forças repulsivas. Naquele momento da história das ciências, predominava a ideia da existência somente de forças atrativas entre cargas.

Novum Organum é uma das seis partes que constitui a obra de Bacon denominada “Instauratio magna” (A Grande Restauração) onde o autor procura desenvolver o seu pensamento filosófico-científico. Os 6 capítulos da obra são:

De Augmentis Scientiarum (Partições das Ciências)

Novum Organum (Novo Método)

Historia Naturalis (História Natural)

Scala Intellectus (Escada do Intelecto)

Anticipationes Philosophiæ Secunda (Antecipação da 2ª Filosofia)

Philosophia Secunda aut Scientia Activæ (A Segunda Filosofia ou Ciência Ativa)

O Novum Organum é representativo na história da ciência porque implica em toda a base do método científico como meio de observação e indução. Após a publicação de Instauratio magna, Francis Bacon passou a ser chamado como um espírito-guia da The Royal Society fundada sob Charles II em 1660 (Byron, 1930 & Julian, 1992).

Novum organum

Durante o século XVIII, Iluminismo francês, a abordagem não-metafísica de Bacon à ciência tornou-se mais influente do que o dualismo de seu contemporâneo francês Descartes. Em 1733, Voltaire o apresentou a uma audiência francesa como o “pai” do método científico, uma compreensão que se tornou generalizada na década de 1750 (Hundert, 1987). No século XIX sua ênfase na indução foi revivida e desenvolvida por William Whewell dentre outros autores, sendo considerado o “Pai da Filosofia Experimental” (Adamson & Mitchell, 1911).

William Hepworth Dixon (1821-1879), um dos biógrafos de Bacon, defende que a influência de Bacon no mundo moderno é tão grande que todo homem que anda em um trem, envia um telegrama, senta-se em uma poltrona, atravessa o canal ou o Atlântico deve a Bacon alguma coisa.

Em 1902, Hugo von Hofmannsthal (1874-1929) publicou uma carta de ficção dirigida a Bacon e datada de 1603, sobre um escritor que está passando por uma crise de linguagem. Conhecida como “The Lord Chandos Letter”, foi proposto que Bacon era o destinatário e teria lançado as bases para o trabalho de cientistas como Ernst Mach (1838-1916), notável tanto pela distinção acadêmica na história e filosofia das ciências indutivas, quanto por suas próprias contribuições para a física (Kovach, 2002). Mach defendeu uma concepção positivista, de que nenhuma proposição das ciências naturais é admissível se não for possível verificá-la empiricamente.

Ele aprendeu a desprezar o aristotelismo e defendia que a filosofia deveria ser ensinada pelo seu verdadeiro propósito, e para tal propósito, um novo método de investigação deveria ser concebido. Com essa concepção em sua mente, Bacon deixou a universidade e tentou descrever um procedimento racional para estabelecer a causação entre fenômenos baseados na indução.

A indução de Bacon foi, no entanto, radicalmente diferente da empregada pelos aristotélicos. Bacon sugeriu no Novum Organum que outra forma de indução deve ser concebida além da que já foi empregada por Aristóteles. Ela deveria ser usada para provar e descobrir não somente os primeiros princípios, mas também os axiomas menores. De fato, para descobrir tudo que fosse possível. Para ele, a indução que procede por simples enumeração, nos moldes aristotélicos era muito infantil.

O método científico baconiano baseou-se em relatos experimentais para eliminar teorias alternativas. Bacon explica como seu método é aplicado em sua obra, e oferece como exemplo, o exame da natureza do calor. Bacon cria duas tabelas, a primeira da qual ele denomina “Tabela de Essência e Presença”, enumerando as várias circunstâncias em que encontramos calor. Na outra tabela, rotulada como “Tabela de Desvio, ou de Ausência na Proximidade”, ele enumera as circunstâncias que se parecem com as da primeira tabela, exceto pela ausência de calor. A partir de uma análise do que ele chama de naturezas (emissão de luz, dureza, color etc…) dos itens nestas listas, somos levados a conclusões sobre a causa do calor. As naturezas que estão sempre presentes na primeira tabela, mas nunca na segunda, são consideradas como a causa do calor.

O papel que a experimentação desempenhou nesse processo foi duplo. A primeira parte estabelece que a parte mais trabalhosa do cientista seria reunir os fatos necessários para criar as tabelas de presença e ausência.

