FILÓSOFOS E NATURALISTAS PRÉ-DARWIN.

Antes e depois de Lamarck e Darwin, houve diversos naturalistas ou filósofos adeptos da ideia de transformação da vida, que ora apresentavam ideias próximas a de Lamarck, ora chegaram muito próximos á ideia de seleção natural de Darwin e Wallace, e ao conceito de descendência com modificação como mecanismo evolutivo. De fato, desde o tempo dos filósofos mais antigos até os naturalistas mais próximos da época de Darwin houve citações e publicações de trabalhos científicos duvidando do fixismo e dos desvios do essencialismo de Platão, que moldou a teologia Ocidental. Muitas ideias brotaram muito antes de Lamarck, algumas dizendo que as formas de vida seriam cada vez piores, e outras propondo mudanças favoráveis ou maléficas as espécies.

Sem título

Anaximandro de Mileto (610-547 a.C) argumentava que se os seres humanos tivessem aparecido na Terra como bebes não teriam sobrevivido, fazendo uma alusão sobre incapacidade de adaptação. Em sua concepção, todos os animais surgiam no lodo marinho por intermédio da ação da luz solar e gradativamente eles ganhariam o ambiente terrestre, transmutando seu modo de vida por processos adaptativos ao meio ambiente. Empédocles de Agrigento (484 – 421 a.C) afirmava que na natureza só sobrevive aquele que está mais bem capacitado. Seguido de Tales de Mileto que também tinha uma perspectiva de transformação quando afirmava que o mundo veio da água por processos naturais (Marcondes, 2007). Na Ásia e Oriente Médio também houve alguns filósofos com concepções muito próximas a evolução. Notamos que muitas das afirmativas destes filósofos de alguma forma se encaixam na perspectiva de Darwin, no que diz respeito as adaptações que são mecanismos chaves da evolução biológica. Ainda sim, nenhuma perspectiva evolucionista tenha sido dada por estes pensadores. A evolução vai se tornar uma teoria científica somente com o desenvolvimento do método científico e com a constatação empírica feita por Darwin ao girar o mundo coletando amostrar e ao encontrar um padrão, uma lei universal que se aplica a todos os animais. Ele obteve este mecanismo consultando outros pensadores que de alguma forma respaldaram seu mecanismo de seleção natural. A questão é, que mesmo no mundo árabe, filósofos já cogitavam linhas de pensamento que se assemelhavam as ideias de Darwin.

Zhuangzi foi influenciado por pensadores como Confúcio, Lao Zi, Mozi, Hui Shi, Yang Zhu

Zhuangzi foi influenciado por pensadores como Confúcio, Lao Zi, Mozi, Hui Shi, Yang Zhu

Zhuangzi (369-286 a.C) foi um filósofo taoísta influente no desenvolvimento do budismo zen. No taoísmo há uma tendência em se negar o fixismo das coisas, inclusive das espécies, sendo que muitos filósofos especulavam que os organismos vivos teriam desenvolvido atributos diferentes em resposta a disposição em diferentes ambientes. Para Zhuangzi e os taoistas, os seres humanos, o céu e a natureza em geral eram tidos como um estado intermediário de constante transformação, conhecido como o Tao (Miller, 2008).

No mundo árabe diversos filósofos de alguma maneira cunharam alguma ideia próxima a da evolução. Al Jahiz (781-869), um muçulmano, propôs essa teoria descrevendo os efeitos do ambiente sobre a chance de sobrevivência de um animal. Ele descreve com clareza a luta evidente pela sobrevivência, notada em todas as espécies. Ele ainda estabeleceu uma relação entre o consumo de alimentos e o meio ambiente, e como essa relação se dava na alteração de características físicas em plantas e animais. Al Jahiz foi desacreditado, porque seu método de estudo e divulgação era baseado em anedotas e contos que não foram considerados científicos.

Al Jahiz

Al Jahiz

Muhammad Hamidullah transcreveu as ideias de Ibn Miskawayh (932-1030) que acreditava que Deus primeiro havia primeiro criado a matéria com energia para que desenvolvesse. A matéria assumiu a forma de água e desenvolveu-se a vida mineral, assim se formou os diversos de rochas. Para ele, os corais são uma forma de transição do mundo das rochas para o mundo vivo. Onde sua ramificação deu origem ás árvores. Posteriormente algumas plantas que possuíam qualidades de um animal deram origem a eles. A tamareira é considerada a mais elevada das árvores e se assemelha ao mais ínfimo dos animais. Então surgem os primeiros animais que foram se transformando até chegar em macacos. E na sua carta intitulada “Ikhwan al-Safa” ele assume que o macaco da origem ao humano selvagem, que posteriormente se torna superior, e então se torna santo, um anjo e um Deus. Era uma visão cíclica, mas já relacionada a todas as formas de vida, com uma concepção religiosa forte, e que em certos pontos lembra Linnaeus ao classificar anjos, arcanjos e entidades sobrenaturais em seu livro Systema naturae.

