A ORIGEM E A CARACTERIZAÇÃO BIOGEOGRAFICA DE MADAGASCAR.

Planície de Baobás em Madagascar.

Definitivamente não há melhor laboratório evolutivo que uma ilha (Veja: PROTEÇÃO ECOLÓGICA A UM LABORATÓRIO NATURAL DE ESPECIAÇÃO E EVOLUÇÃO NO BRASIL). Ao analisarmos ilhas como a Austrália, Nova Zelândia, a famosa ilha de Galápagos visitada por Darwin, Sumatra e Bornéu veremos uma fauna extremamente peculiar.

Uma das mais fascinantes ilhas para se estudar a evolução das espécies é Madagascar.

Sua historia é impressionante não somente do ponto de vista faunístico mas principalmente histórico.

Madagascar é a quarta maior ilha do mundo perdendo somente para a Groenlândia, Nova Guiné e Bornéu. Situa-se no Trópico de Capricórnio e tem mais de 160 milhões de anos, removendo-nos a antiga Gondawana.

Gondwana a 160 milhões de anos. Em evidencia (vermelho) a ilha de Madagascar.

Gondawana é um fragmento de terra antigo em que consistia na junção da América do Sul, África, Arábia, Antártida, Australásia, Índia e Madagascar.

Madagascar estava posicionada entre a Índia e a África. A partir de 150 milhões de anos esses três fragmentos de Terra foram se separando abrindo espaço para o mar invadir. Esse processo ocorreu até cerca de 80 milhões de anos quando a África e Madagascar se desligaram e a Índia então partiu para uma jornada de deslocamento até entrar em colisão com a Ásia meridional levantando a cordilheira do Himalaia.

As montanhas começaram a se formar por dobras há 40 milhões de anos.

Madagascar que permaneceu isolada hoje é rica geologicamente, uma mineralogia farta de prata, ouro, níquel, cromo, titânio, monazita, hematita, grafite, quartzo, mica, topázio, rubi, safira, ametista, amazonita, jaspe, ônix, celestite, zircônia, turmalinas e diversos cristais.

Ao longo de todo esse tempo Madagascar foi colonizada independentemente muitas vezes. Cerca de 85% das espécies de plantas e animais seguiram caminhos evolutivos autônomos, ou seja, Madagascar foi colonizada por diversas migrações de animais e plantas.

Durante muito tempo acreditou-se que a separação de Madagascar e a África fez com que um grupo de animais ancestrais pegasse carona com a ilha e desse origem a tamanha diversidade.

Atualmente descarta-se essa hipótese pelo fato de que na África há uma diversidade enorme de antílopes, zebras, girafas, cavalos, elefantes, coelho, musaranhos-elefante e alguns animais pertencentes a família dos canídeos que não são encontrados em Madagascar.

De fato, os fósseis de Madagascar não mostram uma fauna característica da África. Entretanto já se sabe que existe um único resquício antigo da África que foi encontrado em registro fóssil. Um ancestral bastante antigo dos hipopótamos e porcos da selva que possivelmente tenham vivido até tempos recentes.

Atualmente concorda-se que essa biodiversidade evoluiu de forma independente da África. Existe um grupo de roedores de Madagascar dividido em nove gêneros (subfamília nesomyinae) que inclui até roedores de grande porte e arborícolas semelhantes ao gerbo. Estes oferecem algumas dicas importantes sobre o processo de colonização de Madagascar.

Um estudo feito com base em dados moleculares de roedores mostra que duas espécies do continente africano são mais próximas geneticamente entre si do que se compararmos dois roedores madagascarienses uns com os outros. Isso mostra que os roedores de Madagascar descendem de um único ancestral fundador que não tem  relação alguma com a África ou mesmo a Ásia e que provavelmente tenha vindo diretamente da Índia e perpetuado até o presente momento.

O mesmo ocorre com as baobás e palmeiras. As planícies de baobás se assemelham com a Chapada Diamantina possuindo praias com recifes e mais de 12 mil espécies de vegetais sendo 9,5 mil delas endêmicas. Uma diversidade comparável a da Amazônia.