O Novum Organum é uma obra filosófica cujo título é uma referência ao trabalho de Aristóteles “Organon”, que era seu tratado sobre a lógica e silogismo.

Bacon começa o trabalho dizendo que o homem é:

o ministro e intérprete da natureza“;

o conhecimento e o poder humano são sinônimos“;

“os efeitos são produzidos por instrumentos e ajudas”;

“o homem enquanto opera só pode se inscrever ou retirar corpos naturais, a natureza realiza internamente o resto”;

“a natureza só pode ser comandada obedecendo-a”.

(Bacon, 1620).

Esta é, de certa forma, uma síntese da filosofia baconiana, que pelo conhecimento da natureza e pelo uso de instrumentos, o homem pode governar ou direcionar a natureza para produzir resultados definitivos.

Assim, ao buscar o conhecimento da natureza, o homem alcança poder sobre ela – e assim restabelecer o “Império do Homem sobre a criação“, que havia sido perdido pela queda junto com a pureza original do homem.

Bacon acreditava que a humanidade seria criada acima das condições de desamparo, pobreza e mistério, enquanto se encontrava em condições de paz, prosperidade e segurança (Bacon, 1605).

Bacon, levando em consideração a possibilidade da humanidade abusar do seu poder sobre a natureza adquirida pela ciência, expressa sua opinião de que não havia necessidade de temê-la, pois, uma vez que a humanidade restaurar o poder que lhe foi atribuído pelo dom de deus, seria corretamente governado pela “razão correta e religião verdadeira” (Bacon, 1620). Então, os aspectos morais do uso desse poder, e a maneira pela qual a humanidade deve exercê-lo, são mais explorados em outras obras do que necessariamente no Novum Organum – especialmente no “Valerius Terminus” (1603).

Para o propósito de obter conhecimento e poder sobre a natureza, Bacon delineou em sua obra um novo sistema de lógica que acreditava ser superior às velhas formas de silogismo aristotélicas, desenvolvendo seu método científico visando procedimentos para isolar a causa formal de um fenômeno (calor, por exemplo) através da indução eliminativa.

Para ele, o filósofo deve prosseguir através do raciocínio indutivo de fato ao axioma para a lei física. Antes de começar esta indução, porém, o pesquisador deve libertar sua mente de certas falsas noções ou tendências que distorcem a verdade. Ele chamou estas tendências que distorcem a verdade de “Ídolos”, dispostos em 4 tipos:

Idola tribus (Ídolos da tribo) – tendência dos humanos, como espécie, de generalizar;

Idola specus (Ídolo das cavernas), tendência humana a pré-concepções sobre a natureza em vez de analisar ela profundamente.

Idola fori (Ídolos de mercado), facilidade com que as convenções sociais distorcem nossa experiência;

Idola theatri (Ídolos do teatro), influência deformadora que decorrem de dogmas filosóficos.

Dos ídolos da mente que Bacon categoriza, ele identificou aqueles que parecem ser os mais incômodos da humanidade alcançar uma compreensão precisa da Natureza. Bacon encontra a filosofia para se preocupar com as palavras, em particular o discurso e o debate, em vez de observar o mundo material: “Pois, enquanto os homens acreditam que a razão deles rege as palavras, de fato, as palavras voltam e refletem seu poder sobre o entendimento”. A preocupação de Bacon com os ídolos de mercado é que as palavras já não correspondem à Natureza, mas, em vez disso, se referem a conceitos intangíveis e, portanto, possuem um valor artificial (Zagorin, 1998).

Bacon considerou que é de maior importância para a ciência não continuar fazendo discussões intelectuais ou buscando apenas objetivos contemplativos, mas que deveria funcionar para melhorar a vida da humanidade trazendo novas invenções, tendo mesmo afirmado que “as invenções também são, como foram, novas criações e imitações de obras divinas” (Bacon, 1620). Ele cita exemplos do mundo antigo, ressaltando que no antigo Egito os inventores eram conhecidos entre os deuses e em uma posição mais elevada do que os heróis da esfera política – legisladores, libertadores e outros. Bacon explora o caráter de grande alcance e de mudança mundial de invenções, como no trecho:

“Impressão, pólvora e a bússola: estes três mudaram todo o rosto e estado das coisas em todo o mundo; o primeiro na literatura, o segundo em guerra, o terceiro em navegação; de onde seguiram inúmeras mudanças, tanto que nenhum império, nenhuma seita, nenhuma estrela parece ter exercido maior poder e influência nos assuntos humanos do que essas descobertas mecânicas”.

