A HISTÓRIA PODRE DO CRIACIONISMO.

O termo “criacionismo” não existia na época de Darwin. É algo relativamente recente, criado na década de 1920, nos Estados Unidos. Antes disso, essa discussão era tratada sob a perspectiva do tradicionalismo cristão.

Jesus – ou Deus – nunca disse que as pessoas deveriam comprovar cientificamente as afirmações do livro de Gênesis. Ao contrário, a fé (como crença sem evidências) é suficiente para definir a criação com base em Deus. Esta escrito em Hebreus 11 (1 – Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem; 2 – Porque por ela os antigos alcançaram testemunho; 3 – Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente): nas obras de Deus se crê, não se entende.

Foi no começo do século XX que os negacionistas de Darwin começaram a tentar com mais afinco “comprovar” cientificamente proposições cristãs, especialmente nos Estado Unidos. Então, em 1920 o termo foi cunhado. Tal termo emerge no seio de grupos cristãos que rejeitaram completamente a ideia de Darwin, e como medida alternativa, deixaram de tratar as afirmações do livro de Gêneses como “Criação” ou “Gêneses da Vida” como era usado na época de Darwin em uma perspectiva cristã tradicional, e passaram a tratar de tentar comprovar cientificamente, cunhando o termo “criacionismo”. Embora todo fiel seguidor de sua religião seja um criacionista porque crê no ato de criação de sua religião, o termo criacionista foi fundado em completa e assumida oposição as ideias de Darwin. Portanto, justifica-se aqui porque estamos usando o termo criacionismo: como referência a tentativa de tornar científico um relato supostamente literal da bíblia acreditado de grupos e pessoas fundamentalistas.

Em 1900, as ideias de Mendel foram redescobertas por K. Correns, E. Tschermak e Hugo de Vries, e inicialmente houve certos desacertos das ideias da genética com a evolução, especialmente sobre variabilidade e modificações ao longo do tempo. Com o tempo e o desenvolvimento da pesquisa em genética o método de transmissão de características se tornou compreensível e abraçou totalmente a teoria da evolução. Depois Ernest Mayr, Theodosius Dobzhansky e George Gaylord Simpson desenvolveram a teoria sintética da evolução (síntese Neo-Darwiniana) em 1940. Com a descoberta da estrutura tridimensional do DNA em 1953 corroborou-se a evolução ocorrendo em nível molecular. Se olharmos a genética, a biologia molecular estudando o DNA, epigenética, paleontologia, ecologia, embriologia, geologia, psicologia, anatomia, cariótipo e caracteres algoritmos do fluxo de informações que a biomatemática desenvolveu, veremos como todas elas abraçam a teoria da evolução.

Tamanho foi a descoberta de mecanismos e características que consolidam a evolução como um conjunto coeso de hipóteses cientificamente testadas que a ideia é tida como um fato científico consolidado. Com a origem da genética e da biologia molecular a ancestralidade comum ficou mais evidente, e a ideia de superioridade e inferioridade na biologia foi sendo descartada, pois não se há uma medida dessas qualidades. Notou-se que ser “mais evoluído” não tem a ver com aumento de complexidade biologia, mas sim com o fato de estar vivo. Notou-se que características anatômicas ou fisiológicas não permitiam estabelecer status de inferioridade ou superioridade e a ideia de Scala naturæ foi então completamente diluída já que complexidade não é o foco da evolução.  Funcionalidade é muito mais importante em diversos casos. Não há direcionamento inteligente da evolução, portanto, nada de escalada, e se há algum direcionamento, ele ocorre pela dinâmica ecológica, ou seja, o ambiente naturalmente seleciona.

Sem finalidades, objetivos e intencionalidade a biologia quebra estes paradigmas aristotélicos e consequentemente, todo o arcabouço filosófico da leitura literal cristã. Todo esse período, desde a re-descoberta das ideias de Mendel até o presente, foi despertando a fúria dos cristãos fundamentalistas literalista, pois a queda da “gênese especial” do homem pelas mãos de Deus derrubou o antropocentrismo. A Terra, a vida e o homem por fim, deixam de ser o centro do universo. De fato, em uma perspectiva mais abrangente, nossa galáxia não é mais a única, nosso Universo pode não ser mais o único, a vida pode não ser exclusividade da Terra, temos graus de inteligência e consciência rudimentares em outros animais. A ciência ocidental que emergiu no seio do cristianismo neo-platônico/aristotélico destruiu sua raízes e ganha seus próprios passos, independentes. Tudo isto contribuiu para aditivar e inflamar a fúria fundamentalista.

O termo “criacionismo” surge para ressuscitar esses argumentos mortos, especialmente as ideias de Paley (por isto o criacionismo pode ser chamado de Neo-Paleyismo), as ideias de Agostinho e Thomas de Aquino.

William Paley (1743—1805)

William Paley (1743—1805)

Em 1920 sua primeira grande aparição foi no caso Scopes e desde então, em quase 100 anos de criacionismo nenhum argumento novo foi criado, apenas máscaras para os velhos argumentos de Paley e da teleologia, tentando apresentar alegações fixistas já derrubadas e de aumento de complexidade com objetivos específicos, igualmente refutados.

Dentro desse movimento de negação da biologia evolutiva surgiram diversas vertentes do cristianismo que se respaldam no criacionismo e em um ultra-literalismo bíblico. Alguns adotam as descobertas científicas por conveniência, e outros são extremamente literalistas são mais melindrosos ao debate.

Um dos primeiros, e ainda vigente grupo de literalistas que negam o progresso do conhecimento científico é a Sociedade da Terra Plana (Flat Earth Society), que acreditava que o Universo era preenchido por um éter. Essa organização tentava espalhar a crença de que a Terra era plana, em vez de esférica. Obviamente, temos pleno conhecimento de que a Terra é uma esfera, o que contrasta ainda mais com uma criação perfeita, mas que não vem ao caso neste momento. Mesmo assim alguns adeptos da ideia negam inclusive as fotos tiradas por satélites na NASA. Essa organização foi fundada pelo inglês Samuel Shenton em 1956, e depois liderada por Charles K. Johnson. A sociedade formal parece ter sido desfeita após o falecimento de Johnson em 2001, apesar de seu nome continuar sendo usado por vários websites.