No continente africano existe somente uma espécie de baobá enquanto em Madagascar há sete espécies, como a Adansônia madagascariensis que atinge 40 metros de altura.

De cada 8 espécies de Baobás, seis são exclusivas da ilha, onde há mais de 130 espécies de palmeiras (muito mais do que na África). As baobás são sagradas para os nativos malgaxes, já que dela se faz rituais de fertilidade, prosperidade e fartura, além de se retirar compostos medicinais que combatem a epilepsia.

Há também as árvores garrafas, as espinhosas pachypodiuns, bosques com Didiracees trolli e a palmeira símbolo do país Ravenala madagascariensis. Além da orquídea malgaxe, a Angrecum sesquipedalle fecundada por uma espécie de borboleta que possui um aparelho bucal sugador de mais de 30 centímetros de comprimento.

Acredita-se que Madagascar tenha sido o berço de origem dos camaleões. Lá há dois terço das espécies do mundo, catalogando mais de 30 espécies com famílias endêmicas como o maior camaleão do mundo chamado de Parson com 65 centímetros e o menor vertebrado do mundo, o camaleão Brookesia peyrierasi com 2 centímetros de tamanho.

Brookesia peyrierasi, o menor vertebrado do mundo é um camaleão da ilha de madagascar.

Além disso, há também uma variedade enorme de borboletas, sapos e os morcegos raposa-voadora. Há mais de 400 anos vivia lá também o pássaro-elefante (Aepyornis maximus) de 3 metros de altura. Possivelmente extinto devido ao roubo de seus ovos pelos colonizadores. Pesando quase meia tonelada o pássaro elefante era uma ave ratita, herbívora, parente dos avestruzes que habitam hoje a África com 4 espécies diferentes espalhadas no norte, sul, leste e oeste africanos e os Emus e Emas aqui na America do Sul, considerando que geológicamente essas regiões eram interligadas faz sentido essa interpretação. Alguns ovos do pássaro elefante são encontrados até hoje nas praias de Madagascar, com um diâmetro de 50 centímetros e pesando mais de 10 quilos. Seria o peso de mais de 200 ovos de galinha, os ovos de avestruz pesam o equivalente a 30 ovos de galinha.

Em Madagascar, assim como nas ilhas Maurício havia o pássaro Dodô, que foram extintos devido ao uso de seus ovos e sua carne como alimento. Razão pela qual as plantas Calvárias que habitam as ilhas Maurício não mais conseguem fazer suas sementes germinar, pela falta do desgaste químico e mecânico que ocorria durante a sua passagem por dentro do trato digestório dos Dodôs.

Em Madagascar ainda existe duas espécies de mamíferos muito peculiares que se assemelham com os musaranhos, são os tenrecs. Os terrencídios colonizaram Madagascar em duas migrações distintas vindas da África. Após sua colonização atualmente encontramos mais de 27 espécies catalogadas. Foram os primeiros mamíferos a chegar a ilha e sob o ponto de vista fisiológico são os mamíferos com o sistema nervoso central mais simples do mundo.

O córtex dos terrencideos  é dividido em pequenas áreas. Apresentam um córtex somato-sensorial ligado a uma ou algumas áreas olfatórias e córtex visual primário e secundário. Sua arquitetura é simples quando comparada com o homem, por exemplo, que tem mais de 20 áreas do cérebro associadas de forma direta ou indireta ao processamento de estímulos visuais distribuídos em mais de 300 circuitarias diferentes. Evolutivamente os terrencidios tem um papel importante pois apresenta um típico cérebro mamíferos extremamente simples.

Como em Madagascar não há macacos e primatas de grande porte, todo o nicho foi completado por lêmures.

Uma população de primatas estrepsirrinos chegou a ilha a 63 milhões de anos e deu origem a essa diversidade de pré-primatas que vemos. São mais de 30 espécies de lêmures, o maior e sagrado Indri Indri é muitas vezes morto, pois a população local acredita que ele é um mensageiro da morte. A população acredita que se não for morto tal profecia se concretiza.