Posteriormente Agostinho de Hipona também teve suas declarações no mundo Ocidental e tinha uma concepção próxima da evolução e de interpretação metafórica de Gêneses. Para Pierre Louis Moreau de Maupertuis (1698-1759), a natureza era variada e variável demais para ter sido projetada e criada. Ele tinha uma perspectiva materialista e mecanicista baseada nas ideias de Newton e certa noção de hereditariedade que permitiu-o concluir uma tese muito próxima a de Hugo de Vries nos séculos XVIII e XIX. Ele postulava que as primeiras formas de vida apareciam por combinações aleatórias de diversos elementos materiais, na geração espontânea. E que uma série de mutações fortuitas cunhou a capacidade de multiplicação crescente das espécies, e aqueles que tinham variações desfavoráveis eram eliminados naturalmente.

Ibn Miskawayh

Ibn Miskawayh

Desde muito antes dos naturalistas, havia ideias brotando que favoreciam o entendimento de que todas as formas de vida estavam historicamente relacionadas. Isso tem uma importância fundamental para a história da ciência, e esse foi o motivo pelo qual Darwin se tornou a referência da biologia.

Após a queda do fixismo, graças a Lamarck, o assunto começa a ficar mais quente a partir do século XVIII e especialmente XIX, com cada vez mais pessoas expressando ideias de que a vida não tinha um caráter fixo, e certamente não obedecia a Scala naturæ aristotélica, e portanto, nem uma base teleológica. Até a chegada das ideias de Darwin muitos naturalistas passaram “raspando” na seleção natural como o principal mecanismo evolutivo.

Étienne Geoffroy Saint-hilaire, um naturalista Frances, e é considerado o pai da teratologia porque em 1795 disse que as espécies eram variações de um tipo original e que o ambiente era o maior responsável por tais variações (Mayr, 1982). Ele foi contemporâneo de Georges Cuvier, que pensava o oposto. Em 1831, ele especulou que as aves poderiam ter surgido a partir dos répteis por uma saltação epigenética (Hall & Pearson, 2004).

William Charles Wells era físico e teve uma grande contribuição para descobertas medicas em 1813 defendeu a ideia de um processo de seleção natural de características humanas e demonstrou que algumas populações humanas eram mais resistentes a certos tipos de doenças. Ele postulou que da mesma forma com que o homem seleciona artificialmente as características de seres vivos para tirar proveito delas, a natureza seleciona também os seres vivos. Para Wells, essa característica era limitada ao ponto de ser aplicada apenas a cor da pele, e não, como Darwin e Wallace fizeram, em todas as formas de vida (Darwin & Wallce, 1858).

Em 1822 W. Herbert afirmou que conjuntos biológicos básicos foram criados, e posteriormente eles se diferenciaram dando origem a diversidade que conhecemos hoje. Em 1826 R.E Grant alegou que espécies descendem umas das outras em um processo de aperfeiçoamento continuo enquanto sofrem modificações.

Patrick Matthew, um naturalista escocês que trabalhava com construção naval e arboricultura descreve a seleção natural exatamente como Darwin e Wallace em 1831 no seu livro “On Naval Timber and Arboriculture”. O próprio Darwin reconhece isto, mas só tomou ciência disto após a publicação de seu livro. Pouco tempo depois, em 1836, Von Buch descreve que as variedades dentro de espécies, no futuro se tornarão novas espécies e haverá isolamento reprodutivo. Von Buch era geólogo, paleontólogo e estudou com Alexander von Humboldt.

Seus interesses geológicos era vulcanismo, fósseis, geocronologia e sua maior contribuição pra ciência foi definir cientificamente a estratigrafia e a era Jurássica.