Existem também os Geocentristas da “Tychonian Society” na qual aceitam o fato da Terra ser esférica, porém acreditam que o Universo gira em torno da Terra e não que a Terra seja somente um planeta em um sistema solar qualquer. Essa sociedade foi fundada no Canadá em 1971 pelo professor holandês Walter van der Kamp. A sociedade tem indivíduos no mundo todo e seu objetivo é divulgar informações sobre o lugar central ocupado pela Terra no Universo, com supostos artigos científicos jamais publicados ou encontrados em revistas científicas, apenas produzidos internamente a sociedade.

Em 1991, e com outros objetivos propostos pela sociedade ele a renomearam como “Association for Biblical Astronomy” e “The Biblical Astronomer”. Hoje, a ABA é mais comumente chamada de “astronomia bíblica” com membros em mais de 26 países, publicando livros e outras literaturas associadas á ideia geocêntrica.

A ideia central do grupo é obedecer o que Deus ordenou de forma original. Então as igrejas têm a responsabilidade de manter as escrituras sagradas sendo interpretadas da forma original e literal, além de monitorar o trabalho de Deus, especialmente por membros batistas. Esses grupos ortodoxos são menos conhecidos, mas que levam a sério essas interpretações infundadas.

O criacionismo em si surge na época de John Scopes. Nessa época ainda se defendia a criação segundo o cristianismo, mas não se pregava o uso da ciência como ferramenta para constatar a criação divina. Eles atacavam a ideia de Darwin e diziam que a bíblica estava correta, em uma interpretação literalista. Tal ideia foi muito bem retratada no filme “Inherit the Wind” (1960) que conta a história de um advogado de acusação, Mr Brady, que trata a ciência como ateia e entende que o literalismo é a forma com que Deus passou sua mensagem para a humanidade.

Após esse momento o termo “criacionismo” surge defendendo especialmente a ideia de Terra Jovem e posteriormente diversas vertentes alternativas com interpretações distintas, fundando organizações que ora perpetuavam por um breve período de tempo, ora se quebravam exatamente pela divergência de interpretação bíblica. Criacionistas não negam o modelo de sistema solar vigente como fazem os membros da terra plana ou os geocentristas (embora muitos terraplanistas sejam criacionistas ou geocentristas. Claro, os terraplanista são também geocentristas), eles negam a evolução biológica.

Os criacionistas negam as evidências geológicas, biológicas e genéticas que favorecem a evolução e insistem em afirmar que a Terra tem 6 mil anos de idade de acordo com Gêneses. Esses cálculos geológicos tem importância histórica fundamental, remontando o século XVI com o Bispo James Ussher que calculou idade da Terra em 6 mil anos, ate dos dias de hoje, com defensores da Terra Jovem como Robert Gentry.

Dentro do criacionismo há diversas linhas de pensamentos, sendo a mais comum a Terra jovem, até algumas mais excêntricas como os Onfalistas que alegam que a presença de fósseis, de uma Terra com aspecto antigo, são na verdade falsas dicas implantadas por Deus na Terra com a finalidade de enganar a humanidade. Eles alegam claramente que as evidências dos cientistas estão erradas porque Deus os engana. Isso é uma interpretação um tanto absurda, pois nos remete a pensar em Deus como um mentiroso.

Há criacionistas que aceitam que a Terra tenha 4,5 bilhões de anos, mas acreditam que a vida foi criada nos últimos 6 mil anos. Eles alegam que os dias da criação descritos na bíblia poderiam ter tempos diferentes e serem medidos em eras, então, a geologia convencional provaria isso.

Essa ideia de que o dia da criação representa eras geológicas é muito utilizado por judeus ortodoxos que também acreditam na Terra antiga e na vida jovem, são chamados de “adeptos do dia/era”. Existem ainda, criacionistas que aceitam a ideia de que a Terra seja antiga. Essa concepção criacionista geralmente é restrita ao cristianismo protestante, e não se nota outras vertentes do cristianismo adotando-os como verdade absoluta.

A Igreja Católica hoje tem um posicionamento mais “flexível” e aceita a ideia da evolução. Na década de 90 o Papa João Paulo II, que também era filosofo, se pronunciou a favor da evolução dizendo que não era mais possível nega-la, inclusive a evolução humana, mas ressaltou que o homem só surge com a introdução do espírito que é algo divino promovido por Deus. Independente da sua concepção religiosa, a igreja se mostra aberta ao diálogo e a aceitar os fatos científicos como algo que supera a interpretação literal da bíblia. Esse é um avanço notável da igreja e que merece sem duvida ser ressaltado, pois permite um diálogo muito mais interessante entre dois sistemas de construção de conhecimento que intercambeiam informações.

George McCready Price (1870 – 1963)

George McCready Price (1870 – 1963)

Considera-se “pai do criacionismo” o fundamentalista George McCready Price. Price era adventista e escreveu o primeiro livro criacionista declaradamente negando a evolução biológica. Seu livro mais antigo e crítico da evolução é “Plain facts about evolution, geology, and the Bible” escrito em 1911. Posteriormente escreveu diversos livros, ora atacando a evolução, ora descrevendo o poder da doutrina cristã para a moral e as evidências “científicas” para a criação e dilúvio universal. Este é o marco do criacionismo, o uso da ciência para tentar justificar crenças religiosas.

Price lança o “New Light on the Doctrine of Creation” em 1917, “The New Geology” em 1923 falando de geologia do diluvio, o “The Predicament of Evolution” em 1925 criticando ainda mais as ideias de Darwin com base em sua doutrina religiosa e não em aspectos científicos, e o “Evolutionary Geology and the New Catastrophism” em 1926 defendendo o literalismo no dilúvio.