Alcança a altura de uma criança de cinco anos e da saltos impulsionados de mais de 10 metros. A sifaka também é uma espécie de lêmure, são excelentes caminhadores de forma bípede. Além do tradicional lêmure (Lemure catta) de cauda cinza e branca, e o lêmure vermelho que se alimenta de lacraias cujo sangue tem propriedades alucinógenas. É o único animal na natureza que usa algum tipo de alucinógeno.

Lá também existiu o lêmure gigante (Archaeoindris) era um enorme primata que se originou há 2 mil anos atrás durante o Holoceno em Madagascar. Seus dedos eram longos, o que o tornava um bom escalador de árvores, porém ruins para caminhar no solo tornando-os desajeitados. Era do tamanho de um gorila, embora mais parecidos  com os orangotangos, comendo folhas no alto das árvores.

Seus olhos eram nas laterais da cabeça, seu focinho era longo e seus caninos eram grandes. Sua extinção coincide com a chegada do homem na ilha embora não se tenha evidencias conclusivas de que o homem extinguiu essa espécie. Porém além de caçá-los os homens alteraram seu habitat, tornando difícil a sobrevivência dessa enorme espécie, que se viu obrigada a se adaptar e migrar para outros lugares, porém esse contato foi suficiente para a extinção dessa espécie.

Archaeoindri, o lêmure extinto que viveu em Madagascar.

Além disso, existe também os lêmures pequenos como a espécie Mycrocebus mioxinus, menor do que um hamster

Todos esses animais e plantas chegaram a Madagascar em pequenas flutuações que ocorrem esporadicamente. De fato, já foram vistos lagartos chegando nessas jangadas naturais em algumas ilhas do mundo. Obviamente que a distancia é um fator debilitante para tal procedimento, mas a ilha de Krakatoa foi recolonizada desta forma bem recentemente. Cientistas da Universidade Pardue, nos EUA registraram intensas tempestades que fizeram a água subir e os animais foram arrastados por ela até o oceano.

Segundo um estudo publicado na “Nature” em 2010, a ocupação de Madagascar não aconteceu de uma vez só, e se deu a partir de 65 milhões de anos atrás. As correntes marinhas antigas, segundo o trabalho, tinham condições favoráveis para que bichos do continente fossem levados até Madagascar.

A viagem nos pedaços de madeira que usavam como “jangadas” era rápida o suficiente para que chegassem vivos à ilha, após uma viagem de algumas centenas de quilômetros. A teoria explica por que existem apenas pequenos mamíferos em Madagascar uma vez que uma ligação por terra teria permitido que espécies grandes como girafas ou macacos também tivessem ocupado a ilha. Viajar pelo mar em um pedaço de madeira não é muito fácil para um elefante.

Embora Madagascar represente somente um milionésimo de área terrestre total do planeta a sua perda representaria uma diminuição de 4% de toda a diversidade de forma de vida.

Essa diversidade corre um risco razoável considerando a situação econômica e social do país.

Segundo o geógrafo Jared Diamond, autor de diversos livros entre eles Armas Germes e Aço os malgaxes que vivem em Madagascar são remanescentes de povos provenientes da China que colonizaram Java e a Indonésia. Parte dessa migração resultou no grupo dos polinésios que povoaram ilhas do leste do oceano pacífico e índico e pelo oeste a ilha de Madagascar e Comores ente 300 e 800 anos atrás. Foi um dos maiores deslocamentos humanos dos últimos 6 mil anos.

Madagascar tem 587 mil quilometros quadrados e hoje tem mais de 20 milhões de malgaxes na ilha divididos em 18 etnias onde 50% são cristãos. A população vive em sua grande maioria na mais pura miséria, totalizando 80% de todo o povo que vive com menos de US$50, mensais.

O índice de desenvolvimento humano deixou o país na 135 posição. Os malgaxes queimam a floresta, semelhante o que se faz aqui na Amazônia. La eles fazem a agricultura enquanto no Brasil a maior parte da perda da Amazônia é para a pecuária bovina. Os malgaxes usam a terra por dois anos e depois a dispensam para fazer pasto, permitindo que muitas espécies que nunca foram catalogadas pela ciência já tenham desaparecido, como o Dodô, no século XIX.

Scritto da rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Madagascar, Baoba, Lêmure, Malgaxe, Gondawana, Evolução.

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