Em 1836 o arqueólogo e naturalista Constantine Samuel Rafinesque Schmaltz fez diversas contribuições para a zoologia, antropologia e geologia. Nomeou mais de 6 mil espécies de plantas. Ele afirmava que todas as espécies foram um dia simples variedades de uma mesma espécie e essas variedades gradualmente se tornam novas espécies através do surgimento de novas características específicas. Em 1844 Samuel Stehman Haldeman avaliou as ideias de Lamarck e conclui que a transformação dos seres vivos eram muito mais coerentes que as fixistas. Durante esta época, e mesmo na época de Darwin era muito comum o lamarckismo ser utilizado pelos naturalistas. O próprio Darwin nunca afirmou que a ideia de Lamarck havia sido derrubada por ele. Porque realmente não foi. Darwin entendia a explicação de Lamarck como sendo também um mecanismo de transmutação das espécies. Ainda no ano de 1844 um livro chamado “Vestiges of the Natural History of Creation” de um autor anônimo dava credito as ideias transformistas de Lamarck. Posteriormente, na 6 edição do livro descobriu-se que o autor do livro era o escocês Robert Chambers. Como o livro era polêmico o autor havia optado pelo anonimato (Crawford, 2011). Ele declarava que o homem também era uma espécie resultante de processos evolutivos. Essa era uma ideia que era mantida separada das discussões sobre fixismo versus transmutação dado o direto confronto com o dogma religioso em vigor à época, que era a visão tradicional do homem como sendo especialmente desenhado sob a criação de Deus e com sua imagem e semelhança. Apesar de não apresentar nada que justificasse, o livro foi fundamental para a divulgação da ideia de transmutação, consolidando o conceito de evolução junto à sociedade da época ao estabelecer uma critica ao fixismo e ao incentivar a busca científica referente á causalidade e mecanismo inerentes à transmutação.

Na terceira edição de “A Origem das Espécies” publicada em 1861, Charles Darwin acrescentou um esboço histórico dando crédito aos naturalistas que o auxiliaram a publicar a ideia de que as espécies sofrem modificações, e que as formas existentes de vida descendem de formas pré-existentes. Jean Baptiste Julien d’Omalius d’Halloy que em 1846 tinha uma concepção muito próxima a de Darwin. Darwin disse:

“Em 1846, o geólogo veterano M.J d’Omalius d’Halloy publicou em um excelente, embora seja um paper curto (Boletins de l’Académie Royale des Sciences), e sua opinião é de que é mais provável que novas espécies tenham sido produzidas por descendência com modificação, do que foram criados separadamente: autor promulgada pela primeira vez esta opinião em 1831”.

Em 1849, um paleontólogo, anatomista e curador do Museu Britânico chamado Richard Owen admitiu que novas espécies poderiam surgir a partir de variedades, porém, sempre ocorria em locais pré-determinados. Posteriormente ele mudou sua interpretação, começou a tecer várias críticas a Darwin e difamando Huxley. Em 1871, Owen esteve envolvido em uma armação para acabar com o financiamento do governo à coleção botânica de Joseph Dalton Hooker. Owen era literalista da bíblia embora cotidianamente em seu museu tinha contato com arquétipos, transmutação de espécies e variabilidade fóssil, que são evidências claras de evolução (Turrill, 1963).

Charles Victor Naudin

Charles Victor Naudin

Outro que teve uma grande contribuição para a quebra do fixismo foi Charles Victor Naudin que era zoólogo e após uma surdez por problemas neurológicos se tornou um naturalista assistente na França. Em 1852 fez estudos cuja conclusão era basicamente a ideia de Darwin. Posteriormente começou a ficar cego e apesar disso, continuou a executar experiências em hibridização e a aclimatação de plantas para a produção de novas espécies. Ele estudou  hereditariedade usando a flora brasileira e em 1860 ele descreveu vinte tipos de abóboras. Tanto Darwin quanto Gregor Mendel estudaram seu trabalho que é considerado um precursor da genética moderna.

Sua principal publicação é “Mémoire sur les hybrides du règne vegetal” que lhe rendeu um prêmio do Instituto de Botânica, em 1862. O estudo dos fenômenos hereditários de acordo com seus projetos agora ficou conhecido como Naudinismo e concluía que as espécies são formadas da mesma maneira como as nossas variedades cultivadas. Ele não explicou como a seleção atua na natureza, mas sempre teve interesse na diversificação das plantas, em especial, das abóboras. Contrariamente à opinião aceita em sua época, ele estabeleceu a não permanência de híbridos. Também publicou artigos no Jornal de Horticultura e vários tratados de agricultura. Seu manual Manuel de l’acclimateur foi uma obra de referência sobre a aclimatação da Riviera, no século XIX. O Brasil teve muitas contribuições para a formulação da teoria de Darwin, especialmente com Fritz Muller, zoólogo, médico e filosofo alemão que é um dos co-fundadores de Blumenau e  contribuiu com Darwin com muitas informações sobre a zoologia de artrópodes, em especial crustáceos e borboletas. Muller e Darwin nunca se conheceram pessoalmente, mas tiveram uma forte amizade.