Em suas obras, ele alega que as evidências da geologia para a Terra ter bilhões de anos estão erradas, que não há evidências que apoiem tal ideia, que elas apontam para o dilúvio, e que as camadas estratigráficas são resultado do castigo diluviano. Há criacionistas no Brasil que até hoje defendem isso em congressos criacionistas, igrejas e congressos de Designer Inteligente. Muitos deles com tendências terraplanistas e teorias de conspiração. Eles alegam que a densidade do corpo dos animais mortos é o que gera a disposição atual dos fósseis nas camadas. Entretanto, isto não faz sentido, pois muitos animais de grande porte são encontrados em camadas mais superficiais, especialmente mamíferos animais menores e menos densos podem ser encontrados em camadas mais profundas. Se observarmos a disposição das rochas sedimentares e aragonitas no estado de São Paulo, bem como a sobreposição de rochas basálticas, além da disposição de paleodunas do clima árido que nosso país teve no passado teremos uma disposição de camadas que superam a ideia do dilúvio. Esse basalto data em milhões de anos. As datações de basalto do estado de São Paulo remontam o Cretáceo e rochas geiseritas ainda mais antigas demonstram que o interior do estado de São Paulo já foi fundo de mar. Nele, havia geisers ativos no período Ordoviciano e posteriormente, com sua exposição do solo fora da água teve sucessivas camadas de aragonita, e outras rochas de clima árido formando as paleodunas de aspecto avermelhado como resultado da ação de óxidos ferrosos. Mesmo formações de costões rochosos do litoral brasileiro ou a formação dos mares de morros dos domínios de natureza de Mata Atlântica e formações de Restingas/Manguezais datam milhões de anos, alguns até bilhões, como no caso das rochas matrizes.

Notamos então que a geologia atual é bastante atualizada em relação a época de Price e que a ideia de Terra Jovem não se encaixa no cenário atual desta ciência. Se é que algum dia encaixou!

Price chegou a alegar muitas vezes em pregações e escritas que os cientistas responsáveis pela geologia convencional estavam possuídos por demônios e por isso as ideias de Darwin e de Terra Jovem eram uma manipulação satânica. Então, ele como defensor e profeta de Cristo era dono dá verdade absoluta sobre a “Geologia do dilúvio”, escrevendo estes vários livros sobre o assunto. Os geólogos de sua época apontaram diversas falhas e ceticismo quanto ás alegações infundadas. Inclusive, Price foi citado no caso Scopes.

Apesar de escrever várias críticas a evolução biológica e criar um conceito geológico para o dilúvio, Price não tinha formação em absolutamente nada. Era apenas um negacionista fanático sem qualquer competência sobre o assunto que discorria e negava as evidências por pura motivação religiosa.

Douglas Dewar (1875–1957)

Douglas Dewar (1875–1957)

Quando Price visitou a Inglaterra conheceu Douglas Dewar. Este britânico era advogado e ornitólogo e inicialmente foi um grande divulgador das idéias de Darwin. Seus primeiros trabalhos em ornitologia citava ideias de adaptação e seleção. Posteriormente, ele tornou-se um criacionista e publicou uma série de livros e debates atacando evolução. Isso tornou-o secretário-tesoureiro da “Evolution Protest Movement” em 1932, juntamente com Bernard Acworth. A primeira associação do mundo que protestava contra a evolução assumidamente na Inglaterra. Ele começou a divulgar a ideia de Terra Jovem e questionou a datação radiométrica no seu livro “The Transformist Illusion” publicado em 1957. Ele tentou demonstrar o fracasso da evolução usando exemplos como a probabilidade infinitesimal de proteínas resultantes de uma mistura aleatória, registros fósseis, anatomia de aves, incompatibilidades de grupo sanguíneo, embriologia e órgãos vestigiais. Na época, muitos revisores apontaram diversos problemas em suas objeções (Robertson, 1960) e novas revisões demonstraram outras falhas (Numbers, 2006).

Dewar afirmava que se a ciência diz algo que contradiz a bíblia então automaticamente a ciência estava errada, já que a bíblia é a verdade absoluta. Esses argumentos são usados até hoje pelos criacionistas, inclusive no Brasil. Eles representam uma conclusão pré-concebida onde as evidências e o método científico devem se encaixar e serem submissas a respaldar essas verdades religiosas. Claramente isso não é ciência.

Em ciência, as evidências nos conduzem a uma conclusão que permite elaborar um modelo explicativo substituível. A ideia de Dewar era o extremo oposto. Adequar as evidências e o método a uma visão biblicista, ignorando e fechando os olhos para qualquer descoberta que represente o oposto a visão dogmática. A “Evolution Protest Movement” de Dewar é o mais antigo movimento criacionista do mundo e ainda existe como o nome de “Creation Science Movement” onde claramente não é uma associação científica e sim religiosa, com um nome mascarado de ciência. Os grupos criacionistas ora se aniquilam, ora mudam de nome porque sofrem divergências religiosas, resultado de brigas internas.

Em 1935 Price, Harold Clarck e Theodore Graebner, fundaram a sociedade “Religion and Science Association” que durou cerca de 2 anos e se desfez por divergências de ideias. Novamente, apesar do nome, essa associação não era científica e foi exatamente a briga fundamentalista de seus fundadores que fez a associação desmantelar-se. Foi á primeira associação assumidamente criacionistas nos Estados Unidos e tinha como base usar ideias “científicas” pra respaldar a bíblia.

As brigas entre as associações criacionistas se dava porque havia pessoas que apoiavam a literalidade da Terra Jovem de Price e outros criacionistas diziam que a geologia da Terra antiga tinha muitas evidências científicas inegáveis que não poderiam ser ignoradas. Entretanto, uma coisa era unanimidade entre os dois grupos, todos negavam a evolução biológica.

Graebner declara em diversos artigos que a geologia do dilúvio de Price não tem absolutamente nenhuma base científica e que as evidências apontavam para uma Terra antiga, em uma escala de tempo de bilhões de anos. De fato, até hoje a geologia aponta cada dia mais para a Terra antiga e o negacionismo dos criacionistas ainda ocorre, mesmo que cientificamente não haja evidências alguma para a Terra Jovem. Até os que tentaram comprovar a Terra Jovem com métodos de datação alternativos não conseguiram, pois nenhum dos métodos se mostrou adequado ou melhor que a datação radiometrica.

Em uma de suas obras Graebner, demonstra oposição a Price e diz:

“Apesar de tudo que tenho lido a respeito da teoria do dilúvio para explicar a estratificação, erosão e os fósseis não consigo ver as montanhas sem perder toda a fé nesta solução do problema”.

(Numbers, 1992)

Grabner foi o primeiro a afastar-se de Price, e em 1937 acaba a associação com Price e Harold Clarck, ambos adventistas. Clarck e Price juntaram seus seguidores literalistas da Terra Jovem e fundaram a “Deluge Geology Society” para tratar somente da geologia do dilúvio.

