EVOLUÇÃO HUMANA – PORQUE NOS TORNAMOS PRIMATAS MONOGÂMICOS?

Carregamos a grande tendência de presumir que a natureza segue nossos padrões biológicos. Ou ainda, que certos comportamentos são exclusivamente humanos e constitui uma propriedade exclusivamente inerente a nossa natureza. Infelizmente, para alguns, a natureza não segue nossos padrões biológicos, e muitos comportamentos humanos são compartilhados com outros grupos. Cito aqui dois exemplos; a necessidade que algumas pessoas têm de ver a monogamia como um comportamento correto porque é humano e sobressaltado na natureza, quando na verdade não é; e a incapacidade de que algumas pessoas têm de ver que a homossexualidade é um comportamento sexual muito comum em diversos grupos biológicos e faz parte da diversidade biológica.

Não entraremos na questão biológica da homossexualidade, embora parte dela já tenha sido discutida aqui, mas trataremos de um comportamento da espécie humana, que não é preferencial dentre os mamíferos; a monogamia.

Sem títuloA monogamia é caracterizada por um indivíduo que tem apenas um parceiro para acasalamento. Diferente da poligamia, que caracteriza-se por um indivíduo tem relações conjugais com vários indivíduos (do sexo oposto). Neste caso, pode haver a poliginia, quando um indivíduo macho se relaciona com várias fêmeas; ou a poliandria, quando uma fêmea se relaciona com vários machos.

Menos de 10% dos mamíferos são monogâmicos, e cerca de 20% das espécies de primatas consolidam casais monogâmicos. Em humanos, algumas culturas aceitam o fim de casos amorosos e se divorciam, em outras, é possível assumir vários companheiros. A poligamia aparece mais expressivamente nas sociedades humanas, mas a monogamia é o que caracteriza nossa espécie porque parte da constatação de que grande parte das sociedades humanas esta organizada em torno de pares duradouros, com exclusividade sexual (Edgar, 2014).

A monogamia é uma característica inerente a nossa espécie e surgiu como uma adaptação de um estado arcaico. A natureza monogâmica de nossa espécie ainda traz consigo outra característica que é exclusivamente humana; extensas redes sociais complexas.

Isto é um caractere exclusivo do homem, já que nos outros primatas os jovens estabelecem laços apenas pela mãe. Nossa espécie estabelece parentesco pelos dois genitores criando a cada geração laços familiares maiores, incluindo outras famílias a sua (Edgar, 2014).

Evidências fósseis sugerem que nossos ancestrais eram monogâmicos, talvez anterior ao nosso ancestral da espécie Ardipithecus datado em 4,4 milhões de anos (pois não se sabe efetivamente se havia dimorfismo sexual em Orrorin tugenensis e Sahelanthropus tchadensis, pela pouca disponibilidade de fósseis) (Lovejoy, 2009).

O fóssil de uma fêmea de Ardipithecus está próximo do ponto em que a linhagem humana se separou da linhagem dos chimpanzés. Após esta separação nossos antepassados adotaram um comportamento monogâmico. Sinais de ovulação feminina foram sendo ocultados oferecendo vantagens evolutivas distintas a dos chimpanzés.

O sistema poligâmico ancestral foi sendo substituído por casais. Uma das possibilidades é que isto tenha ocorrido porque machos de categorias mais baixas deixaram de consumir seu estoque energético em batalhas com outros machos para ter acesso a fêmeas e começaram a consquista-las cortejando-as com ofertas de alimento como forma de incentivo a reprodução. As fêmeas optaram por machos confiáveis e o estabelecimento de relações duradouras ao invés de machos agressivos (Edgar, 2014).

Continuamente, com o estabelecimento de relações monogâmicas as espécies foram se modificando, levando as fêmeas a perderem o inchaço de sua pele e outros sinais de receptividade sexual que teriam atraído diferentes machos em outras ocasiões passadas.

O Ardipithecus ramidus mostra exatamente este tipo redução significativa, especialmente em relação aos caninos, reduzindo o dimorfismo sexual.