(Bacon, 1620)

Ele também tomou em consideração quais foram os erros nas filosofias naturais existentes da época e que exigiam correção, apontando três fontes de erro e três espécies de filosofias falsas: a sofística, a empírica e a supersticiosa.

A escola sofistica, de acordo com Bacon, corrompeu a filosofia natural por sua lógica. Esta é a escola criticada por Bacon por “determinar a questão de acordo com a vontade deles, e então recorre a experiência, dobrando-a em conformidade“. Quanto à escola empírica, Bacon disse que dá origem a dogmas mais deformados e monstruosos do que a escola sofistica ou racional, e que se baseou na estreiteza e escuridão de alguns experimentos.

Para a escola supersticiosa, ele acreditava que provocasse grandes danos, pois consistia em uma mistura perigosa de superstição com a teologia. Ele menciona, como exemplos, alguns sistemas de filosofia da Grécia antiga e alguns exemplos de sua época em que os estudiosos levariam a Bíblia como um sistema de filosofia natural. Bacon considerava uma relação imprópria entre ciência e religião, afirmando que “essa mistura de coisas infelizes, divinas e humanas, surge não só uma filosofia fantasiosa, mas também uma religião herética“.

No entanto, embora seja um fato que Bacon trabalhou para distinguir os domínios da fé e do conhecimento científico, também é verdade que ele pensou que um sem o outro seria inútil (Farrington, 1964).

Francis Bacon então, não era um empirista, pois, embora ele estimulasse os homens a ciência e rejeitasse como ídolos todas as noções pré-concebidas, ele estava longe de considerar a experiência sensorial como toda a origem de conhecimento e, na verdade, tinha uma dupla teoria de que, enquanto o sentido e a experiência são as fontes do nosso conhecimento do mundo natural, a fé e a inspiração são as fontes do nosso conhecimento do sobrenatural, de deus e alma racional (Case, 1906) deixando claro em sua obra que os homens devem confiar no sentido dentro dos limites do dever em relação às coisas divinas, pois “o sentido é como o sol, que revela o rosto da terra, mas selva e fecha o rosto do céu” (Bacon, 1620).

No aformismo 92 de Novum Organum, Bacon escreve:

“… assim como Colombo, antes de sua maravilhosa viagem pelo Oceano Atlântico, quando ele deu os motivos de sua confiança de que ele poderia encontrar novas terras e continentes além dos já conhecidos, razões que, embora rejeitadas no início, eram mais tarde provadas pelo experimento, se tornou as causas e pontos de partida de grandes coisas”.

Uma vez que o ideal de Bacon era promover uma revolução generalizada do método comum de investigação científica, tinha que haver algum meio pelo qual seu método pudesse se tornar generalizado. A maneira que encontrou para fazer isto foi pressionar o Estado a fazer da filosofia natural uma questão de maior importância – não só para financiá-la, mas também para regulá-la.

Enquanto estava no cargo sob a rainha Elizabeth, ele mesmo defendeu o emprego de um ministro para ciência e tecnologia – posição que nunca foi realizada. Mais tarde, sob o rei James, Bacon escreveu em The Advancement of Learning:

“O Rei deve tomar ordem para a coleta e aperfeiçoamento de uma História Natural e Experimental, verdadeira e severa (livre de literatura e aprendizagem de livros), como a filosofia pode ser construída, de modo que a filosofia e as ciências não possam mais flutuar no ar, mas descansem no sólido fundamento da experiência de todos os tipos”.

(Wormald, 1993)

Enquanto Bacon era um forte defensor do envolvimento do Estado na investigação científica, também acreditava que seu método deveria ser aplicado diretamente ao funcionamento do Estado também. Para Bacon, questões de política eram inseparáveis ​​da filosofia e da ciência. Bacon acreditava na natureza repetitiva da história e procurou corrigi-la tornando a direção futura do governo mais racional. Para tornar a história civil futura mais linear e alcançar um progresso real, Bacon defendia que os métodos usados no passado e as experiências do presente deveriam ser constantemente examinados em conjunto para determinar as melhores maneiras de abordar o discurso civil.