Clarck estudava geologia em campo, coisa que os literalistas em geral não faziam. Ele escreveu o livro “Back to Creationism” onde atualizava seu livro de acordo com as descobertas de campo, chegando a defender uma glaciação que ocorreu antes do dilúvio e com o tempo começou a aceitar que algumas espécies poderiam se modificar e hibridizar umas com outras. Pouco tempo depois Henry Madson Morris se juntou á associação para estudar o dilúvio, e para impedir divergências no grupo só aceitava pessoas literalistas do dilúvio. Ainda sim, houve divergências, pois apesar de todos aceitarem a ideia de Terra Jovem, alguns acreditavam que o Sistema Solar era antigo, que era uma ideia que comprovaria as alegações científicas de tempo antigo. Esses criacionistas alegavam que isso não entraria em contradição com o literalismo bíblico. A sociedade não suportou essas divergências e foi desfeita em 1948.

Nessa década também surgiu a “American Scientific Association” (ASA) fundada em 1941 cuja função também era estudar a geologia do dilúvio e o literalismo bíblico. Só era aceito na associação quem tivesse formação acadêmica. Era uma exigência básica e os membros ainda tinham que assinar um termo de compromisso e responsabilidade cujo juramento era:

“Creio que a totalidade da bíblia, como foi dada originalmente, seja Palavra inspirada de Deus e o único guia correto de fé e conduta, Visto que deus é o autor deste livro, assim como o Criador e o que sustenta o mundo físico ao nosso redor, não posso conceber discrepâncias entre as afirmações da bíblia e os feitos reais da ciência”.

ASA  (December 1957)

 Eles acabaram cunhando o termo pseudocientífico “Ciência da Criação”. A Deluge Society quando ainda existia tentou juntar forças com a ASA para publicar livros e textos exclusivamente anti-evolução, mas a ASA rejeitou essa aliança por ver o grupo de Morris e Price como uma organização adventista extremamente fundamentalista.

Laurence Kulp (1921 - 2006)

Laurence Kulp (1921 – 2006)

Houve também rupturas dentro da ASA, novamente se tratando da geologia do dilúvio. Laurence Kulp era químico e geólogo e não aceitava a geologia do dilúvio. Dada ás falsidades e erros conceituais básicos da geologia do dilúvio ele dizia que a insistência em uma alegação biblicamente inspirada faria o criacionismo ruir diante das evidências cabais da geologia convencional. A ASA modificou-se ao longo do tempo e hoje é uma organização que aceita a evolução, desde que ela seja direcionada por Deus: uma forma de evolucionismo teísta.

Kulp foi um dos primeiros a fazer datação com Carbono 14 na década de 50, e claro, testes com todos os métodos de datação. Na década de 1960 ele publicou uma escala de tempo geológica estimando a idade de cada era geológica. Ainda nos anos 1950, ele ajudou a convencer os políticos de que o teste de bomba atômica era um perigo para a saúde em relação ao estrôncio-90 encontrar o seu caminho na cadeia alimentar humana.  As pesquisas de Kulp na datação radiométrica foram focadas em Potássio-Argônio, Rubídio-Estrôncio, Urânio-Chumbo, além do Carbono-14.

Depois de suas pesquisas Kulp pegou pesado nas críticas a Price. Após ingressar em um mestrado em antropologia física na Universidade de Columbia, ele começou a ler várias declarações pseudocientíficas na literatura apologética cristã e ao analisar o trabalho preliminar da datação sobre Neandertais notou que os registros paleontropológicos eram pelo menos 25 mil anos mais velhos do que afirmavam os criacionistas da Deluge Geology Society (Kulp, 1950).

Essa descoberta levou Kulp a apresentar um trabalho sobre a Antiguidade dos fósseis “Antiquity of Hominoid Fossils“ na terceira convenção anual da ASA em 1948. Este artigo só gerou brigas, discussão e discordância, especialmente com o botânico e criacionista da Terra Jovem Edwin Y. Monsma que mais tarde se tornou um dos co-fundadores da Creation Research Society.

Kulp fez várias críticas na ASA sobre a própria associação e sobre o grupo de Price. Suas críticas eram principalmente o fato das alegações serem feitas por gente não especializada, e a ausência de formação geológica em membros do criacionismo. Também criticou a confusão que as pessoas faziam entre geologia e a evolução, que eram vistas como sinônimos muitas vezes.

A conclusão de Kulp era que o cristão era confrontado com duas opções; ou tudo foi criado a milhões de anos, ou que Deus aparentemente enganou a humanidade no fornecimento de dados que não suportam a ideia de que a Terra tem 6 mil anos. E exatamente que os onfalistas alegam. Kulp afirmou certa vez que:

“Esta teoria anti-científica da geologia do dilúvio tem efeito e fará um dano considerável a firme pregação do evangelho entre as pessoas educadas”

De fato, o dano considerável no evangelho permanece até hoje com a insistência da visão fundamentalista do criacionismo, sendo cada vez mais segregado do ambiente social exatamente pelo extremismo de suas ideias. Frank Cassel que também era da associação afirmou que o posicionamento da ASA tinha que mudar se quisesse ter respaldo científico. Ele sugeriu a evolução teísta ao presidente da ASA Russell Mixter, que depois de uma breve olhada na geologia do dilúvio passou a defender um ponto de vista que ele chamou de criacionismo progressivo. É um termo usado para referir-se a ideia de que Deus criou novas formas de vida, gradualmente, ao longo de milhões de anos. Ele aceita estimativas geológicas e cosmológicas convencionais da ciência, alguns princípios da biologia evolutiva, como a microevolução. Para o criacionista progressista a criação ocorreu em surtos rápidos dos tipos básicos de plantas e animais em estágios com duração de milhões de anos. Essas “explosões” de origem são seguidas por períodos de estagnação, equilíbrio para acomodar as espécies recém-chegadas, apresentando instâncias de Deus criando novos tipos de organismos por intervenção divina.  Eles não aceitam a ideia de que as espécies apareçam gradualmente pela transformação constante de seus ancestrais, mas sim que aparecem todos de uma vez, e completamente formadas (Gould, 2004). Eles rejeitam a macroevolução alegando ser biologicamente insustentável especialmente pelo registro fóssil. 

Mesmo assim, Cassel e Mixter conseguiram de alguma forma conciliar até hoje uma visão teísta a evolução e a biologia moderna (Numbers, 2006).