Conde Keyserling publicou trabalhos em geologia, e realizou também investigações científicas sobre botânica em 1853 e chega a ideia de transmutação das espécies no mesmo ano Hermann Schaaffhausen também o fez. Embora a teoria da evolução de Darwin ainda não havia sido publicada nessa época, Schaaffhausen já havia proposto a ideia de que as espécies evoluem em um artigo intitulado “Ueber Beständigkeit und Umwandlung der Arten” (Sobre a Constância e transformação das espécies) publicado no “Der preussischen Verhandlungen des Naturhistorischen Vereins Rheinlande und Westphalen”. Em sua obra ele declara que “a  imutabilidade das espécies … não está provada.” (Kumpf, 2006).

No ano seguinte, o botânico francês Henri Lecoq popularizou a classificação das plantas, além de estudar a formação geológica de Auvergne e a formação das geleiras e chegou a conclusões próxima a de Darwin.

Em 1855 Baden Powell e John Herschel ao descreverem uma perspectiva gradualista referindo-se à evolução da linguagem. Herschel afirmou:

“As palavras são para antropólogo os seixos que rolam para o geólogo – maltratadas relíquias de eras passadas, muitas vezes contendo dentro deles registros indeléveis capazes de interpretação inteligente – e quando vemos o que quantidade de mudança que 2000 anos tem sido capaz de produzir nas línguas da Grécia e Itália, ou 1000 anos na Alemanha, França Espanha, naturalmente começamos a perguntar quanto tempo um período deve ter decorrido desde que os chineses, hebreus, Delaware e do Malesass [malgaxe] em que tinham um ponto em comum com o alemão e italiano e cada outro – Tempo Tempo Tempo – não devemos impugnar a cronologia das escrituras, mas é preciso interpretá-las de acordo com o que deve constar em um inquérito justo, para que seja a verdade e para não haver duas verdades. E realmente há espaço suficiente para que a vida dos patriarcas possa ser razoavelmente estendida para 5000 ou 50.000 anos cada um como os dias da Criação para o maior número de mil milhões de anos”.

Darwin Correspondence Project

O documento foi divulgado e o cientista Charles Babbage incorporou partes desse texto em uma de suas obras postulando que as leis haviam sido criadas por um programador divino. Quando o HMS Beagle chegou a Cidade do Cabo, o capitão Robert FitzRoy e o jovem naturalista Charles Darwin visitaram Herschel em 3 de junho de 1836. Posteriormente, Darwin seria influenciado pelos escritos de Herschel no desenvolvimento de sua teoria. Na abertura de sua obra, Darwin descreve que sua intenção é “lançar alguma luz sobre a origem das espécies,  esse é o mistério dos mistérios”, referindo-se a uma alegação feita por Herschel.

Em 1858 Darwin e Wallace publicam juntamente a ideia da seleção natural, uma vez que Wallace havia chegado as mesmas conclusões que Darwin, embora, posteriormente cada um deles seguiu uma linha de argumentação distinta.

Alfred Russel Wallace era naturalista e passou muitos anos em Singapura, no sudeste da Ásia entre 1854 e 1862 e passou até pelo Brasil. Ele chegou á seleção natural independentemente de Charles Darwin. Wallace enviou suas descobertas a Darwin dizendo que ambos teriam as mesmas conclusões. Algumas pessoas acusam Darwin de ter segurado o trabalho de Wallace por vários dias, mentindo sobre a data de recebimento, para que ele próprio avaliasse as ideias de Wallace. Isso porque se pensava que a carta de Wallace havia sido enviada a Darwin em março de 1858. Entretanto, em 1972, o pesquisador Van Wyhe resolveu estudar este assunto e descobriu outra carta de Wallace. Através dela e das datas descobriu-se que a carta havia sido enviada em abril, e não em maio, como muitos pensavam.

Essa acusação sobre Darwin nunca fez sentido. Na casa de Darwin foram descobertos diversos livros que ele usou como referência durante anos para chegar a sua conclusão da seleção natural como mecanismo que promovia a origem e evolução das espécies. Darwin chegou a seleção natural com base em estudos que envolviam dados estatísticos, economia e sociologia.