Certa vez, Bacon começou um discurso particular na Câmara dos Comuns com uma referência ao livro de Jeremias dizendo:

“Fique no caminho antigo, mas também veja a experiência presente para ver se, à luz dessa experiência, os antigos caminhos são certos. Se eles são tão bons, caminhe neles”.

Bacon esta sugerindo que seu método de progresso se baseie no progresso da filosofia natural para se integrar na teoria política da Inglaterra (Farrington, 1964.).

A questão religiosa e o método baconiano.

No Brasil, o jornalista Olavo de Carvalho afirmou certa vez (em um de seus vídeos) que os cientistas acobertam o fato de que os principais nomes da história da ciência produziam conhecimento com motivações religiosas e que a história da ciência tem falsificações, como o método científico que foi atribuído a Bacon, mas que este seria era inaplicável.

O primeiro ponto é que todos sabemos que os principais nomes da ciência realmente faziam ciência por motivações religiosas. De fato, fazia parte do exercício da teologia natural – ou da filosofia natural – estes componentes religiosos embasando interesses científicos, e não eram vistos como antagônicos.

Sabemos que Robert Grosseteste, Galileu Galilei, Francis Bacon, René Descartes, Robert Boyle, Isaac Newton e tantos outros nomes importantes para a ciência buscavam na ciência uma forma de compreender a natureza. Sabemos que desde a Idade Média a natureza não era mais vista como os gregos o faziam na Antiguidade (a natureza [physis] explica a si mesmo, se apresentando sob o signo da constante mudança), mas como criação divina e testemunho da existência de deus. É natural e esperado que todos estes nomes importantes da história da ciência sejam religiosos e encontrem na sua fé motivações para fazer ciência.

Muitos deles beberam não só da religião, mas do esoterismo. Isaac Newton acreditava que por meio da alquímica poderia compreender como deus faz para manter toda a matéria unida e que a gravidade era uma criação exclusivamente divina (declarado no livro General Scholium de Newton).

Portanto, é equivocada a afirmativa de Olavo de Carvalho de que os cientistas omitem o fato de que os cientistas do passado eram religiosos e buscavam em sua fé motivações científicas. O próprio Bacon escreveu o Instauratio magna dividindo-o em 6 pares em referência a criação do mundo segundo a bíblia.

Em sua obra Valerius Terminus (1603), Bacon apresenta um argumento para o progresso do conhecimento e considera as implicações morais, religiosas e filosóficas e requisitos do avanço da aprendizagem e do desenvolvimento da ciência. Bacon considera o aumento do conhecimento em ciências como fruto do próprio deus, conforme uma profecia feita por Daniel no Antigo Testamento. Tal referência a Daniel aparece na página de título da Instauratio Magna de Bacon e no Novum Organum, em latim (Bacon, 1620).

Em relação à fé, em sua obra “De Augmentis“, Bacon considera a ciência (chamada na sua época de filosofia natural) como um remédio contra a superstição e, portanto, um “auxiliar mais fiel” da religião, considerando a religião como a revelação da vontade e da ciência de Deus como um modo de contemplar o poder de Deus.

Bacon contrastou a nova abordagem do desenvolvimento da ciência com a da Idade Média:

“Os homens procuraram fazer do mundo um mundo a partir de sua própria concepção e tirar de suas próprias mentes todo o material que eles empregaram, mas se, em vez de fazê-lo, tivessem consultado experiência e observação, teriam fatos e não opiniões para argumentar sobre, e pode ter chegado finalmente ao conhecimento das leis que governam o mundo material.”

Além dos elementos religiosos que motivaram ou respaldaram Bacon, existe ainda uma alegação de que Francis Bacon pertencia a Ordem Rosa Cruzes e a Maçonaria, embora tal afirmação seja amplamente discutida por muitos autores e estudiosos da vida de Bacon (Bevan, 1960). Sabemos, no entanto, que Isaac Newton era de fato maçom; Boyle apesar de desconstruir os 4 elementos de Aristóteles como sendo a base da alquimia em sua obra “The Skeptical Alchemist” (1661) incentivando a experimentação, era alquimista.

Nada disto é novidade para os cientistas, a questão é que devemos considerar o contexto e as motivações que levaram estes pensadores a produzir conhecimento (o que é intelectualmente justo), porém, somente há relevância aquilo que cientificamente apresentou-se justificável a luz do método científico. Por esta razão as leis de Newton, sua descrição da gravidade e das cores do arco-íris continuam válidas. Elas têm apoio experimental, metodológico; mas suas alegações alquímicas não.