Henry Madison Morris (1918 – 2006)

Henry Madison Morris (1918 – 2006)

A ASA existe até hoje e tem membros criacionistas embora sua maioria seja evolucionistas teístas. Ainda na Convenção ASA em 1953 Henry Morris escreveu um texto chamado “The Biblical Evidence for Recent Creation and Universal Deluge” discorrendo sobre criação recente e dilúvio universal. Morris começou a ficar famoso no meio criacionista após este texto.

Henry Morris era fanático fundamentalista e especializou-se em engenharia hidráulica e geologia unicamente para defender dilúvio.

Em 1951 ele se tornou professor e presidente Universidade de Engenharia Civil e Louisiana em Lafayette, e posteriormente professor de ciência aplicada na Southern Illinois University durante 1956 e 1957. Mudou-se para Virgínia onde foi professor da Universidade Estadual de Engenharia Civil na área de hidráulica e foi co-autor de um livro avançado de hidráulica que foi usado como referência no mundo todo. Sua posição religiosa era completamente controversa com a biologia e com a geologia da Universidade que ele dava aula, mas seus colegas nunca reclamaram, pois seu ponto de vista religioso nunca influenciou sua administração.

Em 1957 o “Geoscience Research Institute” fundada pela igreja adventista dava oportunidade para vários alunos aplicarem o que aprenderam sobre a criação em trabalhos de campo. Muitos alunos abandonaram o curso ao notar que o discurso criacionista não se aplicava a prática de campo. Afinal, como concluir que paredões estratigráficos de dezenas de metros poderiam se formar a partir de um ano de sedimentação na água diluviana?

Muitos alunos que deixaram o grupo posteriormente acabaram publicando artigos demonstrando as falhas do instituto e criticando a ideologia criacionista. Muitos deles se tornaram defensores da evolução e escreveram livros criticando o criacionismo. Por essa razão, até hoje, essas entidades criacionistas não fazem mais trabalhos de campo, desde a década de 50. Todos os institutos defensores do criacionismo/Designer inteligente não produzem artigos científicos, apenas resumos e textos dentro de suas entidades e não conseguem publicar em revistas científicas porque seus textos são proselitistas, e como tal, não tem impacto positivo na produção de conhecimento pelo método científico.

Em 1963, Morris se juntou com outros nove criacionistas e fundou a “Creation Research Society“, deixou seu cargo de docente e em 1970 se concentrou unicamente na disseminação do criacionismo. No mesmo ano Morris foi co-fundador do “Christian Heritage College” em Santee, na Califórnia que levou em 1972 a formação do Institute for Creation Research (ICR) que existe até hoje onde seu filho John D. Morris, assumiu a presidência e esta até então.

Morris também se aliou ao John C. Whitcomb, um teólogo norte-americano defensor da Terra Jovem. É co-autor com Henry M. Morris do livro “The Genesis Flood” (1961), que influenciou muitos conservadores cristãos fundamentalistas americanos a adotar a geologia do dilúvio de George McCready Price como referência. Price e Morris foram amigos na Deluge Geology Society. Whitecomb escreveu seu livro sobre a geologia do dilúvio e pediu auxilio de Morris, que era engenheiro hidráulico e geólogo, em uma tentativa de validar suas argumentações como científicas usando a autoridade de Morris. Entretanto, o livro era basicamente uma re-edição do livro de Price, inclusive com os mesmos argumentos, e obviamente, recebeu diversas críticas, a maioria dos criacionistas da Terra antiga, além de ter sido pouco comentado entre os geólogos em ambiente acadêmico que o consideraram irrelevante e um livro religioso. Diante do fiasco do livro e tantas críticas, Whitecomb e Morris disseram:

“A questão não é a exatidão da interpretação dos variados detalhes dos dados geológicos, mas simplesmente o que Deus revelou em sua palavra a respeito deste tema”.

Ou seja, não importa o discurso e os detalhes de suas defesas desde que se assuma a criação pelas mãos de Deus. O jornal da ASA criticou pesadamente este livro. As escolas criacionistas que o Morris dava aula começaram a rejeita-lo devido ás alegações contra a geologia convencional, pois eram ortodoxas, inflexíveis demais e extremistas. O livro de Morris e Whitecomb só serviu como referência no mundo do fundamentalismo polarizado, sendo ignorado por cientistas universitários e cristãos liberais (McCalla, 2006). Ele foi referência para a Creation Research Society que surgiu em 1963 e para o ICR em 1972. Ken Ham, o fundador da Answers in Genesis e do “Museu da Criação” tem ele como referência, apesar das críticas existentes desde a época de seu lançamento.

Walter Lammerts (1904 - 1996)

Walter Lammerts (1904 – 1996)

Uma das estratégias de Morris foi fundar sua própria faculdade, a “College Baptist Church”, cujo um dos pastores foi o Jerry Falwell que morreu em 2007, mas sempre esteve envolvido em vários escândalos nos Estados Unidos. Jerry Falwell ficou conhecido internacionalmente entre 1998 e 1999, ao denunciar que um teletubby era um personagem símbolo da apologia a homossexualidade, já que o criador do personagem era homossexual. Causou polêmica também ao defender o apedrejamento como punição para o adultério e o retorno da escravidão.

Nessa década a ASA foi tomando um posicionamento mais firme contra o literalismo do dilúvio bíblico e da geologia criacionista. Ainda na década de 60, Morris estabeleceu uma aliança com Walter Lammerts que era criacionista fundamentalista e doutor em genética, criador de variedades de rosas. Ele produziu 46 novas variedades de rosas entre 1940 e 1981, incluindo a famosa Queen Elizabeth. E mesmo com todo esse conhecimento de genética que mostrava o não-fixismo das espécies, ele contraditoriamente negava a evolução biológica, ainda que trabalhasse com ela cotidianamente.

Foi o primeiro presidente da Creation Research Society, além de ter participado como editor da “Creation Research Society Quarterly” (CRSQ) de 1964 a 1968. Também atuou como pesquisador ativo durante várias décadas em ciências biológicas e geológicas, e muito do seu trabalho foi publicado neste grupo trabalhando com seleção sucessão natural.