Durante os dois primeiros anos de análises dos dados coletados através de sua viagem Darwin ainda não encontrava uma explicação para a quantidade de espécies variadas existentes no mundo e como elas tinham tantas peculiaridades. Uma das ideias que Darwin trabalhou foi a que as espécies surgem com uma duração de vida pré-fixada e percorreu um caminho gradual e desordenado em direção á extinção por competição em um mundo de luta. Darwin teve uma sacada bastante importante quando leu a obra de Adam Smith On the life and writing of Adam Smith e percebeu a crença básica dos economistas escoceses de que na estrutura social as ações de luta na realidade visam unicamente o êxito reprodutivo. Na visão do estatístico belga Adolf Quetelet ele encontrou respaldo nas suas ideias ao ver sua afirmações qualitativas reviam a proposta de Thomas Malthus de que a população cresce geometricamente e os recursos alimentares crescem aritmeticamente levando os indivíduos a disputarem a sobrevivência.

De fato Darwin diz em outubro de 1838:

“…quinze meses depois de eu ter iniciado minha pesquisa sistemática, tive oportunidade de ler a visão de Malthus sobre população e me preparar melhor para apreciar a luta pela existência que havia continuamente observado em toda a parte nos hábitos de animais e plantas e, de repente, me chamou a atenção que em circunstâncias favoráveis há variações que tendem a ser preservadas e as negativas a ser destruídas. O resultado do presente seria a criação de novas espécies. Aqui, então, eu tinha finalmente obtido uma teoria com a qual trabalhar”.

Mesmo que tenha sido Wallace que descobriu tal mecanismo, foi Darwin que apresentou os dados com embasamento científico com respaldo em todos esses trabalhos citados. O que o Darwin fez foi mostrar os dados com evidências empíricas e estatísticas. Darwin tornou científico, mensurável e evidenciavel uma proposta que a séculos e/ou milênios muitos filósofos e naturalistas acreditavam, sabiam, percebiam, cogitavam mas nunca coletaram tantas evidências para fundamentar tal ideia. Darwin apresentou a ideia dentro de um campo teórico, prático e sua obra “Origem das espécies e Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida”, resumidamente chamada de “A origem das espécies” publicada em 1859 é um compilado mínimo de evidências que coletou ao redor do mundo.  Ele popularizou seus resultados em seu livro. Sua obra não era meramente acadêmica, ela foi publicada para o público leigo, para as pessoas que não eram cientistas. Toda primeira tiragem de seu livro foi vendida no primeiro dia de publicação, tamanho era o poder de sua ideia.

Posteriormente, muitos cientistas apoiaram a sua tese e embora alguns ainda tiveram dúvidas sobre certos aspectos da seleção natural ela foi defendida com afinco. Von baer, J. D. Hooker em 1859 comentaram sua obra de forma positiva e negativa.

Karl Ernst von Baer

Karl Ernst von Baer

Karl Ernst von Baer (1792–1876) era biólogo, geólogo, meteorologista e médico membro da Academia Russa de Ciências. É considerado o fundador da embriologia e embora fosse evolucionista criticou as ideias de Charles Darwin nos dez últimos anos de sua vida. Uma das suas críticas era de que “o embrião dos vertebrados é o início de um vertebrado“, isto é, um feto humano se desenvolve por vários estágios nos quais ele toma sua forma característica, depois a forma de um mamífero, primata e finalmente de um ser humano.

Joseph Dalton Hooker (1817-1911) era botânico, explorador e naturalista inglês que em 1859 publicou uma obra “Introductory Essay to the Flora Tasmaniae”, que retratava a parte final dos resultados da uma viagem que fez terras do Oceano Austral. Neste livro ele anuncia o seu apoio à teoria da evolução por seleção natural, sendo assim o primeiro cientista nomeado a apoiar publicamente Darwin e ficou famoso exatamente por defender Darwin.

Hooker fez expedições à Palestina (1860), Marrocos (1871) e aos Estados Unidos da América (1877) sendo que em todas elas, recolheu valiosas informações sobre a flora das regiões, consolidando simultaneamente a sua reputação excelente botânico. Com 30 anos foi eleito membro da Royal Society e em 1873 foi escolhido para seu presidente, até 1877. Em conjunto com Charles Lyell, apoiou a divulgação da teoria da evolução. Darwin reconheceu na sua obra a importância dos conhecimentos de Hooker, além do discurso em defesa das teorias de Darwin, quando nas funções de presidente da “British Association for the Advancement of Science” em 1868 (Turrill, 1963).