Aotus sp (Aotidae)

Família de Aotus sp (Aotidae)

Dimorfismo sexual está relacionado á estrutura social e interfere diretamente no tamanho relativo dos dentes dos animais. Embora o dimorfismo sexual ocorra por diversos processos dependendo do grupo biológico que ele esta presente, em primatas existem algumas situações chave que representam a sua origem. Relações monogâmicas relativamente estáveis tendem a diminuir o dimorfismo sexual de tal forma que ambos os sexos tenham tamanhos próximos e a diferença no tamanho dos dentes caninos seja semelhante, como ocorre em gibões, siamângos e muitos primatas prossímios. Na espécie humana o dimorfismo é bem reduzido embora o macho tenha cerca de 20% mais massa que a fêmea. O dimorfismo é mais expressivo quando a estrutura social é baseada em um sistema de macho alpha que tem acesso a diversas fêmeas e por isto é constantemente atacado por outros machos que buscam tomar seu posto. Por essa razão, machos maiores e com caninos mais expressivos tendem a serem selecionados e consolidar um dimorfismo mais intenso como ocorre em símios como os chimpanzés, gorilas e alguns macacos das Américas (Macacos do novo Mundo). Quando as espécies vivem de modo solitário em que o macho e a fêmea só se encontram para a reprodução, a pressão seletiva leva ao ápice do dimorfismo sexual, como ocorre em orangotangos e alguns prossímios (Neves et al, 2015)

O A. afarensis (a espécie de Lucy) tinha pequenos caninos, mas seus ossos apresentam um nível de dimorfismo sexual intermediário entre chimpanzés e gorilas modernos. A monogamia em grande parte dos primatas se estabelece pela oferta de alimento do macho para a fêmea e por este motivo é bem possível que a monogamia humana tenha sido resultado deste tipo de procedimento.

Em 2013 Chapais argumentou na revista Evolutionary Anthropology que as características exclusivas de nossa espécie, citadas anteriormente, bem como sua estrutura social surgiu em etapas de nossa evolução. Inicialmente, nossos primeiros ancestrais eram promíscuos assim como são os chimpanzés e uma poligamia muito semelhante a dos gorilas. A manutenção deste tipo de status exigia um gasto energético muito alto uma vez que se estabelecia combates constantes e intensos com outros concorrentes. Uma mudança de comportamento foi sendo estabelecida criando situações intermediárias culminando na monogamia que reduziu o gasto energético.

A cerca de 2 milhões de anos surgiu o gênero Homo, com a subsequente origem do Homo erectus que apesar de ter o dobro do tamanho dos Australopithecus apresentava um menor dimorfismo sexual. Machos e fêmeas começaram a apresentar tamanhos muito próximos com um dimorfismo muito semelhante ao do homem moderno, sugerindo um estilo de vida sexualmente menos competitivo.

A parceria entre um macho e uma fêmea trouxe muitas vantagens adaptativas, mas não se sabe exatamente quando, e, em que contexto a monogamia emerge. Três hipóteses distintas concorrentes tentam entender e explicar exatamente como isto aconteceu.

Uma das hipóteses retrata um espaçamento territorial promovido por fêmeas. Ela afirma que a monogamia surge quando fêmeas estabelecem territórios maiores para ganhar mais acessos a recursos alimentares limitando e aumentando seu território, criando distâncias maiores em relação á próxima fêmea evitando assim as chances de um macho acasalar e investir em concorrentes. Os zoólogos Dieter Lukas e Tim Clutton da Universidade de Cambridge apresentaram evidências para este argumento na revista Science quando publicaram dados estatísticos de 2.545 espécies de mamíferos. Eles demonstraram que a monogamia foi adotada por 61 grupos de mamíferos durante a história evolutiva do grupo sugerindo que ocorre com mais frequência em primatas e carnívoros quando as fêmeas necessitam de uma dieta mais rica, ou seja, a base de uma caça rica em proteínas e frutas maduras. Isso sustentou estatisticamente que fêmeas mais dispersas e solitárias criam uma exigência maior dos machos e exigem parcerias individuais.

Os zoólogos aceitam que apesar do suporte estatístico ter validado esta hipótese a humanos pode ainda não ser o melhor modelo, uma vez que é difícil conciliar a sociabilidade humana com uma hipótese que depende de baixa densidade de fêmeas disponíveis. É possível, por exemplo, que nossos ancestrais fossem extremamente sociais e, portanto, não conseguiriam viver distantes o suficiente para fomentar esta argumentação em favor da monogamia. A proposta serviria a espécie humana se a monogamia surgisse em hominíneos anteriores a nossa tendência de viver em grupos.