Da mesma forma ocorre com Bacon, cujas motivações religiosas levaram a constituir uma base do método científico. No entanto, o que esta em jogo não é a questão religiosa, mas sim o que de fato foi importante para a consolidação da ciência.

Seu método científico de fato havia erros, por esta razão, o método científico atual não é baconiano e deve muito mais a Descartes. Todavia, elementos importantes do método científico apareceram com Francis Bacon e em autores anterior a ele: Galileu (ressaltando a importância da experimentação) em Grosseteste (ressaltando a importância das anotações da replicação dos experimentos por terceiros), Roger Bacon (o mero argumento nunca é suficiente, é fundamental a experimentação) em Newton (agregou o método empírico-indutivo e o racionalista-analítico-dedutivo) dentre tantos outros nomes importantes da história da ciência e da filosofia, retornando até Aristóteles.

Bacon mostrou um compromisso intransigente com a experimentação, mas apesar disso, ele não fez grandes descobertas científicas durante a vida – talvez por não ser o experimentador mais competente a tarefa, ou porque a hipótese desempenha apenas um pequeno papel no método de baconiano em comparação com a ciência moderna (Russell, 2000). Este foi o seu erro metodológico. Outro erro baconiano foi negligenciar a importância dos saltos imaginativos que impulsionaram o progresso científico (Livro da Filosofia, 2012). No método baconiano, as hipóteses devem surgir durante o processo de investigação, com a ajuda da matemática e da lógica. Portanto, o método científico vigente hoje não é baconiano, mas a proposta de bacon foi fundamental para arquitetar o método atual, assim como todos os outros desde Aristóteles até os mais recentes filósofos da ciência.

Bacon deu um papel substancial, mas secundário, à matemática, de que deveria apenas dar uma determinação à filosofia natural e não gerar ou dar à luz sobre o conhecimento a ser produzido (Novum Organum XCVI).

Portanto, bacon foi sim importante para a história da ciência, jamais se omitiu a limitações de seu método quando elas apareceram. O Novum organum é uma obra importante na história da ciência também porque expressa uma perspectiva que tanto se afasta do empirismo radical quanto do racionalismo exagerado – ambos duramente criticados por Bacon.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Francis Bacon, Novum Organum, René Descartes, Isaac Newton, Roger Bacon, Robert Boyle, Robert Grosseteste, Filosofia da Ciência, Método Científico, Indução, Empirismo, Racional, Experimentação.

 

Referências

Adamson, R; Mitchell, J, M. (1911), “Bacon, Francis”, in Chisholm, Hugh, Encyclopædia Britannica, 3 (11th ed.), Cambridge University Press
Bevan, B. The Real Francis Bacon, England: Centaur Press, 1960
Bacon, Francis. (1605) Temporis Partus Maximus.
Bacon, Francis. (1620) “Novum Organum”.
Bacon, Francis. (1620) “Instauratio Magna”.
Byron, S. (1930). “Sir Francis Bacon: The First Modern Mind”. Garden City, NY: Doubleday, Doran & Co.
Case, Thomas (1906). Preface to Bacon’s Advancement of Learning
Farrington, Benjamin (1964), The Philosophy of Francis Bacon; an Essay on Its Development from 1603 to 1609, Liverpool: Liverpool UP.
Hepworth Dixon, William (1862). “The story of Lord Bacon’s Life” (1862)
Hundert, EJ. (1987), “Enlightenment and the decay of common sense.” In: Frits van Holthoon & David R. Olson (Eds.), Common Sense: The Foundations for Social Science (pp. 133–154). Lanham, MD: University Press of America.
Julian, M (1992). Francis Bacon: The State and the Reform of Natural Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
Kovach, Thomas A. (ed.) A Companion to the Works of Hofmannsthal, Rochester, NY: Camden House, 2002, 89.
Livro da Filosofia – As Grandes Ideias de todos os tempos. Editora Globo. 2012
Russell, B. History of Western Philosophy, (Routledge, 2000), pp. 529–3
Wormald, BHG (1993), Francis Bacon: History, Politics, and Science 1561–1626, Cambridge: Cambridge UP
Zagorin, Perez (1998), Francis Bacon, Princeton: Princeton University Press.
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