Lammerts recorria a explicações sobrenaturais sobre sucessão florestal. Em um de seus estudos, chamado de “Plant succession studies in relation to micro-evolution” ele alega que:

“…a origem das variações encontradas em muitas espécies é discutida à luz da evidência negativa em torno da seleção natural, postula-se que as variações de plantas foram sobrenaturalmente derivadas das originalmente de pequenas populações de plantas de vários tipos ou gêneros que sobreviveram ao dilúvio“

Em 1983 Lammerts fez um estudo sobre o pinheiro Bristlecone (Pinaceae – Pinus sp) e concluiu que, sob certas condições experimentais, anéis de crescimento extra poderiam ser induzidos, pondo em dúvida a confiabilidade da dendrocronologia em estabelecer idades absolutas precisas. Entretanto, nunca provou que isso ocorria naturalmente, e jamais isso foi levado a sério diante da irrelevância de tal estudo.

Lammerts se juntou com Morris e queriam formar junto com a ASA uma comissão anti-evolucionista, pois dentro dessa entidade havia alguns criacionistas que aceitavam a ideia de especiação, ainda que limitadamente. A ideia de Lammerts era extinguir totalmente essa ideia da cultura americana.

Ambos se juntaram com Duane Gish e fundaram a “Creation Research Comittee” em 1963 e que posteriormente mudou o nome para “Creation Research Society” que existe até hoje. Ela foi liderada por Morris. Sua proposta era clara:

“Publicar evidências de pesquisas respaldando a tese de que o universo material, incluindo plantas, animais e o homem, são resultados de atos criativos diretos de um Deus pessoal”

Morris, exigiu a partir de então que todos os dados apresentados pelos membros de sua associação tivessem base “científica”, para convencer e converter as pessoas em um cientificismo religioso, criando a “ciência do dilúvio” alternativa a evolução e a geologia convencional. A partir de então exigindo que o criacionismo fosse ensinado nas escolas, na disciplina de ciência pareada com a evolução ou simplesmente o ensino da criação. Isto é obviamente anti-constitucional, pois A I Emenda (Amendment I) da Constituição dos Estados Unidos é uma parte da Declaração de Direitos do país e claramente impede textualmente, ao Congresso americano infringir seis direitos fundamentais. Segundo ela, o Congresso passa a ser impedido de: 

1) Estabelecer uma religião oficial ou dar preferência a uma dada religião (a “Establishment Clause” da primeira emenda, que institui a separação entre a Igreja e o Estado)

2) Proibir o livre exercício da religião;

3) Limitar a liberdade de expressão;

4) Limitar a liberdade de imprensa;

5) Limitar o direito de livre associação pacífica;

6) Limitar o direito de fazer petições ao governo com o intuito de reparar agravos;

Morris adota então a mesma tática da ASA, só aceitando membros com credenciais acadêmicas e para impedir cisões no grupo criou uma série de estatutos obrigatórios e bem específicos para a “Creation Research Society”, descritos a seguir:

1) The Bible is the written Word of God, and because it is inspired throughout, all its assertions are historically and scientifically true in the original autographs. To the student of nature this means that the account of origins in Genesis is a factual presentation of simple historical truths.

(A bíblia é a palavra de deus escrita e como toda e cada uma de suas partes são inspiradas, todas as suas afirmações são historicamente e cientificamente verdadeiras em todos os escritos originais. Para o estudioso da natureza isto significa que o relato das origens em gêneses e uma intepretação concreta de simples verdades históricas)

2) All basic types of living things, including man, were made by direct creative acts of God during the Creation Week described in Genesis. Whatever biological changes have occurred since Creation Week have accomplished only changes within the original created kinds.

(Todos os tipos básicos de seres vivos, incluindo o homem, foram feitos por atos criativos diretos e Deus durante a semana da criação descrita em gêneses. Quaisquer que sejam as mudanças biológicas que tenham ocorrido desde a semana da criação somente tiveram êxito dentro das raças criadas originais)

3) The great flood described in Genesis, commonly referred to as the Noachian Flood, was an historic event worldwide in its extent and effect.

(A grande inundação descrita em gêneses, comumente conhecida como dilúvio de Noé, foi um evento histórico mundial em sua extensão e efeito).

4) We are an organization of Christian men and women of science who accept Jesus Christ as our Lord and Savior. The account of the special creation of Adam and Eve as one man and one woman and their subsequent fall into sin is the basis for our belief in the necessity of a Savior for all mankind. Therefore, salvation can come only through accepting Jesus Christ as our Savior.

(Somos uma organização de cientistas cristãos que aceita Jesus cristo como nosso senhor e salvador. O relato da criação especial de Adão e Eva como homem e mulher e sua subsequente queda n pecado é a base para nossa crença na necessidade de um Salvador para toda a humanidade. Por consequência, a salvação somente pode vir pó meio da aceitação de Jesus como nosso Salvador)
Brett Vickers. The Creation Research Society’s Creed. Talking Origins

A função da Creation Research Society não é fazer ciência, mas claramente catequizar a ciência e as pessoas, em um discurso puramente proselitista. Com esses estatutos de crença WhitComb briga com Morris. Whitecomb dizia que para ser criacionista não é preciso ter base científica, é preciso apenas ter fé. Para ele, tentar provar o criacionismo enfraquecia até hoje a mensagem bíblica. De certa forma WhiteComb esta certo, mas não é uma questão de ter ou não um embasamento científico. O fato é que ao tentar passar a ideia de que o mito da criação tem base científica o cristianismo tomou proporções cada vez mais fundamentalistas. Ao contrário do que alega WhiteComb, a crença na criação divina pura e simples sem a base da ciência não torna alguém também um criacionista. Pelo contrário, caracteriza a pessoa como um cristão verdadeiro, aquele que guia-se pela fé e não pela necessidade de evidências. Não é preciso ser criacionista para ser cristão, pois a palavra de Deus é o suficiente para estabelecer a crença em sua criação especial. Tentar provar o sobrenatural com base científica é, inconsistente com a identidade e metodologia da ciência e da religião cristã também conforme Hebreus 11. Ao tentar provar Deus em um tubo de ensaio, não se faz ciência e ainda induz as pessoas a crer em Deus pela constatação, e não pela fé.

WhitComb teceu comentários exatamente respaldando isso:

“Ao evitar qualquer menção da bíblia ou de Cristo como o criador, poderíamos ganhar igualdade de tempo em algumas escolas, Mas o custo poderia ser extremamente alto, porque se pede a certeza absoluta e o impacto espiritual, que somente a palavra de Deus poderosa e viva pode dar… é enfraquecida…..até onde chega este modelo, poderia ser um cientista criacionista ou mesmo um muçulmano”.