Outra proposta trata dos deveres parentais como engatilhador da monogamia. Quando um bebe se torna muito dispendioso em termos energéticos para a mãe criar sozinha, o pai permanece na família fornecendo cuidados básicos aumentando as chances de sobrevivência de sua prole e acaba criando laços afetivos mais profundos com a mãe. A ideia proposta pelo antropólogo Lee Gettler da Universidade de Notre Dame sustenta que o mero transporte da prole efetuado pelos pais promove a monogamia. As mães precisam atender as exigências nutricionais, mas, para primatas caçadores-coletores como a espécie humana transportar a criança sem o beneficio de um suporte próprio ou outro recurso seria energeticamente muito custoso comparável ao aleitamento. O transporte feito por machos liberou as fêmeas para que suprissem suas necessidades básicas do ponto de vista energético.

No macaco-da-noite (Aotus sp) da America do sul, o filhote recém nascido vive fixado na coxa da mãe, mas a maior parte da responsabilidade fica sobre a tutela do pai que além de fazer o transporte da prole também cuida da questão alimentar. Quando adultos cuidam do filhote mantém um contato direto com ele e a mãe, criando laços emocionais duradouros. Segundo um artigo publicado na Proceedings of the Royal Society pelo professor Eduardo Fernandez da Universidade de Yale, esses macacos permanecem monogâmicos até o fim de suas vidas. Análises de DNA demonstraram que os 17 casais estudados eram os pais de 35 filhotes. Os vínculos de acasalamento duram em média 9 anos visando obter maior sucesso reprodutivo.

Entre essas duas hipóteses até então apresentadas, o cuidado parental pode ser a melhor explicação sob por que a monogamia parece ter surgido.

A última proposta refere-se á violência sobre a prole, onde um macho rival desafia, vence e se estabelece como o macho dominante podendo matar os bebes que não são seus, afim de que as fêmeas parem de amamentar, e comecem a ovular iniciando um novo ciclo de fertilidade e então estabelecer sua própria prole com seus próprios genes. Para evitar o infanticídio então a fêmea se uniria a um aliado do sexo masculino que pudesse defende-la e seu bebe.

O antropólogo Kit Opie da Universidade College London publicou simulações de 230 espécies de primatas na revista PNAS. Com uma análise estatística bayesiana ele verificou qual das três hipóteses pareciam representar melhor a origem da monogamia. Cada uma das três hipóteses teve correlação estatística considerável, mas apenas o aumento no risco de infanticídio precedeu o aparecimento da monogamia em múltiplas linhagens de primatas em todas as análises.

Pais monogâmicos não são suficientes para tornar um símio tão inteligente quanto um ser humano. Isso porque um bebe humano consome cerca de 13 milhões de calorias entre o nascimento e a maturidade. Isto demonstra que os Homo primitivos não teriam desenvolvido um volume cerebral acima de 700cm3. Para bancar uma demanda energética grande de bebes com cérebros cada vez maiores deveria haver uma diminuição da taxa de nascimento, ou da taxa de crescimento, ou ainda, de ambos. Isto não aconteceu com o ser humano que conseguiu desenvolver um desmame mais precoce e teve maior sucesso reprodutivo, considerando seu volume cerebral variando de 1.300 a 1.700cm3.

A paternidade compartilhada estabelecida por H. erectus permitiu a prole desenvolver-se devido a capacidade de suprir as necessidades energéticas e portanto, formar cérebros mais desenvolvidos. Essa cooperação estabelecida por pares monogâmicos permitiu o sucesso evolutivo de nossa espécie nos últimos 2 milhões de ano (Edgar, 2014).

Victor Rossetti

Palavras chave: Netnature, Rossetti, Ardipithecus, Monogamia, Infanticídio, Cooperação, Evolução humana.

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Referências

Edgar, B. O Poder do par – Evolução. A saga humana. Scientific American. 2014
Gettler LT . 2014. Applying socioendocrinology to evolutionary models: Fatherhood and physiology . Evolutionary Anthropology 23(4):146-160
Fernandez-Duque, E. Burke K., Schoenrock K., Wolovich, C. & C. Valeggia (in press). Hormonal monitoring of reproductive status in wild monogamous female owl monkeys (Aotus azarai) of the Argentine Chaco.
Lovejoy, O. Reexamining Human Origins in Light of Ardipithecus ramidus. Science 2 October 2009: Vol. 326 no. 5949 pp. 74, 74e1-74e8
Neves, W. A. Junior, M. J. R. Murrieta, R. S. S. Assim caminhou a Humanidade. Palas Athenas. 2015

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