Desde a publicação de seu livro, Darwin promoveu uma profunda transformação no pensamento científico, especialmente a geologia e nas argumentações filosóficas neo-platonistas e aristotélicas. Para geólogos a ideia de fixismo se tornará inútil e com o trabalho de Darwin o fixismo foi abandonado de vez, inclusive para muitos padres e reverendos.

Darwin, apesar de aceitar as ideias de Lamarck quebrou a essência da transmutação de forma linear e propôs um modelo em árvore. Sendo a transmutação vista nessa perspectiva, não fazia mais sentido ver o ser humano como topo da escalada vida. E a ideia de Scala naturæ é também quebrada.

A ideia de Darwin era tratar da luta pela sobrevivência e a descendência com modificação, mas quando sua tese caiu na boca do povo e na da academia, começou a ser tratada como um “processo de evolução”. E Darwin começa a usar esse termo nas edições futuras de sua obra.

Ele falava de descendência com modificação e não de evolução exatamente para evitar a ideia de Aristóteles, de objetivo, finalidade, intenção e ascendência proposital cujo resultado final era almejado intencionalmente.

Com Darwin cai o fixismo e a escala natural. Grupos e pessoas se sentiram ofendidos por serem retrados sem qualquer tipo de transformação especial, e começaram a criticar suas ideias, com desdém ou deboche. Como fez Richard Owen ou mesmo Samuel Wilberforce perguntando a Huxley se ele tinha parentesco com macacos por parte de mãe ou de pai. Huxley o respondeu de forma bastante inteligente:

“Não tenho vergonha de ter um macaco como pai, mas teria vergonha de ser conectado com um homem que usou uma grande dádiva para obscurecer a verdade”.

Muitas coisas passaram em branco na época de Darwin, por que apesar do poder de suas ideias e do impacto que ela teve na Inglaterra vitoriana, Darwin não sabia como essas características eram passadas para a geração seguinte, e grande parte dessas críticas sérias, sem deboche, sem ad hominens, se dirigiu a este fato.

Nesse momento, surgem vertentes do cristianismo que passaram a negar as ideias de Darwin exatamente pelo impacto que ela teve na concepção de criação e tudo mais que era, ou poderia ser, contra a criação divina. Embora Darwin jamais tenha admitido qualquer informação a respeito da existência ou não de Deus, certamente, como era comum em sua época, tenha se tornado agnóstico.

Um pilar da criação ainda estava vivo, a teleologia, contudo, já estava abalada há tempos, desde Hume. Ela só caiu da ciência posteriormente, embora até hoje criacionistas não aceitem isso, em uma tentativa vã e incoerente de reviver o fixismos, essencialismo, Scala naturæ e principalmente a teleologia. Esta é a essência do pensamento pseudocientífico, o uso de conceitos cadavéricos para justificar o injustificável.

Victor Rossetti

Palavras chave: Anaximandro de Mileto, Empédocles de Agrigento, Zhuangzi, Al Jahiz, Muhammad Hamidullah, Ibn Miskawayh, Étienne Geoffroy Saint-hilaire, Charles Victor Naudin, Hermann Schaaffhausen, Joseph Dalton Hooker.

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Referências

Crawford, Robert (2011). The Beginning and The End of the World: St Andrews, Scandal and the Birth of Photography.Edinburgh: Birlinn.
Danilo Marcondes(2007).Livro – Iniciação à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Wittgenstein.
Darwin, Charles; Wallace, Alfred Russel (1858). “On the Tendency of Species to form Varieties; and on the Perpetuation of Varieties and Species by Natural Means of Selection”. Journal of the Proceedings of the Linnean Society of London. Zoology 3: 46–50.
Hall, Roy D. Pearson. (2004). Environment, Development, and Evolution: Toward a Synthesis. A Bradford Book.
Kumpf, U. Z: ‘Hermann Schaaffhausen (1816-1893) and the Neanderthal Finds of the 19th Century.’ In Ralf W. Schmitz (ed.) Neanderthal 1856-2006 (Mainz am Rhein: Verlag Philipp von Zabern, 2006)
Mayr, E.(1982). The Growth of Biological Thought: Diversity, Evolution and Inheritance. Harvard.
Miller, James (8 de janeiro de 2008). Daoism and Nature . Royal Asiatic Society.
Turrill W.B. 1963. Joseph Dalton Hooker. Nelson, London.
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