John C. Whitcomb in the Grace Theological Journal. Volume 4, No.2, Fall 1983

Morris e Lammerts também brigaram. Lammerts não concordava com a busca de evidências científicas para a criação e dilúvio e criticou o recém criado argumento de Morris da anulação da evolução pela 2 Lei da termodinâmica. Massimo Pigliucci editor chefe da revista Salon Scientia é um crítico da pseudociência e do criacionismo e um defensor da laicidade e da ciência da educação. Na época ele criticou Morris pelo uso do argumento da segunda Lei da termodinâmica. De fato, o argumento da segunda lei termodinâmica até hoje é usado por criacionistas em debates e toda vez é desmistificado exatamente por se tratar de coisas completamente diferentes. Veja SEGUNDA LEI DA TERMODINÂMICA SOB A PERSPECTIVA CORRETA E SOB A PERSPECTIVA INCORRETA.

Em 1970 Morris e Tim laHaye fundaram a “Christian Heritage College” em San Diego com a intenção de formar criacionistas. Morris criou diversas outras entidades como o “Creation Science Research Center” em 1971 e o já mencionado ICR em 1972. Ambas existem até hoje, embora no passado tenham tido muitas brigas e desentendimentos. Na década de 80 o ICR cortou relações com o Christian Heritage College de Morris devido a essas desavenças, especialmente a de tirar o caráter religioso que os grupos tinham, na tentativa de burlar a I Emenda Americana. Tempos depois eles voltaram a estabelecer alianças.

O ICR não tem qualquer tipo de artigo ou paper acadêmico publicado em revista científica. De fato, nem mesmo produz ciência básica, experimentação ou qualquer coisa com relação com a biologia; não produz conhecimento acadêmico que possa ser usado em produção tecnológica ou mudança da realidade social. É um grupo inexpressivo cientificamente, obsoleto cuja função é pregar o evangelho embora isso não seja admitido. Eles se declaram uma entidade meramente “científica”, embora tirem proveito como as igrejas americanas de não precisar pagar impostos. Muito conveniente! Claramente é uma igreja cuja função é reviver argumentos mortos, negacionismo e catequizar as pessoas uma vez que não conseguiram catequizar a ciência.

Em 1978 Walter Lang, editor da revista “Bible Science Newsletter” defendeu que não é preciso ter credenciais científicas para ser criacionista. Apoiando alegações como de WhitComb e até Lammerts. Ele dizia que ser cristão é ser criacionista, posteriormente se busca evidências para o que se acredita. Essa e uma premissa que Morris levava do sentido contrário. Ele tentava monopolizar o criacionismo e direciona-lo somente para quem tivesse credenciais científicas.

Henry Morris escreveu então o livro “Scientific Creacionism” para ser á base do ensino do criacionismo em escolas.

Carl Baugh (1936)

Carl Baugh (1936)

Na mesma época o “Creation Evidence Museum“ foi fundado pelo atual presidente que é antropólogo Carl Baugh e que não tem prestígio dentro do ambiente criacionista uma vez que é autor de diversas falsificações. Em julho de 2008, Baugh alegou ter encontrado um icnofóssil de humanos e dinossauros. Isto é, encontrou pegadas fossilizadas que davam a entender que homens e dinossauros co-existiram. Baugh “comprou” o “fóssil” de Alvis Delk. A autenticidade foi claramente criticada já que os fósseis não foram analisados por cientistas. Posteriormente, quando foi observado com cuidado não mostrou ser uma pegada humana convincente, e nem uma peça antiga, segundo o biólogo Glen J. e PZ Myers.

Organizações criacionistas, como a própria Answers in Genesis criticaram as afirmações de Baugh dizendo que ele estava “queimando o filme” de muitos criacionistas com essas enganações. Don Batten, da “Creation Ministries International” criticou também Baugh alegando que pode acontecer com cristãos que tentarem usar as “evidências” de Baugh; devem ser criticados por alguém que tenha conhecimento científico. O Answer in Genesis afirmou que os criacionistas “não deveriam usar os artefatos de Baugh que mostram uma Terra Jovem por eles serem enganosos”. Essa foi uma alegação publicada em um texto de Greg Neyman em 2008 no Answer in Genesis.

Muitas “evidências” de Baugh foram criadas por ele mesmo e pelos seus familiares. E durante a história do criacionismo essas divergências sempre quebraram o movimento organizado deles.

Na década de 80 a “Foundation for Thought and ethics” publicou um texto criacionista chamado “Of Pandas and People: The Central Question of Biological Origins” como escrito por Percival Davis and Dean H. Kenyon. Esse livro foi de fundamental importância para a história do criacionismo, pois a partir dele abriu-se uma brecha para uma nova abordagem em relação a Deus e como burlar a primeira emenda americana cunhando uma nova roupagem para Deus, é o conceito de Designer inteligente.

O livro não foi adotado por nenhuma escola, pois claramente era um livro religioso, era assumidamente criacionista, e foi em apenas uma simples troca de palavras que a tentativa de enfiar Deus dentro das escolas levou o criacionismo novamente para o tribunal, conhecido como “Judgment Day: Intelligent Design On Trial”.

Michael J. Behe (1952)

Michael J. Behe (1952)

Design inteligente refere-se ao desenho que as estruturas biológicas e o Universo têm, e que supostamente foram ajustadas ou modeladas intencionalmente da forma na qual conhecemos: em especial o flagelo bacteriano e sistema imunológico, já descartada (Veja aqui e aqui).

O que os proponentes do designer inteligente alegam é que o design induz a pensar que há um designer, e esse personagem pode ser qualquer um que seja capaz de criar o universo, embora claramente a referência do grupo seja o Deus do cristianismo. Obviamente, isso não é apresentado com todas as palavras, mas as entrelinhas deixam claro que os membros do grupo têm intenções religiosas, cristãs, fundamentalistas claras.

O Supremo Tribunal americano tinha barrado o ensino da “ciência” da criação nas escolas públicas, por razões constitucionais (Kitzmiller v. Dover Area School District), o livro Of Pandas and People é claramente uma propagando do cristianismo.

Nesse rascunho do livro, usou-se mais de cem vezes palavras como “criação”, “criacionismo” e “ciência da criação”. Eles foram alterados, pela palavra “Designer inteligente” (Matzke, 2006). Na época uma filosofa chamada Barbara Forrest que estudava o fenômeno do Designer inteligente tinha uma copia antiga do livro e nela havia erros de edição como a palavra “Proponentsists cdesign“. Uma edição feita de forma errada onde a palavra “Creationism” e “Intelligent Designer” ficaram sobrepostas como fruto da péssima qualidade de edição dos revisores que mudaram as pressas os termos para tentar mascarar o criacionismo (Haught, 2005).

A partir da década de 90 o movimento do Design inteligente começou a ser apoiado pelo Discovery Institute que defendia a inclusão do Design inteligente na escola pública no ensino da biologia. O Discovery Institute é um braço do Hudson Institute, fundado por Herman Kahn, um estrategista militar que criou esse grupo ultra-conservador na intenção de mudar a política pública dos EUA visando compromisso com os mercados livres, respeito à importância da cultura e da religião nos assuntos humanos e preservar a segurança nacional dos Estados Unidos. Notamos um envolvimento claro então entre política e religião, especialmente na divulgação do criacionismo e do Designer inteligente em algumas regiões dos Estados Unidos.

Essas estratégias do movimento do Designer Inteligente culminaram em 2005 no julgamento Kitzmiller vs Dover, onde o juiz John E. Jones III concluiu que o Design inteligente não é ciência, que “não pode dissociar-se da sua origem criacionista, e, portanto, tem antecedência religiosa”, e que seu ensino violou a Cláusula de Estabelecimento da I Emenda da Constituição dos Estados Unidos (Center for Science and Culture, 2004).

Foi em junho de 1988 que Charles B. Thaxton realizou uma conferência denominada “Sources of Information Content in DNA” e no final deste mesmo ano decidiu usar o rótulo “Design inteligente” para seu novo movimento criacionista (Pennock, 2009). Stephen C. Meyer estava na conferência. A proposta continuou a mesma, usar uma terminologia criacionista, opor-se evolução, mas com um diferencial, não usar linguagem religiosa (Aulie, 1998). O que não da certo, pelo simples fato de que os mesmos do Discovery Institute claramente dão palestras em igrejas americanas.

O Centro Nacional para Educação Científica (NCSE) criticou o livro já que o livro que pregava a ideia de design intencionalmente criado não poderia ser usado em escolas públicas antes que qualquer investigação científica tinha sido feito para apoiar ou não os argumentos (Matzke, 2004). Embora tenha sido apresentado como um livro científico, o filósofo da ciência Michael Ruse na época e atualmente considera que o conteúdo “inútil e desonesto” (Ruse, 1992). E cada vez foi ficando mais clara suas intenções e alianças políticas. Um advogado da American Civil Liberties Union descreveu o livro como um engodo político destinado a estudantes que não “conhecem a ciência ou não compreendem a controvérsia sobre evolução e criacionismo”, e tantas outras críticas vieram, mostrando que o livro tinha discurso de intolerância com a ciência e de incompetência científica. As principais intenções dos proponentes do designer inteligente são propagar a complexidade irredutível; complexidade especificada, o ajuste fino do Universo todos em prol de uma única criação, onde o criador é chamado de Designer inteligente.

Atualmente, o discurso de alguns proponentes deste movimento é tentar não deixar transparecer o caráter religioso criacionista de seu conteúdo – embora nem todos façam questão de separar as frentes. Também vem contemplado com discursos político-ideológico com carater ultra-conservador, tanto nos EUA quanto no Brasil: usando o poder político para impor sua doutrina uma vez que não conseguiu se consolidar como ciência segundo o método, suprimindo assim o ensino de ciências.

Victor Rossetti

Palavras chave: NetNature, Rossetti, Criacionismo, Scala naturæ, Paley, Tychonian Society, Geocentrismo, Flat Earth Society, Terra Jovem, George McCready Price, Douglas Dewar, Harold Clarck, Theodore Graebner, Henry Morris, Answers in Genesis, WhiteComb, Carl Baugh, Design Inteligente, pseudociência, Discovery Institute, Michael Behe, Dover.  

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Referências

Aulie, Richard P. (1998). “A Reader’s Guide to Of Pandas and People”. McLean, VA: National Association of Biology Teachers.
Center for Science and Culture. Media Backgrounder: Intelligent Design Article Sparks Controversy”. Seattle, WA: Discovery Institute. September 7, 2004. Retrieved 2014-02-28
Gould. S, J. O polegar do Panda. Editora Martins fontes, São Paulo, 2004.
Haught, John F. (April 1, 2005). “Report of John F. Haught, Ph. D” (PDF). Retrieved 2013-08-29. Haught’s expert report in Kitzmiller v. Dover Area School District.
Kulp, J, L. Deluge Geology. JASA, 2, 1(1950): 1-15
McCalla, A. The Creationist Debate: The Encounter Between the Bible and the Historical Mind (London: Continuum International, 2006)
Numbers, RL, The Creationists, Alfred Knopf, 1992
Numbers, RL (2006). The creationists: from scientific creationism to intelligent design. Harvard University Press.
Matzke, Nick (November 23, 2004). “Critique: ‘Of Pandas and People’”. National Center for Science Education (Blog). Berkeley, CA: National Center for Science Education.
Matzke, Nick (January–April 2006). “Design on Trial: How NCSE Helped Win the Kitzmiller Case”. Reports of the National Center for Science Education (Berkeley, CA: National Center for Science Education) 26 (1–2): 37–44
Pennock, Robert T. (1999). Tower of Babel: The Evidence Against the New Creationism. Cambridge, MA: MIT Press.
Robertson, D. S. of The Transformist Illusion, by Douglas Dewar; Dehoff Publications, Tennessee; 1957; 306 pp. in the Journal of the American Scientific Affiliation 1960.
Ruse, Michael (1992). “Of Pandas and People”. In Hughes, Liz Rank. Reviews of Creationist Books (Book review) (2nd ed.). Berkeley, CA: National Center for Science Education.
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4 thoughts on “A HISTÓRIA PODRE DO CRIACIONISMO.

    • Errado, criação é simples crença, e crer não é saber. Evolução, é teoria e portanto respaldada por constatações empíricas, simples… tal qual a teoria da gravidade, termodinâmica ou atômica.
      Fato!!!

  1. Rossetti, mais uma vez um texto inteligente voltado para pessoas inteligentes! Mais um vez parabéns. Excelente trabalho de pesquisa e divulgação! Vou usá-lo em sala de aula tão logo seja pertinente!

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